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CARTA A MÁRIO DE ANDRADE

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Academic year: 2021

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Carta a Mário de Andrade (

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(De [email protected] para [email protected])

Prezado Mário de Andrade

Desculpe-me pelo atrevimento, mas não encontro outra maneira de entrar em contato com você senão por meio desta carta. Sei que me comporto como se já desfrutasse de sua amizade. Mas, entenda, por favor, tenho lido tantas coisas escritas por você (desculpe-me de novo, deveria trata-lo respeitosamente por Senhor embora me encontre com idade que já dispensaria esses obsequiosos tratamentos) e outras tantas que escreveram a seu respeito e sobre as coisas que você fez e que ainda hoje continuam escrevendo, de maneira que o sinto tão próximo de mim a ponto de me ver naturalmente autorizado a trata-lo assim como se fosse íntimo de você. Mas o que mais desejo é compartilhar consigo algumas coisas que são suas e para as quais tenho me dedicado nesses últimos trinta anos – o que me faz ter você tão próximo de mim tal como se fosse verdadeiramente meu amigo. Me aceite, pois, como tal, mesmo que em “estágio probatório”.

Amigo que na verdade jamais tive, ao menos com quem pudesse compartilhar, como você fazia com alguns amigos seus, notadamente Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade, poetas que ocupavam lugar especial em seu coração, tanto em razão das emoções que brotavam de suas poesias e dos pensamentos acerca da vida, bem como sobre a Cultura desse nosso país que foi, especialmente pra você, objeto de reflexão e de ação permanentes, e que o inspirava em suas criações literárias, estudos e projetos, individuais e institucionais, e que o fez forjá-la com C maiúsculo, nacional e ao mesmo tempo universal, e com a qual nos identificamos desde então.

(1) Palestra proferida em 19 de agosto último na sede da Superintendência do I.P.H.A.N. de São Paulo

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Invejo-o, portanto, Mário, mas bem menos do que o admiro; pois invejo todo aquele que sei não poder ser, restando-me apenas admirar e aprender. Admiração não somente por sua inteligência larga e poderosa, aguda e franca, gentil e poética como não podia deixar de ser, enfim tão agradável de estimar que me dá vontade até de copia-lo e papagueá-lo lendo e relendo seus escritos mais belos e macios, como se pudesse tornar-me igual a você. E assim identifico-me ainda mais consigo, até mesmo quando por vezes você, ressentido, expressava irritação por ser incompreendido por algum companheiro ou crítico, como Tristão de Atayde, outro que admiro, e que, entretanto, também o respeitava e lhe queria bem, ou magoado pelo deboche de um que jamais perdoou. Você se conhecia e sabia bem de si, de sua superioridade intelectual, sem arrogância, pois tinha, como certa vez declarou, consciência de si mesmo, isto é, de seus erros e defeitos também, como assinalaria depois a sua aluna Oneyda Alvarenga que se tornou a sua melhor amiga. São dela essas palavras, Mário: Seu amor humano sofreu um verdadeiro processo de levantamento ao mundo da inteligência, de que resultou uma análise rigidamente lógica e impiedosa das suas próprias falhas e do mundo errado que as causava...” Por outro lado, escreveu um grande admirador de sua obra literária, o Professor Antonio Cândido: Mário “tinha bastante consciência da sua importância e do seu valor”.

Mas a soberba, que hoje acomete alguns, não era atitude própria de você, embora certas posições suas chateasse por vezes o poeta pernambucano seu milhor amigo que de tanto aporrinhar-se com a vida besta que levava no Rio, e chateado também com a doença que o debilitava, desejou um dia abandonar tudo e ir-se embora pra Pasárgada, onde era amigo do rei e dormia com prostitutas bonitas.

Uma impressão que tenho de você – mesmo aceitando a opinião desse poeta que o julgava por vezes perder o equilíbrio, indo além do que devia – é a

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de que, por ser sabedor de sua imensa capacidade crítica, afirmava-a sempre, pouco cuidando de dissimulá-la, especialmente quando se indignava diante de opiniões infundadas.

Recordo de uma carta sua, respondendo à crítica que lhe fez por discordar da alusão aos símbolos utilizados por você no romance Macunaíma. Disse-lhe então o amigo: Mário, [...] Fiquei um pouco decepcionado com as suas alusões aos símbolos. [...] Macunaíma é gostosíssimo como Macunaíma. Agora se é símbolo de brasileiro, se a cabeça é tradição, etc., etc., isso me amola. E você de pronto respondeu: Manu, eu me ri um pouco do seu ‘não conte que Macunaíma é um símbolo’ dou tão pouca importância hoje para essas coisas de época [...] Te juro que não é isso. É simplesmente muita serenidade e muita atitude sobre o tempo. Atitude quer dizer aqui contemplação. O meu espírito contemplativo já não se sujeita mais às injunções do tempo.

As cartas que lembro aqui são de 6 e 7 de novembro de 1927. Seu amigo tinha 41 anos de idade e você apenas 34. E você, Mário, já via a sua produção literária com olhos contemplativos? Quem me dera! Se lhe disser o quão pouco fui capaz de realizar com essas idades, e mesmo considerando o esforço que empreendi nessas três últimas décadas da minha vida para fazer alguma coisa útil e com um pouco de qualidade, quase nada reúno que possa se comparar às suas realizações. E se eu consegui fazer algo de bom foi na sua esteira, aproveitando os rastos deixados por você. Você e seus amigos (no meu caso, que é o Patrimônio, lembro outros ainda não citados, o Rodrigo Mello Franco de Andrade, o Lucio Costa e o Luís Saia, que mal cheguei a conhecer), foram inteligências que marcaram época e ajudaram a dar um caráter próprio à cena cultural brasileira. Eu, perto de vocês, sou casquinha, como você chamava aqueles de pouca cultura. Esforço-me, todavia.

Mas também o admiro sobretudo porque gostaria de ter amigos como você soube fazer e cultivar com a sua inteligência, sua simpatia contagiante que

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as fotos expressam e especialmente suas cartas, que as temos hoje à disposição graças a pessoas como a incansável Telê Ancona que dedica a vida inteira organizando, estudando e divulgando sua correspondência pelo Instituto de Estudos Brasileiros da USP; ela, seus colegas acadêmicos e seus orientandos.

Soubesse eu metade do que você sabia para escrever tanto assim! Você não imagina o prazer que elas nos proporcionam ainda hoje, passados mais de 70 anos...

Queria fazer amigos assim com quem pudesse corresponder, como você fazia, e ter com quem conversar e refletir sobre ideias e compartilhar sentimentos, e sobre as coisas às quais tenho me dedicando nesses últimos 35 anos, trabalhando no instituto que você idealizou, criou e também trabalhou até seus últimos dias. Mas, Mário, parece que hoje somos muito... não sei o que dizer, propensos a vaidades impossíveis como supôs certa vez, às quais nos deixamos afetar em disputas intelectuais que contaminam nossos sentimentos e nossa própria razão.

Amigos, não digo que não os tive. Pude cultivá-los porém por algum tempo apenas. Mas eu os perdi pelo caminho. Alguns deles, vaidosos por demais e, agora eu acho, ingratos também. Pior pra mim, pois me agradava muito deles, de sua competência, conhecimento, simpatia e sensibilidade. De modo que acho improvável, como você dizia ao seu amigo Manuel Bandeira, o Manu, que terei um amigo de verdade ao meu lado na hora da minha morte.

É, talvez seja esse um dos significados que se possa dar ao poema que trata da pedra no caminho, do outro seu amigo Carlos Drummond de Andrade. Elas, as pedras, surgem em nossos caminhos. Paramos diante delas, às vezes por tempo demasiado. Sem nada dizer, revelam porém coisas que nos perturbam e afrouxam laços que pareciam bem atados. Esvaem nossa confiança. Hesitamos ainda. Por fim, resolvemos seguir adiante, deixando-as para trás. E com elas ficam as relações... desfeitas. Mesmo assim, como disse o poeta, ficam gravadas

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em nossas retinas tão fatigadas. E, vez por outra, emergem dos arquivos de nossa memória.

Atravessamos agora, Mário, uma fase difícil numa degringolada que parece levar o país a caminhos incertos e perigosos. Não que viéssemos percorrendo trajetória baseada em programa que aspirasse a redenção plena da Nação. Longe disso! Os projetos sociais, exitosos alguns, alcançaram melhora material e deram acesso a certa qualificação aos desvalidos de sempre, mas, depois se descobriu, obrigavam-se a tributos insensatos, reprováveis. De maneira, Mário, que hoje não há mais luz no fim do túnel. Estamos acometidos por uma grande frustração. E teme-se por ações reativas à direita. Isso é coisa que você conheceu também; mas agora nos deixa muito apreensivos, num estado novo de tensão. Estamos em meio a um processo que chamo tecnolegiferante dos serviços públicos, baseado em ações fiscalizatórias apoiadas em normativas legais corporativas, gerenciado de uns vinte anos para cá no interior do aparelho estatal e que vai tornando, a meu ver, as instituições públicas cada vez mais apartadas da sociedade, dando oportunidade à vigência de procedimentos frios e impositivos – o que não é benéfico para ninguém, muito menos para quem trabalha com a Cultura que funciona melhor com aproximação e calor humanos. Foi isso que você e seus colegas fizeram quando o Golpe Getulista os acometeu, e não se abateram. Continuaram tocando as coisas. Não havia espaço para subjetivismos egoístas. E você, Mário, foi um exemplo para os seus colegas, mesmo desolado pelo infortúnio que logo se abateu sobre o “seu” Departamento de Cultura de São Paulo – cujo valor simbólico ainda está por ser reconhecido pelo IPHAN, pois foi onde tudo começou e tornou possível à ação intelectual alçar a condição de mentor e executor dos programas sociais voltados à Cultura, cujo rápido prestígio nacional e internacional do seu Departamento criou a oportunidade para elevá-lo, e a seus colegas modernistas, a um patamar superior que lhes proporcionaram a condição de criar outro órgão estatal com a missão de

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identificar, tombar e valorar o patrimônio artístico brasileiro. Muito embora você, Mário, desgostoso com os reveses sofridos, viu-se obrigado a deixar o seu Departamento de Cultura e exilar-se no Rio de Janeiro.

Ora veja, que me pego em contradição, lamentando minhas perdas, a dos amigos que perdi pelo caminho!

Então, vamos falar de outras coisas. Das suas. Pois dentre as trezentas ou mais coisas a que você se dedicou em sua vida (outra razão porque lhe invejo; eu que pertenço àquela parcela majoritária dos homens que só consegue fazer uma coisa de cada vez), a última que você ajudou a criar, o Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, também deu certo e frutificou. Depois de uns anos de labuta, você chefiando uma pequena equipe, identificando nosso pequeno patrimônio paulista e já cuidando de tombar e restaurar aqueles mais importantes descobertos, num admirável e pioneiro esforço para recuperar o que a natureza e a ação humana lhes alteraram no percurso histórico, pois haviam se perdido as imagens que só se conservaram nas retinas fatigadas dos homens de outrora, o Serviço buscou mesmo assim restaura-los, reconstituindo suas antigas feições arquitetônicas e os fez reviver então como monumentos nacionais, simbolizando nossas raízes culturais mais remotas e tradicionais, em especial as dos primeiros séculos de colonização, conferindo assim uma dimensão mais rica e profunda a Cultura brasileira para com ela alçarmos à modernidade. Belíssimo projeto!

Mas, hoje, Mário, devo lhe dizer, esses monumentos, com algumas exceções, veem-se diminuídos em sua força simbólica, em parte devido às novas configurações do meio em que se encontram, e estão a sobreviver sem as condições que os façam figurar, como você desejava, com a dignidade que o tombamento e o restauro lhes conferiram em sua época.

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Por essa e por outras mais razões gostaria muito de conversar com você. E não é a primeira vez que tenho essa vontade, como você bem sabe. Precisaríamos tomar pé da situação e projetar algo novo que efetivamente anime novamente os brasileiros a amar e respeitar o nosso passado histórico, o patrimônio artístico que criou e educa-lo para desejar um país melhor, mais justo e civilizado, como você e os modernistas desejavam.

Desde que visitei a capela de Santo Antonio e lá fiz com alguns colegas de faculdade a leitura de seu famoso artigo, me apaixonei também por essa formosa capela. E nasceu essa vontade que não se desfez nunca mais e que me fez aproximar cada vez mais de você, lendo suas poesias, seus romances, a começar por Macunaíma e aquele que eu gosto mais: Amar, Verbo Intransitivo, e depois, já trabalhando no IPHAN, passei a ler as suas Cartas de Trabalho ao Rodrigo de Mello Franco de Andrade, e que as releio toda vez que tenho que escrever alguma coisa sobre o seu Padre Jesuíno do Monte Carmelo ou sobre o Mestre José Patrício da Silva Manso, aos quais inseri Tebas, coetâneo deles, virtuoso também, que agora é resgatado por um movimento de afirmação da raça negra em S. Paulo, também mencionado no estudo sobre as pinturas do padre mulato que você tanto amou e admirou.

Aliás, o seu critério de estudo e criação artística baseado no amor é adotado por alguns e persiste até hoje como maneira para se compreender a produção artística, única capaz de transpor a barreira de classe ou de cor, como enfatiza o crítico literário Alfredo Bosi: só há uma relação válida e fecunda entre o homem erudito e a vida popular – a relação amorosa. Sem ela, é improvável ou mesmo impossível àqueles que disfrutam de posição que lhes possibilita compreender a complexidade da realidade social, nela intervir de maneira a identificar e valorar a cultura popular e seus autênticos protagonistas.

Mas falava de padre Jesuíno, de suas pinturas, dentre as quais você identificou numa delas traços da cultura popular brasileira. E aproveito para lhe

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dizer que estamos neste momento empenhados na reedição de seu estudo sobre ele.

A ideia da reedição do seu PADRE JESUÍNO DO MONTE CARMELO2 existe desde quando eu estava na coordenação do restauro das pinturas de Jesuíno dos forros da igreja dos Terceiros da Carmo de S. Paulo, e foi formulada inicialmente por Luís Fernando de Almeida, então presidente do IPHAN, em 2009. Aliás, Mário, tudo começou com o seu relatório de 1942, sua suposição sobre a existência de uma cartucha de Jesuíno na área central do forro da nave, lembra? Pois é. Por essa razão denominamos o projeto A Pintura Invisível de Padre Jesuíno. As prospecções de 2007 confirmaram a sua existência e um ano depois, com um projeto piloto desvendávamos uma incrível pintura, de uma qualidade que chegou a surpreender, e que creio o surpreenderia também, um pouco. Seu rosto é de uma beleza delicada, muito feminina, e, embora já manifeste a maternidade próxima, sua expressão é de santa mesmo, quase nada de mulher que atraia nossos sentidos de homem. E é de um luxo a sua indumentária carmelitana que só vendo! Embora se encontrasse bastante prejudicada num pedaço de sua vestimenta, e foi preciso um caprichoso trabalho para reconstitui-la, tarefa executada por Paula Tabanez Dias de Moraes.

Depois prosseguimos e novas figuras (res)surgiram também próximas à da Senhora: os Santos Elias e Eliseu, velhos barbudos e cabeludos com a dignidade santa esperada. E sabe onde? Embaixo dos arcos que, ao contrário do que você imaginou, Mário, não eram originais, e nem nunca haviam existido na igreja. Foi coisa posta pelo Ricardo Severo vinte anos antes de sua visita à igreja em companhia do Luís Saia que disso também não se deu conta. Mas a sua hipótese estava certa, e foi o que nos orientou a esse estupendo descobrimento

2 ANDRADE, Mário de – PADRE JESUÍNO DO MONTE CARMELO. Serviço do PHAN. Min. de Educação e

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que hoje figura em revistas e em livros novos sobre Arte Colonial ou Barroca paulista.

E sabe o que havia pintado Jesuíno nos lugares onde nasciam os arcos a partir da cimalha? Vasos chamejantes, Mário. Eram esses vasos que separavam os quartetos de beatos da Ordem, enfileirados como numa procissão que de repente pára diante da aparição da Mãe, já concebida, e todos a olham contemplativos, devota e docemente. Só agora, depois da restauração, nos foi possível perceber melhor a relação estabelecida por Jesuíno entre os personagens; e, em cada grupo de figurantes, pelo olhar, pelas vestes e notadamente pela postura, também podemos depreender a categoria ou o status a que pertencem, que perpassa toda a hierarquia da Ordem Carmelita para terminar num simples e belo quarteto formado por duas santas (Santa Teresa e Maria Madalena de Pazzi) e duas simples servas que, com seus trajes comuns contrastam com a suntuosidade predominante; todavia são as mais graciosas, e pela gesticulação e leveza dos movimentos de seus corpos, a meu ver, as que mais expressam o estilo barroco em todo o conjunto dos personagens desfilados. E dezenas de anjos e querubins revoam no entorno da santa, que tem abaixo dela o globo terrestre que anuncia em latim a divina concepção.

E forma uma imensa pintura, intensamente colorida, com um céu amarelo-amarronzado que parece ser próprio de sua pintura. E desse modo o restauro, resgatando por completo o painel central, com toda essa riqueza de elementos e aspectos que procurei descrever pra você, não só confirma como, no meu humilde entender, amplia a sua apreciação de que essa pintura da Carmo paulistana foi a mais plástica de todas as realizadas pelo artista: Nunca Jesuíno esteve tão exclusivamente pintura, considerada esta como essência estética da cor – você escreveu, lembra?

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O que mais lhe poderia dizer? Só vendo, Mário, só vendo. Tenho certeza que você ficaria bestificado! Todo esse cenário Jesuíno o envolveu com insinuativos elementos que parecem brotar dos ditos vasos e emolduram a grandiosa pintura da nave, formando um só e imenso quadro que o observador aprecia de diversos pontos da igreja.

Ah, os quadros de Santa Teresa. Contratamos uma química-restauradora para restaurar os quadros da coleção, a Márcia Rizzo. E a grande novidade é a seguinte: os quadros, antes de Jesuíno pintá-los, parece que formavam um só e grande tabuado. Depois é que teriam sido cortados para se tornarem quadros. Por que digo isso? Porque a restauradora fez uso também do Raio-X para analisar a estrutura do quadro Coroação de Santa Teresa e assim acabou por revelar um pedaço de uma pintura anterior a esta de Jesuíno. Tratamos agora de assim proceder com todos os demais no intuito de verificar se a pintura antiga se completa nos quadros restantes, para depois recompô-la no computador. Fizemos também pequenas prospecções no quadro para descobrir as cores dessa mais antiga de modo a reconstituí-la pictoricamente depois numa só e grande imagem. Se é que é uma só grande pintura?! Estamos aguardando com grande expectativa o desenvolvimento do trabalho. Assim que tivermos colhido o resultado do Raio-X, prometo mandar notícias pra você, Mário.

Já as telas da Matriz de Itu foram novamente restauradas, entre 2013 e 2016, e apresentam configuração mais próxima do original; foram suprimidos todos os retoques e reconstituídas as lacunas. O resultado parece-me confirmar suas análises; mas confesso também que muita coisa ali dá impressão de não ser nem dele nem de José Patrício.

Mas a capela mor é outra coisa que você precisaria conhecer agora depois de restaurada por inteiro, tão belos que são os produtos do trabalho do entalhador combinado ao do pintor-dourador, que não é outro senão o próprio José Patrício da Silva Manso! Isso só ficamos sabendo recentemente. E tenho

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também novidade para lhe dizer sobre o entalhador. Mas quero antes retornar à ideia da reedição do seu PADRE JESUÍNO DO MONTE CARMELO.

Disse-me então naquela ocasião o presidente que a Publicação seria acrescida com fotos das pinturas que estávamos resgatando na Carmo de S. Paulo.

Declarei-lhe minha aprovação de imediato, mas disse-lhe que poderíamos antes restaurar o painel do teto da capela mor da Carmo de Itu, cuja análise e interpretação dadas por você é das coisas mais saborosas de ler e por isso é aguardado por todo mundo o seu restauro. Foi assim que conseguimos sua aprovação para investigar e, para nosso contentamento, lá estão, Mário, as pinturas originais de Jesuíno Francisco de Paula Gusmão. Vimos várias coisas, ou melhor, pedaços apenas: da barba de Elias (ou de Eliseu não sei bem), algumas estrelinhas doiradas da vestimenta e ao redor da cabeça da Santa, pernas dos anjos, descobrimos também muitas flores e um trecho da guirlanda original que, todavia, Mário, não está na mesma posição que você viu!

Bem, fizemos isso em 2010; mas o restauro mesmo até hoje, passados 8 anos da prospecção, ainda não aconteceu. E você sabe por quê? Por causa da má vontade dos frades carmelitas, que o trataram mal quando buscou documentos sobre Jesuíno no arquivo da Província, no Rio. E as coisas continuam da mesma forma. Ando desancando com eles por onde ando, pra todo mundo.

Aliás tenho falado um pouco mais. Depois de tudo o que o IPHAN fez nesses anos todos, com os restauros primordiais tendo sido realizados, digo, das casas bandeiristas, da sua capela de Santo Antonio, das igrejas mais antigas dos jesuítas, a de S. Miguel e a do Embu, restauros que você chegou a acompanhar, e de outros também importantes como a Pau d’Alho, e mesmo de algumas igrejas carmelitas apesar da má vontade e oposição dos frades, defendo que

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chegou a hora do restauro do acervo artístico desses monumentos, pois agora há qualificação técnica para tanto.

O acervo artístico dos monumentos precisa ser mais bem conhecido, e para ser conhecido com maior detalhe e apreciado como merece Mário, é preciso não apenas preservá-lo, o que já é tarefa difícil, mas sobre tudo restaurá-lo. Imagine, por exemplo, se conseguíssemos restituir o esplendor originário dos altares e das pinturas do teto da capela jesuítica do Embu, um marco da campanha em prol da preservação do patrimônio artístico nacional, e que você pode acompanhar o restauro do conjunto arquitetônico, capela e convento, entre 1939 e 1941! A foto antiga descoberta no fundo de uma gaveta, lembra, foi importante para restituir a feição tradicional desejada e definir a da torre antiga que, no entanto Mário, eu descobri foi construída só no século XIX, entre 1814 e 1826. Mas dentro da igreja há um espetáculo artístico-religioso de origem indecifrável ainda e que se preserva precariamente, sem que aqueles que se beneficiam das vantagens que o monumento lhes oferece, os “artistas”, os negociantes e o próprio poder público, retribuam com insumos que permitissem a sua efetiva valoração, contribuindo para a restauração dos seus belíssimos elementos artísticos. Inverteram-se os valores, Mário.

Bem, a reedição do PADRE JESUÍNO DO MONTE CARMELO. O IPHAN fez 80 anos em 2017 e já ia passando a oportunidade de se reeditar o seu estudo, quando o colega Victor Hugo Mori retomou a ideia que parece, agora, será alcançada, com um ano de atraso, todavia. Mas vale a pena. Em seguida, pediu ao restaurador Julio Moraes e a mim para fazermos um texto a respeito das pinturas restauradas e das novidades que as pesquisas trouxeram ultimamente a respeito delas. Propôs um título: “As Pinturas de Jesuíno que Mário de Andrade não viu” que o Julio se encarrega de escrever. Eu escrevo acerca dos documentos que você não viu. Aliás, devo lhe dizer que a sua desconfiança passou a ser minha também em relação aos documentos, ou melhor dizendo,

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relativamente a um documento que você não viu. Explico: passado tanto tempo, como que do nada, ele reapareceu. E era importantíssimo pra você: o contrato de José Patrício da Silva Manso para pintar o teto da capela mor da Matriz de Itu e como já disse pintar e doirar as talhas todas da igreja que, recentemente, descobri foi feita não pelo tal Guilherme, mas por um entalhador português chamado Bartholomeu Teixeira Guimarães cuja obra o impressionou bastante.

Encho você de informações novas, Mário, assim de supetão, embora eu venha, perdoe-me você deve ter percebido, tergiversando um pouco com o intuito de arrumar um jeito de comunicá-las a você. Todavia são elas as novidades que os velhos documentos descobertos acabaram por revelar. Um deles, aliás, que já mencionei, ressurgiu tal como uma dádiva caída do céu, semelhante a um pequeno mas inesperado benefício que nos favoreça, e que me faz lembrar a “máxima” enunciada por Brás Cubas, depois de nos dar a conhecer a Filosofia de Quincas Borba, “Humanitas”, e pouco antes da morte de sua pretendente Nhã-loló, vitimada pela febre amarela: Não te irrites se te pagarem mal um benefício: antes cair das nuvens, que de um terceiro andar. A ironia de Machado de Assis ao menos, Mário, serve-nos para amenizar nossos espíritos das manobras ardilosas que por ventura tenha sido vítima e, como você verá, repõe as coisas no tempo devido (já que os lugares são os mesmos) e que, afinal, precisa mesmo ser corregido.

Pois então lamento lhe dizer, Mário, que o descobrimento do contrato de José Patrício da Silva Manso, datado de 26 de novembro de 1786, veja só, em um antigo Livro de Notas de Itu só agora reaparecido, bagunçou bastante a sua interpretação. E não só das pinturas da Matriz, como da do forro da capela mor da Carmo também!

Ou seja, Mário, Jesuíno pintou-as com mais idade do que você supôs. Não era tão jovem quando realizou essas pinturas. Uns oito ou dez anos depois, já com os filhos nascidos e, talvez na Carmo, aonde executou sua pintura mais

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festejada por você, o último filho ainda por nascer, ou pouco depois da morte da mulher Maria Francisca. Bem sei que isso vai lhe aborrecer bastante. Mas, você mesmo dizia que não tinha medo de errar. E mais: que não pretendera fazer estudo definitivo sobre Jesuíno. Que algum documento ainda por descobrir viesse a alterar as suas interpretações... Foi o que aconteceu, Mário! 60 anos depois. Também com tão pouca informação, tendo que se fiar mais na sua sensibilidade, incomodado com os dados dos Autores que se referiam mutuamente e se contradiziam, e ainda analisando pinturas antigas muitíssimo retocadas, repintadas mesmo, tal engano (eu prefiro essa palavra ao “erro”) me parece justificável diante da situação em que você se encontrava.

Tento explicar essas coisas no meu texto. Me esforço também por defendê-lo; mas abro a questão. Será necessária uma revisão! Mesmo assim, penso que há que esperar um pouco mais. Em minha opinião somente a restauração da pintura da Carmo de Itu (da capela mor) dará elementos para um melhor ajuizamento, tanto da sua interpretação como da própria obra de Jesuíno.

O problema é que não teremos mais você para analisar a pintura original quando ela ressurgir inteira!

É isso, Mário. Quanto ao que estou escrevendo, tomo o cuidado necessário não propriamente para evitar que se aborreça comigo, porque, como você viu, um só documento fez alterar a disposição das pinturas no tempo que você imaginou teria ocorrido, mudando também a idade de Jesuíno e... Mas tomo o cuidado para não botar muita lenha na fogueira e dar argumentos aos seus desafetos, que também são meus. Mas, Mário, compreenda-me, uns e outros andam por aí, falando mal de você e de companheiros da sua geração, especialmente os da primeira fase do Serviço (que depois foi chamada de “heroica”) que não saiu propriamente como você propôs no projeto de 1936, mas fez muito pelo patrimônio histórico e artístico nacional.

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Mas não é que tem gente que acha que faria melhor do que vocês!

E acho também, Mário, por conseguinte, que essa é mais uma razão porque devo lutar pelo restauro de toda a obra pictórica de Jesuíno. Pois entendo que aí sim a teremos em condições, bem melhores do que aquelas que você dispunha em sua época, para apreciá-la e analisa-la direta e objetivamente, uma vez extirpadas as intervenções “históricas” que a alterou em suas configurações originais. O restauro bem feito, acredito, pode resgatar elementos e aspectos da obra-de-arte que, ao menos, nos permitem reaproximar do momento de sua criação, que, no seu entendimento Mário, é sempre um ato de amor, do artista para o observador e deste àquele. E o seu estudo foi um notável esforço neste sentido, no qual você incursionou inclusive, digamos, pelo interior do artista, revelando-o em seus sentimentos, em suas contradições, em seus êxtases místicos e criativos. Esse panorama você construiu de maneira que só você poderia! E o fez a partir das próprias pinturas, e com tão poucas informações. Foi a sua maneira de fazer a história de Jesuíno, tendo como parâmetro o ideário modernista. Esse seu estudo, Mário, constitui, para mim e para muitos outros, ainda a melhor maneira que tivemos até hoje para apreciar e fruir a obra pictórica de Jesuíno e que suspeito continuará sendo mesmo que os documentos descobertos provoquem uma certa revisão de suas interpretações.

Bem é o que eu queria lhe dizer pessoalmente, e digo por meio desta carta que gostaria muito que chegasse a você. (Posso estar me esquecendo de dizer alguma coisa a mais sobre o IPHAN, mas não deve ser importante senão eu me lembraria.)

Porém, nem sempre as cartas, em papel, chegam aos seus destinatários como você sabe. Uma greve dos Correios e lá se vão pro beleléu as nossas

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correspondências. Assim procuro me valer da tecnologia dos dias de hoje.* Mas, chegando, receba também um forte abraço deste pauliceense da gema que muito o admira e lhe quer bem.

S. Paulo, 18 de agosto de 2018. Carlos Gutierrez Cerqueira

P.S. Mário, já tinha terminado de escrever esta carta quando me lembrei de que queria lhe enviar uma foto do painel central da nave da Terceira do Carmo de S. Paulo pra você ver que a sua hipótese estava mesmo correta. E então me dei conta de outra estupenda novidade que me esqueci de contar. Foram descobertos em Itu uns restos de pintura de Jesuíno. Sabe onde? na escada da torre da igreja Matriz. Pedaços que sobraram de um painel pintado sobre tábuas. Os fragmentos da cena representada indicam o episódio da Descida do corpo de Jesus da cruz, dizem os entendidos.

Quando estavam na escada, não se podia ver as pinturas; estavam escondidas embaixo de tinta a cal. Quando passaram a pertencer à escada? difícil saber. Mas acho que elas já estavam lá quando você ia a Itu ver as telas e o painel do forro da capela mor do José Patrício. Pensamos em Ramos de Azevedo quando destruiu o frontispício colonial pra colocar o mostrengo que construiu. Mas as pinturas, Mário, retirada a cal, estão sem retoque algum; é puro Jesuíno! Invisíveis aos seus olhos, todavia, assim como o contrato do José Patrício. O que só faz aumentar a desconfiança de que andaram mesmo escondendo coisas de você. Mando três fotos para você ver. Agora, Mário, elas são digitais e coloridas, e podem ser impressas no papel da própria carta ou enviadas eletronicamente mesmo. Uma delas mostra as pranchas encontradas em Itu, na Matriz, depois de limpas e dispostas no chão para o registro fotográfico que fiz para o IPHAN. E as outras são da Terceira do Carmo paulistana: a do momento em que

descobrimos o rosto da santa do painel central da nave em 2007; do vaso, já decapado por inteiro alguns dias depois de encontra-lo ao retirarmos um dos arcos colocados pelo arquiteto Ricardo Severo na reforma dos anos 1920; E uma vista do painel central

* É uma fórmula engendrada pelo jornalista Elio Gáspari de que me valho para me comunicar consigo. De modo que não estranhe o que por aqui chamam de “e-mail” (um correio eletrônico que... ah! deixa pra lá); pois eu criei um pra você também para receber esta carta. Torço para que dê certo. Se assim suceder, acuse o recebimento e se quiser envie-me uma carta também. Quem sabe assim poderemos elucidar algumas coisas sobre as quais tenho curiosidade e talvez eu também possa lhe dizer algumas outras que lhe interessem, especialmente sobre o restauro das pinturas de Jesuíno e dos documentos que por aqui vão se descobrindo que são assuntos que acho e me sinto autorizado a falar pelo trabalho que realizo aqui.

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pintado por Jesuíno em 1796 e que você supôs sua existência em 1942. Esta foto foi feita por mim mesmo, daí a sofrível qualidade que apresenta. Mesmo assim é difícil aceitar que você pudesse imaginar isso tudo que está representado nesse lindo painel. Anexo também um trabalho de foto montagem feito pelo colega Victor Hugo Mori, que mostra o ANTES e o DEPOIS do teto inteiro da nave para você se deliciar com a grandiosa pintura que Jesuíno lá executou e que tombamos em 1996.

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