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SÍNTESE E CARACTERIZAÇÃO DO COMPLEXO TRIS (GLICINATO) DE CROMO (III) MONOHIDRATADO

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Academic year: 2021

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SÍNTESE E CARACTERIZAÇÃO DO COMPLEXO TRIS (GLICINATO) DE

CROMO (III) MONOHIDRATADO

Jessica A. O. Rodrigues1*, João G. O. Neto1, Alan S. de Menezes2, Adenilson O. dos Santos1. 1Universidade Federal do Maranhão, Laboratório de Difração de Raios X, Imperatriz – MA

2Universidade Federal do Maranhão, Central Analítica de Materiais, São Luís – MA.

*Autor a ser contatado: Tel.: +55 (98) 982678956; E-mail: [email protected] RESUMO

Neste trabalho apresentamos a síntese e caracterização do complexo Tris (glicinato) de cromo (III) monohidratado (Cr(C2H4NO2)3H2O). Esse cristal foi crescido pela técnica de

evaporação lenta do solvente e caracterizado pelas técnicas de Difração de Raios X (DRX), Espectroscopia Raman, Espectroscopia no Infravermelho com Transformada de Fourier (FTIR), Análise Termogravimétrica (TG) e Análise Térmica Diferencial (DTA). A análise de DRX juntamente com o método Rietveld confirmaram que a amostra se cristalizou na estrutura monoclínica de grupo espacial P21/C, Z = 4, com os parâmetros de rede a = 6,2601 (5) Å, b =

14,6455 (4) Å e c = 12,2735 (3), β = 100,411(3)° e V = 1106,74(6) Å3

. A partir dos resultados da Espectroscopia Raman e FTIR foi possível a atribuição dos prováveis modos normais de vibração do cristal, inclusive os modos que comprovam a ocorrência da complexação. A partir da análise da curva TG, observou-se a presença de três eventos endotérmicos de perda de massa da amostra; o primeiro evento está compreendido entre 70 e 100 ºC, o segundo entre 290 °C e 350 ºC, e o último entre 385 °C e 400 ºC. O primeiro evento está relacionado com à perda da água de cristalização, enquanto os demais referem-se a perda de moléculas da glicina. A curva DTA corrobora com a curva TG, mostrando respectivamente picos em 87,78; 311,89 e 392,64 °C, que também indicam perdas de massas graduais e significativas do material, ou seja, a decomposição do cristal. A partir do DRX em função da temperatura observou-se que com o aumento da temperatura, ocorre o desaparecimento de alguns picos e o surgimento de outros. Os padrões medidos até 90 °C exibem a fase monoclínica, mas a partir de 90 °C podemos observar alterações no padrão de difração medido, indicando o início da transição de fase, que se completa em 120°C. Essa saída de água resultando no cristal anidro, também foi confirmada pelos resultados obtidos por TG/DTA. Outro fato observado foi a higroscopicidade do material. As medidas de DRX em função da temperatura foram realizadas no intervalo de 30°C a 200° C. Logo após o resfriamento foi realizada uma medida a temperatura de 30ºC e após um intervalo de 24h, a amostra foi medida novamente e se comprovou que a água presente inicialmente no material havia retornado, ou seja, a amostra absorve água. Portanto, essa transformação é reversível.

Palavras-chave: Glicina com cromo; Complexo orgânico, Síntese; Caracterização. ABSTRACT

In this work we present the synthesis and characterization of the Tris (glycinate) chromium (III) monohydrate complex (Cr(C2H4NO2)3H2O). This crystal was grown by

technique of slow evaporation of the solvent and characterized by X-ray Diffraction (XRD), Uv-vis Spectroscopy, Fourier Transform Infrared Spectroscopy (FTIR), Raman Spectroscopy, Thermogravimetric Analysis (TG), Differential Thermal Analysis (DTA) and Differential Scanning Calorimetry (DSC) techniques. According to measurements Uv-vis spectroscopy the metal-amino acid bond is more favorable when the amino acid is in its anionic form, that is, in basic pH. The XRD analysis together with the Rietveld method confirmed that the sample crystallized in the space group monoclinic structure P21/C, Z = 4, lattice parameters a = 6.2601

(5) Å, b = 14.6455 (1) Å, c = 12.273 (1), β = 100.411 (8)° and V = 1106.74 (6) Å3. From the

results of Raman Spectroscopy and FTIR, it was possible to assign the probable normal modes of crystal vibration, including the modes that prove the occurrence of complexation. From the analysis of the TG curve, we observed the presence of three endothermic events of loss of mass

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of the sample; the first event is between 73.56 and 92.82 ºC, the second between 304.63 and 314.50 ºC, and the last between 384.59 and 404.03 ºC. The first event is related to the loss of hydration water, while the others relate to the loss of glycine molecules. The DTA curve corroborates with the TG curve, respectively showing peaks at 87.78; 311.89 and 392.64 ° C, which also indicate gradient and significant mass loss of the material, ie the decomposition of the crystal. The DSC result reaffirms the loss of water in the material near 100 °C. From the DRX at high temperature was observed the disappearance of some peaks and the emergence of others. The standards measured up to 90 °C exhibit the monoclinic phase, but from 90 °C occur changes in the measured diffraction pattern, indicating the beginning of the phase transition, which is completed at 120 °C. Another fact observed was the hygroscopicity, after a period of 24 hours the material had absorbed all the lost water, showing that the resulting transformation is reversible. With the results of Raman Spectroscopy at high temperature was possible to observe all changes in the material due to phase transformation, including the disappearance of the band referring to water molecule.

Keywords: Glycine with chromium; Organic complex; Synthesis; Characterization. INTRODUÇÃO

A cristalização é um dos processos mais antigos e importantes da natureza, e se tornou ao longo dos anos uma das mais relevantes áreas de pesquisa científica. O interesse em cristais de complexos de aminoácidos com íons metálicos vem crescendo devido a busca pelo entendimento das interações metal-aminoácido, pois esta compreensão também pode vir a contribuir com o entendimento de doenças degenerativas como o Alzheimer, mal de Parkinson ou Creutzfeldt-Jakob que estão relacionadas a esse tipo de interação.[1]

Dentre os aminoácidos, a glicina é o exemplo mais simples e, por essa razão, se encaixa em regiões com muitas cadeias peptídicas, sendo utilizada na síntese de muitos compostos proteicos e não proteicos, além de ser um neurotransmissor. Apesar de ser o único aminoácido que não é opticamente ativo,pode se apresentar em três formas cristalinas poliméricas, α, β e γ. Ambas as formas α e β cristalizam em grupo espacial centrossimétrico P21/c, enquanto a forma γ cristaliza em grupo espacial não centrossimétrico P31.[2]

Um dos metais de transição ainda pouco explorado na síntese de complexos com aminoácidos, é o cromo. O cromo (III) é um mineral que se comporta como suplemento no tratamento da diabetes mellitus, pois tem um papel importante no metabolismo da glicose. A função biológica do cromo ainda não é totalmente conhecida. Isso sugere que inicialmente o Cr3+ atua junto à insulina no metabolismo do açúcar que entra na célula, e facilita a interação da insulina com o seu receptor e a superfície celular. O cromo aumenta a ligação da insulina às células, o número de receptores da insulina e ativa a cinase do receptor da insulina, levando ao aumento da sensibilidade à insulina [3]

Infelizmente, a pesquisa sobre a síntese de complexos de cromo com aminoácidos não está bem desenvolvida. Dentre esses complexos se destaca o Tris(glicinato) de cromo (III) monohidratado que é obtido partir da complexação do aminoácido glicina com o íon metálico Cr3+. Alguns trabalhos cogitam a aplicação desse complexo in vivo como um suplemento

antihiperglicêmico. Um dos procedimentos mais comumente citados para a síntese desse complexo é o de Bryan et al (1971).[4] No entanto, Wallace e Hoggard (1982) relataram que os

métodos de síntese não são facilmente reprodutíveis. São necessários muitos ensaios para se obter um produto consistente de determinado procedimento. Algumas dificuldades na síntese dos cristais de glicina e cromo são as diferenças nas condições de reação,possibilidade de muitos produtos e a formação de isômeros geométricos.[5]

Na busca por um método reprodutível e um produto consistente, este trabalho tem como objetivo o estudo da síntese pelo método de evaporação lenta do solvente e a caracterização do cristal Tris (glicinato) de cromo (III) monohidratado através das técnicas de Difração de Raios X (DRX), Espectroscopia no Infravermelho com Transformada de Fourier (FTIR), Espectroscopia Raman, Termogravimetria (TGA) e Análise Térmica Diferencial (DTA).

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RESULTADOS Difração de Raios X

A estrutura do complexo Tris (glicinato) de cromo (III) monohidratado foi confirmada por meio de medidas de Difração de raios-X aplicando o método de Rietveld. A amostra em temperatura ambiente se cristalizou na estrutura monoclínica de grupo espacial P21/C, Z = 4, com

os parâmetros de rede mostrados na Tabela 1. O padrão de difração refinado pelo método de Rietveld juntamente com os parâmetros de ajuste são mostrados na Figura 1.

Figura 1. Difratograma de Raios-X em temperatura ambiente refinado pelo método de Rietveld

para o complexo Tris (glicinato) de cromo (III) monohidratado.

Tabela 1. Dados cristalográficos obtidos por refinamento Rietveld do complexo Tris (glicinato)

de cromo (III) monohidratado

Fórmula molecular Tris (glicinato) de cromo (III) monohidratado Valores a partir da DRX Valores da literatura [4] Parâmetros da célula unitária a = 6,2601 (5) Å

b = 14,6455 (1) Å c = 12,273 (1) Å β = 100,411 (8)° a = 6,256 (1) Å b = 14,649 (1) Å c = 12,267 (1) Å β = 100,39 (1)° Volume da célula unitária 1106,74 (6) Å3 1105,77 (2) Å3

Sistema Monoclínico

(α = γ = 90º ≠ β)

Monoclínico (α = γ = 90º ≠ β)

Grupo espacial P21/c P21/c

O difratograma foi ajustado a partir do refinamento da estrutura calculada para o complexo até que a melhor concordância com o resultado experimental fosse obtida. As quantidades que estimaram a concordância entre as intensidades observadas e calculadas foram: Rwp = 9,55% e SGof = 1,66, esses resultados apresentam boa exatidão, tendo em vista que o valor

obtido para o Rwp foi inferior a 15%. Além disso, observa-se uma boa correlação entre os valores obtidos e aqueles apresentados na literatura.

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Espectroscopia no Infravermelho com Transformada de Fourier

A técnica de FTIR foi realizada com a finalidade de comparar e confirmar a presença dos grupos funcionais. Existem algumas diferenças significativas do padrão FTIR do complexo com o ligante livre. Nesse estudo, a banda em 3549 cm-1 está associada ao estiramento do grupo OH

pertencente a molécula de água presente no complexo. Inclusive essa banda não existe no espectro do ligante livre, já que a glicina pura não é hidratada.

Uma recente publicação[1] explicou que a vibração ν(NH) na glicina foi transferida para frequências mais altas no complexo, sugerindo que a coordenação do íon metálico com o ligante ocorre através do átomo de nitrogênio, já que apresentam um par de elétrons livres podendo então ser facilmente coordenado ao metal em meio aquoso.

De acordo com a Figura 2, a vibração ν(NH) na glicina está localizada em 3433 cm-1 e 3257 cm-1 e apresentam bandas de alta e baixa intensidade respectivamente. No complexo a vibração ν(NH) aparece na faixa de 3474 - 3212 cm-1. Essa mudança pode estar relacionada à reorganização na ligação de hidrogênio intramolecular após a formação do complexo quelante.[1] No intervalo de 3177 - 2941 cm-1 foram identificadas no complexo algumas bandas que pertencem aos estiramentos da ligação CH, advinda do aminoácido.

Três bandas identificadas em 2361, 2338 e 667 cm-1 não fazem parte do complexo, essas bandas são decorrentes do KBr, material usado como agente dispersante durante a análise de FTIR.

As bandas observadas no FTIR da glicina em 1634 e 1604 cm-1 sofreram um deslocamento no FTIR do complexo para valores de 1688 e 1635 cm-1 respectivamente e são atribuídas ao alongamento C=O. No complexo, a vibração que reporta a deformação do NH2 é

verificada em 1590cm-1, além de um conjunto de ligações que dão origem a vibração em 1426 cm-1 dentre elas, estiramentos C-C,C-O e O-C-C.

A mudança para menor número de onda de 1385 cm-1 no espectro da Glicina para 1382 cm-1 no espectro do complexo corresponde à vibração simétrica de COO. Um estudo sobre a formação do complexo relatou essa mudança em 1400 para 1370 cm-1.[6] Em 1328 cm-1 ocorre o aparecimento de um vibração do tipo twisting do CH2 exatamente como visto em Azhagan e

Ganesan (2017).[7] Duas bandas intensas em 1309 e 1193 cm-1 são atribuídos a vibração mista

ρ(CH2) + ρ(NH2). Os respectivos valores de acordo com a literatura são 1310 e 1198 cm-1.

O deslocamento do C-N mostrado em 1146 cm-1 na glicina para 1160 cm-1 no complexo também suporta a ideia da complexação do aminoácido com o metal, assim como sugerido pelas vibrações do grupo amina em maiores números de onda. Três bandas em 1031, 950 e 926 cm-1 são observadas no complexo e referem-se a uma mistura de vibrações δ(NH2) ω + ν(C-N), ρ(CH2)

+ ρ(NH2) e ρ(NH2) + ν(C-N) respectivamente. Essas bandas perdem intensidade quando

comparadas com as do espectro do ligante livre, que por sua vez, sofrem um down shift sendo identificadas em 1033, 935 e 910 cm-1. Já a vibração ρ(NH

2) é verificada em número de onda de

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Figura 2. Espectros FTIR do complexo Tris (glicinato) de cromo III monohidratado e do aminoácido Glicina 3500 3000 2500 2000 1500 1000 500 T ra n smitâ n cia (% ) Número de onda (cm-1)

Tris (glicinato) cromo (III) monohidratado Glicina

A aparição de bandas fracas na região de 617, 593, 518, 478 e 466 cm-1 foram atribuídas

a vibrações do tipo ν(Cr-O), ν(Cr-N-C), ν(Cr-N) ou ν(O-Cr-N), confirmando assim a complexação. Normalmente essas vibrações metal-ligante são encontradas em baixos números de onda devido ao átomo metálico ser pesado e ao caráter da ligação coordenada. Já que a ligação metal-ligante se encontra em bandas de baixa energia não é correto fazer atribuições somente pela técnica de FTIR, já que a mesma apresenta uma limitação em baixo número de onda. As atribuições e comparações das principais bandas observadas para o complexo com os valores encontrados na literatura estão resumidas na Tabela 2.

Tabela 2. Modos vibracionais do espectro FTIR do complexo Tris (glicinato) de cromo III

monohidratado em comparação com atribuições reportadas na literatura.

Vibração Cristal (cm-1) Vibração Literatura (cm-1) Atribuição Referência 3549 3560 ν(OH) [8] 3474 3446 ν(NH) [9] 3415 3414 ν(NH) [10] 3242 3258 ν(NH) 3212 3234 ν(NH) 3177 3160 ν(CH) 3088 3092 ν(CH) 2978 2974 ν(CH) 2941 2936 ν(CH) 1688 1689 ν(C=O) 1635 1635 ν(C=O) [11] 1590 1585 δ(NH2) [10] 1426 1428 ν(C-C) + ν(C-O) + ν(O-C-C) 1382 1383 νs(COO) [12] 1328 1328 t(CH2) [13] 1309 1310 ρ(CH2) + ρ(NH2) [10] 1193 1198 ρ(CH2) + ρ(NH2) 1160 1160 ν(C-N) 1031 1047 ω(NH2) + ν(C-N)

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950 952 ρ(CH2) + ρ(NH2) 926 920 ρ(NH2) + ν(C-N) 754 749 ρ(NH2) 617 619 δ(Cr-N-C) [14] 593 582 ν(Cr-N) 518 495 ν(Cr-N + Cr-O) ou ν(O-Cr-N) [10] 478 478 ν(Cr-N) [12] 466 469 ν(Cr-N)

v-estiramento, vas-estiramento assimétrico, vs-estiramento simétrico, δ-deformação, δas-deformação assimétrica, β-flexão no plano,

ρ-rocking (rotação), ω-wagging (balanço), τ-torsion , γ-flexão fora do plano, t-twisting, scissoring (corte).

A partir da Espectroscopia no Infravermelho e da Espectroscopia Raman é possível se obter informações sobre estrutura molecular, composição e interações intermoleculares. Essas técnicas são consideradas complementares. Apenas os modos vibracionais que levam à mudança no momento de dipolo são ativos no FTIR, enquanto que as vibrações que causam mudança na polarizabilidade são ativas no Raman. Como esse estudo apresenta um complexo centrossimétrico, se espera uma grande semelhança entre os espectros FTIR e Raman.

Espectroscopia Raman

A partir da análise à temperatura ambiente do espectro Raman do cristal Tris (glicinato) de cromo III monohidratado foi possível a atribuição dos prováveis modos normais de vibração desse cristal. Como vários modos estão presentes nos espectros Raman de outros sistemas semelhantes, sua classificação foi realizada por meio de comparações com outros trabalhos da literatura.

Região de 70 à 1800 cm-1

Na primeira região geralmente estudada na espectroscopia Raman (Figura 3) encontram-se os modos de vibração que são classificados como modos externos ou modos de rede. Esencontram-ses modos são classificados até 200 cm-1 e são modos relativos à vibração de toda a rede cristalina, por isso são modos importantes para a detecção de transições de fase estrutural em cristais, alguns também podem ser relacionados às contribuições das ligações de hidrogênio no cristal.[15]

Além dos modos de rede, a região de baixo número de onda que vai até próximo de 650 cm-1 comumente mostra ligações relacionadas ao metal, ou seja, se observa modos referentes a ligações que envolvem o íon Cr3+. Esse comportamento ocorre porque a frequência vibracional de uma ligação aumenta com a diminuição da massa reduzida do sistema. Já que o Cr é um metal de transição de massa elevada, faz com que suas ligações apareçam em baixo número de onda. Além disso a frequência vibracional de uma ligação deve aumentar com o aumento da força de ligação, indicando assim que a ligação que envolve o metal provavelmente é mais forte que as demais ligações.

O espectro Raman a partir da região de 650 cm-1 geralmente mostra as vibrações pertencentes ao ligante, uma vez que, as ligações relacionadas ao metal são encontradas em regiões de menor número de onda. Esse aparecimento em maiores números de onda ocorre pelo fato do ligante possuir átomos de baixo peso molecular, como C, H, O e N, o que também torna essas ligações mais fracas quando comparadas as ligações com o metal.

O ligante Glicina tem 10 átomos e 24 modos normais de vibração. Os modos normais de vibração incluem 17 modos de vibração no plano e 7 fora do plano, que pertencem às mesmas espécies de simetria.[16] Todos os modos vibracionais da Glicina tendem a ser ativos tanto no FTIR quanto no Raman devido ao grupo de simetria C1. Tendo como base espectros envolvendo

esse aminoácido, foi possível observar proximidade entre as bandas e então atribuir os modos vibracionais do complexo.

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Figura 3. Espectro Raman do complexo Tris (glicinato) de cromo III monohidratado no

intervalo de 70 - 1800 cm-1 à temperatura ambiente.

200 400 600 800 1000 1200 1400 1600 1800 Int ens ida de ( u.a .) Número de onda (cm-1) Região de 2600 à 3500 cm-1

A região entre 2600 e 3500 cm-1 diz respeito ao espectro Raman de alto número de onda (Figura 4). Alguns modos com vibrações características do tipo estiramento das unidades CH, NH, CH2 e NH2 são esperados nessa região. Também se espera vibrações características do tipo

estiramento das ligações da molécula de água, uma vez que, trata-se de um cristal hidratado. Porém as bandas referentes a molécula da água consequente apresentará baixa intensidade devido a fraca polarizabilidade exibida pela ligação OH. [17]

As atribuições foram feitas baseando-se em dados da literatura de outros sistemas moleculares semelhantes ao do cristal de estudo. Dessa forma foram feitas todas as atribuições das vibrações referentes a cada modo do material, cujas referências se encontram na Tabela 4.

Figura 4. Espectro Raman do complexo Tris (glicinato) de cromo III monohidratado no

intervalo de 2600 - 3500 cm-1 à temperatura ambiente.

2600 2700 2800 2900 3000 3100 3200 3300 3400 3500 Int ens ida de ( u.a .) Número de onda (cm-1)

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Tabela 3. Modos vibracionais do espectro Raman do complexo Tris (glicinato) de cromo III

monohidratado em comparação com atribuições reportadas na literatura.

Vibração Cristal (cm-1) Vibração Literatura (cm-1) Atribuição Referência 81 82 Modos de rede [18] 94 98 110 111 126 132 137 137 148 162 168 169 194 192 206 208 225 220 253 251 328 318 ν(CrO) + ν(CrN) 403 405 δ(CrOC) 412 410 δ(OCrO) 466 465 ρ(COO) [19] 476 470 ν(CrN) 484 482 δ(OCrO) + δ(NCrN) 531 520 ρ(COO) + γ(CN) [20] 552 541 γ(COO) [21] 563 560 τ(HNCC) 585 585 ρ(CH2) 592 596 ν(CrN) + ν(CrO) + v(C-C) 696 670 ω(COO) 708 710 v(CC) + δ(CO) 720 722 ρ(NH2) 751 750 δ(CNH) [22] 917 910 γ(COO) + ρ(CH2) 930 936 v(CC) 944 944 ρ(NH2) 957 950 v(CC) 1032 1033 v(CN) 1040 1037 vas(CCN) [23] 1150 1155 ρ(NH2) + ρ(CH2) 1180 1178 δ(HCC) + τ(HCCN) 1197 1197 δ(CO) 1208 1200 v(CH) 1296 1293 ν(CO) + τ(HCCO) 1314 1312 ω(CH2) 1348 1358 νs(COO) 1384 1391 νs(COO) [24] 1420 1420 v(C=O)+ δ(CH2) 1430 1428 σ(CH2) [25] 1434 1442 σ(CH2) 1592 1586 δ(NH2) 1605 1599 ν(C=O) 1633 1624 vas(COO) 1657 1650 δas(NH2) 1671 1671 δas(NH2) δ(NH)

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2843 2879 v(CH) [26] 2938 2930 ν(CH) 2949 2943 v(CH) 2977 2974 νs(CH2) 3014 3010 νas(CH2) 3136 3137 v(NH…..O) 3222 3213 ν(CH) [27] 3263 3252 vs(NH2) 3404 3401 ν(OH)

v-estiramento, vas-estiramento assimétrico, vs-estiramento simétrico, δ-deformação, δas-deformação assimétrica, δs-deformação

simétrica, β-flexão no plano, γ-flexão fora do plano, ρ-rocking, ω-wagging, τ-torsão, t-twisting, σ-scissoring.

Termogravimetria e Análise Térmica Diferencial

A termogravimetria e a análise térmica diferencial fornecem informações sobre transição de fase, água de cristalização e diferentes estágios de decomposição do sistema cristalino. A partir da análise da curva TG (Figura 5), observa-se a presença de três eventos endotérmicos de perda de massa da amostra; o primeiro evento está compreendido entre 73,56 a 92,82 ºC, e diz respeito à perda de massa de 5,76% (0,236 mg) correspondente a uma massa molar de 17,01g/mol, ou seja, referente à perda da água de hidratação que apresenta massa molar de 18 g/mol.

O segundo evento inicia-se em 304,63 °C e termina em 314,50 ºC, e está relacionado com uma perda de massa de 64,76% (2,652 mg) correspondente a uma massa molar de 191,0 g/mol, ou seja, diz respeito à perda de átomos da glicina que apresenta massa molar de 255,2 g/mol.

O terceiro evento inicia-se em 384,59°C e termina em 404,03 ºC, e está relacionado com a perda de massa de 2,12% (0,087 mg) que também é referente à perda de átomos da glicina. Como a perda de peso total em toda a análise não corresponde a 100%, admite-se um determinado resíduo que pode ser atribuído ao cromo. A curva DTA corrobora com a curva TG, mostrando respectivamente picos em 87,78; 311,89 e 394,41 °C, que também indicam perdas de massas graduais e significativas do material, ou seja, a decomposição do cristal. Dessa forma, as medidas de análise térmica indicaram que o cristal não possui boa estabilidade térmica, visto que ao atingir a temperatura de 87 °C ele perde agua e passa para sua fase anidra. Voltando a perder massa a partir de 311 °C quando observamos a decomposição das três moléculas de glicina.

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Difração de Raios X em Função da Temperatura

A Figura 6 apresenta os padrões de difração de raios X em diversas temperaturas. Em uma análise preliminar, podemos notar que com o aumento da temperatura, ocorre o aparecimento de novos picos. Os padrões medidos até 90 °C exibem a fase monoclínica do Tris (glicinato) de cromo (III) monohidratado. A partir de 90 °C podemos observar alterações no padrão de difração medido, indicando o início da transição de fase, que se completa em 120 °C.

O pico em 12,04° (2θ) começa a perder intensidade até seu total desaparecimento em torno da temperatura de 120 °C, em paralelo um novo pico começa a aparecer próximo a 12,22° (2θ) em torno de 90 °C, ganhando intensidade a partir de 100 °C. Outro pico também inicia seu aparecimento em 12,55° (2θ) à 110 °C. Dois picos em 14,34 e 14,63° (2θ) perdem muita intensidade com o aumento da temperatura, e por volta de 110 °C se tornam um único pico assumindo um valor 2θ de 14,46°. O mesmo ocorre com os picos em 15,56 e 15,83° (2θ), ambos perdem tanta intensidade que se transformam em um único pico por volta de 15,75° (2θ) à 120 °C.

Outra mudança observada foi o surgimento de dois novos picos à temperatura de 120 °C. Os picos acerca de 16,69 e 16,90° (2θ) são ausentes na forma hidratada do complexo, aparecendo somente na forma anidra, ou seja, após a transição de fase. Em torno da temperatura de 120 °C, o pico em 18,79° (2θ) sofre deslocamento para 19° (2θ), enquanto o pico em 19,55° (2θ) se desloca para 19,65° (2θ) e por fim ocorre o surgimento de um pico em 20,06° (2θ).

A ocorrência de deslocamentos nos valores de 2θ, alargamentos na base e percas de intensidade ocasionados pela variação de temperatura, indicam a mudança de fase e os defeitos na rede cristalina.

Outro fato observado foi a higroscopicidade do material. A medida foi realizada no intervalo de 30°C a 200° C. Logo após o resfriamento foi realizada uma medida a temperatura de 30ºC* e após um intervalo de 24h, a amostra foi medida novamente a mesma temperatura de 30°C**, comprovando que a água presente inicialmente no material havia retornado, ou seja, a amostra absorve água.

Figura 2. Difratogramas em função da temperatura do complexo Tris (glicinato) de cromo III

monohidratado no intervalo de 30 a 200°C.

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CONCLUSÕES

O método de evaporação lenta do solvente foi capaz de crescer o cristal Tris (glicinato) de cromo III monohidratado com boa qualidade cristalina, além de baixo custo operacional.

A difração de raios X juntamente com o método Rietveld confirmaram que o material se cristalizou na estrutura monoclínica de grupo espacial P21/C, além de apresentar os valores dos

parâmetros de rede bem semelhantes ao da literatura.

As medidas de FTIR e Raman em temperatura ambiente possibilitaram a determinação dos modos vibracionais ativos do cristal. Os grupos funcionais já identificados na literatura foram identificados nas medidas de FTIR deste trabalho, além da identificação de novas bandas. Os resultados de Espectroscopia Raman obtidos pela primeira vez neste trabalho para o complexo Tris (glicinato) de cromo III monohidratado, possibilitaram a identificação de vibrações correspondentes as ligações dos grupos funcionais do aminoácido e das ligações metal-ligante, confirmando a formação do complexo.

Todas as análises acerca da expansão térmica do material mostraram concordância entre si. A partir do TG se observou uma perda de massa próximo a 70°C referente a saída da água de hidratação e outras perdas de massa em torno de 350 e 380°C referentes a decomposição da glicina. O DTA também mostrou o evento de desidratação em 87 °C e de decomposição em 311 e 394 °C. Por fim, corroborando com as análises térmicas, o DRX em função da temperatura, mostrou que com a saída da água de hidratação ocorre uma transição de fase próximo a 100ºC.

AGRADECIMENTOS

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