A PRESERVAÇÃO DA MEMÓRIA FOTOGRÁFICA DE SANTA MARIA: UM OLHAR SOBRE O PROCESSO DE URBANIZAÇÃO DA CIDADE¹.

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A PRESERVAÇÃO DA MEMÓRIA FOTOGRÁFICA DE SANTA MARIA: UM

OLHAR SOBRE O PROCESSO DE URBANIZAÇÃO DA CIDADE¹.

ROSSI, Daiane Silveira.²; CORRÊA, Roselâine Casanova.³

¹ Resultado parcial do Projeto de Extensão (PROBEX) “Ação Documental do Acervo Museológico da Casa de Memória Edmundo Cardoso (CMEC)" – Curso de História - UNIFRA

² Acadêmica do Curso de História do Centro Universitário Franciscano (UNIFRA), Santa Maria, RS, Brasil.

³ Professora orientadora do Curso de História do Centro Universitário Franciscano (UNIFRA), Santa Maria, RS, Brasil.

E-mail: daisrossi@gmail.com; casanova@unifra.br

RESUMO

Os trabalhos em andamento no Projeto de Extensão “Ação Documental do Acervo

Museológico da Casa de Memória Edmundo Cardoso (CMEC)”, leva em consideração a importância do acervo coletado por Edmundo Cardoso (1917-202). Tal acervo - reunido na

residência da família, na Rua Pinheiro Machado, nº. 2712 - em Santa Maria (RS), se compõe de material bibliográfico, anuários, revistas, jornais, documentos antigos, recortes de jornais, relatórios, mapas, álbuns, fotografias, pinturas, filmes, vídeos, slides. Propõe-se o registro, a catalogação, a higienização e a organização do acervo museológico da CMEC. A partir dos objetivos citados, alcançou-se até o momento, o tratamento de 1600 imagens iconográficas. Com os procedimentos museais, busca-se a preservação da memória e a recuperação do passado histórico de Santa Maria, pelo estímulo à pesquisa de seu acervo, de forma a atingir alunos, professores e a comunidade interessada, contribuindo também para o estudo da cidade e a consolidação da identidade local.

PALAVRAS-CHAVE: Fotografia; Modernização; Santa Maria. 1. INTRODUÇÃO

Admirador das artes e da memória santa-mariense, Edmundo Cardoso (1917-2002), se dedicou a colecionar as mais variadas coleções, com a preocupação da preservação, da conservação e da divulgação de um acervo relacionado à história da cidade, compondo em sua residência (Rua Pinheiro Machado, nº. 2712, em Santa Maria/RS) um centro de pesquisas, denominado pelas responsáveis do acervo - Therezinha de Jesus Pires Santos e Gilda May Cardoso Santos - “Casa de Memória Edmundo Cardoso” (CMEC). Tal acervo se

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constitui de materiais bibliográficos, anuários, revistas, jornais, documentos antigos, recortes de jornais, relatórios, mapas, álbuns, fotografias, pinturas e demais objetos.

Das coleções do acervo coletado por Edmundo Cardoso, destacam-se as imagens iconográficas, onde é possível perceber o processo de urbanização e sociabilidade de Santa Maria, visto que as mesmas abrangem o período que compreende o final do século XIX, passando pelo século XX, até a primeira década do XXI. Ilustrando o cenário político, econômico e cultural da cidade, localizada na região central do Estado do Rio Grande do Sul. Assim, busca-se aqui apontar parte de tal coleção que compõem a Casa de Memória Edmundo Cardoso (CMEC), de maneira que seja possível visualizar por meio das imagens e dos documentos, o processo histórico de Santa Maria, com vistas a uma preservação efetiva dos bens culturais móveis e imóveis da cidade.

Como a proposta do projeto de extensão, do qual se vincula esta pesquisa, é de organização do acervo museal, buscou-se primeiramente trabalhar com as peças iconográficas do museu que está em organização. Portanto, tivemos que, inicialmente, acondicionarmos estas imagens e após, fazer sua catalogação.

Faz-se, portanto, um comparativo entre a teoria e a prática da utilização das imagens, e como objeto de pesquisa utilizamo-nos da análise das fotografias com um processo de remodelação urbana no período proposto: primeiras décadas do século XX.

2. PROCESSO DE URBANIZAÇÃO DE SANTA MARIA POR MEIO DE IMAGENS

O uso de imagens como fonte histórica vem se intensificando no decorrer da terceira geração dos Annales, a partir do final da década de 1960, concomitante à pluralidade temática e conceitual das pesquisas e produções historiográficas. De acordo com Burke (2004, p.15-17), os historiadores têm feito referência a essas fontes documentais iconográficas como se “estivessem enchendo baldes no riacho da verdade” de uma maneira errônea, utilizadas como se fossem porta-vozes incorruptíveis de um momento histórico e não passíveis de questionamentos. De fato, as imagens são fontes que nos proporcionam a recriar o passado, relacionando-o ao contexto histórico-político em que as mesmas foram produzidas. Entretanto, para Ulpiano Bezerra de Meneses o pesquisador que trabalha com imagens deve sempre se lembrar que, além de trabalhar com um objeto material em si, sobretudo lida com questões concernentes a uma dada sociedade (apud MACHADO JÚNIOR, 2009).

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Assim, um dos instrumentos para perceber o processo de urbanização, aliados ao processo de sociabilidade de Santa Maria é a fotografia. Para isso, é necessário recorrer às origens da arte fotográfica na cidade, tendo como referência os fotógrafos de rua, pois “até que o meio fotográfico se desenvolvesse e permitisse o estabelecimento de um atelier permanente, ainda decorreram muitos anos. O primeiro de que temos notícia é Pedro Sanchez, aqui chegado em 1892” (SHILLING, 2005, p.22).

Inicialmente, havia somente retratos de famílias, crianças, grupos de pessoas a cavalo, que eram realizados sob agendamento prévio, para atender interesses particulares. No final do século XIX, os fotógrafos passaram a fotografar nas zonas afastadas da cidade, porém com o mesmo intuito anterior – produzir fotografias particulares. Já no século XX, é possível visualizar imagens de eventos que aconteciam na cidade, como encontros, festividades, passeios, cultos religiosos, inaugurações de espaços públicos, dentre outros, sobretudo àquelas produzidas durante o Estado Novo (1937–1945). A intenção política então vigente era dar ênfase às atividades do governo ditatorial de Getúlio Vargas (1882-1954), sendo que o principal interesse nos segmentos menos privilegiados da população era retratá-los como parte integrante dos comícios políticos da época. Entretanto, como se pode visualizar nas imagens, somente apareciam homens, de pele branca e boa aparência, provavelmente da elite santa-mariense. A isto se sugere a política do Estado Novo, para a qual,

A identidade é como uma construção que se dá no interior social, determinando a posição dos agentes, de suas representações e escolhas, ao mesmo tempo em que também é produto delas. A identidade existe sempre em relação à outra, acompanhando a diferenciação e tanto é inclusão: identificação com o grupo, ou com a cidade; como exclusão: distingue outros grupos ou a cidade (BAGGIO, 2007, p. 15).

Nesse período – do Estado Novo - é perceptível o embelezamento urbano da cidade de Santa Maria, visto que são realizadas imagens fotográficas dos principais locais da cidade: ruas centrais, avenidas, praças públicas, prédios, casas, monumentos. Agregados a isto, percebem-se os vários grupos sociais retratados, proporcionando, por exemplo, a investigação sobre figurinos da época, bem como a representação e inserção do indivíduo na família e na sociedade. No entanto, segundo Godophin (1995), é preciso saber amarrar os códigos da cultura perceptíveis nas fotografias, sem desvinculá-las de um contexto

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específico e experimentado a partir da vivência do cotidiano. Ao fazermos uma análise de imagens devemos levar em conta alguns fatores, tais como a construção da foto, o que ela queria representar para o seu espectador. Machado Júnior (2009, p.30) aponta alguns elementos:

Nas fotografias ficou representado um modelo idealizado de sociedade. Esse modelo, com o decorrer do tempo, através do fragmento fotográfico, pôde ganhar um sentido mais amplo, a dimensão de um topo. De uma forma geral, passou a constituir-se na trama social uma espécie de imaginário urbano que posteriormente veio a se tornar uma memória coletiva, na qual a fotografia possuiu uma função específica entre os vários papéis desempenhados pelos autores sociais.

Também podemos fazer uma apreciação da imagem, ao privilegiar o ponto de vista arquitetônico e urbanístico da cidade. Observa-se uma fotografia do início e outra do final do século XX e, então, percebe-se efetivamente o processo de modernização e embelezamento urbano, como o caso da Praça Saldanha Marinho (Figuras 1 e 2).

Figura 1 – Praça Saldanha Marinho (1905) Fonte: Acervo CMEC

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Observando a representação acima, apontamos que nela aparece um casal passeando pela Praça Saldanha Marinho - principal Praça de Santa Maria - provavelmente pertencente aos segmentos mais privilegiados da sociedade santa-mariense. Tendo em vista os figurinos do casal e, sobretudo, um adereço característico das mulheres mais abastadas do período: a sombrinha, usado especialmente para passear. E o homem, aparentando ser um cavalheiro, bem vestido, possivelmente acompanhado de sua esposa. Peter Burke faz uma afirmação, da qual podemos utilizar para analisar esta foto: “as primeiras fotografias de cidades mostram com freqüência ruas implausivelmente desertas, para evitar os borrões nas imagens causadas por movimentos rápidos” (2004, p.106). Ou seja, além dessa imagem ficar melhor apresentável visivelmente, também causa ao olhar a sensação de beleza urbana, como algo planejado.

Por isto, o historiador que analisa uma fotografia, precisa ter a consciência da época em que a mesma foi produzida, quais os interesses do retratado, do fotógrafo, dos hábitos e costumes e do ideário político, neste período (Governo Vargas), sobretudo no que tange a importância do cidadão ‘de bem’, cônscio de seus deveres e obrigações para com a Pátria. Assim, “destaca-se a atividade de contextualização e de questionamento da imagem fotográfica como fonte e evidência histórica” (BAGGIO, 2007, p. 27).

3. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Tendo em vista que o projeto de extensão supracitado foi iniciado em 01 de abril de 2010 e, como foi proposto ser bianual, pretende-se continuar os trabalhos durante o ano de 2011, a pesquisa oriunda da organização do acervo do CMEC encontra-se incipiente. No

Figura 2 – Praça Saldanha Marinho (década de 1930)

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entanto, até o momento foram higienizadas e acondicionadas 1500 fotografias, observando-se as normais muobservando-seais vigentes. Por ‘normas muobservando-seais vigentes’ entende-observando-se o uso de material com pH neutro como lápis, papel e canetas; a prática do manuseio das peças com a proteção de luvas, avental e máscara facial pela bolsista vinculada ao projeto e que executa os trabalhos extensionistas no CMEC no ano de 2010, Daiane Silveira Rossi, sob a orientação da professora Roselâine Casanova Corrêa.

Isto posto, ratifica-se o que já foi mencionado anteriormente, no que tange a importância das fontes imagéticas na pesquisa histórica, sobretudo no período em que se propôs observar: final do século XIX e primeira metade do século XX. Sem perder, obviamente, o foco central de interesse: o ideário político, que, por meio da iconografia, legitimava os feitos e as propostas do governo, ao mesmo tempo em que sugeria como deveriam ser os espaços públicos e privados e a conduta do cidadão com ‘hábitos de bom tom’. Por isso o embelezamento urbano, os passeios em locais públicos, espaços de sociabilidade por excelência no período sugerido (CORRÊA, 2005).

Registra-se também, a relevância do projeto de extensão que originou o presente texto, pois o mesmo - além de organizar o acervo do CMEC - propicia a pesquisa em suas peças, bem como o seu uso nas práticas docentes. Assim, dá suporte ao tripé no qual se embasa o Curso de História da UNIFRA: o ensino, a pesquisa e a extensão.

REFERÊNCIAS

BAGGIO, Eduardo Dalla Lana. Trabalho Final de Graduação. Mídia, fotografia e beleza urbana: artifícios de poder e convencimento (Santa Maria/1937-1941). Trabalho Final de Graduação (TFG), Curso de História, Área de Ciências Humanas, UNIFRA. Santa Maria, 2007.

BURKE, Peter. Testemunha Ocular. Bauru: EDUSC, 2004.

CORRÊA, Roselâine Casanova. Cenário, cor e luz: amantes da ribalta em Santa Maria (1943-1983). Santa Maria: Ed. da UFSM, 2005.

GODOLPHIN, Nuno. A Fotografia como Recurso Narrativo: problemas sobre a apropriação da imagem enquanto mensagem antropológica. In: Horizontes Antropológicos. Ano 1, número 2. Porto Alegre: UFRGS, 1995, p. 125-142.

MACHADO JÚNIOR, Cláudio de Sá. Imagens da Sociedade Porto-Alegrense: vida pública e comportamento nas fotografias da Revista do Globo (década de 1930). Porto Alegre: Oikos, 2009.

SCHILLING, Getúlio. A arte fotográfica e o teatro em Santa Maria. Santa Maria: Editora Pallotti, 2005.

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