A HISTÓRIA DE VIDA DE MINHAS AVÓS: reflexões para o presente
Rhuanna Laylla Oliveira Miranda1
Orientador: Ramon Luis de Santana Alcântara²
Resumo: Este trabalho tem por objetivo, a partir da história de vida de duas idosas, produzir uma reflexão acerca da integeracionalidade e das relações de gênero em Grajaú. Utiliza como metodologia a história de vida. Tem como resultado a análise da sociedade machista em Grajaú, mais veemente na década de 50, porém ainda presente nos dias de hoje, apesar de todo avanço no acesso às informações e das lutas das mulheres.
Palavras-chave: História de vida. Idosa. Machismo.
Introdução
O envelhecimento é um ciclo natural da vida, mas envelhecer com saúde, vitalidade e muita história de vida é uma dádiva. Este trabalho abordará um tema muito atual e polêmico. Trata-se das pesquisas com mulheres idosas que no auge da sua vida tiveram que batalhar para ter um lugar numa sociedade machista e preconceituosa.
O objetivo principal consiste em expor como e quando essas mulheres tomaram a decisão de ser independentes, principalmente com relação à mulher dos anos 50 e as mulheres de hoje, para a obtenção de uma visão geral das duas épocas e de como a mulher vem conquistando maior espaço na sociedade. Assim como, tratar da importância desse trabalho para dar mais visibilidade às lutas dessas mulheres. O trabalho será desenvolvido utilizando histórias contadas por essas mulheres, descrevendo a evolução das mulheres nos últimos anos e também comparativo,
1 Graduanda em Licenciatura Interdisciplinar em Ciências Humanas, pela Universidade Federal do
Maranhão (UFMA), Campus de Grajaú. E-mail: [email protected]
² Professor Adjunto I da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), Campus de Grajaú. Doutor em Políticas Públicas (UFMA), Mestre em Educação (UFMA), Graduado em Psicologia (UFBA). E-mail: [email protected]
verificando as semelhanças e as divergências das épocas as quais foram estudadas. A elaboração se dará pelo método bibliográfico e baseando-se nas histórias de vida dessas mulheres (MENDONÇA et al, 2012).
História de vida de duas avós
Essa pesquisa foi organizada com base na história de vida de duas mulheres de contextos sociais diferentes do município de Grajaú. Optou-se pela abordagem da história de vida, como metodologia de pesquisa para a elaboração do trabalho: foi conhecer a vida dessas senhoras, suas particularidades e suas limitações. Esse método proporcionou interação com as entrevistadas, por estreitar os laços familiares já existentes entre entrevistadora e entrevistadas.
Para compor esse trabalho foi proposto um questionário com perguntas simples e objetivas, tais como: a relação homem/mulher na dada época, se existia uma desigualdade entre os sexos e se a cidade respeitava as mulheres.
E de acordo com ambas sempre existiu essa superioridade dos homens e a submissão das mulheres, na fala de uma delas isso fica muito claro: “Mulheres eram vistas basicamente como mais um móvel da casa, onde sua serventia era ter filho e zelar da casa”. A outra fala sobre o espaço que a mulher vem conquistando: “até hoje vejo essa desigualdade, só que hoje é menor e a mulher já está ocupando um espaço maior na sociedade”.
Devido ao fato dessas mulheres terem vivido numa época de submissão esta pode ser a explicação pela qual elas tomaram rumos diferentes. Uma delas optou por seguir as ordens do pai e casar-se e atender a todas as vontades do marido, mais sua situação financeira foi crucial para que ela continuasse submissa até certo ponto, pois em dado momento de sua vida teve que assumir um papel de alicerce da casa, pois seu marido teve que viajar a procura de emprego e coube a ela sustentar seus doze
filhos e um neto com o trabalho na roça. A outra decidiu ser independente, mas essa decisão não foi aceita assim com tanta naturalidade, pois naquela época mulher não podia optar por ser mãe solteira, pois era vista com “maus olhos”. No entanto isso não foi empecilho para ela continuar na sua decisão, pois por ter uma vida simples e sem muito luxo ela queria melhoria para ela e seus filhos, e foi isso que ela foi atrás.
Essas mulheres não viveram sua infância em Grajaú, ambas viveram no interior e vinham à cidade em raras exceções. A primeira morou até seus 17 anos num povoado a 80 km de Grajaú, de onde tirava seu sustento da venda de caranguejo, quando veio para Grajaú conheceu seu primeiro marido com quem viveu durante nove anos num casamento cercado de miséria e violência, até tomar a decisão de se separar e cuidar sozinha de dois filhos fruto desse casamento conflituoso. Sua vida foi difícil, por que já não bastava ser separada, ainda tinha dois filhos para criar e isso tornava sua vida mais difícil. Os outros filhos vieram de relacionamentos rápidos e não maioria das vezes com homens casados. Sua luta foi difícil, mais segundo ela o momento mais difícil foi quando decidiu entregar um de seus filhos a um casal de senhores de uma casa da qual ela trabalhou, filho esse do qual ela nunca mais teve notícias.
Trabalhou durante muito tempo como feirante e empregada doméstica para criar seus sete filhos, e isso lhe é motivo de muito orgulho. Mas com o crescimento dos filhos sua vida melhorou em alguns aspectos. Filhos criados, pais e mães de família agora a ele coube uma merecida aposentadoria que lhe traz um conforto.
A segunda senhora também veio do interior de uma família tradicional criadora de gado, por consequência uma família que tinha muita terra e bens. A terceira filha de sete irmãos, aprendeu desde cedo os ofícios da lida na roça, casou-se muito nova aos 18 anos para estreitar os laços de seu pai com um vizinho que também era criador de gado. Feito isso, teve seis filhos antes dos negócios de seu sogro quebrarem e seu marido ter que mudar de cidade para conseguir emprego, ao retornar seu marido foi
trabalhar com o sogro e teve seus outros seis filhos e para ajudar sua filha que teve gêmeos decidiu criar uma das crianças a qual ela considera um filho. Nessa dada época teve que conviver com a morte da sua irmã casula, vítima de leucemia, e com seu pai dois anos mais tarde vítima de um “derrame” ao qual lhe tirou o movimento de metade do corpo e a fala. Mais isso não foi barreira para que ela lutasse fortemente para que seus filhos estudassem e tivessem uma vida mais digna menos sofrida como a dela.
Podemos dizer que as mulheres idosas nos dias atuais enfrentam um problema muito particular na sociedade que as colocam em uma posição de vulnerabilidade e de fragilidade. Mais essas mulheres, hoje vistas como frágeis senhoras lutaram na sua juventude por uma causa que na maioria das vezes era um direito simples como ir à escola.
Ao verificarmos hoje as empresas em Grajaú vemos a mulher em massa por todas as áreas, empresárias, funcionárias em todos os seguimentos. Em Grajaú como é um polo gesseiro, as mulheres só serviam para o escritório, mas agora a mulher está conseguindo um espaço maior no mercado de trabalho, por ser mais detalhista e caprichosa seu trabalho é mais bem feito. Entretanto, como antigamente, a mulher ainda recebe um salário inferior aos dos homens. Vemos mais mulheres nas escolas e faculdades se esforçando mais que os homens e ainda existe essa desvalorização da mão de obra feminina.
Uma boa observação a ser feita é sobre essas duas épocas, onde nos anos 50 essas mulheres não tinham esse mar de informação e tecnologia dos dias atuais. Fazendo uma breve observação, as idosas hoje vivem numa época, para elas, “estranha”, pois com a evolução da tecnologia elas não acompanharam essa evolução e são vistas como ultrapassadas. Quando jovens o máximo que se podia ter era uma rádio de pilha que era considerado um artigo de luxo na época, nos dias de hoje com essas tecnologias cada dia mais avançadas nos proporcionam notebook, tablet,
smartphone e uma rede de internet quase que infinita de informações. Ao fazer uma observação na família vemos avós “tradicionais”, pais “liberais” e netos “tecnológicos” e isso retrata muito bem as famílias de hoje, claro que estereotipada.
Ao fazer uma simples comparação entre duas gerações dar para ver uma grande diferença em todos os aspectos, desde o mais simples como roupas até o mais polêmico como os relacionamentos. Ao compararmos as roupas da época de nossas avós e as nossas vemos uma grande diferença desde o comprimento até os modelos. Já com relacionamentos as coisas mudam no contexto geral. Quem nunca ouviu uma pessoa idosa dizer a seguinte frase: “na minha época as coisas não eram tão liberais assim”? Frase muito comum. Mais se paramos para observar com certeza vamos ver essa diferença. Hoje as mulheres têm a liberdade de se relacionar com quem quiser e com quantos quiser, mas isso não quer dizer que ela será aceita pela sociedade machista que ainda vivemos.
Nos anos 1950, as mulheres eram inferiorizadas pelos homens, não tinham acesso à educação e não tinham voz ativa na sociedade. Naquela época as mulheres só serviam para o trabalho doméstico e a criação dos filhos, já que cabia ao homem estudar e trabalhar fora para sustentar a família.
Essa desigualdade não é exclusiva daquela época, até hoje vemos esse tipo de comportamento só que agora com menos frequência. Hoje a mulher tem mais liberdade de escolher seu futuro, cabe a ela exclusivamente decidir entre filhos e trabalhos domésticos ou uma carreira bem-sucedida ou os dois se esse for o seu desejo.
Considerações finais
O século XX foi marcado não só pelas guerras e pelos crimes, mas também pela vida, pela melhoria da vida em sociedade, a igualdade dos sexos e direito de escolher o que é melhor para sua vida. Onde cabe a cada indivíduo buscar melhoria da qualidade de vida de cada um na sociedade.
Ao fazermos um balanço geral vemos que a mulher ainda é vista como incapaz, mas cada dia nós demostramos aos homens nossa capacidade. Como vemos hoje muitas mulheres no mercado de trabalho desde escritório até nos trabalhos mais pesados. Naquela época eram poucas mulheres que tinham coragem de deixar seus maridos e o sofrimento ao lado deles para viver sozinha, pois além de ser vista como uma “vadia” ela não conseguia trabalho para se sustentar e sustentar seus filhos.
Já hoje vejo que mulheres não suportam mais sofrimentos ao lado de seus companheiros e seguem sua vida com ou sem outro companheiro. Essas mulheres são verdadeiras guerreiras que fizeram de tudo para dar uma vida digna aos seus filhos, lutaram com tudo em nome de um ideal e uma causa nobre. As rugas nos seus rostos além de serem marcas do tempo são as a provas do seu trabalho para conquistar um lugar na sociedade, uma luta difícil mais alcançada por elas.
Referências
MENDONÇA, Aline Andrade Mendonça et al. Histórias de vida, de cinco mulheres, na terceira idade, cuidadoras de idosos, na cidade de Belo Horizonte. Enfermagem