5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Em consonância com a abordagem interacionista, em que a linguagem é forma de ação no mundo e deve ser tomada como processo e não como estrutura, esta pesquisa aponta uma perspectiva para a clínica da linguagem que difere da encontrada nas primeiras concepções de clínica. Inicialmente, a clínica dos distúrbios da linguagem foi revestida de uma postura pouco solidária, incorporando principalmente o comportamento médico vigente, indo ao encontro de seus pacientes com conceitos já previamente estabelecidos acerca das patologias e do processo reabilitação. Dessa clínica, ficaram de fora o sujeito, como indivíduo circunscrito na linguagem, e a linguagem, meio e fim desse processo.
Nesta pesquisa, gêneros textuais foram utilizados como ponto de partida para atividades dialógicas com os afásicos e funcionaram como um excelente recurso para esse fim. Selecionados dentro da experiência sócio-histórica de cada afásico, foram fundamentais para o processo de interação e contextualização das atividades de linguagem. A utilização de gêneros remete aos usos sociais da linguagem e aproximaram esse sujeito do mundo que o cerca.
Pôde-se perceber que, quando inserido no processo de interação em situações significativas e motivadoras, mais se identificam as competências linguísticas do afásico, seja através da língua, processos semiológicos e/ou recursos de significação não-verbal. Portanto, o planejamento das atividades devem se pautar na realidade, nos hábitos e nos interesses deste sujeito, de modo que ele se sinta contemplado nesta proposta.
Significativamente, as adequações prosódicas, gestos e outras semioses participam do enunciado dos afásicos e colaboram com ele, tornando-se elementos constitutivos de sentido. O uso da escrita, nem sempre normativo, oferece uma espécie de contiguidade com a fala e favorece o processo de construção de sentido quando construindo colaborativamente com o interlocutor.
Nem sempre a interferência por parte do terapeuta colabora na construção de sentido do afásico. É preciso estar atento e permitir que o afásico discorra o seu enunciado sem interrupções, a fim de favorecer a organização e desenvolver suas idéias de modo que possa dar conta da progressão e continuidade do discurso.
Diante do observado, considera-se relevante rever os valores atribuídos aos sinais e sintomas apresentados na fala desses sujeitos. Nos episódios de utilização da fala do outro para constituir o próprio discurso, essa repetição atuou mais como estratégia para a comunicação do que como sinal de morbidade. Associada às variações entoacionais, esse tipo de repetição confere subjetividade aos enunciados do afásico, dando-lhes poder de atuar sobre a linguagem e se assumir nesse enunciado.
As repetições de sílabas ou de parte das palavras durante todo o enunciado mostra-se uma faca de dois gumes. Numa audiência apressada pode comprometer a compreensão, o interlocutor se sente tentado a intervir. Por outro, identificou-se que serve ao afásico como recurso de comunicação, para o planejamento do texto e que, por vezes, favorece a elucidação da palavra-alvo. A repetição opera mais como recurso comunicativo com fins à interação do que como sintoma negativo, próprio da classificação tradicional das afasias.
Compreende-se que na afasia há linguagem mesmo diante dos sintomas próprios descrito nas semiologias das afasias. Todos os afásicos que participaram desta pesquisa sofreram lesão cerebral já adultos, o que implica dizer que tiveram (e têm) uma prática em atos de linguagem e, especialmente em ações sociais. A afasia, por si só, não apaga essa experiência de vida, ao contrário exige que ele opere com os meios que possui, à sua maneira, para fins comunicativos.
Os gêneros textuais, por remeterem a contextos específicos, fomentaram associações com outras experiências do sujeito, possibilitando a emergência de aspectos relacionados à elaboração do seu enunciado, sejam eles de natureza lingüística, sejam por outros recursos semióticos. Conclui-se, portanto, que o trabalho pautado em gêneros textuais aproximou os sujeitos da linguagem em uso, funcionando como disparador nas sessões terapêuticas e norteador para a construção de sentido entre os interlocutores, no caso, terapeuta e paciente.
Dentro dessa perspectiva, a comunicação implica na compreensão e interpretação dos enunciados dentro de um contexto partilhado entre os interlocutores e da colaboração entre eles no processo de construção de sentido. Nesse sentido, o fonoaudiólogo tem papel fundamental no processo solidário de construção de sentido, de maneira que possa desenvolver estratégias que favoreçam a superação das dificuldades do afásico e o encoraje na retomada de seu lugar como agente social.
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TERMO DE COMPROMISSO LIVRE E ESCLARECIDO AO PACIENTE COM AFASIA
Título da pesquisa: Produção escrita e oralidade: favorecendo a interação lingüística do afásico
Eu, , abaixo assinado, dou meu
consentimento livre e esclarecido para minha participação como voluntário do projeto supracitado, sob a responsabilidade das pesquisadoras Poliane Maria Gonçalves e Marigia Ana Aguiar.
Assinando este Termo de Consentimento, estou ciente de que:
O objetivo da pesquisa é favorecer a reabilitação da fala de pessoas acometidas pela afasia, utilizando a escrita como uma estratégia;
Que nas sessões da terapia fonoaudiológica serão executadas atividades de produção escrita e que estas servirão de material de pesquisa;
Como participante da pesquisa tenho a garantia de acesso, em qualquer etapa do estudo, sobre quaisquer esclarecimentos de eventuais dúvidas que possam ser retiradas com a pesquisadora;
É garantida a minha liberdade de retirada deste consentimento a qualquer momento, deixando de participar do estudo, sem qualquer prejuízo;
Tenho o direito de ser mantido atualizado sobre os resultados parciais da pesquisa e caso seja solicitado, todas as informações serão fornecidas;
Não existirão despesas ou compensações pessoais para o participante em qualquer fase do estudo. Também não há compensação financeira relacionada à sua participação;
Meus dados serão mantidos em sigilo e os resultados gerais obtidos através da pesquisa serão analisados em conjunto com o orientador da pesquisa, utilizados apenas para atingir o objetivo da pesquisa exposto acima. Estão incluídas nesses objetivos, as publicações, na literatura cientifica especializada, as quais omitem tudo o que possa identificar os participantes da pesquisa.
Obtive todas as informações necessárias para poder decidir conscientemente sobre a minha participação na referida pesquisa. Li e entendi as informações precedentes, descrevendo este estudo e, todas as minhas dúvidas foram respondidas satisfatoriamente. Dou o meu livre consentimento para participar deste estudo e não abro mão de nenhum direito lega que eu possua.
Recife, de de 2010.
Nome do voluntário: RG:
Assinatura do voluntário
Pesquisadora: Profa. Dra. Marígia Ana de Moura Aguiar. RG: 709039 / SDS-PE
Pesquisadora: Poliane Maria Gonçalves. RG: 6309460 / SSP-PE