PERSPECTIVAS DO ACADÊMICO DE EDUCAÇÃO FÍSICA NO
ENSINO DA ANATOMIA HUMANA
Altair Argentino Pereira Júnior1 Resumo: Este estudo objetivou mostrar o conhecimento e as expectativas dos discentes ao
iniciar a disciplina de Anatomia Humana. Trata-se de um estudo de levantamento descritivo e exploratório com a participação de 43 acadêmicos do curso de Educação Física, de ambos os sexos, com idade média de 22,95 ± 5,53 anos. Os dados foram coletados através de um questionário com questões relacionadas à disciplina de Anatomia Humana. Como resultado, foi observado que os participantes relataram saber o que a Anatomia estuda, e pensam que a disciplina apresenta grau de moderado a difícil de compreensão. Acham importante estudá-la para conhecer e aprender sobre o corpo humano, pois irão trabalhar com pessoas em diferentes locais de prática de atividade física. Conclui-se que se faz necessário o uso de metodologias de ensino diferenciadas, com a finalidade de proporcionar aos acadêmicos o aprendizado da Anatomia Humana, pois esta é de extrema importância na formação do profissional de Educação Física.
Palavras-chave: Anatomia; Educação; Educação Física; Treinamento.
PERSPECTIVES OF THE ACADEMIC OF PHYSICAL EDUCATION ON THE TEACHING OF HUMAN ANATOMY
Abstract: This study aimed to show the knowledge and expectations of the students when initiating the discipline of Human Anatomy. This is a descriptive and exploratory study with the participation of 43 academics of the Physical Education course, of both sexes, with a mean age of 22.95 ± 5.53 years. The data were collected through a questionnaire with questions related to the discipline of Human Anatomy. As results, it was observed that the participants reported knowing what Anatomy studies, and they think that the discipline presents a moderate to difficult degree of comprehension. They find it important to study it to get to know and learn about the human body because they will work with people in different places of physical activity practice. It is concluded that it is necessary to use differentiated teaching methodologies, in order to provide the students with the Human Anatomy learning, since this is of extreme importance in the formation of the Physical Education professional.
Key-words: Anatomy; Education; Physical Education and Training.
1. INTRODUÇÃO
Anatomia é a ciência que estuda a constituição e o desenvolvimento dos seres organizados, ou seja, é o estudo da estrutura do corpo (DANGELO e FATTINI, 2002; MOORE e DALLEY, 2007).
O estudo da anatomia humana vem sendo feito há séculos. Acredita-se que tenha começado pelos egípcios, depois vieram os mesopotâmios se dedicando aos estudos em cavalos, sendo considerados os precursores da veterinária, passando por grandes estudiosos como: Galeno, Leonardo da Vinci, Michelangelo e Andreas Versallius. Porém o profissional atual tende a formar um perfil que misture suas
titulações, vivências e experiências profissionais, método de ensino e o domínio das tecnologias modernas (PIAZZA e REPPOLD FILHO, 2011).
Ramos et al. (2008) dizem que o processo ensino-aprendizagem se apresenta complexo e difícil no que diz respeito ao ensino em morfologia, uma vez que a memorização de estruturas infindáveis e com nomes bastante complexos torna a tarefa monótona demais e desestimulante para a maioria dos alunos, quando não ministrada de maneira mais participativa. O modo como o educador aborda o conteúdo pode repercutir positivamente ou negativamente no processo de ensino-aprendizagem do educando. Para tanto, torna-se de fundamental importância a busca de métodos inovadores que facilitem a apreensão dos conhecimentos pelos alunos (CAMPUS NETO et al., 2008).
O ensino deste componente é caracterizado pela divisão entre aulas teóricas, em que a aula expositiva é a metodologia mais comum (Fornaziero et al., 2010; Sugand; Abrahams e Khurana, 2010), e aulas práticas, realizadas no laboratório e baseadas, principalmente, na identificação das estruturas anatômicas em peças cadavéricas e modelos plásticos, com auxílio de um atlas anatômico.
Para que este conhecimento se concretize, são aplicadas diversas metodologias, dentre elas, o uso de cadáveres humanos dissecados, que representam a forma mais antiga e uma das mais utilizadas ainda nos dias de hoje para o ensino da anatomia humana. Associados a eles, diversos recursos auxiliam no processo de ensino-aprendizagem, como o uso de peças anatômicas de plástico e meios eletrônicos (vídeos, mídias digitais) (COSTA e LINS, 2012).
Na concepção de Weineck (1990), há muitos anos os conhecimentos de anatomia humana constituem matéria de exame na formação do professor de Educação Física. Eles são considerados necessários à formação do treinador. Também nas escolas, o seu ensino faz parte da instrução teórica nas aulas de educação física, contribuindo para a melhor compreensão das sequências motoras executadas durante a prática dos esportes.
O presente trabalho tem como objetivo mostrar o conhecimento e as expectativas dos discentes ao iniciar a disciplina de Anatomia Humana.
2. METODOLOGIA
Trata-se de um estudo de levantamento descritivo-exploratório. Para Vianna (2001), a pesquisa exploratória desenvolve-se para obter a compreensão sobre uma
situação, problema, fato ou um determinado caso, partindo de estudos realizados por vários autores ou vivenciados por diferentes pessoas. É uma leitura sobre tudo que foi escrito ou relatado a respeito do assunto para entendê-lo; possibilita uma explicação maior e um aprofundamento de estudos sobre um determinado assunto ou área, com vistas ao seu entendimento mais qualificado ou à descoberta de novas relações. Gauthier et al., (1998, p. 12): “O método de pesquisa descritivo é um delineamento da realidade, uma vez que esse descreve, registra, analisa e interpreta a natureza atual ou processos dos fenômenos”.
Os locais de escolha para coleta de dados desta pesquisa foram duas instituições de ensino superior: Faculdade Avantis, localizada na cidade de Balneário Camboriú - SC e o Centro Universitário de Brusque, Brusque - SC. Os participantes foram acadêmicos do curso de Educação Física, Licenciatura e Bacharelado, participaram 43 acadêmicos de ambos os sexos, com idade variando de 17 a 23 anos. Para compor os sujeitos da pesquisa foram selecionados os acadêmicos que estavam iniciando a disciplina de Anatomia Humana, no primeiro dia de aula, sem que os mesmos tivessem o contato prévio com o conteúdo ou plano de ensino, foi solicitada a assinatura do termo de consentimento livre e esclarecido, para a participação no estudo.
Foi solicitado que os participantes respondessem um questionário composto por cinco questões elaboradas pelo docente da disciplina, com base em sua experiência no ensino da Anatomia Humana. As questões possuíam características fechadas e abertas, nas quais o acadêmico podia descrever sobre a pergunta realizada.
Após, os dados dos questionários foram analisados e tabulados com o uso do
Software Microsoft Excel, sendo expostos e discutidos por meio de tabelas e gráficos.
3. RESULTADOS E DISCUSSÃO
No início do questionário, levantou-se a procedência escolar dos participantes. Sendo assim, verificou-se que 21% dos pesquisados cursaram o ensino médio em escola particular e 79% em escola pública. Um levantamento realizado na Universidade de Campinas – Unicamp, para traçar o perfil social dos estudantes desta universidade, constatou que aproximadamente um terço dos alunos matriculados na Unicamp é oriundos da escola pública (UNICAMP, 2004).
A questão número 1 tinha por objetivo conhecer se o acadêmico sabia o que a Anatomia estuda; 4,6% dos participantes afirmaram não saber do que se trata o estudo da Anatomia Humana, no entanto 95,4% afirmaram que sim, sabem o que a Anatomia estuda. Entre as respostas discursivas, dos que afirmaram saber do que se trata o estudo da Anatomia, a maioria dos alunos citou que a Anatomia Humana estuda o corpo humano, os ossos, articulações e os músculos que formam o ser humano. Conforme Piazza e Reppold Filho (2011), para uma melhor compreensão sobre os três tipos em que são baseados os estudos de anatomia nas universidades, sendo eles: a anatomia sistêmica, sistemática ou descritiva estuda os sistemas do corpo humano, cada sistema é um conjunto de órgãos que contribuem para uma função específica. Mesmo sendo uma disciplina importante e esperada pelos discentes do curso de Educação Física, há algumas dificuldades para aprender a mesma, e esse fato pode estar entrelaçado com a falta de familiaridade do aluno com as terminologias anatômicas, que, em sua maioria, são derivadas do latim e do grego; pelo preparo inadequado e dificuldade de renovar as peças cadavéricas, o que acaba dificultando a visualização, além de muitas estruturas serem de tamanho pequeno; como também falta de atenção e de motivação por parte dos alunos (SILVA e BRITO, 2013).
A questão de número dois perguntava: Você acha importante o estudo da Anatomia Humana para a formação do profissional de Educação Física? Todos os participantes foram unânimes afirmando que sim. Nesta questão, foi solicitado que, em caso afirmativo, fosse escrito uma justificativa (Tabela 1).
Foram selecionas e agrupadas as justificativas que mais foram citadas:
Justificativas n %
Para entender o corpo humano e suas estruturas Devido o profissional trabalhar com o corpo humano Devido o profissional atuar em academias, clubes Para identificar problemas físicos nos alunos
25 10 5 3 58 23 12 7
Tabela 1: Importância do estudo da Anatomia Humana na formação profissional Fonte: dados coletados pelo pesquisador
Nesta pesquisa, observou-se que 58% dos participantes acham importante o estudo da Anatomia Humana para o profissional de Educação Física entender o corpo humano e suas estruturas.
Os conhecimentos anatômicos são imprescindíveis para o profissional da área de saúde, o qual irá lidar, por toda a sua vida profissional, com o corpo humano. A Anatomia é a base para o entendimento de outras disciplinas fundamentais, como a Fisiologia, a Patologia e a Clínica, por exemplo. Por vezes, os estudantes somente percebem a devida importância da Anatomia ao se deparar com situações da vida diária já durante o exercício da profissão (CALAZANS, 2013).
Em um estudo realizado para investigar o ensino de anatomia humana nos cursos de Educação Física da região metropolitana de Porto Alegre, todos os professores, quando questionados sobre a importância da disciplina de anatomia humana para os cursos de Educação Física, responderam sim, de forma unânime (PIAZZA e REPPOLD FILHO, 2011). Este dado encontrado está de acordo com o que foi levantado nesta pesquisa, onde se observa que 23% dos participantes relatam que a disciplina em questão é importante devido ao fato de o profissional trabalhar diretamente com o corpo humano.
Outro achado, observado em 12% das respostas obtidas nesta pesquisa, foi que o estudo da Anatomia se faz necessário, devido à atuação profissional em academias e clubes esportivos. Foi-se o tempo em que o profissional de Educação Física era apenas um professor. Hoje, seus campos de atuação vão desde a sala de aula, para os licenciados, até academias de ginástica, piscinas, clubes esportivos, clubes de recreação, condomínios, clínicas, empresas (ginástica laboral), hospitais, hotéis, entre outros locais. Já 7% dos participantes acham importante para identificar problemas físicos nos alunos. Nos dias atuais, o profissional de Educação Física está incorporado em diferentes serviços de atendimento à saúde humana, sendo assim, deve ter sua formação repensada, uma vez que suas atribuições se tornam muito amplas e diferentes da sua formação tradicional (ANJOS e DUARTE, 2009).
A questão número três perguntava se, entre os acadêmicos participantes, algum deles já haviam cursado a disciplina de Anatomia Humana, destes 12% relataram que sim e 88%, não, de acordo com o exposto na Figura 1.
Figura 1: Percentual de acadêmicos que já cursaram ou não a disciplina de Anatomia
Humana
Fonte: dados coletados pelo pesquisador
A questão número quatro perguntava qual o grau de dificuldade que os alunos pensavam em relação à disciplina que estavam iniciando o estudo. Entre as opções que podiam assinalar, estavam: grau fácil, grau moderado, grau difícil. Nas respostas obtidas, 43,5% dos participantes selecionaram que o grau de dificuldade seria moderado, e 53,5%, grau difícil, em relação ao que esperavam da disciplina.
Figura 2: Grau de dificuldade que a disciplina apresenta aos acadêmicos.
Fonte: dados coletados pelo pesquisador
Os resultados deste estudo em relação ao grau de dificuldade da disciplina corroboram com os achados de Ramos et al. (2008). Este diz que o processo ensino-aprendizagem se apresenta complexo e difícil no que diz respeito ao ensino em morfologia, uma vez que a memorização de estruturas infindáveis e com nomes bastante complexos torna a tarefa monótona demais e desestimulante para a maioria dos alunos, quando não ministrada de maneira mais participativa.
Nessa metodologia, pode-se verificar a ênfase dada ao aspecto memorístico (Montes e Souza, 2010), o qual inviabiliza a aprendizagem significativa e contextualizada e afasta-se das novas tendências educacionais em que o aluno é o centro do processo e o professor atua como mediador ou facilitador da aprendizagem. Segundo Rodrigues e Caldeira (2008), a velocidade na produção de conhecimento do mundo globalizado é incompatível com uma educação baseada, exclusivamente, na transmissão de saberes, sendo desejável, de outro modo, que o estudante, nesse processo, aprenda a aprender.
O modo como o educador aborda o conteúdo pode repercutir positivamente ou negativamente no processo de ensino-aprendizagem do educando. Desta maneira, as teorias de aprendizado propõem que, quando o aluno é solicitado e estimulado a construir seu próprio conhecimento, com orientação e incentivo dos professores, este saber se fundamenta de forma mais profunda e duradoura (LIMA e PEREIRA, 2009).
Na tentativa de romper com a metodologia de ensino baseada em um modelo memorístico, utilizada há mais de um século, no ensino de Anatomia Humana, surgem algumas alternativas pedagógicas como pintura no corpo e simulação virtual (Sugand; Abrahams e Khurana, 2010), participação ativa dos alunos em aulas práticas (Braz, 2009; Montes e Souza, 2010), confecção de estruturas anatômicas com materiais recicláveis (Tobase e Takahashi, 2004), elaboração de atlas digital e utilização de casos clínicos (Montes e Souza, 2010). Desta forma, pode-se favorecer o aprendizado, deixando o ensino da Anatomia de forma mais dinâmica e facilitada, tentando assim quebrar este conceito inicial do grau de dificuldade da disciplina, o que foi constatado neste estudo, onde 53,5% acham a disciplina difícil, e 43,5%, moderado.
É vista uma grande dificuldade no aprendizado dos discentes em relação a Anatomia Humana. Por sua vez, os docentes precisam repensar para corresponder às expectativas deste novo e atual momento, para contribuir para a melhoria da qualidade do processo de aprendizagem dos futuros profissionais de saúde e ciências biológicas a partir das reflexões sobre o ensino da Anatomia Humana. Basso (1998) diz que não é prudente prender-se a práticas pedagógicas rotineiras, com o mesmo modelo, muitas vezes alicerçadas em ideias muito simplificadas, que já perderam o potencial para a análise crítica da realidade e o enfrentamento dos problemas educacionais. Assim, o professor deveria interpretar melhor o seu papel, saindo da postura tradicional e criando situações para transformar o ensino em um processo
agradável e frutífero através de outros métodos educativos mais adequados e viáveis para a geração vigente. Neste seguimento, Demo (2012) relata que o papel do professor é organizar o trabalho produtivo do aluno, com problematizações atrativas e realistas dos conteúdos curriculares, de sorte que ele, em vez de frequentar aula, pesquise sob orientação docente. Necessita-se de professor-autor, uma habilidade que é imprescindível para problematizar com qualidade visível: transformar conteúdos curriculares em problemas pertinentes e interessantes.
A questão de número cinco era a seguinte: Qual a sua perspectiva em relação à disciplina de Anatomia Humana?
Foram selecionas e agrupadas as justificativas que mais foram citadas (Tabela 2).
Justificativas n %
Aprender, conhecer sobre Anatomia
Ter base para o ensino e para exercer a profissão Acha disciplina difícil e desafiadora
31 8 4 72 19 9
Tabela 2: Perspectiva em relação à disciplina Fonte: dados coletados pelo pesquisador
Observou-se que 72% dos participantes deste estudo possuem a perspectiva de aprender e conhecer sobre a Anatomia Humana. De acordo com Ferraz e Belhot (2010), na educação, decidir e definir os objetivos de aprendizagem significa estruturar, de forma consciente, o processo educacional de modo a oportunizar mudanças de pensamentos, ações e condutas. Neste sentido, se torna possível oportunizar o conhecimento almejado pelos acadêmicos conforme o que foi observado nesta pesquisa.
Neste contexto, um dos instrumentos existentes que pode vir a facilitar esse processo nos cursos superiores é a taxonomia proposta por Bloom, que tem, explicitamente, como objetivo ajudar no planejamento, organização e controle dos objetivos de aprendizagem (FERRAZ e BELHOT, 2010). Como já exposto anteriormente, a disciplina de Anatomia Humana representa aos ingressantes um grau de aprendizado de moderado a difícil, portanto, se faz necessária a elaboração de estratégias de ensino diferenciadas e com sequência lógica para o bom entendimento da mesma.
Baseado no aspecto cognitivo da Taxionomia de Bloom, que está relacionada ao aprender, dominar um conhecimento, tem-se uma excelente ferramenta para proporcionar o crescimento dos acadêmicos na aquisição dos conhecimentos da Anatomia Humana. Seguindo o modelo hierárquico proposto por Bloom, partindo do conhecimento, compreensão, aplicação, análise, síntese e avaliação, encontra-se a possibilidade de preencher o que os acadêmicos esperam da disciplina, ou seja, o aprender, entender e se ter base para o exercício da profissão, o que foi constatado em 19% das respostas, vencendo, assim, o estigma que a disciplina é desafiadora e difícil, conforme 9% das respostas obtidas neste estudo.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os acadêmicos possuem um conhecimento, de modo geral, do que trata o estudo da Anatomia Humana, e da importância desta para a formação do profissional de Educação Física, devido este trabalhar com atividades que envolvem o corpo humano.
Constatou-se, ainda, que a disciplina em questão apresenta um grau de dificuldade de moderado a difícil. Entretanto, os participantes possuem perspectivas sobre a Anatomia Humana para adquirir suporte para o exercício da profissão. Com base no exposto, se faz necessário o uso de novas metodologias de ensino diferenciadas, com a finalidade de proporcionar aos acadêmicos o aprendizado da Anatomia Humana, pois esta é de extrema importância na formação do profissional de Educação Física.
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Submetido: 22 de maio de 2017 Aceito: 21 de agosto de 2017