II - Origem e Atualidade
da Administração Internacional
Como se pode ver pelo ensaio de W oodrow W ilson — que é um a espé c ie de fo to g ra fia de infância da adm inistração — nasceu ela, po r assim dizer, em solo nacional, ou seja, focalizada para os problem as de um pais ou nação.
T ransplantada para o terreno mais restrito das cidades, sofreu — com o aualquer planta que m uda de habitat — transform ações mais ou menos c o n sideráveis, ad qu irind o cara cte rísticas próprias e convertendo-se na administra ção municipal, com o nos fo i dado o ensejo de assinalar, ainda que de relance, no c a p itu lo in tro du tó rio desta o b ra .
Transportada, por outro lado, para o solo Internacional, mais am plo e
diversificado, experim enta ela, igualm ente, alterações bastante profundas e s ig nificativas, num de seus mais recentes desenvolvim entos.
T udo isso é m uito natural e com preensível, princip alm e nte após a for
m ulação do enfoque e co lóg ico da adm inistração, pois, com o já o observava John M errim an Gaus há um quarto de século, “ changes in place, o r the use of
the resources and pro du cts of a place, are coe rcitive in th e ir effects upon pu- b lic a d m in is tra tio n " (5).
E o que Gaus afirm a da adm inistração pública, evidentem ente, é válido, p o r Igual, para a ad m inistração de negócios e para a ad m inistração de modo g e ra l.
Ou, com o Lyman A . Keith e Cario E. G ubellinl colocaram a questão, e rc a ra n d o -a pelo prism a dos negócios e da perspectiva n o rte -a m e ric a n a :
“ Am erican business cannot operate abroad In the same w ay as It does at hom e. Business, no m atter where it is conducted, Is a creature o f its en viron m en t” (6).
Uma nova m odalidade ou d is cip lin a adm inistrativa, a ad m inistração In ternacional, com ca ra cte rística s e peculiaridades próprias, está, pois, em pro-(5) Reflections on Public Administration, Alabama, Unlverslty of Alabama Press, 1948,
p. 13.
(6) Introduction to Business Enterprise, New York, McGraw-HIII Book Company, 1971, p. 579.
cesso de form ação desde o fim da Segunda G uerra M undial e, em especial, nestes últim os quinze ou vinte anos, conform e vem sendo assinalado po r vá rios autores.
John Fayerweather, por exem plo, em volum e consagrado exclusivam ente à adm inistração internacional de negócios, escreve :
"O s negócios internacionais, de certo modo, contam com m ilhares de anos de existência e remontam, além dos fenfcios, aos prim eiros com erciantes dos tem pos prim itivos. Mas, no sentido atual de um gran de número de empresas com produção interlig ada e operações de ven das em toda a terra, constituem eles fenôm eno recente, que somente apareceu nos anos 50” (7).
R ichard N . Farmer, em obra já traduzida para o vernáculo, — depois de afirm ar que a adm inistração internacional, com o cam po esp ecifico de in vestigação e prática, é conceito tão recente que ainda não se chegou a um consenso sobre as suas próprias delim itações ou fronteiras — registra, por sua v e z :
“ Até a década de 1960, pouca reflexão haviam m erecido as ques tões de adm inistração internacional, mas a crescente maré de atividades m ultinacionais, postas em prática por firm as americanas, resultou em uma explosão de publicações de m ateriais dedicados aos negócios e à ad m inistração internacionais” (8).
É o que também afirma, por outras palavras, Franklin R. Root, prefacia- dor do livro de John F a y e rw e a th e r:
“ Os negócios internacionais constituem jovem e exuberante cam po de estudo” .
E mais adiante :
“ Com o advento da em presa m ultinacional, o estudo dos negó cios internacionais explode em todas as direções” (9).
O m undo de nossos dias está, assim, sob o im pacto de uma nova d i mensão da a d m in istra çã o : a dim ensão in ternacional.
(7) International Business Management: A Conceptual Framework, New York, Mc- Graw-Hill Book Company, 1969, p. 1.
(8) Administração Internacional, São Paulo, EPV — Editora Pedagógica Universitária Ltda., 1973, p. 3. (Foi respeitada a redação do tradutor da obra para o português). (9) John Fayerweather, Op. cit., p. vii.
A em presa ou organização — tanto pú blica ou sem i-pública, com o pri vada — se internacionaliza; e a adm inistração, que é a ciê ncia ou arte de ge rir empresas ou organizações, tem de acom panhá-las, internacionalizando-se tam bém .
A dim ensão internacional que a adm inistração fo i ob riga da a assum ir em nossos dias resulta, em verdade, sobretudo de dois novos tipos de o rg an i zação, que passaram a pro lifera r na face da terra, principalm ente depois da Segunda G uerra M u n d ia l:
a) os organism os internacionais; b) as em presas m ultinacionais.
Os prim eiros com eçaram a su rg ir depois da Prim eira G uerra M undial, com o advento da Sociedade ou Liga das Nações, cria da em 1919 pelo T rata do de Versalhes (10).
Foi, todavia, após a Segunda G uerra M undial, com a cria ção da O rgani zação das Nações Unidas (ONU), que esses organism os, em verdade, passaram a se m u ltip lica r sobrem aneira.
A ONU, por exem plo, o mais conhecido e em inente de todos os org a nism os internacionais, com preende hoje um a fa m flia de dezesseis organizações com quase 5 0 .0 0 0 servidores e sedes em vários patses, com o se pode ve r pela discrim inação a s e g u ir :
Em Nova Iorque :
— Nações Unidas, propriam ente ditas, ou ONU, tout-court, c ria d a a 24 de ou tubro de 1945.
Em W ashington:
— Banco Internacional de R econstrução e Desenvolvim ento (BIRD), ou Banco M undial, cria do a 27 de dezem bro de 1945.
t— Fundo M onetário Internacional (FMI), cria do a 27 de dezem bro de 1945.
— C orporação F inanceira Internacional (CFI), c ria d a em ju lh o de 1956.
(10) Umas poucas organizações internacionais, que hoje fazem parte da famflia das Nações Unidas, como a União Internacional de Telecomunicações (UlT) e a União Postal Universal (UPU), foram criadas no século passado, a saber, em 1865 e em 1875, respectivamente. Mas, são exceções.
— Associação Internacional de Desenvolvimento (AID), cria da a 24 de setem bro de 1960 (11).
Em M ontreal:
— Organização da Aviação Civil Internacional (OACI), cria da a 4 de abril de 1947.
Em Genebra :
— União Internacional de Telecom unicações (UIT), cria da em 1865. — União Postal Universal (UPU), cria da em 1875.
— O rganização Internacional do Trabalho (OIT), cria da a 11 de abril- de 1919.
— O rganização M undial de Saúde (OMS), cria da a 22 de ju lh o de 1946. — O rganização M eteorológica M undial (OMM), cria da a 23 de m arço de
1950.
— Acordo Geral sobre Tarifas e Com ércio (GATT), criado em 1948.
Em P a ris :
— O rganização das Nações Unidas para a Educação, a C iência e a Cultura (UNESCO), cria da a 4 de novem bro de 1946.
Em R om a:
— O rganização das Nações Unidas para a A g ricu ltu ra e a Alim entação (FAO), cria da a 16 de outubro de 1945 (12).
Em L o n d re s:
— O rganização C onsultiva M arítim a Intergovernam ental (OCMI), cria da a 6 de m arço de 1948 (apesar de que, praticam ente, só em 1958 ha ja entrado em funcionam ento efetivo).
(11) Não confundir, obiviamente, com a USAID (United States Agency for International Development), que é o organismo da administração norte-americana para o de senvolvimento internacional.
(12) As siglas, praticamente universais, do GATT, da FAO e da UNESCO, resultam das suas denominações em Inglês : General Agreement on Tariffs and Trade, U.N. Educational, Scientific and Cultural Organlzatlon e Food and Agricultura Organlzation of the U.N.
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Em V ie n a :
— A gência Internacional de Energia A tôm ica (AIEA), cria da a 29 de ju lho de 1957 (13).
As empresas m ultinacionais, por sua vez, surgiram em data mais recen- fe ainda, conform e ficou indicado atrás, ou seja, principalm ente nos últim os três ou quatro lustros.
Resultaram, sobretudo, da necessidade que tiveram os paises desen volvidos de mudarem a sua p o lític a com ercial e industrial para com boa parte dos paises subdesenvolvidos ou em desenvolvim ento.
Em verdade, até a Segunda G uerra M undial, lim itavam -se, praticam ente, os paises desenvolvidos a com erciar, pura e sim plesm ente, com os paises em desenvolvim ento, exportando-lhes bens m anufaturados que produziam em seu p róprio te rritó rio com adm inistração e pessoal nacionais.
A pós a Segunda Guerra M undial e, em especial, a p a rtir da década de 1950, passaram as grandes indústrias das nações desenvolvidas a instalar-se nas nações em desenvolvim ento, não só para am pliar os seus m ercados e, inclusive, u tiliza r equipam entos tornados em parte obsoletos nos países de o ri gem pelos progressos da tecn olo gia , com o tam bém por e xigên cia de m uitos governos das nações em desenvolvim ento, que aspiravam tam bém a in dustria lizar-se e de ixar de serem meros produtores de m atérias-prim as, que exp orta vam, nem sem pre a preços convenientes, em tro c a de bens m anufaturados.
É o que reconhece, entre muitos outros, Franklin R. Root, ao escrever as seguintes palavras, que deixam os de tra d u zir para não lhes tira r o sabor tip ic o :
"B e fo re W orld W ar II the cha racteristic response o f Am erican com - panies to m arket o p po rtu nitie s abroad was via d irect exp ort from home- based plants. A lthough d irect exports remain im portant, the most dynam ic form of international business today is the transfe r o f m anagem ent, tech - nology, and cap ital v ia d irect investm ent in foreign eco no m ies. A new
business organization — the m ultinational Corporation — has come to the fore, and it now sets the pace fo r international business th rou gh ou t the w o rld ” (14).
E H erbert Hicks não pode, igualm ente, de ixar de reconhecer, po r sua
v e z :
(13) A . Fonseca Plmentel, A Paz e o Pão (Desafio às Nações Unidas), 2: ed., Rio
de Janeiro, Fundação Getúllo Vargas, 1971, pp. 14-17. — Para uma visão panorâ mica dos principais organismos Internacionais do mundo contemporâneo, veja-se o Apêndice B.
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“ Acham -se em m archa algum as tendências altamente sig n ific a ti vas no sentido de se moverem os negócios cada vez mais em opera ções in ternacionais. A titu lo de exem plo, m encione-se que cerca de 137 corporações norte-am ericanas possuem, cada uma, subsidiárias em um núm ero de países que variam entre 10 e 14. Com panhias holandesas têm 35 subsidiárias nos Estados Unidos, enquanto empresas norte-am e ricanas contam com 530 subsidiárias na Holanda. Dentro das fronteiras do Japão existem 465 firm as internacionais, das quais 17 têm sede na Alem anha O cidental, 33 na Inglaterra e 373 nos Estados Unidos.
“ Essa internacionalização dos negócios criou uma quantidade de novos desafios para a adm inistração de firm as m ultin aciona is. E special mente com plexa é a avaliação das potencialidades de m ercado para a organização nas contingências econôm icas, po lítica s e sociais, não raro pouco conhecidas, de outros países. Há m uita possibilidade de que não poucos leitores do presente texto venham a lid a r com tais problem as. Em vez de se deslocarem para outro ponto do país — com o fo i usual nos últim os cincoenta anos — o form ando de hoje tem cada vez mais chance de despender uma boa parte de sua v id a trabalhando no ex te rio r” (15).
Em breves palavras, com o se expressam Keith e G ubellini, já c ita d o s : “ Over the years ou r involvem ent business overseas has shifted from foreign trade — buying and seiling in foreign m arkets — to the building and operating of business abroad” (16).
Como resultado disso tudo, conform e o dem onstraram , inclusive ao m un do leigo, Jean-Jacques Servan-Schreiber e Jam es M cM illan & Bernard Harris, as m ultinacionais, principalm ente de origem norte-am ericana, dom inam , de m o do absoluto, o m undo dos negócios internacionais (17).
Daí a necessidade, com o exigência inelutável de nossos dias, de uma adm inistração internacional, apta a lid a r adequadam ente com os problem as de produção, recursos humanos, orçam ento, organização e m étodos, m aterial, co m unicações, serviços ge iais e tc ., desse com plexo de organism os internacionais e empresas m ultinacionais que caracterizam o mundo de ho je.
(15) The Management of Organizations : A Systems and Human Resources Approach. 2nd ed., New York, McGraw-Hili Book Company, 1972, p. 488.
(16) Lyman A . Kelth e Cario E. Gubellini, Op. cit., p. 579.
(17) Le défl amérlcain. Paris, Editlons du Seull, 1967, do primeiro, e A Invasão Eco nômica Americana, Rio de Janeiro, Editora Expressão e Cultura, 1968, dos últimos.