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BACURAU
E
OS
MUSEUS:
breves conexões
Andreza Mara da FonsecaINTRODUÇÃO
Este ensaio foi escrito para tentar estabelecer breves conexões entre o filme Bacurau e os museus. Estabelecer estas conexões que podem sucitar algumas reflexões acerca da relação entre a sociedade e os museus como forma de valorização e manutenção das culturas e das vidas. À vista disso, intuito deste texto é tentar traçar um link entre o filme e a relação do “Museu de Bacurau” com as possibilidades educativas dos museus na nossa sociedade no que diz respeito à visão destes equipamentos como espaços de memória viva, de valorização da cultura, de resistência para ver o passado com as lentes do presente de maneira a intervir e projetar o futuro.
“ Bacurau”, 2019, o premiado1 filme longa-metragem de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, em sua sinopse descreve que pouco após a morte de dona Carmelita, aos 94 anos, os moradores de um pequeno povoado localizado no sertão brasileiro, chamado Bacurau, descobrem que a comunidade não consta mais nos mapas. Alguns acontecimentos estranhos sucedem essa morte como falta de energia, apagões de comunicação e mudança no comportamento de animais. Um grupo de estrangeiros em uma espécie de caça humana começa a aterrorizar os moradores, os habitantes chegam à conclusão de que estão sendo atacados. Falta identificar o inimigo e criar coletivamente um meio de defesa.
A sinopse envolvente e convidativa, condiz com o filme que apresenta cenas interessantes como a que mostra a placa de entrada da cidade "Se for, vá na paz" indicando a localização de Bacurau, que aponta desde a entrada, nesta leitura, a resistência do moradores daquele local. Resistência, agilidade e capacidade estratégica empregadas desde o nome, pois a cidade é homônima a uma ave de hábitos noturnos muito ágil, que caça à noite e se camufla durante o dia, comum no Brasil, que resiste às intempéries, já que parece pequena e frágil , mas quando abre suas asas possui quase dois metros de envergadura e pega suas presas, insetos, em pleno voo.
A apresentação da sinopse e a breve explicitação do nome da cidade serve para contextualizar a escrita e situar o leitor, mas a intenção deste texto não é tecer uma análise aprofundada sobre a ave ou o filme Bacurau, nem sobre o cinema nacional e suas influências, para interligar as interfaces futurista, real, metafórica ou literal. Nem mesmo discorrer sobre as alegorias da violência, fantasias, didatismos, apagamento e radicalismo utilizadas nas cenas e narrativas do filme2 ,ainda que entendendo a importância destas discussões. Isso porque não se tem a pretensão de fazer críticas de arte, nem de cinema e sim apontar algumas possíveis contribuições sobre o potencial educativo dos museus por meio das referências do filme.
Dessa forma, intuito deste texto é tentar traçar um link entre o filme e a relação do “Museu de Bacurau” com as possibilidades educativas dos museus na nossa sociedade no que diz respeito à visão destes equipamentos como espaços de memória viva, de valorização da cultura, de resistência para ver o passado com as lentes do presente de maneira a intervir e projetar o futuro. Pensar nesta projeção para o futuro e intervenção do vivido partindo de referências próprias e dos acervos dos museus flerta com o viés afrofuturista como bem apontam Fabio3 Kabral e Kênia Freitas4, que em livre interpretação5, interroga o passado e o presente reinterpretando-os sob suas referências, com vistas à mudança de pensamento para um futuro diferente.
CONEXÕESENTREMUSEUSEOFILMEBACURAU
Este exercício do olhar e do pensar pode potencializar o surgimento de novos olhares e conhecimentos para as vivências, fatos históricos e os acervos dos museus que pode proporcionar essa leitura crítica. Além de ampliar rede de relações, de repertórios culturais, de experiências e estratégias de resistência para que cada visitante analise, com olhar atento, os acervos destes museus e crie suas próprias narrativas sob a ótica de suas vivências culturais.
Os museus possuem identidades diversas que se modificaram ao longo dos tempos, com diferentes dimensões e contextos (JULIÃO, 2006; SUANO, 1986). O Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM), afirma:
Consideram-se museus, para os efeitos desta Lei, as instituições sem fins lucrativos que conservam, investigam, comunicam, interpretam e expõem, para
2
https://www.institutodecinema.com.br/mais/conteudo/o-que-podemos-esperar-de-bacurau-filme-de-kleber-mendonca-filho-e-juliano-dornelles e
https://brasil.elpais.com/brasil/2019/10/05/cultura/1570306373_739263.html
3 Fábio Cabral da Silva, mais conhecido como Fábio Kabral, escritor, ator formado pela Casa das Artes de Laranjeiras
(CAL) e estudou Letras na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e na Universidade de São Paulo (USP). https://fabiokabral.wordpress.com/about/
4Kênia Freitas, doutora em Comunicação e Cultura da UFRJ.
https://revistacult.uol.com.br/home/afrofuturismo-tecnologia-ancestralidade/
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fins de preservação, estudo, pesquisa, educação, contemplação e turismo, conjuntos e coleções de valor histórico, artístico, científico, técnico ou de qualquer outra natureza cultural, abertas ao público, a serviço da sociedade e de seu desenvolvimento (IBRAM, 2017).
Expor, comunicar, preservar, educar, por meio dos acervos dos museus, como aponta Fonseca (2019), pois os museus são lugares de ação, conhecimento, memória, experiências, sensações, prazer e envolvimento. Reafirmados como “ ambientes culturais e educativos” (PEREIRA, 2007, p. 10) e trazem as expressões de nossas formas de habitar o mundo, culturas, artefatos, encantamentos. São lugares propícios para a vivência do lazer, da ludicidade, territórios de sentido, percursos construídos.
O filme mostra o museu como lugar de percurso construído e em construção, de memória viva e latente daquela comunidade, como na cena em que os “forasteiros”, que no decorrer da trama se revelam espiões, chegam à localidade, encontram alguns moradores que os indagam sobre o interesse em conhecer o Museu de Bacurau, logo os forasteiros respondem que não, com certo desdém. Esta e outras cenas em que este museu aparecia diversas vezes em close ou em plano de fundo, sugerem, por inferência, a importância daquele equipamento para aquela comunidade.
A tese sobre a relevância foi confirmada no momento do ataque dos gringos/ forasteiros que revelou a dimensão material e imaterial do museu, por meio dos seus registros e artefatos que compunham seu acervo e que foi destacado no momento de resistência e luta pela sobrevivência. A resistência da comunidade escancarada pela luta armada pela vida, utilizando os objeto (armas) que estavam expostos no Museu da Bacurau, mostra como as referências do passado foram reinterpretadas e o conhecimento ressignificado para ações presentes e a perpetuação da comunidade.
O museu de Bacurau foi um lugar de ação, conhecimento, memória, experiências, envolvimento e de manipulação dos objetos. A utilização dos artefatos para a resistência e a manutenção da vida mostra como o conhecimento do passado pode transformar o presente e o futuro
Martha Marandino, Guaracira Gouvêa de Sousa e Daniela Patti do Amaral (2003) destacam a importância dos museus como espaços de educação, iniciando parte da população a termos e conceitos científicos, além de motivar pela observação e manipulação de objetos, ampliar a bagagem cultural e proporcionar formas diferenciadas de aprendizagem.
Em acordo com essa ideia, Junia Sales Pereira (2007) acrescenta que os museus:
[...] são também territórios de educação do olhar, pois neles são encenados gestos, sentidos e movimentos imaginativos diversos. Trata-se de instituição social, cultural e histórica, promotora de argumentos culturais, políticos e éticos, vinculando-se, por isso, a uma temporalidade e às peculiaridades de uma sociedade. São, também, ambientes de encantamento, entretenimento, admiração, confronto e diálogo. (PEREIRA, 2007, p. 17).
No contato com o objeto museal, em espaço e tempo específicos, os visitantes não só aprendem conteúdos, mas também aprendem a aprender. Esse processo não se encerra na visita, permanecendo no pensamento, no imaginário, nos diálogos e na interlocução que pode acontecer neste processo.
Faltou aos forasteiros o exercício do olhar, pois estavam ludibriados pelo manto da falsa superioridade e hierarquização dos saberes por acharem que aquela comunidade era pequena , frágil e de fácil dizimação. Mas eles não sabiam da potência daquela comunidade e como o museu, contribui também para a construção de narrativas críticas quanto a presença no mundo.
Os padrões de poder hegemônicos, excludentes, silenciadores e hierarquizantes da sociedade foram explicitados, dentre outras, tanto nas cenas de caça humana quanto na cena em que os forasteiros são discriminados pelo grupo de estrangeiros, sendo humilhados por serem brasileiros e “se acharem” brancos, salpicando o racismo, a xenofobia e a violência.
Na contramão dessas posturas de segregação e discriminação, a população da comunidade de Bacurau se uniu e construiu estratégias de sobrevivência e de resistência. Uma cena marcante em que o pertencimento e a noção de humanidade contidos nos sujeitos daquela localidade foi a que a forasteira entra numa venda e pergunta para um personagem ( criança):
-Quem nasce em Bacurau é o quê? E a criança responde sorrindo: - Pessoas!
Para além do pertencimento e noção de humanidade, a cena apresenta a importância de se ouvir as crianças, garantindo - lhes a voz e o protagonismo, sendo cidadãos de fato com direitos observados e mantidos. Manuel Jacinto Sarmento (2005) afirma que “as crianças são competentes e têm capacidade de formularem interpretações da sociedade, dos outros e de si próprios” (SARMENTO, 2004, p. 21).
No contexto das preocupações crescentes em torno da produção das identidades por meio do estímulo à valorização e preservação da memória social e coletiva, a frequência de visitas aos museus se configura como um gesto de cidadania e de pertencimento. Torna-se também uma aposta na possibilidade de construção de novas práticas de cidadania, por meio da promoção do acesso aos bens culturais e patrimoniais (DUTRA, 2012).
A valorização da cultura como memória viva que movimenta os seres humanos é apresentada no filme de maneira marcante de o início com funeral de dona Carmelita ( Lia de Itamaracá6) e vai perpassando por outras cenas com práticas culturais por meio das plantas, encontro das famílias para compartilhar os materiais recebidos, atenção aos mais velhos, compartilhamento de informações dentre outros.
Assim, forma-se o pressuposto que os museus, enquanto espaços educativos e socializadores, cumprem a função subliminar de transmitir a sua história com conteúdo material e
6Maria Madalena Correia do Nascimento, mais conhecida como Lia de Itamaracá, nasceu no dia 12 de janeiro de
1944, na ilha de Itamaracá, Pernambuco. Cirandeira, cantora e compositora de coco de roda e maracatu. Acesso em: http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar/index.php?option=com_content&view=article&id=317&Itemid=191.
imaterial. Isso se dá por meio da apresentação das obras, seleção de acervos, entre outros aspectos, e também de um conjunto de símbolos que prestigiam seus objetos expostos.
Essa possibilidade, além de problematizar o presente ao analisar o passado, ainda pode promover novas experiências que podem ampliar suas relações com o conhecimento e a valorização das diversas culturas, podendo transformar o presente e o futuro.
Os museus, como articuladores de contextos em que objetos e artefatos têm valores conferidos pelo poder e força das relações sociais, não podem incorrer no risco de não problematizá-los, cumprindo assim também, suas funções sociais e artísticas, e podendo ser espaço de resistência e luta.
No filme, a cidade de Bacurau que a princípio parecia miserável, esquecida do poder público, que nada tinha a oferecer e fácil de “tirar do mapa”, revela uma população protagonista, presente, atuante, unida, que carregando os referenciais do passado, inclusive os contidos museu, utilizando dos artefatos deste espaço para resistir no presente e se projetar no futuro. Estes objetos e registros da cultura e da memória da cidade estavam cuidadosamente expostos e guardados no museu que foram utilizados coletivamente num momento de perigo, contudo, estes artefatos após a luta foram recolocados nos lugares e outros registros surgiram para ampliar a memória e compor o acervo como as marcas de sangue das paredes.
Criar uma população consciente , protagonista que carrega seus referenciais e utiliza os artefatos culturais para ressignificar o presente e transformar o futuro deveriam ser objetivos da educação como materializada no filme em que a comunidade tem um pertencimento ao local em que vive, suas experiências e memória foram fundamentais para a manutenção da vida e das próximas gerações.
ECONTINUA
O filme, neste texto, foi o fio condutor para as reflexões acerca do potencial educativo dos museus, principalmente por ter sido o alicerce para a resistência da comunidade de Bacurau .
Infere-se também como a cultura material e imaterial , quando valorizadas e vivas como experiências circulantes na sociedade, podem empoderar os sujeitos fornecendo subsídios para a sua existência digna.
O forte viés afrofuturista da trama apresenta a necessidade de valorização da cultura partindo das próprias referências para ler o passado, ressignificar o presente e projetar o futuro de forma a mudar os padrões vigentes, transformando vidas. Os próprios referenciais foram decisivos para a tomada consciência e a assertividade das decisões.
Essa possibilidade, além de problematizar o presente ao analisar o passado, ainda pode promover novas experiências que podem ampliar suas relações com o conhecimento e a valorização das diversas culturas, podendo ser espaço de resistência e de luta.
A educação pode e deve potencializar estes pressupostos ao trabalhar cooperativamente com os museus conectando saberes e se afastando da perversidade dos padrões de poder hegemônicos, excludentes, silenciadores e hierarquizantes da sociedade, para de fato reconhecer e trabalhar positivamente as diversas culturas.
REFERÊNCIAS
DUTRA, Soraia Freitas. Educação na fronteira entre museus e escolas: um estudo sobre as visitas escolares ao
Museu Histórico Abílio Barreto. 2012. Tese (Doutorado) – Programa de Pós Graduação em Educação,
Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2012.
FONSECA, Andreza Mara da. “Aqui não tem máscaras africanas?” A educação étnico-racial em uma EMEI
e a experiência com o percurso território negro em museus de Belo Horizonte. Belo Horizonte, 2019. Dissertação
(Mestrado) – Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais.Programa de Pós-Graduação em Educação
INSTITUTO BRASILEIRO DE MUSEUS. O que é museu? Brasília: IBRAM. Disponível em: <http://www.museus.gov.br/os-museus/o-que-e-museu/>. Acesso em: 17 abril. 2020.
JULIÃO, Letícia. Apontamentos sobre a história do museu. In: Caderno de Diretrizes Museológicas. Brasília: Ministério da Cultura / Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional/ Departamento de Museus e Centros Culturais; Belo Horizonte: Secretaria de Estado da Cultura/ Superintendência de Museus, 2006.
MARANDINO, Martha; SOUSA, Guaracira Gouvea de; AMARAL, Daniela Patti. A ciência, o brincar e os espaços não formais de educação. In: MARIN, Alda Junqueira; SILVA, Aída Maria Monteiro; SOUZA, Maria Inês Marcondes de (Org.). Situações Didáticas. Araraquara, 2003, p. 237-
254. Disponível em:
<http://paje.fe.usp.br/estrutura/geenf/textos/Acieobrincar_trabcongressos27.pdf>. Acesso em: 20 jul. 2016.
PEREIRA, Júnia Sales. et al. Escola e Museus: diálogos e práticas. Belo Horizonte: Secretaria de Estado de Cultura / Superintendência de Museus; Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais / Cefor, 2007.
SARMENTO, Manuel Jacinto. As culturas da infância nas encruzilhadas da 2ª modernidade. In: SARMENTO, Manuel Jacinto; CERISARA, Ana Beatriz (Coord.). Crianças e Miúdos: perspectivas
sociopedagógicas sobre infância e educação. Porto: Asa, 2004.
Informações da autora
Andreza Mara da Fonseca
Prefeitura de Belo Horizonte, Minas Gerais
E-mail: [email protected]
ORCID: https://orcid.org/0000-0001-5756-4331