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– PósGraduação em Letras Neolatinas

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Universidade Federal do Rio de Janeiro

Faculdade de Letras

Comissão de Pós-Graduação e Pesquisa

SUBJETIVIDADE ENUNCIATIVA E ETHOS DO TRADUTOR:

Zadig de Voltaire e de seus tradutores

Mayra Barbosa Guedes

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Comissão de Pós-Graduação e Pesquisa

SUBJETIVIDADE ENUNCIATIVA E ETHOS DO TRADUTOR:

Zadig de Voltaire e de seus tradutores

Mayra Barbosa Guedes

Tese apresentada ao Programa de Pós-graduação em Letras Neolatinas da Universidade Federal do Rio de Janeiro como quesito par a obtenção do título de Doutora em Letras Neolatinas (Estudos Linguísticos Neolatinos)

Orientadora: Profª. Drª. Ângela Maria da Silva Corrêa

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Ficha catalográfica

Guedes, Mayra Barbosa

Subjetividade enunciativa e ethos do tradutor – Zadig de Voltaire e de seus tradutores / Mayra Barbosa Guedes. – Rio de Janeiro: UFRJ/ FL, 2010.

202f.+162f. : 30 cm

Orientadora: Angela Maria da Silva Corrêa

Tese (Doutorado) – Faculdade de Letras, Programa de Pós-Graduação em Letras Neolatinas, Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2010.

Referências Bibliográficas: f. 196-202

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Comissão de Pós-Graduação e Pesquisa

SUBJETIVIDADE ENUNCIATIVA E ETHOS DO TRADUTOR:

Zadig de Voltaire e de seus tradutores

Mayra Barbosa Guedes

Orientadora:Profª. Drª. Ângela Maria da Silva Corrêa

Tese apresentada ao Programa de Pós-graduação em Letras Neolatinas da Faculdade de Letras, Universidade Federal do Rio de Janeiro, como quesito para obtenção do título de Doutora em Letras Neolatinas (Estudos Linguísticos Neolatinos)

Examinada por:

___________________________________________________________ Presidente: Profª. Drª. Ângela Maria da Silva Corrêa.

___________________________________________________________ Prof Dr Pierre Guisan – UFRJ

___________________________________________________________ Prof.ª Drª Márcia Atalla Pietroluongo – UFRJ.

_______________________________________________________________________ Prof.ª Drª Maria Clara Castellões de Oliveira – UFJF

_______________________________________________________________________ Prof. Dr Fernando Afonso de Almeida – UFF

_______________________________________________________________________ Prof Dr Décio Orlando Soares da Rocha – UERJ, Suplente

_______________________________________________________________________ Profª. Drª. Heloísa Gonçalves Barbosa – UFRJ, Suplente

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AGRADECIMENTOS

A Deus, que ainda procuro entender e sentir na minha vida.

À equipe de francês do Departamento de Letras Estrangeiras Modernas da Universidade Federal de Juiz de Fora, que tornou possível minha dedicação integral a esta pesquisa e à CAPES por financiá-la.

À orientadora desta tese, Profa Dra Ângela Maria da Silva Corrêa, pela pertinência dos comentários, levando às descobertas aqui apresentadas. E a Luis Eduardo Corrêa Aieta pelo apoio técnico ao corpus da pesquisa.

À colega e inspiradora Profa Dra Maria Clara Castellões de Oliveira, por aceitar integrar esta banca, tendo antes me alimentado bibliograficamente ao longo de todo o percurso do doutorado.

Às agradáveis trocas de email com a Profa Dra Heloísa Gonçalves Barbosa, trazendo-me preciosas contribuições teóricas, desde o exame de qualificação.

A Mavetse de Argos pelo apoio intelectual e afetivo.

À Profa Dra Maria Queiroga, apoio precioso na reta final desta tese.

Ao Prof. Ms. Adauto Villela, pela gentil contribuição teórica e prática.

A Odilon Campos Jordão, meu amor, por ter aparecido em minha vida e ter aceitado permanecer.

A Tata e ao Zeus, pelo aconchego que emprestam ao meu lar, e a meus vizinhos que me socorrem nos momentos de desamparo - Inês e Wallace, Robert e Bárbara.

A Ana Lobo, pelas horas de escuta e bons conselhos.

Às enormes famílias Barbosa e Guedes: mãe e pai, tios e tias. Em especial, ao Prof. Dr. Miguel Barbosa do Rosário, pela inspiração, e à tia Sílvia, in memoriam, que simboliza a nossa luta.

A Regina Coeli de Carvalho e Oliveira, minha amiga e protetora.

Aos amigos distantes, sempre presentes.

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RESUMO

GUEDES, Mayra Barbosa. SUBJETIVIDADE ENUNCIATIVA E ETHOS DO TRADUTOR: Zadig de Voltaire e de seus tradutores. Tese de Doutorado em Letras Neolatinas. Faculdade de Letras, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2010.

Trata-se, na presente tese, de uma pesquisa sobre quatro traduções existentes no mercado editorial brasileiro. O texto fonte dessas traduções é o conto filosófico Zadig de Voltaire, que se constitui como uma narrativa com visada argumentativa. Procedeu-se ao cotejo desses quatro textos com a finalidade de encontrar diferenças que levassem a refletir sobre o processo linguageiro da tradução. A Análise do Discurso, com base na Teoria da Enunciação, permitiu verificar a configuração da subjetividade do Sujeito Comunicante Tradutor, em cada uma das traduções abordadas, a partir de suas escolhas linguísticas. Para tanto, partiu-se da distinção entre aspectos macro e microestruturais preconizados por teóricos dos Estudos da Tradução. Neste sentido, na busca de pontos de convergência entre a Análise do Discurso e os Estudos da Tradução, destacaram-se os conceitos de pseudotradução e de conluio. Assim, ao analisar as circunstâncias de produção das traduções enfocadas e do conto de Voltaire, foi constatado um plágio. Dada a responsabilidade autoral da tradução, buscou-se caracterizar o estilo de cada tradutor de Zadig em português – o que levou à postulação de que o ethos de cada tradutor se constrói por meio de suas escolhas linguísticas. Foi possível, então, a partir desta investigação, classificar o ethos dos tradutores de acordo com duas categorias – erudito ou coloquial. Por fim, tivemos o intuito, com essa tese, de apontar avanços na pesquisa de questões teóricas que sirvam à prática da tradução.

PALAVRAS-CHAVE: TRADUÇÃO, ENUNCIAÇÃO, SUBJETIVIDADE, DISCURSO,

(7)

RÉSUMÉ

GUEDES, Mayra Barbosa. SUBJETIVIDADE ENUNCIATIVA E ETHOS DO TRADUTOR:Zadig de Voltaire e de seus tradutores. Tese de Doutorado em Letras Neolatinas. Faculdade de Letras, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2010.

Cette thèse traite d’une recherche au sujet de quatre traductions existantes dans le marché éditorial brésilien. Le texte source de ces traductions est le conte philosophique Zadig de Voltaire, qui se constitue en tant qu’une narrative à visée argumentative. Une comparaison entre ces quatre textes a été entreprise afin de trouver des différences qui pourraient mener à des réfléxions sur le procès langagier de la traduction. L’ Analyse du Discours, ancreé sur la Théorie de l’Énonciation, nous a permis de remarquer et de confronter la configuration de la subjectivité du Sujet Communiquant Traducteur dans chacune des traductions abordées à partir de leurs choix linguistiques. Ainsi, on est parti de la distinction entre certains aspects macro et microstructurels préconisés par certains théoriques des Études de la Traduction. En ce sens, dans la recherche de points de convergence entre l’Analyse du Discours et les Études de la Traduction, les concepts de pseudotraduction et de collusion ont attiré notre attention. Or, en analysant les circonstances de production des traductions étudiées et le conte de Voltaire, un plagiat a été constaté. Ainsi, en raison de la responsabilité autorale de la traduction, on a cherché à caractériser le style de chaque traducteur de Zadig en portugais – ce qui a mené à postuler que l’ethos de chaque traducteur se construit par moyen de ses choix linguistiques. À partir de cette investigation il nous a été possible de classifier l’ethos des traducteurs selon deux catégories – érudit ou coloquial. Avec cette thèse, on a eu pour but, enfin, de montrer certains progrès dans la recherche de questions théoriques qui serviraient à la pratique de la traduction.

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ABSTRACT

GUEDES, Mayra Barbosa. SUBJETIVIDADE ENUNCIATIVA E ETHOS DO TRADUTOR: Zadig de Voltaire e de seus tradutores. Tese de Doutorado em Letras Neolatinas. Faculdade de Letras, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2010.

In this dissertation, a research is carried out on four translations available in the Brazilian publishing market. The source text of these translations is Voltaire's philosophical tale Zadig, which is composed as a narrative with an argumentative outlook. A comparison of these four texts was made in order to find differences that could lead to reflecting on the language process of translation. Discourse Analysis, based on the Theory of the Utterance, permitted verifying the configuration of the Translator Communicating Subject’s subjectivity, in each translation discussed, from their language choices. To this end, the starting point was the distinction between macro and microstructural aspects advocated by Translation Studies’ theorists. In this sense, in searching for points of convergence between Discourse Analysis and Translation Studies, the concepts of pseudotranslation and collusion stood out. Thus, when analyzing the production circumstances of these translations and that of Voltaire’s tale, a plagiarism was found. Given the copyright liability of translation, we sought to characterize the style of each translator of Zadig in Portuguese - which led to the postulation that the ethos of each translator is built through their linguistic choices. It was then possible, based on this research, to classify the ethos of translators according to two categories: classical or colloquial. Finally, we intended with this dissertation to point to research advances on theoretical issues that may serve the practice of translation.

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SUMARIO

INTRODUÇÃO p.10

1 – TEORIAS LINGUÍSTICAS p.19

1.1 Teoria da enunciação p.20

1.2 Análise semiolinguística do discurso e as pessoas da enunciação p.26 1.3.Análise semiolinguística e modos de organização do discurso p.33

1.4 Visadas Comunicativas p.43

1.5 O conceito de ethos aplicado à instância do tradutor p.45 1.6 Catherine Kerbrat-Orecchioni e a subjetividade das “palavras” p.46

1.7 Variantes do português e diferenças pronominais p.56

1.8 Pronomes vous e tu e suas diferentes traduções para o português p.61

2 – TEORIAS DA TRADUÇÃO p.73

2.1 Tradução e Enunciação p.73

2.2 A tradução no Brasil: breve histórico p.76

2.3 Surgimento de uma disciplina – os Estudos da Tradução – e um caso

interessante de objeto de estudo p.79

2.4 Pseudotradução: interface Análise do Discurso / Estudos da Tradução p.81 2.5 Conceitos controversos: equivalência e Contrato de fidelidade p.89

2.6 Enunciação, Tradução e Psicanálise p.105

3 – O CONTO, O ESCRITOR E SEUS TRADUTORES: Análise Macroestrutural p.109

3.1 História do Conto p.110

3.2 Importância de Voltaire p.111

3.3 Orientalismo p.114

3.4 Conto filosófico: visada argumentativa sob roupagem narrativa p.117

3.4.1. Análise da narrativa (sub-unidade) p.119

3.5 Plágio p.128

(10)

4 – ETHOS DOS TRADUTORES E PARTICULARIDADES DAS TRADUÇÕES

BRASILEIRAS: Análise Microestrutural p.140

4.1 Parâmetro do Sujeito Nulo e Inversão p.142

4.2 Pronomes alocutários e francês e escolhas tradutórias p.149

4.3 Questões microestruturais p.170

4.4 Escolhas lexicais p.176

4.5 Ethos dos tradutores p.186

CONCLUSÃO p.189

REFERÊNCIAS p. 196

(11)

INTRODUÇÃO

A temática da tradução apresenta-se, muitas vezes, de modo reducionista. Para muitos,

apesar da possível utilidade de se ter acesso a textos traduzidos em diversos campos, sejam eles

teóricos, como estudos publicados em diferentes línguas, ou práticos, como manuais de aparelhos

eletrônicos, parece haver um consenso sobre o desprestígio com que a tradução é considerada

apesar de sua serventia. Poderíamos compará-la, no nosso entender, ao serviço doméstico, útil e

invisível. Entretanto, se recorrermos à Lei dos Direitos Autorais, encontraremos uma definição de

que uma tradução é uma enunciação derivada, em contraste com a enunciação original, a obra

criativa. Ancora-se numa enunciação primeira e, a partir dessa, o sujeito tradutor enuncia um

discurso em outra língua, vinculado ao primeiro por um contrato de comunicação de tradução.

Partimos, pois, do pressuposto de que o tradutor é um autor, mas de uma obra derivada.

Gostaríamos também de corroborar com a visão de que o texto traduzido constitui uma nova

enunciação, diferente daquela do texto de partida, uma vez que expõe uma outra subjetividade – a

do tradutor. Pretendemos com essa pesquisa reforçar o status enunciativo do tradutor por meio da

constatação das diferenças encontradas no cotejo de quatro traduções do Zadig de Voltaire em

português.

Vamos ao começo.

A gênese do nosso trabalho se deu quando assistimos à apresentação da tradutora de

Zadig para a Editora Martins Fontes no XVo Congresso de Professores de Francês realizado na

Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG – em outubro de 2005. Márcia Valéria Martinez

de Aguiar proferiu a seguinte comunicação: Alguns marcadores culturais em tradução: uma

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tradutores refletem diferentes visões culturais e diferentes possibilidades no interior de uma

mesma língua” (AGUIAR, 2005). Na referida comunicação, MA1 apresentou também suas

dificuldades com a tradução do pronome vous e subseqüentes escolhas lexicais e sintáticas em

função do registro de língua escolhido pelo tradutor. Neste evento, foi que conhecemos Zadig e

nos encantamos pelo texto. Márcia Aguiar cotejou sua tradução com duas outras: a de Mário

Quintana e a de um tradutor de Portugal. Revelou que suas escolhas seguiram a sua intenção de

se fazer compreender por alunos do curso de filosofia, com termos mais próximos do cotidiano

dos jovens que estão vivenciando o contexto atual, substituindo palavras como “arroio” por

“riacho”, “chocarrices” por “mistificações” e “fazer exceção de pessoa” por “privilegiar”.

O conto Zadig divide-se em 21 capítulos e é introduzido por uma epístola supostamente

escrita pelo personagem principal da história que vem em seguida, endereçada a uma sultana na

mítica Babilônia. Nessa epístola, Zadig enaltece a sultana e a história escrita segundo ele por um

sábio caldeu (depois “traduzida” para o árabe), contendo pois muitos ensinamentos merecedores

de sua atenção. É também uma narrativa de amor entre o protagonista e a esposa do rei da

Babilônia, um amor proibido com final feliz, e cheia de percalços, assim como a situação que

Voltaire estaria vivendo na sociedade francesa.

René Pomeau (2002, p. XI), na introdução à edição da Martins Fontes2, resume a história:

“Zadig” é a história de uma viagem. O herói, simples burguês de Babilônia, torna-se pelo próprio mérito primeiro-ministro; uma intriga faz com que fuja para o Egito, onde se torna escravo; nessa condição percorre a Arábia, e vai se recompondo pouco a pouco; o amor por Astarté chama-o de volta a Babilônia; reencontra a rainha, triunfa da adversidade e sobe ao trono.

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121

É, portanto, a história da vida de um jovem babilônico à procura do amor de uma mulher

justa, pois percebe-se e age também como um homem justo, que tal como Jó do Antigo

Testamento, foi testado, perdido e absolvido pela Providência Divina. Zadig empreendeu longa

viagem pelo mundo oriental, colocando em discussão temas como destino, felicidade pessoal, uso

da razão contra certas tradições e, sobretudo, tolerância entre os homens. Ao narrar uma história

fictícia, Voltaire discute questões que o atormentaram e nos atormentam ainda hoje e sempre.

No intuito de cotejar traduções existentes no mercado editorial brasileiro do conto Zadig

de Voltaire, adquirimos quatro edições supostamente diferentes:

a- a primeira, traduzida por Mário Quintana, lançada em 1951 pela Abril Cultural; em

2001 pela Ediouro; e em 2005, foi relançada pela editora Globo. Adotamos nessa tese,

a edição da Ediouro.

b- a segunda, traduzida por Márcia Valéria Martinez de Aguiar, publicada em 2002 pela

editora Martins Fontes.

c- a terceira, supostamente traduzida por Galeão Coutinho, publicada pela editora

mineira Itaitaia em 2004.

d- a quarta, traduzida por Antônio Geraldo da Silva, publicada pela editora Escala em

2006, dentro da coleção Grandes Obras do Pensamento Universal.

Qual não foi nossa surpresa? A terceira tradução é idêntica à tradução assinada por Mário

Quintana (a primeira). Das quatro traduções, obtivemos então três textos, o que reduz a nossa

perspectiva de cotejar versões diferentes. Para verificar se houve plágio, precisamos tratar do

conceito de “autoria” em tradução e poder ter subsídios que nos possam ajudar a compreender se

(14)

editora mineira, já que esta é posterior à publicação da primeira tradução do conto, em 1951. Para

tal, analisaremos a Lei nº 9.610 que trata da legislação dos direitos autorais, publicada em

fevereiro de 1998 e alguns fatos recolhidos na mídia brasileira e na internet.

Além dessa discussão sobre o conceito de autoria e plágio em textos traduzidos, o

objetivo da presente tese é também buscar diminuir a lacuna existente entre a teoria e a prática da

tradução. Essa proposta é decorrente das leituras que desenvolvemos sobre o que vem sendo

escrito sobre tradução no momento, que nos leva a afirmar que o se considera produtivo no

campo da prática e da teoria da tradução é se adotar uma atitude descritiva em contraposição a

uma atitude prescritiva, uma vez que criticável, uma tradução sempre o é. Notório também é, que

prescrever normas e soluções é mais cômodo do que empreender a tarefa de traduzir. Muitos se

consideram “capazes de melhorá-la” da mesma forma como a consideravam “coisa fácil” de se

fazer (em decorrência disso, os pedidos são feitos com prazos curtíssimos, a tradução/versão

sempre é considerada como tendo um valor excessivo aos olhos de quem solicita o serviço, etc).

A nosso ver, tudo isso faz parte da naturalidade como encaramos a capacidade altamente

simbólica da linguagem, por ser ela inata. De tão natural, nos esquecemos o quão sofisticada ela

é, o que leva, a nosso ver, à ideia generalizada da aparente facilidade de se traduzir um texto. O

senso comum imagina que, de forma automática e sem esforço, qualquer um possa fazê-lo. Algo

que é apenas o “decalque” de outro não pode ser difícil de empreender3. No entanto, toda pessoa

que se dá ao trabalho de realizar uma tradução, logo percebe o grau de complexidade inerente a

essa tarefa. São ambiguidades, conotações, realidades culturais “intraduzíveis” e uma série de

complexidades cognitivas ao longo dos diferentes momentos de uma tradução: a compreensão de

(15)

143

um texto numa língua e sua consequente reescrita em outra, o que deixa “atônita” toda e qualquer

máquina ou software que seja designado a tentar executar acuradamente, em vão, essa tarefa. Daí,

a necessidade da participação do ser humano em tal atividade de ressignificação4. Haja vista as

dificuldades que diversos consumidores de tradução enfrentam, ao se valer, por não dominar uma

idioma, dos programas de tradução direta, como o translator ou o Google tradutor. A tradução

mecânica de um texto mostra-nos, aqui, o quanto o trabalho do tradutor implica numa condição

em que ele é também, por sua subjetividade inerente ao seu próprio fazer tradutório, um autor a

fazer com que o texto na língua de chegada seja de fato compreensível. Isso nos conduz para a

reflexão a respeito da equivalência do texto na língua de partida com o texto na língua de

chegada.

Questão essencial à temática da tradução, o problema da fidelidade ou equivalência entre

realidades linguísticas e culturais que não o são, leva ao profundo questionamento que a visão

pós-estuturalista (em especial a crítica de Derrida ao estruturalismo de Saussure) empreende no

sentido de apontar as falhas contidas nos conceitos de fidelidade e equivalência, como veremos

no Capítulo 2, sobretudo na pesquisa de Cristina Carneiro Rodrigues (2000). Seu livro Tradução

e diferença discute a questão da equivalência ao longo do tempo, desde Cícero, passando pelo

período do estruturalismo linguístico e o pós-estruturalismo até os dias de hoje. Embora tal

questionamento tenha a nosso ver profunda pertinência, não concordamos que tais conceitos

possam ser descartados da tarefa de traduzir. Na contemporaneidade, concebe-se que quando uma

tradução for iniciada, torna-se imprescindível que um compromisso de fidelidade/equivalência

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seja feito com o texto de partida, sob o risco de o texto gerado não ser entendido como uma

genuína tradução5. O contexto de chegada coloca-se rapidamente como outro problema do

tradutor. É entre esses dois parâmetros que o tradutor vai caminhar. Alguns vão tender mais para

um contexto do que para outro. No entanto, mesmo que em proporções diferentes, uma tradução

vai conter um mínimo de cada um dos contextos (de chegada e de partida6).

Embora traduzir sempre tenha sido uma necessidade onipresente do homem em sua

comunicação com o outro, essa prática foi e é, por muitas vezes, ainda vista como um mal

necessário que se quer esconder, recalcar. Gozando assim de pouco prestígio no campo teórico, a

tradução permaneceu por muito tempo como um assunto encaixado em outros campos já

existentes, como a Literatura Comparada, por exemplo. De acordo com Susan Bassnett (2003),

nascidos nos anos 70, os Estudos da Tradução formam uma nova disciplina, consolidada nos anos

90 do século XX.

Antes do estabelecimento de tal disciplina, alguns autores - como Catford (1965/1980),

Nida (1964) e Taber & Nida (1974) - herdeiros da visão estruturalista de Saussure, se apoiavam

na noção de equivalência para prescrever como devia ser uma tradução. Dessa concepção

cientificista e idealizada da tradução, da qual está excluída a subjetividade do sujeito que faz a

tradução, surge a constatação interessante de Georges Mounin (1963/1975) para quem tal

atividade, embora muito praticada e de extrema necessidade, não era legítima nem tampouco

possível. O paradoxo, apontado por tal linguista, nos faz pensar na crítica que aparece no conto

de Voltaire que estamos a trabalhar. Bem no início da história, Zadig se machuca gravemente no

olho e chamam-lhe o médico Hermes. Ao examiná-lo, o grande médico “declarou que perderia o

5

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165

olho; predisse mesmo o dia e a hora em que esse funesto acidente devia acontecer” (VOLTAIRE,

2002, p. 7). Todos lamentaram o fato, mas admiraram “a profundidade da ciência de Hermes.

Dois dias depois o abscesso rebentou por si mesmo; Zadig ficou perfeitamente curado. Hermes

escreveu um livro no qual provou que ele não devia ter sarado. Zadig não o leu”7 (VOLTAIRE,

2002, p. 7). Essa passagem do conto filosófico é, a nosso ver, uma perfeita alegoria do quanto às

vezes a ciência distancia-se da realidade e pode até mesmo chegar a conclusões que beiram o

absurdo, configurando-se naquilo que seria o oposto do seu real propósito. Haja vista que, até

princípios dos anos 80, a noção por demais cientificista da linguagem, da qual a linguística

estruturalista saussureana era refém, levava-a a excluir tudo que escapava das suas leis. Portanto,

assim como o Dr. Hermes nega as evidências da cura de Zadig, Mounin acaba por denunciar a

teoria saussureana estruturalista, que exclui a singularidade do ser falante e chega a considerar,

como dissemos acima, que a tradução, embora muito praticada e de extrema necessidade, não

podia ser legítima nem tampouco uma atividade possível. No entanto, assim como no conto, o

linguista precisa se render ao paradoxo da tradução que, sendo uma prática anterior a toda teoria

sobre si mesma, sobrevive a qualquer teoria que negue a possibilidade de traduzir!

Passemos à organização de nossa tese. Ela está estruturada em quatro capítulos.

Apresentamos no Capítulo 1 a Teoria da Enunciação, responsável por trazer o sujeito enunciador

para dentro da teoria linguística. Seguindo as pegadas de Benveniste (1966/1995, 1974),

Catherine Kerbrat-Orecchioni (1980) apresenta uma análise criteriosa dos aspectos da

subjetividade da linguagem revelados nos itens lexicais compostos por substantivos, verbos,

adjetivos e advérbios. A Análise do Discurso de expressão francesa, oriunda da Teoria da

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Enunciação de Benveniste, é representada por Patrick Charaudeau (1983; 1992; 2001; 2006,

2007), e Dominique Maingueneau (2007). Charaudeau desdobra os dois sujeitos que interagem

no ato comunicativo em quatro, haja vista que o locutor interage com um interlocutor real e com

um que ele imagina. A mesma situação se apresenta para o interlocutor que faz uma ideia por

vezes diferente daquele sujeito que tomou a iniciativa de se dirigir a ele. A relação entre locutor e

interlocutor está condicionada por um contrato de comunicação decorrente da situação de

comunicação na qual tais sujeitos estão inseridos. Por outro lado, dependendo da finalidade

comunicativa dos sujeitos, estes estrategicamente organizam a materialidade linguística segundo

um modo de organização do discurso. Tais paradigmas, em número de quatro - modo

enunciativo, descritivo, narrativo e argumentativo - são uma das nossas ferramentas de análise do

conto, em sua versão francesa, e de suas versões em português.

A imagem que se dá de si a outrem por meio da maneira como se enuncia é o que

Maingueneau e alguns autores herdeiros da retórica de Aristóteles chamam de construção do

ethos. Esse é outro recurso que utilizaremos na nossa análise, pois todo enunciador constrói um

ethos. Voltaire fabricou o seu. A análise das escolhas tradutórias nos levará a identificar o ethos

de cada um dos tradutores de Zadig. A seguir, nesse mesmo capítulo, são apresentadas as

propostas de análise da subjetividade na enunciação de Kerbrat-Orecchioni (1980) e, ao final

deste, as teorias linguisticas que constatam a tendência a uma menor incidência do sujeito nulo no

português do Brasil. A escolha por traduções de Zadig feitas apenas por tradutores brasileiros

justifica-se pela constatação de que o português brasileiro está se distanciando do português

europeu devido ao fato de estar preenchendo fonologicamente o pronome sujeito, de acordo com

(19)

1

Princípios e Parâmetros, no âmbito da Teoria Gerativa. A nossa expectativa é de que ocorra

maior explicitação do pronome sujeito nas duas traduções mais recentes, de Márcia Aguiar e

Antônio Silva.

Buscaremos no Capítulo 2, como expusemos acima, apresentar as teorias da tradução que

advêm da disciplina Estudos da Tradução, defendendo uma visão descritiva e não prescritiva

dessa prática. De todas elas, ressaltamos aquela proposta pelo texto de Lambert & van Gorp

(1985), que propõem uma análise macro e microestrutural, que desenvolvemos nos dois últimos

capítulos, respectivamente.

O Capítulo 3 apresentará as circunstâncias de produção do conto e das traduções, as

informações sobre os autores dos textos, amparadas pelas questões que norteiam uma análise

macroestrutural. A discussão do plágio constatado em uma das quatro traduções mostrou o

quanto tal discussão pode ser frutífera, uma vez que tal prática vem infelizmente acontecendo em

uma enormidade de casos. Por fim, o Capítulo 4 será a feitura da análise microestrutural, a partir

do conceito de ethos, e de outras particularidades das traduções, denotando a subjetividade

apontada pela Teoria da Enunciação, a Análise do Discurso e certos campos dos Estudos da

Tradução. Ao final das análises a serem realizadas, pretendemos perceber o quanto tais linhas

teóricas, aparentemente divergentes, complementam-se e convergem na melhor compreensão de

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1 TEORIAS LINGUÍSTICAS

A análise da obra literária, Zadig, por nós empreendida implica tratar das suas características linguísticas e as que se vinculam a quatro traduções que identificamos no mercado editorial brasileiro. Para tanto, escolhemos, no campo da Linguística, a Teoria da Enunciação de Émile Benveniste e Catherine Kerbrat-Orecchioni e a Análise do Discurso (doravante AD) de Patrick Charaudeau e Dominique Maingueneau.

Antes de entrarmos na análise do conto propriamente dita, faz-se mister que esclareçamos algumas considerações históricas sobre a Teoria da Enunciação, referenciando-se os conceitos que nos são pertinentes em termos de aplicabilidade nesta tese. Segundo Charaudeau (2001), essa teoria foi um marco, que tirou da língua o falso caráter abstrato que ela tivera até então.

Com a criação da Teoria da Enunciação, passou-se a colocar o sujeito da linguagem no centro das teorias linguísticas, uma preocupação que é ainda recente e não generalizada (CHARAUDEAU, 2001). Dentre alguns autores dessa teoria, Charaudeau menciona Jakobson e Benveniste. O primeiro distinguiu e personalizou os conceitos de emissor e receptor e as funções da linguagem a estes associadas. O segundo teórico, por sua vez, produziu uma mudança significativa na teoria linguística ao atentar que a subjetividade é a capacidade do locutor de se colocar como sujeito (BENVENISTE, 1995).

(21)

20

adotamos em nossas reflexões. A fim de proceder às análises do nosso corpus nos Capítulos 3 e 4 acrescemos as teorias da tradução, expostas no capítulo seguinte.

Por ora, fundamentamo-nos na teoria que trouxe a subjetividade aos estudos linguísticos.

1.1. Teoria da Enunciação

A Teoria da Enunciação segue num caminho diferente das teorias estruturalistas e da Teoria Gerativa de Chomsky, que eram as teorias dominantes nas décadas de 60 e 70, quando Benveniste apresentou suas ideias, uma vez que possibilita que a abordagem tenha como centralidade a presença daqueles que são responsáveis pelo ato da linguagem, suas identidades, estatutos e papéis, considerados como essenciais. Reconhece-se a Benveniste o mérito de haver dado ao sujeito um lugar na teoria linguística. Com esta dimensão, fica reconhecido que o que ordena a organização da linguagem é o subjetivo, o que implica a primazia da enunciação sobre o enunciado.

A opção por esta centralidade contribui para o entendimento de que, a partir de Benveniste, está aberto o caminho investigativo para a oposição EU/TU dentro da teoria linguística. A forma como este autor percebe a língua advém, inicialmente, da base estruturalista de Saussure. Todavia, em oposição a este, Benveniste assegura a teoria de uma língua enquanto uma realidade muito mais próxima daquilo que todo falante tem em seu senso comum1, uma vez que seu grande mérito foi colocar o fator humano na

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disciplina às vezes por demais científica da linguagem – a Linguística. Benveniste (1966/1995) questiona, em certa medida, o raciocínio de Saussure a respeito da arbitrariedade do signo linguístico. “O que é arbitrário é que um signo, e não outro, se aplica a determinado elemento da realidade, mas não a outro” (BENVENISTE, 19952, p. 56). A relação que une uma coisa a seu nome é contingente, ou seja, arbitrária. Como prova disso, cada língua tem para essa coisa uma palavra e essa palavra pode inclusive sofrer alterações ao longo do tempo, embora se referindo sempre à mesma entidade. Benveniste não discorda disso e tece, como veremos a seguir, importantes considerações a respeito do conceito saussureano da arbitrariedade do signo.

Esse autor, entretanto, defende que, ao olharmos para o interior do signo, vemos que o que une o conceito e uma imagem acústica é uma relação de consubstancialidade e não de contingência, como se tal união fosse a frente e o verso da mesma folha de papel. Se cortarmos um lado, necessariamente cortamos o outro. Sendo o significante e o significado inseparáveis, essa é uma relação necessária e não contingente, como se quis pensar por falsa dedução. “(O signo) não é arbitrário, ele é necessário” (BENVENISTE, 1995, p. 55). Benveniste se opõe, dessa forma, ao conceito da arbitrariedade do signo de Saussure, não afirmando que este seria falso ou sem fundamento, mas que o principal do signo é que, para os homens, ele é motivado. “Para o falante há, entre a língua e a realidade, adequação completa: o signo encobre e comanda a realidade; ele é essa realidade” (BENVENISTE, 1995, p. 57, grifo do autor). E essa é, a nosso ver, uma conclusão que salutarmente aproxima a intuição de todo falante e as investigações do linguista.

Na sequência de suas elaborações nos deparamos com importantes considerações a respeito da relação consubstancial entre língua e pensamento, dentre as Linguística Aplicada, à qual nos filiamos.

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quais destacamos: “o pensamento não é u’a matéria à qual a língua emprestaria forma, pois em nenhum momento esse ‘continente’ pode ser imaginado vazio do seu ‘conteúdo’, nem o ‘conteúdo’ como independente de seu ‘continente’” (BENVENISTE, 1995, p. 69-70). Como podemos perceber, dá-se a mesma relação de consubstancialidade do significante com o significado, na qual “(o conteúdo do pensamento) recebe forma da língua e na língua, que é o molde de toda expressão possível” (BENVENISTE, 1995, p. 69-70). O mencionado autor afirma também: “A forma linguística é, pois, não apenas a condição de transmissibilidade mas a primeira condição de realização do pensamento. Não captamos o pensamento a não ser já adequado aos quadros da língua” (BENVENISTE, 1995, p. 69). E conclui o capítulo sobre categorias de pensamento e categorias de língua, explicitando: “A possibilidade do pensamento liga-se à faculdade de linguagem, pois a língua é uma estrutura enformada de significação e pensar é manejar os símbolos da língua” (BENVENISTE, 1995, p. 80). Portanto, não há pensamento sem a nossa linguagem simbólica, e nem existe a linguagem humana sem o pensamento.

Com estas indicações que singularizam a abertura de caminhos, alguns autores da Pragmática ampliam as elaborações de Benveniste. Nesta direção apontamos que valorizam o estatuto do sujeito na realização de um ato de fala3, vendo que o enunciador dá ao enunciado um poder de ação sobre a realidade. Por exemplo: em “a sessão está aberta” coincidem o sujeito enunciador e o estatuto do sujeito “presidente da sessão”, o que confere performatividade a tal enunciado (CHARAUDEAU, 20014, p. 27). A expressão performativa “eu vos declaro marido e mulher”, por exemplo, não descreve

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Conceito, cunhado por Austin (Filosofia da Linguagem) e Searle (Pragmática), que consiste na ação realizada por meio de uma emissão linguística.

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um fato, ela cria esse fato, transformando a realidade de no mínimo duas pessoas (OLIVEIRA, 2003, p. 53).

Benveniste não concebe a língua sem levar em conta a relação intersubjetiva que se efetiva entre os homens. A linguagem não foi fabricada pelo homem, ela integra sua natureza, diferentemente de instrumentos como a flecha e a roda. “É um homem falando que encontramos no mundo, um homem falando com outro homem, e a linguagem ensina a própria definição do homem [...] não há homem pré-fala” (BENVENISTE, 1995, p. 285). A “subjetividade” na linguagem, para Benveniste, é a capacidade do locutor em se colocar como “sujeito”.

É na linguagem e pela linguagem que o homem se constitui como sujeito; porque só a linguagem fundamenta na realidade, na sua realidade que é a do seu ser, o conceito de ‘ego’ [...] É ‘ego’ que diz ego [...] ‘subjetividade’ que se determina pelo status linguístico da ‘pessoa’ (BENVENISTE, 1995, p. 286, grifo do autor)5.

Tudo tem início na capacidade do locutor se dizer “eu”. Todo enunciado proferido por um locutor tem como ponto de partida e como centro o eu implícita ou explicitamente assumido pelo enunciador, de acordo com o seu projeto de comunicação. É a partir deste pressuposto que Benveniste vem apresentando uma análise das três pessoas existentes na língua, enfatizando que tudo parte da primeira pessoa. “A instalação da ‘subjetividade’ na linguagem cria na linguagem e, acreditamos, igualmente fora da linguagem, a categoria de pessoa” (BENVENISTE, 1995, p. 290). Começa uma interessante análise dos pronomes pessoais, análise que embasou a Teoria

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Observação da orientadora da presente tese emitida no curso de uma revisão de texto: “Verificar o texto – e se essa citação estiver correta, confrontar com o original, pois do jeito que está “mata” o pensamento de Benveniste”. De fato, assim estava: “É ‘ego’ que diz ‘ego’”. No original, verificamos o seguinte: “Est

ego qui dit ego” (BENVENISTE, 1966, p. 260, grifo nosso). A nosso ver, a melhor tradução seria de fato:

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da Enunciação e AD francesa de base enunciativa (Charaudeau / Maingueneau), com a qual aqui trabalhamos.

Na quinta parte do seu livro, intitulada O homem na língua, Benveniste passeia por diversas línguas que, apesar de suas diferenças, possuem todas elas pronomes pessoais. Mais à frente, declara: “Uma língua sem expressão da pessoa é inconcebível” (BENVENISTE, 1995, p. 287). Os gramáticos árabes, por exemplo, definem a primeira pessoa como “aquele que fala”; a segunda como “aquele a quem nos dirigimos” e a terceira, “aquele que está ausente”. “Nessas denominações, encontra-se implícita uma noção justa das relações entre as pessoas; justa sobretudo por revelar a disparidade entre a 3ª pessoa e as duas primeiras”. Benveniste (1995, p. 251) chega até a afirmar: “A ‘3a pessoa’ não é ‘pessoa’, tanto que em várias línguas não há marca de 3a pessoa no verbo”. E dá exemplo:

Da sua posição de forma não pessoal, a ‘3a pessoa’ tira essa capacidade de se tornar tanto uma forma de respeito que faz de um ser muito mais que uma pessoa (exemplo de polidez: ‘vossa excelência’) e uma forma de ultraje que pode anulá-la como pessoa (BENVENISTE, 1995, p. 254).

Cada uma das três pessoas tem sua particularidade. “Poder-se-á, então, definir o tu como a pessoa não subjetiva, em face da pessoa subjetiva que eu representa; e essas duas ‘pessoas’ se oporão juntas à forma de ‘não-pessoa’ (= ‘ele’). [...] Na verdade, a simetria (eu, tu, ele) é somente formal” (BENVENISTE, 1995, p. 255-282, grifo do autor), a presença real no discurso de eu e tu se opõe à virtualidade de ele.

Assim, os indicadores eu e tu não podem existir como signos virtuais, não existem a não ser na medida em que são atualizados na instância de discurso, em que marcam para cada uma das suas próprias instâncias o processo de apropriação pelo locutor. [...] A ‘3a pessoa’ representa de fato o membro não marcado da correlação de pessoa (BENVENISTE, 1995, p. 281-2, grifo do autor).

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Assim, na classe formal dos pronomes, os chamados de ‘3a pessoa’ são inteiramente diferentes de eu e tu, pela sua função e pela sua natureza. [...] É uma função de ‘representação’ sintática que se estende assim a termos tomados às diferentes ‘partes do discurso’, e que corresponde a uma necessidade de economia, substituindo um segmento do enunciado e até um enunciado inteiro, por um substituto mais maleável. Assim, não há nada de comum entre a função desses substitutos e a dos indicadores de pessoa. [...] O eu e o tu referem-se a alguém que está no discurso, ao passo que ele tem a função anafórica de apenas retomar uma entidade previamente mencionada (BENVENISTE, 1995, p. 282-8, grifo do autor).

Em comparação aos itens lexicais, os pronomes podem ser considerados categorias vazias que, a cada enunciação, podem representar outros referentes. “Não há conceito ‘eu’ englobando todos os eu que se enunciam a todo instante na boca de todos os locutores, no sentido em que há um conceito ‘árvore’ ao qual se reduzem todos os empregos individuais de árvore” (BENVENISTE, 1995, p. 288).

Quando dizemos “eu juro”, estamos nos comprometendo subjetivamente, ao passo que “ele jura” constitui apenas a descrição não subjetiva de uma ação.

A diferença entre a enunciação ‘subjetiva’ e a enunciação ‘não subjetiva’ aparece em plena luz, desde que se tenha percebido a natureza da oposição entre ‘pessoas’ do verbo. É preciso ter no espírito que a ‘3a pessoa’ é a forma do paradigma verbal (ou pronominal) que não remete a nenhuma pessoa, porque se refere a um objeto colocado fora da alocução. Entretanto existe e só se caracteriza por oposição à pessoa eu do locutor que, enunciando-a, a situa como ‘não-pessoa’. Esse é o seu status. A forma ele... tira o seu valor do fato de que faz necessariamente parte de um discurso enunciado por ‘eu’ (BENVENISTE, 1995, p. 292, grifo do autor).

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sua própria conta, sendo um ato de apropriação da língua, que introduz aquele que fala na sua fala.

1.2. Análise semiolinguística do discurso e as pessoas da enunciação

Seguindo Benveniste em sua tarefa de trazer a enunciação para a gramática, Charaudeau (1992) leva para a sua Grammaire du sens et de l’expression uma nova noção de pessoa, subdividindo os pronomes pessoais em “pessoas da interlocução” e “pessoas da delocução” (CHARAUDEAU, 1992, p. 119-132). “Locutor” e “interlocutor” interagem de forma direta, por escrito ou oralmente, ao passo que o “terceiro” se encontra fora da interlocução e pertence à delocução, por isso é chamado de não-pessoa. Ao contrário de eu e tu, ele não remete nem indica pessoa, ele tem o papel anafórico de retomar algo que já foi citado, ligando-o a um antecedente animado ou inanimado. Primeira e segunda pessoas, por sua vez, possuem qualidade dêitica, ou seja, introduzem pessoas novas no discurso.

A oposição tradicional entre dêitico e anafórico apóia-se em uma diferença de localização do referente: se ele se encontra no texto, há uma relação anafórica, mas, se o referente encontrar-se na situação de comunicação imediata [...] há uma referência dêitica. [...] Ocorre anáfora quando há remissão a um referente presumivelmente já conhecido do interlocutor ou inferível por ele, e dêitico quando há a introdução, no universo do discurso, de um referente novo, ainda não manifesto (CHARAUDEAU & MAINGUENEAU, 2006, p. 147, grifo do autor6).

Ao longo dos séculos de reflexões sobre a linguagem, anteriores às teorias que trazem a enunciação para o discurso, o termo “sujeito” foi por muito tempo considerado

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apenas como uma realidade gramatical, e, mesmo que, na retórica antiga, a linguagem fosse considerada uma arte de persuasão, o sujeito não esteve presente enquanto ser da enunciação. Atualmente “o sujeito pode ser considerado como um lugar de produção da significação linguageira7 [...], sede da produção/interpretação da significação, especificada de acordo com os lugares que ele ocupa no ato linguageiro” (CHARAUDEAU, 2001, p. 30). O ato de comunicação que é composto por um locutor e seu parceiro, o interlocutor, passa a ser habitado não por dois, mas por quatro protagonistas (CHARAUDEAU, 19838, p. 38). O autor da teoria semiolinguística do discurso, ao distinguir um enunciador interno ao dito e um locutor externo ao dito, propõe

[...] um modelo de comunicação com dois espaços e quatro sujeitos do discurso: um espaço externo que corresponde aos dados da situação de comunicação e um espaço interno que corresponde à discursivização enunciativa. Estes dois espaços se determinam reciprocamente. No espaço externo se encontram os parceiros do ato de comunicação, chamados sujeito comunicante e sujeito interpretante; no espaço interno, os protagonistas da cena enunciativa chamados sujeito enunciante (ou enunciador) e sujeito destinatário (CHARAUDEAU & MAINGUENEAU, 2006, p. 200, grifo do autor9).

Em que consiste comunicar? Charaudeau (199210, p. 634 e 2008, p. 67) postula que é preciso representar o ato de comunicação como um “dispositivo” no centro do qual encontra-se o sujeito falante (o locutor), em relação com um outro parceiro (o interlocutor). Os componentes de tal dispositivo são: a situação de comunicação na qual se acham os referidos parceiros ligados por um contrato de comunicação; os modos de organização do discurso, que organizam a matéria linguística de acordo com a

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Opção tradutória para os termos franceses langagier/ère.

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Em 2008, foi publicado o livro Linguagem e discurso – modos de organização como resultado do trabalho de pesquisa e tradução de Charaudeau (sobretudo 1983 e 1992) empreendido em conjunto por pesquisadores de três laboratórios de Pesquisa em Análise do Discurso: o CIAD-Rio (Círculo Interdisciplinar de Análise do Discurso), da Faculdade de Letras da UFRJ e o NAD (Núcleo de Análise do Discurso) da Faculdade de Letras da UFMG, no Brasil; e o CAD (Centre d’Analyse du Discours) de Paris XIII, na França.

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O verbete é de Charaudeau.

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finalidade comunicativa do sujeito falante11; a língua ou material verbal e, por fim, “o texto, que representa o resultado material do ato de comunicação e que resulta de escolhas conscientes (ou inconscientes) feitas pelos sujeitos [...], em função das restrições impostas pela situação” (CHARAUDEAU, 2008, p. 68).

A comunicação é pois um dispositivo com dois circuitos: um interno e outro externo, como elucidamos e representamos logo abaixo.

Esquema 1: O ato de linguagem, seus parceiros e seus protagonistas Fonte: Corrêa, 1991, p. 11.

Para Charaudeau, como vimos acima, o ato de linguagem combina o Dizer e o Fazer e estabelece que, na interação linguageira, os parceiros são o sujeito comunicante (doravante EUc) e o sujeito interpretante (doravante TUi), ligados por uma relação contratual. O sujeito comunicante é quem toma a iniciativa do processo de produção do ato de linguagem. O sujeito interpretante é o parceiro que toma a iniciativa do processo de interpretação. Ambos são “sujeitos de ação” (CORRÊA, 1991, p. 14-15). Esse é o domínio do Fazer.

Tomemos como exemplo duas situações de comunicação diferentes. O enunciado “Praça da Estação” dito dentro de um taxi leva o sujeito interpretante

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motorista (TUi) a dar partida no carro e dirigir-se ao destino solicitado, ao passo que o mesmo enunciado pronunciado em um ônibus tem o efeito distinto de produzir respostas tais como “Sim”/“Não”, caso o destino solicitado esteja ou não nos limites do roteiro do transporte coletivo. Portanto, o contrato de comunicação sobredetermina a manifestação linguageira em função da situação externa e, consequentemente, o comportamento de EUc e TUi (CHARAUDEAU, 2008, p. 60).

O Dizer é “o lugar da instância discursiva que se define como uma encenação da qual participam ‘sujeitos de fala’”, diferentemente do Fazer, do qual participam sujeitos de ação (CORRÊA, 1991, p. 15). Ao se expressar, o EUc constrói um sujeito destinatário (doravante TUd) que pode coincidir ou não com o sujeito interpretante TUi. Isto é, TUd é uma imagem construída pelo comunicante a partir das circunstâncias do discurso e da relação contratual que mantém, ou procura manter, com o TUi. Analogamente, ao interpretar a mensagem, o TUi fabrica uma imagem do sujeito comunicante: é o sujeito enunciador, (doravante EUe), coincidente ou não com o EUc (CORRÊA, 1991, p. 15-16). Aos parceiros do Fazer correspondem os protagonistas de uma encenação do Dizer.

O contrato de comunicação12 entre os parceiros é constituído de restrições e liberdades que definem o que os interlocutores podem ou não dizer. A comunicação é, pois, um lugar de ditos e não ditos, ou seja, de explícitos e implícitos. Diversas estratégias são postas em prática para alcançar a finalidade comunicativa do locutor. Para atingir o seu projeto de fala, naturalmente o sujeito comunicante coloca-se as seguintes perguntas: “Como é que eu vou / ou devo eu falar (ou escrever) dado o que percebo do interlocutor, o que eu imagino que ele percebe e espera de mim, daquilo que

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eu e ele sabemos em comum, e dos papéis que ele e eu devemos desempenhar?” (CHARAUDEAU, 1992, p. 634 e 2008, p. 75). Comunicar é realizar uma encenação.

Um ato de linguagem se inicia, pois, no momento em que um sujeito, motivado por um projeto de fala definido em termo de objetivos comunicacionais, toma a iniciativa da palavra. O contrato de comunicação reserva a esse sujeito uma margem de manobra dentro da qual ele pode escolher, com uma certa liberdade, as estratégias de fala (as formas de organização do discurso) que ele julgue mais apropriadas para influenciar adequadamente os interlocutores.

Apresentamos a seguir o Esquema 2, semelhante ao Esquema 1, no qual vemos a encenação do ato de fala por dois seres sociais, inseridos numa situação de comunicação, os quais, de acordo com seu projeto de fala, instituem dois seres de fala, cuja representação visa servir uma finalidade de comunicação. EUc interage com o TUi de acordo com seu projeto de fala e de posse de um pré-conhecimento dos limites do contrato que eles estão encenando. Para que EUc alcance suas expectativas, TUi precisa aceitar o status de EUe que EUc assume e identificar-se com o TUd projetado. Esse reconhecimento por parte do TUi, como podemos imaginar, é algo complexo e muito instável e pode ser rompido a qualquer momento, descolando-se da construção discursiva de EUc e deslegitimando portanto o projeto de fala deste13.

Passemos à representação do dispositivo da encenação da linguagem:

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Esquema 2: Situação de comunicação, projeto de fala e encenação Fonte: Charaudeau 2008, p. 52.

Nesse esquema, podemos visualizar portanto os parceiros do ato de comunicação, que possuem uma identidade psicossocial e encontram-se vinculados por um contrato de comunicação em uma situação de comunicação. Essa situação, embora exterior à linguagem, é onde a comunicação ocorre, submetida a todas as contingências. O locutor, dentro dessa margem de manobra de limites e restrições, utiliza-se dos componentes do dispositivo da comunicação para alcançar os efeitos que ele quer produzir no interlocutor. Sua finalidade discursiva pode ou não ser alcançada, reproduzindo assim o seu projeto de fala. Vejamos como.

Um exemplo dado por Charaudeau (1983, p. 15-16)14 ilustra bem a referida dinâmica descrita acima: O garçom de um bar pergunta: “De quem é esse maço de cigarros?”. A interpretação desse enunciado pode ser um pedido para que dono tire o maço dali ou pode ser o pedido de um cigarro, entre outras interpretações possíveis. Ao TUi cabe fazer hipóteses sobre o que o EUc quis dizer, procurar identificar o tipo de contrato que os está ligando e identificar-se ou não com o TUd que o EUc está

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projetando. Na verdade, o projeto de fala do EUc será tão mais bem sucedido quanto mais o TUi for próximo do TUd projetado.

Adaptando o esquema de Charaudeau a uma realidade do nosso quotidiano acadêmico, tomemos a seguinte situação. Na organização de encontros, simpósios ou outro tipo de evento acadêmico na UFJF, são chamados a proferir conferências professores desta universidade e professores de outras instituições de ensino superior. Em geral, esses últimos são os mais esperados, pois são profissionais que se destacaram e têm seu nome (re)conhecido para além dos espaços acadêmicos de suas respectivas instituições. A assembléia espera deles grandes revelações sobre as temáticas de cada evento. O status desses conferencistas é o que contribui para que a platéia passe a constituí-los em um EUe especial, ao passo, que aos professores-conferencistas locais cabe um outro tipo de EUe. No entanto, ocorre muitas vezes que os professores locais têm uma ideia mais ajustada daquilo que a assembléia espera ouvir, ou seja, a imagem que eles fazem do TUd é próxima do TUi. Ao passo que um conferencista vinculado a uma outra instituição e, por vezes, de prestígio acadêmico superior, tende a fazer projeção desajustada do conteúdo que os participantes do evento podem e querem ouvir e prepara uma conferência que pode não corresponder às expectativas da platéia. O desconhecimento acerca dos ouvintes pode contribuir para que o EUc projete um TUd muito distante do TUi. Se o Projeto de Fala dos conferencistas desse tipo de evento, que consiste em contribuir com informações adicionais para o aprofundamento do tema discutido em tal comunidade acadêmica, não foi atingido é porque o auditório rejeitou a imagem TUd que o sujeito comunicante dele fez.

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Outras vezes, um dos interlocutores pode assumir uma atitude de negação sobre o papel a ele atribuído, ou seja, nega a existência do enunciador e, conseqüentemente, a existência do destinatário, anulando, assim, o contrato de comunicação. É, como vimos acima, quando o ato de linguagem falha.

A fim de evitar que isso ocorra, o locutor precisa conquistar seu interlocutor para o seu projeto de fala, por meio das estratégias que tem a sua disposição. Dependendo do projeto de fala do locutor (enunciar, descrever, contar ou argumentar) este organiza o material linguistico de diversos modos, tal como o veremos e aprofundaremos na seção seguinte.

1. 3. Análise semiolinguística e modos de organização do discurso

A fim de alcançar o sucesso mencionado acima, ou seja, ser capaz de organizar o material linguístico de modo que esse seja consistente com o seu projeto de fala, é de fundamental importância aos sujeitos de comunicação se dar conta do processo linguageiro na perspectiva do enunciador: a posição que ocupa com relação ao interlocutor, sua posição com relação ao mundo e em relação a outros discursos. Essas funções são desempenhadas pelo modo enunciativo da linguagem, modo de organização do discurso, central, portanto, na análise que iremos empreender de um ato de linguagem (CHARAUDEAU, 2008, p. 74-81).

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narrativo, descritivo e argumentativo. Vimos que cabe ao modo enunciativo comandar todos os demais modos, pois em todos os discursos está presente.

Cientes então de que o locutor visa alcançar certos efeitos no seu interlocutor, visto que possui um projeto de fala (enunciar, descrever, contar, argumentar) e, dependendo dos efeitos que o sujeito falante queira produzir no seu interlocutor (colocar os sujeitos em relação, identificar/qualificar, construir uma sucessão de ações, expor e provar casualidades), este lançará mão de um modo distinto de organização do discurso. Com efeito, cada um dos modos propõe, à sua vez, uma organização do ‘mundo referencial’, o que dá lugar às diferentes lógicas de construção de cada mundo. Passamos, portanto, a discorrer sobre os paradigmas dos modos de organização do discurso.

O modo de organização descritivo compõe-se de três componentes autônomos e indissociáveis: nomear, localizar-situar e qualificar. Tem como função identificar e organizar os seres do mundo. O aparelho argumentativo e o narrativo são voltados para

o assunto do ato de linguagem (o ELE).

Enquanto os componentes argumentativos são definidos em termos

lógico-linguísticos e descrevem relações abstratas de modo a provar ou refutar uma afirmação

à qual se atribui o valor de verdade, o modo narrativo15 é constituído pela sucessão de

ações, apresentando os atores que desempenham e assumem papéis, sendo ligados pelos

processos que dão uma orientação funcional à ação. Nesse modo de organização, a

sucessão de ações é sempre motivada, possuindo uma razão de ser (CHARAUDEAU,

2008, p. 167). Tal motivação encontra-se, portanto, vinculada a um projeto: “O modo

narrativo serve para descrever as ações humanas, ou tidas como tais, que se originam

em um projeto de busca” (CHARAUDEAU, 2004, p. 27). A única relação entre os fatos

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que não pode faltar numa narrativa é a de causalidade. Por esse motivo, apresentamos a seguir o princípio de intencionalidade:

A definição do princípio de organização do aparelho narrativo consiste em: existência de uma situação de Falta; tomada de consciência dessa Falta que instiga esse Ser a tornar-se o Agente de um Fazer (Busca); Busca que consiste em tentar suprir essa Falta (Objeto de busca) e atinge um certo resultado (Sucesso/Fracasso) (CHARAUDEAU,1983, p. 122).

Diegese é outra denominação para a história contada. Este é um termo grego

que, hoje, encontra-se no vocabulário da análise fílmica e se estendeu para o campo da narratologia, que diz respeito à dimensão ficcional de uma narrativa. O que há em comum entre formas narrativas “semiolinguisticamente tão diversas quanto contos, filmes, histórias em quadrinhos, romances, histórias engraçadas, narrativas de sonhos, fábulas ou parábolas”? No Dicionário de Análise do Discurso, encontramos essa pergunta e a seguinte definição:

para que haja narrativa, inicialmente é preciso a representação de uma sucessão temporal de ações; em seguida, que uma transformação mais ou menos importante de certas propriedades iniciais dos actantes seja bem sucedida ou fracassada, enfim, é preciso que uma elaboração da intriga estruture e dê sentido a essa sucessão de ações e de eventos no tempo (CHARAUDEAU & MAINGUENEAU, 2006, p. 342, grifos do autor)16.

Numa narrativa, o equilíbrio inicial é sempre rompido. Em seguida, um fator de tensão surge com o advento da Falta, levando à Busca do Objeto e ao desfecho por obtenção ou não do objeto de busca, ou seja, apagando ou não a tensão instalada. Uma vez que essa sequência é o que constitui a intriga narrativa, “Contar é construir uma intriga”. E “O característico de um núcleo narrativo (sequência) é introduzir essa dinâmica da intriga fundada sobre o par nó/desfecho” (CHARAUDEAU & MAINGUENEAU, 2006, p. 344, grifos do autor).

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Sobre diegese, Umberto Eco (1985) menciona seu papel na interpretação de histórias contadas. A esse respeito Charaudeau & Maingueneau (2006) afirmam: “O

universo diegético de uma narrativa é interpretativamente construído pelo leitor/ouvinte

a partir do que está dito e do que está pressuposto pelo texto” (p. 343, grifos dos autores). Os autores citam, ainda, o trabalho de Eco (1985) que em sua obra Lector in

Fabula discorre sobre a interpretação, por parte do leitor, do mundo que propõe e

constrói a narrativa. Afirmam que Eco “insiste sobre o fato de que a ‘cooperação interpretativa’ do leitor é indispensável para preencher os vazios, brancos, elipses de uma história contada” (CHARAUDEAU & MAINGUENEAU, 2006, p. 343).Veremos no esquema do dispositivo da encenação narrativa, apresentado abaixo, que tal encenação dá-se com a participação de quatro sujeitos, e não está apenas centrada no autor.

No âmbito da análise semiolinguística do discurso, a encenação narrativa é composta por um dispositivo que articula dois espaços de significação: um extratextual, “onde se encontram os dois parceiros da troca linguageira: o autor e o leitor ‘reais’” e um outro intratextual “onde se acham os dois sujeitos da narrativa: o narrador e o leitor-destinatário” (CHARAUDEAU, 2008, p. 184). Portanto, não basta nos fazermos a clássica pergunta “O que o autor quis dizer?”, uma vez que “não se pode confundir o

indivíduo, ser psicológico e social, o autor, ser que escreveu, por exemplo, um romance,

e o narrador, ‘ser de papel’ que conta a história” (CHARAUDEAU, 2008, p. 183). Na parte superior do esquema abaixo, encontramos a situação de comunicação, composta pelo projeto de escritura17 do autor, aliado a uma experiência vivida, e o leitor real com sua competência de leitura particular. Na parte inferior do esquema, temos o espaço intratextual, no qual há o narrador-historiador que “implica o leitor enquanto

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destinatário de uma história contada que este deve receber (e eventualmente) verificar

como representação fiel de uma história real” e o narrador-contador que convoca o leitor-destinatário “a receber e compartilhar a história contada como história inventada” (CHARAUDEAU, 2008, p. 187, grifos do autor). Aqui, encontramos os dois seres de papel.

Esquema 3: Dispositivo da encenação narrativa Fonte: (CHARAUDEAU, 2008, p 184

Quando se trata de obra escrita, o projeto de comunicação, intitulado anteriormente projeto de fala, denomina-se naturalmente projeto de escritura, que

pode ser anunciado pelos próprios autores nos prefácios, preâmbulos, advertências, ou mesmo títulos de obras. Em sua maioria, em se tratando principalmente de obras literárias, o projeto de escritura é explicitado posteriormente em ensaios críticos ou em textos diversos (CHARAUDEAU, 2008, p. 186)18.

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É o que faremos no Capítulo 3, no qual relataremos algumas análises já existentes do conto e, sobretudo, empreenderemos fazer a nossa própria interpretação, baseada em tais análises prévias e nas teorias linguísticas, desenhadas no capítulo atual. Analisaremos os sujeitos de ação, com seus respectivos testemunhos da experiência vivida, tanto no contexto do conto escrito por Voltaire em língua francesa, como nas quatro versões traduzidas para o português. Os seres de fala, encenados da epístola aos apêndices, vão sendo também aos poucos postos em evidência, não somente no Capítulo 3, dedicado à análise macroestrutural, como no último, no qual se constrói a análise em nível microestrutural. Os detalhes relacionados às escolhas lexicais e sintáticas serão vistos na enunciação do narrador, dos personagens e de outros sujeitos de fala.

Com a intenção de contribuir ainda mais com as análises que desenvolveremos neste trabalho, apresentamos a seguir outro modo de organização do discurso, ou seja nos detemos a discorrer sobre o modo enunciativo.

Por dar conta da posição do enunciador em relação ao destinatário e sua posição em relação ao mundo, o modo enunciativo intervém na encenação do descritivo, narrativo e argumentativo. O modo enunciativo, segundo Charaudeau, ‘comanda’ os outros modos de organização pois, em todos eles, encontra-se presente.

O Modo Enunciativo tem uma função particular na organização do discurso. Por um lado, sua vocação essencial é a de dar conta da posição do locutor com relação ao interlocutor, a si mesmo e aos outro – o que resulta na construção de um aparelho enunciativo; por outro lado, e em nome dessa mesma vocação, esse Modo intervém na encenação dos três outros Modos de organização (CHARAUDEAU, 2008, p. 74).

Quando expõe o modo enunciativo do discurso, Charaudeau evidencia a distinção entre enunciados alocutivos, elocutivos e delocutivos, de acordo com a pessoa

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que estaria em evidência. Tomemos, por exemplo, o seguinte enunciado: “Este livro é bom”. Para Charaudeau, devido à ausência do pronome de 1a ou 2a pessoa e conseqüente apagamento do locutor e interlocutor, este enunciado é delocutivo e pretensamente neutro. Mas, será que tal enunciado não corresponderia a dizer: “(Eu) acho que este livro é bom”? A avaliação positiva expressa pelo adjetivo “bom” denota o julgamento do locutor. Embora o enunciador não esteja referindo-se a si mesmo pelo pronome de 1a pessoa no primeiro enunciado, podemos nele perceber sua presença implícita.

Se, por um lado, Charaudeau observa a marca do enunciador explícita no enunciado, Kerbrat-Orecchioni (1980)19 nos mostra caminhos mais sutis, pistas que o linguista pode seguir para que encontre a presença do enunciador. Para esta autora, é preciso valorizar fatores de subjetividade enunciativa como: substantivos, adjetivos, verbos e advérbios avaliativo-axiológicos. Portanto, mesmo sem sua marca enunciativa explícita, podemos ver o enunciador vivamente marcado em certos vocábulos por expressarem seu julgamento ou sua emoção.

As estratégias discursivas descritas acima podem estar a serviço tanto de uma encenação do real (mise-en-scène du réel) quanto a serviço de uma encenação de ficção. “Segundo Charaudeau (1983: 95), é através da ficção, e somente através dela, que podemos ter a sensação de completude (começo, meio e fim) que não temos nas experiências caleidoscópicas do dia-a-dia”. (OLIVEIRA, 2003, p. 50). Com efeito, as experiências que vivenciamos possuem o traço da falta de unidade. A impressão de completude que temos ao ler obras de ficção é, segundo Charaudeau, o principal “serviço”20 que esta leitura nos presta.

19

O trabalho de tal autora é apresentado ainda neste capítulo, na seção 1. 5.

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