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Cad. Saúde Pública vol.26 número4

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Academic year: 2018

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Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 26(4):644-645, abr, 2010

A leishmaniose visceral (LV) atinge cerca de 65 países, com incidência estimada de 500 mil novos casos e 59 mil óbitos anuais. No Brasil, é causada pelo protozoário Leishmania infan-tum chagasi e transmitida por flebotomíneos do gênero Lutzomyia, sendo o cão considera-do a principal fonte de infecção no meio urbano. É uma considera-doença grave com poucas opções terapêuticas e que, mesmo quando adequadamente tratada, tem letalidade de cerca de 5%.

Historicamente reconhecida como uma endemia rural, a partir da década de 1980 re-gistra-se um paulatino processo de urbanização da LV. A primeira grande epidemia urbana registrada no país ocorreu em Teresina. Posteriormente, epidemias foram descritas em Na-tal e São Luís, e subseqüentemente registrou-se sua disseminação para outras regiões do país. Recentemente casos autóctones foram detectados pela primeira vez no Rio Grande do Sul.

O panorama epidemiológico não deixa dúvidas sobre a gravidade da situação e a fran-ca expansão geográfifran-ca da LV. De 1980 a 2008, foram notififran-cados mais de 70 mil fran-casos de LV no país, levando mais de 3.800 pessoas à morte. O número médio de casos registrados anualmente cresceu de 1.601 (1985-1989), para 3.630 (2000-2004), estabilizando-se a partir de então. Na década de 1990, apenas 10% dos casos ocorriam fora da Região Nordeste, mas em 2007, esta cifra chegou a 50% dos casos. Entre os anos de 2006 e 2008, a transmissão autóctone da LV foi registrada em mais de 1.200 municípios em 21 Unidades Federadas.

A LV é uma doença negligenciada de populações negligenciadas. Pobreza, migração, ocupação urbana não planejada, destruição ambiental, condições precárias de saneamen-to e habitação e desnutrição são alguns dos muisaneamen-tos determinantes de sua ocorrência. A Organização Mundial da Saúde reconhece a inexistência de meios suficientes para sua eli-minação, a despeito das iniciativas no subcontinente indiano, onde a doença é transmitida de pessoa a pessoa por meio da picada do vetor. Neste caso o tratamento humano contri-bui para diminuir a transmissão, mas no Brasil, onde a doença é zoonótica, o tratamento tem papel eminentemente curativo.

O programa nacional de controle da LV baseia sua estratégia na detecção e tratamento de casos humanos, controle dos reservatórios domésticos e controle de vetores. Entretan-to, após anos de investimenEntretan-to, nota-se que estas medidas foram insuficientes para impedir a disseminação da doença. A introdução da LV nas cidades configura uma realidade epi-demiológica diversa daquela previamente conhecida, requerendo uma nova racionalidade para os sistemas de vigilância e de controle.

São muitos os desafios, mas ênfase deve ser dada em desenvolvimento científico e tec-nológico e em inovação em saúde. São necessários mais estudos para o desenvolvimento de novas drogas, regimes terapêuticos e protocolos de manejo clínico. Estudos de efetivi-dade das ações de controle devem ser sustentados em bases metodológicas sólidas; é pre-ciso investir em táticas integradas de intervenção estruturadas de acordo com os diferen-tes cenários de transmissão e preferencialmente focalizando áreas de maior risco. Realce deve ser dado à produção e validação de novos testes diagnósticos. Pesquisas que levem a vacinas efetivas para proteger o indivíduo e diminuir a transmissão são prioritárias. Inves-tigações para solucionar os entraves operacionais na implementação das ações de preven-ção também devem ser estimuladas.

Há ainda uma imensa lacuna no conhecimento sobre a LV. Entretanto, mais do que a pro-dução científica em si, é necessário um compromisso social de todos para evitar que a LV se estabeleça definitivamente como mais uma mazela sanitária do cotidiano urbano brasileiro.

Expansão geográfica da leishmaniose visceral no Brasil

EDITORIAL

Guilherme L. Werneck

Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca,

Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, Brasil.

Referências

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