Embora a bananeira seja uma planta pouco degradadora do solo e pouco erosiva, isso não dispensa a escolha de áreas aptas para o seu cultivo, como abordado no capítulo anterior.
Além disso, é importante a utilização de práticas como o preparo adequado do solo, para promover o crescimento radicular tanto em volume quanto em profundidade, o uso de cobertura morta e o plantio de culturas de cobertura, ambos para manter o solo coberto, reduzir as enxurradas e reciclar nutrientes, entre outras.
2.1. Preparo do Solo
De modo geral, o preparo do solo visa melhorar as condições físicas do terreno para o crescimento das raízes, mediante aumento da aeração e da infiltração de água e redução da resistência do solo à expansão das mesmas; visa ainda ao controle de plantas infestantes. O preparo adequado do solo permite o uso mais eficiente tanto dos corretivos de acidez como dos fertilizantes, além de outras práticas agronômicas.
2.1.1. Cuidados
No preparo do solo, os seguintes cuidados são recomendados:
Capítulo II Preparo e Conservação do Solo
Luciano da Silva Souza
Ana Lúcia Borges
a) Alternar o tipo de implemento empregado e a profundidade de trabalho. O uso de implementos com diferentes mecanismos de corte do solo (arado de disco, arado de aiveca etc.) e em diferentes profundidades é importante para minimizar o risco de formação de camadas compactadas e de degradação do solo.
b) Revolver o solo o mínimo possível. A quebra excessiva dos torrões, com a pulverização do solo, deixa-o mais exposto ao aparecimento de crostas superficiais e, por conseguinte, à erosão.
c) Trabalhar o solo em condições adequadas de umidade. O preparo do solo com umidade excessiva aumenta o risco de compactação, além de provocar a aderência de terra aos implementos, dificultando o trabalho. Quando o solo está muito seco, o seu preparo resulta na formação de grandes torrões e na necessidade de maior número de gradagens para destorroar o terreno. A condição ideal de umidade para trabalhar o terreno se dá quando o solo está friável, ou seja, suficientemente úmido para nem levantar poeira durante o seu preparo e nem aderir aos implementos.
d) Conservar o máximo de resíduos vegetais sobre a superfície do terreno. Os resíduos evitam ou diminuem o impacto das gotas de chuva na superfície do solo, causa de degradação da sua estrutura. Também constituem um empecilho ao fluxo das enxurradas, cuja velocidade é reduzida, diminuindo, em conseqüência, a sua capacidade de desagregação e de transporte de solo. Atuam ainda na conservação da umidade e na amenização da temperatura do solo.
Para a cultura da banana, o preparo da área para plantio pode ser feito manualmente ou com o uso de máquinas.
2.1.2. Preparo manual
No preparo manual, é feita inicialmente a limpeza da área, com a derrubada ou roçagem do mato, a destoca, o
encoivaramento e a queima das coivaras; o preparo do solo limita- se ao coveamento manual. Em áreas com vegetação arbórea pode-se efetuar a destoca gradativa ano a ano, após o plantio, tendo-se o cuidado de que as árvores caídas não obstruam os canais de drenagem naturais ou artificiais e que não interfiram nas possíveis linhas de plantio. Os resíduos das árvores podem durar bastante tempo em decomposição, podendo ocasionar distúrbios nas operações de cultivo e colheita da planta. Esse sistema tradicional tem como vantagens não perturbar demasiadamente o solo e manter a matéria orgânica distribuída uniformemente sobre este.
2.1.3. Preparo mecanizado
No preparo mecanizado, a limpeza da área é feita por máquinas, tendo-se o cuidado de não remover a camada superficial do solo, que é rica em matéria orgânica. Procede-se em seguida à aração, à gradagem e ao coveamento ou sulcagem para plantio.
Áreas anteriormente cultivadas com pastagens ou que apresentam horizontes subsuperficiais compactados ou endurecidos devem ser subsoladas a 50-70 cm de profundidade, para que o sistema radicular da planta penetre mais profundamente no solo. Por essa razão, na escolha da área para plantio é importante observar o perfil do solo como um todo, para detectar a presença de camadas compactadas ou endurecidas, e não apenas se restringir às camadas superficiais. Como a maioria das raízes da bananeira ocupa os primeiros 30 cm de profundidade, a aração deve ser feita no mínimo a 20 cm da superfície do solo, ou mais profundamente, se possível. Em áreas declivosas deve-se reduzir o uso de máquinas, a fim de não acelerar a erosão do solo. Em todos os casos, recomenda-se o uso de máquinas e implementos do menor peso possível, bem como a execução das operações acompanhando sempre as curvas de nível do terreno.
Uma alternativa de preparo primário do solo, em substituição à aração, é a escarificação, que rompe o solo da camada arável até o máximo de 25 a 30 cm de profundidade, por meio de
implementos denominados escarificadores. O escarificador pulveriza menos o solo do que o arado, deixa a superfície bem mais rugosa e com uma boa quantidade de resíduos vegetais, resultando em efeito altamente positivo no controle da erosão.
Esse sistema de preparo do solo é altamente promissor na cultura da bananeira, cuja maioria dos plantios está localizada em áreas com declive acentuado.
Em áreas sujeitas a encharcamento, é indispensável estabelecer um bom sistema de drenagem. O excesso continuado de umidade no solo por mais de três dias promove perdas irreparáveis no sistema radicular, com reflexos negativos na produção da bananeira. Por essa razão, os solos cultivados com banana devem ter boas profundidade e drenagem interna, para que os excessos de umidade sejam drenados rapidamente e que o nível do lençol freático mantenha-se a não menos de 1,80 m de profundidade.
2.2. Conservação do Solo
A conservação do solo representa o conjunto de práticas agrícolas destinadas a preservar a fertilidade química e as condições físicas e microbiológicas do solo. Historicamente, entretanto, no Brasil tem sido vista como sinônimo de práticas mecânicas de controle da erosão (terraços, banquetas, cordões em contorno e outras) que, se usadas isoladamente, agem somente sobre 5% da erosão hídrica do solo. As maiores perdas de solo e água em áreas com declive acentuado, cerca de 95%
da erosão hídrica do solo, são provocadas pelas gotas de chuva que, ao caírem sobre o solo descoberto, rompem e pulverizam os agregados superficiais, produzindo maior ou menor encrostamento da terra, dependendo da cobertura vegetal existente, da intensidade da chuva e da declividade do terreno.
Com a formação de crostas superficiais, a velocidade de infiltração de água se reduz, cuja conseqüência é o aumento do volume das enxurradas e de seus efeitos danosos.
O princípio básico da conservação do solo deve ser o de manter a produtividade do solo próxima à da sua condição original, ou o de recuperá-lo, caso sua produtividade seja baixa, usando-se, para tanto, sistemas de manejo capazes de controlar a ação dos agentes responsáveis pela degradação do solo e daqueles condicionantes do processo erosivo.
De preferência, o cultivo comercial da bananeira deve ser feito em terrenos planos, para facilitar as operações de cultivo e evitar a formação de focos de erosão, tão comuns em áreas de declive. No entanto, nas principais regiões produtoras do País, a maioria dos plantios de banana está localizada em áreas com declive acentuado. Por isso mesmo, a conservação do solo na bananeira assume grande importância como prática de cultivo, sobretudo no primeiro ciclo da cultura, quando o solo permanece descoberto durante grande parte do ano. Neste caso específico, a manutenção de cobertura morta sobre o solo é uma prática bastante recomendável, uma vez que, isoladamente, essa técnica é a que mais responde pelo controle da erosão, além de produzir outros efeitos benéficos (incorporar matéria orgânica e nutrientes, conservar a umidade do solo, amenizar a temperatura do solo, diminuir a incidência de plantas infestantes etc.).
Um outro aspecto a considerar é que, por serem mínimas as reservas hídricas da bananeira, as plantas são obrigadas a equilibrar constantemente, pela absorção radicular, as perdas de água por transpiração. Portanto, em todas as fases de desenvolvimento da bananeira, a deficiência temporária de água no solo causa sérios danos à planta: no período vegetativo, a falta de água afeta a taxa de desenvolvimento das folhas; no florescimento, limita o crescimento e o número de frutos; e no período de formação do cacho, afeta o tamanho e o enchimento dos frutos.
Esses aspectos são particularmente importantes na Região Nordeste do Brasil, que responde por parte expressiva da produção de banana do País. Essa região caracteriza-se por apresentar deficiência hídrica no solo durante alguns meses do
ano e, para mantê-lo com umidade adequada por todo o ciclo da bananeira, é necessário o uso da irrigação convencional ou a utilização de práticas alternativas capazes de manter a sua umidade próxima à capacidade de campo. A utilização de espécies vegetais como plantas de cobertura ou melhoradoras do solo e/ou de cobertura morta com resíduos vegetais podem ser soluções alternativas para os estresses hídricos a que são submetidos os bananais desta região, protegendo também as áreas contra a erosão e a degradação do solo.
2.2.1. Plantas melhoradoras do solo
As leguminosas destacam-se entre as espécies vegetais que podem ser utilizadas como plantas melhoradoras do solo, pela sua característica em obter a quase totalidade do nitrogênio que necessitam por meio da simbiose com bactérias específicas, as quais, ao se associarem com as leguminosas, utilizam o nitrogênio atmosférico transformando-o em compostos nitrogenados; além disso, apresentam raízes geralmente bem ramificadas e profundas, que atuam estabilizando a estrutura do solo.
Vários trabalhos de pesquisa têm mostrado efeitos benéficos da utilização de leguminosas nas entrelinhas do bananal, como plantas melhoradoras do solo. Dentre as leguminosas avaliadas foi observado melhor comportamento para o feijão-de-porco (Canavalia ensiformis), soja perene (Glycine javanica), leucena (Leucaena leucocephala) e guandu (Cajanus cajan). O feijão-de-porco é um dos que mais se destacam, pelo grande volume de massa verde que produz, pela agressividade do seu sistema radicular, pela grande competição com as plantas infestantes e pela ampla adaptabilidade a condições variadas de solo e clima, apesar de sua tolerância a sombreamento parcial.
Aumentos de produtividade da bananeira da ordem de 188% e 127% foram observados, respectivamente, para a implantação de soja perene e feijão-de-porco nas entrelinhas do bananal, em comparação com bananeiras cultivadas em terreno mantido
permanentemente limpo. Recomenda-se o plantio da leguminosa no início do período chuvoso, ceifando-a na floração ou ao final das chuvas e deixando a massa verde na superfície do solo, como cobertura morta.
No Estado do Rio de Janeiro, as coberturas de solo estabelecidas pelas leguminosas herbáceas siratro (Macroptilium atropurpureum) e cudzu tropical (Pueraria phaseoloides) proporcionaram cachos de bananeira ´Nanicão´, respectivamente, 84% e 74% maiores do que no tratamento com vegetação espontânea (capim colonião).
2.2.2. Cobertura morta
A proteção do bananal com cobertura morta proveniente de resíduos vegetais tem por finalidade impedir o impacto das gotas de chuva sobre o solo e manter o teor de matéria orgânica em nível elevado durante toda a vida útil da cultura. O cuidado em evitar o impacto das gotas de chuva sobre a superfície do solo é de fundamental importância, dada a localização da maioria dos bananais em áreas com declive acentuado. A manutenção de níveis elevados de matéria orgânica proporciona ao solo maior volume e disponibilidade de nutrientes, além de conservá-lo com umidade satisfatória o ano inteiro, evitando estresses hídricos prejudiciais à bananeira. Esse aspecto é particularmente importante na Região Nordeste, com estiagens prolongadas em alguns meses do ano. Por conseguinte, além de aumentar a retenção e o armazenamento de água no solo, a cobertura morta contribui para reduzir os custos de condução do bananal, ao eliminar a necessidade de capinas e ao diminuir a quantidade de fertilizantes utilizada; também ameniza a temperatura do solo.
Nos bananais localizados em encostas íngremes, além da cobertura morta do solo, é necessária a implementação de práticas como o plantio em nível, cordões em contorno, renques de vegetação e terraços ou banquetas, dependendo da declividade, do tamanho da área cultivada e da lucratividade da
exploração. As práticas citadas visam a reduzir a velocidade das enxurradas.
A cobertura morta é feita com resíduos do próprio bananal, inclusive folhas secas oriundas das desfolhas e plantas inteiras após o corte do cacho. Esse material deve ser espalhado sobre toda a área do bananal e formar uma cobertura de aproximadamente 10 cm de altura. Em virtude da decomposição acelerada do material empregado, é indispensável proceder à realimentação da cobertura, sempre que necessário.
Essa prática tem mostrado alta eficiência no cultivo da bananeira. Em comparação com o terreno do bananal mantido permanentemente limpo por meio de capinas, a cobertura morta tem aumentado em 16% o armazenamento de água no solo, em 139% os teores de potássio, em 183% os teores de cálcio e de 22% a 533% a produtividade do bananal.
Muitas vezes, a utilização da cobertura morta tem sido dificultada pois, em razão da decomposição rápida do material orgânico proveniente da bananeira, o volume de resíduos normalmente produzido no bananal é insuficiente para uma cobertura total e contínua de toda a área. A redução da área coberta poderá viabilizar essa prática. Nesse sentido, em bananal plantado em fileiras duplas (4 x 2 x 2 m), mostraram ser promissores, no aumento da produtividade e na melhoria da qualidade do fruto, a cobertura com resíduos da bananeira concentrados apenas no espaçamento largo ou no espaçamento estreito, ou a associação de resíduos no espaçamento estreito + plantio de feijão-de-porco ou de guandu no espaçamento largo, quando comparados com os resíduos da bananeira deixados no solo sem qualquer direcionamento. Em áreas irrigadas pode-se alternar as entrelinhas irrigadas com entrelinhas utilizando cobertura morta.