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este livro dedicado aos meus irmos, malachy, michael, alphonsus. abrendo convosco, admiro-vos e amo-vos. agradecimentos

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Academic year: 2022

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(1)

quando o pai traz para casa o dinheiro da primeira semana

de trabalho numa sexta-feira noite, sabemos que o�

fim-de-semana vai ser maravilhoso. (...) nas noites assim, podemos deixar-nos embalar no sono, pois sabemos que ao

pequeno-almo o vamos comer ovos, tomates fritos e p o frito e� � beber ch com montes de a� ��car e leite e, mais tarde, vamos ter um grande jantar com pur de batata, ervilhas e presunto e� um bolo que a m e faz com camadas de fruta e um creme�

delicioso, e depois embebido em xerez. nas outras noi tes,� � nas noites tr gicas, geladas, visitadas pelo espectro da fome� e arquejantes, sacudidas pela viol ncia da tuber culose, frank� � conhece, na intimidade, a impiedade da mis ria. cresce nos� bairros pobres, apinhados, de lime rick, na irlanda dos anos� 40, desesperada, exangue pela guerra civil, carente de

sustento material e intelectual; cresce merc da crueldade,� � da insensatez, do adorme cimento negligente que transforma� cada dia de um quo tidiano dram tico numa cruzada contra a� � morte. eviden ciando uma coragem not vel, frank mccourt� �

revisita a crian a que foi com uma vitalidade contagiante, e a� sua voz l rica, plena de uma energia rara, de musicalidade, de� humor, profere as suas mem rias numa prosa impetuosa,�

pict rica, sagaz, com a gra a narrativa dos grandes roman ces.� � � uma obra que comove e deslumbra pela sua beleza viva e

sombria, pela sensibilidade que supera o sofrimento e o rancor e os transmuta em mat ria-prima de uma nar rativa sobre o amor� � e o crescimento. *as cinzas de angela* recebeu o pr mio�

pulitzer de 1997, o national book award e o los angeles times award.

este livro dedicado aos� meus irm os,�

malachy, michael, alphonsus.

abrendo convosco, admiro-vos e amo-vos.

agradecimentos

estas palavras s o um hino de exalta� ��o s mulheres.� lisa schwarzbaum leu as primeiras p ginas e encorajou-me.� mary breasted smyth, ela pr pria uma romancista de fino� recorte, leu o primeiro ter o do livro e passou-o a molly� friedrich, que se tornou minha agente e achou que nan graham, chefe de edi��o da scribner era a pessoa ideal para p r o� livro a andar. e tinha raz o.�

a minha filha maggie mostrou-me como a vida pode ser uma aventura extraordin ria, assim como os momentos nicos que� � passei com a minha neta, chiara, me ajudaram a relembrar a

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maravilha que uma crian a ainda pequena. a minha mulher,� � ellen, ouviu-me enquanto eu lia em voz alta e deu-me alento da primeira ltima p gina.� � �

sou bendito entre os homens.

:as cinzas de angela

i

o meu pai e a minha m e deviam ter ficado em nova iorque,� onde se conheceram e casaram, e onde eu nasci. mas, em vez disso, volta ram para a irlanda quando eu tinha quatro anos, o� meu irm o mala chy tr s, os g meos oliver e eugene ainda n o� � � � � tinham um e a minha irm Margaret j tinha morrido.� �

quando penso na minha inf ncia, pergunto a mim pr prio como� � consegui sobreviver. claro que foi uma inf ncia infeliz: se� � tivesse sido feliz, dificilmente teria valido a pena. pior do que qualquer vulgar inf ncia infeliz a inf ncia infeliz de� � � uma crian a irlandesa, e, pior ainda, de uma crian a irlandesa� � e cat lica.�

em toda a parte, h pessoas a vangloriarem-se ou a�

lastimarem as atribula��es dos primeiros anos das suas vidas, mas n o h nada que possa comparar-se vers o irlandesa: a� � � � pobreza; o pai alco lico, indo lente e loquaz; a m e, piedosa� � � e vencida, a lamuriar-se junto chami n ; padres cheios de� � � pompa; professores ferozes; os ingleses e as coisas terr veis� que nos fizeram durante oitocentos longos anos.

e, para c mulo, a chuva.�

ao longe, sobre o oceano atl ntico, acumulavam-se grandes� nu vens, que deslizavam lentamente, subindo o rio shannon,� imobilizan do-se para sempre sobre limerick. a chuva�

impregnava a cidade desde a festa da circuncis o at v spera� � � � de ano novo. provocava uma cacofonia de tosses secas, pieiras nos br nquios, arquejos asm ti cos, e roncos da tuberculose.� � � transformava os narizes em fontes e os pulm es em esponjas de� bact rias. dava origem a um sem-fim de mezinhas. para aliviar� o catarro, coziam-se cebolas em leite com muita pimenta; para as vias congestionadas, fazia-se uma pasta com farinha cozida e urtigas, embrulhava-se com um trapo e atirava-se sobre o peito, onde ficava a fritar.

de outubro a abril, as paredes de limerick reluziam com a humidade. a roupa nunca secava: os casacos de fazenda e de l�

eram habitados por seres vivos; s vezes irrompiam deles� vegeta��es misteriosas. nos bares, os corpos e as roupas h midas exalavam vapor que era inalado juntamente com o fumo� dos cigarros e dos cachim bos, por entre os gases bafientos da� cerveja e do u sque entornados, e adulterado pelo cheiro a� mijo que entrava em baforadas, vindo dos urin is no exterior,�

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onde muitos homens vomitavam o sal rio da semana.�

a chuva empurrava-nos para a igreja -- era o nosso ref gio,� a nossa for a e o nico lugar seco. amonto vamo-nos na missa,� � � na b n� ��o, nas novenas, em grandes magotes encharcados, a dormitar ao som monoc rdico do padre, com o vapor de novo a� sair das nossas roupas e a misturar-se com a do ura do� incenso, das flores e das velas.

limerick ganhou fama pela sua religiosidade, mas n s bem� sab a mos que era tudo por causa da chuva.� �

o meu pai, malachy mccourt, nasceu numa quinta em toome, no condado de antrim. tal como o seu pai, levou uma vida violenta, sempre em conflito com os ingleses, ou com os irlandeses, ou com ambos. lutou ao lado do antigo ira e, por um acto de desespero qualquer, acabou como fugitivo e com a cabe a a pr mio.� �

quando eu era crian a, costumava olhar para o meu pai, para� o seu cabelo fraco, a sua falta de dentes e perguntava a mim pr prio porque havia algu m de pagar um pr mio por uma cabe a� � � � daquelas. quando tinha treze anos, a minha m e contou-me um� segredo: quando o teu pai ainda era pequenino, deixaram-no cair de cabe a. foi um aciden te, mas ele nunca mais voltou a� � ser o mesmo. nunca te esque as que as pessoas que caem de� cabe a podem ficar um bocado estranhas.�

por causa do pr mio que ofereciam pela sua cabe a -- com� � que tinha batido no ch o -- teve de sair da irlanda, num navio� de carga que apanhou em galway. chegado a nova iorque, em pleno auge da lei seca, pensou que tinha morrido e que estava no inferno a pagar os seus pecados. depois descobriu as

tabernas clandestinas e rejubilou.

depois de muito vaguear e muito beber na am rica e na� inglater ra, ansiava por viver em paz os anos que lhe�

restavam. voltou a belfast, que explodia sua volta. dizia,� v o para o diabo que vos carregue, e entretinha-se a conversar� com as senhoras de andersons town. elas tentavam-no com�

acepipes, mas ele corria com elas e bebia o seu ch . j n o� � � fumava nem bebia, de que servia estar ali? estava na altura de partir, e morreu no royal victoria hospital.

a minha m e, cujo nome de solteira era angela sheehan,� cresceu num bairro pobre de limerick com a m e, dois irm os,� � thomas e patrick, e uma irm , agnes. n o conheceu o pai que� � tinha fugido para a austr lia umas semanas antes de ela� nascer.

depois de uma noite a beber cerveja pelos bares de limerick, desce a rua aos trope��es, a cantar a sua can��o favorita:

*quem que estragou o guisado de sra. murply? � ningu m falou e ele gritou ainda mais alto� sei que ama piada suja irlandesa �

mas eu vou dar cabo do tipo

que estragou o guisado da murphy*.

sente-se em grande forma e pensa que ainda vai brincar um bocado com o patrick, o seu filho de um ano. um mi do� � encantador. adora o pai. ri-se quando o pai o atira ao ar.

olha o paddy que vai ao ar, olha o paddy que vai ao ar, mas est escuro, t o escuro, meu deus, n o consegue agarrar a� � �

(4)

crian a, quando vem a descer e o pobre do patrick aterra de� cabe a no ch o, espuma um pouco, choraminga e fica quieto. a� � minha av levanta-se da cama, pesada por causa da crian a que� � tem na barriga, a minha m e. a muito custo, levanta o patrick� do ch o. entoa um longo lamento sobre a crian a e vira-se para� � o meu av . Vai-te embora. rua. se ficares aqui nem que seja� mais um minuto, dou-te com o machado, b bado doido. juro por� deus, que hei-de ir parar forca por tua causa. rua.�

o meu av , como homem que , fica no mesmo s tio. tenho o� � � direito de ficar na minha casa, diz ele.

ela corre para ele, e ele fraqueja em frente daquela louca que se precipita sobre ele, com uma crian a ferida nos bra os� � e uma saud vel a mexer-se dentro dela. sai de casa aos�

trope��es, sobe a rua e s p ra em melbourne, na austr lia.� � � o pequeno pat, o meu tio, nunca mais foi o mesmo. ficou com qualquer coisa na cabe a e com a perna esquerda a ir para um� lado, enquanto a outra ia para outro. nunca aprendeu a ler nem a escrever, mas deus deu-lhe outro dom. quando come ou a�

vender jornais, aos oito anos, sabia contar dinheiro melhor do que o pr prio ministro das�

finan as. nunca ningu m soube porque lhe chamavam ab sheehan,� �

*o abade*, mas toda a gente em limerick gostava dele.

as afli��es da minha m e come aram na noite em que nasceu.� � a minha av est deitada, a gritar e a arfar com as dores do� � parto, a rezar a s. gerard majella, padroeiro das futuras m es. est l a enfer meira o.halloran, a parteira, toda� � � � aperaltada. v spera de ano novo e a sra. o.halloran est� � � ansiosa por que aquela crian a nas a para� �

poder ir festejar. diz minha av : Faz for a, v , for a.� � � � � jesus, maria e jos , se n o te despachas com esta crian a, s� � � � nasce no ano novo e l se vai vida o meu vestido novo. deixa� � l S. gerard majella. o que que um homem pode fazer por uma� � mulher numa altura destas, mesmo sendo santo? s. gerard

majella uma ova.

a minha av muda as ora� ��es para santa anna, padrocira dos partos dif ceis. mas a crian a n o nasce. a enfermeira� � �

o.halloran diz minha av , Reza a s o judas, padroeiro dos� � � casos desesperados.

s o judas, padroeiro dos casos desesperados, ajudai-me.� estou desesperada. geme e faz for a e a cabe a do beb� � � aparece, s a cabe a, a minha m e, ouvem-se as badaladas da� � � meia-noite, Ano novo. a cidade de limerick irrompe em� apitos, cornetas, sirenes, bandas, pessoas a gritarem feliz ano novo e a cantarem o *should auld acquaintance be forgot*

e por toda a parte se ouvem sinos a tocar o angelus. a enfermeira o.halloran chora o desperd cio do vesti do, essa� � crian a ainda a dentro e eu toda aperaltada. sais da ou n o?� � � � a minha av faz um ltimo esfor o e a crian a vem ao mun do,� � � � � uma linda menina de cabelo preto encaracolado e uns olhos azuis tristes.

ah!, deus que estais no c u, diz a enfermeira o.halloran,� esta crian a est escarranchada no tempo, a cabe a nasceu no� � � ano novo e o cu no velho ou foi a cabe a que nasceu no ano� velho e o cu no novo. vais ter de escrever ao papa, rapariga, para descobrir em que ano que esta crian a nasceu e, c por� � � mim, este vestido j me fica para o ano que vem.�

e puseram crian a o nome de angela por causa do angelus� � que tocou meia-noite pelo ano novo, no preciso minuto em que�

(5)

ela nasceu, e tamb m porque, fosse como fosse, ela era um� anjinho.

*ama-a como na inf ncia, �

embora fr gil, velha e grisalha. � pois nunca te faltar o amor de m e � � at que esteja envolta numa mortalha*.�

angela aprendeu a ler, a escrever e a fazer contas na escola de s o vicente de paulo, e aos nove anos acabou-se a� instru��o para ela. tentou ser mulher a dias, criada, mesmo daquelas com um chapeli nho branco que v m porta, mas n o� � � � conseguia comportar-se com a pouca cortesia a que isso

obrigava e a m e disse-lhe, n o tens jeito para isso. s uma� � � in til. porque que n o vais para a am rica onde h lugar� � � � � para todos os in teis? eu pago-te a viagem. �

chegou a nova iorque precisamente no primeiro dia de ac��o de gra as da grande depress o. conheceu malachy numa festa� � dada por dan macadorey e pela sua mulher, minnie, na classon avenue em brooklyn. malachy gostou de angela, e angela gostou dele. tinha um ar acabrunhado, que era resultado dos tr s� meses que tinha acaba do de passar na cadeia por ter assaltado� um cami o. ele e o amigo, john mcerlaine, acreditaram no que� lhe tinham dito na taberna onde vendiam bebidas clandestinas, que o cami o estava apinhado de cai xas cheias de carne de� � porco e feij o enlatado. nem um nem outro sabiam guiar, e� quando a pol cia viu o cami o aos arrancos e aos solavancos� � pela myrtle avenue obrigou-o a parar. vasculharam o cami o e� ficaram sem perceber por que iria algu m roubar um cami o� � carregado, n o de carne de porco e feij es, mas de caixas de� � bot es.�

com a atrac��o de angela pelo ar acabrunhado dele e a

solid o de malachy depois de tr s meses na pris o, tinha mesmo� � � que haver um aban o de joelhos.�

um aban o de joelhos o acto realizado contra a parede com� � o homem e a mulher em bicos de p s, a esfor arem-se tanto que� � ficam com os joelhos a tremer de tanta excita��o.

por causa do aban o de joelhos, angela ficou no estado� interessan te e, como n o podia deixar de ser, come ou a haver� � � falat rio. angela tinha primas, as irm s macnamara, delia e� � philomena, casadas, res pectivamente, com jimmy fortune do� condado de mayo e tommy flynn de brooklyn.

delia e philomena eram mulheres corpulentas, de peitos grandes, e tesas. quando sulcavam os passeios de brooklyn, criaturas mais fracas desviavam-se, em sinal de respeito. as irm s sabiam o que estava certo e o que estava errado e, se� houvesse alguma d vida, a sagrada igreja una, romana, cat lica� � e apost lica haveria de resol v -la. sabiam que, sem ser� � �

casada, angela n o podia estar no estado interessante e iam� tomar medidas.

e tomaram medidas. com jimmy e tommy a reboque, marcha ram� em direc��o taberna de atlantic avenue, onde era certo� encon trarem malachy sexta-feira, dia de pagamento quando� � tinha trabalho. o dono da taberna, joey cacciamani, n o queria� deixar entrar as irm s, mas philomena disse-lhe que, se�

quisesse ficar com o nariz na cara e a porta nos gonzos, era melhor abrir-lhes a porta, porque iam em miss o de deus. joey� respondeu, .t bem, .t bem. voc s as irlandesas. santo deus!� � �

(6)

s sarilhos e mais sarilhos.

� �

malachy, na outra ponta do balc o, empalideceu, dirigiu s� � mamalhudas um sorriso amarelo e ofereceu-lhes uma bebida. elas resistiram ao sorriso e recusaram a bebida. delia disse, n o sabemos de que esp cie de tribo que tu vens, l do norte� � � � da irlanda.

philomena disse, desconfiamos que tens presbiterianos na fam lia, e isso explica o que fizeste nossa prima.� �

jimmy disse, ora, ora. se tiver presbiterianos na fam lia,� a culpa n o dele.� �

delia respondeu-lhe, tu, bico calado.

tommy tinha de meter o bedelho. o que tu fizeste quela� pobre infeliz uma desonra ra a irlandesa. devias ter� � � vergonha.

pois, e tenho, disse malachy. e tenho.

ningu m te mandou falar, disse philomena. j fizeste� �

estragos suficientes com o teu paleio, por isso, cala a boca.

e enquanto est s de boca calada, disse a delia, fica�

sabendo que viemos aqui para te obrigarmos a fazer o que tens a fazer pela nossa pobre prima, angela sheehan.

o malachy disse, pois, muito bem, muito bem. o que tenho a fazer o que tenho a fazer, e tenho muito gosto em pagar-vos� uma rodada, enquanto estamos a ter esta conversazinha.

mete a rodada no cu, disse tommy.

philomena disse, mal a nossa pobre prima sai do barco, atiras-te logo a ela. em limerick h moral, sabes?, moral. n o� � somos como os tresmalhados de antrim, um ninho de

presbiterianos.

jimmy disse, ele n o tem cara de presbiteriano.� bico calado, disse delia.

h outra coisa em que n s repar mos, disse philomena. h� � � � qual quer coisa de estranho em ti.�

malachy sorriu. h ?�

h , disse delia. acho que foi uma das primeiras coisas em� que repar mos em ti, qualquer coisa de estranho, que nos faz� ficar preo cupadas.�

esse risinho trai oeiro de presbiteriano.� �

ah, disse malachy, isso por causa do problema que tenho� nos dentes.

com dentes ou sem dentes, estranho ou sem ser estranho, o certo que vais casar com aquela rapariga, disse tommy. podes� ter a certeza que n o te escapas igreja.� �

ah, disse malachy, n o estava a pensar em casar. que...� � n o h trabalho e eu n o a posso sustentar...� � �

vais casar, sim senhor, disse delia.

n o escapas igreja, disse jimmy.� � bico calado, disse delia.

���

malachy ficou a v -los ir embora. estou metido numa alhada,� disse ele a joey cacciamani.

podes crer, disse joey. se eu visse aquelas mulheres virem ter comigo, atirava-me ao rio hudson.

malachy pensou melhor sobre a alhada em que estava metido.

tinha uns d lares no bolso do ltimo trabalho que tivera e� � tinha um tio em s o francisco ou num outro s o qualquer da� � � �

(7)

calif rnia. n o seria melhor ir para a calif rnia, para longe� � � das mamalhudas irm s macnamara e dos tristes maridos delas?� de certeza que sim e, para festejar a decis o e a partida, ia� beber mais uma pinga do irland s. joey serviu-o e a bebida ia� arrancando a pele goela de malachy. mesmo irland s! disse� � � a joey que s na lei seca que podia haver uma mistela� �

daquelas, sa da do alambique do diabo. joey encolheu os� ombros. eu c n o sei de nada. s sirvo. mesmo assim, era� � � melhor do que nada e malachy ia beber outro e um para ti, joey, e pergunta queles dois italianos, gente de bem, o que � � que eles querem e o que que est s para a a dizer, claro que� � � tenho dinheiro para pagar.

acordou num banco na esta��o dos caminhos-de-ferro de long island, com um pol cia a dar-lhe pancadinhas nas botas com um� bast o, sem o dinheiro com que ia fugir e com as irm s� �

macnamara em brooklyn, prontas a com -lo vivo.�

na festa de s o jos , num dia frio de mar o, quatro meses� � � depois do aban o de joelhos, malachy casou com angela, e a� crian a nasceu em agosto. em novembro, malachy embebedou-se e� achou que era altura de registar a crian a. pensou em dar-lhe� o nome de malachy, igual ao seu, mas por causa do sotaque do norte da irlanda e da voz entaramelada de b bedo, o�

funcion rio percebeu t o mal que registou a crian a apenas com� � � o nome de male.

s em finais de dezembro que levaram male Igreja de s o� � � � paulo para ser baptizado e receber o nome de francis, em honra do av paterno e do maravilhoso santo de assis. angela queria� p r-lhe um segundo nome, munchin, em honra do padroeira de� limerick, mas malachy disse que s por cima do seu cad ver.� � nunca um filho seu teria um nome de limerick. a vida j � � dif cil quando se tem s m nome. essa hist ria dos segundos� � � nomes era um abomin vel h bito americano e tamb m n o havia� � � � necessidade de um segundo nome quando se baptizado com o� nome do homem de assis.

houve um percal o no dia do baptizado porque john� mcerlaine, que tinha sido escolhido para padrinho,

embebedou-se na taberna e esqueceu-se dos compromissos que tinha. philomena disse ao marido, tommy, que tinha de ser ele o padrinho. a alma da crian a est em perigo, disse ela. tommy� � baixou a cabe a e resmungou. est bem. vou ser padrinho, mas� � n o me responsabilizo se, quando ele crescer, for como o pai,� a arranjar sarilhos e com aquela maneira estranha de ser, pois, se assim for, ele que v ter com o john mcerlaine � � taberna. o padre disse, tens raz o, tom, s um tipo s� � � direitas, um homem como deve ser, que nunca p s um p numa� � taberna. malachy, que tinha sa do h pouco tempo da taberna,� � ficou ofendido e quis discutir com o padre, um sacril gio em� cima de outro. tire esse colarinho e vamos l ver quem que � � � homem e quem que n o . teve de ser agarrado pelas� � �

mamalhudas e pelos seus tristes maridos. angela, m e h pouco� � tempo, esqueceu-se, na sua agita��o, de que tinha a crian a ao� colo e deixou-a cair para a pia baptismal, uma imers o total � � maneira presbiteriana. o sacrist o, que estava a coadjuvar o� padre, sacou o beb de dentro da pia e tornou a d -lo a� �

angela, que, a solu ar, o aninhou no colo, ficando encharcada.� o padre deu uma gargalhada, disse que nunca tinha visto uma coisa daquelas, que a crian a era um baptista como manda a�

(8)

lei, e quase nem precisava de padre. malachy tornou a ficar enfurecido ao ouvir isto e quis atirar-se ao padre por estar a dizer que o beb era um protestante. o padre disse, cale-se,� homem, est na casa do senhor, e quando malachy disse, a casa� do senhor uma merda, foi posto no olho da rua court, porque n o se pode dizer merda na casa do senhor.�

depois do baptizado, philomena disse que tinha ch ,�

presunto e bolos l em casa, j ao virar do esquina. malachy� � disse, ch ? e ela respondeu, sim, ch , ou queres antes u sque?� � � ele disse que o ch vinha mesmo a calhar, mas que primeiro� tinha de ir ajustar umas contas com john mcerlaine, que n o� tinha tido a dec ncia de cumprir as suas obriga� ��es de

padrinho. angela disse, s est s a arranjar uma desculpa para� � te ires meter na taberna, e ele disse, deus minha�

testemunha, longe de mim estar a pensar em bebida. angela come ou a chorar. o dia do baptizado do teu filho e tens de� � ir beber. delia disse-lhe que ele metia nojo, mas que outra coisa n o seria de esperar da irlanda do norte.�

malachy olhou ora para uma ora para a outra, apoiando-se ora num p ora no outro, puxou o bon para os olhos, enfiou as� � m os nos bolsos e disse, oh, *aye*, da maneira como dizem� nos confins do codando de antrim, deu meia volta e subiu a rua court a toda a velocidade em direc��o taberna da atlantic� avenue, onde tinha a certeza de que iriam oferecer-lhe de beber em honra do baptizado do seu filho.

em casa de philomena, as irm s e os maridos comeram e�

beberam, enquanto angela ficou sentada a um canto, a embalar o beb e a chorar. philomena, com a boca cheia de p o e� �

presunto, ia dizendo a angela, o que ganhas em seres t o� � parva. mal sais do barco, ficas logo de bei o ca do por aquele� � doido. devias ter ficado solteira e dado a crian a para�

adop��o. hoje eras uma mulher livre. angela come ou a chorar� ainda mais, e foi delia que continuou o ataque, p ra com isso,� angela, p ra com isso. n o podes atribuir a ningu m, sen o a� � � � ti pr pria, as culpas pelo sarilho em que te meteste com� aquele b bedo do norte, um homem que nem sequer parece�

cat lico, com aquela coisa estranha que tem. c por mim... c� � � por mim... o malachy tem mesmo pinta de presbiteriano.

cala-te, jimmy.

se fosse a ti, disse philomena, arranjava maneira de n o� ter mais filhos. ele n o tem trabalho, pois n o, nem nunca� � ter , bebendo como bebe. por isso... nada de filhos, angela.� est s a ouvir o que te digo?�

estou, philomena.

passado um ano, nasceu outra crian a. angela p s-lhe o nome� � de malachy, como o pai, e um segundo nome, gerard, como o irm o do pai.�

as irm s macnamara disseram que angela era uma aut ntica� � coe lha e n o queriam saber mais dela, enquanto n o aprendesse� � � a ter ju zo.�

os maridos concordaram.

estou num parque infantil de classon avenue, em brooklyn, com o meu irm o malachy. ele tem dois anos e eu tr s. estamos� � no balanc .�

para cima, para baixo, para cima, para baixo.

o malachy sobe.

(9)

eu saio.

o malachy desce. o balanc bate no ch o. ele d um grito.� � � p e a m o na boca e vem suja de sangue.� �

oh!, meu deus. sangue mau sinal. a minha m e vai-me� � matar.

a vem ela, tentando atravessar o parque infantil a correr.� a bar riga grande obriga-a a andar mais devagar. �

diz, o que que fizeste? o que que fizeste ao menino?� � n o sei o que hei-de dizer. n o sei o que que fiz. � � � ela puxa-me uma orelha. vai para casa. vai para a cama.

para a cama? em pleno dia?

empurra-me para o port o do parque infantil. vai. � pega no malachy ao colo e afasta-se, bamboleando pesadamente.

���

o amigo do meu pai, o sr. macadorey, est porta da nossa� � casa. est parado na berma do passeio com a sua mulher,�

minnie, a olhar para um c o deitado na valeta. volta da� � cabe a do c o est uma po a de sangue. da cor do sangue que� � � � � saiu da boca do malachy.

o malachy tem sangue de c o e o c o tem sangue do malachy.� � puxo a m o do sr. macadorey. digo-lhe que o malachy tem� sangue igual ao do c o.�

pois tem, francis, pois tem. os gatos tamb m. e os� esquim s. tem tudo sangue igual.�

a minnie diz, p ra com isso, dan. n o confundas o mi do. e� � � con ta-lhe que o pobre c o foi atropelado por um carro e� � arrastou-se desde o meio da rua at ali, antes de morrer.� queria vir para casa, coita dinho.�

o sr. macadorey diz, melhor ires para casa, francis. n o� � sei o que que fizeste ao teu irm o, mas a tua m e levou-o ao� � � hospital. vai para casa, filho.

o malachy vai morrer como o c o, sr. macadorey?�

a minnie diz, ele s trincou a l ngua. n o vai morrer.� � � porque que o c o morreu?� �

tinha chegado a hora dele, francis.

a casa est vazia e eu ando do quarto para a cozinha e da� cozinha para o quarto. o meu pai saiu para procurar trabalho e a minha m e est no hospital com o malachy. quem me dera ter� � alguma coisa para comer, mas na geleira s h folhas de couve� � a boiarem no gelo derretido. o meu pai disse para nunca

comermos nada que esteja a boiar na gua porque pode estar� podre. adorme o na cama dos meus pais e quando a minha m e me� � acorda j quase de noite. o teu � �

irm o vai dormir um bocadinho. ia ficando sem l ngua. tem� � pontos que nunca mais acabam. vai para o outro quarto.

o meu pai est na cozinha a beber ch preto da sua caneca� � branca de esmalte. senta-me no seu colo.

pai, contas-me a hist ria do cucu?�

cuchulain. v , repete comigo, cu-hu-lin. conto-te a� hist ria quando disseres o nome bem. cu-hu-lin.�

eu digo bem e ele conta-me a hist ria de cuchulain, que em� crian a tinha um nome diferente, setanta. cresceu na lrlanda� onde o meu pai vivia quando ainda era menino, no condado de

(10)

antrim. setanta tinha um pau e uma bola e um dia atirou a bola e ela entrou para dentro da boca de um c o enorme, que�

pertencia a culain, e o c o morreu sufocado. culain ficou� muito zangado e disse, o que que eu vou fazer sem o meu c o� � grande para guardar a minha casa e a minha mulher e os meus dez filhinhos e todos os meus porcos, galinhas e ovelhas.

setanta disse, desculpe. eu guardo a sua casa com o meu pau e a minha bola e vou mudar o meu nome para cuchulain, o c o de� culain. e mudou. come ou a guardar a casa e as zonas em volta� e tornou-se um grande her i, o c o do ulster. o meu pai dizia� � que ele era um her i maior do que h rcules ou aquiles, de que� � os gregos estavam sempre a gabar-se, e era bem capaz de

arrumar o rei artur e os seus cavaleiros todos num combate honesto que era coisa que, com um ingl s, claro que nunca se� conseguiria.

esta hist ria minha. o meu pai n o pode cont -la ao� � � � malachy nem a nenhuma outra crian a da nossa rua.�

acaba a hist ria e deixa-me beber um golo do seu ch . � � � amargo, mas sinto-me feliz, ali no colo dele.

o malachy fica com a l ngua inchada durante v rios dias.� � mal consegue fazer um som, quanto mais falar. mas, mesmo que pudesse, ningu m lhe presta nenhuma aten� ��o porque temos dois beb s novos, que foram trazidos por um anjo a meio da noite.� os vizinhos dizem. oh! ah! que meninos t o lindos! que olhos� t o grandes!�

o malachy fica no meio do quarto, de cabe a levantada a� olhar para toda a gente, a apontar para a l ngua e a dizer ag,� ag. quando os vizinhos lhe dizem, n o v s que estamos a dar� � aten��o aos teus irm ozinhos?, ele come a a chorar, e s se� � � cala quando o pai lhe faz uma festinha na cabe a. mete a� l ngua para dentro, filho, e vai brincar com o frankie. vai.� no parque infantil, falo ao malachy do c o que morreu na� rua, por lhe terem atirado uma bola para dentro da boca. o malachy abana a cabe a. n o ag bola. carro ag mata c o. chora� � � porque lhe d i a l ngua e custa-lhe a falar, e terr vel� � � � quando n o se consegue falar. n o me deixa empurr -lo no� � �

baloi o. diz, ias-me ag matando no ag balanc . pede ao freddie� � leibowitz que o empurre e est feliz, rindo quando o baloi o� � sobe at ao c u. o freddie grande, tem sete anos, e eu� � �

pe o-lhe que me empurre. ele diz, n o, tu tentaste matar o teu� � irm o.�

tento dar balan o sozinho, mas n o consigo mais do que� � andar um pouco para tr s e para a frente, e fico zangado� porque o freddie e o malachy est o a rir-se por eu n o� � conseguir andar de baloi o. fize ram-se grandes amigos, o� � freddie, de sete anos, e o malachy, de dois. passam os dias a rir, e a l ngua do malachy est a ficar melhor com tanto riso.� � quando ele se ri, v em-se os dentinhos muito brancos, e os� olhos a brilhar. tem olhos azuis como a minha m e. tem cabelo� louro e as faces rosadas. eu tenho olhos castanhos como o meu pai. tenho cabelo preto e, quando me vejo ao espelho, a minha cara muito branca. a minha m e diz Sra. leibowitz, l ao� � � � fundo do corredor, que o malachy a crian a mais feliz do� � mundo e que o frankie tem uma maneira de ser estranha, como o pai. gostava de saber o que que eu tenho de estranho, mas� n o posso perguntar, porque n o devia estar a ouvir.� �

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