CENTRODEEDUCAÇÃOECIÊNCIASHUMANAS
PROGRAMADEPÓS-GRADUAÇÃOEMEDUCAÇÃOESPECIAL
ACESSIBILIDADE PARA A PESSOA COM CEGUEIRA EM TRILHAS
José Júlio Cordeiro Ramos
UNIVERSIDADEFEDERALDESÃOCARLOS CENTRODEEDUCAÇÃOECIÊNCIASHUMANAS
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO ESPECIAL
ACESSIBILIDADE PARA A PESSOA COM CEGUEIRA EM TRILHAS
José Júlio Cordeiro Ramos
Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Educação Especial da Universidade Federal de São Carlos como parte dos requisitos para a obtenção do Título de Mestre em Educação Especial. Orientadora Profª. Drª. Maria Amélia Almeida
Ficha catalográfica elaborada pelo DePT da Biblioteca Comunitária da UFSCar
R175ap
Ramos, José Júlio Cordeiro.
Acessibilidade para a pessoa com cegueira em trilhas / José Júlio Cordeiro Ramos. -- São Carlos : UFSCar, 2009. 102 f.
Dissertação (Mestrado) -- Universidade Federal de São Carlos, 2009.
1. Deficiência visual. 2. Acessibilidade. 3. Trilha ecológica. 4. Cegos. 5. Educação especial. I. Título.
Banca Examinadora da Dissertação de José Júlio Cordeiro Ramos
Prata. Ora. Maria Amelia Almeida Ass.
~~
(UFSCar)
Prata. Ora. Mey de Abreu Van Munster
(UFSCar)
Ass.
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Prata. Ora. Maria da Piedade Resende da Costa
Ass.
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(UFSCar)
Prata. Ora. Sônia Maria Chadi de Paula Arruda
Ass. }er
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Dedicatória
AGRADECIMENTOS
À minha querida mãe, Nilda, por seu carinho e apoio. À Luiza, minha filha, por sua doçura.
Aos meus irmãos, Fátima, Flávio e Luciano, pelo estímulo, À Eni, pela ajuda e interesse.
À Leila e ao recém chegado Henrique.
Ao Marco e aos Srs. Tolet e Carrinho, pela ajuda nas adaptações da trilha e filmagens. Aos amigos Liana e Rogério pela ajuda com as figuras.
Aos colaboradores, Sareto, Carlinhos, Caíque, Francisco, Fafá, Gilson, Lurdes, Josué, Bernardo, Victorino, Willian e Gerd, por sua disposição em ajudar.
A todos os professores e funcionários da ACIC, especialmente aos diretores Maristela, Denise, Marcilene, Luis, e Adilson, pelo apoio e por disponibilizarem a infra-estrutura da ACIC para o estudo, sem os quais este trabalho não poderia ser realizado.
RESUMO
A independência em locomoção para as pessoas com cegueira, objeto deste estudo, é uma das áreas que proporcionam maior incidência de situações de exclusão, por tolher um direito fundamental de todo cidadão, que é o direito de ir e vir. A cidade de Florianópolis, local deste estudo, considerada pelos órgãos oficiais como uma cidade turística, “ainda” dispõe de muitos ambientes naturais, como praias, montanhas e florestas. Existem também muitas trilhas, ligando estes ambientes, que comumente são utilizadas para caminhadas ou trekking. Estas trilhas não dispõem de acessibilidade para as pessoas com
deficiência física ou visual. Para trilhá-las, as pessoas com cegueira necessitam da ajuda de um guia vidente – pessoas que enxerguem e as guiem. Assim, este estudo propõe avaliar a acessibilidade para as pessoas com cegueira, de uma dessas trilhas, com a sua participação no processo. O metodo, uma pesquisa de campo, com abordagem qualitativa e delineamento pré-experimental, envolve alguns instrumentos utilizados em outros estudos e adaptados para a condição de cegueira dos participantes. Participaram do estudo onze pessoas com cegueira, habilitadas nas técnicas de uso do guia vidente, do uso da bengala e do uso do sistema Braille. O principal instrumento utilizado no estudo foi o teste de deslocamento em trilhas, tendo sido verificadas as questões da pesquisa. É possível para uma pessoa com cegueira caminhar com independência em uma trilha? É possível realizar esta caminhada com independência e segurança? Ou ainda, fazer esta caminhada, ciente de sua orientação espacial e das informações acerca dos atrativos do local? Os resultados mostraram que, com a utilização de uma linha-guia, plaquetas informativas e uma sinalização sonora, acionada pelo toque da bengala, ou seja, materiais de baixo custo, é possível oferecer uma trilha acessível às pessoas com cegueira.
ABSTRACT
The independence of blind people while in mobility, the object of this research, is one of areas that provide a high incidence of exclusion, since this is a limitation on a fundamental right of all citizens, which is the right of walking freely. The city of Florianópolis, place of this research and considered by the government organizations, a tourist destination offers many options of leisure such as beaches, mountains and forests. There are many trails in these places which are, commonly, used for walking or trekking. In general, these trails don’t offer exclusive access to people with physical or visual impairment. For “trekking”, blind people need the assistance of a guide with normal vision. The propose of this research is to evaluate the accessibility for blind people on one of these trails, with their participation in this process through the application of modifications that allowed accessibility. The methodology involved some instruments used in previous research which were adapted for the conditions of blindness of the people with qualitative and early experimental approach. There are eleven blind people involved in the project, with skill in the use of normal guide, blind cane and Braille System. The principal instrument used in this research was a transit test on ecological trails, where we could observe the subjects involved. Could a blind person walk on trails, with independence? Is it possible these people walk beyond independence, with safety, too? And, the people in that walk are conscious of their space orientation and local attractive? The results have shown that with the utilization of a guide line, information plaques and sound signs, activated by a cane touch, that is, low worth materials, it is possible to offer an accessible trail for blind people.
LISTA DE ILUSTRAÇÕES
Figura 1 - Homem vitruviano...34
Figura 2 - Padrões antropométricos...35
Figura 3 - ACIC...45
Figura 4 - Trilha da ACIC...46
Figura 5 - Trilha circular...47
Figura 6 - Trilha em oito...47
Figura 7 - Trilha linear...48
Figura 8 - Trilha em atalho...48
Figura 9 - Saída de trilha...57
Figura 10 - Caminhando em linha reta...59
Figura 11 - Desnível guia...59
Figura 12 - Percepção podotátil...60
Figura 13 - Não localiza o caminho...61
Figura 14 - Localiza o caminho...62
Figura 15 - Linha-guia à esquerda...64
Figura 16 - Linha-guia em destaque...65
Figura 17 - Tubo de PVC 100 mm com cap...66
Figura 18 - “Tóten”, conjunto de suporte de plaqueta, plaqueta, linha-guia e guizos...66
Figura 19 - Padrões antropométricos...67
Figura 20 - Cap ou tampão...67
Figura 21 - Moldura de plaqueta...68
Figura 22 - Plaqueta com informações em Braille...71
Figura 23 - Tampa de pote de sorvete de 2 litros usada como moldura de folha de alumínio..72
Figura 24 - Sensor de presença...72
Figura 25 - Guizos...73
Figura 26 - Sinalização sonora de guizos presa à linha-guia acionada por toque de bengala...74
Figura 27 - Estufa de plantas wm construção. Um dos pontos de atratividade...84
Figura 28 - Pássaros silvestres e animais de estimação em ponto de atratividade...84
Figura 29 - Local sombreado com banco é ponto de atratividade...85
Figura 30 - Banco próximo à nascente é ponto de atratividade...85
Figura 32 - Linha-guia e guizos auxiliam na localização da plaqueta de sinalização...86
Figura 33 - Sinalização sonora é fixada na linha-guia...87
Figura 34 - Plaqueta com caracteres no sistema Braille oferece informações...87
LISTA DE TABELAS
LISTA DE QUADROS
Quadro 1 - Caracterização dos participantes...44
Quadro 2 - Instrumento nº2 - Teste de deslocamento em trilhas ...51
Quadro 3 - Instrumento nº4 – Indicadores básic. aval. atratividade pontos interpretativos...52
Quadro 4 - Quadro demonstrativo de limitação quanto à orientação e informação em trilhas.53 Quadro 5 - Quadro demonstrativo de limitação quanto à orientação e informação em trilhas.55 Quadro 6 - Pré-teste de deslocamento em trilhas...58
Quadro 7 - Plaqueta 1...68
Quadro 8 - Plaqueta 1 no Sistema Braille...69
Quadro 9 - Plaqueta 2...69
Quadro 10 - Plaqueta 2 no Sistema Braille...69
Quadro 11 - Plaqueta 3...69
Quadro 12 - Plaqueta 3 no Sistema Braille...69
Quadro 13 - Plaquetas 4...70
Quadro 14 - Plaqueta 4 no Sistema Braille...70
Quadro 15 - Plaqueta 5...70
Quadro 16 - Plaqueta 5 no Sistema Braille...70
Quadro 17 - Plaqueta 6...71
Quadro 18 - Plaquetas 6 no Sistema Braille...71
Quadro 19 - Pós-teste de deslocamento em trilhas...76
ABREVIATURAS
ABNT - Associação Brasileira de Normas Técnicas ACIC - Associação Catarinense para Integração do Cego FCEE - Fundação Catarinense de Educação Especial FMSS - Fundação Maurício Sirotsky Sobrinho IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística MEC - Ministério da Educação
NBR - Normas Brasileiras
OMS - Organização Mundial de Saúde ONG - Organização Não Governamental PVC - Poli-cloreto de Vinila
SUMÁRIO
1 APRESENTAÇÃO...16
2 INTRODUÇÃO...19
3 DEFICIÊNCIA VISUAL...22
3.1 CLASSIFICAÇÕES E DEFINIÇÕES DA DEFICIÊNCIA VISUAL...22
3.2 DEFINIÇÃO DE CEGUEIRA LEGAL... 23
3.3 ABORDAGEM EDUCACIONAL...24
3.4 CLASSIFICAÇÃO PARA A PRÁTICA ESPORTIVA...25
4 ORIENTAÇÃO E MOBILIDADE... ...27
4.1 HISTÓRICO...27
4.2 A TÉCNICA...28
4.3 ORIENTAÇÃO E MOBILIDADE EM ÁREAS LIVRES OU TRILHAS...29
4.4 BENGALAS...29
4.5 AJUDAS TÉCNICAS...30
4.6 RECURSOS ELETRÔNICOS...30
4.7 RECURSO ANIMAL - O CÃO GUIA -...31
5.ACESSIBILIDADE, DESENHO UNIVERSAL E PADRÕES ANTROPOMÉTRICOS... 32
5.1 ACESSIBILIDADE... 32
5.2 DESENHO UNIVERSAL...32
5.3 PADRÕES ANTOPOMÉTRICOS...34
6 REVISÃO TEÓRICA...36
7.OBJETIVOS...41
7.1 OBJETIVO GERAL...41
8 MÉTODO...42
8.1 PARTICIPANTES...42
8.2 CUIDADOS ÉTICOS...45
8.3 AMBIENTE: A TRILHA DA ACIC...45
8.4 MATERIAIS E EQUIPAMENTOS...49
8.5 INSTRUMENTOS...49
8.4.1 Instrumento n°1 - graduação de dificuldade de trilha...50
8.4.2 Instrumento nº2 - teste de deslocamento em trilhas...50
8.4.3.Instrumento nº3 – entrevista...51
8.4.4. Instrumento nº4 - indicadores básicos para avaliação de atratividade de pontos interpretativos ...52
8.4.5. Instrumento nº5 - demonstrativo limitação orientação informação trilhas ...52
9 RESULTADOS PRELIMINARES...54
9.1 APLICAÇÃO DO INSTRUMENTO Nº1 – GRADUAÇÃO DE DIFICULDADE DE TRILHA...54
9.2 APLICAÇÃO DO INSTRUMENTO Nº5 - LIMITAÇÃO QUANTO À ORIENTAÇÃO E INFORMAÇÃO DE TRILHAS...55
9.3 APLICAÇÃO DO INSTRUMENTO Nº2 – PRÉ-TESTE: DESLOCAMENTO EM TRILHAS...56
10 INTERVENÇÃO...63
10.1 LINHA-GUIA...64
10.2 SUPORTE DE PLAQUETA...66
10.3 PLAQUETAS...68
10.4 MOLDURA DA PLAQUETA... 71
10.6 LIMPEZA DA TRILHA...74
10.7 APÊNDICES DE PROTEÇÃO...74
10.8 ANÁLISE DOS DADOS...75
11 RESULTADOS FINAIS...76
11.1 APLICAÇÃO DO INSTRUMENTO Nº2 – PÓS-TESTE: DESLOCAMENTO EM TRILHAS...76
11.2 APLICAÇÃO DO INSTRUMENTO Nº3 – ENTREVISTA...80
11.3 APLICAÇÃO DO INSTRUMENTO Nº4 – ATRATIVIDADE DE PONTOS INTERPRETATIVOS...82
12 DISCUSSÃO...89
13 CONSIDERAÇÕES FINAIS...91
13.1 SUGESTÕES PARA ESTUDOS FUTUROS...92
REFERÊNCIAS ...93
1 APRESENTAÇÃO
Por toda minha vida tenho morado em cidades grandes, porém sempre gozei do privilégio de desfrutar do contato com a natureza. Quando criança, freqüentava os parques e praças de Porto Alegre-RS na companhia de meus pais. Posteriormente passei a descobri-los, sozinho ou com os amigos, explorando-os com outros olhos, praticando, o que hoje é chamado de bicicross, montain bike, arvorismo ou treeking.1
Ao prestar vestibular para a Universidade Federal de Santa Catarina, minha escolha pelo curso de Pedagogia Habilitação Educação Especial-Deficiência Mental foi fortemente influenciada pela presença de meu irmão mais novo, que tem Síndrome de Down. Porém, coincidentemente, ou não, a ligação com a natureza e a vida ao ar livre continuou também na vida profissional. Meu primeiro trabalho na área foi na função de instrutor de horticultura, junto a crianças e jovens com deficiência mental na FCEE - Fundação Catarinense de Educação Especial e posteriormente na APAE – Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais, na mesma função.
Depois, no ensino regular, na área das dificuldades de aprendizagem e na educação de jovens e adultos, atuei como professor, em uma escola situada no interior da Ilha de Santa Catarina, próxima do mar e da montanha. Outra experiência profissional, vivenciada junto à natureza, ocorreu em um hospital psiquiátrico, situado à beira de um rio de corredeiras, no município de São Pedro de Alcântara, vizinho a Florianópolis, onde, junto de meus colegas, realizava longas caminhadas com nossos alunos/pacientes nas trilhas próximas ao hospital.
Há aproximadamente quinze anos, trabalho na ACIC – Associação Catarinense para Integração do Cego - uma Organização Não Governamental(ONG), sem fins lucrativos. Por ser mantida com recursos da comunidade – doações, contribuições de associados, convênios - tem um quadro funcional limitado. Por isso, os colaboradores da área técnica, são qualificados para atuar em diversas áreas da reabilitação básica, como, orientação e mobilidade, sistema Braille, técnicas do sorobã, atividades da vida diária. Também adquirem conhecimentos acerca das tecnologias assistivas e adaptações em material didático, além de outras necessidades demandadas pelas pessoas com deficiência visual no seu dia-a-dia.
1 O autor praticava estas atividades em caráter informal, e não da forma organizada ou profissional como
Trabalhando na ACIC, novamente estou próximo da natureza, pois ela está instalada em área com trinta hectares, onde aproximadamente 80% são formados por mata atlântica de preservação permanente. Independentemente das questões ecológicas, na ACIC, passei a ter contato com os problemas de acessibilidade enfrentados pelas pessoas cegas, e presenciei a evolução ocorrida na área, onde os volumosos livros em Braille, usados pelos estudantes e leitores em geral, vão sendo substituídos por material digitalizado. Atualmente, o MEC – Ministério da Educação, e instituições particulares de ensino têm disponibilizado notebook’s, dotados de softwares leitores de tela, com sintetizadores de voz para a acessibilidade dos estudantes com deficiência visual. Ainda na questão da acessibilidade, as ruas do entorno da ACIC, que quase não dispunham de calçadas, hoje são quase todas acessíveis, dotadas de piso podotátil2, que possibilita o deslocamento independente e seguro para as pessoas cegas.
Como afirma Sassaki (1997, p.20), "a acessibilidade não mais se restringe ao espaço físico, à dimensão arquitetônica". Ele divide o conceito de acessibilidade em seis dimensões: arquitetônica, comunicacional, metodológica, instrumental, programática e atitudinal. "Todas essas dimensões são importantes. Se faltar uma, compromete as outras".
Em 1997 a ACIC, foi contemplada em concurso de projetos sociais, promovido pela FMSS – Fundação Maurício Sirotsky Sobrinho. O prêmio consistiu em recursos financeiros para a implantação de uma trilha em sua sede. O projeto previa a sua acessibilidade para as pessoas com deficiência, porém, não havia modelos que pudessem ser reproduzidos e que proporcionassem uma efetiva independência, no deslocamento das pessoas cegas, por esta trilha. Esta dependência também era verificada em passeios educativos, realizados em parques, praias e trilhas, onde as pessoas com deficiência visual deviam sempre contar com guias videntes, visto que estes são necessários por razões de segurança, como determina a Norma Brasileira 15505(ABNT, 2008).
Assim, iniciou-se este projeto de pesquisa, considerando-se algumas premissas pré-estabelecidas, como a de não criar pseudo-condições de acessibilidade ou a da utilização de materiais de sucata e de baixo custo. O que se queria, inicialmente, era resolver o problema
2 Piso Podotátil, disponível nas versões alerta e direcional, auxilia as pessoas com cegueira ou com
de acessibilidade na trilha da ACIC - uma trilha fácil e segura -, para um passeio no intervalo do almoço ou no fim de tarde, sem riscos para os participantes.
Desse modo surgem as questões que orientam esta dissertação. É possível para uma pessoa com cegueira caminhar com independência em uma trilha? É possível realizar esta caminhada com independência e segurança? Ou ainda, fazer esta caminhada, ciente de sua orientação espacial e das informações acerca dos atrativos do local?
2 INTRODUÇÃO
O Censo populacional de 2000 aponta um índice de 14,5% da população com algum tipo de deficiência, ou 24,5 milhões de pessoas. Destes, 48,1%, 16,5 milhões de pessoas, teriam deficiência visual ou alguma dificuldade em enxergar, conforme a tabela 1 (Censo IBGE - 2000). Estes números, principalmente os relacionados à deficiência visual, quando divulgados, chegaram a ser questionados pelos técnicos da área, inclusive pelo presidente do CONADE – Conselho Nacional dos Direitos das Pessoas Portadoras de Deficiência – à época, Prof. Adilson Ventura, dada a sua magnitude e discrepância com os números até então conhecidos, como vemos na tabela 1.
OMS IBGE
Tipo de deficiência Percentual(%) Equivalente numérico Tipo de deficiência Percentual(%) Equivalente numérico
Mental 50 8.500.000 Mental 8,3 2.045.950
Física 20 3.400.000 Física 4,1 1.010.650
Visual 5 850.000 Visual 48,1 11.856.650
Auditiva 15 2.550.000 Auditiva 16,7 4.116.550
Múltipla 10 1.700.000 Múltipla *
Motora * Motora 22,9 5.644.850
Total 100 17.000.000 Total 100 24.650.000
Tabela 1 – Comparativo entre a estimativa da população de indivíduos com deficiência – OMS(1981) e censo populacional – IBGE(2000).Fonte: IBGE(2000) e OMS(1981) * As pessoas com mais de um tipo de deficiência foram incluídas em cada uma das categorias correspondentes
indicam que haja aproximadamente, entre 40 e 45 milhões pessoas cegas e 135 milhões de pessoas com baixa visão, notadamente nos países em desenvolvimento.
Muito embora as pessoas com baixa visão sejam maioria, a escolha de pessoas cegas, como sujeitos da pesquisa, deveu-se à sua maior dificuldade para a locomoção independente, como atesta Webster (1976, p. 70), ‘‘a limitação na orientação e mobilidade é considerada como o mais grave efeito da cegueira sobre o indivíduo”.
Pressionado pelas entidades representativas das pessoas com deficiência, o governo federal publicou em 2004 o Decreto Lei n°5296 (Brasil - 2004), com a finalidade de estabelecer normas gerais e critérios básicos para a promoção da acessibilidade às pessoas com deficiência ou com mobilidade reduzida. A referida lei dedica capítulos à acessibilidade arquitetônica e urbanística, com foco principal nas pessoas com deficiência física, tendo como referências básicas as normas técnicas de acessibilidade da ABNT – Associação Brasileira de Normas Técnicas -, que por sua vez segue os princípios do desenho universal. Estas normas estabelecem o grau máximo de inclinação de uma rampa, a largura das portas, o tamanho dos banheiros, entre outros padrões, que, quando cumpridos, permitem a acessibilidade para as pessoas com deficiência física, especialmente aquelas que utilizam cadeiras de rodas.
A Prefeitura da cidade de Florianópolis, há algum tempo, vêm instalando piso podotátil nas calçadas das praças, nos terminais de ônibus e outros espaços públicos, bem como vem estimulando os proprietários de imóveis a também fazê-lo. Este piso, nas versões alerta e direcional, auxilia as pessoas com deficiência visual em sua locomoção, informando-as, através do tato dos pés e da cor diferenciada, da presença de obstáculos, como postes, orelhões, caixas coletoras do correio ou placas de sinalização, bem como a direção a seguir (ABNT, 2001).
Entretanto, a citada acessibilidade arquitetônica e urbanística não faz referência a áreas livres, ambientes naturais, parques, áreas verdes, trilhas e áreas de lazer. Existem algumas iniciativas isoladas, como a do Jardim Botânico da cidade do Rio de Janeiro, em que há mais de 10 anos criou-se o Jardim Sensorial. O Jardim, com acessibilidade para as pessoas com deficiência visual, recentemente, passou por reformas para melhorar a circulação e os seus atrativos táteis, de olfato e paladar, oferecidos em canteiros, com 42 espécies de plantas de uso ornamental, culinário, medicinal, religioso e de perfumaria (Brasil, 2005). O mesmo ocorreu no Parque Ecológico da cidade de São Carlos, que implementou a identificação em Braille dos recintos ocupados pelas espécies animais do parque (Costa, 2001).
3 DEFICIÊNCIA VISUAL
Durante muitos anos, os cegos foram considerados como pessoas inúteis, uma espécie inferior, totalmente voltada à ignorância. A sociedade considerava-se perfeita, e media a competência do indivíduo, a partir de sua perfeição anatômica. No decorrer dos tempos, conquistas sociais, políticas e melhorias estruturais, provocaram mudanças na sociedade, frente à problemática que envolve a convivência das pessoas com deficiência.
A França foi a primeira a prestar ajuda material aos cegos. De acordo com a lenda, o Rei Luiz IX e seu exército teriam sido presos pelos turcos durante as cruzadas. Como resgate, o sultão da Turquia pediu uma fabulosa soma em dinheiro, sob a ameaça de que, por dia que demorasse a entrega, vinte prisioneiros franceses seriam cegados. Durante quinze dias o fato se sucedeu, até que foram libertados, juntamente com o rei. O monarca Luís IX - depois São Luís - criou então em Paris, no ano de 1265, o Quinze-Vingts (15X20), para servir de refúgio aos trezentos soldados cegos.
No Brasil, uma das primeiras iniciativas em favor das pessoas cegas aconteceu em 1854, com a criação do Imperial Instituto dos Meninos Cegos, que funciona até hoje, com o nome de Instituto Benjamim Constant.
Mais recentemente, o Congresso Nacional vem produzindo leis, que têm auxiliado as pessoas com deficiência em sua inclusão social, como o Decreto-Lei n°3298-99, que em seu artigo 3º define deficiência:
I - deficiência – toda perda ou anormalidade de uma estrutura ou função psicológica, fisiológica ou anatômica que gere incapacidade para o desempenho de atividade, dentro do padrão considerado normal para o ser humano;
II - deficiência permanente – aquela que ocorreu ou se estabilizou durante um período de tempo suficiente para nãopermitir recuperação ou ter probabilidade de que se altere, apesar de novos tratamentos. (BRASIL,1999)
3.1 CLASSIFICAÇÕES E DEFINIÇÕES DA DEFICIÊNCIA VISUAL
Já a classificação esportiva tem o objetivo de formar grupos homogêneos, onde atletas cegos devem competir com outros atletas cegos, assim como os atletas com baixa visão, devem competir com seus pares.
MUNSTER e ALMEIDA (2005, p.33) alertam que
para que possa ocorrer um bom entendimento das classificações da deficiência visual faz-se necessário o entendimento das funções visuais, ocorrendo uma maior compreensão do funcionamento visual dos alunos, que abrange a acuidade visual (capacidade de distinguir detalhes, dada pela relação entre o tamanho do objeto e a distância onde está situado), a binocularidade (é a capacidade de fusão da imagem proveniente de ambos os olhos em convergência ideal, o que proporciona a noção de profundidade), o campo visual (é avaliado a partir da fixação do olhar, quando é determinada a área circundante visível ao mesmo tempo), a visão de cores (capacidade para distinguir diferentes tons e nuances das cores), a sensibilidade à luz (capacidade de adaptação frente aos diferentes níveis de luminosidade do ambiente) e a sensibilidade ao contraste (habilidade para discernir pequenas diferenças na luminosidade de superfícies adjacentes.
A seguir abordaremos algumas classificações e suas aplicações.
3.2 DEFINIÇÃO DE CEGUEIRA LEGAL
Como foi citado na introdução deste trabalho, o censo-2000 do IBGE apontou uma prevalência de 48,1% da deficiência visual, dentre as demais deficiências, atingindo estes números à luz da nova Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde, divulgada da OMS - Organização Mundial de Saúde. Porém, aí incluem-se aquelas pessoas que possuem apenas “alguma dificuldade para enxergar”. Assim, para coibir a utilização indevida de benefícios, bem como para proporcionar a equiparação de oportunidades, nossos legisladores, apoiados em níveis de acuidade visual utilizados na Oftalmologia, criaram a definição legal para a deficiência visual, dividindo-a em cegueira e em baixa visão, conforme mencionado a seguir.
O Decreto Nº 5.296 – de 2 de dezembro de 2004 - DOU DE 3/12/2004, regulamenta a Lei no 10.048, de 8 de novembro de 2000, que dá prioridade de atendimento às pessoas que especifica, e Lei nº 10.098, de 19 de dezembro de 2000, que estabelece normas gerais e critérios básicos para a promoção da acessibilidade das pessoas portadoras de deficiência ou com mobilidade reduzida, e dá outras providências.
I - pessoa portadora de deficiência, além daquelas previstas na Lei no 10.690, de 16 de
junho de 2003, a que possui limitação ou incapacidade para o desempenho de atividade. No caso da deficiência visual, esta compreende a cegueira e a baixa visão. No caso da cegueira, a acuidade visual é igual ou menor que 0,05 no melhor olho, com a melhor correção óptica, enquanto que na baixa visão, a acuidade visual entre 0,3 e 0,05 no melhor olho, com a melhor correção óptica; os casos nos quais a somatória da medida do campo visual em ambos os olhos for igual ou menor que 60o; ou a ocorrência
simultânea de quaisquer das condições anteriores. (BRASIL – 2000)
A definição legal é utilizada pelo mercado de trabalho, nos concursos públicos, onde os candidatos com deficiência devem apresentar um atestado médico com CID – Código Internacional de Doenças, e assim serem enquadrados nas reservas de vagas. A classificação legal pode ser utilizada para fins de aposentadoria e tem, também, papel importante para as empresas privadas, das quais aquelas com mais de cem empregados são obrigadas a contratar pessoas com deficiência, na seguinte proporção:
I - até duzentos empregados, dois por cento;
II - de duzentos e um a quinhentos empregados, três por cento; III - de quinhentos e um a mil empregados, quatro por cento; ou IV - mais de mil empregados, cinco por cento. (Brasil, 1999)
Segundo Crespo(1980), o conceito de cegueira legal é quase unificado para todos os países ocidentais, quando afirma que uma pessoa é cega quando sua acuidade visual com correção é 1/10 (0,1), ou tem campo visual reduzido a 20°”
Porém existem variações na comunidade internacional quanto ao limite superior da cegueira legal, em termos de acuidade visual (Herren; Guillemet, 1982).
Suécia: 1/30(0,03); Alemanha: 2/50(0,04); França, Holanda: 1/20 (0,05);
Espanha, Itália, Grã-Bretanha, EstadosUnidos, Canadá: 1/10 (0,10).
A redução do campo visual na Espanha, para a consideração da cegueira legal, deve ser igual ou inferior aos 10°.
3.3 ABORDAGEM EDUCACIONAL
processo de ensino aprendizagem. Assim, Corn & Koenig(1996) definem a pessoa com baixa visão, como “aquela que possui dificuldades em desempenhar tarefas visuais, mesmo com prescrição de lentes corretivas, mas que pode aprimorar sua capacidade de realizar tais tarefas com a utilização de estratégias visuais compensatórias, baixa visão e outros recursos, e modificações ambientais.”
A pessoas cega é definida por BARRAGA (1985), como “aquela cuja percepção de luz, embora possa auxiliá-la, em seus movimentos e orientação, é insuficiente para aquisição de conhecimentos por meios visuais, necessitando utilizar o sistema Braille em seu processo de ensino-aprendizagem.”
Barraga(1985) estabelece três grupos de acordo com as suas características educacionais.
a) Deficiência visual profunda
Em termos educacionais, apresenta dificuldade para realizar tarefas visuais grosseiras; impossibilidade de fazer tarefas que requeiram visão de detalhes.
b) Deficiência visual severa
Entre as características educacionais, observa-se a impossibilidade de realizar tarefas visuais com exatidão, requerendo adequação de tempo, ajudas e modificações.
c) Deficiência visual moderada
Como características educacionais observa-se a possibilidade de realizar tarefas visuais com o uso de ajudas e iluminação adequada similares às realizadas pelos indivíduos com visão normal.
3.4 CLASSIFICAÇÃO PARA A PRÁTICA ESPORTIVA
Classe B1: atleta cego, com ou sem a percepção de luzes, porém incapaz de identificar a forma de uma mão colocada à frente de seu rosto;
Classe B2: atletas com acuidade visual variando da percepção e definição da forma de uma mão colocada a frente de seu rosto até a Tabela de Snelen 20/400 ou campo visual de até 5 graus;
Classe B3: atletas com acuidade visual de 20/400 a 20/200 ou campo visual variando de 5 a 20 graus (IBSA, 2005).
4 ORIENTAÇÃO E MOBILIDADE
Orientação e Mobilidade, ou OM, é um atendimento oferecido às pessoas com deficiência visual, sob a forma de sessões ou aulas, em programas de reabilitação, habilitando-as a locomover-se a pé, com independência, em ambientes conhecidos ou não. Para isso, utiliza-se da bengala longa, das técnicas de Hoover e dos sentidos remanescentes (audição, aparelho vestibular, tato, consciência cinestésica, olfato e visão residual, nos casos de pessoas com baixa visão).
Este atendimento visa proporcionar a autonomia e o usufruto do direito de ir e vir. Após a aquisição das técnicas, a pessoa deverá aprender trajetos de seu interesse, geralmente relacionados à sua reabilitação, profissionalização e/ou escolarização. Assim, concluídas estas etapas, a pessoa estará habilitada a locomover-se com independência.(BRASIL, 2001, p.61)
4.1 HISTÓRICO
A história da locomoção das pessoas cegas é tão antiga quanto a história da humanidade, embora a atenção e o atendimento a elas dispensado tenham se alternado entre o abandono e o acolhimento. Ainda assim, foram encontrados desenhos em cavernas, demonstrando as formas de locomoção das pessoas cegas na pré-história, com o auxílio de um cão guia. A mitologia grega nos diz que no antigo testamento, Issac ao ficar cego, recorre ao cajado de pastor como auxiliar para caminhar (Levy, 1872). Em Pompéia, vila romana arrasada pelo vulcão Vesúvio no ano 79 da era cristã, foi encontrado um afresco representando a figura de um cego com um grande cajado acompanhado de um cão. Outra evidência encontra-se na biblioteca da Escola Perkins para Cegos, em Massachusetts, onde podem ser observadas gravuras produzidas em 1629 pelo artista holandês Van den Enden, retratando pessoas cegas com bastões.
No século XVIII, a bengala passa a fazer parte do vestuário das pessoas, popularizando o seu uso também entre as pessoas cegas. Porém, a bengala para cegos propriamente dita começa a surgir em 1930, ‘‘[...] quando o Lions Club de Peoria, Illinois-EUA, apresenta uma proposta de lei que, aprovada, foi denominada Lei da Bengala Branca, que dava prioridade no trânsito à pessoa cega que estivesse portando uma bengala branca...1931 – Reunião internacional do Lions Club em Toronto, Canadá, quando se instituiu o dia 15 de outubro como o “Dia Mundial da Bengala Branca [...]”(Melo 1991, p.34).
Valley Forge Hospital, Pensilvânia-EUA, seu local de trabalho. Hoover implementou profundas modificações nas técnicas até então utilizadas, como a substituição da bengala ortopédica, branca e curta, por uma bengala longa, mais apropriada para locomoção das pessoas cegas. Em 1959 é realizada a I Conferência Oficial sobre Orientação e Mobilidade, em Nova York.
Segundo Felippe e Felippe (1997, p.14), as técnicas de Hoover obtiveram tamanho sucesso, ‘‘que em 1960 o Governo Federal patrocinou o Primeiro Curso Universitário no Boston College, ministrado pelo Rev. Thomas G. Carrol... onde os graduados passaram a ser chamados de peripatologistas.’’Tal denominação advém da linha peripatética, inaugurada por Aristóteles na Grécia antiga, que seria o método de ensinar caminhando. A exemplo do mestre grego que debatia filosofia no Liceu com seus discípulos, durante caminhadas na alameda chamada “peripato”, daí o nome peripatético. O professor de OM caminha com seu aluno, transmitindo-lhe as técnicas e as informações necessárias para o seu deslocamento seguro.
No Brasil, segundo FELIPPE e FELIPPE (1997, p. 15)
A ‘Orientação e Mobilidade’ teve início em 1955, quando Mr. Ernest Harold Getliff, superintendente da Royal School of Industries for the Blind, foi recomendado para prestar serviços junto à Fundação para o Livro do Cego no Brasil...em fevereiro de 1957, chegou ao Brasil sob o patrocínio da ONU, Mr Joseph Albert Asenjo que ministra dois cursos de OM...Em 1959 foi criado o primeiro curso para treinamento de instrutores de “Orientação e Mobilidade” pelo Instituto de Reabilitação da Escola de Medicina da Universidade de São Paulo. A partir da década de 70, foram realizados cursos para formação de professores de Orientação e Mobilidade, como o Seminário Ibero-Americano sobre Orientação e Mobilidade, realizado em São Paulo-SP em 1972, o I Encontro Brasileiro de Técnicos de OM, realizado em Belo Horizonte-MG em 1976 e o II Encontro Brasileiro de Técnicos de OM, realizado em Florianópolis-SC em 1984...até os dias de hoje, não existe no Brasil um curso regular e regulamentado que venha a formar adequadamente esse profissional e, tampouco, o reconhecimento dessa profissão.
4.2 A TÉCNICA
Lowenfeld (1948) e Gokmam (1969) afirmam que a pessoa cega, não habilitada nas técnicas de locomoção, além de ter suas decisões limitadas à vontade alheia, priva-se de atividades de conhecimento e satisfação pessoal, tendendo ao isolamento e ao descrédito. Webster (1976, p.70) nos diz que “a limitação na orientação e mobilidade é considerada como o mais grave efeito da cegueira sobre o indivíduo”.
habilidade do indivíduo para perceber o ambiente que o cerca, estabelecendo as relações corporais, espaciais e temporais com esse ambiente, através dos sentidos remanescentes. A orientação do deficiente visual é alcançada através da utilização da audição, aparelho vestibular, tato, consciência cinestésica, olfato e visão residual, nos casos de pessoas portadoras de baixa visão.
Afirmam ainda que mobilidade
é a capacidade ou estado inato do indivíduo de se mover reagindo a estímulos internos ou externos, em equilíbrio estático ou dinâmico. A mobilidade do deficiente visual, é alcançada através de um processo ensino-aprendizagem e de um método de treinamento que envolve a utilização de recursos mecânicos, ópticos, eletrônicos, animal (cão-guia) em vivências contextualizadas, favorecendo o desenvolvimento das habilidades e capacidades perceptivo-motoras do indivíduo.
FELIPPE e FELIPPE (1997, p.16), em seu livro Orientação e Mobilidade, apresentam um programa de OM contendo treze etapas, indicadas a seguir:
primeira etapa - o desenvolvimento dos pré-requisitos básicos; segunda etapa - o treinamento dos sentidos remanescentes; terceira etapa – seção de habilidades básicas de O&M (técnicas com a utilização do guia vidente, técnicas de auto-proteção); quarta etapa - desenvolvimento da orientação; quinta etapa - habilidades com a bengala longa; sexta etapa - introdução para a locomoção em ambientes externos; sétima etapa - área residencial; oitava etapa - área mista de pequeno comércio; nona etapa - área comercial central; décima etapa - vivencias especiais; décima primeira etapa - testes de reorientação; décima segunda etapa - avaliação final; décima terceira etapa - reavaliações periódicas e retorno para novos programas.
4.3 ORIENTAÇÃO E MOBILIDADE EM ÁREAS LIVRES OU TRILHAS
As técnicas de locomoção nas áreas rurais ou trilhas, objeto deste estudo, são abordadas por Horton(1986), onde o autor sugere o uso de pistas táteis e podotáteis para a orientação das pessoas cegas em áreas rurais ou não urbanizadas, através do uso da bengala e a não utilização de calçados, para a melhoria da sensibilidade. Recomenda ainda a utilização dos pontos de referência existentes nestas áreas, como árvores, grandes pedras, cachoeiras, porteiras e outros, para a sua orientação nestas áreas não urbanizadas.
Outra referência ao tema surge em Moroni(1977) in Fellipe & Fellipe(1997), onde se recomenda a colocação de guia de referência, de aproximadamente 50 centímetros de altura, como anteparo de lagos, poços, pontes e depressões do terreno.
4.4 BENGALAS
Em 1921, James Biggs, fotógrafo de Bristol, Inglaterra, ficou cego depois de um
A bengala de James Biggs era uma bengala de madeira, ortopédica, comumente utilizada por enfermos e/ou por pessoas idosas com mobilidade reduzida. A idéia de Biggs deu certo, e as bengalas para cegos começam a ser produzidas, em madeira, brancas e medindo aproximadamente 90 cm.
Em 1945 o Dr. Richard Hoover cria uma bengala totalmente diferente das existentes no mercado. A bengala produzida por Hoover - é basicamente um tubo alumínio com empunhadura -, sendo mais longa e mais fina, do que as bengalas conhecidas até então. A bengala longa de Hoover deveria transmitir ao seu usuário, a presença de obstáculos a sua frente. Isto ocorre através da utilização das Técnicas de Hoover, que vão desde a forma de segurá-la, a postura do usuário, os toques, o rastreamento, até a coordenação dos movimentos de braços e pernas.
Atualmente as bengalas podem ser produzidas em alumínio ou fibra de carbono, podem ser rígidas ou dobráveis, e sua altura é variável, devendo alcançar o apêndice xifóide(região mais inferior do osso esterno) de seu usuário.
Thornton (1968) instalou um sensor auxiliar sônico na ponta da bengala longa, permitindo ao cego a percepção de obstáculos através da intensidade do som produzido pela bengala ante a aproximação do mesmo. Surgiu também um bastão eletrônico com raio laser que detecta irregularidades do terreno, porém devido ao custo elevado, ambos são pouco utilizados no Brasil.
4.5 AJUDAS TÉCNICAS
O Decreto-Lei nº5296/2004 em seu artigo nº61 considera ajudas técnicas os produtos, instrumentos, equipamentos ou tecnologia adaptados ou especialmente projetados para melhorar a funcionalidade da pessoa portadora de deficiência ou com mobilidade reduzida, favorecendo a autonomia pessoal, total ou assistida.
4.6 RECURSOS ELETRÔNICOS
comunicação entre um chip e o corpo humano, especificamente a retina, a fim de devolver parcialmente a visão aos pacientes que participam do estudo.
O sistema é composto por uma placa de eletrodos, que é implantada na retina do paciente, que deverá se comunicar com uma câmera de vídeo instalada em um óculos. Assim as imagens captadas pela câmera de vídeo são transmitidas para placa de eletrodos que são transformados em estímulos. Os estímulos são transmitidos à retina que os retransmite ao cérebro. A percepção de visão entre os participantes da pesquisa oscila entre a percepção de volumes maiores até o caso de uma mulher que consegue encestar uma bola de basquete. A prótese retiniana, ou olho biônico, vem sendo desenvolvida há 20 anos e o primeiro implante aconteceu em 2002. A companhia Second Sight, responsável pelo desenvolvimento do chip, estima o custo de todo o procedimento de instalação do olho biônico entre U$50 e U$100 mil (Simioni, 2008)
4.7 RECURSO ANIMAL – O CÃO GUIA
Uma ajuda técnica importante para a locomoção das pessoas cegas, é o cão-guia. Os cães que serviram de mensageiros durante a Primeira Guerra Mundial viriam a ser treinados como guias para cegos. Os cães utilizados no Brasil são todos importados dos EUA ou Nova Zelândia. Para obter um cão guia, a pessoa cega deve submeter-se a um treinamento, com duração aproximada de um mês, na escola de cães guias. Este treinamento visa à familiarização com os comandos de voz, a formação de vínculo afetivo, bem como a manutenção do animal.
5 ACESSIBILIDADE, DESENHO UNIVERSAL E PADRÕES ANTROPOMÉTRICOS
5.1 ACESSIBILIDADE
A acessibilidade para as pessoas com deficiência visual, objeto deste estudo, é fruto do desenho universal, que visa à eliminação de barreiras. Este círculo, barreiras-acessibilidade-desenho universal, passa a ser definido abaixo, sob a ótica do Decreto-Lei nº 5.296/2004 (Brasil, 2004), a chamada Lei da Acessibilidade.
O Decreto-Lei nº5.296/2004 estabelece em seu Art. 8° que para os fins de acessibilidade considera-se:
I - Acessibilidade: condição para utilização, com segurança e autonomia, total ou assistida, dos espaços, mobiliários e equipamentos urbanos, das edificações, dos serviços de transporte e dos dispositivos, sistemas e meios de comunicação e informação, por pessoa portadora de deficiência ou com mobilidade reduzida; II - Barreiras: qualquer entrave ou obstáculo que limite ou impeça o acesso, a liberdade de movimento, a circulação com segurança e a possibilidade de as pessoas se comunicarem ou terem acesso à informação (BRASIL 2004).
Segundo Dorneles et al. (2008), barreiras físicas, informativas e atitudinais, muitas vezes restringem o uso de espaços públicos, ocasionando situações de constrangimento às pessoas com restrições, e dificultando, ou até mesmo impedindo sua participação em diversas atividades que neles ocorrem. Diante dessa realidade, é responsabilidade dos arquitetos a elaboração de espaços acessíveis, que permitam a participação de todos, garantindo assim uma das condições fundamentais para a inclusão social: a acessibilidade espacial.
5.2 DESENHO UNIVERSAL
No contexto do espaço público, o Desenho Universal se apresenta como uma ferramenta de projeto, pois considera a diversidade humana na elaboração dos espaços e seus componentes. Portanto, para a correta elaboração de um espaço público livre acessível, é necessário o conhecimento das deficiências e restrições apresentadas pelos diversos usuários, bem como as suas necessidades espaciais e a busca de soluções projetuais que as contemplem.
características antropométricas e sensoriais, de forma autônoma, segura e confortável, constituindo-se nos elementos ou soluções que compõem a acessibilidade.
Bernardi e Kowaltowski (2005, p.157) em “Reflexões sobre a aplicação dos conceitos do Desenho Universal no processo de projeto de Arquitetura” conceituam o Desenho Universal como o “projeto de produtos, ambientes e comunicação para ser usado pelas pessoas em condições de igualdade. Também é chamado de projeto inclusivo, projeto para todos, projeto centrado no homem” .
As autoras discorrem sobre a evolução do Desenho Universal, que tem seu início na década de 50 na Europa, Japão e EUA, onde projetos livres de barreiras foram desenvolvidos para remover obstáculos no ambiente construído. Em 1964, nos Estados Unidos, com a evolução dos direitos civis para as raças minoritárias, pela primeira vez o projeto arquitetônico foi reconhecido como uma condição para o alcance destes direitos, com argumentações sobre a igualdade de oportunidade. Na década de 70, Europa e EUA usam o termo “projeto acessível” para as soluções especiais.
Segundo Bernardi e Kowaltowski (2005), o termo Universal Design começou a
ser utilizado em 1987 pelo arquiteto Ron Mace. Ele contraiu poliomielite na infância e locomovia-se em uma cadeira de rodas com auxílio de um respirador artificial. Na década de 90, o mesmo Ron Mace criou um grupo com arquitetos e defensores dos ideais de inclusão para estabelecer os sete princípios do desenho universal. São eles:
1. uso eqüitativo: o projeto não pode criar desvantagens ou estigmatizar qualquer grupo de usuários;
2. flexibilidade de uso: o projeto adaptado a um largo alcance de preferências e habilidades individuais;
3. uso intuitivo: fácil entendimento independente da experiência, conhecimento, linguagem e grau de concentração dos usuários;
4. informação perceptível: o projeto comunica necessariamente informações efetivas ao usuário, independente das condições do ambiente e das habilidades sensoriais do usuário;
5. tolerância ao erro: o projeto minimiza os riscos e as conseqüências adversas de acidentes;
7. tamanho e espaço para acesso e uso: tamanho e espaços apropriados para acesso, manipulação, uso independente do tamanho do corpo, postura ou mobilidade do usuário.
Assim, para atender a estes princípios, os projetos acessíveis, como este, lançam mão de informações acerca da anatomia do ser humano, como veremos a seguir.
5.3 PADRÕES ANTROPOMÉTRICOS
Leonardo da Vinci desenhou em 1492 as proporções da figura humana (Homem Vitruviano), baseando-se em um famoso desenho do arquiteto romano Vitruvius, no qual descreve como a forma humana ditada de costas, com as mãos e pernas abertas, poderia ser circunscrita tendo o umbigo como centro do círculo. Sugere também que a figura pode também estar contida exatamente dentro de um quadrado. A cabeça é considerada como um décimo da altura total. (Michels, 2001).
Figura 1: Homem Vitruviano. Fonte: Michels(2001).
do automóvel, da largura de uma porta acessível ao cadeirante até a área ocupada por um homem cego e seu cão guia, como mostram as figuras a seguir.
Neste estudo, os padrões antropométricos foram referência para a construção dos apêndices de acessibilidade na trilha da ACIC, como o a figura 2, letra h, que estabelece em 80 cm., a largura mínima, utilizada pela pessoa cega para a utilização de sua bengala de rastreamento, o que determina a largura mínima de uma trilha acessível para pessoas cegas.
6 REVISÃO TEÓRICA
A acessibilidade, palavra-chave deste trabalho, balizou a revisão teórica. Buscou-se informações em trabalhos realizados por profissionais das mais diversas áreas, como a arquitetura, a pedagogia, a educação física, a biologia, a engenharia da computação e outras, como veremos a seguir.
Com o objetivo de discutir e avaliar a acessibilidade à Biblioteca Central da Universidade Federal de Santa Catarina, MAZZONI et al. (2000, p.31) analisaram os
aspectos urbanísticos (estacionamento, caminhos de acesso etc.), os aspectos arquitetônicos (iluminação, ventilação, espaço para circulação entre ambientes,
banheiros, rampas adequadas etc.), os aspectos de informação e comunicação
(sinalização, sistemas de consulta e empréstimos, tecnologia de apoio para usuários com deficiências, sistemas para acesso remoto etc.) e os aspectos atitudinais como
as pessoas compreendem e constroem o processo de acessibilidade, em relação ao que pode valorizar ou degradar os projetos originais.
No citado estudo de caso, os autores constataram problemas de acessibilidade nos guichês de atendimento, onde as pessoas são atendidas em pé, quando o ideal seria que elas fossem atendidas sentadas, por um funcionário que fique no mesmo nível delas, independentemente da deficiência da qual fossem acometidas. O estudo constata ainda a ausência de informações em Braile para os cegos, bem como um croqui em relevo das dependências, e painéis com informações táteis, para que possam formar o mapa mental do espaço que irão freqüentar. Verificou-se também que a Biblioteca Central possui uma biblioteca virtual com tecnologia assistiva baseada na informática, que seria o caso dos sintetizadores de voz e reconhecimento de caracteres de textos digitalizados, já bem utilizados por usuários cegos, porém as páginas apresentadas na web não são acessíveis, não atendendo às recomendações nesse propósito elaboradas pelo W3C - World Wide Web Consortium.
Em relação às barreiras atitudinais, os pesquisadores verificaram que apesar da reforma arquitetônica na biblioteca, um acesso para cadeirantes é mantido trancado a cadeado, gerando uma situação de discriminação. O mesmo ocorre no auditório, onde há acessibilidade apenas para a platéia, e não para o palco, como se não houvesse palestrantes com deficiência.
Os pesquisadores concluem que, para um bom atendimento às pessoas com deficiência no espaço físico da biblioteca, é necessário que:
- seja preparada uma sala com recursos de acessibilidade, tanto em termos de mobiliário, como em software e hardware;
- todos os serviços disponibilizados na forma digital devem ser acessados também via Internet, observando a acessibilidade no espaço digital;
- a comutação de material bibliográfico deve incluir também versões digitais. Deve-se aumentar o acervo com obras digitais e tornar a versão digital parte indissociável dos trabalhos acadêmicos de mestrado e doutorado recebidos pela biblioteca;
- alocar pessoas portadoras de deficiência para atuar na biblioteca, assim as dificuldades enfrentadas por estes usuários serão mais bem compreendidas e mais facilmente solucionadas. (Ibid, p.34.)
Por fim, consideram que a acessibilidade é um processo dinâmico, associado não só ao desenvolvimento tecnológico, mas principalmente ao desenvolvimento da sociedade. Uma sociedade que se preocupa em garantir às pessoas portadoras de deficiência o direito de participar da produção e disseminação do conhecimento certamente contará com a participação dessas pessoas, de forma ativa, em todos os demais setores da sociedade.
Costa(2001) relata a dificuldade que os alunos cegos matriculados nas classes especiais da rede pública de São Carlos enfrentavam ao visitar o Parque Ecológico de São Carlos, uma vez que tinham dificuldade em usufruir plenamente destas visitas. Assim, surgiu a idéia de transcrever em Braille as plaquetas de identificação da fauna do parque, dispostas em frente aos recintos utilizados pelos animais. Após uma pesquisa de materiais para a confecção das placas, elegeu-se o alumínio, por sua resistência às intempéries e facilidade de obtenção. A equipe liderada pela pesquisadora Costa decidiu reciclar o alumínio encontrado em embalagens de refrigerantes e cervejas, recortando-as e conferindo-lhes a forma de um plano retangular de 9 cm por 20 cm. Em seguida, o projeto foi submetido à direção do Parque para obtenção de seu aval ao projeto. Após obter a autorização da direção do Parque, Costa e sua equipe iniciam a transcrição das plaquetas em Braille, com a utilização de máquinas de escrever Braille. Cabe salientar que o projeto foi executado com a participação dos alunos com deficiência visual, tanto na obtenção da matéria prima, as latas de refrigerantes e cervejas, como na impressão destas.
Com o objetivo de elaborar uma trilha auto-guiada com acessibilidade, Zanin(2003) desenvolveu o planejamento de uma trilha interpretativa acessível num parque municipal na cidade de Erechim-RS, que propõe o lazer aliado à educação e à acessibilidade, proporcionando um novo instrumento pedagógico que auxilie na aquisição de conhecimentos
sobre o ecossistema local e uma nova forma de lazer contemplativo aos visitantes. A autora
painéis que falam da biodiversidade do local e da importância da conservação do Parque para o município, por meio de uma linguagem adequada a qualquer idade, pois é lúdica e
científica ao mesmo tempo, abordando também aspectos históricos relevantes para o local.
Segundo Vasconcelos (1997), uma trilha é considerada interpretativa quando os recursos que ali se encontram são traduzidos por intérprete, folhetos ou painéis, desenvolvendo novos campos de percepções e para Ham (1992) e Vasconcelos (1997), em parques urbanos, as trilhas auto-guiadas são ideais, pois desta forma os visitantes conseguirão percorrer a trilha sem o auxílio de um guia, quando assim desejarem, garantindo uma interação entre a população e a natureza.
A trilha deve ser formada por uma passarela com rampas, com ripado e corrimão firme, feitos em eucalipto tratado e adequada à norma NBR 9050 da Associação Brasileira de Normas Técnicas – ABNT, que normaliza a acessibilidade a edificações, mobiliário, espaços e equipamentos urbanos. A trilha deve dispor de painéis interpretativos ao longo de seu percurso e as pessoas cegas devem receber um livreto em Braille com o conteúdo dos painéis. No corrimão da passarela, haverá uma numeração, também em Braille, correspondente ao texto do livreto. Assim, as pessoas cegas podem dispor de informações sobre a fauna e a flora local, no ambiente em que se encontram. A trilha e o parque pretendem ainda ser acessíveis aos cadeirantes e aos surdos, porém até a presente data não foram encontrados registros sobre a implantação efetiva desta trilha, bem como de sua funcionalidade.
Munster (2004) realizou uma pesquisa sobre a temática “Esportes na natureza e deficiência visual” junto à Faculdade de Educação Física da UNICAMP, que desenvolve o Projeto de Extensão “Atividade Motora Adaptada a Pessoas com Deficiência Visual”. Os objetivos da pesquisa foram investigar os esportes na natureza acessíveis às pessoas com deficiência visual, as variáveis que caracterizam a população envolvida (a deficiência visual) e a descrição dos procedimentos metodológicos que nortearam a realização do Programa de Esportes na Natureza (trekking, rafting, caving, escalada em rocha, canyoning e mergulho
subaquático).
Com relação ao trekking, – caminhadas em ambientes naturais - objeto deste
projeto, MUNSTER (2004, p. 37) chama a atenção para a
delimitar o espaço e estabelecer áreas de segurança durante atividades aquáticas desenvolvidas em represas ou no mar.
A autora descreve todo o planejamento anterior à execução da atividade, como a seleção e a descrição do roteiro para os cegos, a preparação dos guias para a condução do grupo, bem como o processo de ensino-aprendizagem dos participantes visando a sua familiarização com o ambiente de trilhas e demais atividades.
Ao término do Programa de Esportes na Natureza, foram aplicadas entrevistas semi-estruturadas com os participantes. A entrevista continha 17 questões abertas, relacionadas às vivências proporcionadas pelo Programa.
Em suas considerações finais, a autora conclui que na perspectiva educacional a prática dos esportes na natureza contribui para o desenvolvimento pessoal, social, evidenciando o potencial das pessoas com deficiência visual e sua capacidade de realização, adaptação e superação. Possibilita ainda que
segmentos da sociedade (escolas, comunidades, clubes, colônias de férias etc.) estejam receptivos e removam as barreiras arquitetônicas e atitudinais, que têm limitado ou restringido a descoberta de novas possibilidades de interatuação da pessoa deficiente na sociedade (ID. 2004, p. 267).
Pesquisadores da USP de São Carlos, Cliquet Junior, Kassab Junior e Pereira(2006) desenvolvem uma pesquisa que tem como objetivo substituir a visão, ou a falta dela, pela eletro-estimulação tátil. Para isso, a equipe de pesquisadores, desenvolve um sistema composto por webcam, micro-computador, equipamento para eletroestimulação e matriz de eletrodos, que, preso ao corpo da pessoa, captura as imagens do meio ambiente, trata-as digitalmente detectando seus contornos e as transmite ao usuário pela eletro-estimulação cutânea na região do abdômen. As publicações disponíveis dão conta de que o sistema está em testes de campo e tem objetivo de reduzir o tempo para o reconhecimento das imagens.
áreas livres e ao conceito de acessibilidade. E permitiu ainda a construção de uma planilha para a análise da pesquisa de campo.
Com base nestes estudos, buscou-se desenvolver e testar soluções para as questões dessa dissertação, qual sejam, a possibilidade de uma pessoa com cegueira caminhar com independência em uma trilha, ou a possibilidade de realizar esta caminhada com independência e segurança, e ainda, fazer esta caminhada, ciente de sua orientação espacial e das informações acerca dos atrativos do local.
7 OBJETIVOS
7.1 OBJETIVO GERAL
Este estudo propõe a avaliar a acessibilidade de uma trilha, para as pessoas com cegueira e propor modificações, avaliando-as funcionalmente.
7.2 OBJETIVOS ESPECÍFICOS
- realizar revisão teórica do tema;
- identificar estratégias de locomoção independente para as pessoas com cegueira em ambientes naturais e trilhas;
- identificar materiais e tecnologias de baixo custo e manutenção, facilitadoras da acessibilidade para as pessoas com cegueira em trilhas;
- confeccionar e instalar materiais e tecnologias facilitadoras da acessibilidade para as pessoas com cegueira em trilhas e
8 MÉTODO
O presente estudo é caracterizado como uma pesquisa qualitativa de campo, com delineamento pré-experimental, que segundo Campbell e Stanley (1979), envolve a participação de um único grupo, um pré-teste, uma intervenção no ambiente da pesquisa e um pós-teste. Assim não haverá um grupo de controle, pretendendo-se apenas observar a atuação do grupo participante, antes e depois da intervenção na trilha. Entenda-se por intervenção as adaptações que serão introduzidas na trilha, visando à locomoção independente das pessoas com cegueira.
8.1 PARTICIPANTES
Participaram desta pesquisa onze (11) pessoas cegas habilitadas nas técnicas de uso do guia vidente e do uso da bengala longa, ou seja, pessoas independentes em sua locomoção. Os participantes foram relacionados por meio de pesquisa em prontuário, entre os associados da ACIC habilitados-reabilitados, e por indicação de seus ex-professores de orientação e mobilidade. Fez-se necessária a pesquisa de prontuário e a indicação dos professores, já que estes deveriam apresentar pré-requisitos para participarem do experimento. Os pré-requisitos são a independência em OM e a alfabetização no sistema Braille.
Com relação a OM, PEREIRA (1990, p. 43) a conceitua
como um processo que o cego usa através de outros sentidos para o estabelecimento de suas posições em relação com todos os objetos significativos do seu meio circundante; e mobilidade é a capacidade de deslocamento do ponto em que se encontra o indivíduo para alcançar outra zona do meio circundante.
Os participantes selecionados foram então convidados e esclarecidos acerca dos objetivos, procedimentos e etapas do projeto, bem como da importância de sua participação. Foi lido e disponibilizado em Braille, um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (Anexo II, p.102) a cada um dos participantes. Em seguida os participantes assinaram o referido Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.
Participante Idade Idade da perda
visual Sexo Causa da cegueira Período de aquisição Rreabilitação Outros comprometimentos
P1 34 0 M Atrofia do nervo óptico Congênita 2000 Perda auditiva neurosensorial moderada bilateral
P2 28 0 M Fibroplasia retrocenticular
bilateral congênita Congênita 2000
P3 60 29 M Traumatismo Adquirida em 1977 1991
P4 37 21 M Traumatismo Adquirida em 1992 2005 Perda auditiva mista bilateral e amputação de
membro superior
P5 46 0 M Meningite Congênita 1990
P6 57 44 M Glaucoma Adquirida em 1995 1997
P7 51 5 M Sarampo Adquirida em 1962 1986
P8 28 5 M Glaucoma Adquirida em 1985 1999
P9 27 0 F Atrofia do nervo óptico Congênita 2005 Limiares dentro dos padrões da normalidade nas
freq. 0,25; 0,5 e 1 KHz e perda neurosensorial moderada bilateral nas demais freq.
P10 25 12 M Traumatismo Adquirida em 1995 1999
P11 30 0 M Retinopatia e glaucoma Congênita 1993
Quadro 1 - Caracterização dos participantes
8.2 CUIDADOS ÉTICOS
Os participantes foram informados dos objetivos da pesquisa, seu papel como participante, bem como a utilização dos resultados. Em seguida foi lido aos participantes o termo de consentimento livre e esclarecido (Anexo II, p.102), sendo disponibilizado também em versões acessíveis às pessoas com cegueira – sistema Braille, disquete e em fita cassete.
O projeto foi submetido ao Comitê de Ética da UFSCar, estando seu parecer de aprovação n°220/2007, no Anexo A(p.99).
8.3 AMBIENTE: A TRILHA DA ACIC
Figura 3: ACIC. Fonte: arquivo pessoal. (2008)
A ACIC, uma ONG (Organização Não Governamental), fundada em 1977 com o objetivo de promover a inclusão social das pessoas com deficiência visual, têm 60 (sessenta) colaboradores, entre administradores, técnicos, professores e funcionários, e atende 170 (cento e setenta) pessoas com deficiência visual. Está localizada na periferia da cidade de Florianópolis, estado de Santa Catarina, no bairro Saco Grande II, em uma área com aproximadamente 300.000 m² (trezentos mil metros quadrados). Destes, 80% são de Mata Atlântica e permanecem preservados. Na transição entre a área de preservação e as instalações da ACIC, busca-se implantar uma área de lazer, com lago e trilhas que priorizam a utilização dos sentidos.
Assim a trilha*3 da ACIC foi construída em 1997, em parceria com a Fundação Maurício Sirotski Sobrinho, fundação beneficiente da RBS - Rede Brasil Sul de Telecomunicações.
3 Segundo NBR 15500,
A referida área de lazer, assim como a trilha, tem o objetivo de proporcionar atividades de lazer aos associados da ACIC, pois segundo BELART(1978, p.13),
andar, caminhar, passear, escalar, excursionar, longe do atropelo, da aglomeração, do ruído e do tráfego de veículos é um dos passatempos favoritos da maior parte das pessoas. É a forma de recreação mais econômica, mais sadia e que maiores oportunidades oferece à observação, pesquisa, tranqüilidade e devaneio.
A trilha tem aproximadamente 600 m (seiscentos metros) de extensão, com largura de 2 m (dois metros) na trilha principal e largura variável nas variantes. A área possui pomar, lago com peixes e patos, animais silvestres, como quero-quero, garças, lagartos e outros animais. Sua vegetação é composta por exemplares da Mata Atlântica. Nesta área, foi realizada a pesquisa com o objetivo de torná-la acessível para as pessoas cegas, que freqüentam a Associação.
Figura 4: Trilha da ACIC. Fonte: Googleearth (2008)
Quanto a forma. as trilhas, podem ser:
a) Circulares:
Figura 5:Trilha circular. Fonte: Andrade(2003, p.248).
b) Em forma de oito:
c) Lineares:
Figura 7 – Trilha linear. Fonte: Andrade(2003, p.248)
d) Atalhos:
Figura 8 - Trilha em atalho. Fonte: Andrade(2003, p.248)
De acordo com as ilustrações acima, a trilha da ACIC pode ser classificada como uma trilha em forma circular, visto que é um apêndice, de um antigo acesso para uma pedreira. Assim, na sua construção não houve impactos ou agressões ao meio ambiente, visto que é uma área em recuperação. Mesmo assim, segundo Schelhas (1986), os efeitos que uma trilha causa no ambiente ocorrem principalmente na superfície da trilha propriamente dita, sendo que a área afetada corresponde normalmente a um metro a partir de cada lado.
Para isso a sinalização visual pode utilizar diversos materiais como marcação à tinta, placas, montes de pedra (totem) e fitas.
8.4 MATERIAIS E EQUIPAMENTOS
Foram utilizados materiais e equipamentos convencionais, material de sucata e também criações próprias, como veremos. O estudo utilizou máquina fotográfica, filmadora, gravador, videocassete, televisão, computador pessoal, máquina de escrever Braille, ficha de identificação do participante, termo de consentimento livre e esclarecido, material de sucata (latas de alumínio, canos de PVC, estacas de madeira, arame).
Optou-se por contratar os serviços de um cinegrafista para garantir a qualidade das imagens do trabalho.
8.5 INSTRUMENTOS DE COLETA DE DADOS
Os instrumentos aqui utilizados foram preenchidos a partir da interpretação das observações do pesquisador, ou seja, os testes foram sistematizados e suas condições equalizadas, para que as respostas apresentadas às mesmas situações, pudessem ser comparadas. Exceto a entrevista, que coleta as impressões dos participantes. Segundo LÜDKE e ANDRÉ(1986, p.25),
para que se torne um instrumento válido e fidedigno de investigação científica, a observação precisa ser antes de tudo controlada e sistemática. Isso implica a existência de um planejamento cuidadoso do trabalho e uma preparação rigorosa do observador.
O planejamento sugerido pelas autoras foi realizado, tanto na confecção e adaptação dos instrumentos, como nos momentos de sua aplicação protocolar, onde os procedimentos foram sempre padronizados.
Outro instrumento aqui utilizado para a coleta de dados foi a entrevista. Apesar de ser semi-estruturada em três questões aberta, permitia o livre discurso por parte dos participantes.
8.5.1. Instrumento n°1 – avaliação da graduação de dificuldade de trilha ou caminho
Zeferino (2001) utiliza conceitos técnicos para atribuir graus de preparo físico, de dificuldade para caminhada (existência de aclives ou declives acentuados), orientação (trilha bem demarcada ou não), além de graduação de dificuldade para o uso de bicicletas.
Avaliação da Graduação de Dificuldade de Trilha ou Caminho
Grau de dificuldade 1 2 3 4 5 6
Orientação 1 2 3
Tabela 2 - Avaliação da Graduação de Dificuldade de Trilha ou Caminho
Fonte: Zeferino (2001).
Legenda
a) Grau de dificuldade
1 – leve: caminhada simples, geralmente plana;
2 – semi-leve: caminhada em desnível, com poucas subidas e descidas; 3 – semi-pesado: caminhada em desnível, com muitas subidas e descidas; 4 – pesado: caminhada com desníveis acentuados, exige esforços;
5 – difícil: exposição à altura; uso de apoio.
6 – radical: exposição à altura; trechos técnicos; exige a utilização de equipamentos especiais (cordas,cadeirinhas, oitões, mosquetões).
b) Orientação
1 – fácil: acessível até aos mais inexperientes; nenhum ou baixo risco de se perder.
2 – média: exige atenção e alguma experiência básica; risco moderado de se perder.
8.5.2 Instrumento nº2 - teste de deslocamento em trilhas
Este teste, de autor desconhecido, denominado Avaliação Funcional de Orientação e Mobilidade, é utilizado na ACIC, para a verificação da evolução semestral da aprendizagem das técnicas de orientação e mobilidade. Como o teste foi concebido para utilização em vias urbanizadas, necessitou de adaptações para o ambiente de trilha. Nesta pesquisa é utilizado para mensurar as dificuldades encontradas pelos participantes durante um deslocamento independente nas trilhas. É utilizado em duas etapas, ou pré-teste e pós-teste. Antes de sua aplicação é realizado um deslocamento, com a utilização da técnica do guia vidente, ou seja, é realizada uma caminhada completa na trilha, com o guia vidente, para familiarização com o ambiente.
Pré-Teste de deslocamento em trilhas
Atividade/Participante 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11
Localiza a entrada da trilha Localiza a sinal. Braille Compreende sinal.Braille Localiza a linha guia Localiza desvios
Percebe obstáculo superior Conclui percurso sem ajuda Localiza a saída da trilha Utiliza referencias olfativas Desloca-se em linha reta Constrói mapa mental trilha Localiza o caminho Percebe curvas Percebe obstáculos
Utiliza referencias auditivas Percebe mudanças no piso Percebe inclinações laterais Percebe rampas
LEGENDA Não se aplica Sim Não Ocasionalmente
Quadro 2 - Instrumento nº2 - Teste de deslocamento em trilhas
Fonte: Adaptado por Ramos(2007).
8.5.3 - Instrumento nº3 – entrevista