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A UTOPIA CONCRETA E O AINDA-NÃO-CONSCIENTE NA OBRA DE ERNST BLOCH

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Francisco Antonio Marques Viana

A UTOPIA CONCRETA E O AINDA-NÃO-CONSCIENTE NA OBRA DE ERNST BLOCH

DOUTORADO EM FILOSOFIA

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A UTOPIA CONCRETA E O AINDA-NÃO-CONSCIENTE NA OBRA DE ERNST BLOCH

DOUTORANDO EM FILOSOFIA

Tese apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como exigência parcial para obtenção do título de Doutor em Filosofia, sob a orientação do Prof. Dr. Antonio José Romera Valverde.

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O SONHO ACORDADO, AS TESES SOBRE FEUERBACH E A EMANCIPAÇÃO HUMANA

APRESENTAÇÃO

Destacam-se os estudos de Antonio Rufino Vieira (2007), Princípio

Esperança e a “herança” intacta do marxismo e Ernst Bloch, Marxismo e

Libertação: estudos sobre Ernst Bloch e Enrique Dussel (VIEIRA, 2010); O Enigma

da Esperança: Ernst Bloch e as margens da história do espírito e Ética e Utopia:

ensaio sobre Ernst Bloch, ambos de Suzana Albornoz (2006), Ernst Bloch: marxismo e liberdade de Luiz Bicca (1982) e Utopia e Direito: Ernst Bloch e a ontologia

jurídica da utopia de Alysson Leandro Mascaro, além de artigos como Ernst Bloch e o

sonho de uma coisa de Carlos Eduardo Jordão Machado. (p. 15)

CAPÍTULO I

A mudança aconteceu com Avicenna que, na Idade Média, opunha-se ao aristotelismo conservador da Igreja. (p. 57)

CAPÍTULO II

57 Claude-Henri de Rouvroy, Conde de Saint-Simon (1760-1825), nasceu em Paris, e morreu cercado

pela admiração dos discípulos. (p. 97)

Juntou-se a isso, na obra de Bloch, a defesa de um mundo sem corrupção em que a democracia significaria a dignidade humana (p. 136).

86Pelas páginas escritas por Bloch (1974) sobre a filosofia renascentista circulam Marsilio Ficino, autor

das primeiras traduções de Platão e Plotino diretamente do grego, imprimindo vitalidade e beleza aos conceitos; (p. 141)

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97Cf. BÍBLIA.Crônicas.Antigo Testamento.1:50.

CAPÍTULO V

INTÉRPRETES DA UTOPIA DE ERNST BLOCH

Bloch, em The Spirit of Utopia (Geist der Utopie), não se refere a nenhum dos três – Buber, Landauer e Rosenzweig -, mantendoidenticosilêncio em O Princípio

Esperança. (p.226)

CONSIDERAÇÕES FINAIS: O FUTURO COMO ESPERANÇA 155,o homem mau, (p. 268)

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

SOBRE ERNST BLOCH

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V614

Viana, Francisco Antonio Marques.

A utopia concreta e o ainda-não-consciente na obra de Ernst Bloch / Francisco Antonio Marques Viana– São Paulo: PUC / Programa de Pós-Graduação em Filosofia, 2015.

306 f.; 30 cm.

Referências: 275-306

Orientador: Prof. Dr. Antonio José Romera Valverde

Tese (Doutorado) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Programa de Pós- Graduação em Filosofia, 2015.

1. Bloch, Ernst, 1885-1977 – Crítica e interpretação. 2. Utopia. 3. Revolução. I. Valverde, Antonio José Romera, orientador. II. Programa de Pós-Graduação em Filosofia. III. Título.

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Para aqueles que sonham acordados com um mundo que jamais foi visto.

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El propósito que lo guiaba no era impossible, aunque sí sobrenatural. Queria soñar um hombre: queria sonãr-lo con integridad minuciosa e imponerlo a la realidad.

Jorge Luis Borges, Las Ruinas Circulares (2014, p. 18)

Al principio, los sueños eran caóticos; poco después, fueran de naturaleza dialéctica.

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obra de Ernst Bloch. 2015. 306 f. Tese (Doutorado em Filosofia)– Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2015.

O pensamento de Ernst Bloch é complexo, sua obra é extensa e, em geral, tem sido analisado pelas suas feições messiânicas, utópicas, místicas ou ainda pela sua possível repercussão na América Latina e pelo ângulo da esperança. Esta tese, investiga a filosofia blochiana como fonte de renovação e extensão do marxismo, em dois momentos interligados a uma mesma ideia: a revolução socialista, iluminada pela libertação do homem do modo de produção capitalista e a construção da vida melhor. O primeiro momento encontra-se na utopia concreta: uma sociedade igualitária, humanística, sem a má consciência da divisão de classes e o egoísmo da expropriação da mais-valia, tendo como sujeito o homem e a sua integração com a natureza. O segundo momento, consequência do primeiro, tem o seu núcleo no conceito do ainda-não-consciente e se adensa no homem a partir do sonho acordado com a transformação da sociedade. Dialeticamente, o caminho para a utopia concreta encontra-se na conjugação da “corrente fria” do marxismo, a lucidez em realçar a realidade quanto à submissão ao capital, com a “corrente quente”, o entusiasmo revolucionário com o ainda-não-consciente. Há, contudo, um ponto de partida para a filosofia utópica que é o sonhar acordado com a saída da obscuridade em que vive o homem, na procura de encontrar a si mesmo, na luminosidade do entrelaçamento da teoria e da prática. Nesse processo dialético-materialista, mediado pela vontade antecipadora, encontra-se a necessidade de rever os caminhos da filosofia e da psicanálise. Rever significa pensar e transpor as dificuldades para transformar o socialismo no regime de escolha da sociedade de massas e que, diante dos imperativos do cotidiano, o homem não deixe de agir e sonhar, jamais abdique, principalmente, dos valores da igualdade, da fraternidade e da felicidade na Terra. Com seu início em Aristóteles e no chamado aristotelismo de esquerda, no pensamento gótico do medievo e na filosofia do Renascimento, a esperança em Bloch concentra-se no acordar do homem rebelde e na construção da ordem fundada na liberdade, na convergência da superestrutura com a estrutura e que, dessa forma, passe-se a viver a verdadeira história, sem que o “estranhamento” da vida se torne repetição permanente. Se assim ocorrer, a filosofia e a psicanálise irão adquirir novos saberes, inclusive redescobrindo ensinamentos antecipatórios do futuro na filosofia anterior a Marx. A utopia concreta e o ainda-não-consciente, nesse ambiente, terão possibilidades de superar a ilusão dos valores do capitalismo, criando horizontes de esperança para a construção daquilo que o homem jamais viveu, a sociedade em que ele será, a um só tempo, sujeito e objeto da construção. O que distingue Bloch do “marxismo ortodoxo” é o sistema filosófico aberto, de elucidação da essência humana, sem ideologismo, de mediação com a realidade, sem vínculos com o jogo ilusório do fetiche das mercadorias, identificado com o homem que transforma as relações entre os homens e com a natureza, despertando para uma vida melhor. Bloch sonha acordado com a filosofia da sociedade sem classes em oposição à filosofia da sociedade de classes.

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VIANA, Francisco Antonio Marques. The concrete utopia and the not-yet-conscious in

the work of Ernst Bloch. 2015. 306 f. Tese (Doutorado em Filosofia)–Pontifícia

Universidade Católica de São Paulo, 2015.

Ernst Bloch‟s thought is quite broad, and it is usually analyzed in its messianic, utopian, mystical, features; or yet, due to its possible repercussion in Latin America and its hopeful point of view. This Dissertation investigates Bloch‟s philosophy as a source for the renovation of Marxism, in two moments which are interconnected to one sole idea: the Socialist revolution, enlightened by the liberation of man from Capitalism, and the building of a better life. The first moment is to be found in concrete utopia: an equalitarian, humanistic society, without the ill-consciousness of the division of classes and the egotism of profit, having man and his integration with nature as its subject. The second moment, consequence of the first, has its nucleus in the not-yet-conscious concept and it increases in density in man after he has (been) awakened with the transformation of society. Dialectically, the road to concrete utopia is to be found in the conjugation of the cold current of Marxism - the lucidity regarding reality -, with its warm current - revolutionary enthusiasm. There is, however, a starting point for Utopian philosophy, which is the Materialist Dialectics of historical man, the incompleteness of his trajectory, and the exit from obscurity wherein he lives, in search of himself, in the luminosity of the interlacing of theory and praxis. In such process, mediated by the anticipating will, one finds the need to review the ways of philosophy and psychoanalysis. Reviewing means thinking and overcoming difficulties so as to make Socialism the political regime mass-society chooses so that, faced with the imperatives of reality, man does not give up acting and dreaming, he does not, especially, relinquish the values of equality, friendship, and happiness on Earth. With its beginning in Aristotle and in the Aristotelism of the Left, in the Gothic thought of the Middle Ages, and in the philosophy of Renaissance, Bloch‟s hope concentrates in the awakening of rebellious man and in the building upon order starting from liberty, in the convergence of the superstructure with the structure, thus making it possible for one to live true history, so that the „estrangement‟ of life does not become permanent repetition. If this happens, if philosophy and psychoanalysis acquire new knowledge, including the rediscovery of fore-knowledge [of the future] in Classical Philosophy, concrete utopia and the not-yet-conscious have the chance to overcome the capitalist illusion, thus generating horizons of hope for the construction of that which man has never experienced, a society wherein he is, at once, subject and object of its construction. What distinguishes Bloch from "Orthodox Marxism" is the open philosophical system, without ideologism, far from the delusive fetish of merchandise, next to the man who transforms and awakens to a better life. He dreams awake with a philosophy of a classless society in opposition to the philosophy of a class society.

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APRESENTAÇÃO 11

INTRODUÇÃO: ERNST BLOCH E O ILUMINISMO MARXISTA 19

O SONHO CORDADO, AS TESES SOBRE FEUERBACH E A EMANCIPAÇÃO

HUMANA 22

O PRINCÍPIO DA AÇÃO: A UTOPIA CONCRETA 26

DAS POSSIBILIDADES E DO MATERIALISMO DIALÉTICO 33

O MÉTODO E A ÉTICA PARA FRENTE 36

HUMANISMO E FILOSOFIA REVOLUCIONÁRIA 46

O SOCIALISMO COMO SISTEMA PREFERIDO DO HOMEM 48

CAPÍTULO I

DIALÉTICA DA UTOPIA CONCRETA: O HOMEM COMO SUJEITO DA

PRÁTICA TEÓRICA E MEDIADOR DA VIDA MELHOR 52

1.1 ARISTOTELISMO DE ESQUERDA, O CÉU NA TERRA, A MATÉRIA EM

MOVIMENTO, O HOMEM COMO POSSIBILIDADE 56

1.2 DIONISO-APOLO, INCÓGNITA AINDA INSOLÚVEL NA INCOMPLETUDE

HUMANA E NA CURA DA DOENÇA DO CAPITALISMO 62

1.3 DO APOCALIPSE CAPITALISTA À DIALÉTICA DO PROCESSO 65

1.4 FILOSOFIA E UTOPIA: CONSCIÊNCIA E PRÁXIS, UMA MESMA

UNIDADE NA BUSCA DO NOVUM 71

1.5 EM LUGAR DA FILOSOFIA DA SOCIEDADE DE CLASSES, A FILOSOFIA

DA SOCIEDADE SEM CLASSES 76

1.6 “NÓS” ANTES DO “EU” E AS RAÍZES DO FUTURO NOVO 80

1.7 UTOPIA, CONSTRUÇÃO COLETIVA 82

1.8 CIÊNCIA AUTORITÁRIA, CIÊNCIA HUMANISTA 91

CAPÍTULO II

SONHOS DE REFORMAS E OS NOVOS FUNDAMENTOS ECONÔMICOS

DO TRABALHO NA MEDIAÇÃO UTÓPICA 97

2.1 OWEN, FOURIER E SAINT-SIMON: COMUNISMO FILANTRÓPICO, PAIXÕES E SOCIALISMO INDUSTRIAL COMO REFORMAS PARA A

VALORIZAÇÃO DO TRABALHO 99

2.2 A UTOPIA SOCIAL CONQUISTA O TRABALHADOR: O IGUALITARISMO

ANARQUISTA PERDE TERRENO PARA A DIALÉTICA MATERIALISTA 105

2.3 SUJEITOS DA MEDIAÇÃO UTÓPICA 111

2.4 COLOMBO, O ÉDEN E OS DESCOBRIMENTOS: A UTOPIA DO NOVO

MUNDO 118

2.5 TRABALHO E ROMANTISMO, PRESSUPOSTOS PARA CONHECIMENTO

E TRANSFORMAÇÃO DA VIDA 121

2.6 LIBERDADE NA ORDEM, A ORDEM NA LIBERDADE 129

2.7 ESPERANÇA PELA MUDANÇA DE VALORES, O HOMEM SEM MEDO DO

(14)

3.1 “DEMORA ETERNAMENTE! ÉS TÃO LINDO !” 151 3.2 A ABERTURA PARA O FUTURO, AS GERAÇÕES E OS ATRIBUTOS MAIS

ELEVADOS DO HOMEM 157

3.3 MONTANHAS DO FUTURO, A FILOSOFIA NA LINHA DE FRENTE 160

3.4 UM OLHAR AGUÇADO SOBRE O INCONSCIENTE 164

3.5 DA TRAGÉDIA AO INTERESSE HUMANO, A FAMILIARIDADE COM O

REAL E O PENSAR LIVREMENTE 168

3.6 PULSÕES, O CONFLITO ENTRE O HOMEM BURGUÊS E O HOMEM

HISTÓRICO 173

3.7 PULSÕES NÃO HOMOGÊNEAS NA SOCIEDADE DE CLASSES 177

3.8 FOME, DESEJOS E VONTADE 183

CAPÍTULO IV

SONHOS DE DESPERTAR: DILEMAS DA INTERIORIDADE E DA

EXTERIORIDADE DO HOMEM REVOLUCIONÁRIO 189

4.1 OBSCURIDADE E LUZ NA CORRENTEZA DO INSTANTE VIVIDO 192

4.2 A DIMENSÃO DO PRESENTE, O ALCANCE DOS TEMPOS DE MUDANÇA 196 4.3 A TRAGÉDIA DA MORTE E A UNIDADE INDIVIDUAL COLETIVA

CHAMADA CONTINUIDADE 203

4.4 UTOPIA DA VIDA E DO FUTURO SEM NEGAR O INEVITÁVEL DA

MORTE COMO RETORNO À NATUREZA 206

4.5 DIÁLOGOS DOS SONHOS E A CRÍTICA À PSICANÁLISE 209

4.6 LIMITES E POSSIBILIDADES DO SONHAR ACORDADO 213

4.7 O HOMEM, MAIS DO QUE UM SER NATURAL, UM SER HISTÓRICO 215 4.8 O DESINTOXICAR DO MUNDO, IMPULSO DA CONCIÊNCIA

SOCIALISTA 219

CAPÍTULO V

INTÉRPRETES DA UTOPIA DE ERNST BLOCH 223

5.1 OS IDEAIS, O REALISMO SOCIALISTA E A LUTA DE CLASSES 229

5.2 FIM DA UTOPIA E O MARXISMO ROMÂNTICO 232

5.3 NA UTOPIA NADA SE PERDE, APENAS A ILUSÃO SE TRANSFORMA 237 5.4 PARA ALÉM DA LUTA DE CLASSES, A HUMANIZAÇÃO DA DIALÉTICA

E O HOMEM SEM DEUS 245

5.5 A METAFÍSICA DO COTIDIANO E ECOSOCIALISMO 254

CONSIDERAÇÕES FINAIS: O FUTURO COMO ESPERANÇA 268

(15)

APRESENTAÇÃO

“A utopia é, na sua forma concreta, a vontade testada rumo ao ser do tudo.”

Ernst Bloch, O Princípio Esperança (2005, p. 307)

Esta tese objetiva expor e discutir a filosofia de Ernst Bloch sob o prisma da utopia concreta e do ainda-não-consciente. A pergunta essencial se caracteriza como: por que o homem, em lugar de antecipar o futuro socialista e a sua emancipação histórica dos meios de produção, se perde tentando reformar um sistema repetitivo, o capitalismo, que só organiza, universalmente, a sua própria continuação?

Inicialmente, pensamos que o problema a ser superado se concentrava na imensa dificuldade de a filosofia transitar de uma visão contemplativa para a prática revolucionária, como defende Bloch, a partir da tese 11 sobre Feuerbach de Karl Marx. Essa concepção se revelou incompleta: a dificuldade existe, estende-se ao processo de clarificação de uma consciência nova e da opção do homem por valores coletivos, o que passa a ser desafio também da psicanálise em harmonia com o materialismo dialético. Seriam essas as razões de o socialismo não ser universalmente o sistema preferido pelo homem?

Bloch não se recusa a ver que o homem se encontra limitado no seu despertar, não apenas pela força do capital, mas, sobretudo, pela teia de valores em que o capitalismo o envolve, controla e reproduz a sua forma de pensar e agir. Contudo, se nega a aceitar que o homem seja impotente diante das barreiras que se erguem no caminho da sua emancipação e, por isso, das possibilidades do acordar para o ainda-não-consciente. Despertar que Bloch considera, pela sua formação hegeliana, como se fosse o de um escravo que deixa de temer a morte e se rebela contra o senhor.

Duas obras-chave servem de referência na procura pela elucidação dessa esperança, que Bloch resume na palavra utopia, tão antiga quanto irrealizada: The Spirit of Utopia (Geist

der Utopie) (BLOCH, 2000) e a trilogia O Princípio Esperança (Das Prinzip Hoffnung)

(16)

Não se trata, portanto, de um retorno às utopias do passado, mas do avançar para uma Idade de Ouro a ser conquistada. A filosofia blochiana procura um novo mundo, um espaço onde a produção possa ser sem a finalidade egoística do lucro e com liberdade, sem conflitos não repetitivos, nem a ordem ilusória, como no capitalismo. Socialista, se manifesta como uma filosofia de emancipação na forma de uma sociedade fraternal, de igualdade, com homens e mulheres vivendo e trabalhando sem as condições alienantes do capitalismo. Bloch assimila, em paralelo, a ideia de anexar a psicanálise ao marxismo. Vendo a dificuldade do homem acordar para o socialismo, divisou que o sonho psicanalista era regressivo, enquanto o sonho socialista estava voltado para o futuro. Havia necessidade de criar uma coincidência entre os dois movimentos dos sonhos, ambos acordados, para que o homem buscasse a consciência do que jamais existiu. Não voltar atrás como se a Idade de Ouro da existência fosse algo a se buscar no passado.

Esse é o alicerce da filosofia blochiana. Despertar não apenas para os males do capitalismo, mas para os males a que o homem resiste em tomar consciência e resolver, a começar pela mudança dos valores da sociedade burguesa. No início, seus traços, como na filosofia marxista, se concentravam nas relações do ainda-não-consciente com o proletariado. Com o passar do tempo, avançou na direção da Tese 11 sobre Feuerbach, o filósofo como construtor do mundo, mas com a ideia de ampliar o sujeito revolucionário da classe operária para todos aqueles que se opõem ao capitalismo. A ideia chave é a ação revolucionária teórico-prática no devir do mundo. Mas um devir que vá além da revolução social: um devir que pressupõe, também, uma revolução filosófica do modo de pensar, viver e se relacionar.

Como filosofia política, irrompe no último capítulo de The Sprit of Utopia (Geist der

Utopie), quando Bloch se volta para Marx e o marxismo e critica a política alemã de 1918,

pós a abolição da monarquia e proclamação da república. Na ocasião, a Revolução social, nos moldes da Revolução de Outubro de 1917, na Rússia, não se concretizou como era esperado1. Em seu lugar, além da frustração e do fracasso da esquerda, o que aconteceu foi rápida e sangrenta recomposição de classes, com a juventude privilegiada se revelando com arrogância sem paralelo na história, as universidades silenciando o senso crítico e os camponeses, usurários, juntos com a pequena burguesia, se curvando perante a grande burguesia que ocupou o poder (MÜNSTER, 2001, p. 78-9).

Há uma restauração do antigo regime e Bloch (2000, 267-73) a denuncia invocando a revolução como alvo da luta de classes. As imagens da filosofia revolucionária de Bloch se

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prolongam por toda a sua obra, mas são mais visíveis em O Princípio Esperança. O propósito, que Bloch reafirma e amplia em Experimentum Mundi, é mostrar a filosofia materialista-dialética como oposta ao egoísmo e à exploração capitalista. Há dois mundos, segundo a filosofia de Bloch. Um é o mundo repetitivo das mercadorias. O outro, o mundo dialético, é o futuro socialista, não repetitivo, para ser semeado pelo homem sem alienação, com vistas a construção do paraíso na terra. Um mundo futuro.

Mas o futuro não deixa de ser uma incógnita, como vem sendo há mais de dois mil anos na história da utopia. A novidade é que a utopia concreta possui um novo sujeito histórico, o homem, que aspira à vida voltada para o bem comum. E envolve o despertar para as pequenas coisas do dia a dia, no quadro da dialética da existência. A premissa básica é se o homem apenas aspira a –, tem ou poderia ter vontade de modelar – uma vida nova. Nesse

sentido, Bloch (2005, p. 432) admite que o ―inimigo mais renitente do socialismo‖ não é o

grande capital, mas o próprio homem devido ao temor de superar os valores conhecidos do capitalismo e inclusive do pensamento ortodoxo do marxismo, infenso à abertura para a experiência humanística prática. Haveria possibilidades de os valores do homem mudarem?

As premissas secundárias, interligadas à premissa básica, relacionam-se com a filosofia da esperança no que tange à sua convivência com a ciência marxista e ao espírito revolucionário no que se refere à juventude dos tempos. A teoria de superação da realidade vigente estaria correta ou a sua aplicação é que foi incorreta? O homem poderia vir, efetivamente, a sonhar acordado com um mundo novo não capitalista? Haveria como controlar as pulsões negativas em favor das pulsões voltadas à vida futura?

São aspectos como esses que justificam a escolha do pensamento de Ernst Bloch como tema de estudos, em particular num momento de aguda crise do socialismo e da emergência de uma sociedade seduzida pelo consumo, inclinada a secularizar as ideias marxistas e a utopia concreta. Não é mistério que, apesar de confrontar um capitalismo cínico, a ideia comunista perdeu terreno no plano real, simbólico e imaginário. Embora as desigualdades

sociais sejam ―monstruosas e crescentes‖2 (tradução nossa), mesmos nos países mais

desenvolvidos, os revolucionários são ―desunidos e fracamente organizados, largos setores da

juventude popular são seduzidos pelo niilismo, a grande maioria dos intelectuais são servis‖3 (BADIOU, 2010, p. 25, tradução nossa).

2 ―monstrueuses et croissantes‖.

3 ―Les révolutionnaire sont désunis et faiblement organisés, de large secteurs de la jeunesse populaire sont

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O desafio da filosofia de Bloch, passados 170 anos que Karl Marx escreveu as Teses

sobre Feuerbach e outros 167 de O Manifesto Comunista parece definido: ao combinar a

construção da consciência e delinear a alternativa da utopia concreta, recuperar a ideia socialista e, como desdobramento, o sentido do comunismo. Talvez, não mais o comunismo do partido, mas da vontade do homem prometeico e coletivo. Mas é evidente que para que isso aconteça se terá, antes, de resgatar o pensamento do próprio Bloch.

Os movimentos cambiantes da história contribuíram para que suas ideias não circulassem universalmente, como aconteceu com Karl Marx e expoentes do Instituto de Pesquisas Sociais de Frankfurt, como Herbert Marcuse, Theodor Adorno e Walter Benjamim, ou da filósofa Hannah Arendt, ela também alemã, mas que não foi marxista. Dado ao escasso interesse, suas obras hoje são difíceis de ser encontradas nas livrarias de Paris, Roma e Nova York, além do Brasil.

Não seria exagero dizer que são quase raridades. E não são raridades ainda maiores, porque, nos anos 1960, a editora alemã Suhrkamp passou a publicar as obras completas de Ernst Bloch, motivando traduções em inglês, italiano, francês e espanhol. Certamente, o esquecimento acontece porque o comunismo, na década final de vida de Bloch, estava sendo tragado pela crítica conservadora e, também, pela esquerda. O marco histórico do período, além da dissolução da URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas -, pode ser a dissolução em 1991 do Partido Comunista Italiano, que chegou a ser o maior partido de esquerda do Ocidente, fundado por Antonio Gramsci em 1921.4 Isto sem mencionar o ostracismo a que foi relegado o tema candente do humanismo, essencial para Bloch, como foi para Marx nos Manuscritos Econômico-Filosóficos de 1844.5

No Brasil, seria um quase anônimo ou um ilustre desconhecido não fosse a obra de Arno Münster e a tradução de O Princípio Esperança quase vinte anos depois da morte de Bloch. De Münster, pode-se enumerar Ernst Bloch: filosofia da práxis e utopia concreta, nascido de um curso (1990) no Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, além de conferência na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, sob o título Ernst Bloch – um Schelling marxista. Há, também, a tradução de Utopia, Messianismo e

Apocalipse na obra de Ernst Bloch.

O começo foi promissor, coincidindo com o momento em que o Brasil, no particular, e a América Latina, no conjunto, despertavam para a Teologia da Libertação e para a utopia

4 Cf. O Alfaiate de Ulm, de Lucio Magri (2014).

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socialista, movimentos que iriam recuar, no decorrer das décadas de 1960-1970, por força de sucessivos golpes militares e sangrenta perseguição à esquerda. Reprimida com feroz violência, a utopia deixou as ruas e as ideias democráticas de governo para refugiar-se na clandestinidade. Em lugar da juventude dos tempos, o atavismo de uma época de obscuridade. Ainda no contexto de liberdade e de ascensão das forças populares, os primeiros escritos de Bloch chegam ao Brasil na década de 1960, ao mesmo tempo em que havia uma renovação teórica da esquerda brasileira, com publicações de obras de György Lukács, Antonio Gramsci, Karl Korsch, Jean-Paul Sartre, Henri Lefebvre, Lucien Goldmann, Walter Benjamin e Theodor Adorno. O precursor foi o franco-suíço Pierre Furter, com o livro

Dialética da Esperança e, em 1972, a publicação, ambos pela Paz e Terra, de Thomas

Münzer, Teólogo da Revolução de Ernst Bloch.

Mas a dura realidade é que a maioria dos trabalhos de Bloch é desconhecida do grande público e não foi traduzida no Brasil. Não é preciso ir muito longe para constatar o óbvio: a obra testamento de Bloch, Experimentum Mundi, foi publicada pela Suhrkamp em 1975. Lá se vão quatro décadas. Nunca foi traduzida no país. Mesmo a produção acadêmica é tímida. Destacam-se os estudos de Antonio Rufino Vieira (2007), Princípio Esperança e a “herança” intacta do marxismo e Ernst Bloch, Marxismo e Libertação: estudos sobre Ernst Bloch e Enrique Dussel (VIEIRA, 2010); O Enigma da Esperança: Ernst Bloch e as margens da história do espírito e Ética e Utopia: ensaio sobre Ernst Bloch, ambos de Suzana Albornoz (2006), além de artigos como Ernst Bloch e o sonho de uma coisa de Carlos Eduardo Jordão Machado.

De qualquer forma, é comum situar-se a obra de Ernst Bloch, em seu sentido parcial, evocando, por exemplo, as suas características messiânicas, a rica biografia do autor ou mesmo pela aparente dubiedade de sua utopia, como faz Habermas (1987) ao definir Bloch

como o ―Schelling Marxista‖. Assim, a sua filosofia polìtica revolucionária, aberta ao

pensamento de Marx e Freud, herdeira de Aristóteles e Hegel, portadora de prático humanismo e ética real, perde-se no imenso estuário de suas ideias, como assevera, com propriedade, Stefano Zecchi (1978) em Ernst Bloch: utopia y esperanza en el comunismo. Martin Jay (1984b) e Pierre Furter (1974), com respectivamente Marxism & Totality e

Dialética da Esperança, assim como Pierre Bouretz, Manuel Ureña Pastor e o próprio Arno

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As teses de Bloch (2006a), sobre o humanismo socialista e a necessidade do socialismo ser a escolha da grande maioria da sociedade como sistema de vida, tornam-se cada vez mais atuais, porque trabalham a filosofia a partir do homem, das suas experiências, aproximando-se do concreto, do mundo imanente, e do utópico, o mundo transcendente. Não que vislumbrem, no socialismo, um mundo perfeito e acabado, mas, um socialismo em processo de construção. Não como um retorno à antiga Arcádia homérica, mas num avanço obstinado para construir a Arcádia com as próprias mãos.

Bloch (2006b) alertou, sem rodeios, para os impasses e significados dessa caminhada no decorrer da sua vida, que podem ser condensados em complexos e agitados capítulos: o embate contra o fascismo na Alemanha, o longo e duro exílio na Europa e nos Estados Unidos, o retorno, cercado de grande prestígio, para a Alemanha Oriental, novamente o exílio, desta vez, na Alemanha Ocidental. Nesse sentido, passou a ser, assim, um permanente rebelde contra as normas da filosofia marxista oficial. Um filósofo que sonhava com o futuro, mas que esteve sempre reconciliado com o presente. Sua vida foi a experiência da busca da luz na obscuridade. Eis, assim, em grandes linhas, as razões e o tema desta tese.

Está dividida em cinco partes, além da Apresentação, Introdução, Ernst Bloch e o Iluminismo Marxista, e das Considerações Finais, O Futuro como Esperança. A primeira parte, Dialética da Utopia Concreta: o Homem como Sujeito da Prática Teórica e Mediador da Vida Melhor, ocupa-se do ―pensamento para a frente‖. Concentra-se nos fundamentos da utopia concreta, como conquista coletiva, que começa com The Spirit of

utopia (Geist der Utopia) (2000) e culmina com a trilogia O Princípio Esperança (2005;

2006a; 2006b), sempre permeada pela ideia do ainda-não-consciente e a discussão do sujeito revolucionário e seu alvo. O propósito é traçar o itinerário da filosofia blochiana que, a despeito da sua extensão e obstáculos, converge sempre para a esperança de mudança. E para a ideia da utopia como processo dialético.

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trabalho como sujeitos da mediação utópica, além do seu significado em relação ao marxismo e o processo industrial.

A terceira parte, Saber da Filosofia e as Pulsões Históricas: A Percepção do Ainda-não-consciente, a partir da utopia marxista, retoma os fios traçados com The Spirit of Utopia

(Geist der Utopie) (2000) até O Princípio Esperança (2005; 2006a; 2006b), tendo como

finalidade levar a filosofia e a psicanálise a se revolucionarem, criarem novos saberes sobre os sonhos humanos e a despertarem para a realidade do mundo da produção e do capitalismo. Daí, a necessidade de recorrer a horizontes abrangentes de ideias e alcançar os pressupostos –

o homem rebelde e consciente dos seus desejos – que tornariam possíveis a utopia socialista. Esses horizontes são sugeridos pela redescoberta do pensamento utópico dos grandes filósofos e pelo conceito freudiano de pulsões.

Na quarta parte, Sonhos de Despertar: Dilemas da Interioridade e da Exterioridade no Homem, o tema central é o sonho acordado. Tal como aparece em Bloch (2005), procura-se discutir o papel da psicanálise na vontade antecipatória humana. Dessa forma, o sonho dormindo passa a ser como um sonho para trás, enquanto o sonho para a frente ganha o papel transformador das realidades interior e exterior ao homem. Esse seria o autêntico sonho revolucionário que Bloch semeia em The Spirit of Utopia (Geist der Utopie) (2000) e discute com amplitude O Princípio Esperança como alternativa para que o homem socialista abandone seus medos de mudança, e os novos valores do marxismo revolucionário ganhem o cotidiano.

A quinta parte, Intérpretes da Utopia de Ernst Bloch, finalmente, discute a utopia de Ernst Bloch na visão, entre outros, de Arno Münster, György Lukács, Hans Jonas, Henri Maler, Herbert Marcuse, Ivan Boldyrev, Jünger Habermas, Martin Jay, Manoel Ureña Pastor, Theodor Adorno, Pierre Bouretz, Pierre Furter, Stefano Zecchi e Walter Benjamin, além de Antonio Rufino Vieira e Suzana Albornoz. O propósito é discutir a ideia de uma consciência

nova para o homem com a argumentação de que o ―espanto‖ não se encontra apenas na luta

de classes, mas nos valores de uma sociedade que nega a ―humanização da dialética‖ e resiste

em acordar para a necessidade de antecipar o futuro socialista. Discute-se o sentido de Deus, da integração do homem com os homens e com a natureza e a visão socialista da ecologia.

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sociedade possam vir a coincidir. É essa crença na sociedade, que o faz Bloch virar às costas ao niilismo e à má consciência capitalista, voltando-se para o bem comum, a utopia da boa consciência.

(23)

INTRODUÇÃO: ERNST BLOCH E O ILUMINISMO MARXISTA

O elemento genuinamente humanista da revolução social acabará tirando de cima da humanidade inteira a coberta da autoalienação.

Ernst Bloch, O Princípio Esperança (2006b, p. 444)

―Schelling marxista‖: assim Habermas (1987) definiu Ernst Bloch, em ensaio escrito

em 1960. E, para reforçar a sua tese, repetia um aforismo que acreditava sintetizar o

pensamento blochiano: ―A razão não pode florescer sem esperança; a esperança não pode

falar sem a razão, ambas na unidade marxista – nenhuma outra ciência tem futuro, nem outro

futuro tem ciência‖ (HABERMAS, 1987, p. 61). Pensador singular no panorama filosófico do século XX, por construir um sistema marxista aberto, Bloch, com The Spirit of utopia (Geist

der Utopie) (2000), foi entronizado no universo da utopia, em 1918, um ano depois da

Revolução de Outubro ganhar contornos de realidade na Rússia. Em 1919, em caráter informal, ele aderiu ao marxismo por influência do seu amigo e militante comunista, György Lukács.6

Oficialmente, o marco dessa decisão deu-se em 1921, com a publicação de Thomas

Münzer, Teólogo da Revolução (1973), mas, na vida desse estudioso de Hegel, de ética

kantiana e materialista, o marxismo só passaria a existir mais tarde. Foi no alvorecer dos anos 1930, antes de se exilar na Suíça, pela segunda vez, quando passou a se dedicar por inteiro à frente popular antinazista. Estava com 45 anos. A partir de então, procurou clarear a ideia socialista com a chama do humanismo iluminista, mas jamais se filiou ao Partido Comunista e se, de um lado admirou Lênin ao longo da vida, de 92 anos, jamais admirou os bolcheviques.7

6 Lukács tornou-se comunista em dezembro de 1918, no mesmo ano da publicação de Geist der Utopie. Com a morte de Lênin, escreveu, um opúsculo sobre o líder bolchevique, comparando-o a Marx pelo pensamento teórico revolucionário e pela compreensão da teoria econômica do imperialismo monopolista. Lembra que

Lênin comentava, de maneira prosaica: ―Inteligente não é quem não comete erros. Esses homens não existem

e não podem existir. Inteligente é quem não comete nenhum erro fundamental e sabe corrigir seus erros com

rapidez, com leveza‖ (LUKÁCS, 2012, p. 107-8).

7 ―O filósofo é um militante especializado na interpretação dos sinais do nosso tempo. Tem como tarefa específica distinguir onde está a esperança dos homens e para onde estes conduzem nosso tempo. Posição

penosa por ser crìtica e arriscada; função necessária, para impedir qualquer ilusão mecanicista‖ (FURTER,

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Diferentemente de Lukács,8 entendia que o intelectual deve ter um engajamento radical, mas não pertencer à burocracia partidária. Admirador das ideias de Rosa Luxemburgo e de Karl Liebknecht, que acondicionavam liberdade ao socialismo, jamais deixou de sublinhar o legado de Hegel para o pensamento marxista, como nunca ocultou a sua admiração por Hegel e o reconhecimento pelo papel de Ludwig Feuerbach na desmistificação da religião. A admiração por Hegel, que está na origem da formação de Marx, valeu-lhe

―feroz‖ crìtica da filosofia ortodoxa da Alemanha Oriental, que o acusava de ser hegeliano,

não marxista, com a característica de que não se refugiava no passado, mas no futuro.9

Depois da II Grande Guerra, Bloch voltou dos Estados Unidos para ensinar filosofia na Alemanha Oriental, na Universidade Karl Marx, por entender que, nos países da União

Soviética, estava o futuro do socialismo. Contudo, nunca admitiu ―submissão intelectual à

censura da ortodoxia partidária‖ e fez de sua cátedra fonte de ―perpétua inquietação e

renovação‖ (FURTER, 1974, p. 24).

Sua visão dialética, graças a Hegel, repousava sobre a afinidade ontológica entre sujeito e objeto. O saber estava fora do ser, mas também no seu interior. Encontrava-se no ser (o absoluto) e no saber absoluto (a apreensão da realidade). Na Fenomelogia do Espírito

(1993), o relacionamento entre o ―Absoluto‖ e a tomada de consciência do ser é que torna o ―Absoluto‖ acessìvel e permite o conhecimento de si mesmo, não em termos de interioridade, mas de um ser em-si e para-si.

Esse salto significaria a desalienação do ser, eliminando a contingência e situando-o diante da realidade de situações específicas. O principio ontológico fundamental seria a humanização total do homem. É uma tese que Bloch evoca ao longo de O Princípio

Esperança, se alimentando da seiva dos Manuscritos Econômico-Filosóficos de 1844

(MARX, 2007) e das Teses sobre Feuerbach (MARX; ENGELS, 2007). Preconiza que a sociedade socialista, com a preponderância da qualidade sobre a quantidade, o inverso da

8 Bloch conheceu o filósofo e teórico da literatura húngara György Lukàcs nos colóquios organizados, em Berlim (1908), pelo filósofo Georg Simmel. A amizade com Lukàcs, que se prolongou por dez anos, é o início de um rico período de discussões. Desencadeia reflexões que Bloch aprofundaria em O Princípio Esperança: o pensamento escatológico da cabala, a oposição entre a democracia místico-herética e as relações entre a juventude hegeliana e Marx, a tipologia da totalidade e do total, a totalidade psíquica do indivíduo, a metodologia do materialismo dialético. Bloch, que odiava polêmicas, defenderia posições antirreformistas e, como Lukács, criticou Bernstein e Kautsky, mas evitou tomar partido na discussão entre Lênin e Rosa Luxemburgo a respeito da democracia operária. Com o passar do tempo, ficou claro que era partidário de Luxemburgo, ao contrário de Lukàcs, leninista. Foi ferrenho opositor da social-democracia. À época, Bloch não tinha lido Karl Marx. A filosofia da práxis só irá descobrir com a aproximação com György Lukács, mas foi fator importante, senão determinante, na redação de The Spirit of Utopia (Geist der Utopie) e na reformulação das Teses de Marx sobre Feuerbach, quando defende a consciência emancipadora das massas e critica a economia política de Marx (KARADI, 1986a, p. 72).

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sociedade capitalista, com a conversão de todos os homens em mercadorias e a sua incipiente defesa da individualidade, libertaria os conteúdos humanos com efeitos construtivos sobre toda a sociedade.

Filósofo ateu, não via no saber a procura do perfeito entendimento de Deus, nem o caráter receptivo-contemplativo, fruto de elaborada concepção mental, mas a compreensão do homem e de sua realidade universal, suas condições reais e metafísicas, suas relações com a

produção e seus sonhos de mudança. Não procurava somente saber ―quem sou‖, mas quem ―somos‖. Kojève (2002, p. 275-6), na sua Introdução à Leitura de Hegel, partindo da

pergunta de ―quem sou‖, que considera a essência do pensamento de Hegel, chega a duas

percepções: que para alcançar o saber absoluto e, portanto, ser, precisa-se fazer parte de um estado perfeito, o único que pode realizar o saber absoluto; e, ainda, supõe que todo homem é filósofo, feito para tomar consciência daquilo que ele é. Bloch (2006b) concebe a sabedoria do Estado como construção humana, coletiva, mas assimila a concepção hegeliana de que todo homem pode tomar consciência da filosofia revolucionária e edificar um mundo que ainda não existe.

Por conseguinte, nasceria um mundo em que o Estado não iria existir, pois perderia a razão de ser, e a dimensão antecipadora levaria o homem a afirmar permanente interação superestrutura-infraestrutura. A teoria de produção burguesa passaria a ser puro reflexo de uma época, da sociedade de classes, e, desse modo, o trabalhador seria alçado ao centro da produção. Nessa dimensão das possibilidades, a visão de Pierre Furter (1974, p. 28) é

esclarecedora: ―Bloch pertenceu a uma geração que via a revolução como Revolução ‗permanente‘, escaparia aos ‗problemas da institucionalização‘, pelo menos até que o socialismo estivesse ‗completa e definitivamente‘ instalado no planeta‖.

A realidade confirmou a hipótese de Furter (1974), pois Bloch nunca abandonou o sonho revolucionário e não se curvou ao burocratismo e à ortodoxia da geração posterior à linhagem revolucionária de 1917. Quer dizer, não se curvava à impossibilidade do saber se afirmar sobre as sombras da ignorância, o que, por extensão, significaria negar a própria filosofia revolucionária. Não se tratava de uma atitude individual, mas da crença na realização da sabedoria.

Na sua iconoclasta condenação à doutrina burocrática, Furter (1974, p. 49)

demonstrou que a ―[...] esperança não é natural, mas ‗uma insurreição humana contra o natural‘, um protesto organizado e sistemático contra o deixar ser, contra o conformismo,

contra a evolução normal: que conduzem ao nada do niilismo‖. Por isso, Bloch (2006a)

(26)

não se ateve à gnose marxista das estruturas de transição na antiga URSS para o socialismo e à renovação do espírito bolchevique.

O SONHO ACORDADO, AS TESES SOBRE FEUERBACH E A EMANCIPAÇÃO HUMANA

Em Marx, um pensamento não é verdadeiro por ser proveitoso, mas proveitoso por ser verdadeiro.

Ernst Bloch, O Princípio Esperança (2005, p. 273)

Bloch (2000) projetou sua obra para o campo da tradição hermenêutica, manifestando preocupação em revelar o que está oculto, em realçar o que pode estar camuflado na banalidade cotidiana, fazendo surgir esperança onde raramente se poderia garimpá-la. O seu território de conhecimento estava na percepção do real, no desvendar das pequenas coisas cotidianas, no ambiente da ilusão ou do que aparentava ser religioso, místico ou messiânico. A sua totalidade brota de fragmentos, que quando somados significam a abertura para o

Noch-nicht (ainda-não), o que realmente importa, como negação do passado, mas sem que o novo

implique em falta de consciência quanto ao passado.

O Noch-nicht brotaria do fim da incompletude da história humana e da negação da

filosofia do passado, que coloca a história na perspectiva do eterno novo e supera a repetição

do que já existiu com as categorias do ―futuro‖, ―frente‖ e ―novum‖. Diante de um

pensamento que não consegue ―libertar-se de um processo regressivo que, portanto, é incapaz de superar o imediato do momento sensìvel‖, Bloch, segundo Zecchi (1978, p. 83) define as

estruturas teóricas da ―superação‖ e da ―negação‖ do ―já-conhecido‖. Essa superação-negação ultrapassa a fenomenologia hegeliana pela ação e também o inconsciente regressivo

freudiano, situando a filosofia moderna no plano das ―ideias claras‖ do dever-ser e condenado

as ―ideias confusas‖ da ―inércia‖, da ―racionalização extrema‖ e das tradicionais relações

entre consciente e inconsciente (ZECCHI, 1978, p. 84-5).

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304), o ―ainda-não é tanto mais definido, sua tendência em direção à realização plena é tanto mais forte, quanto mais objetivamente solucionável tiverem se tornado as tarefas a que se

propôs‖. E o que o ainda-não se propõe é fazer ―fenecer‖ a pré-história humana, projetar o futuro com imaginação e a criar uma nova estrutura fincada no processo histórico real,

declarar ―guerra‖ ao provisório, elevar o processo-experimento ao âmbito da totalidade, fazer a utopia avançar (BLOCH, 2005, p. 305-6).

A alternativa contrária seria, paulatinamente, sucumbir à barbárie, não só os trabalhadores, mas também a burguesia. Sem que a utopia concreta se manifeste, não há negação, nem antecipação, apenas a crise destrutiva da verdade oficial e institucionalizada. Uma crise tolerada, sem perspectivas de mudança. A proposta de Bloch é radicalmente diversa e procura criticar a relação repetitiva entre os homens e os valores capitalistas.

A coincidência sujeito-objeto-sujeito, destacada em O Princípio Esperança (BLOCH, 2005), é igualmente esclarecedora. Com a ideia de separar a ilusão do real, procura alcançar a gênese de uma filosofia emancipadora e a metafísica de um sujeito ético universal. O sonho acordado é reflexo desse empenho em elaborar as expectativas da vida cotidiana. Evidencia o confronto dialético entre o desejo que se choca com o muro da realidade e o desejo almejado como necessidade utópica.

Como a filosofia blochiana está estruturada no conceito do ainda-não-consciente, sem a prática não poderia existir o socialismo como ciência e nem a visão humanística real de Marx. O elemento estruturante de sua obra, apesar do inventário de sucessivas influências, foi o pensamento de Hegel. Em especial, a categoria das possibilidades abriu-lhe as portas para o entendimento de Karl Marx e de Sigmund Freud.

A matéria-prima do despertar da consciência encontra-se na superação da dominação e absorve o sentido do ainda-não-sendo. Concebe a dinâmica revolucionária no reagrupamento

das Teses sobre Feuerbach (MARX; ENGELS, 2007). Não apenas como mera interpretação

da realidade, mas, sobretudo, como forma filosófica de ação. Certamente, não escolheu O

Manifesto Comunista (MARX; ENGELS, 1998a) por ser este mais uma peça didática,

destinada a difundir conceitos que seriam repetidos pelos trabalhadores, fossem ou não politizados, tivessem ou não consciência de si e do seu trabalho.

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tempo. Pode recuar, mesmo parar, mas que retoma sempre o seu fluxo para a frente (MÜNSTER, 2001b, p. 362-3).

Como processo de emancipação, as Teses sobre Feuerbach (MARX; ENGELS, 2007) parecem convergir conscientemente – e não doutrinariamente – para a superação do edifício da produção capitalista, que sempre foi protegido pela burguesia. Transportam o homem para a reflexão contra o capitalismo. Manifesta-se com clareza quanto à disposição para se evitar o

―viçoso, o vindouro‖, ―a negação do possìvel‖, temor comum aos sofistas, aos eleatas, aos

estoicos e, inclusive, Leibniz, que ainda conhecia a ―possibilidade‖ como ―disposição natural‖

(BLOCH, 2005, p. 240). Embora sua concepção das percepções mínimas se aproxime da ideia de inconsciente, Bloch entende essas substâncias pensantes – que existiram na mente, mas seriam pequenas demais para serem percebidas isoladamente – como sinais da possibilidade de descoberta, pelo homem revolucionário, do ainda-não-consciente.

As Teses rompem com limitações da consciência da mudança e introduzem, em

definitivo, a possibilidade na história, prosseguindo a linha traçada por Aristóteles e ampliada

por Kant, se bem que cautelosamente, e defendida com veemência por Fichte (―Tu podes, pois tu deves)‖, este como capacidade e como potência, e Schelling (BLOCH, 2005, p. 241).

As Teses, com concisão, tornam inescapável qualquer tentação romântica quanto às intenções

do capitalismo. Não importa se destruir ou profanar o que for sagrado. O determinante, na produção capitalista, é ter a mercadoria como ―fetiche‖ – termo derivado dos ritos africanos de encantamento e magia – e iludir o homem.

Nas Teses, Bloch (2005) encontrou o caminho para romper com o fetiche e,

consequentemente, com a ideia de que o capital é o grande estrategista da sociedade. Dizendo não ao fetiche, o homem estaria amputando o capitalismo daquele componente mais precioso, justamente a sua capacidade de se reproduzir em condições aparentemente encantadas. Sem o ardor do encantamento, o capitalismo seria apenas o imediato e, portanto, sem meios para se reproduzir.

Na utopia concreta, Bloch (2006b) aspira que a reflexão seja o prólogo da ação. O homem e a significação do seu futuro, aquele que não se deixa iludir nem ilude, está no centro das suas atenções. Tanto é assim que, na primeira linha de The Spirit of Utopia (Geist der

Utopie), Bloch (2000, p. 7, tradução nossa) escreve: ―Eu estou por mim mesmo‖.10 Amplia a

questão em O Princípio Esperança: (BLOCH, 2005, p. 13) ―Quem somos? De onde viemos? Para onde vamos? Que esperamos? O que nos espera?‖ E no autobiográfico Traces (Spuren),

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também nas linhas iniciais‖, assinala: ―Eu sou. Mas eu não estou em possessão de mim mesmo. Tal é a origem do nosso futuro‖ (BLOCH, 1968, p. 7, tradução nossa).11

Todas as referências ao futuro, em Bloch (2005), mesmo antes de ser marxista, têm como propósito básico libertar a humanidade do espartilho da dominação capitalista e burguesa. A chave da sua filosofia da história e das distinções entre a utopia concreta e as utopias abstratas, segundo Raulet (1986, p. 270), estava na recriação do sistema produtivo, reconhecendo, a partir da teoria de Marx, a contradição entre o desejo do homem e a sua prática. Assim, justificava suas críticas ao capitalismo liberal, a toda e qualquer tentativa de secularização de Marx e do seu próprio pensamento utópico, o que equivale dizer que entendia o mundo de forma diversa de Habermas, Deleuze, Guattari e Baudrillard.12 Münster

(1993, p. 82), que é um dos mais conhecidos biógrafos de Bloch, retrata a ―intenção primeira e fundamental‖ da filosofia blochiana:

Revelar e descobrir a dialética que existe entre uma subjetividade criadora que ultrapassa seus limites interiores e um elemento exterior, um ‗ao

-redor-de nós‘, que está se aproximando do ‗Eu sou‘. O ‗Eu solitário‘ do mundo da

alienação, do mundo burguês, transformar-se em ‗nós‘, no sujeito coletivo de uma humanidade liberada, emancipada, voltada à sua própria identidade.

Bloch compreendia, no sentido marxista, o significado da emancipação humana e essa foi a solução teórica de interpretação do mundo encontrada nas Teses sobre Feuerbach (MARX; ENGELS, 2007). Para Marx, (1982, p. 243-5), a emancipação humana dependia da

crìtica ―inclemente‖ da sociedade vigente e na procura ―humanista‖ de abolir o interesse

privado em favor do comunismo. O motivo seria uma exigência da razão que sempre existiu:

fazer surgir ―o homem verdadeiro‖, mensageiro da ―verdade social‖ em oposição ao homem

do Estado político e da religião.

11 Je suis. Mais je ne suis pas en possession de moi-même. Telle est l'origine de notre devenir‖.

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A emancipação para Marx (1982, p. 345) seria o despertar de ―um sonho em relação a si mesmo‖ que impede o homem de viver a sua própria ―filosofia crìtica‖ e concretizar suas

próprias ideias de futuro. A emancipação política se concretizaria no momento em que o Estado e a religião deixassem de mediar as relações do homem e da sua liberdade. Quanto menciona emancipação política, Bloch (2005) refere-se à elevação do homem, não apenas em relação à propriedade privada, mas aos liames culturais que possam inibir a sua universalização.

Mas o sistema filosófico de Bloch ganha dimensões também psicanalíticas com a categoria do ainda-não-consciente e, antes de chegar a Freud, reuniu vasto elenco de filósofos que dialogaram com a história no decorrer do tempo. Entre eles, pode-se citar Platão, Aristóteles, Agostinho, Avicenna, Gioacchino di Fiori, Münzer, Leibniz, Kant, Schelling, Hegel, Marx, Lukács e, sem rodeios, pode-se acrescentar Benjamin e Marcuse. Isto sem deixar de citar os utopistas Thomas More, Campanella e Bacon a Owen, Fourier e Saint-Simon.

O PRINCÍPIO DA AÇÃO: A UTOPIA CONCRETA

A palavra não serve apenas à arte verbal, mas também à comunicação em consonância com a verdade.

Ernst Bloch, O Princípio Esperança (2005, p. 208)

Avesso ao pensamento ossificado das classes médias, em que a palavra reflete mais uma bela aparência do que a verdade, Bloch encarnava o estilo erudito, característico do

Bildungsbürgertum, refinada geração de intelectuais de formação clássica e liberal. Com a

mesma agudeza com que se refere a Shakespeare, Nietzsche, Hölderlin, Goethe e Brecht, para alicerçar reflexões, buscava fontes de inspiração nos contos dos irmãos Grimm, nos romances de Sinclair Lewis, Upton Sinclair, Edgar Allan Poe, nos contos nada infantis de Hans Christian Andersen, e remonta à Antiguidade grega e romana, para propagar o sentimento de antecipação utópica.

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de Marx, concebeu a filosofia social do futuro, ambas, também, de difícil realização por envolver a identificação da verdade como processo dialético. Essas dificuldades foram rompidas, pela primeira vez, com a Revolução Russa, que trouxe a filosofia de esquerda da penumbra do fracasso contínuo, para as luzes do êxito e teve o mérito de dar liberdade ao pensamento de negação do capitalismo. Uma possibilidade, vincada por muitos reveses, como aconteceu com a esquerda na Alemanha, mas que deu origem à pluralidade dos tempos modernos.

A comparação com Schelling, feita por Habermas (1987), ocorreu quando Bloch recomeçava a vida na Alemanha Ocidental, depois de enfrentar os dramas das duas guerras mundiais e escrever O Princípio Esperança, ponto culminante da sua obra. Elaborado durante os anos de exílio, nos Estados Unidos, entre 1938 e 1947, e revisto entre 1953 e 1959, o primeiro volume circulou na Alemanha Oriental, em 1954, com tiragem reduzida. Os dois últimos volumes foram publicados quando o autor já vivia na antiga Alemanha Ocidental.

Os três livros reúnem 1.372 páginas, 55 capítulos, sendo a divisão em três volumes uma recriação do método hegeliano de se interrogar quanto à subjetividade, à objetividade e ao espírito absoluto. Bloch revela-se aberto ao entendimento do homem e a suas contradições, fosse no mundo capitalista ou no mundo socialista, mas com a esperança de que o homem seja capaz de negar a imobilidade.

Schelling (2012, p. 227-8), como Bloch, foi um filosofo de múltiplos saberes e que

considerava o homem como ―fundamento imortal da vida‖, ―princìpio da natureza divina‖ e da ―vontade divina‖, em cuja crença estava não apenas a ―força‖ e ―poder‖ da eternidade, mas o ―começo da sabedoria‖. A peculiaridade objetiva e enigmática do seu pensamento, que

Bloch absorveu e atualizou, pode ser expressa nesta frase: ―O que é passado é sabido, o que é

presente é conhecido, o que está por vir é pressentido‖ (SCHELLING, 2012, p. 23, tradução

nossa).13

Mas o ponto maior de identidade é que Schelling, em toda a sua obra, de Ideias para

uma Filosofia da Natureza(que começa com a frase ―A filosofia é, do começo ao fim, uma

obra de liberdade‖), ao Sistema de Idealismo Transcendental(―A liberdade é o princìpio que

sustenta todas as coisas‖), Investigações Filosóficas sobre a Essência da Liberdade Humana

e As Eras do Mundo, está sempre buscando a ―liberdade e a estrutura em convincente filosofia

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do pós-iluminismo‖.14 Em Les Âges du Monde (2012), Schelling compara a liberdade a Deus e se pergunta: se não for assim, de onde vem a liberdade?

Por trás da concepção do ―Schelling Marxista‖, formulada não sem refinada ironia (pelo que Habermas considerava como excessivo utopismo de Bloch), encontram-se o reconhecimento da persistente atividade filosófica de Bloch em defesa da liberdade, também, das vastas críticas e incompreensões que acompanharam o seu pensamento. Se deixarmos de lado o aspecto irônico da comparação, Schelling (2012, p. 170), aquele de Les Âges du Mundo

(Die Weltalter), empolgou Bloch pelo empenho com que se dedicou à integração do homem

com a natureza e pela ideia de ―eterna liberdade‖ que seria o fundamento da própria

necessidade.

Bloch considera o homem, como resume Schelling citado por Münster (1993, p. 82),

―o ápice da natureza e da história‖, embora seja esse mesmo homem ―a coisa mais

incompreensìvel da história‖. No terreno da comparação de Habermas (1987), Schelling

percebia, na natureza, o elo original da vontade dialética do homem no rumo do progresso, enquanto Bloch teria percorrido a mesma estrada pela visão da utopia como medida de potência e potencialidades criadoras.

Tanto Schelling como Bloch revalorizaram o ―fundo escuro‖ ou o ―fundo tenebroso‖

da natureza e do homem, respectivamente, para alcançar impulso de potências imanentes, com a diferença de que Bloch encontra, no conceito de processo, a luz para a ontologia do ainda-não-ser a procura do aperfeiçoamento do homem. Na análise de Münster, Schelling inspira-se no conceito aristotélico de potência como dynameion, um horizonte em aberto, e Bloch converte, para as categorias de possibilidade, ―o ser-em-possibilidade‖, que comporta,

em si mesmo, a antecipação de um futuro, ―ser-para-o-futuro‖ (MÜNSTER, 1993, p. 83).

Foi Schelling, junto com Leibniz, inspirador dos conceitos blochianos do ―mundo em processo‖ e ―tendência‖, além do conceito do ―ainda-não-ser‖, que fazem parte do Capìtulo I

de O Princípio Esperança (BLOCH, 2005). Segundo Münster (1997, p. 149), o mérito de

Schelling foi ―reatualizar a dimensão mìstica‖ da filosofia da Idade Média, em relação à

potência da natureza e do ser, mas a sua influência na obra de Bloch jamais teve o mesmo peso que Hegel e Marx. É possível, a julgar pela interpretação de Münster (1997), que a associação de Bloch a Schelling, por Habermas, tenha suas razões na ontologia blochiana do ainda-não-ser, guiada pela hipótese do ser-em-possibilidade. Corresponde, guardadas as proporções, à filosofia schellieana da natureza.

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Contudo, foi graças ao estudo de Schelling que Bloch pôde se defender das acusações de dirigentes da antiga República Democrática Alemã de que sua filosofia era mística. Essas

acusações, como as de ser ―revisionista‖, surgiram porque Bloch se tornou dissidente da então

RDA. O que ele procurou foi reativar a compreensão dos vínculos entre marxismo e a religião e lançar nova interpretação sobre o papel de Thomas Münzer na revolução alemã.15 Isto ganhou nitidez quando Bloch recorreu a Schelling para argumentar que a natureza é um valor

e que conteria ―modelos que ninguém ainda interpretou, ao passo que os da revelação escrita

há muito já foram consumados e interpretados‖ (BLOCH, 2006b, p. 427-8).

O homem estaria entre os modelos da natureza carentes de interpretação. Schelling (2012) argumenta que não conhecemos outro Deus senão o deus vivente, o homem, e se perguntava quem seria o homem, quais as conexões entre sua vida espiritual, a vida natural e o mistério original da sua individualidade. Exatamente, como, por outras palavras, Bloch (2005) se questiona sobre o sentido da vida e de suas contradições sob o capitalismo.

Schelling foi ao lado de Aristóteles, Leibniz, Kant, Hegel, Marx e Engels um dos pensadores, além de Goethe, que influenciaram decisivamente a filosofia de Bloch. Deixando Schelling à parte, Bloch, logo após a Revolução de Outubro, tomou o partido da criticada filosofia de Hegel graças às suas afinidades como o marxismo e comparou a Fenomenologia

do Espírito (HEGEL, 1993), pelos seus ―horizontes amplos‖ ao Fausto de Goethe.

Naquela ocasião, Lênin também defendia Hegel e a atitude de Bloch foi considerada uma tentativa de tirar da burguesia a herança de Hegel e trazê-la para o socialismo (PASTOR, 1986, p. 76). Com Schelling, foi diferente. O que estava em questão não eram os fundamentos metafísicos, mas o próprio sistema filosófico de Bloch. Portanto, de nada adiantou Bloch tentar associar o pensamento de Schelling às raízes do conteúdo material do mundo, como não adiantou questionar o sentido natural do bem supremo e discutir filósofos, como Paracelso e Jakob Böhme, entendendo que as forças religiosas e místicas impulsionam a consciência revolucionária contra a desumanização capitalista.

15 Cf. Utopia, Messianismo e Apocalipse nas Primeiras Obras de Ernst Bloch, de Arno Münster. O autor explica que mergulhou nas águas da Idade Média para encontrar a mística do igualitarismo no cristianismo

primitivo: ―Essa herança não pode ser comprimida em fórmulas históricas ou sociológicas, pois, no quadro

de um marxismo corretamente compreendido, marxistas e socialistas não deveriam ter presentes apenas as leis mais simples do movimento do capital, de sua acumulação e de sua circulação, mas também os velhos sonhos da humanidade que antecipam anseios autênticos de emancipação enraizados na história popular, os

‗sonhos para a frente‘, que, em certas circunstâncias, podem vir carregados com teor mìstico e religioso. Para

Bloch, a figura de Münzer marca um ponto de cruzamento, no qual confluem a expectativa messiânica moderna, o anabatismo, o utopismo inspirado no comunismo da comunidade primitiva e um movimento de

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O próprio espírito humanitário é o inimigo nato da desumanização: sim, do fato do marxismo nada mais ser que a luta contra a desumanização, que culmina no capitalismo até à sua completa anulação, resulta também e contrário que o marxismo autêntico de acordo com a sua motivação, sua luta de classes e seu teor final, nada é, nada pode ser e nada será além do espírito humanitário. Sobretudo todas as turvações e todos os desvios ocorridos pelo caminho só podem ser realmente criticados e até mesmo revolvidos dentro do marxismo; pois ele é o único herdeiro daquilo que, na antiga burguesia revolucionária, era intencionado em termos de humanidade. E através do reconhecimento de que a sociedade de classes, em grau extremo a capitalista, provoca todo o tipo de autoalienação, ele foi o único que avançou até à raiz eliminável (BLOCH, 2006b, p. 444).

O que colocou Bloch na mira de muitas críticas, por parte da Alemanha Oriental e de muitas tentativas de compreensão das suas teses até os dias atuais, foi a visão humanística do marxismo, com ênfase ao elemento humano da revolução social, independente da ortodoxia bolchevique. Bloch, segundo Pastor (1986, p. 81-5) foi criticado tanto pelo capitalismo, que tentou secularizar sua doutrina marxista, como pelos países do Leste Europeu, que tentaram atrelá-lo a uma leitura laica de visões religiosas e místicas anteriores a Marx, como se não prestasse suficiente atenção aos Manuscritos Econômico-filosóficos de Marx e às bases hermenêuticas das Teses sobre Feuerbach. Foi característico de Bloch ressaltar o primado da

prática sobre a teoria, diferentemente do ―Espìrito Absoluto‖ de Hegel que se revela sempre

idêntico a si mesmo.

Tanto havia dissonâncias que a ortodoxia bolchevique, além de persegui-lo antes dele buscar exílio na Alemanha Ocidental, não dava atenção necessária às suas ideias e, ele, por sua vez, desdenhava das ideias bolcheviques. Bloch (2005) revelava-se hostil ao pragmatismo e ao praticismo socialista e criticava os bolcheviques por desejar aplicar a filosofia de Marx sem superá-la. Considerava alienantes as coisas que se institucionalizavam e se tornavam artificiais e encontrava a alienação não só no capitalismo – o dinheiro, o comércio e a propriedade privada, o egoísmo –, mas igualmente na obscuridade do ―socialismo de Estado‖.

Quando, no alvorecer dos anos 1930, criticou a propaganda comunista por ser abstrata e sem fundamento na realidade de operários, soldados e quanto à idealização do sujeito pelos comunistas alemães, nos anos de ascensão do nazismo, não foi ouvido.16 Otimista quanto à

16 Cf. BLOCH, Ernst. On the Original History of the Third Reich. In: ______. Heritage of Our Times, 1991. p. 117-37. Nesse capítulo, Bloch trata da grande dificuldade de desalienação da esquerda alemã, que alimentou

entusiasmo ilusório quanto ao ―utópico‖ paraìso socialista da República de Weimar e não se deu conta da

força da propaganda nazista que reviveu, na figura da ―Grande Alemanha‖ (Gross Deutschland), o mítico

Frederico II, tido popularmente como o ―imperador perfeito‖. Hitler ocupou o espaço como reconstrutor da

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renovação do marxismo e disposto a defender a inter-relação entre o falar e o pensar para dar corpo à realidade e aos conceitos de mudança, tentava mostrar que faltava contemporaneidade à linguagem socialista. Ser contemporâneo seria motivar o povo a pensar para a frente, não voltar-se para os velhos tempos, nem cultuar a hierarquia e a burocracia. A linguagem não se tratava de simples uso de palavras ou de discursos, nem de fórmulas matemáticas, mas da procura da expressão de ideias concretas, filosoficamente realistas.

A defesa do eclético movimento expressionista é um bom exemplo do sentido da linguagem em Bloch e a percepção do novo em oposição à crise do mundo burguês que, para ele, tinha sua maior evidência no fascismo. Não negava que o movimento, desde 1922,

contivesse ―sombras objetivamente arcaicas‖ de um anticapitalismo imaturo, mas, ao

contrário de Lukács, entendia que, no expressionismo como reação ao academicismo e uma

arte do tempo de crise, ―o sonho primordial‖ de mudança e a ―luz do futuro se fundem‖

(MÜNSTER, 1997, p. 173). Se abria aos desejos, dava voz ao sujeito que se movimenta na

realidade e continha ―uma carga altamente subjetiva, crìtica e revolucionária‖ (PASTOR,

1986, p. 55).

E, por mais contradições que o expressionismo pudesse ter, não ensombreciam a dimensão utópica de expoentes como Klee, Kandisky e Chagal (BLOCH, 1991, p. 242). A valorização do expressionismo por Bloch era explicada pelo seu interesse pelo moderno: a pintura, o teatro, a técnica artística, a relação dialética entre a decadência e o surgimento do novo, definição de um conceito revolucionário autenticamente materialista e revolucionário, à margem da ortodoxia academicista (ZECCHI, 1978, p. 231-9). Foi procurá-lo nos movimentos sociais revolucionários, representados pelo líder camponês Thomas Münzer.

Os mortos retornam, como num novo gesto, assim em significativo contexto, portador de novas descobertas, e a compreendida História, formada sob o influxo impulsionador das idéias revolucionárias, transformada e iluminada em lenda, tornando-se uma função que não se perde, na plenitude dos seus testemunhos, anunciados pela Revolução e o Apocalipse (BLOCH, 1973, p. 7).

Na interpretação de Pastor (1986, p. 57), Münzer é a tensão no rumo da sociedade sem classes, rota dura e espinhosa, mas promissora quanto ao futuro. Representa o expressionismo social na obra de Bloch e aponta para os debates, de 1935, em defesa da cultura, reação à ascensão de Hitler. Luckás (que criticou a falta de conexão do movimento expressionista com o povo e a falta de raízes históricas) e Bloch ficaram em lados opostos; Bloch interpreta o

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espírito do passado, em particular a arte gótica, a fé cristã e o socialismo marxista (PASTOR, 1986, p. 55).

A discussão foi emblemática por demarcar a distância entre o marxismo fechado e o marxismo aberto ao novo e às mudanças determinadas pela juventude das diferentes épocas. Movendo-se no terreno do materialismo dialético, Bloch recusava-se a vincular a realidade ao pensamento puro e não se prendia ao que, aparentemente, possa parecer real. Investigava o homem e seus conceitos, juízos e modos de pensar com as lentes da história e da natureza, mas a essência de sua percepção estava em ultrapassar a realidade.

Em Das Materialismus-problem(1972), Bloch define o materialismo como a ―grande

filosofia‖ por encontrar a solução nas contradições, sem que o mundo seja visto como estático (BLOCH, 1972, p. 134). Em Experimentum Mundi (1975), recorda o exemplo de César ao atravessar o rio Rubicão para conquistar Roma, tal como registra a história, como exemplo da incerteza quanto ao futuro de alguém que tinha rompido com o seu passado (BLOCH, 1975, p. 11). Com isso, propunha-se a superar a lógica do juízo tradicional e analisá-lo como processo imerso num sujeito que depende não do destino, mas da ação, que não depende de um juízo, mas que virá a ser a mediação dialética de um juízo e de uma identidade nova.

A discussão em torno do expressionismo demonstra que o pensamento blochiano transcende a realidade cotidiana. Supera o racionalismo e o idealismo. É teleológico e dialético. Não é imanente apenas da consciência, mas de algo exterior a ela, traduzida pela superestrutura e pela a tendência-latência dos acontecimentos. Não admite a passividade, mas a dialética da atividade. Ante um acontecimento novo, como foi o expressionismo, Bloch não aceitava as interpretações de que o espìrito do movimento era aquele de ser ―filho do

fascismo‖ (BLOCH, 1991, p. 246).

O tempo, a força mais antiga que se conhece e que preside a existência de todas as coisas, para ele, é que determinaria a natureza do expressionismo, e este estava apenas começando. O princípio da ação encontrou referência política na vigorosa oposição de Bloch

ao fascismo, à ―ortodoxia comunista‖ e na não coincidência entre os sonhos de ser do homem

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