Trabalho produtivo e improdutivo: A Mercadoria
Gustavo Henrique Lopes Machado
“À primeira vista, a mercadoria parece uma coisa trivial, evidente. Analisando-a, vê-se que ela é uma coisa muito complicada, cheia de sutileza metafísica e manhas teológicas.”
Karl Marx – O Capital Iniciamos aqui uma artigo que trata do tema do trabalho produtivo e improdutivo em Marx. No nosso entender, esta questão é da mais alta importância para todos àqueles que lutam por uma transformação profunda na sociedade e apostam no proletariado como agente fundamental desta transformação.
Muito embora, é claro, o exame do papel que cada setor do proletariado ocupa na totalidade das relações sociais capitalistas, que aqui propomos em seus traços mais gerais, longe está de esgotar a questão, que envolve também elementos históricos e conjunturais de diversos tipos. Nossa análise, contudo, abstrai deste problema igualmente fundamental, se limitando a analisar o papel dos diversos setores que compõem o proletariado no interior da sociedade capitalista considerada enquanto totalidade, ou seja, pretendemos esclarecer alguns aspectos fundamentais da problemática das classes sociais na critica da economia política de Marx, com ênfase na questão do trabalho produtivo e improdutivo.
Trata-se de um dos temas mais polêmicos da obra de Marx. E isto tem sua razão de ser. Não existe um tratamento
“sistemático” deste tema em lugar algum no conjunto dos escritos de Marx. Ele aparece de maneira mais desenvolvida e ocupando um espaço significativo no primeiro volume das Teorias de Mais-Valia e no chamado Capitulo Inédito de O
Capital. Em ambos os casos, a questão do trabalho produtivo e improdutivo aparece sempre a partir do diálogo com outros economistas e, como não poderia deixar de ser, a argumentação se baseia na contraposição de Marx frente às posições destes.
Nos Grundrisse, o tema é tratado aqui e ali de maneira esparsa e sempre remetendo à algum aspecto muito particular do problema. Sempre é bom lembrar que todos estes textos são anotações pessoais não destinadas à publicação. Este quadro justifica, em grande medida, a ausência de clareza em alguns aspectos no tratamento desta questão por Marx. Não é casual, portanto, que este tema confundiu não poucos estudiosos, inclusive alguns de grande envergadura, como, por exemplo, o economista russo Isaak Rubin.
Já nos três livros de O Capital, em que o centro não é a polêmica com outros autores, mas a exposição crítica da sociedade burguesa, não existe um só capítulo ou mesmo um item separado destinado à este tema, que aparece apenas no que podemos chamar de breves digressões de Marx referentes ao trabalho produtivo e improdutivo. Pensamos que o modo ideal de esclarecer este problema é percorrermos os três volumes de O Capital explicitando o papel dos distintos estratos dos trabalhadores assalariados na exata medida que as próprias categorias do modo de produção capitalista são determinadas.
Evidentemente, neste artigo e nos que se seguirão, longe estamos de querer percorrer este caminho. Nos propomos, então, a examinar algumas noções e categorias que, pensamos, estão no cerne de toda confusão em torno deste tema. Neste artigo, particularmente, iremos examinar o significado da categoria de mercadoria, cuja compreensão adequada é pré-condição para alçarmos o cerne do problema. No segundo artigo, abordaremos a categoria de serviços, no terceiro a noção de trabalho produtivo e improdutivo propriamente dita e, por fim, no último, a noção de capital produtivo.
Existem mercadorias “imateriais”?
Marx inicia o capital afirmando que a “riqueza das sociedades
em que domina o modo de produção capitalista aparece como uma imensa coleção de mercadorias”. Ora, sendo a mercadoria a forma elementar da riqueza, a exposição principia por ela, em uma famosa passagem que diz:
A mercadoria é, antes de tudo, um objeto externo, uma coisa, a qual pelas suas propriedades satisfaz necessidades humanas de qualquer espécie. A natureza dessas necessidades, se elas se originam do estômago ou da fantasia, não altera nada na coisa. Aqui também não se trata de como a coisa satisfaz a necessidade humana, se imediatamente, como meio de subsistência, isto é, objeto de consumo, ou se indiretamente, como meio de produção.(MARX, 1996, p. 154)
É um grande enigma que muitos autores tenham visto neste parágrafo inicial de O Capital a justificativa de que as mercadorias possam ser materiais e também “imateriais”, dado que as necessidades que ela satisfaz podem se originar do
“estômago ou da fantasia” ou, segundo algumas traduções, “da imaginação” ou “do espirito”. Não é tanto uma questão de interpretação, mas de gramática. Não é as mercadorias que podem ser “fantasia”, “imaginação” ou “espirito”, mas as necessidades que elas satisfazem. Assim, uma televisão, um livro, um dvd, um video-game etc., satisfazem o espírito e não o estômago. A passagem afirma o contrário, que a mercadoria, forma elementar da riqueza, é uma coisa, um objeto externo.
Enquanto objeto externo ela não pode ser um conjunto de valores e conhecimentos internos aos indivíduos, mas se encontra fora deles, como algo que transcende os indivíduos e suas respectivas capacidades, apenas se ligando a estes exteriormente.
Mas de fato, este é apenas o modo como as mercadorias aparecem. Fossem elas determinadas unicamente pela sua materialidade e pela satisfação das necessidades humanas, seriam mercadorias, inclusive, aqueles objetos de algum modo úteis que encontramos prontos para o consumo na natureza. Para
ser mercadoria não é suficiente, também, o fato de ser um produto do trabalho humano. Fosse esse o caso, ela não seria a forma elementar da riqueza capitalista, mas de toda e qualquer forma de sociedade. Antes disso, para “tornar-se mercadoria, é preciso que o produto seja transferido a quem vai servir como valor de uso por meio da troca” (MARX, 1996, p. 154).
Este é o conceito mais preciso e determinado de mercadoria, presente em um adendo de Engels ao primeiro livro de O Capital. Não basta ser uma coisa material, antes disso, a mercadoria é unidade de valor de uso e valor e, enquanto tal, um valor de uso social, ou seja, por meio da troca no mercado, ela é um valor de uso para outro que aquele que a produziu. A mercadoria é, assim, especificada frente aos produtos do trabalho no geral como uma forma social particular destes. Em suma, Marx supera a forma unilateral e abstrata em que a mercadoria foi inicialmente considerada. Não porque seu aspecto de objeto externo foi suprimido, mas porque além de um produto do trabalho e, enquanto tal, valor de uso, ela é também valor, isto é, uma relação social, não uma simples coisa, mas uma relação social que se efetiva em e através de coisas.
Por isso Marx diz ser a mercadoria uma coisa “sensivel- suprasensível”, ou como prefere a tradução da Abril Cultural, uma coisa “física-metafísica”. Afinal, como “valor de uso, não há nada misterioso nela[a mercadoria], quer eu a observe sob o ponto de vista de que satisfaz necessidades humanas pelas suas propriedades, ou que ela somente recebe essas propriedades como produto do trabalho humano” (MARX, 1996, p. 197). Já quanto ao seu valor, uma mercadoria é expressão de uma relação social que lhe atribuí um valor a partir da equalização do conjunto das mercadorias no mercado. Uma mercadoria mesa, por exemplo, não se constitui unicamente por suas propriedades materiais e úteis, “ela se transforma numa coisa fisicamente metafísica” (MARX, 1996, p. 197). Isto é assim porque sua determinação de valor não é palpável nem acessível aos
sentidos, não por ser algo imaterial como um espírito que subjaz em seu interior, mas por conter uma propriedade social, posta por uma dada forma de relação entre as pessoas, que parece ser algo que a mercadoria tem por natureza. Podemos virar e revirar a mercadoria-mesa como quiser e não encontraremos seu valor. Para tal, a análise deve se dirigir ao “caráter social peculiar do trabalho que produz mercadorias” (MARX, 1996, p. 197). Daí seu aspecto enigmático, obscuro, nas palavras de Marx, quase teológico e metafísico.
Numerosas passagens poderiam ser mencionadas nesse sentido, isto é, apesar de não se definir pelo mero atributo de material, a mercadoria pressupõe estas coisas materiais e sensíveis como suporte de suas propriedades sociais. Uma destas passagens, particularmente interessante tendo em vista nossos propósitos, se encontra nas Teorias de Mais-Valia, onde se diz: “Mercadoria – no que a distingue da própria força de trabalho – é coisa que se contrapõe materialmente ao ser humano, de certa utilidade, e onde se fixa, se materializa quantidade determinada de trabalho”(MARX, 1974, p. 143). Como se vê, mercadoria é uma “coisa que se contrapõe materialmente ao ser humano”. Exceto a força de trabalho. As mercadorias são, portanto, de dois tipos:
Objetivas: Coisas, objetos externos sensíveis que servem 1.
de valor de uso para outros por meio da troca. Isto é, unidade de valor de uso e valor. Uma coisa social ou uma relação social que possui estas coisas materiais, os produtos do trabalho, como suporte.
Subjetivas: A força de trabalho.
2.
Com isso, nossa exposição marcha rumo ao outro tipo específico de mercadoria presente na sociedade capitalista: a força de trabalho.
Força de trabalho, um tipo particular de mercadoria
Como se sabe, o modo capitalista de produção pressupõe o
desenvolvimento e a generalização de uma mercadoria em particular: a força de trabalho. Isto significa que o individuo que trabalha não está mais ligado diretamente à uma comunidade, como nas sociedades primitivas, nem ligado diretamente à um senhor e a terra, como é o caso da servidão, nem é ele próprio mercadoria, como na escravidão; mas vende no mercado sua capacidade para um dado tipo de atividade ou trabalho. A força de trabalho é uma mercadoria porque satisfaz às duas determinações que constituem a natureza social desta última: possuí um valor de uso, o trabalho, e, ao ser trocada no mercado, possui, também, um valor, medido pelo tempo socialmente necessário para reproduzir a força de trabalho enquanto tal. Em resumo, “a mercadoria se patenteia trabalho pretérito, objetivado e que, por isso, se não aparece na forma de uma coisa, só pode aparecer na forma da própria força de trabalho” (MARX, 1974, p. 151).
Embora a força de trabalho tenha como suportes materiais os indivíduos dela portadores, ela mesma é uma mera potência para realização de algo, mera capacidade para efetivar um tipo determinado de atividade. Sendo assim, porque naquela definição inicial Marx caracterizara a mercadoria como um
“objeto externo”, uma coisa exterior aos indivíduos, se a força de trabalho é exatamente aquilo que os indivíduos possuem em si mesmos e, enquanto tal, não materializada em algo externo?
Acontece que, apesar de ser mercadoria, a força de trabalho não é uma forma elementar da riqueza e não constitui a imensa coleção de mercadorias que configura a riqueza do modo de produção capitalista. Embora seja valor e, enquanto tal, corresponda a soma global de valores da sociedade, ela não valoriza imediatamente o capital, nem corresponde a riqueza que este tem como base. Antes de tudo, a força de trabalho jamais é propriedade do capital, mas do trabalhador que a vende. O capitalista paga o valor da força de trabalho para receber, como em toda troca de mercadorias, seu valor de uso.
É o valor de uso da força de trabalho, isto é, o trabalho, que produz riqueza e valor, inclusive o mais-valor que o capitalista se apropria de modo a acumular capital. É o consumo da força de trabalho que produz riqueza, tanto para o capitalista, quanto a parte que aflui ao trabalhador na forma de salário. Daí o caráter absolutamente especifico da mercadoria força de trabalho, que pode até ser uma riqueza para o indivíduo dela possuidor, mas não para o modo de produção capitalista.
Na verdade, nada de misterioso existe nestas afirmações. Uma empresa que possui milhares de trabalhadores empregados e parados, não acumula capital nem produz riqueza. Assim como um país que possui uma numerosa massa de trabalhadores qualificados, sem estarem empregados, não aumenta, pela mera existência da força de trabalho, sua riqueza e seu capital.
Por fim, mencionamos algumas passagens em que Marx, com a ironia que lhe é habitual, desdenha daqueles que se contrapõem à noção de que a riqueza é produção de mercadorias, apelando p a r a a n o ç ã o d e u t i l i d a d e d e u m a d a d a a t i v i d a d e , particularmente a utilidade daqueles trabalhos que não produzem produtos materiais:
Segundo Storch, o médico produz saúde (mas também doença);
p r o f e s s o r e s e e s c r i t o r e s , a s l u z e s ( m a s t a m b é m o obscurantismo); poetas, pintores etc., bom gosto (mas também mau gosto); os moralistas etc., os costumes; os padres, o culto; o trabalho dos soberanos, a segurança etc. (pp. 347 a 350). Por igual poder-se-ia dizer que a doença produz os médicos; a ignorância, professores e escritores; o mau gosto, poetas e pintores; a devassidão, moralistas; a superstição, padres; e a insegurança geral, soberanos. (MARX,1980, p. 269)
Nos cadernos preparatórios para O Capital de 1861-1863 vemos uma passagem análoga:
Um filósofo produz ideias, um poeta, poemas, um pastor,
sermões, um professor, compêndios etc. Um criminoso produz crimes. Considerando-se mais de perto a ligação deste último ramo de produção com os limites da sociedade, então se abandonam muitos preconceitos. O criminoso não produz apenas crimes, mas também direito criminal e, com isso, também o professor que profere cursos sobre direito criminal e, além disso, o inevitável compêndio com o qual esse mesmo professor lança suas conferências como “mercadoria” no mercado geral.
Com isso, ocorre aumento da riqueza nacional, prescindindo todo prazer privado que o manuscrito do compêndio proporcionou ao seu próprio autor […]. (MARX, 2010, p. 355)
E Marx prossegue com sua ironia por duas páginas mais, colocando o criminoso como um dos trabalhadores mais produtivos da sociedade. Esta é a maneira como o autor de O Capital trata os adeptos do “trabalho imaterial”. Observem que, apesar do tom jocoso, todo conjunto de consequências
“produzidas” pela ação do criminoso, apenas a produção do compêndio de direito criminal será tratado como aumentando a riqueza nacional. Observe ainda que o termo mercadoria aplicado às aulas que o professor de direito criminal oferece, aparece entre aspas. Afinal, a força de trabalho de um professor de qualquer matéria, engenharia ou teologia, é uma mercadoria, mas sua atividade não produz mercadoria alguma, não importa a utilidade que possa ter para a sociedade.
Somente o trabalho produtor de mercadorias é produtivo?
O subtítulo desta última sessão encerra uma pergunta que abre o tema a ser desenvolvido nos artigos posteriores. Apenas o trabalho produtor de mercadorias é produtor de riqueza?
Depende. Se a noção de produtividade é considerada em relação a riqueza produzida para o conjunto da sociedade a resposta é afirmativa. Apenas o trabalho produtor de mercadorias, com seus respectivos suportes materiais, é produtivo. No entanto, se a acepção de produtividade é considerada do ponto de vista da relação entre o proprietário da força de trabalho e o
proprietário dos meios de produção, trabalhador e capitalista, esta acepção de trabalho produtivo é ainda muito abstrata e absolutamente insuficiente.
Não sem razão, em Teorias de Mais-Valia, Marx discute uma das duas definições de Adam Smith para trabalho produtivo, que diz exatamente que o “trabalho produtivo é o que produz mercadoria, e o improdutivo, o que não produz “mercadoria alguma” (MARX, 1974, p. 150). Marx não desfaz desta definição de Smith, mas assinala seu caráter abstrato e unilateral, afinal, a “mercadoria é a mais elementar forma de riqueza da burguesia”, por isso, a definição de trabalho produtivo assim considerada, “corresponde também a um ponto de vista muito mais elementar que a definição do trabalho produtivo como que produz capital” (MARX, 1974, p. 150). Isto é assim porque esta definição de trabalho produtivo, embora capaz de caracterizar a produtividade do trabalho em relação à riqueza da sociedade como um todo, é incapaz de diferenciar tipos diversos de trabalho, essencialmente diferentes, como um professor autônomo e aquele que vende sua força de trabalho à uma universidade privada, ou o camponês que vende sua produção como mercadoria e as mercadorias de uma grande indústria.
Mas do que foi até aqui exposto, é suficiente para compreendermos que os ditos serviços, atividades cujo trabalho não é materializado em coisas, não produzem mercadoria alguma.
Mesmo se seu executor for um trabalhador assalariado. E, por esse motivo, não são produtivos do ponto de vista da sociedade tomada em seu conjunto, não aumentam o capital global. No entanto, qual é a origem do valor que estes recebem pelos seus serviços? Qual a origem da acumulação de capital dos capitalistas que empregam trabalhadores não produtores de mercadorias? Para responder estas perguntas, o que foi até aqui desenvolvido, mostra-se como absolutamente insuficiente.
Reservamos, então, a resposta à estas perguntas, para os próximos capítulos.
Referencia bibliografia:
MARX, KARL. O capital: crítica da economia política. São Paulo: Abril Cultural, 1996. Livro primeiro, Tomo 1.
MARX, KARL. Para a crítica da economia política. Manuscrito de 1861-1863 (cadernos. I a V). Terceiro Capítulo – O capital em geral. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2010.
MARX, KARL. Teorias da mais-valia. História crítica do pensamento econômico. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1974. v. 1.
MARX, KARL. Teorias da mais-valia. História crítica do pensamento econômico. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980. v. 2.
Proletariado e classe operária: uma abordagem sob a perspectiva do valor
Pablo Biondi
O tema das classes sociais, ao ser bem estudado, revela-se extremamente árido, merecendo considerações muito cautelosas.
Ao mesmo tempo, o marxismo se vê instado a apresentar respostas teóricas cada vez mais precisas sobre esse assunto, sobretudo em tempos de influência ideológica pós-moderna.
Queremos aqui travar um debate sobre a definição e a compreensão das classes subalternas contemporâneas, e o faremos numa perspectiva centralmente econômica, apegada à teoria marxista do valor. Não desconhecemos que uma
caracterização completa das classes sociais exige considerações de cunho mais político. Todavia, entendemos que o aspecto econômico-estrutural é o mais importante, e que toda e qualquer análise política sobre as classes deve partir dele.
Pretendemos demonstrar que o marxismo oferece possibilidades muito interessantes acerca da moderna compleição das classes sociais, a despeito das elaborações pós-modernas e das iniciativas revisionistas dentro da teoria marxista. Seguindo de perto o pensamento de Marx, perceberemos a sua atualidade e a sua força explicativa.
Passemos, pois, à discussão, mas não sem antes tocar um problema conceitual prévio.
Antes de tudo: o conceito de trabalho produtivo
Para início de conversa, é preciso esclarecer em que consiste o conceito marxista de trabalho produtivo, pois ele será decisivo para nossas conclusões. Diríamos que Marx usa o termo em duas acepções distintas, embora próximas. Convém anunciar e explicitar desde logo esta distinção para evitar confusões, reservando, no entanto, seus desdobramentos para o estudo propriamente dito da localização dos trabalhadores.
O sentido “forte” – mais conhecido e admitido – de trabalho produtivo é o de trabalho que produz mais-valia. Este é o trabalho produtivo na sua acepção principal, pois corresponde à peculiaridade da produção capitalista. Marx (1978, p. 70) coloca que, “como o fim imediato e [o] produto por excelência da produção capitalista é a mais-valia, temos que só é produtivo aquele trabalho […] que emprega a força de trabalho – que diretamente produza mais-valia”. É próprio da produção capitalista gerar e extrair valor excedente no processo produtivo, e este é o eixo do modo de produção burguês.
Para ser produtivo nesta conotação, ou seja, para ser gerador de mais-valia, o trabalho não precisa ser material.
Frequentemente, o trabalho produtivo é material, e o caso
clássico é o das fábricas. Mas mesmo os serviços, que correspondem a uma produção imaterial (consistem num efeito útil e não se objetivam num produto separado da atividade laboral), podem gerar mais-valia. Marx explica com um exemplo:
uma cantora contratada por um empreendedor para fazer uma apresentação num espetáculo pode ser uma trabalhadora produtiva se o espetáculo for cobrado. Num caso como este, a lógica de valorização do capital funciona normalmente: o capitalista contratante investe em capital constante (as condições técnicas para o evento musical) e em capital variável (o pagamento da cantora, que vende sua força de trabalho). Com a venda dos ingressos, o empreendedor recolhe mais dinheiro do que investiu para contratar a trabalhadora e para sediar o evento. Esta diferença que ele embolsa nada mais é do que um valor excedente, uma mais-valia.
Este exemplo é importante porque demonstra que a mais-valia não necessariamente depende de produtos físicos. Aliás, Marx dizia que podemos revirar à vontade uma mercadoria, mas não encontraremos nela um único átomo de valor. O valor não é físico, sua materialidade é dada nas relações sociais do mercado e na produção para o mercado, não na coisa em si.
Tanto é assim que o trabalho criador de valor é chamado de trabalho abstrato: são abstraídas as condições concretas do processo do trabalho que resulta na mercadoria para levar em conta apenas a quantidade de trabalho indiferenciado, genérico, e socialmente necessário para a sua produção. Isto significa que, para o valor, pouco importa se as pessoas produzem calçados, alimentos, serviços de advocacia ou apresentações musicais. Se este trabalho se dirige ao mercado, ele será abstraído como mera quantidade de trabalho indiferenciado, como mera soma de valor. E se houver um excedente apropriado por outrem (como no caso do empreendedor em relação à cantora), haverá aí a coleta de mais-valia.
Mas há um segundo significado, em Marx, de trabalho produtivo.
Para a nossa infelicidade, ele usou um mesmo termo para
designar situações que não são exatamente iguais, embora guardem uma similitude importante. Cabe a nós, marxistas, destrinchar os conceitos e enfrentar o desafio.
Ao tratar dos trabalhadores do comércio no livro III d’O capital, Marx diz que eles são produtivos para os seus empregadores, pois são explorados por eles e os enriquecem.
Sem o comerciário, o capital do ramo do comércio não poderia prosperar, sendo que este capital que atua somente na circulação valoriza-se ao nutrir-se dos custos da troca mercantil:
Para o capital industrial, os custos de circulação se revelam e são custos necessários, mas não produtivos. Para o comerciante revelam-se fonte de lucro, que – suposta a taxa geral de lucro – está na proporção da magnitude deles. O desembolso a fazer nesses custos de circulação é, portanto, investimento produtivo para o capital mercantil. Pela mesma razão, o trabalho comercial que compra é para ele diretamente produtivo (C. III, V, p. 401).
Ora, esta é uma segunda definição, um novo conceito. Primeiro, trabalho produtivo foi descrito como aquele que cria novo valor, mais-valia. A dificuldade agora está no fato de que o comércio não gera mais-valia. O comerciário, na primeira acepção, não é produtivo. Sua atividade não adiciona nenhum valor ao processo de produção de uma mercadoria, e neste aspecto ela é improdutiva. Todavia, o trabalhador do comércio permite com que uma parte do valor das mercadorias produzidas seja embolsada pelo seu empregador, aumentando a sua riqueza – sendo que Marx o chamou, no tocante a isto, de produtivo, ou melhor, produtivo para o capital que o utiliza. Tal empregado é indispensável para a atividade de seu patrão, pois nenhuma empresa comercial pode funcionar sem empregados.
No “capítulo inédito” d’O capital, Marx (1978, p. 79) coloca que “a diferença entre o trabalho produtivo e o trabalho
improdutivo consiste tão-somente no fato de o trabalho trocar- se por dinheiro como dinheiro ou por dinheiro como capital”.
No caso da firma comercial, o trabalhador é contratado para enriquecer o patrão: seu salário corresponde a uma troca de trabalho por dinheiro como capital. O comerciário serve ao seu empregador não como um criado particular, mas como um instrumento para arrecadar lucro. O quadro de empregados da empresa de comércio consiste num capital variável, sem o qual ela não consegue alimentar sua acumulação. Por outro lado, afirma-se como produtivo, no mesmo texto, o trabalho que produz diretamente mais-valia, o trabalho que é “consumido diretamente no processo de produção com vistas à valorização do capital”.
Insistamos, pois, neste ponto: o trabalho produtivo aparece em Marx de duas maneiras: em primeiro lugar, como a atividade pela qual o trabalhador produz um valor superior ao valor de sua própria força de trabalho (mais-valia) no processo social de produção de uma mercadoria qualquer, seja ela tangível ou intangível. E em segundo lugar, o mesmo termo é utilizado para reportar outro caso, o do trabalhador que, sem gerar nenhum tipo de valor no processo de produção (ele não participa deste processo, na verdade), apenas realiza a venda da mercadoria produzida, o que implica a valorização do capital do empregador – e não do capital em seu conjunto social.
Chamarei de trabalho produtivo “em sentido fraco”, na falta de terminologia melhor, o trabalho do comerciário. E digo “fraco”
porque este trabalhador, ao mesmo tempo em que é “produtivo”
para o seu patrão (faz crescer sua riqueza – segundo significado), é improdutivo do ponto de vista do processo capitalista de produção (primeiro significado), o qual transcende os empregadores individuais e remete ao capital social total. Veremos mais à frente que esta perspectiva traz implicações da maior relevância.
Feita esta diferenciação entre “trabalho produtivo em sentido forte” (cria mais-valia) e “trabalho produtivo em sentido
fraco” (corta custos ou enriquece alguém sem criar mais- valia), podemos avançar para o debate sobre o proletariado, a classe operária e os trabalhadores do Estado, sabendo de antemão que há diferentes formas pelas quais os trabalhadores se relacionam com a mais-valia e com o capital.
O proletariado
Existe, no marxismo, a tradição de definir como proletário aquele que vive do salário, ou ainda, da alienação de sua força de trabalho. Este conceituação não está errada, mas é insuficiente, pois o proletariado só pode ser compreendido a fundo na sua relação com seu antípoda, a burguesia. Ou seja:
para ser proletário, o indivíduo deve ser explorado pelo capital, não basta que sua renda se dê na forma de salário.
Com isto, já adianto nossa visão de que alguns funcionários do Estado, mesmo sendo assalariados, não poderiam ser enquadrados nesta classe.
Do ponto de vista da produção de mais-valia, o proletário pode ser produtivo ou improdutivo, embora seja sempre explorado, de alguma forma, pelo capital – do mesmo modo que o capital, para ser digno deste nome, precisa explorar valor excedente alheio, ainda que indiretamente (como na finança e no comércio).
A exploração pelo capital pode ser direta ou indireta. Será direta se algum capital, individualmente, elevar-se à custa do trabalho de seus empregados, seja extraindo mais-valia, seja se beneficiando com o corte de despesas ou com qualquer tipo de atividade que o alimente. Será indireta, no entanto, se isto ocorrer apenas com relação à totalidade dos capitalistas, e não perante um capital individual. Neste ponto, entra em cena o conceito de capital social total (ou capital global), cuja explicação está em Marx, e a reproduzimos para que não haja dúvidas, pois se trata de um conceito d’O capital que aparece apenas nos livros II e III:
“Mas cada capital separadamente não é mais do que fração
autônoma, dotada por assim dizer de vida individual, mas componente do conjunto do capital social, do mesmo modo que cada capitalista isolado é apenas elemento individual da classe capitalista. O movimento do capital social consiste na totalidade dos movimentos de suas frações dotadas de autonomia, na totalidade das rotações dos capitais individuais” (C. II, III, p. 399).
“Os capitalistas dos diferentes ramos, ao venderem as mercadorias, recobram os valores de capital consumidos para produzi-las, mas a mais-valia (ou lucro) que colhem não é a gerada no próprio ramo com a respectiva produção de mercadorias, e sim a que cabe a cada parte alíquota do capital global, numa repartição uniforme da mais-valia (ou lucro) global produzida, em dado espaço de tempo, pelo capital global da sociedade em todos os ramos. (…) Aqui, do ponto de vista do lucro, os capitalistas são vistos como simples acionistas de uma sociedade anônima em que os dividendos se repartem segundo percentagem uniforme, só se distinguindo os dividendos correspondentes a cada capitalista p e l a m a g n i t u d e d o c a p i t a l q u e c a d a u m c o l o c o u n o empreendimento comum, pela participação percentual que tem na empresa, pelo número de ações que possui” (C. III, IV, p.
211-212).
Assim sendo, pensamos que um estudo sobre o proletariado, ao propor classificações, deve se ater aos critérios objetivos das relações dos trabalhadores com o processo criador de mais- valia, tanto em face de cada capital isolado quanto em face do capital em seu conjunto. Esta distinção, esperamos, provará a sua importância cabal nas questões mais polêmicas. Por ora, não nos esqueçamos que a sociedade capitalista é uma sociedade voltada para a produção de valor excedente, e não para a produção de utilidades concretas. Pensar o proletariado na sua localização social e nas suas frações demanda, assim, que tomemos em conta as diferentes maneiras pelas quais o trabalho é incorporado na produção e na circulação do valor. Este é um
primeiro momento da análise, e que reputamos determinante.
Passemos, pois, à nossa proposta de classificação:
Proletariado da produção: seu trabalho é sempre produtivo, tanto para o capitalista imediato quanto para o capital social total, gerando mais-valia nos setores que atua e no interior de uma divisão técnica do trabalho (“trabalhador coletivo”). A mais-valia que ele cria é a substância de toda a riqueza que opera na sociedade capitalista, inclusive dos salários dos trabalhadores improdutivos. Compreende-se aqui uma noção ampliada de indústria: não só a produção material diretamente, como nas fábricas, usinas, canteiros de obras etc., mas também a produção imaterial (indústria dos serviços) e os processos econômicos que são uma extensão da produção, como embalagem, transporte, logística etc. Corresponde à classe operária, cujo núcleo duro (“os grandes batalhões”) encontra-se nas concentrações fabris – trataremos deste setor como uma fração (ou “subfração”) à parte no próximo item. Importante destacar aqui que se trata de um proletariado da produção pelo fato de produzir mais-valia, e não de produzir bens materiais.
Proletariado da circulação: seu trabalho é improdutivo para o capital social total, na medida em que não produz mais-valia, apenas faz os valores circularem (agem na “metamorfose das mercadorias”), e produtivo (em sentido fraco) para o capitalista imediato, pois permite que este embolse uma parte da mais-valia gerada na produção – sendo esta a fonte primária do lucro comercial. Compreende as atividades que se separam do processo produtivo e que representam custos de circulação para o capital produtivo, como o comércio e os serviços financeiros (a publicidade figurava no mesmo ramo até se destacar como uma indústria de serviços). Corresponde ao que seria uma
“periferia” dos trabalhadores produtivos em sentido forte, da mesma forma que a circulação é uma “periferia” da produção.
Sua exploração se dá pela diferença entre o seu salário (que corresponde ao valor de sua força de trabalho) e os ganhos que permite que a empresa receba. Ressalte-se que os trabalhadores
do setor financeiro, a despeito de comporem, formalmente, o setor de serviços, integram o proletariado da circulação, pois são parte não de um capital produtivo, mas sim de um capital que vive da circulação (o capital portador de juros).
Subproletariado: seu trabalho é improdutivo para o seu empregador imediato (que pode ser um proletário, inclusive), na medida em que constitui um custo remunerado com renda, ou seja, seu pagamento não corresponde a dispêndio de capital variável (sua força de trabalho é consumida improdutivamente).
Simultaneamente, é produtivo para o capital social total, pois reduz os custos de reprodução da força de trabalho para a classe capitalista como um todo, potencializando a mais-valia social. Corresponde ao trabalhador doméstico (ou melhor, às trabalhadoras domésticas), e que é explorado não pelo empregador imediato, e sim pela totalidade do capital, que adquire vantagem ao se desonerar dos serviços domésticos de reprodução da mercadoria força de trabalho. O capital
“ s u b c o n t r a t a ” t a c i t a m e n t e ( d a í p r o p o r m o s o t e r m o subproletariado com esta acepção) o trabalho doméstico, seja de modo gratuito, no caso das “donas de casa”, seja a custo precário, no caso das empregadas domésticas (diaristas ou mensalistas). No caso brasileiro, esse tipo de trabalho encontra-se hipertrofiado, ainda que em declínio recente, sendo que esta hipertrofia remonta à inserção tardia do proletariado negro (em relação aos imigrantes europeus) nos principais ramos da indústria e à constituição, desde os primórdios do capitalismo nacional, de um exército industrial de reserva esmagadoramente composto por afrodescendentes.
A classe operária
O tema da classe operária merece uma seção à parte. Por classe operária, entendemos uma fração do proletariado da produção (ou, paralelamente, uma subfração do proletariado em geral) que se caracteriza pela submissão aos processos de trabalho típicos das fábricas, ou seja, centrados no maquinário.
Sob o prisma do valor, ou ainda, do trabalho produtivo, ela não se diferencia, em princípio, das demais categorias do proletariado da produção. Tal como elas, o operariado é criador de mais-valia e, portanto, produtivo em sentido forte – para o capital que o explora e para o conjunto do capital.
Resta buscar sua peculiaridade, portanto, no processo de trabalho. Para Marx, o trabalhador da fábrica é aquele que está sujeito de modo mais intenso ao poder do capital no processo de produção. Afirma que, enquanto na época da manufatura, pré-fabril, o operário se servia das máquinas, com as fábricas isto muda: é o maquinário do complexo fabril que se serve do operário, que o transforma em apêndice da máquina.
Este é o ápice daquilo que Marx denominou subsunção real do trabalho ao capital: o trabalhador, nestas condições, sofre a máxima opressão pelo capital no processo produtivo, e é também por isto que o capitalista dele retira mais-valia relativa de modo qualificado. Por conta da maquinaria e dos avanços técnicos, o operariado é aquele que fornece a maior quantidade de mais-valia em relação ao valor de sua própria força de trabalho. O tempo que ele gasta produzindo o equivalente à própria força de trabalho é ínfimo – hoje em dia quase infinitesimal –, ensejando um nível brutal de exploração.
Objetivamente, isto é, pela óptica da taxa de mais-valia, o operário da fábrica é muito mais explorado do que muitos proletários mal remunerados e em regime contratual precário (como é o caso dos serventes terceirizados, por exemplo).
Note-se que, mesmo dentro da classe operária, há variações em termos de intensidade da subsunção real do trabalho ao capital. Os operários da construção civil estão menos subsumidos que os petroleiros, os quais, por sua vez, estão atrás dos metalúrgicos nesta gradação. O nível de dependência do processo de trabalho em face do maquinário corresponde ao nível de subsunção do trabalho ao capital, e o significado desta constatação é muito mais social do que técnico, pois indica o grau de investimento capitalista sobre os setores da
economia e as possibilidades de captura de mais-valia relativa.
Nesta ordem de considerações, consideramos que a aposta estratégica do marxismo clássico na classe operária continua pertinente. Não por uma questão numérica (importa pouco, para a análise, se este setor é mais ou menos numeroso que as demais frações), mas pelo fato de que é nas fábricas que se gera a maior parte da mais-valia que opera na sociedade (e que alimenta a acumulação comercial e financeira). Também se coleta valor excedente nas outras frações do proletariado da produção, mas é nos complexos fabris que o montante gerado é maior, e isto graças às técnicas avançadas de extorsão de mais-valia relativa, e que repousam fundamentalmente no maquinário. Aliás, foi a subsunção real da classe operária ao capital que, ao elevar a produtividade, diminuiu a proporção numérica deste setor no interior do proletariado, deslocando um contingente populacional para outros ramos da economia.
Cumpre perceber, pois, que é o maquinário fabril que potencializa economicamente o trabalho do operário, e não o seu caráter coletivo e concentrado. O trabalho coletivo em unidades concentradas não se resume à classe operária:
encontramo-lo hoje até mesmo no comércio e nos serviços. A fábrica, com o seu sistema de máquinas, é muito mais eficiente na coleta de mais-valor do que as demais unidades produtivas.
E mais: foi apenas com a formação da classe operária a partir da moderna indústria capitalista que o capitalismo, enquanto modo de produção, alcançou o seu máximo desenvolvimento. Na medida em que introdução da maquinaria em certos ramos da indústria fomenta a instalação de maquinário nos ramos associados (MARX, 1978, p. 67), percebe-se que a produção fabril inspira e dirige toda a organização social do trabalho, disseminando as suas determinações mais gerais. Nos dias de hoje, vemos como este processo amadureceu, atingindo até mesmo o campo, onde a subsunção real do trabalho ao capital transforma grandes contingentes de assalariados rurais em
autênticos operários agrícolas, em trabalhadores submetidos à disciplina da máquina. E vemos ainda esse regime de controle de produtividade ser estendido mesmo para os setores onde não há produção de valor.
Em suma, se a fonte mais abundante de mais-valia e se o arquétipo da organização do trabalho no capitalismo vêm das fábricas (ou das unidades produtivas que a elas se assemelham), é indispensável que os(as) revolucionários(as) marxistas busquem se inserir nelas, visando dirigir politicamente a fração do proletariado localizada mais estrategicamente na produção capitalista.
Evidentemente, também deve ser levado em conta o papel que o operariado tem a desempenhar na transição socialista. Afinal, se a mais alta produtividade interessa ao capital para sugar uma maior quantidade de mais-valia, ela também interessa ao socialismo como meio de garantir o melhor abastecimento possível da coletividade em termos de valores de uso produzidos. A sobrevivência de uma sociedade socialista depende, além da expansão internacional do processo revolucionário, do controle dos principais meios de produção, daqueles que se mostrarem mais capazes de satisfazer as necessidades sociais. Roman Rosdolsky, não por acaso, citava a maquinaria moderna como condição necessária para a construção de uma sociedade sem classes:
Graças ao desenvolvimento da técnica moderna, estão finalmente dadas – pela primeira vez – as condições para suprimir total e definitivamente o “roubo do tempo de trabalho alheio”; agora – pela primeira vez – podem ser impulsionadas tão poderosamente as forças produtivas da sociedade que, de fato, e em um futuro não muito longínquo, a medida da riqueza social não será mais o tempo de trabalho, mas o tempo disponível. Até o presente, todos os métodos para elevar a produtividade do trabalho humano revelaram-se ao mesmo tempo, na prática capitalista, métodos de degradar, subordinar e despersonalizar cada vez mais o trabalhador. Hoje, o desenvolvimento técnico chegou a
um ponto no qual os trabalhadores poderão finalmente libertar- se da “serpente dos seus tormentos”, da tortura sem fim do trabalho cansativo, monótono e fragmentado, para se converterem de meros apêndices a verdadeiros dirigentes do processo de produção. Nunca estiveram tão maduras as condições para uma transformação socialista da sociedade, nunca o socialismo foi tão imprescindível e economicamente viável (ROSDOLSKY, 2001, p. 356).
Conclusão
Pode-se resumir a proposta que apresento no quadro abaixo:
Produtivo em sentido forte
Produtivo em sentido fraco Proletariado da
produção Sim Não
Proletariado da
circulação Não Sim
Subproletariado Não Sim
Para o empregador
Para o capital social total Proletariado da
produção Sim Sim
Proletariado da
circulação Sim Não
Subproletariado Não Sim
Se nossa abordagem estiver correta, há de se reconhecer que i) a principal clivagem no proletariado, em termos de fração, é dada pela produção e pela circulação do valor na economia capitalista; ii) no tocante à produção da mais-valia, a classe operária ocupa posição de destaque, sendo o coração pulsante
da valorização capitalista global e, portanto, o ponto mais sensível da exploração e da luta de classes a ela associada (mesmo que o operariado não se coloque em movimento em todas as conjunturas).
Referências bibliográficas
MARX, K. O capital: crítica da economia política: l. II, v.
III, 12.ª ed. Tradução de Reginaldo Sant’Anna. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 2008.
______. O capital: crítica da economia política: l. III, v.
IV. Tradução de Reginaldo Sant’Anna. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 2008.
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Tradução de Reginaldo Sant’Anna. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008.
______. O capital: livro I, capítulo VI (inédito). Tradução de Eduardo Sucupira Filho. São Paulo: Livraria Editora Ciências Humanas, 1978.
ROSDOLSKY, R. Gênese e estrutura de O capital de Karl Marx.
Tradução de César Benjamin. Rio de Janeiro: EDUERJ;
Contraponto, 2001.
O conceito de trabalho produtivo em Marx
André Coutinho Augustin
Um dos conceitos centrais que Marx usa para explicar o modo de produção capitalista é o de trabalho produtivo. No entanto, ele também é alvo de grandes polêmicas entre os marxistas.
Para entender o que é trabalho produtivo para Marx é preciso antes deixar claro que esse é um conceito criado para explicar o que é trabalho produtivo no capitalismo, ou seja, é um conceito que possui um caráter social e histórico. Quando o processo de trabalho é analisado “em abstrato, independente de suas formas históricas, como processo do homem com a natureza”
[1], pode parecer que o trabalho produtivo é aquele que produz valores de uso. Essa é a visão inicialmente apresentada no capítulo V do livro I d’O Capital:
“Para representar seu trabalho em mercadorias, ele tem de representá-lo, sobretudo, em valores de uso, em coisas que sirvam para satisfazer as necessidades de alguma espécie. É, portanto, um valor de uso particular, um artigo determinado, que o capitalista faz o trabalhador produzir. A produção de valores de uso ou bens não muda sua natureza geral por se realizar para o capitalista e sob seu controle. Por isso, o processo de trabalho deve ser considerado de início independente de qualquer forma social determinada. [2]
[…]
Considerando-se o processo inteiro de trabalho do ponto de vista de seu resultado, então aparecem ambos, meio e objeto de trabalho, como meios de produção, e o trabalho mesmo como trabalho produtivo.” [3]
Mas logo após esse trecho, o leitor é alertado, em uma nota de rodapé, que “essa determinação de trabalho produtivo, tal como resulta do ponto de vista do processo simples de trabalho, não b a s t a , d e m o d o a l g u m , p a r a o p r o c e s s o d e p r o d u ç ã o capitalista”. Ou seja, embora a produção de valores de uso seja necessária para que um trabalho seja considerado produtivo, ela não é suficiente para classificar um trabalho
como tal no capitalismo. O assunto é retomado no capítulo XIV (Mais-valia absoluta e relativa) do mesmo livro. Quando se considera a produção capitalista,
“o conceito de trabalhador produtivo se estreita. A produção capitalista não é apenas a produção de mercadorias, é essencialmente a produção de mais-valia. O trabalhador produz não para si, mas para o capital. Não basta, portanto, que produza em geral. Ele tem que produzir mais-valia. Apenas é produtivo o trabalhador que produz mais-valia para o capitalista ou serve à autovalorização do capital.” [4]
É sabido que a mercadoria é uma unidade dialética entre valor (que se manifesta como valor de troca) e valor de uso. Embora em formas não capitalistas de organização social o objetivo da produção possa ser a criação de valores de uso, uma das características principais do capitalismo é que a produção é voltada para a criação de valor[5]. E é importante lembrar que o valor de uso da mercadoria força de trabalho nesse sistema é justamente criar valor. Portanto, a definição de trabalho produtivo não está relacionada ao trabalho concreto (que produz valor de uso), mas ao trabalho abstrato, pois é o trabalho abstrato que cria valor e, consequentemente, pode criar mais-valia. Ou seja, produtivo é aquele trabalho que é produtivo do ponto de vista do capital, pois o valoriza. São duas coisas diferentes que não devem ser confundidas:
“Sólo la estrechez mental burguesa, que considera las formas de producción capitalistas como formas absolutas – y, por lo tanto, como formas de producción eternas – puede confundir el problema de qué es el trabajo productivo desde el punto de vista del capital con el problema de cuál trabajo es productivo en general”.[6]
Isso significa que não é possível criar outra definição de trabalho produtivo, baseada no trabalho concreto? Não, significa apenas que essa não é a definição de Marx. Pode ser
útil para algum autor, com outras preocupações, criar uma definição baseada no conteúdo material do trabalho. Mas é preciso ter claro que seria um conceito diferente, baseado em outra concepção teórica e outros objetivos. Nas palavras de Rubin,
“não perguntamos se a definição de Marx sobre trabalho produtivo, baseada na análise da forma social do trabalho, é correta, ou se são corretas as definições convencionais dos t r a t a d o s d e E c o n o m i a P o l í t i c a , b a s e a d a s n a
“indispensabilidade”, na “utilidade”, no “caráter material”
do trabalho, ou em seu papel no consumo pessoal e produtivo.
[…] Afirmamos apenas que a concepção de Marx é diferente dessas concepções convencionais, e não está compreendida nas mesmas”. [7]
No mesmo parágrafo citado anteriormente, em que diz que
“apenas é produtivo o trabalhador que produz mais-valia para o capitalista ou serve à autovalorização do capital”, Marx cita um exemplo que deixa claro que seu critério não é baseado no trabalho concreto, ou seja, o importante não é o resultado material da produção:
“Se for permitido escolher um exemplo fora da esfera da produção material, então um mestre-escola é um trabalhador produtivo se ele não apenas trabalha a cabeça das crianças, mas extenua a si mesmo para enriquecer o empresário. O fato de que este último tenha investido seu capital numa fábrica de ensinar, em vez de numa fábrica de salsichas, não altera nada na relação. O conceito de trabalho produtivo, portanto, não encerra de modo algum apenas uma relação entre atividade e efeito útil, entre trabalhador e produto do trabalho, mas também uma relação de produção especificamente social formada historicamente, a qual marca o trabalhador como meio direto de valorização do capital”. [8]
Nem todo professor é produtivo: um professor de uma escola
pública faz o mesmo trabalho concreto que um professor de uma escola privada. O trabalho do primeiro, entretanto, não valoriza o capital, enquanto o segundo o faz. Portanto, o professor da escola pública é improdutivo, enquanto o professor da escola privada é produtivo[9].
Um dos motivos que leva a interpretações equivocadas sobre o trabalho produtivo é a confusão que se faz em relação ao conceito de capital industrial. Para Marx, capital industrial é aquele que passa pelo processo D – M {MP; FT} …P… M’ – D’.
Ou seja, é o capital investido por um capitalista na compra das mercadorias força de trabalho (capital variável) e meios de produção (capital constante). Após essa primeira etapa, de circulação, acontece o processo de produção, no qual uma nova mercadoria, M’, é produzida. M’ é levada ao mercado, entrando na esfera da circulação, e é vendida por D’ [10]. Nesse processo, o trabalho transfere o valor do capital constante para a nova mercadoria, reproduz o valor do capital variável e, além disso, produz um mais-valor, a diferença entre D’ e D, que é apropriado pelo capitalista. Qualquer capital que passe por esse processo, é chamado de capital industrial:
“As duas formas que o valor-capital adota dentro de suas fases de circulação são as de capital monetário e capital- mercadoria; sua forma correspondente à fase de produção é a de capital produtivo. O capital que no transcurso do seu ciclo global adota e volta a abandonar essas formas, e em cada uma cumpre a função que lhe corresponde, é o capital industrial – industrial, aqui, no sentido de que abarca todo ramo de produção capitalista.” [11]
Marx deixa claro que o capital industrial não se restringe ao sentido estrito de indústria (setor secundário), mas a todos os setores que produzem de forma capitalista, podendo ser também agricultura e serviços. E diz que é produtivo aquele trabalhado empregado pelo capital industrial na produção, ou seja, aquele trabalho que se converte diretamente em capital
variável: “a diferença entre o trabalho produtivo e o improdutivo consiste tão somente no fato de o trabalhado trocar-se por dinheiro como dinheiro ou por dinheiro como capital”[12]. Portanto, todo trabalho que se converte em capital variável durante a produção de mercadorias agrícolas, industriais ou de serviços e, com isso, valoriza o capital é trabalho produtivo. A diferença dos serviços é que o seu consumo acontece ao mesmo tempo que a produção. Ou seja, o ciclo D – M {MP;FT} …P… M’ – D’ se transforma em D – M {MP;
FT} …P – D’. Mas isso não altera o modo como se valoriza o capital, como explica Marx usando o exemplo dos transportes:
“Existem, porém, ramos autônomos da indústria, nos quais o produto do processo de produção não é um novo produto material, não é uma mercadoria. Entre eles, economicamente importante é apenas a indústria da comunicação[13], seja ela indústria de transportes de mercadorias e pessoas propriamente dita, seja ela apenas transmissão de informações, envio de cartas, telegramas etc. […] O efeito útil só é consumível durante o processo de produção; ele não existe como uma coisa distinta desse processo […] Mas o valor de troca desse efeito útil é determinado, como o das demais mercadorias, pelo valor dos elementos de produção consumidos para obtê-lo (FT e MP) somados à mais-valia, criada pelo mais-trabalho dos trabalhadores empregados na indústria do transporte.”[14]
O caso dos transportes pode gerar algumas confusões, afinal, foi dito que o trabalho produtivo é usado na produção. Mas o transporte não faz parte da circulação? A resposta para essa dúvida pode ser encontrada no livro II d’O Capital, que trata do processo de circulação do capital, mais especificamente no capítulo VI, sobre os custos de circulação. Nesse capítulo, Marx divide os custos de circulação em dois grupos. No primeiro, estão incluídos os “custos puros de circulação”
como, por exemplo, os custos envolvidos na compra e na venda de mercadorias. Essa etapa não cria valor, apenas muda a forma
do capital. É onde o capital-mercadoria se transforma em capital monetário, permanecendo com o mesmo valor. Portanto, o trabalho efetuado na compra e na venda é improdutivo. Se esse processo é realizado pelo mesmo capitalista responsável pela produção ou por outro capitalista, isso não altera o caráter improdutivo do trabalho ali empregado.
O capitalista responsável pelos custos puros de circulação pode ter lucro, mas isso não significa que está sendo gerada mais-valia. Na verdade, ele está se apropriando de uma parte da mais-valia gerada na produção. Em outras palavras, “o tempo empregado nisso é um custo de circulação que nada agrega aos valores convertidos. É o custo necessário para transpô-los da forma-mercadoria para a forma-dinheiro” [15]. Isso não significa que esse trabalho não ajude, indiretamente, a valorizar o capital:
“O capital comercial não cria, portanto, nem valor nem mais- valia, isto é, não diretamente. À medida que contribui para encurtar o tempo de circulação, pode ajudar a aumentar indiretamente a mais-valia produzida pelo capitalista industrial. À medida que ajuda a ampliar o mercado e medeia a divisão do trabalho entre os capitais, portanto capacita o capital a trabalhar em escala mais ampla, sua função promove a produtividade do capital industrial e sua acumulação. À medida que encurta o tempo de circulação, eleva a proporção de mais-valia para o capital adiantado, portanto a taxa de lucro. À medida que reduz a parte do capital confinada na esfera da circulação, faz aumentar a parte do capital diretamente empregada na produção”.[16]
O segundo custo puro de circulação citado por Marx é a c o n t a b i l i d a d e , i n c l u i n d o n ã o a p e n a s o t r a b a l h o n a contabilidade, mas também “caneta, tinta, papel, escrivaninha, custos de escritório” [17]. O trabalho na contabilidade é tão improdutivo quanto o na compra e venda, com a diferença que o segundo é necessário em qualquer forma de produção de
mercadorias, enquanto o primeiro ganha importância quando a produção “perde seu caráter puramente individual; é, portanto, mais necessária na produção capitalista do que na produção dispersa do empreendimento artesão e camponês, mais necessária na produção comunitária do que na capitalista”[18]. Embora Marx diga explicitamente que o trabalho na contabilidade é improdutivo, não fica claro se ele está se referindo a todo trabalho contábil ou apenas aquele referente à circulação.
Rubin, que diz que essa passagem d’O Capital se caracteriza por sua “extrema obscuridade”, considera que se o trabalho de contabilidade estiver relacionado à produção é produtivo: “o trabalho do contador só é improdutivo quando realiza a metamorfose formal do valor – a transferência do direito de propriedade do produto, o ato de compra e venda em sua forma ideal” [19]. Já para Singer, “está claro que, na concepção de Marx, a contabilidade é, em si mesma, improdutiva” [20], embora necessária. Isso se aplicaria a todo trabalho de contabilidade, não apenas à contabilidade na circulação, como diz Rubin. Para resolver essa questão, é necessário analisar o conceito de trabalhador coletivo de Marx, que será apresentado mais adiante.
O último custo puro de circulação citado é o dinheiro, pois
“essas mercadorias que funcionam como dinheiro não entram no consumo individual nem no produtivo. São trabalho social fixado numa forma em que serve como mera máquina de circulação” [21]. Logo, o trabalho gasto na produção e na constante reposição do dinheiro é improdutivo.
Os três custos de circulação expostos até agora (os custos puros de circulação), relacionados à mera mudança na forma do valor, não entram no valor da mercadoria. Mas esse não é o caso do segundo grupo de custos de circulação, onde estão incluídos os custos de conservação e de transporte. Esse segundo grupo é formado por atividades que, embora estejam dentro da circulação, são processos de produção: “indústria dos transportes, armazenamento e distribuição das mercadorias
– numa forma em que podem ser distribuídas – devem ser considerados como processos de produção que persistem dentro do processo de circulação”[22].
A função pura da circulação é transferir o direito de propriedade de uma pessoa para a outra. “É uma transição ideal ou formal, não real” [23]. Já o transporte e a conservação das mercadorias são uma “função real”, fazem parte da produção.
Isso não significa que os dois tipos de função não possam ser feitos pela mesma empresa ou até pela mesma pessoa: “o trabalho do vendedor numa loja serve à função real de conservação, desempacotamento, empacotamento, transporte, etc., e às funções formais de compra e venda” [24]. Rubin ressalta que o critério não é que as “funções reais” produzam modificações nos bens materiais e as “funções formais” não.
Ele dá o exemplo do circo, onde o palhaço, apesar de não produzir modificações em bens materiais, é um trabalhador produtivo, pois é empregado pelo capital em fase de produção, enquanto o bilheteiro do mesmo circo é improdutivo, pois está em uma atividade da circulação, “contribui apenas para transferir o ‘direito de assistir espetáculo’, o direito de gozar as pilhérias do palhaço, de uma pessoa (empresário) para outra (o público)”[25].
Assim, só é produtivo aquele trabalhador que atua na produção, incluindo os processos de produção que acontecem no interior da circulação. Mas todos os trabalhadores envolvidos na produção são produtivos? Alguns autores consideram que só são produtivos aqueles que agem diretamente alterando o valor de uso da mercadoria, os demais seriam improdutivos. Um exemplo d e s s a p o l ê m i c a é o j á c i t a d o c a s o d o t r a b a l h o n a contabilidade. O conceito de trabalhador coletivo apresentado por Marx deixa mais clara essa questão:
“com o desenvolvimento da subsunção real do trabalho ao capital ou do modo de produção especificamente capitalista, não é o operário industrial, mas uma crescente capacidade de trabalho socialmente combinada que se converte no agente
(Funktionär) real do processo de trabalho total, e como as diversas capacidades de trabalho que cooperam e formam a máquina produtiva total participam de maneira muito diferente no processo imediato da formação de mercadorias, ou melhor, dos produto – este trabalha mais com as mãos, aquele trabalha mais com a cabeça, um como diretor (manager), engenheiro (ergineer), técnico etc, outro, como capataz (overloocker), um outro como operário manual direto, ou inclusive como simples ajudante –, temos que mais e mais funções da capacidade de trabalho se incluem no conceito imediato de trabalho produtivo, e seus agentes no conceito de trabalhadores produtivos, diretamente explorados pelo capital e subordinados em geral a seu processo de valorização e produção. Se se considera o trabalhador coletivo, de que a oficina consiste, sua atividade combinada se realiza materialmente (materialiter) e de maneira direta num produto total que, ao mesmo tempo, é um volume total de mercadorias;
é absolutamente indiferente que a função de tal ou qual trabalhador – simples elo desse trabalho coletivo – esteja mais próxima ou mais distante do trabalho manual direto.”[26]
Considerando o trabalhador coletivo, portanto, não importa se o trabalho é manual ou não, se age diretamente mudando o valor de uso da mercadoria ou não. Participando do processo de produção e gerando mais-valia, será trabalho produtivo.
E os produtores que trabalham com seus próprios meios de produção, os camponeses e os artesãos? Seriam produtivos ou improdutivos? A resposta de Marx é: nem um nem outro, já que sua produção não participa do modo capitalista de produção. Se o trabalho produtivo se troca como “dinheiro como capital” e o trabalho improdutivo se troca por “dinheiro como dinheiro”, camponeses e artesãos não se enquadram em nenhuma das duas possibilidades, pois eles não vendem trabalho, vendem mercadorias.
Referências bibliográficas
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RUBIN, Isaak Illich (1980). A teoria marxista do valor. São Paulo: Brasiliense.
SINGER, Paul (1981). Trabalho produtivo e excedente. Revista de Economia Política, v. 1, n. 1, p. 101-131, janeiro/março.
[1] MARX, 1984, p. 105.
[2] Id., 1983a, p. 149 [3] Ibid., p. 151.
[4] Id., 1984, p. 105. Em todas as citações, os grifos em itálico são originais dos autores e os em negrito são meus.
[5] Isso não significa que não se produza valores de uso. Pelo contrário, a produção de valores de uso é uma condição prévia
para a produção de valor: “nenhuma coisa pode ser valor, sem ser objeto de uso. Sendo inútil, do mesmo modo é inútil o trabalho nela contido, não conta como trabalho e não constitui qualquer valor.” (MARX, 1983a, p. 49).
[6] Id., 1974, p. 332.
[7] RUBIN, 1980, p. 293.
[8] MARX, 1984, p. 105-106.
[9] “De lo que se ha dicho se sigue que la designación del trabajo como trabajo productivo nada tiene que ver con el contenido determinado del trabajo, su utilidad especial, o el valor de uso particular que se manifiesta. El mismo tipo de trabajo puede ser productivo o improductivo”. (MARX, 1974, p.
339).
[10] No nível de abstração do livro II, supõe-se que as mercadorias são vendidas por seus valores. E mesmo se os preços divergirem dos valores, em nada se altera a análise do que é trabalho produtivo ou capital industrial.
[11] MARX, 1983b, p. 41.
[12] Id., 1978, p. 79.
[13] Marx não nega que existam outros ramos na mesma situação.
Apenas diz que, na sua época, eles não eram importantes. Isso não impede que outros ramos, que adquiriram importância nesses últimos 150 anos, estejam incluídos no mesmo caso da indústria de comunicação.
[14] Id., 1983b, p. 42-43.
[15] Ibid., p. 97.
[16] Id., 1986, p. 211-212.
[17] Id., 1983b, p. 98.
[18] Ibid., p. 99.
[19] RUBIN, op. cit., p. 291.
[20] SINGER, 1981, p. 102.
[21] MARX, op. cit., p. 99.
[22] Id., 1986, p. 203.
[23] RUBIN, op. cit., p. 289.
[24] Ibid., p. 289.
[25] Ibid., p. 188.
[26] MARX, 1978, p. 71-72.