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THOMAS HOBBES E OS ELEMENTOS CONSTITUTIVOS DE UM ESTADO DE PAZ

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Academic year: 2021

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THOMAS HOBBES E OS ELEMENTOS CONSTITUTIVOS DE UM 

ESTADO DE PAZ 

 

 

 

  Resumo 

O  objetivo  desse  estudo  é  apresentar  as  contribuições  do  pensamento  de  Thomas  Hobbes  acerca  dos  elementos  constitutivos  de  um  Estado  de  paz.  Para  tanto,  procura‐se  demonstrar como a ética e a razão, vinculadas, conduzem a  conclusão  de  que  o  estado  civil  é  a  melhor  forma  para  a  preservação da vida e consequentemente, gerar e manter a  paz.  O  estado  surge  como  possibilidade  mais  evidente  de  fuga  da  situação  natural  de  instabilidade.  Abrimos  mão  de  nossas  capacidades  de  auto  conservação,  de  autodefesa  e  delegamos ao Estado, constituído através de um contrato, a  tarefa  de  cuidar  de  nossa  segurança  e  assegurar  que  possamos  viver  civilizadamente.  Assim  a  ética  compreendida  como  análise  dos  movimentos  internos  da  mente,  isto  é,  uma  teoria  das  paixões,  será  abordada  na  forma  de  instrumento  político,  isto  é,  enquanto  colaboradora  da  instituição  do  poder  soberano,  que  se  reveste de autoridade para a obtenção de paz e obediência.  Nesse  sentido,  é  que  se  pode  derivar  do  pensamento  de  Hobbes  uma  educação  volta  à  paz;  uma  educação  que  se  alicerça pelo governo do poder político.    Palavras‐chave: Thomas Hobbes, ética, educação, paz,  estado      Francieli Constantini  Universidade Federal de Santa Catarina  francieli‐[email protected]           

 

 

 

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Introdução 

Faz‐se necessário, no contexto atual, refletir sobre os valores, as regras sociais e  políticas,  os  direitos,  as  liberdades  e  muitos  outros  conceitos  que  fundamentam  nossa  sociedade.  Nessa  prerrogativa,  a  reflexão  filosófica  acerca  da  política,  torna‐se  um  importante instrumento de auxílio à nossa educação enquanto cidadãos nos fornecendo  uma base para o exercício da cidadania. Do momento histórico em que vivemos emergem  importantes  questões  que  exigem  atenção  à  sua  complexidade  e  a  abertura  para  se  refletir possíveis soluções. A natureza e a causa dos conflitos, tanto entre seres humanos,  quanto entre Estados, é um assunto presente no transcorrer da história da filosofia, que  alcança até os dias atuais, escopo de problemáticas, críticas e reflexões. 

Embora  todos  os  avanços  já  realizados  pela  humanidade,  principalmente  em  relação  ao  progresso  científico  e  tecnológico,  há  ainda  lacunas  e  incertezas  quanto  às  questões  relativas  à  vida  humana  em  sociedade.    Problemas  como  a  paz,  justiça,  bem‐ estar social são ainda objeto de estudos e reflexões, haja vista que, a ação humana e os  conflitos que dela derivam são fundamento da maioria dos problemas sociais e políticos  evidenciados, sendo a guerra e a violência seu principal subproduto. Uma coisa é certa;  nenhuma  teoria  conseguirá  resolver  todos  os  aspectos  dos  problemas  ético‐político‐ educacionais,  entretanto  elas,  ainda  são  o  melhor  caminho,  pois  oferecem  a  base  para  que  se  possam  encontrar  os  meios  necessários  à  paz  e  para  uma  sociedade  mais  igualitária. Nessa perspectiva a filosofia prática de Thomas Hobbes, dividida entre ética e  política,  que  tem  por  finalidade  a  busca  da  felicidade  e  do  bem  comum  tanto  na  esfera  pública quanto privada, é uma grande aliada no enfrentamento de questões essenciais da  vida social e humana. 

Falar  de  ética,  então,  implica  abordar  questões  relevantes  no  que  concerne  a  construção da ordem política e como ela se relaciona com a conduta dos indivíduos que a  compõem.  Trata‐se  de  investigar  em  que  medida  à  obediência  as  autoridades  e  as  leis  civis, condições para os indivíduos viverem em paz e também num estado de bem‐estar  social, é compatível com a ética, centrada na procura da felicidade. 

Nesse enfoque, busca‐se analisar as contribuições de Hobbes, principalmente em  seus  escritos  “Leviatã”  e  “De  Cive”  para  o  campo  da  paz.  Trata‐se  de  analisar,  não  de 

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forma  minuciosa  e  profunda  os  escritos  hobbesiano  acerca  da  paz,  mas,  sobretudo  ressaltar as bases relevantes, para a construção de uma cultura da paz.   

 Ética: ciência das consequências das paixões 

Considerando que a busca da paz é o fim último do Estado político hobbesiano, e  que grande parte das controvérsias entre os indivíduos desde o estado de natureza até  no  estado  civil,  provém  de  opiniões  divergentes  sobre  a  terminologia  da  moral/ética,  é  preciso,  para  almejar  a  paz,  que  a  definição  dos  conceitos  morais  seja  feita  de  forma  cuidadosa e precisa. Pois enquanto houver disputas, principalmente sobre o que se pode  considerar justo ou injusto, não haverá paz. 

Hobbes classifica a ética1 a partir da ciência relativa ao conhecimento dos corpos 

naturais,  que  se  classificam  em:  naturais  e  artificiais.  A  ética  está  inserida  no  ramo  da  ciência  natural  que  investiga  as  consequências  das  qualidades  dos  homens,  o  qual,  por  sua vez, é dividido em outros dois: a ciência das consequências das paixões, a ética, e a  ciência das consequências da linguagem, a saber, a poesia, a retórica, a lógica e a ciência  do justo e do injusto. A política, nessa mesma classificação, encontra‐se no outro ramo da  ciência  que  investiga  as  consequências  dos  corpos  artificiais.  Assim,  nota‐se  ao  observador que há uma clara separação em Hobbes, entre ética e política, contrariando  uma longa tradição que, desde Platão e Aristóteles vinculava essas duas áreas do saber.  Ao  colocar  a  ética  e  a  política  em  ramos  diferentes  da  ciência,  o  filósofo  elucida  que  as  mesmas  se  dedicam  a  objetos  de  estudos  diferentes.  Se  do  ponto  de  vista  do  princípio  metodológico elas não diferem por ser “o conhecimento das consequências” (HOBBES,  2003,  p.73),  isto  é  ciências,  do  ponto  de  vista  do  objeto  elas  se  afastam  radicalmente.  Assim  a  ética,  é  o  conhecimento  das  consequências  dos  acidentes  dos  homens,  mais  precisamente dos acidentes internos da mente, ou seja, das paixões.  

Seguindo  essa  classificação,  a  ética  pode  ser  concebida  como  uma  ciência  descritiva  dos  movimentos  internos  da  mente.  Pois  são  dois  os  métodos  de  conhecimento  admitidos  por  Hobbes;  i)  aquele  que  parte  da  observação  e  chega  aos        

1 Cf. Leviatã, IX, p. 74 (quadro das ciências). Em geral, utilizamos a tradução brasileira de João Paulo 

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princípios ou causas (método analítico) e ii) aquele que parte dos primeiros princípios e  procede pela via da síntese. 

Pelo  método  analítico,  chega‐se  ao  conhecimento  dos  movimentos  da  mente  a  partir  da  experiência,  isto  é,  a  partir  da  observação  que  cada  um  pode  fazer  desses  movimentos em si mesmo; já o método sintético requer que a investigação tenha início  na filosofia primeira, que passe daí para a geometria, da geometria para a física, e chegue  finalmente à filosofia moral.  Nesse plano, fica evidente a divisão do projeto filosófico de  Hobbes,  a  saber,  de  construir  um  sistema  de  filosofia  que  parte  do  estudo  dos  corpos  naturais, passando pelo estudo das disposições e costumes do homem e terminando na  consideração sobre os deveres dos súditos. 

Nesse  plano,  o  tema  das  paixões  desempenha  um  papel  importante  no  desenvolvimento da ética e da política de Hobbes, pois segundo consta no Leviatã, elas  estão relacionadas tanto à guerra quanto à paz. A força das paixões também se faz notar  nas declarações do filósofo sobre a insuficiência da razão para controlar a ação humana.  Conforme  Hobbes,  mesmo  que  a  razão  aponte  para  a  elaboração  de  um  artificio  que  possa dar conta de limitar a violência a qual os homens estão submetidos numa condição  natural,  o  contrato  será  insuficiente  para  instaurar  uma  condição  pacifica  sem  a  instituição  de  um  soberano  dotado  de  poder  absoluto  para  usar  a  força  contra  aqueles  que não respeitam os acordos. E este poder soberano, ao usar a espada, também estará  agindo  sobre  as  paixões,  na  medida  em  que  as  ameaças  de  punição  despertam  nos  homens uma paixão fundamental para induzi‐los a paz, o medo. 

A  análise  das  paixões,  centrada  no  conceito  de  ‘conatus’2  revela  uma  teoria  que 

concebe  o  homem  submetido  a  uma  série  causal  de  eventos  sobre  a  qual  não  tem  controle, e os desejos aparecem sempre provocados pelo movimento do mundo exterior.  A teoria das paixões envolve algo mais do que a simples descrição sobre os movimentos  internos da mente. Ela produz uma análise do conceito de bem e mal, também essencial à        

2  Hobbes  usou  o  termo  conatus  principalmente  em  sentido  mecânico.  Em  De  Corpore,  o  conatus  é 

apresentado  como  um  movimento  determinado  pelo  espaço  e  pelo  tempo,  e  mensurável  numericamente.  Em  De  homine,  aparece  como  um  movimento  voluntário  ou  “paixão”  que  precede  a  ação  corporal  e  que,  embora  “interno”,  possui  determinações  e  propriedades  mecanicamente  exprimíveis (Dicionário de Filosofia, Loyola, 2004, p.518). 

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ética  hobbesiana.  No  Leviatã,  imediatamente  após  descrever  as  paixões,  o  filósofo  apresenta sua concepção sobre o bem e o mal. 

Mas, seja qual for o objeto do apetite ou desejo de qualquer homem, esse  objeto  é  aquele  a  que  cada  um  chama  bom;  ao  objeto  de  seu  ódio  e  aversão chama mau, e ao de seu desprezo chama vil e insignificante. Pois,  as palavras “bom” e "mau" e “desprezível” são sempre usadas em relação  à pessoa que as usa (HOBBES, 2003, p. 48, grifos do autor). 

 

Bem e mal então, não são definidos em si mesmos ou em relação aos objetos, mas  unicamente  em  relação  às  paixões.  Bem,  é  o  nome  dado  aos  objetos  pelos  quais  o  homem  sente  apetite,  e  mal,  aqueles  pelos  quais  sentem  aversão.  “Não  há”,  afirma  Hobbes “nada que seja simples e absolutamente, nem há qualquer regra comum do bem  e do mal que possa ser extraída dos próprios objetos” (HOBBES, 2003, p.58). Bem e mal  não são nada em si mesmos e muito menos podem ser definidos como propriedade dos  objetos. São apenas nomes que atribuímos às coisas quando as desejamos ou evitamos.  Essa  definição  de  bem  e  do  mal  é  central,  porque,  a  partir  dela,  Hobbes  pôde,  por  exemplo, descrever a condição natural da humanidade como aquela em que não há um  acordo moral sobre o qual seja possível estabelecer as bases para a convivência pacífica.  A falta dessa medida comum do bem e do mal esta também na origem das condições de  instabilidade do estado natural. 

Desse modo, tendo em vista que não há bem e mal objetivos, com base nos quais  possamos  estabelecer  as  regras  de  convivência,  é  preciso  que  tais  regras,  não  sendo  naturais ou sobrenaturais, sejam estabelecidas de maneira artificial. Da impossibilidade de  um acordo no estado de natureza devido à inexistência de uma autoridade comum, é que  Hobbes  indica  que  a  única  forma  de  se  instituir  uma  convivência  pacífica  é  a  submissão  das  vontades  individuais  á  vontade  do  soberano;  ou  seja,  se  entre  duas  pessoas  é  impossível  que  haja  acordo  a  respeito  do  bem  e  do  mal,  resta  que  ele  possa  ser  encontrado por intermédio da instituição de um árbitro que possa decidir. 

O Estado surge então, como uma restrição que o homem impõe sobre si próprio  como  forma  de  cessar  o  estado  de  guerra  de  todos  contra  todos,  a  fim  de  promover  a  humanidade  a  um  estado  de  maior  organização  e  segurança;  haja  vista  a 

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incompatibilidade da natureza humana em se instituir em sociedades onde não exista um  poder acima do poder individual. E é no próprio homem, nem tanto nas paixões como na  razão, que se encontra a saída para a guerra.  A concordância mais clara apontada pelo  filosofo  é  acerca  da  vida  e  da  morte.  Há  varias  passagens  em  que  Hobbes  aponta  que  existe concordância avaliativa em relação a elas. Pois, segundo Hobbes, ainda que bem e  mal  sejam  subjetivos,  considerados  em  virtude  das  paixões  as  quais  são  extremamente  volúveis entre os homens, todos concordam, com raríssimas exceções, que a vida é um  bem e a morte é um mal. 

Todos consideram a vida como um bem e a morte como um mal. Raras exceções 

ocorrem3. Portanto, a autopreservação, será o grande bem a ser perseguido e a morte o 

grande mal a ser evitado. Assim, é em relação à vida e a morte que todas as outras coisas  são  julgadas  como  boas  ou  más;  e  seguindo  essas  premissas,  a  conclusão  pode  muito  bem ser que aquilo que o homem avalia como bem é o que preserva a vida, e, portanto  conduz a paz. 

 

Estado de Natureza 

Em Hobbes encontramos a ideia de homem submetido desde sempre a lógica de  movimentos  naturais  e  instintivos,  gerador  de  paixões  e  desejos,  fundamentados  em  aversões  e  atrações  naturais  que  deságuam  em  posturas,  por  vezes,  denominadas  egoístas. Mas esse “egoísmo” não é senão os movimentos naturais dos corpos, que pode  ser  fomentado  em  larga  escala  a  depender  da  direção  que  o  próprio  homem  dá  à  sua  história. Hobbes é taxativo no sentido de não aceitar uma natureza humana tranquila em  que  cada  indivíduo  é  complacente  com  o  desejo  do  outro,  condescendente  com  suas  vontades e avesso ao conflito. O mecanismo físico‐biológico a que estamos submetidos  não  é  apaziguador  e  posto  que  este  homem  possa  criar  novos  e  infinitos  objetos  de  desejos,  pode  também  aumentar  em  grande  escala  os  conflitos  com  seus  semelhantes. 

      

3  Hobbes  admite  que,  em  alguns  casos,  as  pessoas  prefeririam  a  morte  a  uma  vida  de  sofrimento,  por 

exemplo, no De Cive, ele afirma que um filho preferiria a morte a cumprir uma ordem de matar seus pais  (HOBBES, 2002, DCi, VI. 13 p.108‐9). 

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Pois,  como  consequência  da  guerra  de  todos  contra  todos,  Hobbes  conclui  que  nada  pode ser injusto.  

Desse  modo,  o  hipotético  e  imaginário  Estado  de  Natureza  é  apresentado  pelo  inglês como uma dedução de como seria o comportamento humano se fosse suspenso o  estado político. Em tal estado, seguindo a dinâmica do mecanicismo, Hobbes estabelece  que  só  a  necessidade  governa  o  mundo  das  coisas  e  dos  seres,  só  as  leis  mecânicas  devem explicar a instauração da ordem física ou social. Portanto a única realidade natural  e  tangível  é  o  individuo  que  deve  ser  estudado  em  sua  natureza  e  na  dinâmica  de  suas  paixões  e  desejos.  Pois,  pelo  desejo,  o  homem  procura  a  felicidade  não  como  ‘finis  ultimus’ porque este não existe, mas como satisfação dos desejos imediatos, uma vez que  a  vida  humana  é  um  constante  desejar  e  a  felicidade  não  é  outra  coisa  senão  uma  ininterrupta realização dos desejos. 

Assim  no  estado  natural  todos  os  homens  são  livres  e  iguais,  conforme  reza  o  direito natural. O que significa que todo homem tem direito a todas as coisas, incluindo os  corpos dos outros. É o Estado em que cada homem é inimigo de cada homem, haja vista a  sua  liberdade  individual  de  se  defender  como  puder  contra  os  demais.  Nesses  termos,  todos  os  homens  vivem  atemorizados  pelo  risco  constante  de  morte  violenta,  configurando assim numa condição miserável, pois 

Em tal condição, não há lugar para a indústria, pois seu fruto é incerto: e  consequentemente não há o cultivo da terra, nem navegação, nem o uso  das mercadorias que podem ser importadas pelo mar; não há construções  confortáveis,  nem  instrumentos  para  mover  e  remover  as  coisas  que  precisam de grande força; não há reconhecimento da face da Terra, nem  cômputo  do  tempo,  nem  artes,  nem  letras;  não  há  sociedade;  e  o  que  é  pior do que tudo, um constante temor e perigo de morte violenta. E a vida  do homem é solitária, miserável, sórdida, brutal e curta (HOBBES, 2003, p.  109). 

É  preciso  então,  abandonar  tal  condição  e  para  isso  Hobbes  aponta  dois  elementos  próprios  da  natureza  humana  que  sinalizam  para  a  saída  do  estado  de  natureza:  as  paixões  e  a  razão.  Aquelas  paixões  –  como  medo,  o  desejo  e  a  esperança  –  fazem  o  homem  tender  para  a  paz:  o  medo  da  morte  ou  de  ferimentos  faz  o  homem  procurara  ajuda, associando‐se entre si; o desejo de uma vida confortável, assim como a esperança  de  realização  por  meio  do  trabalho,  “predispõe  os  homens  para  a  obediência  ao  poder 

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comum”.  Aliada  às  paixões,  a  razão  dita  às  leis  de  natureza  como  normas  de  paz,  em  torno das quais os homens podem chegar a acordos para uma convivência pacífica e em  segurança. Em vista disso, pode‐se concluir que, todos os homens concordam que a paz é  uma boa coisa, e, portanto também são bons os caminhos ou meios para encontrá‐la.  

É  tarefa  da  razão,  restringir  o  comportamento  auto  interessado  dos  homens  com  o  objetivo de promover de modo mais sólido e duradouro o bem individual. A razão coloca  limites aos indivíduos, restringindo o auto interesse em nome do benefício próprio. Uma  vez que a conservação duradoura exige a eliminação da guerra que caracteriza o estado  de  natureza,  a  razão  oferece  normas  para  a  construção  e  manutenção  da  paz,  normas  que  se  configuram  como  leis  morais  na  medida  em  que,  impondo  restrições  ao  comportamento  egoísta,  regem  como  devemos  nos  comportar  em  relação  aos  outros.  Para tanto, ela nos diz que, se queremos a paz, devemos nos espelhar nos outros e fazer  com  eles  apenas  aquilo  que  gostaríamos  que  fizessem  conosco,  caso  contrário  disseminamos a hostilidade em vez de construir a sociabilidade. 

Por  meio  da  razão  somos  capazes  de  acordar  sobre  o  que  devemos  fazer  e  de  que  modo devemos tratar os outros se queremos nos preservar. Contudo, somente a razão  não é suficiente para garantir a conformação das ações dos homens. 

As leis de natureza (como a justiça, a equidade, a modéstia, a piedade, ou  em resumo, fazer aos outros o que queremos que nos façam) por si mesmas,  na  ausência  do  temor  de  algum  poder  que  as  faça  ser  respeitadas,  são  contrárias  às  nossas  paixões  naturais,  as  quais  nos  fazem  tender  para  a  parcialidade, o orgulho, a vingança e coisas semelhantes. E os pactos sem  a  espada  não  passam  de  palavras,  sem  força  para  dar  segurança  a  ninguém.  Portanto,  apesar  das  leis  de  natureza  (que  cada  um  respeita  quando  tem  vontade  de  as  respeitar  e  quando  o  podem  fazer  com  segurança), se não for instituído um poder suficientemente grande para a  nossa  segurança,  cada  um  confiará,  e  poderá  legitimamente  confiar,  apenas na sua própria força e capacidade, como proteção contra todos os  outros (HOBBES, 2003, pp. 143‐144). 

Daí  a  necessidade  do  Estado,  que  surgiria  a  partir  de  um  contrato,  fruto  da  vontade  humana  e  que  necessariamente  deve  refletir  os  interesses  destes.  Tal  Estado  seria  soberano,  em  que  seria  garantida  a  liberdade  individual,  a  propriedade,  a  preservação da paz, a segurança e uma série de outras garantias que só seriam possíveis  mediante um poder superior, capaz de fazer com que tais regras não sejam violadas.  

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Para  tornar  possível  uma  coexistência  pacífica  e  assegurar  a  sobrevivência  do  estado civil, Hobbes, pelo primado da razão, estabelece as leis de natureza. A primeira e  mais fundamental lei é, “que todo homem deve esforçar‐ se pela paz, na medida em que  tenha  esperança  de  consegui‐la,  e  caso  não  a  consiga  pode  procurar  e  usar  todas  as  ajudas e vantagens da guerra” (HOBBES, 2003, p.113). Desta lei geral é extraída a primeira  lei especial de natureza: “procurar a paz, e segui‐la”; e o direito natural básico: defender‐ se  a  qualquer  custo.  Uma  vez  encontrada  a  possibilidade  da  paz,  faz‐se  necessária  uma  segunda lei de natureza: Que um homem concorde, quando outros também o façam, e na  medida  em  que  tal  considere  necessário  para  a  paz  e  para  a  defesa  de  si  mesmo,  em  renunciar a seu direito a todas as coisas, contentando‐se, em relação aos outros homens,  com a mesma liberdade que aos outros homens permite em relação a si mesmo.  Em terceiro, há a lei de cumprimento dos pactos, que consiste em “que os homens  cumpram os pactos que celebrarem” (HOBBES, 2003, p. 113). Sem esta, os pactos seriam  vãos.    

A Educação e o projeto de uma sociedade de paz.  

Hobbes partindo de uma concepção antropológica de homem, como sendo produto  de  suas  paixões  e  afecções,  sustenta  que  a  única  maneira  de  manter  os  homens  em  respeito,  evitando  a  guerra  civil  é  através  da  instauração  de  um  poder  forte  e  centralizado.  Nesse  processo,  os  homens  acordariam  que  a  melhor  solução  ao  instável  estado  natural,  caracterizado  pelo  direito  natural,  pelo  qual  todos  os  homens  são  livres  para  usar  seu  próprio  poder,  de  maneira  que  mais  convém,  para  a  preservação  da  sua  vida,  e  consequentemente,  de  fazer  tudo  àquilo  que  convém  para  este  fim,  gerando  conflitos  e  inseguranças,  é  abdicar  deste  direito,  transferindo‐os  a  um  representante.  A  durabilidade  e  sobrevivência  deste  estado  seriam  garantidas  se  se  os  homens  fossem  educados para a obediência civil. 

Desta forma, embora Hobbes não seja um autor que tenha destaque nas páginas dos  livros  de  história  da  educação,  é  inegável  que  sua  obra  possui  elementos  de  caráter  educador, frente às novas descobertas e mudanças do homem seiscentista. 

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Na construção do homem social, Hobbes não vê a educação sendo realizada apenas  pela  soberania  da  razão,  mas  também,  em  conjunto  com  o  poder  político.  Isso  ocorre,  porque muito embora a razão ofereça suporte necessário para calcular o agir humano, os  homens  ainda  são  particularmente  objeto  de  seus  desejos  e  paixões,  que  os  torna  suscetíveis a disputas e discórdias. 

Além  do  vínculo  com  o  Estado  político,  a  busca  pela  paz  em  Hobbes  está  vinculada  também  ao  bom  uso  da  linguagem.  Desfazer  os  equívocos  deixados  pelos  filósofos  morais  e  mostrar  o  melhor  caminho  para  a  paz  através  do  exercício  racional,  é  a  tarefa  que  Hobbes  se  propõe.  A  linguagem  é  para  ele,  a  mais  útil  de  todas  as  invenções  humanas.  Porém,  alerta  que  seu  uso  de  modo  impróprio  gera  conflitos,  guerras  e  destruição. 

Já  no  sentido  oposto,  o  uso  adequado  e  ordenado  da  linguagem,  como  um  instrumento que permite o mais exato raciocinar, sugere adequadas normas de paz em  torno das quais os indivíduos podem estabelecer um acordo consensual. Tal acordo tem  um fim específico, a saber, construir a paz mediante a instituição do estado civil. 

Segundo Hobbes, a paz originária de um contrato mútuo que funda o estado civil é o  único meio capaz de garantir não somente a sobrevivência do homem, mas também seu  desenvolvimento.  A  possibilidade  do  conhecimento,  da  ciência,  do  progresso,  do  conforto, diz Hobbes, só podem surgir do efeito da sensação de segurança e da certeza  de  que  a  própria  vida  não  está  sendo  ameaçada.  Na  visão  de  Hobbes  a  guerra  e  os  conflitos  em  geral  estão  fundados  na  ignorância,  tanto  por  parte  dos  cidadãos  quanto  dos  soberanos.  Caberia  à  razão  então,  ordenar  a  busca  pela  paz,  pois,  mesmo  nos  períodos  de  maior  miséria  do  estado  de  natureza,  permanece  intacta  a  lei  natural  que  afirma ser a paz a forma mais vantajosa de conservar a vida. 

Contudo,  vivemos  em  uma  sociedade  global  e  estratificada,  marcada  por  diversas  dicotomias.  O  poder  estatal  sua  formação  e  as  implicações  das  ações  do  Estado  à  vida  social nem sempre convergem com as inclinações da população. As inter‐relações entre  indivíduo/poder/ Estado se correlacionam e se distinguem dependendo dos interesses da  sociedade.  É  preciso  investigar  os  ditames  dessas  questões  mediante  a  finalidade  de 

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compreender  a  realidade  atual,  fonte  inesgotável  de  indagações  e  reflexões.  Pois  o  sucesso de um Estado, identifica uma sociedade homogeneamente desenvolvida, em que  são respeitados e garantidos os direitos e deveres de seus cidadãos. 

Portanto,  viver  nos  limites  do  Estado  não  é  uma  mera  questão  de  gosto  ou  de  atualização  da  natureza  humana,  mas  sim  um  artificio  mecânico  do  homem  que  busca  conquistar  seus  objetivos  sem  medo  de  represálias.  O  homem  busca  aquilo  que  é  útil  à  sua  vida.  E  a  utilidade  mais  urgente  é  a  criação  do  estado  civil,  capaz  de  instruir  e  guarnecer o direito à vida, à paz, à propriedade, à educação, ao comércio, enfim de tudo  que  constitui  o  homem.  Assim,  a  filosofia  de  Hobbes,  embora  não  tenha  um  conteúdo  genuíno  sobre  a  educação,  nos  oferece  alguns  elementos  importantes  que  podem  auxiliar na reflexão dos caminhos para uma sociedade de paz.  

E  toda  a  argumentação  acerca  da  ética,  àquela  parte  da  filosofia  de  que  trata  as  paixões da mente, nos mostra que essas paixões não são capazes de oferecer um padrão  do que seja justo. Tal padrão só pode ser estabelecido artificialmente por meio do estado  soberano  como  condição  de  estabelecer  a  paz  e  a  segurança.  No  plano  político,  isso  implica  que  o  Estado  é  o  único  capaz  de  afastar  a  guerra  e  o  conflito,  condições  antagônicas  à  paz.  O  estado,  enquanto  limitador  e  organizador  do  conflito  passional  humano detêm o poder e as prerrogativas para conduzir a uma situação de paz.  

Pois  as  paixões,  somente  podem  demonstrar  que,  por  natureza,  as  ações  humanas  sempre  serão  definidas  em  relação  aos  desejos  individuais  não  sendo  possível  derivar  delas outra regra comum que não seja o valor da vida. Não há, portanto, certo e errado,  justiça e injustiça, por natureza. Tais noções somente podem ser encontradas no interior  da vida social. Assim as reflexões éticas, políticas e psicológicas, presentes no constructo  do  projeto  cientificista  da  filosofia  hobbesiana,  apontam  que  o  homem  precisa  ser  considerado em toda sua totalidade, visto que é na coletividade que se perpetua. 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 

HOBBES,  Thomas.  O  Leviatã  ou  Matéria,  Forma  e  Poder  de  um  Estado  Eclesiástico  e  Civil,  São Paulo, Nova Cultura, 2003. 

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