Anais da
Semana de Pedagogia da UEM
ISSN Online: 2316-9435 XXII Semana de Pedagogia X Encontro de Pesquisa em Educação
05 a 08 de Julho de 2016
EDUCAÇÃO, FILOSOFIA E POLÍTICA EM LÚCIO ANEU SÊNECA
CEOLA, AdrieleAndrade [email protected] ONESKO, Stéfani de Almeida [email protected] VENTURINI, Renata Lopes Biazotto [email protected] UEM-PPH (Universidade Estadual de Maringá – Programa de pós-graduação em História)
História e Historiografia da educação
INTRODUÇÃO
Durante o Império Romano podemos identificar que boa parte da educação dos notáveis era realizada em casa, já que as crianças assim que nasciam eram encaminhadas para nutridores ou tutores, que usualmente as alfabetizavam minimamente. A escola de fato, servia como mais um adorno, pois a política e doutrinas filosóficas eram ensinadas na vida prática dos homens, e permaneciam sendo aprimoradas a vida toda.
Assim, quando os jovens estivessem já com sua formação quase completa, geralmente escolhiam uma doutrina filosófica para seguirem, e esta deveria ser colocada em prática, tanto na vida privada quanto na pública. Podemos mencionar que os seguidores das filosofias acabavam se tornando até mesmo propagandistas (VEYNE, 1991, p. 217). Dentre as correntes filosóficas do período imperial romano, destacamos o estoicismo e seu representante Lucio Aneu Sêneca.
Nesse sentido, a presente comunicação tem como objetivo trazer algumas considerações acerca das lições filosóficas e políticas que Sêneca nos legou, tendo como base as obras Epístolas Morais a Lucílio, o tratado Da Clemência, escrito ao jovem imperador Nero.
O PRINCIPADO ROMANO E O GOVERNO DE NERO
O Principado romano teve seu início com a aclamação do sobrinho e filho adotivo de Júlio César, Otaviano como imperador, aproximadamente no ano de 27 a. C., momento em que o poder que ficava distribuído entre os magistrados passava a ser concentrado nas mãos de um único homem, embora o novo governo mantivesse as antigas instituições republicanas.
Os anos iniciais da monarquia imperial foram considerados os mais pacíficos e prósperos, visto que o momento simbolizava a paz depois de sucessivas guerras civis que marcaram os finais da República, bem como o novo imperador agia em comum acordo com os senadores e demais magistrados.
Géza Alföldy (1989) destaca que as principais alterações na sociedade romana depois de Otaviano foram a integração das províncias e dos provincianos em Roma, assim como a instauração da monarquia imperial. Esse último aspecto, embora fosse uma monarquia de fato, deveria ser flexível para que os partidários do velho regime republicano o aceitassem, isso quer dizer que para um imperador ser considerado adequado para governar Roma, deveria agir em comum acordo com a aristocracia com a finalidade de assegurar a paz e garantir uma posição distinta dos senadores. Além disso, apesar de ter sido claramente um regime monárquico, não era assim declarada, e isso implicou na falta de regras para a sucessão desse poder.
O poder imperial poderia seguir uma sucessão de pai para filho, ou poderia ser indicado por meio da adoção, contanto que o notável escolhido deveria ser visivelmente preparado para a condução de Roma. Dentre essas imprecisões Corassin (2001, p. 74) escreve que os documentos sobreviventes dos anos de Nero, apontam que sua nomeação precoce, quando ainda tinha 16 anos de idade, foi fruto de uma peripécia de sua mãe Agripina, que era esposa do imperador Cláudio, mas seu filho Nero era fruto de um casamento anterior, isto é, era enteado de Cláudio. Harvey (1998, p. 354-355) afirma que o nome Nero, foi lhe atribuído ao ser adotado pela família júlia-claudiana, visto que seu nome real era Lucius Domicius
Ahenobarbus, nascido por volta de 37 d. C. foi filho de Agripina e de Domício Aenobarbo.
Nero foi aclamado sucessor do imperador Cláudio, após a morte de seu filho natural Britânico, cuja suspeita de assassinato repousa sobre Nero. Sua nomeação se deu entre os anos de 54 e 55 d. C. Inicialmente Nero governou Roma com o auxílio de sua mãe Agripina e o filósofo Sêneca, agindo de forma que garantisse o apoio do Senado, no entanto, o que mais conhecemos de Nero são os anos finais de seu governo, momento em que ele rompe com o Senado, e passa a ser considerado um “mau” imperador. Portanto, foi justamente nos anos iniciais do governo neroniano que Sêneca lhe dedica a obra Da Clemência, cujo título original é L. Annaei Senecae ad Neronem Caesarem De Clementia, isto é, objetivamente escrito para aconselhar o jovem imperador, com o intuito de que não se tornasse um tyrannus.
Oliveira (1996, p. 68) nos traz que o conceito de tyrannus tem sua ideologia na filosofia estóica, no que se refere ao governo de um Estado, usado pejorativamente referente
às ações violentas dos imperadores, ou aqueles que são injustos e pouco sábios. O oposto de um tyrannus seria o optimus princeps, aquele que é comparado ao rex iustus, que age principalmente com justiça, geralmente está vinculado a uma filosofia, e no caso romano era aquele que, sobretudo, respeitava a liberdade política que o Senado contribuía para manter.
SÊNECA: NOTA BIOGRÁFICA
Acerca de Lucius Annaeus Seneca poucas informações sobreviveram a respeito de sua vida. Merino (1988, p. 03) afirma que ele nasceu na região de Córdoba, na província da Hispânia, entre os anos de 4 a. C. e 1 a. C., e ainda quando criança se mudou com seu pai para Roma, onde foi educado na retórica e na filosofia.
Durante um curto espaço de tempo viveu no Egito, mas retornou para Roma no ano de 35 d. C., quando inicia sua carreira política. Exerceu a questura, foi orador forense e senador, mas caiu no desgosto de Calígula e quase foi condenado à morte. No governo de Cláudio ele voltou a ocupar um cargo na corte, porém foi acusado de adultério e sendo banido para Córsega, só retornou no ano de 49 d. C. ao ser convidado por Agripina para ser preceptor do jovem e futuro imperador Nero. Entretanto, pouco mais tarde Sêneca pediu para se retirar da corte, visto que a conduta de Nero não correspondia aos ensinamentos do filósofo, pois o imperador desviava do esperado. Por volta de 65 d. C., ele viveu isolado se dedicando a literatura, mas foi acusado de conspirar contra Nero com Pisão, e recebeu a ordem de suicidar-se, a qual algumas fontes indicam, ele cumpriu com calma e tranquilidade.
Sêneca foi um aristocrata com ideais de moralidade elevada, porém não viveu em conformidade com seus pensamentos éticos, pois ele fechou os olhos para os assassinatos que ocorreram no círculo imperial, e continuou a viver entre eles, gozando dos prazeres e riquezas que a vida na corte poderia oferecer. A produção literária de Sêneca se insere na terceira geração1 do estoicismo, conhecido como Estoicismo Imperial. Trata-se de consolações, tratados, escritos trágicos e cartas.
A INSTRUÇÃO FILOSÓFICA NA OBRA EPÍSTOLAS MORAIS A LUCÍLIO
Quando tratamos da raiz filosófica da qual procede Sêneca, faz-se necessário entender o cerne da filosofia estoica, que se desenvolve a partir da necessidade de tornar o homem um ser repleto de virtudes e distante de qualquer vício. De acordo com essa filosofia, existem duas naturezas que poderiam ser seguidas pelos indivíduos: a inferior, em que o homem seguiria os instintos da natureza e não a natureza em si. Neste primeiro caso, se refletem as
paixões, dos quais os animais, que agem por instinto, possuem. Outra natureza existente é a superior,na qual o homem não se deixaria levar por seus instintos, mas sim, pela razão, assemelhando-se aos deuses. A razão na filosofia estóica; é que deveria imperar sobre as nossas vontades naturais e eliminá-las, ou ao menos controlá-las.
Os dois pilares da filosofia estoica, basicamente, são os vícios e as virtudes. A ideia do bem, ou das virtudes, se refere ao bom senso, à prudência, à consciência e à temperança que estão ligadas à ordem e conveniência, à justiça e equidade e a benevolência, à coragem, a firmeza e a constância, a piedade e clemência, o viver em comunidade (BRUN, 1986, p. 78-79). Todas essas características diagnosticariam um homem virtuoso.
Em antítese às virtudes, o estoicismo julga como o mau ou os vícios, a dor, o medo, o prazer, a inveja, o ciúme, o desgosto, o despeito, a vergonha, a hesitação, aangústia, o ódio, a rivalidade, o ressentimento, entre outras, que eram consideradas doenças da alma (BRUN, 1986, p. 82-83.).
É pensando nessa essência do estoicismo, em tornar o homem ou seus pares seres virtuosos, que Sêneca construiu sua “pedagogia moral”. Ele escreveu oito tragédias, todavia, foi nas cartas ou tratados que se mostrou evidente a busca incessante do aprimoramento humano, de como atingir a sabedoria e a virtude, consideradas uma máxima do pensamento estoico. Uma obra com grande teor educacional,voltadas para a moralidade são as Epístolas
Morais a Lucílio, na qual Sêneca instrui seu amigo seguir uma vida virtuosa sendo
basicamente um manual de instrução de como ser um bom estóico.
Nesse sentido, as epístolas foram direcionadas a Lucílio, que socialmente pertencia ao grupo dos cavaleiros. Tendo em vista suas virtudes, seu talento e diligência, Lucílio se tornou uma figura pública, ocupando cargos nas magistraturas romanas. Sêneca admirava Lucílio por considerá-lo um homem que possuía um caráter virtuoso e valoroso, observando-o como um futuro mestre dos preceitos estoicos. O que faltava ao seu discípulo para desenvolver o conhecimento necessário era de um mestre que o guiasse rumo à filosofia e possibilitasse seu crescimento moral. Basicamente seu compromisso se circunscrevia a converter o amigo Lucílio à doutrina estoica, expondo e interiorizando as reflexões sobre tal filosofia
[…]Séneca aconseja a Lucilio el retiro para hacer mejor uso del tiempo, dedicándose a la filosofía, que enseña a perfeccionar al hombre interior, buscando la amistad de los sabios sin ocultarles secreto alguno y disponiéndose a la muerte sin temor (Meliá, 1986, p. 24)
Por conseguinte, a necessidade do processo educativo é observada nos escritos de Sêneca, pois para ele o indivíduo só seria levado ao caminho da filosofia caso obtivesse a instrução de um guia. Ninguém, a não ser formado a partir da base e orientado pela razão, poderia estar apto a conhecer todos os deveres e saberes quando, em que medida, com quem, de que modo e por que razão deveria agir (SÊNECA, 1989, Ep.95,5).
Para que o homem possa cuidar de si mesmo, agindo de maneira virtuosa, faz-se necessário um rígido processo de educação do caráter. Nesse sentido, Sêneca destaca a sua ânsia em guiar Lucílio para que o mesmo atingisse um patamar de perfeição filosófica.“[...]Fui yoquien, habiéndomepercatado de tu carácter, puse mi mano sobre ti, te exhorté, te infundí entusiasmo y no permití que avanzaras lentamente, antes bien te estimulésincesar. Y ahorahagolopropio, pero estimulando a uno que vayalanzado y que me estimula a su vez (SÊNECA, 1986, Ep. 34,2)”.O objetivo buscado a educação do caráter é indispensavelmente o caminho do sábio.
A busca do filósofo estoico é o melhoramento do indivíduo no campo moral, nesse sentido ele busca elevar Lucílio para esse campo
Redacto algunas ideas que les puedan ser útiles; les dirijo por escrito consejos saludablescual preparados de útiles medicinas, una vez he comprobado que son eficaces para mis úlceras, las cuales, si bien no se han curado totalmente, han dejado de agravarse. El recto camino que descubrí tardíamente, cansado de mi extravío, lo muestro a los demás
(SÊNECA, 1986, Ep. 8, 2-3).
A instrução pura, marcada pelo ensino dos saberes, das artes, da teoria como um todo, não era o bastante para Sêneca. Ele definia o conhecimento e a educação não buscando apenas tornar o indivíduo um “ser erudito”, mas visando acima de tudo tornar o homem um ser bom, provido de virtudes e valores que só a filosofia poderia oferecer. Nesse sentido, afirmava que estudamos para a escola, mas não para vida, se partirmos do pressuposto que apenasas letras e as artes sustentam a educação humana (SÊNECA, 1989, Ep.106, 11-12).
A filosofia estoica não se reduzia apenas ao ensinamento da teoria, mas principalmente nas ações, concretiza-se enquanto um exercício de virtude. A filosofia norteia por meio da teoria as atitudes tomadas pelos homens. Desse modo, era uma bússola que conduzia os homens contra os incidentes da vida, assegurando-lhes um verdadeiro porto seguro (ROCHA, 2013, p. 105).
Pierre Hadot (1995, p. 17-18) destaca a referência que a filosofia tem para o indivíduo na Antiguidade. Omodelo de vida não estaria no final do processo de atividade filosófica
como apenas um acessório ou um apêndice, mas sim, estaria em relação direta com o modo de viver e de ver o mundo do homem antigo. O discurso filosófico temorigem em uma escolha de vida e em uma opção existencial e não o inverso. Além disso, tanto a filosofia quanto os filósofos pertencem a um grupo,uma "escola" e, especificamente, uma escola filosófica corresponde essencialmente à escolha de ummodo de vida, o que obriga o indivíduo a uma mudança total, uma conversão de todo o ser.Esta opção existencial tem o poder de transformar certa visão do mundo, e será a tarefa do discurso filosófico revelar e justificar racionalmente esta opção existencial, bem como sua representação do mundo.
Sêneca chama atenção que a sabedoria não nascia com o homem, essa deveria ser ensinada e regada por pessoas instruídas. A virtude, dessa maneira, não seria um dom da natureza, para tê-la era necessário estudo. Para isso, propõe a presença do mestre como “diretor de consciência” na formação do indivíduo, pois o homem por si só não seria capaz de se desvencilhar dos vícios, das paixões, do egoísmo (SÊNECA, 1986, Ep.52, 1-3). Nas palavras de Rocha (2013, p. 112) “há, nesse processo, um caráter extremamente pedagógico e como tal carece da figura do mestre como educador para a formação do homem moral”.
Dessa maneira, um dos recursos didáticos utilizados na sociedade romana, inclusive por Sêneca para instruir Lucílio, foram os exempla. A educação moral do jovem romano era abastecidapor meio de exemplos ofertados à sua admiração, e geralmente eram tiradas da história nacional (MARROU, 1990, p. 366), figuras que possuíam relevância moral por suas atitudes históricas ou figuras que podiam ser consideradas desprezíveis do ponto de vista moral. Desse modo, os exemplosfornecidos podiam ser com o intuito de apresentar um modelo de conduta ideal ou refutar certos modos de comportamento.
Ao estudar o estoicismo, nos deparamos com uma filosofia que se preocupa em orientar o homem para a vida e, principalmente, para o fim da mesma. A filosofia que prepara o homem para a morte, de acordo com Sêneca, deve estar de acordo com a sua vivência cotidiana. Se a vida fosse praticada de modo imperfeito, pelo menos no momento decisivo, o da morte, o homem deveria procurar viver bem e de acordo com os princípios estoicistas, por isso a necessidade da instrução. Portanto, a filosofia deveria ser vivida, praticada, e não apenas acumulada como conhecimento desprovido de valor moral.
No campo político as lições que sustentam a filosofia estoica tem, no tratado sobre a sobre a clemência, um exemplo singular; “Decidi, César Nero, escrever para cumprir a função de espelho e mostrar que vai alcançar o maior dos prazeres.” (SÊNECA, da clemência, I, I:I).
Faversani (2007, p. 143) afirma que o Da Clemência foi composto como um “receituário” de como um imperador deveria agir em determinadas situações, e geralmente as ações deveriam estar condicionadas a aprovação do Senado. A historiografia concorda que Nero, ainda jovem no início de seu reinado, tinha como preceptores sua mãe e o filósofo que conduziam para o acordo com o Senado, mas após a morte de Agripina, Sêneca também perdeu seu prestígio e Nero foi se tornando cada vez mais auto-suficiente no império, e deixou de ser o ideal senatorial, realizando o que Da Clemência aconselha a não seguir.
Para Sêneca, o papel que Nero estava desempenhando era tão alto como dos deuses, pois ele governaria o destino de um povo, e por isso deveria ser comedido nas decisões, como observamos em um dos primeiros conselhos direcionados a justiça
E, em meio de tantas possibilidades, a cólera não me impulsiona a aplicar castigos injustos, tampouco, as pulsões da juventude, nem a audácia e rebeldia dos homens – quem em meio, inclusive acabou com a paciência das características mais tranqüilas – nem a terrível glória embora freqüente nos mais poderosos (Sêneca, Da clemência, I, IV: III)
Essa colocação expressa o primeiro sinal da clemência na concepção de Sêneca, visto que ele afirma que não é correto aplicar castigos injustos, mas para ser um homem clemente os castigos não devem ser extintos nem mais leves do que as faltas, mas sim justos. E ser justo não é uma tarefa fácil, visto que há muitos elementos complicadores, como a juventude, rebeldia, pulsões e a raiva, isto é, aquilo que facilitaria as paixões.
Sêneca tenta orientar Nero para não ser um tyrannus, e esse conceito justamente se aplica a falta de justiça, e se estende a ausência de clemência também. Contudo, Faversani (2007, p. 145) escreve que não podemos ter certeza se o ideal de optimus princeps de Sêneca era o ideal senatorial, já que este visava que o imperador deveria ser amigo dos senadores, enquanto a visão senequiana se aproximava de uma relação fraternal, onde o imperador seria o pai e os súditos, inclusive os senadores, seriam os filhos, ou como ele mesmo diz que o
princeps é o “[...] pai da pátria [...]” (SÊNECA, Da Clemência, I, XIV: II).Ainda no tratado,
Sêneca menciona que os súditos são o corpo do império, e o princeps é o espírito, e que o espírito trabalha em favor do corpo e o corpo em favor do espírito (SÊNECA, Da Clemência I, III: V).
Para o filósofo, Nero era o espírito do Estado, e para manter o corpo em funcionamento ele deveria exercer uma das mais altas virtudes, que era a clemência, que implicava na justiça dos povos. Dessa maneira, afirma que se o imperador não souber executa-la adequadamente, o império poderia entrar num colapso
Portanto, como te dizia, a clemência convém por natureza a todos os homens, mas especialmente se adéqua aos imperadores, na medida em que eles tem mais a conservar e suas ações se manifestam em questões de maior alcance. Com efeito, quão poucos danos provocam a crueldade de um homem privado! A fúria dos princepis equivale à guerra. (SÊNECA, Da
Clemência, I, V: II)
Mais uma vez podemos identificar uma grande preocupação por parte de Sêneca na questão do tyrannus, visto que ele se remete constantemente a clemência como catalisadora para o exercício do bom governo, isto é, somente homens que seguem uma doutrina filosófica, em especial o estoicismo, são preparados para conduzir o império adequadamente, pois as decisões seriam tomadas com as paixões controladas, que remete diretamente na questão de um princeps justo e virtuoso para a política.
Além disso, Sêneca nos leva a entender que o homem clemente, é um homem superior, refinado ou mais “humano”, e que se homem de tal estirpe fosse o condutor do império, o palácio seria possuidor da mais digna admiração (SÊNECA, Da Clemência, I, V: IV), aliás, é a própria clemência que diferencia um rei de um tirano.Sendo assim, identificamos sua preocupação com a formação filosófica e política, na medida em que ele próprio exerceu magistraturas e tutelou Nero por alguns anos de reinado, tentando ensiná-lo na doutrina estoica.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Lúcio Aneu Sêneca procurou instruir e educar seu discípulo Lucílio e o imperador Nero, nas virtudes estoicas. O estoicismo definia seus princípios para que fossem assimilados e praticados pelos indivíduos, cidadãos e condutores do governo imperial.
Nesse sentido, Sêneca instruiu Lucílio acreditando que este pudesse se tornar um futuro mestre estoico, ensinou-lhe as virtudes necessárias e as faltas que não poderia cometer. Para tanto se fazia necessária a mediação de um mestre, entendido como um guia capaz de conduzir o indivíduo ao conhecimento da filosofia. No meio político, visou ensinar o imperador Nero a ser um optimus princeps, oposto ao tyrannus, ressaltando a virtude clemência.
Sêneca, a partir da educação e da instrução, foi o interlocutor entre as ideias e as práticas do cidadão em busca das virtudes estoicas. Podemos outorgar-lhe o título de “pedagogo moral” do seu tempo.
REFERÊNCIAS
FONTES IMPRESSAS
SÊNECA, LucioAneu. Epístolas Morales a Lucilio - Introducción de Ismael Roca Meliá.Vol I Madrid: Gredos, 1986.
SÊNECA, Lucio Aneu. Epístolas Morales a Lucilio. Vol.II. Introdución de Ismael Rocca Meliá. 1ª Edição, Madrid: Editorial Gredos, 1989.
SÊNECA, Lucio Aneu. Sobre la clemencia. Estudio preliminar, traducción y notas de Carmen Codoñer Merino. Madrid: Editorial Tecnos, 1988.
BIBLIOGRAFIA
ALFÖLDY, Gèza. A história social de Roma. Lisboa: Presença, 1989. BRUN, Jean. El Estoicismo. Lisboa: Edições 70, 1986.
CORASSIN, Maria Luiza. Sociedade e política na Roma antiga. São Paulo: Atual, 2001. FAVERSANI, Fábio. Tácito, Sêneca e a historiografia. In: Joly, Fábio Duarte (org.) História
e Retórica: ensaios sobre a historiografia antiga. São Paulo: Alameda, 2007, p. 137-146.
HADOT, Pierre. Qu'est-ce que la philosophie antique?Paris: Gallimard, 1995.
HARVEY, Paul. Dicionário Oxford de literatura clássica grega e latina. Rio de Janeiro: Ed. Jorge Zahar, 1998.
MARROU, Henri Irénée. História da educação na antiguidade. Trad. Mário Leônidas Casanova. São Paulo: E.P.U, 1990.
OLIVEIRA, Andrea Lucia Dorini de. Poder e Mito: O Principado na perspectiva da
literatura latina (Tácito, Suetônio e Plínio, o jovem). Assis, 1996. 147 f. Dissertação
(Mestrado em História), Faculdade de ciências humanas e letras de Assis, Universidade Estadual “Júlio de Mesquita Filho”.
ROCHA, Carlos Alberto Medino. A formação do homem moral: um estudo sobre o
estoicismo o “cuidado de si” em Sêneca. Dissertação (Mestrado em Ética e Espitemologia
VEYNE, Paul. O Império Romano. In: ÀRIES, Phillippe e DUBY, Gorge (org.). História da
vida privada: do império romano ao ano mil. São Paulo: Companhia das Letras, 1991, p.
19-224.
NOTAS
1Na primeira geração, mais conhecida como Estoicismo Antigo, temos Zenão de Cício, Cleanto e Crisipo. Na segunda geração, o Estoicismo Médio, temos como continuadores da propagação da filosofia, Diógenes, o Babilônico, Antipatro de Tarso, Panécio de Rodes e Possidónio de Apameia.