Conclusões «Inovação e sustentabilidade ambiental. A inovação e a tecnologia como
motor do desenvolvimento sustentável e da coesão social. Uma perspectiva dos governos locais».
1. O Fórum irá estudar, a partir da perspectiva dos governos locais, uma visão de conjunto sobre as diferentes dimensões da relação entre a tecnologia e a inovação como motor do desenvolvimento sustentável.i
2. Foi adoptada a noção de inovação social (IS). De maneira geral, esta será definida como a capacidade colectiva de dar resposta a situações consideradas insatisfatórias em diferentes âmbitos da vida social. Em termos práticos, a IS é definida na acção e na mudança duradoura. A IS não tem nenhuma forma especial e manifesta‐se tanto de forma imaterial como tangível. No primeiro caso traduz‐se em práticas, serviços, modos de executar, modos de organização da acção social, legislações, normas e regras de conduta; no segundo caso é materializada em tecnologias de produção, dispositivos, produtos. Em todos os casos, a IS aparece como uma solução inovadora ou fora da norma estabelecida num determinado contexto.
3. A IS inscreve‐se num processo de mudança e melhoramento do desenvolvimento dos indivíduos, do seu ambiente territorial e do âmbito de trabalho. Nos três planos, a IS, para o ser, deve produzir melhores resultados do que as práticas tradicionais, além de produzir mudanças duradouras e sustentáveis.
4. Em nenhuma circunstância a IS pode ser concebida como um acontecimento acidental. A sua natureza envolve, necessariamente, acções que se empreendem com finalidades predeterminadas. A IS implica, portanto, a existência de protagonistas que actuam em função de objectivos definidos. Para o desenvolvimento da IS é determinante a existência de uma liderança e de uma organização predisposta para a mudança. Requer a existência de lideranças cooperativas, capazes de reconhecer o valor acrescentado do trabalho colectivo, abertas à novidade e à participação. À escala local ou territorial, uma liderança desta natureza caminha lado a lado com uma institucionalidade democrática e representativa, comprometida com a promoção activa dos diversos factores que favorecem e sustentam os impulsos inovadores.
5. A IS pode e deve ser incentivada pelas instituições públicas. No caso dos governos locais ou territoriais, o trabalho fundamental é o de trabalhar como «pontes de ligação» entre os agentes susceptíveis de gerar e produzir inovação. Em democracia, os governos locais são promotores quase naturais da IS, uma vez que, por um lado, o «novo» e a «mudança» expressam convicções e objectivos programáticos de quem governa e, por outro lado, devido aos proveitos que isso lhes pode proporcionar na concorrência política (maior apoio público, maiores possibilidades de triunfos eleitorais e de exercício do poder).
6. É sabido que o crescimento económico origina principalmente a inovação e o conhecimento.ii Embora não existam avaliações precisas a este respeito, a inovação desempenha um papel igualmente decisivo no progresso social. Além disso, a IS é fundamental para o crescimento económico. Historicamente, a difusão de novas tecnologias (electricidade, automóveis, Internet, para referir três figuras emblemáticas na matéria) tem dependido tanto da IS como da inovação técnica propriamente dita, ou da empresarial. No mundo do século XXI a interrelação entre a IS e o crescimento económico parece ter‐se estreitado: algumas das barreiras que actualmente restringem muito seriamente o crescimento, como as alterações climáticas ou (num número significativo de países) o envelhecimento da população, apenas podem ser ultrapassadas incentivando e gerando IS (que, convém sublinhar, inclui, por ser uma noção mais vasta, a inovação tecnológica e a sua difusão económico‐social).
7. Através da política pública, os governos locais, cada um nas suas circunstâncias particulares, podem contribuir de várias maneiras para configurar ambientes propícios à inovação: promovendo e fortalecendo o aparecimento de novas lideranças sociais e económicas na comunidade; canalizando apoios focalizados para projectos de Investigação e Desenvolvimento em áreas específicas identificadas como prioritárias; implementando novos métodos de intervenção; fomentando transformações sistémicas em áreas estratégicas que requerem abordagens multidisciplinares, como a das alterações climáticas e suas implicações para o desenvolvimento e o bem‐estar; relacionando as PME com grandes instituições de Investigação e Desenvolvimento, como as universidades; incentivando legislação e normas pertinentes para a inovação.
8. Na base local ou territorial dos países são várias as áreas nas quais se geram «solicitações de inovação». Entre outras, podem ser mencionadas, como exemplo, a empresarial; a tecnológica, entendida num sentido lato; a da política pública; a dos serviços públicos urbanos; a do desenvolvimento comunitário nas suas diversas expressões; a da redução das desigualdades materiais e simbólicas. É em torno desta «procura de inovação» que os governos regionais podem concentrar um conjunto de acções relevantes em áreas específicas da política pública, todos interligados entre si na medida em que, juntamente, configuram dimensões em que a acção dos governos locais converge na prossecução dos objectivos de coesão social e sustentabilidade do desenvolvimento: i) Sustentabilidade ambiental ii) Coesão social iii) Serviços públicos iv) Governo e fortalecimento da institucionalidade democrática v) Competitividade e desenvolvimento económico.
9. Em torno destas cinco dimensões da esfera pública local, a IS e a evolução tecnológica são factores chave para encontrar novas maneiras de fazer as coisas com o objectivo específico de responder às necessidades sociais, melhorando as condições gerais de bem‐estar. As instituições públicas e, particularmente, as administrações locais têm a obrigação de investir na inovação, facilitar a sua utilização e promover o acesso às novas tecnologias nos seus territórios e, no desenvolvimento de políticas públicas de qualidade, serem agentes activos na gestão do conhecimento, da promoção económica, assim como nas estratégias de concertação com a cidadania.
10. Uma parte fundamental deste papel estratégico dos governos territoriais está na possibilidade de, devido à sua situação como primeira instância de interlocução e interacção do poder público com os cidadãos e a sociedade, contribuírem para moderar a concepção — muito generalizada nalguns meios e sectores — segundo a qual as tecnologias, por si só, são a chave para encontrar soluções em quase todos os campos. Elas terão — e já têm, de facto— um papel central nessa direcção, mas a sua utilização necessita de uma orientação que atenue e reduza os seus riscos e efeitos secundários. Neste terreno, os governos locais deverão levar a cabo estratégias de
democrático através da participação dos cidadãos, sobre a distribuição de custos e vantagens para a sociedade das alterações estruturais associadas à renovação do processo de desenvolvimento.
11. Um último factor refere‐se à necessidade de coordenação intersectorial e multinível que, de uma perspectiva territorial, exige a adopção de políticas públicas activas de promoção da inovação e da tecnologia. Considerar este factor é ainda mais necessário uma vez que as políticas de inovação, pela sua própria natureza, rejeitam a implementação de estratégias regionais indiferenciadas e, pelo contrário, exigem estratégias diferentes, que se definem de acordo com cada tipo de região ou localidade. Ao contrário dos diferentes casos regionais ou locais arquetípicos (no interior dos quais já pode haver fortes diferenças de grau), a concepção da política pública de inovação deve ser diferente. Esta realidade acrescenta complexidade à necessidade de coordenação multinível e intra e intersectorial das políticas públicas, além de aumentar a sua exigência.
12. Da discussão e dos seminários, surgiu um consenso sobre as ideias seguintes
• A cooperação descentralizada e a projecção exterior dos territórios têm uma importância estratégica fundamental neste processo. A partir das administrações locais podem ser facilitados espaços de intercâmbio de políticas inovadoras, especialmente baseadas na utilização das novas tecnologias; de capacitação, de gestão do conhecimento e do talento como instrumentos de reforço institucional, em prol da captação de oportunidades e do aumento da competitividade.
• As administrações públicas devem orientar o desenvolvimento económico para sectores sustentáveis, favorecer a construção de parcerias público‐privadas ad‐ hoc como motor de inovação social ambiental e aproveitar o potencial de desenvolvimento associado à economia do conhecimento e à economia verde.
• As cidades representam um desafio e ao mesmo tempo uma oportunidade nas políticas relativas às alterações climáticas. Estas transformaram‐se num objectivo central para os governos locais, sendo potencialmente capazes de transformar o modo de viver a cidade e de criar um maior sentido de pertença por parte dos cidadãos.
• As inovações tecnológicas e sociais proporcionam uma oportunidade para dar um maior papel aos governos locais, para redistribuir a prestação ou a regulação dos serviços públicos entre os diferentes níveis de administração, no quadro do aprofundamento dos processos de descentralização e do princípio de subsidiariedade.
• Nesta conjuntura, a perspectiva territorial deve estar mais que nunca presente e num plano relevante, tendo em conta a enorme tarefa de inovação político‐ institucional que os poderes públicos enfrentam em todas as escalas e, em particular, os governos locais.
13. De acordo com os argumentos discutidos neste Fórum, o fomento activo de processos de IS por parte das administrações públicas territoriais não só abre a possibilidade de desenvolver perspectivas originais, com forte carácter idiossincrático, como dá maior incentivo e melhor participação dos cidadãos e dos grupos organizados, na procura de soluções para os grandes problemas sociais. Pela sua natureza, os governos territoriais democráticos são chamados a estimular a IS, adaptando dinamicamente as suas políticas e meios de intervenção. Para ser sustentável, esta tarefa também requer o concurso activo de outros protagonistas e de outras instituições: os departamentos especializados dos governos centrais, as empresas, os meios técnicos, científicos e educativos, as organizações da sociedade civil.
14. Para as administrações territoriais, a IS é um meio para atingir fins superiores de governação; assim sendo, é também uma ferramenta de fomento de coesão social. A aspiração de viver em sociedades que garantam aos seus cidadãos níveis básicos de segurança social e económica tende a ser constantemente fracturada pela acção corrosiva de dinâmicas de exclusão que fazem disparar a desigualdade material e
simbólica dos indivíduos, atentando contra o seu sentido de pertença à comunidade. Nos últimos anos cresceu a tomada de consciência sobre a necessidade de combater estas dinâmicas através de enfoques sistémicos de políticas públicas que tentam propiciar o aparecimento de sinergias positivas entre o crescimento económico e a equidade social, num contexto de modernização produtiva. Tanto na Europa como na América Latina, alguns governos territoriais apostam em experiências inovadoras para enfrentar os problemas estruturais que travam a integração social dos indivíduos. Para além das suas diferenças contextuais, estas experiências têm em comum o facto de fomentarem a participação dos cidadãos e a inserção laboral dos excluídos, num quadro fortemente comprometido com o objectivo de fortalecer a democracia participativa.
i
Para a elaboração desta sinopse foram omitidas as referências bibliográficas e documentais.
ii
Calcula-se que estes factores explicam entre 50% e 80% do crescimento das economias modernas. Do mesmo modo, considera-se que as diferenças de conhecimento e capacidade tecnológica explicam mais de 60% das diferenças de receitas e de taxas de crescimento entre os países.