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Pe. Ronaldo Sabino de Pádua, CSsR

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Academic year: 2021

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18 – LEITURA ORANTE DA BÍBLIA (LECTIO DIVINA) 14.1 - A história da Leitura orante

A prática da Leitura Orante é tão antiga quanto a própria Igreja. Ela surgiu com a própria Igreja. Entretanto, o termo Lectio Divina vem de Orígenes (185 a 254), mestre da grande e famosa Escola de Teologia, em Alexandria (Egito) no séc. III.

Depois se estendeu ao monaquismo com os eremitas (homens e mulheres que viviam na solidão do deserto e praticavam uma vida de penitência), aos cenóbios (pequenos núcleos de vida comunitária) e à Vida Religiosa com São Pacômio, São Basílio, Santo Agostinho e São Bento.

A sistematização, em quatro passos deu-se no século XII, por um monge cartuxo (ordem religiosa monástico-eremita de grande austeridade, solidão e pobreza fundada por São Bruno em 1066) chamado Guigo, por volta de 1150. Ele dedicou essa obra ao seu irmão Gervásio.

O livrinho chamava-se a “Escala dos Monges” ou Escada dos Monges, como preferem alguns autores, composto por quatro degraus, a saber: leitura, meditação, oração e contemplação.

Até o século XIII a Lectio Divina estava restrita à vida monacal. Mas nesse mesmo século, especialmente São Francisco, tenta adaptá-la à vida do povo.

Com o movimento da Reforma (séc. XVI) houve um enfraquecimento da Leitura Orante da Bíblia por medo de heresias, causando um vazio na Leitura da Palavra e crescendo a leitura da vida dos Santos (espiritual).

A partir do Vaticano II, com a Dei Verbum houve uma retomada, especialmente no Brasil da Leitura Orante da Bíblia. A Dei Verbum proclama: "O estudo dos Livros Sagrados deve ser como a alma da Teologia" (DV 24). "É preciso que os fiéis tenham amplo acesso à Sagrada Escritura" (DV 22).

14.2 - O que é a Leitura Orante da Palavra de Deus?

A Leitura Orante da Palavra de Deus era o método usado por judeus e os primeiros cristãos para a leitura das Sagradas Escrituras.

Era o modo de levar a Palavra do Deus Vivo para a vida pessoal, comunitária e social. Era uma leitura para alimentar a fé, a esperança, o amor e o compromisso com a Aliança.

“A leitura procura, a meditação encontra, a oração pede, a contemplação experimenta”.

14.3 - Condições para o êxito da Leitura Orante

Para a Leitura Orante da Bíblia, alguns requisitos são necessários: 1. Antes de iniciar a Leitura Orante escolher o texto bíblico.

2. Escuta silenciosa... (silêncio externo e interno). 3. Atitude de fé... (Acreditar no texto bíblico inspirado). 4. Comunhão com a Igreja... (ser lido a partir da comunidade). 5. Abertura de coração... (deixar Deus falar ao coração). 6. Escuta diligente... (a Palavra deve se tornar vida – fé e vida).

7. Invocação do Espírito Santo... (para compreender o mistério, da presença de Deus em nossa vida).

14.4 - Os passos da leitura orante

A leitura espiritual da Bíblia necessita dum método, para ser criativa, segura e profunda. A Lectio Divina repousa, tradicionalmente sobre quatro etapas ou degraus, que pretendem elevar o leitor-orante da terra

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1) A leitura do Texto Bíblico

Ler o texto várias vezes até criar uma maior familiaridade. Pronunciar bem as palavras. Entrar em contato com o texto utilizando-se de muita atenção, respeito, escuta... É preciso ver o texto dentro do seu contexto e origem.

✓ Iniciar invocando a luz do Espírito Santo; ✓ Fidelidade ao texto bíblico;

✓ Leitura lenta e atenta do texto;

✓ Momento de silêncio interior para lembrar o que leu; ✓ Se for preciso, leia o texto quantas vezes forem necessárias;

✓ Procure identificar as coisas importantes deste trecho da Bíblia: o ambiente, os personagens, os diálogos, as imagens usadas, as ações;

✓ É um momento para conhecer e reconhecer a Boa Notícia que este trecho nos traz!  Pergunta ao texto: o que o texto diz?

2) A meditação do Texto Bíblico

Esse passo é um convite para que se atualize o texto e consiga trazê-lo para dentro do horizonte da vida e da realidade. A meditação é um ótimo espaço para que se medite e reflita o que há de semelhante e diferente entre a situação do texto com o hoje.

Depois, é importante resumir tudo o que foi ruminado numa frase. Essa frase o ajudará a recordar durante o dia o que foi meditado. É um prolongamento da meditação. Aos poucos vai havendo uma relação do que foi meditado com a vida de quem está meditando.

✓ Ver bem o sentido de cada frase;

✓ Momento de saborear a Palavra de Deus;

✓ Você, diante de Deus, deve confrontar este trecho com a sua vida; ✓ Atualizar o texto para a sua vida;

✓ Ampliar o texto para outros textos bíblicos.  Pergunta ao texto: o que o texto me diz? 3) A oração do Texto Bíblico

Praticamente a oração está presente em todas as etapas. É importante que haja uma transparência no ato da oração e que o orante seja realista. Ele pode usar o momento tanto para louvor, ação de graças, súplica, pedido de perdão, rezar algum salmo, recitar preces já existentes. É importante que esse momento possa ajudá-lo na reflexão da frase escolhida.

✓ É o momento de responder a Deus

✓ Esta oração é um momento muito pessoal que diz respeito apenas à pessoa e Deus. ✓ É um diálogo pessoal!

✓ Fale o que vai no coração depois da meditação: • Se for louvor, louve;

• Se for pedido de perdão, peça perdão;

• Se for necessidade de maior clareza, peça a luz divina; • Se for cansaço e aridez, peça os dons da fé e esperança.  Pergunta ao texto: o que o texto me faz dizer a Deus?

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4) A contemplação da Palavra de Deus

Depois de ler, meditar e orar o texto bíblico e sua realidade chegou a hora de contemplar todo esse percorrido. "A contemplação nos ajuda a entender que Deus está presente na realidade". Pela contemplação é possível perceber a presença de Deus. E com isso somos convidados ao compromisso com a realidade.

✓ Ver a realidade com os olhos de Deus ✓ Formular um compromisso de vida ✓ Se colocar a serviço de Deus

✓ A Palavra de Deus semeada no seu coração, produza frutos como: paz, sorriso, decisão, caridade, bondade

✓ Escolher uma frase-resumo para memorizar.  Pergunta ao texto: o que o texto me leva a assumir?  Termine com a oração do Pai Nosso...

14.4.1 - Resumindo o método

1. A leitura responde a pergunta: O que diz o texto?

2. A meditação responde: O que diz o texto para mim, para nós? 3. A oração responde: O que o texto me faz dizer a Deus?

4. E a contemplação ajuda a responder: Estou pronto para nova missão?

1.4.5 - Leitura orante de Jo 4,1-41: A Samaritana

Jesus está no território dos Samaritanos. Os judeus e Samaritanos se desentendiam por razões históricas (2Rs 17,24-32). Os Samaritanos eram uma população mista: judeus e não judeus. Além do preconceito ligado à origem, existia também o preconceito religioso: os samaritanos adoravam Deus fora de Jerusalém. Chamar alguém de samaritano era o pior dos insultos, e Jesus recebeu tal apelido (Jo 8,48).

Jesus passa pela Samaria, o que não era costume dos judeus (3). Sendo homem, conversa normalmente com uma mulher (7). Sendo judeu, conversar com a samaritana, o que era proibido a um judeu (9). Aquela mulher tem uma história semelhante à de José do Egito.

Pede bebida a uma pessoa proibida, sem preocupar-se com as normas severas da pureza (7). Convive dois dias com os samaritanos (40). Conviver, comer e beber juntos era sinal de grande intimidade. A comunhão de mesa só era reservada para os da mesma religião.

Jesus encontra a samaritana perto do poço, lugar tradicional de reuniões informais e de conversas. Hoje, seria na praça ou na rodoviária. O poço era símbolo da sabedoria, o lugar dos encontros que marcam para sempre a vida das pessoas. Foi junto do poço que Isaac se apaixonou por Rebeca (Gn 24,10-27), Jacó se apaixonou opor Raquel (Gn 29,l-14) e Moisés se encontrou com Séfora, sua futura esposa (Ex 2,16-22). A samaritana, é portanto, a "esposa" que Jesus procura. É no meio dos marginalizados que Jesus encontra sua "esposa" e esta encontra o sentido de sua vida.

Jesus parte da necessidade bem concreta da sua própria sede. Pela pergunta de Jesus a samaritana descobre que ele precisa dela para poder resolver o problema da sede. Jesus desperta nela o gosto de ajudar e servir.

O uso simbólico da água tem raiz na vida, na história e na tradição do povo. Sugerindo o sentido simbólico da água, ele avoca na samaritana o Primeiro Testamento, onde é freqüente a mística da água como símbolo da ação de Deus nas pessoas. Jeremias, por exemplo, opõe a água viva da fonte à água da cisterna (Jr 2,13).

1) Imagens Joaninas no texto da Samaritana

=> Samaria, perto da região que Jacó doou a seu filho José (Gn 48,21-22).

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=> A mulher Samaritana sofreu em sua vida de forma semelhante a José. Exilada, escravizada. Como José levou a salvação a Israel, ela levará aos samaritanos.

=> A água viva da fonte (Jr 2,13: Is 58,11). A água do poço de Jacó já não basta. É necessária a água viva oferecida por Jesus.

=> O Templo (2 Rs 17,27-33; Dt 12,5; Ex 20,24). Jesus é o novo Templo.

=> Os cinco maridos evocam os cinco povos samaritanos com seus ídolos (2Rs 17,29-30).

=> Jesus é reconhecido como "Salvador" (Gô'êl) do mundo inteiro. Libertador, Redentor, advogado, defensor, paráclito, consolador, parente mais próximo. (Lv 25,25; Rt 2-4; Lv 25,47-49).

=> "Sei que o Messias vem". Essa frase evoca toda a esperança do povo.

=> A afirmação "Eu sou" evoca o Ex 3,14-15 e Os 1,9 (Jo 6,26:8,24.25.58; 13,19). => Hora sexta (12h para os judeus), é o momento máximo da luz do dia. Jesus é a Luz!

=> A samaritana anuncia Jesus a partir da sua própria experiência: "Vejam ver um homem que me disse tudo o que eu fiz" e a partir da sua própria tradição e cultura: "Será que ele é o Messias"?

=> Jesus diz que a adoração verdadeira não será mais em Jerusalém ou no Monte Garazim, mas a em Espírito e verdade, na sua própria pessoa, conduzida pelo Espírito.

“Na imagem poética de Jeremias, o Senhor é fonte de água viva (Jr 17.13), de água que vivifica, numa palavra, é fonte de vida, como reconhece o orante do salmo: “pois em ti se encontra a fonte de vida” (Sl 36.10)”

2) O caminho da Samaritana

=> No começo, a mulher só pensa na água material... => Aos poucos compreende e aceita a proposta de Jesus; => No início, ela vê nele apenas um judeu viajante; => Após escutar Jesus, ela o chama de "Senhor"; => Em seguida, reconhece que Jesus é um Profeta; => No final, descobre nele o Messias esperado pelo povo. => Abandona o balde e corre até a cidade para anunciar Jesus.

=> Esta mulher, após escutar Jesus como DISCÍPULA, torna-se MISSIONÁRIA de Cristo, antes mesmo dos Apóstolos...

=> Pessoas se convertem por causa do seu testemunho (39) 3) O poço como lugar de encontro

=> O poço era símbolo da sabedoria, o lugar dos encontros que marcam para sempre a vida das pessoas. => Foi junto do poço que Isaac se apaixonou por Rebeca (Gn 24,10-27);

=> Junto do poço Jacó se apaixonou por Raquel (Gn 29,l-14).

=> Em torno de um poço Moisés se encontrou com Séfora, sua futura esposa (Ex 2,16-22).

=> A samaritana, é portanto, a "esposa" que Jesus procura. É no meio dos marginalizados que Jesus encontra sua "esposa“.

=> É em Jesus que a Samaritana (a esposa) encontra o sentido de sua vida. 4) O poço, a sede e a água

=> A água é o principio de todos os seres, conforme afirmou Tales de Mileto. => Jesus parte de uma necessidade concreta: a sua própria sede.

=> Pela pergunta a Samaritana descobre que Jesus precisa dela para saciar a sua sede: sede de humanidade, de vida.

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=> O uso simbólico da água tem raiz na vida, na história e na tradição do povo.

=> No sentido simbólico da água, a Samaritana representa o Primeiro Testamento, onde a mística da água é símbolo da ação de Deus nas pessoas (Ex 14,5-31; 17,6; Js 3,7-17; Ez 47,1-12).

=> Jesus se revela como a água, a fonte da vida eterna (4,14). 5) A água do poço

=> É símbolo de todas as satisfações humanas... => Essa água não satisfaz plenamente.

=> Todos os dias precisamos voltar ao poço... => Precisamos sempre de satisfações.

6) A água de Jesus

=> As águas do poço não mais satisfazem a sede humana... => É o espírito de Deus, que enche os corações.

=> Só Cristo mata totalmente a sede de vida e felicidade do homem. => Essa água nos faz pensar também no BATISMO,

=> O nosso batismo foi o nosso primeiro encontro com Jesus.

=> A água viva é o dom de Jesus, (Jo 4,14) que flui do seu lado aberto, “é o dom do amor omunicado, em correspondência com o sangue, o amor que Jesus demonstra dando vida (Jo 19,34)”

7) O poço e a busca humana ...

=> No passado, o POÇO sempre foi um lugar de ENCONTRO.

=> Os homens continuam ainda procurando um Poço, para saciar sua sede profunda de vida. => Buscam cada vez mais "coisas" para saciá-la e nada os satisfaz.

=> Cristo continua vindo ao nosso encontro.

=> Senta perto do nosso poço e nos diz: "Quem tiver sede... venha a mim... e beba...".

=> A água oferecida por Jesus é o manancial que brota no interior da pessoa e flui para a vida eterna.

14.6 - Questionário para aprofundamento

1. Nas suas palavras, o que é a Leitura Orante da Bíblia?

2. Quais os passos necessários para se fazer a Leitura Orante da Bíblia? 3. Quais os passos (metodologia) para a Leitura Orante da Bíblia?

4. Quais as 04 perguntas necessárias na metodologia da Leitura Orante da Bíblia? 5. Qual a consequência final da Leitura Orante da Bíblia (que atitude tomar?)? 6. Qual a relação da Samaritana com José e o Povo de Deus?

7. Quem é a Samaritana?

8. Como a Samaritana identifica Jesus?

9. Qual a diferença da Samaritana com o fariseu Nicodemos? Explique! 10. Faça uma relação da água to texto de Ez 47,1-12; Jo 4,14 e Jo 19,34.

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Referências

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