A INTERNACIONALIZAÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS
Gabriela Maciel Lamounier Assunção José Luiz Quadros de Magalhães
A INTERNACIONALIZAÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS
Gabriela Maciel Lamounier Assunção1
Advogada, especialista em Direito Processual pelo Instituto de Educação Continuada da PUC/MG, mestranda em Direito Público com linha de pesquisa em Direitos Humanos, Processo de Integração e Constitucionalização do Direito Internacional PUC/MG. Professora de Direito Penal do Instituto Belo Horizonte de Ensino Superior – IBHES.
José Luiz Quadros de Magalhães
Graduação em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais (1986), graduação em Língua e Literatura Francesa pela Universidade Nancy II (1983), mestrado em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais (1991) e doutorado em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais (1996). Atualmente é professor titular da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, professor adjunto da Universidade Federal de Minas Gerais e professor do programa de mestrado da Faculdade de Direito do Sul de Minas. É presquisador do Instituto de Investigações Juridicas da Universidade Autonoma do México e professor convidado do doutorado da Universidade de Buenos Aires. Foi corrdenador do programa de pós-graduação em Direito da Universidade Federal de Minas Gerais; membro da Comissão de Direitos Humanos da OAB-MG; Procurador Geral da UFMG; Presidente do Conselho Estadual de Direitos Humanos de Minas Gerais; Diretor do Curso de Direito das Faculdades Metodistas Integradas Izabela Hendrix e do Centro de Estudos Estratégicos em Direito do Estado; foi também coordenador acadêmico e professor da Fundação Escola Superior do Ministério Público de Minas Gerais. Lecionou em diversos Estados da federação e tem diversos livros e artigos cientificos e jornalisticos publicados. Realizou pesquisas e palestras em diversos países na América, Europa e Africa. Tem experiência na área de Direito, com ênfase em Direito Constitucional, Internacional, Teoria do Estado e da Constituição, atuando principalmente nos seguintes temas: democracia, federalismo, direitos humanos, poder, ideologia e constituição.
Resumo
1
Professora universitária. Especialista em Direito Processual pelo Instituto de Educação Continuada da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, mestra em Direito Público pela PUC/MG. Doutoranda em Direito Público pela PUC/MG.
O objetivo do presente artigo é abordar a proteção dos direitos humanos no plano internacional, analisando o processo de internacionalização desses direitos.
Palavras-chaves: Direitos Humanos; Direito Internacional; Proteção.
Abstract
The aim of this article is to address the protection of human rights at international level, examining the process of internationalization of these rights.
Key-words
Human Rights, International Law, Protection.
SUMÁRIO
1. Introdução; 2. Direitos Humanos: conceito e finalidade; 3. As dimensões de Direitos Humanos; 4. Processo de internacionalização dos Direitos Humanos; 4.1 Antecedentes históricos; 4.2 Sistemas e Instrumentos de proteção aos Direitos Humanos; 4.2.1 Sistema Global; 4.2.2 Sistema Regional; 5. Conclusão; Referências Bibliográficas
1. INTRODUÇÃO
O Direito Internacional dos Direitos Humanos é um ramo do Direito Internacional Público que tem seus próprios princípios, autonomia e especificidade.
Com a aceitação da pessoa humana como sujeito de Direito Internacional, afasta-se definitivamente a ideia de soberania estatal absoluta que considerava os Estados e as Organizações Internacionais os únicos sujeitos de Direito Internacional.2
O processo de internacionalização dos direitos humanos iniciou-se após a Segunda Guerra Mundial, tendo como marco inicial a proclamação da Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948. Os acordos que visam resguardar e proteger os direitos da pessoa humana nasceram, principalmente, em resposta às atrocidades cometidas pelos nazistas na era Hitler.3 Os Estados foram obrigados a criar normas internacionais protetivas dos direitos humanos, o que se tornou um dos principais objetivos da sociedade internacional.4
2. DIREITOS HUMANOS: CONCEITO E FINALIDADE
Diversos foram os conceitos atribuídos aos direitos humanos ao longo de sua historicidade. Esta diversidade de conceitos justifica-se pelas perspectivas nas quais são considerados. São elas:5
1ª) Perspectiva filosófica ou jusnaturalista: direitos humanos são direitos naturais, inerentes à pessoa humana em qualquer tempo e lugar. São absolutos e imutáveis.
Para José Luiz Magalhães, a naturalização dos direitos humanos é algo arriscado, uma vez que dá ao Poder a legitimidade de dizer o que é natural. Sendo os direitos humanos históricos, e não naturais,
2
O Direito Internacional Clássico reconhecia a condição de sujeito internacional somente aos Estados.
3
Foi criado o Tribunal de Nuremberg para julgar os responsáveis pelas atrocidades cometidas na Alemanha.
4
MAZZUOLI, Valério. Direitos Humanos, cidadania e educação. Uma nova concepção
introduzida pela Constituição Federal de 1988. Disponível em
www.jus2uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=2074. Acesso em 11 de dezembro de 2006.
5
BORGES, Alci Marcus Ribeiro. Direitos Humanos: Conceitos e Preconceitos. Disponível em www.jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=9225. Acesso em 10 de janeiro de 2007.
o homem é o autor da história, responsável pela construção do conteúdo de desses direitos de acordo com suas lutas sociais.6
2ª) Perspectiva universalista: direitos humanos são direitos de todas as pessoas em qualquer lugar, presentes em tratados, pactos ou convenções, para legitimar sua proteção.
3ª) Perspectiva constitucionalista: direitos humanos são direitos de certos grupos de pessoas em um determinado lugar e tempo. São direitos positivados nas Constituições com status de direitos fundamentais.
Direitos Humanos em âmbito internacional é o conjunto de normas subjetivas e adjetivas do Direito Internacional que visa assegurar ao indivíduo, de qualquer nacionalidade, os instrumentos e mecanismos de defesa contra os abusos de poder de um Estado.7
São características dos direitos humanos: a universalidade e a indivisibilidade. Os direitos humanos são universais porque basta ser pessoa para ser titular desses direitos. São indivisíveis porque os direitos civis e políticos hão de ser somados aos direitos econômicos, sociais e culturais. Não há hierarquia entre esses direitos.
Como afirma Alexandre Moraes, a satisfação de um deles depende da satisfação de outro. Eles não podem ser interpretados isoladamente.8
Segundo Bobbio os direitos humanos são inalienáveis, ou seja, são intransferíveis, não podem ser doados ou vendidos9 e nem mesmo ser objeto de renúncia.
Para este autor, os direitos humanos estão sujeitos às atividades de promoção, controle e garantia. Atividades de promoção são conjuntos de ações visando introduzir a disciplina específica de
6
MAGALHÃES, José Luiz Quadros de. A Busca do Real: ideologia, economia e política na contemporaneidade. Material disponibilizado durante as aulas.
7
BORGES, Alci Marcus Ribeiro. Breve introdução ao Direito Internacional dos Direitos Humanos. Disponível em www.jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=9228. Acesso em 04 de fevereiro de 2010.
8
MORAES, Alexandre de. Direitos humanos fundamentais. 5. ed. São Paulo: Atlas, 2003.
9
BOBBIO, Norberto. A era dos direitos. 9. ed. Tradução de Carlos Nelson Coutinho. Rio de Janeiro: Campus, 1992.
direitos humanos nos Estados ou aperfeiçoá-la nos Estados que já a possui. Atividades de controle são medidas através das quais os organismos internacionais verificam se os Estados estão cumprindo suas obrigações para com os direitos humanos. Atividades de garantia consistem na criação de uma nova jurisdição e implementação da garantia internacional quando a nacional não for suficiente ou não existir.10
O relativismo cultural não pode ser usado para justificar as violações aos direitos humanos. As diversas culturas contribuem para a universalidade dos direitos humanos. Nos dizeres de Cançado Trindade:
A diversidade cultural, bem entendida, não se configura, pois, como um obstáculo à universalidade dos direitos humanos; do mesmo modo, afigura-se-nos insustentável evocar tradições culturais para acobertar, ou tentar justificar, violações dos direitos humanos universais.
Assim como todo ser humano busca a realização de suas aspirações, busca a sua verdade, cada cultura é uma expressão – em comunicação de cada ser humano com o mundo exterior. Assim, nenhuma cultura é detentora da verdade última, dão que todas ajudam os seres humanos na compreensão do mundo que os circunda e na busca de sua auto-realização.11
A finalidade precípua dos direitos humanos em âmbito internacional é a proteção efetiva da dignidade da pessoa humana.
3. AS DIMENSÕES DE DIREITOS HUMANOS
10
BOBBIO, Noberto. In: MOISÉS, Cláudia Perrone. O princípio da complementaridade no Estatuto do Tribunal Penal Internacional e a soberania contemporânea. Revista Política Externa. São Paulo. Volume 8, nº 4, p. 03 a 11, Mar/Abr/Mai 2000.
11
TRINDADE, Antônio Augusto Cançado. Tratado de Direito Internacional dos Direitos Humanos. Vol. III. Porto Alegre: Sérgio Antônio Fabris, 2003, p.305.
Dimensões dos Direitos Humanos são denominadas por alguns autores de “Gerações dos Direitos Humanos” como, por exemplo, Manoel Gonçalves Ferreira Filho.
Valério Mazzuoli, Cançado Trindade e Flávia Piovesan, criticam esta denominação, alegando que a noção de “gerações” é histórica e juridicamente infundada. Os direitos humanos não se sucedem, uma geração não substitui a outra, na verdade elas se complementam. É um fenômeno de expansão, e não de substituição ou sucessão.12
Gilmar Mendes esclarece que a denominação “gerações” tem o objetivo de situar o surgimento desses grupos de direitos humanos no decorrer da evolução da humanidade.13
Segundo Ferreira Filho, as gerações
são os grandes momentos de conscientização em que se
reconhecem “famílias” de direitos. Estes têm
características jurídicas comuns e peculiares. Ressalve-se, no entanto, que, no concernente à estrutura, há direitos, que embora reconhecidos num momento histórico posterior, têm a que é típica de direitos de outra geração. 14
Primeira Dimensão: os direitos de primeira dimensão ou geração são os direitos individuais, direitos de liberdade, resultado das teorias filosóficas do Iluminismo e liberais e das lutas da burguesia contra o absolutismo, contra o poder arbitrário do Estado. É a afirmação dos direitos do homem em face do Estado. São os direitos civis e políticos.15
12
PIOVESAN, Flávia. Direitos Humanos e o Direito Constitucional Internacional. 9. Ed. São Paulo: Saraiva, 2008.
13
MENDES, Gilmar Ferreira; COELHO, Inocêncio Mártires; BRANCO, Paulo Gustavo Gonet. Curso de Direito Constitucional. 2. ed. São Paulo: Saraiva, 2008.
14
FERREIRA FILHO, Manoel Gonçalves. Direitos Humanos Fundamentais. 10.ed. São Paulo: Saraiva, 2008, p. 06.
15
MARTINS, Daniele Comin. Direitos Humanos: Historicidade e contemporaneidade. In: BOUCAULT, Carlos Eduardo de Abreu; ARAÚJO, Nádia de. (Org.) Os direitos humanos e o Direito Internacional. Rio de Janeiro: Renovar, 1999, p. 260.
Segunda Dimensão: é uma complementação aos direitos humanos de primeira geração. São os direitos coletivos ou sociais, inspirados pelo socialismo.16
Segundo Manoel Gonçalves Filho17, essa dimensão surgiu após a Primeira Guerra Mundial. O Pacto Internacional de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais foi o primeiro e único instrumento jurídico que conferiu a obrigação de proteger os direitos dessa geração.18
Terceira Dimensão: diz respeito à proteção da dignidade da pessoa humana. Surgiu devido às graves atrocidades ocorridas durante a Segunda Guerra Mundial.19
São os direitos de solidariedade e fraternidade, voltados para a proteção da coletividade, como, por exemplo, direito ao meio ambiente saudável e equilibrado, direito ao desenvolvimento e direito ao patrimônio comum da humanidade, como exemplifica Ferreira Filho.20
Quarta Dimensão: são os biodireitos.21 22 , direitos relativos à genética.
16
MARTINS, Daniele Comin. Direitos Humanos: Historicidade e contemporaneidade. In: BOUCAULT, Carlos Eduardo de Abreu; ARAÚJO, Nádia de. (Org.) Os direitos humanos e o Direito Internacional. Rio de Janeiro: Renovar, 1999, p. 261.
17
FERREIRA FILHO, Manoel Gonçalves. Direitos Humanos Fundamentais. 10.ed. São Paulo: Saraiva, 2008.
18
ALVES, José Augusto Lindgren. A arquitetura internacional dos direitos humanos. São Paulo: FTD, 1997, p. 44.
19
MARTINS, Daniele Comin. Direitos Humanos: Historicidade e contemporaneidade. In: BOUCAULT, Carlos Eduardo de Abreu; ARAÚJO, Nádia de. (Org.) Os direitos humanos e o Direito Internacional. Rio de Janeiro: Renovar, 1999. p. 263.
20
FERREIRA FILHO, Manoel Gonçalves. Direitos Humanos Fundamentais. 10.ed. São Paulo: Saraiva, 2008.
21
Biodireitos são os direitos relativos à biologia, especialmente à genética. Alguns autores alegam que os direitos de quarta dimensão os direitos relativos à globalização, como, por exemplo, o direito à democracia.
22
MARTINS, Daniele Comin. Direitos Humanos: Historicidade e contemporaneidade. In: BOUCAULT, Carlos Eduardo de Abreu; ARAÚJO, Nádia de. (Org.) Os direitos humanos e o Direito Internacional. Rio de Janeiro: Renovar, 1999. p. 264.
4. PROCESSO DE INTERNACIONALIZAÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS
Com o surgimento da Organização das Nações Unidas em 1945 e com a proclamação Declaração Universal dos Direitos Humanos em 1948, o processo de internacionalização dos direitos humanos começou a se desenvolver. Surgiram inúmeros tratados internacionais visando proteger os direitos fundamentais do homem. As normas internacionais começaram a proteger os direitos humanos contra o próprio Estado.
4.1 ANTECEDENTES HISTÓRICOS
A Segunda Guerra Mundial foi o fato histórico que impulsionou o processo de internacionalização dos direitos humanos ao demonstrar a necessidade de uma ação internacional que protegesse de forma eficaz os direitos humanos. Buscou-se a reconstrução de um novo paradigma, onde a soberania estatal deixa de ser absoluta.
Neste sentido, Flávia Piovesan afirma que,
A necessidade de uma ação internacional mais eficaz para a proteção dos direitos impulsionou o processo de internacionalização desses direitos, culminando na criação da sistemática normativa de proteção internacional, que faz possível a responsabilização do
Estado no domínio internacional, quando as
instituições nacionais se mostram falhas ou omissas na tarefa de proteção dos direitos humanos.23
23
PIOVESAN, Flávia. Direitos Humanos e o Direito Constitucional Internacional. 3.ed. São Paulo: Max Limonad, 1997, p. 141.
As fontes históricas do processo de internacionalização dos direitos humanos são: o Direito Humanitário, a Liga das Nações e a Organização Internacional do Trabalho24.
O Direito Humanitário trata, em âmbito internacional, da proteção humanitária em casos de guerra, ou seja, proteção às pessoas, combatentes ou não. Esclarece Sidney Guerra que o Direito Humanitário trata de normas que garantem a proteção dos envolvidos em combate, sejam militares ou civis que estejam doentes, feridos ou que foram presos.25
Nos dizeres de Flávia Piovesan “o Direito Humanitário foi a primeira expressão de que, no plano internacional, há limites à liberdade e à autonomia dos Estados, ainda que na hipóteses de conflito armado”. 26
A Liga das Nações, criada após a Primeira Guerra Mundial através do Tratado de Versalhes, teve como objetivo buscar a paz e a cooperação internacional, estabelecendo compromissos internacionais e de execução coletiva.27
A Organização Internacional do Trabalho (1919) promulgou inúmeras convenções internacionais, buscando estabelecer padrões mínimos para a obtenção de melhores condições de trabalho.
Segundo Gilmar Mendes28, a OIT contribuiu, e ainda contribui, para que os direitos ligados à dignidade da pessoa humana sejam respeitados internacionalmente, independente do Estado que o trabalhador seja nacional.
24
OIT: abreviação de Organização Internacional do Trabalho.
25
GUERRA, Sidney. Direitos Humanos: na ordem Jurídica Internacional e Reflexos na Ordem Constitucional Brasileira. Rio de Janeiro: Lumem Juris, 2008.
26
PIOVESAN, Flávia. Direitos Humanos e o Direito Constitucional Internacional. 9.ed. São Paulo: Saraiva, 2008, p. 112.
27
GODINHO, Fabiana de Oliveira. A proteção internacional dos Direitos Humanos. Belo Horizonte: Del Rey, 2006.
28
MENDES, Gilmar Ferreira; COELHO, Inocêncio Mártires; BRANCO, Paulo Gustavo Gonet. Curso de Direito Constitucional. 2. ed. São Paulo: Saraiva, 2008.
Para Emerson Garcia, a OIT “demonstra o anseio da sociedade internacional em ver respeitados determinados direitos sociais do trabalhador”.29
Em síntese, foram importantes porque o Direito Humanitário tratou, em âmbito internacional, da proteção humanitária em casos de guerra. A Liga das Nações, além de buscar a paz e a cooperação internacional, expressou disposições referentes aos direitos humanos. A OIT promulgou inúmeras convenções internacionais, buscando a proteção da dignidade da pessoa humana no direito trabalhista.
4.2 SISTEMAS E INSTRUMENTOS DE PROTEÇÃO AOS DIREITOS HUMANOS
A Carta das Nações Unidas foi o documento que fundou a Organização das Nações Unidas30 em 1945. A promoção dos direitos humanos passa a ser a finalidade da ONU.
Iniciou-se o processo de proteção universal dos direitos humanos como mostra o artigo 55 da Carta da ONU:
Art. 55. “(...) as Nações Unidas favorecerão:
c) o respeito universal e efetivo dos direitos humanos e das liberdades fundamentais para todos, sem distinção de raça, sexo, língua ou religião.”31
Como ensina Flávia Piovesan, a internacionalização dos direitos humanos conjugada com a multiplicação dos mesmos, resultou em
29
GARCIA, Emerson. Proteção Internacional dos Direitos Humanos: Breves reflexões sobre os Sistemas Convencional e Não-Convencional. 2.ed. Rio de Janeiro: Lumem Juris, 2009, p. 22.
30
ONU: abreviação para Organização das Nações Unidas.
31
MAZZUOLI, Valério de Oliveira. Coletânea de Direito Internacional. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2005, p. 44.
um sistema internacional de proteção de tais direitos, marcado pela existência mútua do sistema geral e do sistema regional.32
4.2.1 Sistema Global
Surge no âmbito da Organização das Nações Unidas um sistema global de proteção aos direitos humanos.
Esse sistema tem caráter geral, como, por exemplo, o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos e Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais Tem também caráter específico, como, por exemplo, as Conferências Internacionais.33
Seus principais instrumentos são: Declaração Universal dos Direitos Humanos, Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos e Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais.34
Promulgada em 1948, a Declaração Universal dos Direitos Humanos traz em seu texto direitos políticos, civis, econômicos, sociais e culturais (artigos 1º ao 28), prezando pela liberdade, igualdade e fraternidade.
Adota uma nova concepção de direitos humanos, consagrando-os como universais, indivisíveis e interdependentes. Os direitconsagrando-os civis e políticos formam com os direitos econômicos, sociais e culturais uma unidade indivisível e interdependente. A sociedade internacional deve tratar os direitos humanos como um todo, de forma eqüitativa.35
32
PIOVESAN, Flávia. Direitos Humanos e o Direito Constitucional Internacional. 3.ed. São Paulo: Max Limonad, 1997, p.201.
33
MAZZUOLI, Valério de Oliveira. A proteção internacional dos direitos humanos e o Direito Internacional do meio ambiente. Revista de Direito Ambiental, São Paulo, ano 9, n. 34, p. 100, abril/junho de 2004.
34
MAZZUOLI, Valério. Direitos Humanos, cidadania e educação. Uma nova concepção
introduzida pela Constituição Federal de 1988. Disponível em\z
www.jus2uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=2074 Acesso em 11 de dezembro de 2006.
35
BORGES, Alci Marcus Ribeiro. Breve introdução ao Direito Internacional dos Direitos Humanos. Disponível em www.jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=9228. Acesso em 04 de fevereiro de 2007.
O Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos (1966) amplia o rol de direitos civis e políticos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. São direitos auto-aplicáveis. Este pacto constituiu o Comitê de Direitos Humanos e reconhece a universalidade, a inalienabilidade e a indivisibilidade desses direitos.36 Defende os princípios da autodeterminação dos povos, da igualdade, da dignidade da pessoa humana entre outros.
O Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (1966) amplia o rol de direitos econômicos, sociais e culturais da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Também reconhece a universalidade, a inalienabilidade e a indivisibilidade desses direitos e traz regras de direito trabalhista. Os direitos econômicos, sociais e culturais são programáticos, de aplicação progressiva.37
Hoje existem diversos mecanismos no Sistema Global para garantir os direitos civis, políticos, econômicos, sociais e culturais. Foram realizadas várias conferências que possibilitaram a evolução e a própria internacionalização dos direitos humanos. Algumas delas: Convenção contra o Genocídio (1948); Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação contra a Mulher (1979); Conferência Mundial sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento (ECO/92); Conferência Mundial sobre Direitos Humanos (Viena - 1993); Conferência Mundial sobre População e Desenvolvimento (Cairo - 1994); Conferência Mundial sobre os Direitos da Mulher (1995); Istambul: Conferência Mundial sobre Assentamentos Humanos (1996); Conferência Mundial sobre Racismo, Xenofobia e Intolerância Correlata (Durban - 2001); Conferência Mundial sobre Financiamento para o Desenvolvimento (Monterrey - 2002).
36
BORGES, Alci Marcus Ribeiro. Breve introdução ao Direito Internacional dos Direitos Humanos. Disponível em www.jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=9228. Acesso em 04 de fevereiro de 2007.
37
BORGES, Alci Marcus Ribeiro. Breve introdução ao Direito Internacional dos Direitos Humanos. Disponível em www.jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=9228. Acesso em 04 de fevereiro de 2007.
4.2.2 Sistema Regional
Os Sistemas Regionais de proteção dos direitos humanos buscam a internacionalização desses direitos no plano regional. São os principais sistemas regionais: o Sistema Interamericano de proteção dos Direitos Humanos, o Sistema Europeu de proteção dos Direitos Humanos e o Sistema Africano de proteção dos Direitos Humanos.
Quanto ao Sistema Interamericano de proteção dos Direitos Humanos, são seus principais instrumentos, dentro da Organização dos Estados Americanos –OEA: Convenção Americana sobre Direitos Humanos (Pacto de São José da Costa Rica - 1969), o Protocolo de São Salvador e o Protocolo Adicional à Convenção Interamericana de Direitos Humanos.
O Pacto de São José da Costa Rica38 é um tratado de direitos humanos em nível interamericano que trata de direitos civis e políticos que prevê a Comissão Interamericana de Direitos Humanos e a Corte Interamericana de Direitos Humanos. O Protocolo de São Salvador (1988) é o protocolo adicional à Convenção Interamericana de Direitos Humanos que trata dos direitos econômicos, sociais e culturais. Por fim, o Protocolo Adicional à Convenção Interamericana de Direitos Humanos (1990) é o protocolo relativo à abolição da pena de morte.
O Sistema Africano de proteção dos Direitos Humanos funciona dentro da Organização das Unidades Africanas (OUA) e possui como principal instrumento a Carta Africana dos Direitos do Homem e dos Povos de 1981.
O Sistema Europeu de proteção dos Direitos Humanos que funciona no plano europeu baseia-se na Convenção Européia para a proteção dos Direitos Humanos e das Liberdades Fundamentais de 1950, seu principal instrumento.
38
Esses instrumentos de proteção, gerais e regionais, são complementares uns aos outros. O indivíduo que teve um direito violado, pode escolher a qual sistema recorrerá, optando pelo mais benéfico, quando seu direito for tutelado por mais de um instrumento.39
5. CONCLUSÃO
O processo de internacionalização dos direitos humanos tem como principais antecedentes históricos o Direito Humanitário, a Liga das Nações e a Organização Mundial do Trabalho.
O relativismo (diversidade) cultural não pode ser invocado para justificar a violação aos direitos humanos. Prevalece a tese universalista, afirmando-se ser dever dos Estados a promoção e garantia desses direitos.
A observância dos direitos humanos é assunto de interesse internacional, de toda a sociedade. A internacionalização dos direitos humanos afasta definitivamente o conceito de soberania absoluta o qual considerava que o Estava era o único sujeito de Direito Internacional.
Além disso, permite a responsabilização dos Estados pelas violações aos direitos humanos, demonstrando possuir o Estado soberania relativa e ser o indivíduo sujeito de Direito Internacional Público. É dever dos Estados proteger os direitos humanos.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
39
PIOVESAN, Flávia. Direitos Humanos e o Direito Constitucional Internacional. 9.ed. São Paulo: Saraiva, 2008.
ALVES, José Augusto Lindgren. A arquitetura internacional dos direitos humanos. São Paulo: FTD, 1997.
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Preconceitos. Disponível em
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