XIV ERIC – (ISSN 2526-4230)
XIV ERIC – (ISSN 2526-4230)
AS CORES DA VERDADE: UMA ANÁLISE DOS LIMITES ENTRE REALIDADE E FICÇÃO NA LITERATURA
Ruan Fellipe Munhoz (UEM) [email protected] Marcos Vinicius Rodrigues da Costa (UEM) [email protected] COMUNICAÇÃO ORAL
1.
Romancistas e poetas podem nos revelar grandes verdades sobre a condição humana por meio da escrita, assim como cineastas e pintores podem evidenciar aspectos do real por meio das imagens. Para que haja a verossimilhança em uma obra literária, os escritores de ficção usam elementos do cotidiano para tornar seus trabalhos críveis aos olhos do leitor e o aproximar de aspectos da sua realidade.
Podemos observar grandes esforços dos escritores em realizar exaustivas pesquisas para criar ambientes autênticos em suas obras, como pode ser observado em A lista de Schindler, de Thomas Keneally, que, por cerca de dois anos, entrevistou sobreviventes salvos por Oskar Schindler (1908-1974) na Segunda Guerra Mundial, em países como Alemanha, Israel, Áustria e Austrália, com o intuito de apresentar ao seu público uma obra que representasse as dores e aflições de um momento histórico tão cruel.
Dessa forma, os autores nos transportam, por meio da leitura de textos ficcionais, a períodos históricos e lugares que podem ser narrados e descritos com alguma precisão. Outro exemplo disso é a peça Quebra-Quilos (2008), que discute a implantação do sistema métrico decimal no ano de 1874 e as revoltas da população com as novas medidas no sertão da Paraíba.
Os escritores de textos ficcionais nos fazem ver a tessitura da realidade, para que muitas de nossas (des)crenças possam ser suspensas, a fim de nos mostrar aspectos da realidade antes desconhecidos. Desse modo, apoiados na realidade, os escritores nos apresentam personagens e contextos que fazem com que pontos de vistas limitados do real sejam discutidos por um passeio através do tempo, acompanhado de conflitos e situações que se confundem com a própria realidade.
Em sua função corretiva, a literatura espelha as mazelas da sociedade com o objetivo de nos levar a perceber nossos erros e a uma elaboração de meios para enfrentar as situações reais. Por meio da literatura encontramos histórias projetadas para retratar a vida humana, através de algumas palavras, ações e reações que transmitem mensagens para fins de educação, informação e entretenimento.
Desse modo, é impossível encontrar uma obra literária que exclua essas atitudes, assim como a moral e os valores de uma sociedade, uma vez que nenhum escritor consegue, por completo, não expor o mundo ao seu redor. Assim, a literatura apresenta-se sob uma perspectiva individualista do autor e, a partir de um ponto de vista filosófico ou por mera criação da imaginação, nos permite ver a humanidade através dos olhos de outra pessoa, possibilitando a contemplação de aspectos da nossa sociedade entendidos de diferentes perspectivas.
Žižek (2003), em sua obra Bem-vindo ao deserto do real: cinco ensaios sobre o 11 de setembro e datas relacionadas, evidencia o conceito lacaniano de que, embora os animais tenham a capacidade de apresentar aquilo que é verdadeiro como falso, apenas os humanos, enquanto habitantes do espaço simbólico, possuem a habilidade de apresentar aquilo que é falso como verdadeiro. Segundo o filósofo materialista,
Não se deve tomar a realidade por ficção – é preciso ter a capacidade de discernir, naquilo que percebemos como ficção, o núcleo duro do Real que só temos condições de suportar se o transformarmos em ficção. Resumindo, é necessário ter a capacidade de distinguir qual parte da realidade é “transfuncionalizada” pela fantasia, de forma que, apesar de ser parte da realidade, seja percebida num modo ficcional. Muito mais difícil do que denunciar ou desmascarar como ficção (o que parece ser) a realidade é reconhecer a parte da ficção na realidade “real” (ŽIŽEK, 2003, p.36).
Assim, a partir de Žižek (2003), podemos conceber a literatura como um instrumento de reflexão da realidade, que levará os leitores a uma análise dos aspectos cotidianos apresentados por meio da ficção. Nesse sentido, a obra literária pode ser compreendida como um produto sócio-estético, uma vez que é produzida por um ente social (escritor), que transpõe a sua realidade ou a realidade de um povo e “ajuda os homens a tomar consciência de si mesmos e de suas próprias aspirações afetivas, intelectuais e práticas” (GOLDMANN, 2002, p. 64).
Assim sendo, muitas têm sido as tentativas de definir literatura. As teorias clássicas parecem acreditar em uma qualidade inerente que faz um texto ser literário, ou em um conjunto de qualidades presentes em algumas narrativas que apresentam a forma como o autor se relaciona com os aspectos formais da escrita. Poderíamos citar diferentes definições para o conceito de literatura, porém todas elas evidenciariam um caráter estruturalista e simplista de olhar para essas produções, visto que não existe uma característica comum que identifique todos os textos pertencentes a esse grupo. Ou, como bem afirma Terry Eagleton (2006, p. 13), “Não existe uma ‘essência' da literatura”.
Fundamentalmente, o que importa discutir na questão levantada é o fato do texto literário sempre ser analisado pelos interesses dos críticos. Isso quer dizer que essa prática sempre esteve fundada em posições ideológicas específicas. Nesse sentido, Belsey (1982) indica que a ideologia é praticada por um indivíduo de forma inconsciente, pois fazem uso de certos artifícios e discursos simplesmente por fazer parte de um determinado grupo. Nesse sentido, podemos concluir que
O que é verdade não é no entanto toda a verdade. A ideologia obscurece as condições reais de existência, apresentando verdades parciais. É uma série de omissões, com mais lacunas do que mentiras, atenuando as contradições, parecendo fornecer respostas a perguntas que na realidade ilude e disfarçando-se de coerência, no interesse das relações sociais geradas por e necessárias à reprodução do modo de produção existente (BELSEY, 1982, p. 65).
Trazendo a questão para a nossa discussão, percebemos que todos os críticos da literatura estão vinculados a determinados discursos ideológicos. Dessa forma, esses indivíduos atuam nas suas áreas com o objetivo de conservar e reproduzir determinadas ideologias e, por conseguinte, todas as teorias, por mais estáveis que sejam, podem ser desconstruídas e repensadas. Uma definição
sensata de literatura precisa considerar o conceito de ideologia, de subjetividade e precisa atender às necessidades de uma sociedade que se atualiza constantemente. Sendo assim, a literatura se constitui como um produto da subjetividade humana e, por isso, não passível de ser categorizada, por isso “também não é possível dizer que a literatura é apenas aquilo que, caprichosamente, queremos chamar de literatura” (EAGLETON, 2006, p. 24), da mesma forma que não precisamos aceitar as definições formuladas por alguém que se coloca numa posição privilegiada e autorizada a falar sobre o tema. Em síntese, podemos afirmar que não existe uma definição fixa para o conceito de texto literário, pois os juízos de valor são construídos histórica e subjetivamente e, por esse motivo, variáveis. Todos “Eles se referem, em última análise, não apenas ao gosto particular mas aos pressupostos pelos quais certos grupos sociais exercem e mantêm o poder sobre outros” (EAGLETON, 2006, p. 24).
2.
A partir dessa premissa podemos iniciar a análise de Hope: As cores da verdade, obra independente escrita pelo brasileiro M.V. Nery, em 2017. A história se passa em um futuro distópico, com os Estados Unidos não mais vivendo a realidade de outrora. Nesse novo contexto, dois homens ou duas mulheres não podem caminhar livremente pelas ruas e muito menos se apresentarem como família. O país, governado por um regime totalitário e centrado na teocracia, sofre com uma guerra civil de dominância religiosa. Nesse novo sistema, os indivíduos são tratados como propriedades do Estado, sendo obrigados a servir as necessidades da nação: elevar o nível de natalidade já que a humanidade foi devastada por um potente vírus.
A história é narrada pela perspectiva de Sam, um garoto homossexual de dezesseis anos que no início da narrativa, em meio a estrondos e violência, se vê obrigado a se fechar em um guarda-roupa para se proteger das ameaças até então desconhecidas por ele. Os estilhaços aumentam, sons de tiros são ouvidos, gritos e
muito desespero. O garoto permanece preso dentro do cubículo enquanto os homens fardados revistam cada centímetro da casa a sua procura.
Depois de algum tempo o personagem sai ileso, por compaixão de ume em meio à brutalidade de muitos. Ao sair do seu abrigo, ele se depara com o sangue dos seus dois pais mortos no mesmo espaço que até então servia de refúgio para esse menino que vivia isolado do mundo, sem contato com os meios de transmissão da ideologia patriarcalista, e, por isso, não compreendia a maldade e a intolerância exterior. Ingenuidade essa que é quebrada de forma abrupta, obrigando-o a entrar em contato com a violência do mundo.
Para entender a situação política vivida pelo personagem, somos enviados para além do ano de 2060, data anterior a atual, quando o planeta abrigava onze milhões de habitantes e os indivíduos prosperavam livres de doenças como a AIDS. A taxa de natalidade subia, elevando em demasia o número da população mundial. Por esse motivo, alguns problemas começam a surgir, fazendo com que se torne um caso de saúde pública que necessita da ação governamental para que a questão não evolua negativamente. Para isso o governo toma medidas drásticas para controlar a superpopulação, mandando esterilizar os homens e obrigando as famílias a terem apenas um filho. E, além disso, a igreja se vê forçada a legalizar e aceitar as famílias homoafetivas, devido o alto número de crianças disponibilizadas para a adoção. Essa atitude reflete uma sociedade que está mais pautada na razão e menos nas questões ligadas à religiosidade, o que naturalmente mexe com os ânimos da classe conservadora que decide romper com o pseudo momento de paz e criar estratégias para assumir novamente o seu poder na sociedade.
Nesse ínterim, surge no país norte-americano um surto viral extremamente devastador que assola as massas e serve de justificativa para os tradicionalistas reerguerem as vozes exclamando que aquele era sinal do apocalipse abalando a humanidade deteriorada pelo pecado. A cura chega pelas mãos de um religioso que atribui a sua conquista a Deus, fazendo com que a Igreja voltasse à sua posição de destaque. Nesse contexto, nos deparamos com um universo quase “Orwelliano” por meio da figura do Presidente Isaac Harper, que assume o poder na nação estadunidense após um golpe de estado. A figura de Harper é presente no livro como a voz da opressão à comunidade LGBT não apenas dos Estados Unidos, país
onde se desenvolve a história, mas para milhões de homossexuais ao redor do mundo. Seus desejos, baseados nos dogmas religiosos e na vontade divina, são leis que devem ser seguidas por todos aqueles que amam a Deus e a sua nação.
Após salvar o mundo da devastadora epidemia de H1N1, o Presidente Harper é adorado pela nação estadunidense, que o venera como salvador. Aproveitando-se dessa devoção do povo a sua figura redentora, o Presidente Harper modifica a lei da reeleição estadunidense, o que o tornaria eternamente presidente em um regime totalitário e ditatorial, uma vez que, como ele mesmo diz, apenas sairia de lá morto. Temos instaurado o Totalitarismo, algo que, durante a leitura da obra, nos faz estabelecer referências por diversas vezes a obra 1984, de George Orwell. A todo o momento o autor de Hope: as cores da verdade mostra ao leitor, muitas vezes da forma extrema, com sequências explosivas e sanguinárias, as consequências das políticas totalitárias que são abordadas em seu romance. A emblemática figura do “Grande irmão” de Orwell, que vigiava constantemente a população, é sutilmente reproduzida na obra, pois o Presidente Harper executa essa função de forma abstrata, já que possui um rosto e uma voz conhecida por todos, fazendo com que seus dizeres e ações totalitárias atuem como uma ferrenha patrulha do pensamento.
Com a devastação populacional causada pelo vírus, o mundo passa por uma situação oposta a anterior, já que se torna necessário repovoar a Terra e garantir que a humanidade tivesse continuidade. Agora, sob o domínio totalitário e teocrático, as leis que garantiam os direitos de homens e mulheres homossexuais são vetadas, fazendo com que eles passem a ser perseguidos e mortos. Dessa forma, começamos a ter contato com discursos religiosos como forma de opressão a tudo o que foge da naturalidade cristã, argumentos como a não reprodutibilidade do órgão excretor, a família tradicional e a afamada cura gay. Esse movimento que faz com que o leitor viaje ao futuro representado na literatura, ao mesmo tempo em que se volta para a realidade presente, refletindo e comparando as situações narradas com elementos do cotidiano vivido.
Em um dos momentos do livro, o justiceiro Sam livra um jovem das mãos sedentas por sangue de um grupo de Skinheads. Esse grupo era incentivado pelo governo a matar todos os homossexuais que estivessem circulando em locais
proibidos na sociedade. Travestis, transexuais e afeminados eram mortos sem a possibilidade de encaminhamento para a Hope, prisão destinada à comunidade LGBT, pois se entendia que esses grupos de homossexuais jamais alcançaria a “cura gay”.
Nesse horizonte de perspectiva, a narrativa localiza-se nas fronteiras da realidade e da ficção ao assemelhar-se ao atual contexto brasileiro, em que a vida de pessoas LGBT é banalizada por setores ultraconservadores. De acordo com relatório da ILGA (Associação Internacional de Lésbicas, Gays Bissexuais, Transgêneros e Intersexuais) o Brasil é o país com a maior taxa de homicídio de LGBT nas Américas1. Segundo estatísticas divulgadas pelo Grupo Gay da Bahia2,
para citar outro exemplo contundente, a cada 25 horas uma pessoa LGBT é vítima de homofobia no Brasil.
No romance, homossexuais são perseguidos por questões de gênero, em nome de uma matriz heterossexual e da formação de uma dicotomia de gênero operante que elimina qualquer forma de agir no mundo que transcenda uma vida normatizada e enviesada por este próprio binarismo de gênero. Ainda na narrativa, a perseguição aos homossexuais se dá por motivos cristãos, o que pode ser lido como eventos já vividos na sociedade brasileira, tais como a ditadura militar iniciada com a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, que culminou na perseguição e na violência àqueles que ousaram transcender as regras cristãs ou pelas alocuções homofóbicas e sexistas do deputado Jair Bolsonaro, que representam o discurso daqueles que demonizam a homossexualidade. Estes exemplos localizam a narrativa em questão nos limiares da realidade e da ficção, quando a arte representa a vida cotidiana.
Sam Hatfield representa, nessa realidade ficcionalizada, a resistência de milhares de homossexuais que lutam pelo direito de manifestarem o seu amor, uma vez que a vacina da “cura gay” os impossibilitava de manifestar o desejo pelo mesmo sexo e, de forma inesperada pelos cientistas, por pessoas do sexo oposto.
1 Dado disponíveis em:
https://catracalivre.com.br/geral/cidadania/indicacao/brasil-e-o-pais-que-mais-mata-lgbts-no-mundo-1-cada-25-horas/
2 Dados disponíveis em: https://grupogaydabahia.com.br/2017/01/24/relatorio-de-2016/ Acesso em 10
Assim, Sam é o símbolo de uma resistência que luta, acima de tudo, pelo amor, algo que lhes foi proibido sentir e viver. Além dessa resistência dos homossexuais perante esse regime totalitário, há também a resistência entre os próprios homossexuais, que se unem em comunidades para enfrentar o grande opressor, mas que muitas vezes se esquecem de que a luta é contra o sistema ideológico totalitário baseado nos ideais religiosos e acabam lutando entre si.
Uma vez que Sam é imune à vacina da “cura gay”, que deve ser tomada logo após o nascimento, ele acredita ser a chave para a criação de um antídoto que possibilitará a restauração das emoções de uma vida sem proibições. Essa vacina possui como efeitos colaterais o apagamento das emoções e da afetividade inerentes aos seres humanos, transformando-os em pessoas sem afeições pelos seus semelhantes, obrigando-os a viver como ratos pelos túneis de esgoto da cidade. Essa imagem trazida pelo autor também representa a história de vida de muitos homossexuais, que, por conta do conservadorismo, da falta de informação e de discursos religiosos, se veem demonizados pela sua orientação sexual, criando no senso comum, inclusive, a ideia de que existiria uma cura para o amor entre pessoas do mesmo sexo.
Nos últimos anos, após uma liminar concedida pelo Juiz Waldemar Cláudio de Carvalho, da 14ª vara do Distrito Federal, a polêmica sobre a “cura gay” voltou a ser um dos assuntos mais comentados no Brasil. A decisão assinada pelo Juiz autoriza que psicólogos brasileiros realizem terapias de reversão sexual para pacientes que manifestem comportamentos homossexuais. Esta decisão, fundamentada no preconceito, no conservadorismo e na falta de informação do Juiz em questão mostra que, em nosso país, sequer as liberdades individuais são respeitadas. Decisões deste porte representam, para além de toda a ignorância do Juiz, a opinião de parte da sociedade brasileira, que, enviesada em conceitos binários de gênero, promovem uma verdadeira eliminação de práticas que não se enquadram na matriz heterossexual.
Essa relação é um dos temas mais discutidos na filosofia política, pautando a necessidade e o consenso emergente sobre o direito à liberdade de consciência e a necessidade da separação entre igreja e estado. As religiões, em muitos casos, atentam contra a laicidade da democracia brasileira. A esse respeito poderíamos
citar, por exemplo, o fato de que o prefeito da cidade do Rio de Janeiro, o bispo Marcelo Crivella, proibiu que a Mostra ‘QueerMuseu: cartografias da diferença nas artes brasileiras’ fosse exposta no naquela capital. A decisão de Crivella é motivada por questões religiosas e isso interfere na vida da população que não compartilha da sua religião. Portanto, separar política e religião torna-se uma máxima no Brasil contemporâneo, para que a democracia seja, de fato, respeitada.
Na obra de Nery essas práticas afetam a vida de milhões de homossexuais, que são considerados inimigos do estado e odiados pela nação, pois vivem de uma resistência constante a esse sistema que é governado pelas práticas religiosas. O autor ressalta que quando a religiosidade voltar a ser o centro da política, a sociedade voltará a percorrer as sombras da Idade das Trevas. E, diante do exposto, resta-nos alertar que uma das funções da literatura é justamente promover a reflexão e dar voz aos marginalizados que encontram refúgio nas artes, concebendo um espaço seguro para si, a fim de explorar suas identidades e avaliar suas posições na sociedade.
A partir dessa discussão entramos em contato com uma nova perspectiva sobre o que é ou o que pode ser a literatura. Nesse sentido, podemos iniciar uma discussão em concordância com Ludmer (2010) para enfatizar que essas discussões formais não são mais importantes neste momento histórico, refletir sobre o caráter real ou ficcional da literatura pouco importa, uma vez que a realidade se constitui de representação e nesse ponto reside o verdadeiro do literário.
Diante disso, podemos considerar a discussão realizada por Nery como uma forma de testemunho, uma representação dos problemas sociais enfrentados pelos homossexuais na sociedade atual, mesmo que para isso ele tenha criado uma história que pode ser considerada de alto teor ficcional. Isso quer dizer que as imagens transmitidas se desenvolvem a partir de uma representação do autor baseada nas suas experiências e sensações. Nesse sentido, a realidade nas práticas literárias territoriais do cotidiano, chamadas de literaturas pós-autônomas por Ludmer (2010), pode ser compreendida como ficção e a ficção como realidade.
Assim, devemos analisar a obra de Nery fora das concepções clássicas de literatura, sem considerar as opiniões que configuram um texto pertencente a essa classificação e sem qualificá-la como ruim ou boa literatura. Dizendo de outra forma,
não cabe a nós realizar juízo de valor, mas entender, mesmo que superficialmente, a sua constituição e valorizá-la por isso. Por fim, resta-nos enfatizar a reflexão promovida sobre os limites da literatura e, por consequência, do objeto artístico, viabilizando um novo olhar sobre essas produções pouco valorizadas pelo cânone.
Desse modo, o romance, como um dos principais gêneros da literatura, pode ser considerado como um esforço para recriar o mundo social, evidenciando as relações humanas nos níveis familiar, do meio ambiente, política, estado e religião. Então, a literatura penetra na superfície da estrutura social e expressa os modos utilizados por nós para compreender nossa sociedade a partir da arte, que traz consigo, um arcaboço de sentimentos.
Referências
BELSEY, C. A prática crítica. Trad. Ana Isabel Sobral Carvalho. Porto: Edições 70, 1982.
EAGLETON, T. Teoria da literatura: uma introdução. Trad. Waltensir Dutra. São Paulo: Martins Fontes, 2006.
GOLDMANN, Lucien. A criação cultural na sociedade moderna: por uma sociologia da totalidade. Trad. Rolando Roque da Silva. São Paulo: Difusão Europeia do livro, 2002.
LUDMER, J. Literaturas pós-autônomas. Trad. Flavia Cera. Sopro 20. Panfleto político-cultural. Desterro, 2010. Disponível em www.culturaebarbarie.org/sopro. Acesso em: 07 agosto de 2018.
NERY, M.V. Hope: as cores da verdade. Campinas: [s.n], 2017. 426 p.3
ZIZEK, Slavoj. Bem-Vindo ao deserto do Real: cinco ensaios sobre o 11 de setembro e datas relacionadas. Trad. Paulo Cezar Castanheira. São Paulo: Boitempo Editor