XIII ERIC – (ISSN 2526-4230) UM ESTUDO SOBRE O USO DAS REDES SOCIAIS A PARTIR DO PÚBLICO
FEMININO
Maria Caroline Leite de Oliveira – Faculdade Metropolitana de Maringá [email protected] Pietro Martins de Oliveira – Faculdade Metropolitana de Maringá [email protected] Isabella Tamine Parra Miranda – Faculdade Metropolitana de Maringá [email protected] Ana Paula Stroher – Faculdade Metropolitana de Maringá [email protected] Claudio Saldan – Faculdade Metropolitana de Maringá
[email protected] Categoria de apresentação: pôster
RESUMO
Considerando o aumento do uso das redes sociais pelos jovens no mundo e principalmente no Brasil e a crescente mobilização on-line a partir de mulheres, sobre os problemas que enfrentam na sociedade contemporânea, objetiva-se um estudo sobre o comportamento e organização dessas mobilizações, aqui chamado de “movimento sociais”. Para tanto, precede-se ao levantamento bibliográfico das obras já existentes. Desse modo, observa-se que os movimentos sociais femininos já se utilizam das redes sociais para se organizar, porém, ainda é um instrumento novo, que precisa de aperfeiçoamentos, e que a mobilização precisa acontecer off-line também, para que atinja os resultados esperados.
INTRODUÇÃO
O ser humano enquanto ser social, busca a comunicação e o compartilhamento de suas conquistas em cada fase histórica de sua existência, criando redes sociais. Essas redes sociais podem ser entendidas a partir de diversas perspectivas sociológicas, que partilham das mesmas concepções, como a interação, a partilha e a reciprocidade (FERNANDES, 2011). Por meio da rede social um indivíduo se conecta a outro ou a um grupo que por sua vez, também se utiliza da rede social
para se ligar a outro grupo, com algum interesse em comum ou com alguma particularidade entre si, como a cultura, e é por meio da rede social que se compartilha conhecimento, a partir da vivencia e informações de seus atores.
Segundo Marteleto (2001), “a estrutura é apreendida concretamente como uma rede de relações e de limitações que pesa sobre as escolhas, as orientações, os comportamentos, as opiniões dos indivíduos”. Ainda segundo a autora, esse elo entre indivíduos, aqui chamado de rede social, é tão antigo quanto a história da própria humanidade, e não pode ser visto apenas como uma relação entre dois indivíduos. Esse elo precisa ser compreendido de forma ampla, buscando entender onde (espaço histórico e geográfico) esses indivíduos estão inseridos, bem como as outras redes sociais das quais tais indivíduos fazem parte. Ou seja, a análise de redes não constitui um fim em si mesma (MARTELETO, 2011).
REDES SOCIAIS VIRTUAIS
Com o avanço tecnológico das últimas décadas, em especial nas tecnologias da informação e comunicação (TICs), que Castells (2003) compara com o advento da eletricidade na Era Industrial, as redes sociais param de existir somente no mundo presencial e começam a coexistir no mundo virtual, criando-se assim, as redes sociais virtuais, que se baseiam no mesmo princípio de sociabilidade, criação e compartilhamento de conhecimento (DIAS e COUTO, 2011).
No contexto contemporâneo, nada mais oportuno do que os sujeitos se organizarem e adquirirem conhecimento através das redes sociais virtuais, e conforme lembra Castells (2013), “essas redes sociais on-line tornam-se formas de ‘comunidades especializadas’, isto é, forma de sociabilidade construída em torno de interesses específicos”. Então, é comum encontrar pessoas que vêm a trazer suas desilusões com o poder público, manifestar seus interesses e posições políticas através das redes sociais e assim tornar pública suas insatisfações. Por esse viés, os movimentos sociais encontram na internet, uma nova forma de socialização e divulgação, desvinculando-se da grande mídia impressa, televisiva e radiofônica, buscando tornar os movimentos sociais independentes dos meios de comunicação
convencionais e da interpretação que tais mídias apresentam sobre os movimentos sociais (PEREIRA, 2011). Ainda segundo Pereira (2011), o movimento on-line não substitui o real, o movimento social no âmbito digital vem para complementar o real, para somar e desenvolver novas formas de protestos.
MOVIMENTOS SOCIAIS
No Brasil, em junho de 2013, ocorreram grandes manifestações de rua, a partir do “Movimento Passe Livre” (MPL) na luta contra o aumento na tarifa do transporte público. Essas manifestações, porém, tomaram grandes proporções e foram além da proposta inicial, nas ruas se ouvia palavras de ordem contra corrupção e cartazes como “vem para a rua” e “O Gigante Acordou”. As manifestações foram marcadas pela forte presença da juventude, que convocou e se comunicou de diferentes maneiras, pelo celular e na internet, (Facebook, Twitter, Youtube, etc). Segundo Krohling (2013),
“Uma outra comunicação se faz presente. Os manifestantes usaram meios próprios para se comunicar: simples celulares ou smartphones, redes virtuais e o audiovisual alternativo municiaram a sociedade com a informação em tempo real do que ocorria nas ruas pelo ângulo de novas fontes (...) Estas se tornaram, inclusive, fontes para a grande mídia que se viu atônita e perdida, sem saber bem o que fazer, pois os acontecimentos fugiam ao seu tradicional esquema de pautas e coberturas. Estes favoreceram o exercício da liberdade de expressão, sem gatekeepers, e numa proporção imensurável devido ao efeito de replicação das redes virtuais. (Krohling, 2013)”.
Ou seja, as redes sociais virtuais, serviram não só para a articulação e organização inicial, mas principalmente no direcionamento e apoio durante as manifestações. Também auxiliou a divulgação, em tempo real, da quantidade de manifestantes presentes, abusos policiais, violência, etc. Permitiu uma visão do ponto de vista dos atores políticos das ações, se isentando da visão que a mídia tradicional traz de manifestações de grandes proporções como foram essas do outono de 2013.
Essa nova forma de organização se dá também em consequência da inquietude da Geração Y, também conhecida como Geração Internet (GI), que conforme Grossi (2014) explica,
“é composta pelos indivíduos nascidos a partir da segunda metade da década de 1980 até a atualidade. Essa geração é marcada pelo uso intenso das tecnologias, principalmente a internet. Sua forma de pensar e agir estão pautadas na agilidade, possuem destrezas em realizar várias atividades simultâneas e um desprendimento geográfico, pois suas tarefas são associadas à rede internacional de computadores. Todavia o escopo dessa geração está sendo ampliado e reforçado pelos adeptos e entusiastas das novas tecnologias. De donas de casa a empresários, a GI vê cada vez mais seu espaço sendo dividido com pessoas de outras gerações que descobrem a praticidade e a velocidade que a nuvem virtual proporciona aos que se aderem a tal prática como a Geração Z. Assim, essa mescla de gerações compartilhando as mesmas formas de interatividade num espaço que até então era quase predominantemente utilizado por jovens pode ser vislumbrado positivamente na amplitude e facilidade da rede em atingir diferentes atores sociais para um objetivo comum” (GROSSI et al, 2014, p. 41).
Ainda de acordo com Grossi, os jovens da GI estão entre 11 e 35 anos, cursando universidades, buscando suas identidades, a procura de conteúdos que se identifiquem, e não se conformam em serem apenas receptores passivos da informação, há uma necessidade de interação, de exposição e explanação de pensamento, mudando inclusive a interação na educação, entre professores e alunos, contribuindo para novas práticas pedagógicas.
O USO DA INTERNET POR BRASILEIROS
Segundo a Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (2015, p. 7), no ano de 2015, praticamente metade dos brasileiros, 48% utilizou a internet. A televisão e rádio ainda superaram o uso da internet, todavia, houve crescimento no percentual de pessoas que utilizam internet todos os dias, quase 37% da população do país (SECOM, 2015).
A empresa Futuro Digital em Foco Brasil (2015) divulgou pesquisa que mostra que os brasileiros são líderes no tempo gasto nas redes sociais. A média brasileira é 60% maior do que o resto do Planeta. Logo atrás do Brasil vem as Filipinas, Tailândia, Colômbia e Peru. Entre os 53,5 milhões de usuários de internet ativos no Brasil é difícil encontrar quem não acesse algum tipo de rede social em casa ou mesmo no trabalho. Sites como Facebook e Twitter têm ganhado cada vez mais a atenção e o tempo dos brasileiros que navegam na rede.
Entre os universitários, pode-se dizer que a utilização de redes sociais e das tecnologias de informação e comunicação são amplamente utilizadas como um novo espaço para estabelecer relações sociais, afetivas e como extensão da sala de aula (GROSSI et al., 2014).
MULHERES E O ENSINO SUPERIOR
Com a queda do regime político ditatorial, o acesso à universidade foi facilitado, levando em conta a libertação sexual e a quebra de alguns antigos tabus da sociedade no mesmo período pode-se aferir que o feminismo teve um papel importante na inclusão da mulher junto ao mercado de trabalho, inclusive nas classes sociais mais altas, onde o papel da mulher era marcado apenas pelos afazeres domésticos (GUEDES, 2008). Sendo então fundamental a inclusão da mulher na educação e nas instituições de ensino superior do Brasil, uma vez que o acesso à academia possibilita a ascensão social, melhores postos de trabalho e até o acesso a cargos de poder e comando, tradicionalmente controlados por homens (GUEDES, 2008).
Adentrando na educação atual, mais especificamente nas universidades, Güere (2010) é claro ao dizer que as instituições de ensino superior serão obrigadas a mudar, pois
“já se fala hoje de novos métodos de ensino, a open education. A informação não viaja mais em uma só direção, ela se constrói entre todos os alunos. A informação está na rede e o professor não é mais soberano. A experiência colaborativa 2.0 está cada vez mais presente. O modelo de um professor dogmático deve desaparecer. Um aluno inquieto e curioso tem acesso aos mesmos conteúdos que o professor. A
escola será um canalizador de ideias e um orientador. Hoje, nas minhas aulas, é comum alunos contestarem o que estou mostrando, porque estão, muitas vezes, conectados à internet por meio de seus celulares e podem atualizar algumas informações que repasso a eles em tempo real. É um caminho sem volta.” (GÜERE, 2010).
Hoje nas universidades, as mulheres são a maioria, e não só nas universidades. Segundo o Portal Brasil (2015),
“no Brasil, as mulheres são maioria da população, passaram a viver mais, têm tido menos filhos, ocupam cada vez mais espaço no mercado de trabalho e, atualmente, são responsáveis pelo sustento de 37,3% das famílias” (PORTAL BRASIL, 2015). Em 2010, o destaque na escolaridade em todos os níveis foi para as mulheres, sendo que nas universidades, de estudantes entre 18 e 24 anos de idade, elas são 57,1% do total. No percentual de ensino superior completo, as mulheres também estão na frente, com 12,5% contra 9,9% dos homens.
Nas áreas de formação, as mulheres com 25 anos ou mais, representam a grande maioria na Educação com 83% e Humanidades e Artes com 74,2%, consideradas áreas com menor remuneração, contudo, mesmo em áreas em que a proporção de homens e mulheres é equivalente como Ciências Sociais, Negócios e Direito, as mulheres recebem 66,3% do rendimento dos homens (PORTAL BRASIL, 2015).
FEMINISMO
Desigualdades entre os gêneros, como as citadas anteriormente, são uma das motivações que levam mulheres de todo o mundo a lutar por sua emancipação e equiparação em relação aos homens, e essa não é uma luta nova. Durante a Revolução Francesa foi a primeira vez que mulheres se apresentaram à sociedade como sujeitos políticos, reivindicando direitos que até então eram somente garantidos aos homens, como a reivindicação pelo direito ao alistamento militar. Com consolidação do capitalismo, que trouxe mudanças na ordem econômica, social e política, mudando também a vida das mulheres, ainda assim elas continuavam excluídas dos direitos políticos e civis, nesse contexto, acontece o
movimento sufragista, movimento esse que as mobiliza por sete décadas e une ainda mais as mulheres na luta feminista (GURGEL, 2010).
Desde sua primeira expressão, o feminismo se concretiza como um movimento social e busca ainda, na contemporaneidade, a ruptura com o sistema patriarcal capitalista (GURGEL, 2010).
No Brasil, o movimento feminista tem sua eclosão em 1970, influenciado por vários fatores, como por exemplo, o impacto já causado pelos movimentos feministas norte-americano e europeu e pelo amargo contexto ditatorial vivido pelos países latino-americanos. Em 1975 a ONU declara o Ano Internacional da Mulher, favorecendo o debate internacional sobre a opressão feminina e abrindo espaço para a formação de grupos políticos de mulheres, saindo assim da clandestinidade, como por exemplo o Brasil Mulher, o Nós Mulheres e o Movimento Feminino pela Anistia, grupos organizados em São Paulo. O feminismo brasileiro que era denominado por “movimento de mulheres”, se inicia nas classes sociais médias, com a presença de mulheres que tiveram acesso à educação universitária e expande-se, articulando com camadas mais populares e suas organizações de bairro (SARTY, 2014).
Na efervescência de movimentos sociais dos anos 70, o movimento feminista carrega a bandeira do combate à discriminação de gênero, o combate à violência contra a mulher e a luta pelos direitos sexuais e reprodutivos. Lutas que trazem vitórias muito importantes ao movimento, como a luta pelo fim da violência contra a mulher, que acaba dando origem à Delegacia Especializada no Atendimento da Mulher (DEAM).
Como consequência de todas essas atividades recém-mencionadas a mulher, enquanto sujeito político, avança no poder parlamentar, tendo 26 deputadas na Assembleia Constituinte. Elas tiveram importância fundamental para a conquista de igualdade entre os gêneros na construção da Constituição Federal de 1988, considerada uma das mais avançadas do mundo no que se refere à equidade de gêneros (BELTRÃO e ALVES, 2016).
MOVIMENTOS SOCIAIS FEMINISTAS/FEMININOS ON-LINE
Um exemplo da proporção dos movimentos sociais on-line é a “Marcha das Vadias”. Esse movimento teve sua origem em janeiro de 2011, no Canadá, sob o nome de “Slut Walk” e eclodiu no Brasil pelo Facebook, inicialmente num movimento totalmente virtual que, depois, se utilizando das ferramentas on-line para organização e divulgação, ganhou as ruas em junho de 2011 em São Paulo. O movimento cresceu tanto que acabou alcançando encontros em outros estados, reivindicando as mesmas causas: o direito das mulheres de ir e vir, de se vestirem da forma que quiserem e contra a qualquer repressão ou violência ligada ao gênero (RODRIGUES e LUVIZOTTO, 2014).
Nesse sentido, Galetti nos dá um panorama da apropriação das redes sociais pela mulher e pelos movimentos feministas, dizendo que
“a princípio, as mulheres não eram sujeitos na comunicação, mas com o passar do tempo, elas passaram a utilizar as tecnologias – que a priori foram criadas para mover regulamentação, contenção e controle, como ferramenta de ‘emancipação’ e militância, as mulheres têm se apropriado desse espaço para ampliarem o debate sobre o feminismo e se mobilizarem, como é o caso das organizadoras, participantes das Marchas das Vadias” (GALETTI, 2014).
Outro exemplo do impacto das redes sociais para os movimentos sociais, em especial, os feministas é a hashtag #30ContraTodas, usada para denunciar um estupro coletivo que aconteceu no Rio de Janeiro em maio de 2016, com uma jovem de 16 anos. O crime foi filmado e divulgado na internet. Em depoimento a jovem disse que foi violentada por 33 homens, gerando o nome da hashtag e revelando uma rede de apoio importante, onde artistas reconhecidos internacionalmente e veículos de imprensa nacionais e internacionais manifestaram apoio, inclusive no próprio Facebook foi possível adicionar à foto do perfil a frase “Eu luto pelo fim da cultura do estupro”. Além disso, após a campanha, o Ministério Público do Rio de Janeiro recebeu cerca de 800 denúncias sobre o caso e ainda segundo a imprensa, mais de 11 estados registraram protestos contra a violência sexual (MACHADO, 2017).
Em uma pesquisa realizada no Facebook, pode-se encontrar várias páginas de movimentos e coletivos feministas de grande alcance, como por exemplo a página “Empodere duas mulheres” com 1.088.202 curtidas, a “Não me Kahlo” que faz referência a Frida Kahlo, pintora mexicana com 1.242.989 seguidores, que divulgam eventos, compartilham conteúdos sobre mulheres que fizeram diferença na história mas não são lembradas, divulgam denúncias, criam campanhas, etc. Também é possível encontrar páginas regionais, como “Movimento Mulheres em Luta – MML Maringá”, com 1.691 curtidas e grupos regionais de menor alcance como a página “Conectadas UEM” que trata de mulheres na computação, “Coletivo DINAda Valho – Maringá”, entre outras.
METODOLOGIA
Este artigo em particular, é um levantamento bibliográfico e síntese sobre a utilização de redes sociais pelo público feminino. A pesquisa bibliográfica, segundo Gil (2002), é desenvolvida a partir de materiais já elaborados e publicados, principalmente livros e artigos científicos. Foi seguida tal metodologia, após analisar e selecionar o material disponível. Deve-se considerar que a temática é nova, uma vez que as redes sociais digitais são relativamente recentes na história da humanidade.
A organização de mulheres em torno de um objetivo, por sua vez, não é um objeto novo, por esse motivo, conforme destaca Gil (2002) novamente, a pesquisa bibliográfica é eficiente,
“a principal vantagem da pesquisa bibliográfica reside no fato de permitir ao investigador a cobertura de uma gama de fenômenos muito mais ampla do que poderia pesquisar diretamente. Esta vantagem se torna particularmente importante quando o problema de pesquisa requer dados muito dispersos pelo espaço. Por exemplo, seria impossível a um pesquisador percorrer todo o território brasileiro em busca de dados sobre população ou renda per capita; todavia, se tem à sua disposição uma bibliografia adequada, não terá maiores obstáculos para contar com as informações requeridas. A pesquisa bibliográfica também é indispensável nos
estudos históricos. Em muitas situações, não há outra maneira de conhecer os fatos passados se não com base em dados bibliográficos” (GIL, 2002).
RESULTADOS PRELIMINARES
Com base no que foi exposto anteriormente, pode-se aferir que, através das redes sociais digitais, os movimentos femininos/feministas têm ganhado força. Temos diversos exemplos de grupos que se organizam através da internet. Em uma pesquisa realizada no Facebook, podem-se encontrar várias páginas de movimentos e coletivos feministas de grande alcance, como por exemplo, a página “Empodere duas mulheres” com 1.088.202 curtidas, a “Não me Kahlo” que faz referência a Frida Kahlo, pintora mexicana com 1.242.989, que divulgam eventos, compartilham sobre mulheres que fizeram diferença na história, mas não são lembradas, divulgam denúncias, criam campanhas, etc. Também é possível encontrar páginas regionais, como “Movimento Mulheres em Luta – MML Maringá”, com 1.691 curtidas e grupos regionais de menor alcance como a página “Conectadas UEM” que trata de mulheres na computação, “Coletivo DINAda Valho – Maringá”, entre outras.
CONSIDERAÇÔES FINAIS
Na união dos fatores contemporâneos: redes sociais virtuais e feminismo, podemos observar uma nova perspectiva feminista no mundo, balizada pelos movimentos sociais e a internet onde, com o auxilio das redes sociais virtuais, ficou mais fácil, eficaz e até seguro, mulheres feministas exporem suas demandas para o maior numero possível de pessoas (RODRIGUES e LUVIZOTTO, 2014).
A sequência deste trabalho prevê a realização de uma entrevista estruturada, na forma de questionário on-line, aplicada com as mulheres usuárias de redes sociais em uma faculdade da cidade de Maringá-PR. O objetivo é investigar se existe uma organização local, como se dá essa organização e o que essas mulheres pensam sobre os movimentos on-line. Após esse levantamento os dados serão dispostos de maneira a tentar identificar e propor intervenções que auxiliem a organização de grupos de mulheres dentro da instituição.
REFERÊNCIAS.
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DIAS, Cristiane; COUTO, Olivia Ferreira do. As redes sociais na divulgação e formação do sujeito do conhecimento: compartilhamento e produção através da circulação de ideias. Linguagem em (Dis) curso, 2011.
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GUEDES, Moema de Castro. A presença feminina nos cursos universitários e nas pós-graduações: desconstruindo a ideia da universidade como espaço masculino. História, Ciências, Saúde-Manguinhos, v. 15, p. 117-132, 2008.
RODRIGUES, Laís Modelli; LUVIZOTTO, Caroline Kraus. Feminismo na internet: o caso do coletivo Marcha das Vadias e sua página no Facebook. In: Colloquium Humanarum. 2014. p. 367-375.
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GROSSI, Márcia Gorett Ribeiro et al. A utilização das tecnologias digitais de informação e comunicação nas redes sociais pelos universitários brasileiros. Texto Digital, Florianópolis, v. 10, n. 1, p. 4-23, jul. 2014. ISSN 1807-9288. Disponível em: <https://periodicos.ufsc.br/index.php/textodigital/article/view/1807-9288.2014v10n1p4/27423>. Acesso em Dezembro de 2016. Doi: http://dx.doi.org/10.5007/1807-9288.2014v10n1p4.
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XIII ERIC – (ISSN 2526-4230) A RAZÃO ÁUREA: HISTÓRIA E APLICAÇÕES
Ligia Bittencourt Ferraz de Camargo Universidade Estadual de Maringá Campus Maringá E-mail: [email protected] Daniela Barbieri Vidotti Universidade Estadual do Paraná Campus Paranavaí
E-mail: [email protected] Vanessa Cristina Rhea Universidade Estadual de Maringá Campus Maringá
E-mail: [email protected] Resumo: Por volta de 330 a.C. o matemático Euclides, motivado possivelmente pelas propriedades observadas no estudo do pentagrama, descreveu em sua obra Os Elementos, a divisão de um segmento em duas partes, dividindo-o em razão média e extrema. A razão obtida é um número irracional conhecido como Número de Ouro. Tendo em vista que essa forma de divisão de um segmento há muito desperta a curiosidade de estudiosos, neste trabalho buscamos retratar um pouco da história desse número e das pessoas que o utilizaram, buscando compreender porque ele causou tanto interesse e mistério. Assim, por meio de procedimentos teóricos buscamos desmistificar a Razão Áurea, mostrando inclusive onde encontramos sua beleza e harmonia.
Palavras-chave: Razão Áurea. Número de ouro. Sequência de Fibonacci.
Abstract: Por volta de 330 a.C. o matemático Euclides, motivado possivelmente pelas propriedades observadas no estudo do pentagrama, descreveu em sua obra Os Elementos, a divisão de um segmento em duas partes, dividindo-o em razão média e extrema. A razão obtida é um número irracional conhecido como Número de Ouro. Tendo em vista que essa forma de divisão de um segmento há muito desperta a curiosidade de estudiosos, neste trabalho buscamos retratar um pouco da história desse número e das pessoas que o utilizaram, buscando compreender porque ele causou tanto interesse e mistério. Assim, por meio de procedimentos teóricos buscamos desmistificar a Razão Áurea, mostrando inclusive onde encontramos sua beleza e harmonia.
Keywords: Razão Áurea. Número de ouro. Sequência de Fibonacci.
Introdução
A Razão Áurea é um número irracional intrigante e fascinante, pois surge em diversas situações e fenômenos naturais em forma de uma razão. Além de possuir características matemáticas únicas, é considerada a mais agradável proporção entre
duas medidas. Representa um símbolo de harmonia e tem chamado a atenção de grandes matemáticos ao longo do tempo, como Pitágoras e Euclides da Grécia Antiga, Leonardo de Pisa da Idade Média, o renascentista John Kepler, entre outros. Além desses, biólogos, músicos, arquitetos e artistas e até místicos têm analisado e utilizado este número em trabalhos mais recentes.
Aparece também inserido em inúmeras artes e arquiteturas antigas, e não se sabe ao certo quem a observou pela primeira vez. Veremos que a esse número foi atribuído alguns títulos: “Razão Áurea”, “Seção Áurea”, “Segmento Áureo” e até mesmo “Proporção Divina”.
Faremos, inicialmente, uma abordagem histórica destacando Pitágoras e os Pitagóricos, Platão e Euclides no intuito de discutir a origem e fatos relacionados a Razão Áurea. Na sequência, concluímos que a construção e a divisão de um segmento em média e extrema razão equivale a resolução de uma equação quadrática e que seu desenvolvimento nos leva ao Número de Ouro ( ). A partir disso, descrevemos a respeito da Sequência de Fibonacci e suas relações com a natureza como, por exemplo, na procriação dos coelhos e na vida das abelhas. Por fim, abordaremos o Retângulo de Ouro visando observar aspectos no quadro Mona Lisa de Leonardo da Vinci.
Pitágoras e os Pitagóricos
Iniciamos nosso estudo com o filósofo e matemático Pitágoras, pois alguns historiadores atribuem a ele a descoberta da Razão Áurea e da incomensurabilidade. Pitágoras nasceu por volta de 570 A.C na ilha de Samos, no mar Egeu. Há relatos de que possivelmente ele viveu algum tempo no Egito, onde teria aprendido Matemática, Filosofia e temas religiosos com os sacerdotes egípcios. Posteriormente emigrou para Crotona, uma colônia grega situada onde hoje é o sul da Itália e lá fundou a famosa escola pitagórica, um centro de estudos em Matemática, Filosofia e Ciências Naturais, que, além disso, constituía uma irmandade composta por ritos e cerimônias secretos. Pitágoras morreu com aproximadamente 75 anos, mas a irmandade continuou por mais dois séculos (EVES, 1995).
Segundo Eves (1995, p. 97) “a filosofia pitagórica baseava-se na suposição de que a causa última das várias características do homem e da matéria são os números inteiros”. Assim, além de explorar as propriedades dos números, observavam a ocorrência de certas relações e combinações entre eles na natureza. Acreditavam que a explicação da ordem e da harmonia da Natureza iria ser encontrada na ciência dos números (HUNTLEY, 1985).
Os pitagóricos tiveram um interesse especial pelos cinco sólidos convexos regulares: o tetraedro, o cubo, o octaedro, o dodecaedro e o icosaedro (que mais tarde ficaram conhecidos como os sólidos de Platão). Os gregos tinham uma ideia mística destes sólidos. O último deles, era considerado um símbolo do Universo, suas doze faces regulares correspondiam aos doze signos do zodíaco. Nessa face pentagonal os pitagóricos construíram o pentagrama, uma estrela de cinco pontas que passou a ser o símbolo de sua irmandade (Figura 1). Foi nessa figura que os pitagóricos encontraram a Razão Áurea.
Partindo de um polígono regular ABCDE (Figura 2) e traçando as cinco diagonais, essas diagonais se interceptam em pontos A’B’C’D’E’, que formam outro pentágono regular.
Figura 1: Pentagrama Figura 2: Pentágono Fonte: A autora Fonte: A autora
Observando o diagrama nota-se, por exemplo, que o triangulo BCD’ é semelhante ao triângulo isósceles BCE e que há também, no mesmo, muitos pares de triângulos congruentes. Mas o surpreendente e notável é o modo em que os pontos A’B’C’D’E’ dividem as diagonais. Cada um deles divide uma diagonal em dois segmentos desiguais, tais que a razão da diagonal toda para o maior dos segmentos
é igual à deste para o segmento menor. Essa subdivisão das diagonais corresponde ao que chamamos hoje de Razão Áurea.
De acordo com Boyer (1996, p. 50), “era um artigo de fé fundamental do pitagorismo que a essência de tudo, na geometria como nas questões práticas e teóricas da vida do homem, pode ser explicada em termos de arithmos, ou das propriedades intrínsecas dos inteiros e suas razões”. No entanto, uma descoberta que praticamente demolia a base da fé pitagórica nos inteiros assombrou a comunidade matemática grega. Perceberam que na própria geometria os inteiros e suas razões não eram suficientes para descrever mesmo simples propriedades básicas. Não bastam, por exemplo, para comparar a diagonal de um pentágono com seu respectivo lado. Não importa quão pequena se tome a unidade de medida, esse segmento é incomensurável. Ainda segundo Boyer (1996, p. 50), “quando ou como foi feita essa descoberta não se sabe, mas muita tinta se gastou em apoio de uma outra hipótese”. A sugestão mais razoável é que a descoberta da incomensurabilidade fosse feita por pitagóricos em algum momento antes de 410 a.C. Alguns a concedem especificamente a Hipasus de Metaponto durante o fim do quinto século a.C., já outros dizem que foi meio século mais tarde.
Poderia-se atribuir aos pitagóricos os créditos pela descoberta da Razão Áurea. No entanto, há de se considerar o enorme prestígio da matemática egípcia e babilônica, e o fato de que Pitágoras possivelmente aprendeu um pouco de matemática com eles. Assim, é possível que essas civilizações ou outras tenham descoberto a Razão Áurea primeiro.
Além disso, há na literatura afirmações de que a Razão Áurea pode ser encontrada em monumentos egípcios e babilônicos construídos há milênios antes do nascimento de Pitágoras. Como exemplo, podemos citar a grande pirâmide de Khufu, em Gizé, construída por volta de 5.750 a.C, embora não tenha sido provado que, de fato, o projeto dessa pirâmide tenha previsto o uso da Razão Áurea (LÍVIO, 2011).
Segundo Lívio (2011), a primeira definição precisa do que mais tarde seria chamada de Razão Áurea foi dada por Euclides de Alexandria por volta de 300 a.C., em Os Elementos, obra fundamental da geometria clássica. Não se sabe muito sobre a vida de Euclides, nem mesmo seu local de nascimento é conhecido. Pela época e lugar em que viveu e pelos conhecimentos demonstrados, acredita-se que ele possa ter estudado matemática com um dos discípulos de Platão. Ele fez parte da primeira equipe de professores da escola de Alexandria, uma espécie de Universidade chamada de Museu. Esta cidade, fundada por Alexandre (O Grande) pertencia ao Império Persa, e localizava-se no cruzamento de três grandes civilizações: egípcia, grega e judaica. Tornou-se um grande centro intelectual por vários séculos. Nela fundou-se uma grande biblioteca, famosa por reunir cerca de 700 mil livros.
Em Os Elementos, Euclides reuniu a maior parte do conhecimento matemático de seu tempo. São 13 livros sobre Geometria e Teoria dos Números, que permaneceram em uso por cerca de dois mil anos, praticamente inalterados. Até o século XX somente a Bíblia vendeu mais livros que Os Elementos. A Razão Áurea (razão extrema e média) aparece nesta obra em vários lugares: no livro II relacionada a área; no livro VI em forma de proporção; na construção do pentágono no livro IV; na construção do icosaedro e dodecaedro no livro XIII.
Com o objetivo de dividir um segmento de reta em média e extrema razão, Euclides primeiro construía sobre o quadrado (Figura 3). Em seguida, bissectava pelo ponto , traçava e prolongava a reta até tal que . Completando o quadrado o ponto H será o ponto procurado, pois pode-se ver imediatamente que .
Fonte: A autora
Uma das propriedades da “Divisão Áurea” é que ela se auto propaga, o que significa que se um ponto divide um segmento em média e extrema razão (Figura 4), sendo o segmento maior e se sobre esse segmento maior marcamos o ponto tal que , então o segmento por sua vez ficará subdividido em média e extrema razão pelo ponto . Novamente, se marcarmos em o ponto tal que , o segmento ficará subdividido em média e extrema razão por Esse processo iterativo, é claro, pode ser repetido tantas vezes quanto se desejar, obtendo-se segmentos cada vez menores divididos em média e extrema razão por .
Figura 4: Subdivisões Áureas
Fonte: A autora O valor numérico de Fi (ɸ)
A construção e a divisão de um segmento em média e extrema razão, equivale à resolução de uma equação quadrática. Nesse sentido, seja e
na Fig. . Assim, pela propriedade da Razão Áurea, , e dessa forma, temos a equação , ou equivalentemente, .
Portanto, dividindo ambos os lados por , temos:
Mas como e são ambos positivos, devemos descartar e considerar apenas .
Dessa forma, a resolução da equação quadrática nos leva a como sendo a razão entre o lado de um pentágono regular e sua diagonal.
O número é denominado Número de Ouro. Ou seja, a razão entre as medidas dos segmentos e , é um número irracional denominado Número de Ouro. Da mesma forma, como , a razão entre as medidas do segmento maior e do segmento menor , também recebe tal denominação.
Os nomes Fi (ɸ), Razão Áurea e Proporção Divina
No início do século XX, o matemático americano Mark Barr deu o nome de Fi (ɸ), a primeira letra grega do nome de Fídias, um grande escultor grego que usava frequentemente a Razão Áurea em suas esculturas. As obras mais famosas de Fídias foram o “Partenon de Atenas” e o “Zeus” do templo de “Olímpia” construídos aproximadamente entre os anos de 490 a 430 A.C. No entanto, na literatura matemática profissional a Razão Áurea é representada pela letra grega tau (τ) derivada da palavra grega ταµη que significa corte ou seção. (LÍVIO, 2011).
Em 1509, foi publicado um tratado de Luca Paciole (1445-1517), De Divina Proportione, ilustrado por Leonardo da Vinci. A obra reúne inúmeros casos da aparição do Fi em figuras planas e sólidas, muitos deles traduções de obras do pintor renascentista italiano Piero Della Francesca (1412-1492), do latim para o italiano. O autor cita cinco razões pelas quais, o nome “Razão Áurea” deveria ser “Proporção Divina”, segundo Lívio (2011, p.155-156):
1) “Que ela é uma só e não mais” [...];
2) A Razão Áurea envolve três comprimentos (AB, AH e HB na Figura3) enquanto na Santíssima Trindade existem o Pai, o Filho e o Espírito Santo;
3) [...]A impossibilidade da compreensão de Deus e o fato da Razão Áurea ser um número irracional são equivalentes; 4) Compara a onipresença e a invariabilidade de Deus e a
autossimilaridade associada a Razão Áurea – de que seu valor é sempre o mesmo e não depende do comprimento da linha sendo dividida ou tamanho do Pentágono no qual quocientes entre os comprimentos são calculados;
5) [...]Assim como Deus conferiu a existência a todo o cosmo através da quinta essência, representado pelo dodecaedro, a Razão Áurea conferiu existência ao dodecaedro, já que não se pode construir o dodecaedro sem a Razão Áurea. [...] É impossível comparar os outros sólidos platônicos (representando terra, água, ar e fogo) entre si sem a Razão Áurea. (LÍVIO, 2011, p.155-156)
A publicação em livro impresso de Paciole teve ampla circulação e renovou o interesse pela Razão Áurea, até então mais conhecida apenas entre os matemáticos e pelo nome “razão extrema e média”. Além disso, reforçou o misticismo que existia em relação a este número.
O matemático e astrônomo alemão Joahn Kepler (1571-1630), famoso pelas Leis do Movimento Planetário que levam o seu nome, também chamava a Razão de Áurea de Divina Proporção. Segundo Lívio (2011, p.178) “Kepler acreditava mesmo que a Razão Áurea serviu como instrumento fundamental de Deus na criação do Universo”. Ele viveu em uma sociedade que havia passado recentemente (cerca de 50 anos antes de seu nascimento) pelo rompimento de Martinho Lutero com a Igreja Católica, e por isso acreditava que a única forma do homem ser absolvido diante de Deus era pela fé. Deste modo, estava convicto que deveria cumprir o seu dever de cristão: entender a criação de Deus – o Universo. Assim como os pitagóricos, acreditava numa Harmonia do Universo que poderia ser explicada matematicamente, tais ideias estão descritas na obra A Harmonia do Mundo publicada em 1619.
O Número de Ouro e a Sequência de Fibonacci
Esse misterioso Número que intriga os pesquisadores há tanto tempo foi relacionado a uma sequência muito conhecida e que tem aplicações em diferentes áreas, que é a sequência de Fibonacci, e que segundo Boyer (1974) herda esse nome pelo apelido de quem a construiu o “filho de Bonaccio” ou de uma forma simplificada “Fibonacci”, que também era conhecido como Leonardo de Pisa.
Leonardo de Pisa (1180-1250), nasceu em Pisa na Toscânia e foi considerado um dos maiores matemáticos de sua geração. Uma de suas mais grandiosas obras foi o livro Liber abaci, ou livro do Ábaco, mas apesar de seu título este livro “não é sobre o ábaco, é um tratado muito completo sobre métodos e problemas algébricos em que o uso de numerais indo-arábicos é fortemente recomendado”. (BOYER, 1974 p. 185).
Nesta obra encontramos um dos problemas mais conhecidos de Leonardo que foi inspiração de matemáticos de várias épocas e originou a sequência de Fibonacci. Trata-se de: “Quantos pares de coelhos serão produzidos num ano, começando com um só par, se em cada mês cada par gera um novo par que se torna produtivo a partir do segundo mês”? (BOYER, 1974 p. 186).
A resposta desta questão é simples, porém intrigante: começamos o problema com 1 casal de coelhos, que só pode procriar a partir do segundo mês, logo no mês dois ainda estaremos com apenas 1 casal que terá mais um casal no terceiro mês, obtendo 2 casais. Este novo par por sua vez, se tornará produtivo e gerará mais 1 casal apenas no quinto mês. Mas o primeiro casal terá mais 1 no quarto mês, chegando a 3, e mais 1 no quinto, totalizando 5. Continuando com este processo obtemos: 1, 1, 2, 3, 5, 8, 13, 21, 34, 55, 89, 144.
Note que esses termos estão limitados pela quantidade de meses do problema em questão, mas esta sequência torna-se infinita ao se observar o fato de que um termo é a soma dos seus dois antecessores imediatos e pode ser formalizada como:
Obtemos então: 1, 1, 2, 3, 5, 8, 13, 21, 34, 55, 89, 144, 233...Esta sequência recebe o nome de Sequência de Fibonacci.
Todo este raciocínio não teria muito sentido com o nosso trabalho se não fosse uma observação do matemático Johannes Kepler:
Kepler notou em 1611, que a divisão entre um número de Fibonacci e seu precedente leva ao número de ouro φ quando se avança para valores cada vez maiores na sequência. Em termos matemáticos, isto quer dizer que tende para φ quando tende para o infinito. (BELINI, 2015).
Lembrado que o valor aproximado de é 1,61803398. Mesmo para leigos em matemática é fácil visualizar que esta relação acontece, como nos mostra a Tabela 1:
Tabela 1: Sequência de Fibonacci
1 1 2 1 1 3 2 2 4 3 1,5 5 5 1,6666666 6 6 8 1,6 7 13 1,625 8 21 1,6153846 1 9 34 1,6190476 1 10 55 1,6176470 5 11 89 1,6181818 1 12 144 1,6179775 2 13 233 1,6180555 5 14 377 1,6180257 5 ... ... .... 20 6765 1,6180339 6
Fonte: Belini (2015) (modificado)
Podemos perceber com a tabela 1 que quanto mais aumenta, mais se aproxima de ɸ. Além disso é possível provar usando limites e sequências convergentes que este fato, observado por Kepler, é realmente válido. As propriedades da sequência de Fibonacci não param por ai, pode-se demonstrar também que os números de Fibonacci (assim são chamados os números desta sequência), podem ser gerados a partir de potências do número de ouro.
Além dessas relações matemáticas há também outras relações com a natureza que vão além da procriação dos coelhos, esta sequência também aparece na vida das abelhas.
A Sequência de Fibonacci e as Abelhas
Não é de hoje que os matemáticos vêm investigando a vida desses insetos, que além de terem a capacidade de produzir um fluido açucarado a partir do néctar das flores, o mel, ainda nos impressiona com a espontânea matemática que existe em seu meio:
Os alvéolos de cera destinados a ser receptáculos de mel, têm perfil hexagonal, formando um padrão contínuo que preenche o espaço sem deixar interstícios. A única maneira alternativa simples de se conseguir este efeito é com alvéolos de perfil retangular, de preferência quadrado, no interesse da rigidez. Por que as abelhas escolhem o padrão hexagonal? Se essa é uma questão para psicologia, a resposta não está à mão. Mas é uma questão para a matemática, a resposta é que a determinação do formato leva em conta economia e eficiência. (HUNTLEY, 1985, p. 156)
Apesar se ser um espetáculo à parte a matemática presente na construção dos alvéolos pelas abelhas, estamos interessados aqui não necessariamente nessas trabalhadoras, mas em seu macho, o Zangão.
É chamado de Zangão o macho das diversas espécies existentes de abelhas, ele possui um porte superior ao das fêmeas e tem um papel exclusivo de reprodutor, uma vez que não colabora com os serviços da colmeia e não possui os órgãos
necessários para se produzir o mel. Uma outra curiosidade destes seres, que vamos explorar, é a sua árvore genealógica. A reprodução dos Zangões se enquadra na chamada Patogênese, que é o tipo de reprodução assexuada em que o embrião se desenvolve de um óvulo sem a ocorrência de fecundação, com isso para haver o nascimento de um zangão é necessário apenas uma fêmea, enquanto para haver o nascimento de uma fêmea, são necessários um mancho e uma fêmea, pois estas nascem de óvulos fecundados.
Seguindo este pensamento, podemos retroceder aos familiares de um Zangão. Como dito, para se gerar um macho necessita-se apenas de uma fêmea (Figura 5):
Figura 5
Fonte: Sites google1
(modificado)
Enquanto para se gerar essa fêmea, foram necessários uma abelha e um Zangão (Figura 6):
Figura 6
Fonte: Sites google2
(modificado)
Continuando com esta lógica obtemos o seguinte diagrama (Figura 7):
1
Disponível em <
https://sites.google.com/site/leonardofibonacci7/aplicacoes-da-sequencia-de-fibonacci> acesso em agosto de 2016.
2
Disponível em <
Figura 7: Linhagem Familiar do Zangão
Fonte: Sites google 3
(modificado)
Na Figura 7 claramente percebemos que a linhagem familiar do Zangão constitui uma sequência. Se pensarmos em machos e fêmeas temos: 1, 1, 2, 3, 5, 8 e 13. Se este diagrama se expandisse em busca de mais parentescos do Zangão, obteríamos os números 21, 34, 55... onde coincidentemente (ou não) originam a sequência de Fibonacci. Observem que se contarmos apenas as fêmeas de cada geração, temos a sequência: 0, 1, 1, 2, 3, 5 e 8. Analogamente se contarmos apenas os machos temos: 1, 0, 1, 1, 2, 3 e 5, assim como coloca Huntley (1985), encontramos a sequência de Fibonacci sobreposta e repetida 3 vezes nesta linhagem.
O número Áureo aparece espantosamente relacionado à árvore genealógica dos Zangões e a reprodução dos coelhos, mas essa relação não se limita a esses animais, ela está intrínseca em muitas outras áreas, como é o caso da botânica que encontra esse número “em diferentes áreas de seus estudos – na disposição das folhas, na estrutura da pétala, nos flósculos da família das compostas e na
3
Disponível em <
disposição das axilas nos ramos da planta. “(HUNTLEY, 1985, p. 157). E aparentemente também é encontrada uma relação deste número com as artes.
O Retângulo de Ouro
Como vimos, no decorrer da história o número de ouro aparece relacionado com várias áreas diferentes incluindo as artes. Grande parte dessa relação se dá por meio do chamado Retângulo de Ouro, que pode ser facilmente construído em softwares matemáticos ou utilizando régua e compasso: considere um quadrado qualquer de vértices e . Com o auxílio de uma régua encontre , o ponto médio de (Figura 8).
Figura 8
Fonte: A autora
Com a medida de na abertura do compasso, encontre o ponto centrando o compasso em e desenhando uma semicircunferência que intercepta o prolongamento do segmento .
Figura 9: Retângulo de ouro
O retângulo genérico é um Retângulo de Ouro, que recebe esse nome pela razão das medidas dos lados e serem aproximadamente o valor do número de ouro. De fato, com o auxílio do Software GeoGebra medimos os lados deste retângulo e obtemos:
Medida de e de , donde
.
Na arte há uma relação desse retângulo com certas obras feitas por grandes nomes, como é o caso de Leonardo da Vinci no quadro Mona Lisa.
Figura 10: Quadro Mona Lisa
Fonte: Site info escola4
Acredita-se que o rosto de Mona Lisa, assim como outras partes de seu corpo, encaixa-se perfeitamente dentro de um retângulo de ouro e que o autor deste quadro usou intencionalmente aspectos desta divina proporção nesta e em outras de suas obras. Mas segundo Teixeira (2013) não é possível afirmar com tanta certeza tal alinhamento, visto que certas partes podem se enquadrar também em retângulos que não tem essas mesmas proporções. Esta mesma atenção deve-se a outros fenômenos que vem sendo relacionados à esse Retângulo e consequentemente ao número de ouro atualmente, pois na ânsia de encontrar tal relação, alguns
4
Disponível em <http://www.infoescola.com/pintura/mona-lisa>. Acesso agosto
pesquisadores acabam por fazer generalizações ou arredondamentos não muito seguros.
Considerações Finais
Observa-se nesse trabalho que a Razão Áureo, assim como muitos outros conceitos da matemática, foi construído e utilizado no decorrer dos séculos, logo não se sabe ao certo quem o construiu ou o aplicou pela primeira vez. Fato este que não reduz a sua beleza nem sua magnífica aplicação, que se fez impressionar e instigar muitos estudiosos e apreciadores de tal teoria por toda sua história.
Ao tentar explicar o encaixe perfeito e as surpreendentes relações deste número com a vida e o meio em que vivemos, os filósofos antigos o relacionaram com uma obra divina, acreditando que ela se fez presente até na origem do universo, uma vez que está espalhada por toda parte, sendo chamada por alguns como “As digitais de Deus”, e julgaram-na tão misteriosa e inesgotável quanto o seus próprio criador.
Na natureza, nas artes, no corpo humano, na arquitetura, na vida. São tantas as aparições deste número de ouro que não foi possível abordar todas neste trabalho. Mas as relações exploradas já dão uma pequena mostra do grande potencial que ele possui e de toda a sua utilização. Com um histórico cheio encaixes, ligações, misticismo, crenças e fé, este número mostrou seu brilho por todo esse tempo, contribuindo para aqueles que de fato o utilizaram e para os que apenas o apreciaram, reforçando a existência da Matemática nos seres vivos e nos mistérios que sondam o Universo.
Referências
BELINI, Marcelo Manechine. A razão áurea e a sequência de Fibonacci. 2015. 86 f. Dissertação (Mestrado Profissional em Matemática) - Instituto de Ciências
Matemática e de Computação, Universidade de São Paulo, São Carlos, 2015. BOYER, Carl Benjamin. História da matemática. São Paulo:1974.
BOYER, Carl Benjamin.. História da matemática. 2.ed. São Paulo: Edgard Blücler,1996.
HUNTLEY, H. E. A Divina Proporção: Um Ensaio sobre a Beleza na Matemática. Brasília: Universidade de Brasília, 1985.
LÍVIO, Mario. Razão áurea: a história de fi, um número surpreendente. 6. ed. Rio de Janeiro: Record, 2011.
XIII ERIC – (ISSN 2526-4230) A ARBITRAGEM E O DIREITO DO TRABALHO
AUTORES:
Aluísio Henrique Ferreira5
FAFIMAN-FACULDADE DE FILOSOFIA CIÊNCIAS E LETRAS DE MANDAGUARI [email protected]
Luigi Penitente Ferreira6
FAP-FACULDADE DE APUCARANA [email protected]
CATEGORIA: POSTER
Sumário: 1 INTRODUÇÃO; 2 ARBITRAGEM, UMA BREVE REFLEXÃO; 3 AUTOCOMPOSIÇÃO x HETEROCOMPOSIÇÃO; 4 A ARBITRAGEM NOS DISSÍDIOS TRABALHISTAS; 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS; REFERÊNCIAS. RESUMO
A arbitragem é uma das formas alternativas de solução de conflitos. Ocorre que no Brasil é muito pouco utilizada, restando sua maior aplicabilidade nos contratos de comércio internacional. Em que pese há quase um século e meio existirem previsões legais acerca da arbitragem, sua não-utilização decorre da por falta de informação ou receio a respeito da conduta do árbitro. São situações e mitos que necessitam superação, pois a arbitragem é uma das mais modernas formas de solução extrajudicial de conflitos, muito mais célere e eficaz que a prestação jurisdicional do Estado. A arbitragem tem cabimento nos dissídios coletivos trabalhistas de maneira pacífica, bem como nas hipóteses de greve, trabalho portuário e na participação dos trabalhadores nos lucros da empresa. No entanto, existe controvérsia a respeito de sua aplicabilidade nos dissídios individuais, sendo que alguns autores entendem que tem cabimento, e outros não, em virtude da indisponibilidade de direitos do trabalhador.
5 Especialista em Direito do Trabalho e Previdenciário pelo CESUSC, metre em direito pelo CESUMAR, professor
de direito do trabalho e processo do trabalho da FAFIMAN e advogado.
Palavras-chave: Arbitragem, Direito do Trabalho; Formas Alternativas de Solução de Conflitos
ABSTRACT
The arbitraction is on of the alternatives to the solution of conflicts. It happens that in Brazil it is just a little used, being more applied in international trade contracts. Despite exists legal previews almost one century and half about arbitraction, it’s no utilization stems by the few information or fear about the arbitrator’s conduct. These are situations and myths that needs to be overcome, because the arbitraction is one of the most modern way to a no judicial’s soluction of conflict, faster and more effective than the judicial provision of the State.The arbitraction is used in desagreement’s conflicts in a pacific way, as so in a strike’s hypotheses, port work and participation from the workers in the company’s profit. However, it has controversy about it’s application in individual conflicts, some authors think it is possible and others doesn’t think so, because of the worker’s rights unavailability.
Key-words: Arbitraction, Workers Rights, Alternative Ways to solute conflicts.
1 INTRODUÇÃO
Trata este artigo, de uma abordagem à possibilidade da arbitragem nos dissídios trabalhista.
Existe pacificação quanto a utilização da arbitragem nos Dissídios Coletivos, e em algumas outras situações, como greve, participação do trabalhador nos lucros da empresa, e no trabalho portuário.
A discussão reside na possibilidade ou não da ocorrência da arbitragem nos dissídios individuais, existindo embate doutrinário nesse ponto, em virtude da alegada indisponibilidade dos direitos trabalhistas.
Assim, procurar-se-á fazer uma breve reflexão acerca da arbitragem, tecendo-se algumas considerações acerca de sua história legislativa no direito pátrio, chegando a sua utilização nos dias atuais.
Após, será procurado esclarecer se em qual forma de composição das partes a arbitragem está inserida.
Por fim, tratar-se-á da questão inerente a aplicabilidade da arbitragem nos dissídios trabalhistas, enfocando-se a sua utilização nos dissídios individuais.
2 ARBITRAGEM, UMA BREVE REFLEXÃO.
A arbitragem no Brasil não se trata de matéria recente, pois remonta à época do Código Comercial, que fazia menção a arbitradores, em seus artigos 80, 82, 95, 194, 201, 209, 215, 217, 749, 750 e 776. Em tal codex, ainda havia a previsão da arbitragem, em seu artigo 294, para a solução de questões surgidas nas sociedades comerciais.
No Regulamento n. 737 de 1850, também se inferia a previsão do arbitrador em seu artigo 189, o qual era equiparado ao perito judicial.
A primeira previsão Constitucional acerca da arbitragem teve lugar na Carta Política de 1891, na medida em que no artigo 34, XI, previa que era de competência privativa do Congresso Nacional a concessão de autorização para o governo declarar guerra, caso restasse infrutífera, ou não tivesse cabimento a arbitragem.
Em 1907, o Decreto 1037 trouxe a previsão de que questões trabalhistas seriam solucionadas pelos entes sindicais, através da arbitragem.
No Código Civil de 1916, a arbitragem foi tratada nos artigos 1.037 a 1.048 e 1.123.
Em 1932, o Decreto 22.132 previu a arbitragem facultativa, e em algumas hipóteses, para questões individuais.
O Código de Processo Civil também continha algumas disposições acerca da arbitragem, as quais constavam em seus artigos 301, § 4º, 583, II, e 1.072 a 1.102.
A Lei 7244/84, que dispunha acerca dos antigos Juizados de Pequenas Causas, que foram substituídos na década de 90 pelos atuais Juizados Especiais, também trazem menções acerca da arbitragem.
Houve também a previsão legislativa, através da Lei 6404/74, em seu artigo 129, §2º, da arbitragem para solução de questões referentes às sociedades anônimas.
Em 1983 foi criado o Sistema Nacional de Relações de Trabalho, através do Decreto-lei n. 2.065/83, bem como, através do Decreto 88.984, foi criado o Serviço Nacional de Arbitragem, que nunca foi utilizado.
No ano de 1993, através do inciso XI do art. 83 da Lei Complementar n. 75, foi deferida ao Ministério Público do Trabalho, a possibilidade de atuar como árbitro, mesmo sem cláusula compromissória, caso solicitado pelas partes, em dissídios de competência da Justiça do Trabalho.
A Lei 9.037/96 regula atualmente a matéria da arbitragem, e revogou os artigos 1.037 a 1.048 do Código Civil de 1916, e artigos 1.072 a 1.102 do Código de Processo Civil.7
Como se vê, a cerca de um século e meio a arbitragem consta em previsões legais. No entanto, verifica-se que muito pouco tem sido utilizada.
Nota-se na atualidade, com maior amplitude, a utilização da previsão da arbitragem nos contratos internacionais, como forma de uma solução rápida para as controvérsias, como também para evitar o desgaste das relações comerciais, e a discussão acerca da legislação aplicável.
Isso se deve a uma cultura inata em nossa sociedade, de que todas as mazelas devem ser solucionadas pelo Estado, através do Poder Judiciário, eis que é o órgão jurisdicional aparelhado para isso, tendo o magistrado como principal figura, pois é a pessoa imparcial e investida de poderes para proferir a decisão que entender justa ao caso concreto. Ou seja, o Estado tem o papel preponderante do dizer o direito, e existe a confiabilidade no aparato judicial.
Esse tipo de pensamento perdura há muito, e a população já sente os reflexos do abarrotamento do Judiciário, através da morosidade processual.
Algumas soluções estão sendo implementadas, como alterações legislativas no que toca a determinados recursos, regulamentação de artigos de lei, a criação da súmula vinculante, entre outras, como forma de desafogamento.
Contudo, ainda não se verifica uma forma maciça de conscientização da sociedade acerca das formas alternativas de solução de conflitos. Timidamente se verificam algumas ações do Conselho Nacional de Justiça, no sentido de implementar a conciliação, o qual, segundo consta em estatística em seu sítio eletrônico, após uma primeira edição do projeto Conciliar é Legal, rendeu resultado satisfatório.
Ocorre que somente isso não basta, é necessário que ocorra uma maior conscientização da população no que tange à conciliação, mediação e arbitragem. E nesse diapasão, faz-se necessário que sejam atingidos os bancos das academias de direito.
Verifica-se que a maioria dos cursos jurídicos ainda formam alunos voltados para o combate, para litigar, aptos a atuarem em todas a instâncias do judiciário, interpondo todos os recursos necessários. Não que isso não seja louvável, porque o egresso de um curso jurídico deve estar totalmente preparado para uma atuação judicial plena.
Porém, necessita-se também apresentar, instigar e praticar, ainda na academia, as técnicas alternativas de solução de conflitos, pois assim far-se-á valer o caráter de libertação que o direito possui, e a sua função de pacificação social, o que claramente não se atinge através da morosidade processual decorrente da falência do aparelho jurisdicional do Estado.
Isso tudo, como forma única de se deixar que cheguem às barras do Poder Judiciário as causas efetivamente de relevância, e que a sociedade, por si só, solucione suas querelas.
3 AUTOCOMPOSIÇÃO x HETEROCOMPOSIÇÃO
Questiona-se se a arbitragem se inclui como uma forma autocompositiva, ou heterocompositiva das partes.
Nesse sentido, se fazem necessários alguns esclarecimentos. Para Carlos Henrique Bezerra Leite:
A autocomposição, que também é forma direta de solução do conflito, consiste em uma técnica em que os litigantes, de comum acordo e sem emprego da força, fazem-se concessões recíprocas mediante ajuste de vontades. [...] Exemplos de autocomposição extraprocessual trabalhista são a convenção coletiva de trabalho e o acordo coletivo de trabalho (CLT, arts. 61 et seq.), bem como a mediação e o termo de conciliação firmado perante a Comissão de Conciliação Prévia-CCP (CLT, art. 625-E)8
Isto é, tem-se a autocomposição quando os litigantes, de comum acordo, sem coerção, através de concessões recíprocas, ajustam suas vontades.
Já a heterocomposição ocorre de modo diverso, pois existe a figura de um terceiro suprapartes. Amauri Mascaro do Nascimento ensina que “Heterocomposição é a solução dos conflitos trabalhistas por uma fonte suprapartes, que decide com força obrigatória sobre os litigantes, que, assim, são submetidos à decisão”9.
Ante a tais explicações, aloca-se a arbitragem, vista sob o aspecto da facultatividade, como uma forma heterocompositiva, eis que necessária a figura do árbitro para a resolução do conflito. Portanto, visualizam-se na relação arbitral as partes, e o árbitro como suprapartes.
No entanto, o último autor mencionado ressalta que a arbitragem também “[...] pode ser considerada uma forma autônoma, porque depende da vontade das partes”10.
4 A ARBITRAGEM NOS DISSÍDIOS TRABALHISTAS
8 Curso de Direito Processual do Trabalho. 5ª Ed. São Paulo: LTr, 2007. P. 108/109.
9 Curso de Direito Processual do Trabalho. 22ª. Ed. São Paulo: Saraiva, 2007. P. 07.
Vários dispositivos legais pátrios fazem menção à possibilidade da arbitragem nos dissídios de natureza trabalhista.
Tem-se a Lei 7.783/89 - Lei de Greve - , que em seu artigo 7º dispõe que:
Observadas as condições previstas nesta Lei, a participação em greve suspende o contrato de trabalho, devendo as relações obrigacionais durante o período ser regidas pelo acordo, convenção, laudo arbitral ou decisão da Justiça do Trabalho.
Também se tem a Lei 8.630/93 – lei que trata do trabalho nos portos -, que em seu artigo 23 diz o seguinte:
Deve ser constituída,no âmbito do órgão de gestão de mão-de-obra, Comissão Paritária para solucionar litígios decorrentes da aplicação das normas a que se referem os arts. 18, 19 e 21 desta lei.
§1º Em caso de impasse, as partes devem recorrer à arbitragem de ofertas finais.
§2º Firmado o compromisso arbitral, não será admitida a desistência de qualquer das partes.
§3º Os árbitros serão escolhidos de comum acordo entre as partes e o laudo arbitral proferido para solução da pendência possui força normativa, independentemente de homologação judicial.
A Lei 10.101/2000 – lei que trata da participação do trabalhador nos lucros da empresa - , traz a seguinte previsão em seu artigo 4º:
Caso a negociação visando à participação nos lucros ou resultados da empresa resulte em impasse, as partes poderão utilizar-se dos seguintes mecanismos de solução de litígio: I-mediação;
II-arbitragem de ofertas finais [...]
Entretanto, é no Direito Coletivo do Trabalho que se verifica uma maior abertura à arbitragem, na medida em que os §§ 1º e 2º do artigo 114 da Constituição Federal dispõe o seguinte:
[...]
§1º. Frustrada a negociação coletiva, as partes poderão eleger árbitros.
§2º Recusando-se qualquer das partes à negociação ou à arbitragem, é facultado aos respectivos sindicatos ajuizar dissídio coletivo, podendo a Justiça do Trabalho estabelecer normas e condições, respeitadas as disposições convencionais e legais mínimas de proteção ao trabalho.
Como-se nota, em determinadas situações o legislador expressamente previu a arbitragem nas relações laborais, sendo que no caso de dissídio coletivo, enfatize-se, a tentativa arbitral anterior ao ajuizamento é obrigatória.
Verdadeira celeuma existe no que diz respeito à arbitragem nos dissídios individuais, pois, conforme Rodolfo Pamplona Filho, “ não há, porém, uma lei específica da Arbitragem Trabalhista, o que, sob nosso prisma focal, seria o ideal, tendo em vista as peculiaridades próprias da relação jurídica laboral, notadamente o que chamamos de ‘alta carga de eletricidade social’ do vínculo empregatício”11.
Isso porque o artigo 1º da Lei 9.307/96, restringe a arbitragem aos litígios que envolvam direitos patrimoniais disponíveis.
Há quem entenda que, em virtude do Princípio da Irrenunciabilidade vigente no Direito do Trabalho, a arbitragem estaria vedada nas hipóteses de dissídios individuais.
De modo diverso entende Sérgio Pinto Martins, que aduz o seguinte: [...] Seria necessária lei determinando a possibilidade da utilização da arbitragem para solucionar conflitos individuais do trabalho, de maneira que não se aplicasse o art. 1º da Lei n. 9.307. Entretanto, a Lei n. 9.307 não proibiu a arbitragem como forma de solucionar conflitos individuais do trabalho. O que não
11 Atualizando uma visão didática da arbitragem na área trabalhista. Extraído do site