Universidade de Brasília Faculdade de Direito
Teoria Geral Processo II – Profº Vallisney de Souza Oliveira
TRABALHO II
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ÔNUS DA PROVA – DIREITO DO
CONSUMIDOR
Maíra Isabel Saldanha Rodrigues
Matrícula: 13/0158194I – TRANSCRIÇÃO DO ACÓRDÃO (ementa)
AgRg no AGRAVO DE INSTRUMENTO Nº 1.394.292 - RJ (2011/0008866-9) RELATOR : MINISTRO RAUL ARAÚJO
AGRAVANTE : THEREZINHA SILVA VIEIRA E OUTROS
ADVOGADO : REYNALDO LOURENÇO DE ALMEIDA JUNIOR E OUTRO(S) AGRAVADO : TELEMAR NORTE LESTE S/A
ADVOGADO : ANA CAROLINA MONTEIRO E OUTRO(S) EMENTA
PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO INTERNO EM AGRAVO DE INSTRUMENTO. CONTRATO DE PARTICIPAÇÃO FINANCEIRA. COMPROVAÇÃO DE RELAÇÃO JURÍDICA. INVERSÃO DO ÔNUS DAPROVA. MATÉRIA DE PROVA. REEXAME. INCIDÊNCIA DA SÚMULA 7/STJ.
1. A inversão do ônus da prova, prevista no art. 6º, VIII, do Código de Defesa do
Consumidor, fica a critério do juiz, conforme apreciação dos aspectos de verossimilhança das alegações do consumidor ou de sua hipossuficiência.
2. Na hipótese em exame, a eg. Corte de origem, após sopesar o acervo
fático-probatório reunido nos autos, concluiu que, embora seja aplicável ao caso o Código de Defesa do Consumidor, não se configurava a hipossuficiência do consumidor a autorizar a inversão do ônus da prova.
3. O reexame de tais elementos, formadores da convicção do Juízo da causa, não é
possível na via estreita do recurso especial, por exigir a análise do conjunto fático-probatório dos autos. Incidência da Súmula 7/STJ.
I – COMENTÁRIOS
TEMA: Ônus da Prova – Direito do Consumidor
Expressa Rizzatto Nunes que “entender a produção de provas em casos que envolvam a relação de consumo é compreender toda a principiologia da lei 8078 que pressupõe, entre outros princípios e normas, a vulnerabilidade do consumidor, sua hipossuficiência (...), o plano geral da responsabilização do fornecedor de natureza objetiva etc”.
A produção de provas dentro do Direito do Consumidor deve sempre ser guiada pelo artigo 6º do Código de Defesa do Consumidor:
Art. 6º São direitos básicos do consumidor:
I - a proteção da vida, saúde e segurança contra os riscos provocados por práticas no fornecimento de produtos e serviços considerados perigosos ou nocivos;
II - a educação e divulgação sobre o consumo adequado dos produtos e serviços, asseguradas a liberdade de escolha e a igualdade nas contratações; III - a informação adequada e clara sobre os diferentes produtos e serviços, com especificação correta de quantidade, características, composição, qualidade, tributos incidentes e preço, bem como sobre os riscos que apresentem;
IV - a proteção contra a publicidade enganosa e abusiva, métodos comerciais coercitivos ou desleais, bem como contra práticas e cláusulas abusivas ou impostas no fornecimento de produtos e serviços;
V - a modificação das cláusulas contratuais que estabeleçam prestações desproporcionais ou sua revisão em razão de fatos supervenientes que as tornem excessivamente onerosas;
VI - a efetiva prevenção e reparação de danos patrimoniais e morais, individuais, coletivos e difusos;
VII - o acesso aos órgãos judiciários e administrativos com vistas à prevenção ou reparação de danos patrimoniais e morais, individuais, coletivos ou difusos, assegurada a proteção Jurídica, administrativa e técnica aos necessitados;
VIII - a facilitação da defesa de seus direitos, inclusive com a inversão do ônus da prova, a seu favor, no processo civil, quando, a critério do juiz, for verossímil a alegação ou quando for ele hipossuficiente, segundo as regras ordinárias de experiências;
IX - (Vetado);
X - a adequada e eficaz prestação dos serviços públicos em geral.
Em matéria de produção de prova, o legislador, ao dispor que é direito básico do consumidor a inversão do ônus da prova, colocou que a observação a tal regra é destinada à decisão do juiz, segundo seu critério e sempre que verificasse a verossimilhança entre as alegações do consumidor e/ou sua hipossuficiência.
A inversão do ônus da prova é uma forma de facilitação dos direitos do consumidor e se justifica como uma norma dentre tantas outras previstas no CDC para garantir o equilíbrio da relação de consumo, em decorrência da reconhecida vulnerabilidade do consumidor.
O artigo 333, I e II do Código de Processo Civil, trata das regras processuais comuns, no qual se incumbe ao Autor o ônus de provar os fatos constitutivos de seu direito e do réu a obrigação da prova quanto aos fatos modificativos ou extintivos do direito do Autor. Nesse sentido, o Código de Defesa do Consumidor traz um dispositivo legal específico, o art. 6º, VIII, que trata do direito básico do consumidor a respeito da facilitação da defesa dos seus direitos em juízo, inclusive com a inversão do ônus da prova, a seu favor no processo civil, quando, a critério do juiz, for parte mais fraca segundo as regras ordinárias de experiência.
Quando à matéria, já dispôs o Supremo Tribunal de Justiça:
"AGRAVO REGIMENTAL. INVERSÃO DO ÔNUS DA PROVA. MATÉRIA DE PROVA. REEXAME. INVIABILIDADE. SÚMULA 7/STJ. DECISÃO AGRAVADA MANTIDA. IMPROVIMENTO.
1. Houve o reconhecimento da hipossuficiência do consumidor, assim como da verossimilhança de suas alegações, julgando atendidas as exigências encartadas no art. 6º, VIII, do CDC. A inversão do ônus da prova foi concedida após a apreciação de aspectos ligados ao conjunto fático-probatório dos autos. O reexame de tais elementos, formadores da convicção do juiz da causa, não é possível na via estreita do recurso especial por exigir a análise e matéria de prova.
2. A pretensão recursal esbarra na Súmula 7/STJ.
3. Agravo improvido." (AgRg no Ag 758.814/SP, 4ª Turma, Rel. Min. LUIS FELIPE SALOMÃO, DJe de 9/3/2009)
"PROCESSUAL CIVIL. ACÓRDÃO. OMISSÃO. OCORRÊNCIA. CONSUMIDOR. ÔNUS DA PROVA. INVERSÃO. INTELIGÊNCIA DO ART. 6º, VIII DA LEI Nº 8.078/90.
1 - A inversão ou não do ônus da prova, prevista no art. 6º, VIII da Lei nº 8.078/90, depende da análise de requisitos básicos (verossimilhança das alegações e hipossuficiência do consumidor), aferidas com base nos aspectos fático-probatórios peculiares de cada caso concreto.
2 - Omisso o acórdão quanto a este mister, reconhece-se violação ao art. 535, II do CPC.
3 - Recurso conhecido e provido para, anulando o acórdão, determinar ao Tribunal de origem o suprimento da mácula." (REsp 435.572/RJ, 4ª Turma, Rel. Min. FERNANDO GONÇALVES, DJ de 16/8/2004)
O caso exposto na ementa acima trata de agravo regimental interposto pela BRASIL TELECOM S/A contra decisão que negou provimento a agravo de instrumento, sob o fundamento de que a inversão do ônus da prova dependia da aferição da presença da verossimilhança das alegações ou da hipossuficiência do consumidor, o que, no entanto, esbarrava, na hipótese, no óbice no enunciado nº 7 da Súmula do STJ.
Explicita o enunciado da Súmula nº 7 do STJ: “a pretensão de simples reexame de prova não enseja recurso especial”.
Os agravantes alegam ser inaplicável a súmula 7/STJ ao caso, tendo em vista que estão presentes todos os requisitos para a inversão do ônus da prova (art. 6º, VIII, da Lei 8.078/90 - CDC). Afirmam, assim, a hipossuficiência técnica do consumidor, pois a recorrida possui melhores condições para a produção probatória de exibição de documentos comum às partes. Requerendo, portanto, a reconsideração da decisão agravada ou sua reforma pela Turma Julgadora.
Quanto à inversão do ônus probatório, o STJ entende que a inversão do ônus da prova (CDC, art. 6º, VIII) não ocorre automaticamente, demandando verificação em cada caso fático, da presença dos requisitos autorizadores (verossimilhança das alegações ou hipossuficiência do consumidor).
Na hipótese dos autos, nos autos originários, após sopesar o acervo fático-probatório reunido nos autos, foi concluído que embora fosse aplicável ao caso o Código de Defesa do Consumidor, não se configurava a hipossuficiência do consumidor, descaracterizando, assim, o instituto de inversão do ônus da prova.
Nesse contexto, a pretensão da parte recorrente exige que o Superior Tribunal de Justiça revolva o conjunto fático-probatório delineado nos autos, inviável na via estreita do recurso especial, nos termos do enunciado nº 7 da Súmula do STJ, como apresentado anteriormente.
Ante o exposto, foi negado o provimento ao agravo regimental, pelo Supremo tribunal de Justiça. Quando à decisão, concordo, pois o instituto de inversão do ônus da prova depende da aferição pelo julgador da presença da verossimilhança das alegações ou da hipossuficiência do consumidor, nos termos do art. 6º, VIII, do Código de Defesa do
Consumidor, o que, no entanto, em sede de recurso especial, encontra óbice no enunciado sumular explicitado.
III – BIBLIOGRAFIA
RIZZATTO, Nunes. Comentários ao Código de Defesa do Consumidor. São Paulo: Ed. Saraiva, 2000.
RIZZATTO, Nunes. Curso de direito do consumidor: com exercícios. 4.ed. São Paulo: Atlas, 2009.
TOALDO, Adriane Medianeira. A inversão do ônus da prova no Código de Defesa do Consumidor. In: Âmbito Jurídico, Rio Grande, XV, n. 104, set 2012. Disponível em: <http://www.ambitojuridico.com.br/site/?n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=110 8>. Acesso em out 2013.