Superior Tribunal de Justiça
RECURSO EM HABEAS CORPUS Nº 21.122 - SP (2007/0080299-0)
RELATORA
: MINISTRA DENISE ARRUDA
RECORRENTE
: JOÃO MARCOS BACHEGA
ADVOGADO
: MARIA DANIELA BACHEGA FEIJÓ
RECORRIDO
: TRIBUNAL REGIONAL FEDERAL DA 3A REGIÃO
EMENTA
RECURSO EM HABEAS CORPUS . DEPOSITÁRIO INFIEL. EXECUÇÃO FISCAL.
LEGALIDADE DO DECRETO DE PRISÃO CIVIL.
1. A Constituição da República, em seu art. 5º, dispõe: "LXVIII - conceder-se-á habeas
corpus sempre que alguém sofrer ou se achar ameaçado de sofrer violência ou coação em
sua liberdade de locomoção, por ilegalidade ou abuso de poder;" Já o inciso LXVII do
referido artigo prescreve que "não haverá prisão civil por dívida, salvo a do responsável
pelo inadimplemento voluntário e inescusável de obrigação alimentícia e a do depositário
infiel " (grifou-se). Nos termos dos arts. 139, 148 e 150 do Código de Processo Civil, as
atribuições do depositário se traduzem na guarda e conservação de bens penhorados,
respondendo esse auxiliar do juízo pelos prejuízos que, por dolo ou culpa, causar à parte.
A Lei 6.830/80, em seu art. 37, acrescenta: "O auxiliar de justiça que, por ação ou
omissão, culposa ou dolosa, prejudicar a execução, será responsabilizado, civil, penal e
administrativamente." O atual Código Civil, em seu art. 652, de modo semelhante ao art.
1.287 do Código Civil de 1916, prevê a prisão do depositário que, quando exigido, não
restitui o depósito. A Lei 11.382, de 6 de dezembro de 2006, veio positivar a orientação
jurisprudencial há tempos consolidada na Súmula 619/STF, acrescentando o § 3º ao art.
666 do Código de Processo Civil, do seguinte teor: "A prisão de depositário judicial infiel
será decretada no próprio processo, independentemente de ação de depósito. "
2. A restituição, pelo depositário, da quantia equivalente em dinheiro, quando houver
deterioração dos bens penhorados, refere-se ao valor desses bens à época da penhora,
corrigido monetariamente, sob pena de enriquecimento ilícito. Nesse sentido: STF – RE
96.931/SP, 2ª Turma, Rel. Min. Décio Miranda, RTJ, vol. 112-01, p. 288.
3. O encargo atribuído ao depositário judicial deve ser fielmente exercido como um
múnus público, sob pena de decretação da prisão civil do infiel, sendo irrelevante a
discussão a respeito da fungibilidade dos bens penhorados. A Primeira Turma deste
Superior Tribunal de Justiça, por ocasião do julgamento do HC 47.927/SP (DJ de
6.3.2006, p. 161), em que o eminente Ministro Teori Albino Zavascki foi designado para
lavrar o acórdão, reafirmou o entendimento no sentido de que o regime de depósito de
bens fungíveis não se aplica ao depositário judicial. Precedentes deste STJ e do STF.
4. Consoante já proclamou a Quarta Turma desta Corte, ao julgar caso análogo, é
"inviável a aplicação analógica do art. 44 do Código Penal, que possibilita a substituição
das penas restritivas de liberdade pelas restritivas de direitos, tão-somente se decorrentes de
condenação penal, instituto distinto da prisão civil, a qual objetiva compelir o inadimplente
a cumprir determinada obrigação e não segregar pessoa perigosa da sociedade para a sua
recuperação" (RHC 16.184/RS, Rel. Min. Fernando Gonçalves, DJ de 20.6.2005, p.
287).
5. Na hipótese, não tendo sido entregue ao juízo os bens penhorados, ou o equivalente
em dinheiro, evidencia-se a legalidade da prisão civil do depositário, decretada nos
próprios autos da execução.
6. Recurso ordinário desprovido.
ACÓRDÃO
Superior Tribunal de Justiça
Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros da
Primeira Turma do Superior Tribunal de Justiça: A Turma, por unanimidade, negou provimento ao
recurso ordinário em habeas corpus , nos termos do voto da Sra. Ministra Relatora. Os Srs.
Ministros José Delgado, Francisco Falcão e Teori Albino Zavascki votaram com a Sra. Ministra
Relatora. Ausente, justificadamente, o Sr. Ministro Luiz Fux.
Brasília (DF), 5 de junho de 2007(Data do Julgamento).
MINISTRA DENISE ARRUDA
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RECURSO EM HABEAS CORPUS Nº 21.122 - SP (2007/0080299-0)
RELATORA
: MINISTRA DENISE ARRUDA
RECORRENTE
: JOÃO MARCOS BACHEGA
ADVOGADO
: MARIA DANIELA BACHEGA FEIJÓ
RECORRIDO
: TRIBUNAL REGIONAL FEDERAL DA 3A REGIÃO
RELATÓRIO
A EXMA. SRA. MINISTRA DENISE ARRUDA (Relatora):
Trata-se de recurso ordinário interposto por JOÃO MARCOS
BACHEGA com fundamento no art. 105, II, a, da Constituição da República, contra acórdão do
Tribunal Regional Federal da 3ª Região, denegatório de habeas corpus .
Eis a ementa do acórdão recorrido:
"HABEAS CORPUS. DEPOSITÁRIO INFIEL. PERDA DOS BENS. ORDEM DENEGADA.
1- Muito embora o Paciente alegue que os bens penhorados estão à disposição da exeqüente, não provou nesses autos sua existência efetiva, tampouco que são equivalentes aos bens originais, uma vez que estes não foram localizados, assim como a anuência pelo exeqüente na substituição dos bens.
2- É dever do depositário restituir, quando solicitado, os bens penhorados. A tentativa de substituição por outros bens, não o desobriga, nem o isenta das conseqüências da quebra do seu dever.
3- Ordem denegada."
Consta das razões recursais que, nos autos originários de execução fiscal,
tendo sido penhoradas uma copiadora heliográfica e uma prancheta para desenho, tais bens da
sociedade executada foram depositados em mãos do paciente, que, por sua vez, é sócio e também
representante legal da devedora.
Alega o recorrente que os referidos bens deterioraram-se.
Relata que, diante desse contexto, a União pediu a decretação de sua
prisão civil, por considerá-lo depositário infiel.
Afirma que, ao tomar conhecimento do decreto de prisão, requereu, em
julho de 2004, a avaliação indireta dos bens penhorados, pois pretendia depositar a quantia
correspondente ao valor de mercado deles; todavia, o Dr. Juiz da execução não se pronunciou
acerca do mencionado pedido.
Argumenta que, em dezembro de 2005, adquiriu bens idênticos aos
penhorados e solicitou fossem eles substituídos, com a conseqüente revogação do decreto de
prisão civil.
Diz que, por não terem sido atendidos os seus requerimentos, impetrou
habeas corpus perante o Tribunal Regional Federal da 3ª Região, cuja ordem, porém, foi
denegada.
O recorrente sustenta a ilegalidade da ordem de prisão, na medida em que
os bens penhorados são considerados fungíveis, nos termos do art. 85 do atual Código Civil, tendo
sido oferecidos, em substituição, outros bens da mesma espécie, qualidade e quantidade.
Entende que a não-revogação do decreto de prisão civil, na hipótese,
implicaria penalizar de maneira mais gravosa uma pessoa sem antecedentes criminais do que um
condenado criminalmente que esteja na mesma situação.
Requer, desse modo, a reforma do acórdão impugnado, a fim de que lhe
Documento: 696033 - Inteiro Teor do Acórdão - Site certificado - DJ: 29/06/2007 Página 3 de 10Superior Tribunal de Justiça
seja concedida a ordem de habeas corpus , determinando-se a revogação do decreto de prisão.
Depois de recebido o recurso na origem e oferecidas as contra-razões, os
autos foram encaminhados a esta Corte Superior.
O Ministério Público Federal opina pelo desprovimento do presente
recurso ordinário.
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VOTO
A EXMA. SRA. MINISTRA DENISE ARRUDA (Relatora):
A presente irresignação não merece acolhida.
A controvérsia cinge-se à legalidade, ou não, da ordem de prisão de
depositário infiel.
A Constituição Federal, em seu art. 5º, dispõe: "LXVIII - conceder-se-á
habeas corpus sempre que alguém sofrer ou se achar ameaçado de sofrer violência ou
coação em sua liberdade de locomoção , por ilegalidade ou abuso de poder ;" (grifou-se) Já o
inciso LXVII do referido artigo prescreve que "não haverá prisão civil por dívida, salvo a do
responsável pelo inadimplemento voluntário e inescusável de obrigação alimentícia e a do
depositário infiel " (grifou-se).
Nos termos dos arts. 139, 148 e 150 do Código de Processo Civil, as
atribuições do depositário se traduzem na guarda e conservação de bens penhorados, respondendo
esse auxiliar do juízo pelos prejuízos que, por dolo ou culpa, causar à parte.
A Lei 6.830/80, em seu art. 37, acrescenta: "O auxiliar de justiça que,
por ação ou omissão, culposa ou dolosa, prejudicar a execução, será responsabilizado,
civil, penal e administrativamente."
De acordo com o Código de Processo Civil, "considerar-se-á feita a
penhora mediante a apreensão e o depósito dos bens, lavrando-se um só auto se as
diligências forem concluídas no mesmo dia" (art. 664), e "o auto de penhora conterá (...) a
nomeação do depositário dos bens" (art. 665, IV).
Em relação ao depósito, assim dispunha o art. 666 do Código de Processo
Civil, em sua redação original, vigente à época dos fatos e aplicado ao caso subsidiariamente (art.
1º da Lei 6.830/80):
"Art. 666. Se o credor não concordar em que fique como depositário o devedor, depositar-se-ão:
I - no Banco do Brasil, na Caixa Econômica Federal, ou em um banco, de que o Estado-Membro da União possua mais de metade do capital social integralizado; ou, em falta de tais estabelecimentos de crédito, ou agências suas no lugar, em qualquer estabelecimento de crédito, designado pelo juiz, as quantias em dinheiro, as pedras e os metais preciosos, bem como os papéis de crédito;
II - em poder do depositário judicial, os móveis e os imóveis urbanos; III - em mãos de depositário particular, os demais bens, na forma prescrita na Subseção V deste Capítulo."
Ainda sobre o depósito, a Lei 6.830/80, no § 3º de seu art. 11, prescreve:
"O Juiz ordenará a remoção do bem penhorado para depósito judicial, particular ou da
Fazenda Pública exeqüente, sempre que esta o requerer, em qualquer fase do processo."
No que se refere à prisão do depositário que, quando exigido, não restitui
o depósito, o atual Código Civil, em seu art. 652, de modo semelhante ao art. 1.287 do Código Civil
de 1916, dispõe o seguinte:
"Art. 652. Seja o depósito voluntário ou necessário, o depositário que não o restituir quando exigido será compelido a fazê-lo mediante prisão não excedente a um ano, e ressarcir os prejuízos."
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Registre-se que a Lei 11.382, de 6 de dezembro de 2006, veio positivar a
orientação jurisprudencial há tempos consolidada na Súmula 619/STF, acrescentando o § 3º ao art.
666 do Código de Processo Civil, do seguinte teor: "A prisão de depositário judicial infiel será
decretada no próprio processo, independentemente de ação de depósito. "
Na hipótese, trata-se de prisão civil decretada em 19 de novembro de
1997 (fl. 64/verso), no âmbito de execução fiscal movida pela Procuradoria da Fazenda Nacional
contra a empresa Bachega Carazzatto e Santos Sc Ltda. (fl. 60), em cujos autos foram
penhoradas, em 1º de outubro de 1993, uma copiadora heliográfica, marca OCE, modelo 200,
e uma prancheta para desenho, marca Trident, com tecnígrafo de trilho, tendo sido tais bens
depositados em mãos do paciente (fl. 62), que, por sua vez, é sócio e também representante legal
da executada (fl. 61/verso).
Diante da deterioração dos bens penhorados, o depositário requereu, em
julho de 2004, a avaliação indireta desses bens, pois pretendia depositar a quantia correspondente
ao seu valor de mercado (fls. 18-24); todavia, o Dr. Juiz da execução determinou a atualização
monetária do valor daqueles bens, conforme avaliados à época da penhora, a fim de que fosse
restituído o valor atualizado.
Posteriormente, em dezembro de 2005, o depositário solicitou a
substituição dos bens penhorados, que se classificam como fungíveis, por outros da mesma
espécie, qualidade e quantidade, com a conseqüente revogação do decreto de prisão civil (fls.
28-32).
Considerando que, em vez da avaliação indireta dos bens penhorados, a
revogação da ordem de prisão foi condicionada ao depósito da quantia equivalente ao valor desses
bens à época da penhora, corrigido monetariamente (fl. 16), o depositário peticionou novamente ao
Juiz da execução fiscal, em fevereiro de 2006, reiterando os pedidos de substituição dos bens
penhorados e de revogação da ordem de prisão.
Por não terem sido atendidos os seus requerimentos na primeira instância,
o depositário impetrou o habeas corpus perante o Tribunal Regional Federal da 3ª Região, cuja
ordem, porém, foi denegada. Transcreve-se, por oportuno, o voto condutor do acórdão recorrido:
"Os elementos constantes da impetração não permitem concluir pela ilegalidade da decisão. Ao contrário, às fls. 62, consta Auto de Penhora e Depósito dos bens em questão, tendo o Paciente aceito o encargo de fiel depositário, que pressupõe a guarda e a conservação dos bens sob sua responsabilidade.
Muito embora o Paciente alegue que os bens penhorados estão à disposição da exeqüente, não provou nesses autos sua existência efetiva, tampouco que são equivalentes aos bens originais, uma vez que estes não foram localizados, assim como a anuência pelo exeqüente na substituição dos bens.
É dever do depositário restituir, quando solicitado, os bens penhorados. A tentativa de substituição por outros bens, não o desobriga, nem o isenta das conseqüências da quebra do seu dever.
Dessa forma, o mandado constritivo revela-se legítimo. O Paciente assumiu o encargo de fiel depositário e descumpriu seu dever de guarda e conservação, deixando de entregá-lo em Juízo ou o seu equivalente em dinheiro, não havendo provas de que os bens oferecidos em substituição possuem valor equivalente aos do encargo.
'RECURSO ORDINÁRIO EM HABEAS CORPUS. DEPÓSITO JUDICIAL. BENS FUNGÍVEIS. PRISÃO CIVIL. CABIMENTO. Tratando-se de depósito judicial, é legítima a prisão civil do depositário infiel, sendo irrelevante o fato dos bens depositados serem fungíveis. Precedentes do STJ. Recurso não provido.' (RHC - 18453/PI; DJ 12/06/2006; 4ª Turma - STJ;
Superior Tribunal de Justiça
Rel. Min. Cesar Asfor Rocha)
'PROCESSO CIVIL - DEPOSITÁRIO INFIEL - PRISÃO DECRETADA A APRESENTAÇÃO DO BEM PENHORADO OU SEU EQUIVALENTE EM DINHEIRO - ORDEM NÃO ATENDIDA - INTERPOSIÇÃO DE AGRAVO DE INSTRUMENTO, SOB A ALEGAÇÃO DE QUE SE TRATA DE BEM FUNGÍVEL (CALCÁRIO DOLOMÍTICO A GRANEL) - PRETENSA APLICAÇÃO DO ARTIGO 645 DO ATUAL CÓDIGO CIVIL (ANTIGO ART. 1280 DO CC/1916) - ALEGADA NULIDADE DA EXECUÇÃO FISCAL. NÃO OCORRÊNCIA.
(...)
O que se nota, entretanto, é a demonstração do rompimento da relação de fidelidade estabelecida entre o órgão judicante e o depositário, de modo que não há falar em ilegalidade na decisão que determinou a apresentação do bem. A propósito, outro não é o entendimento desta Colenda 2ª Turma, consoante decidido no Resp 133.600/SP, relatado pela ilustre Ministra Eliana Calmon, in DJ 4.12.2000, ao pontificar que 'descumprida a obrigação de guarda do bem o qual deve ser apresentado pelo depositário quando intimado para tal, resta-lhe a alternativa de fazer o depósito do valor equivalente, sob pena de ser declarado infiel'.
-Vale ressaltar que, segundo torrencial jurisprudência, 'mesmo em se tratando de depósito de bens fungíveis, é possível a prisão civil do depositário infiel, havendo de prevalecer o respeito à boa-fé e à confiança na guarda de coisa alheia'. Precedentes deste STJ e do STF (RHC 15.785/TO, Tel. Min Fernando Gonçalves, DJ 10.5.2004). No mesmo sentido: HC 20.066-SP, DJ 16/4/2002; HC 32.767-SP, DJ22/6/2004, ambos deste Relator e AGRHC 30.045/SP, Rel. Min. João Otávio de Noronha, DJ 6.10.2003. No Pretério Excelso confira-se HC 71.097-PR, Rel Min. Sydney Sanches. DJ 29.3.1996 e HC 74.473-PR, Rel. Min. Francisco Rezek, RTJ 163/696.
(...)'
(Resp 709353/MS; STJ 2ª Turma. DJ 05.09.2005. Rel. Min. Franciulli Netto)
Enfim, anoto que o habeas corpus não é a via adequada para a discussão de incidentes da execução, salvo hipóteses de ilegalidade manifesta, o que não se verifica no presente caso.
Por oportuno, declaro prejudicado o pedido de reconsideração da medida liminar constante às fls. 125/131.
Diante do exposto, denego a ordem."
O acórdão recorrido deve ser mantido por seus próprios fundamentos.
Convém anotar que o encargo atribuído ao depositário judicial deve ser
fielmente exercido como um múnus público, sob pena de decretação da prisão civil do infiel, sendo
irrelevante a discussão a respeito da fungibilidade dos bens penhorados.
A Primeira Turma deste Superior Tribunal de Justiça, por ocasião do
julgamento do HC 47.927/SP (DJ de 6.3.2006, p. 161), em que o eminente Ministro Teori Albino
Zavascki foi designado para lavrar o acórdão, reafirmou o entendimento no sentido de que o
regime de depósito de bens fungíveis não se aplica ao depositário judicial.
Eis a ementa do referido julgado:
"PROCESSUAL CIVIL. HABEAS CORPUS. DEPOSITÁRIO INFIEL DE Documento: 696033 - Inteiro Teor do Acórdão - Site certificado - DJ: 29/06/2007 Página 7 de 10
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BENS PENHORADOS EM EXECUÇÃO FISCAL. PRISÃO. POSSIBILIDADE. INAPLICABILIDADE DO REGIME DO DEPÓSITO CONTRATUAL DE DIREITO PRIVADO.
1. Em se tratando de bens fungíveis, não se pode confundir o seu depósito judicial decorrente de penhora com o seu depósito voluntário decorrente de contrato. Com efeito, caracteriza-se como depósito irregular o contrato que importa a entrega de coisa fungível, obrigando-se o depositário a restituir objetos do mesmo gênero, qualidade e quantidade, sujeito às disposições que regulam o contrato de mútuo (CC, art. 645). Em casos tais, confere-se ao depositário a faculdade de dispor dos bens bens objeto do contrato como se fossem seus, circunstância que, segundo a jurisprudência consagrada no STJ, torna inadmissível a utilização da ação de depósito, bem assim a cominação da pena de prisão, em caso de descumprimento do contrato. 2. É inteiramente diversa a situação em se tratando de depósito judicial de bem penhorado em ação de execução, cuja disciplina deve amoldar-se à natureza e à finalidade da penhora, que é seu pressuposto. A penhora, 'ato executivo que afeta determinado bem à execução, permitindo sua ulterior expropriação, e torna os atos de disposição de seu proprietário ineficazes em face do processo' (Araken de Assis), tem como efeitos principais (a) a concentração da responsabilidade pela satisfação do débito sobre determinados bens, individualizados e afetados à demanda executória; (b) a conservação dos bens penhorados, mediante seu depósito e, se for o caso, administração; (c) a ineficácia relativa dos atos de disposição; (d) a reorganização da posse; (e) a perda do direito de fruição, traduzida nos limites impostos ao uso e gozo da coisa, cuja subtração, supressão, destruição, dispersão ou deterioração constitui ilícito penal (art. 179 do CP).
3. Na conformação desse conjunto de medidas restritivas ao poder de disposição do executado, destinadas a conservar o bem no interesse da pretensão executória, não faz a lei qualquer distinção entre coisas fungíveis ou infungíveis, devendo, em ambos os casos, abster-se o depositário de qualquer ato tendente a dissipar a garantia da execução.
4. Assim, 'tem-se que as coisas móveis penhoradas, ainda que objetivamente possam ser fungíveis por suas qualidades intrínsecas (...), são tratadas, por força da lei, como coisas infungíveis, tanto assim que ela exige que sejam caracterizadas, o que abrange identificação do imóvel onde ficarão depositadas, não podendo o depositário dispor delas, senão com autorização judicial. São, pois, coisas fungíveis objetivamente, mas tratadas, legal e portanto necessariamente, como coisas infungíveis, ou, como sustentam outros, coisas fungíveis com designação específica, o que afasta a caracterização desse depósito como depósito irregular. Cabível, pois, a prisão civil do depositário infiel, em se tratando de penhora, como técnica processual de coerção aplicável.' (HC 81.813/GO, 1ª Turma, Min. Moreira Alves, DJ de 11.10.2002). Precedentes do STJ.
5. E, em se tratando de bens depositados por força de penhora, dispensa-se, nos termos da Súmula 619/STF, o ajuizamento da ação autônoma de depósito para decretação da prisão, exigindo-se, porém, que seja expressa a assunção do encargo pelo depositário (Súmula 304/STJ).
6. No caso dos autos, o depositário, tendo assumido expressamente tal encargo, deixou de atender à ordem de apresentação ao juízo de títulos ao portador penhorados em execução fiscal. Está, assim, autorizado o decreto de prisão civil como meio coercitivo para o cumprimento do dever de
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restituir o objeto do depósito. Registre-se, ainda, ser duvidosa a caracterização dos referidos bens como fungíveis, por se tratar de títulos individualizados e identificados por número de série.
7. Ordem denegada."
Confiram-se, no mesmo sentido, os seguintes precedentes deste Tribunal:
HC 53.619/SP, 2ª Turma, Rel. Min. Castro Meira, DJ de 11.12.2006, p. 335; HC 51.777/SP, 2ª
Turma, Rel. Min. João Otávio de Noronha, DJ de 4.10.2006, p. 207; HC 67.978/RS, 3ª Turma,
Rel. Min. Carlos Alberto Menezes Direito, DJ de 26.2.2007, p. 581; HC 53.929/SP, 3ª Turma, Rel.
Min. Castro Filho, DJ de 11.9.2006, p. 242; HC 22.171/GO, 3ª Turma, Rel. Min. Nancy Andrighi,
DJ de 16.9.2002, p. 180; HC 49.355/PR, 4ª Turma, Rel. Min. Jorge Scartezzini, DJ de 5.2.2007, p.
237; RHC 18.453/PI, 4ª Turma, Rel. Min. Cesar Asfor Rocha, DJ de 12.6.2006, p. 484; RHC
17.900/DF, 4ª Turma, Rel. Min. Barros Monteiro, DJ de 10.10.2005, p. 368. Outra não é, a
propósito, a orientação jurisprudencial do Supremo Tribunal Federal: RHC 58.475/SP, 1ª Turma,
Rel. Min. Rafael Mayer, RTJ, vol. 97-03, p. 595; HC 74.473/PR, 2ª Turma, Rel. Min. Francisco
Rezek, DJ de 27.6.1997, p. 30.328; HC 81.813/GO, 1ª Turma, Rel. Min. Moreira Alves, DJ de
11.10.2002, p. 34.
Outrossim, a restituição, pelo depositário, da quantia equivalente em
dinheiro, quando houver deterioração dos bens penhorados, refere-se ao valor desses bens à
época da penhora, corrigido monetariamente, sob pena de enriquecimento ilícito. Nesse sentido é o
seguinte precedente do Pretório Excelso:
"CIVIL. Ação de depósito. Depositário judicial, representante da firma executada, que deixa de entregar a coisa depositada ou seu equivalente em dinheiro. Ação de depósito julgada procedente. Alegação de perecimento da coisa, por caso fortuito, incomprovada, e até desmentida pelo confronto de datas. Equivalente em dinheiro da coisa depositada há de ser calculado com correção monetária, para corresponder ao custo de reprodução." (RE 96.931/SP, 2ª Turma, Rel. Min. Décio Miranda, RTJ, vol. 112-01, p. 288)
Por fim, consoante já proclamou a Quarta Turma desta Corte Superior, ao
julgar caso análogo, é "inviável a aplicação analógica do art. 44 do Código Penal, que
possibilita a substituição das penas restritivas de liberdade pelas restritivas de direitos,
tão-somente se decorrentes de condenação penal, instituto distinto da prisão civil, a qual
objetiva compelir o inadimplente a cumprir determinada obrigação e não segregar pessoa
perigosa da sociedade para a sua recuperação" (RHC 16.184/RS, Rel. Min. Fernando
Gonçalves, DJ de 20.6.2005, p. 287).
No caso, o depositário foi instituído como auxiliar da justiça, razão pela
qual, diante de suas atribuições legais, deveria ter sido zeloso, inclusive requerendo ao Juiz
autorização para a alienação antecipada dos bens penhorados, nos termos do art. 670 do Código
de Processo Civil, a fim de que fosse evitada a deterioração desses bens.
Portanto, evidencia-se a legalidade da prisão civil do depositário,
decretada nos próprios autos da execução.
À vista do exposto, nega-se provimento ao presente recurso ordinário em
habeas corpus .
É o voto.
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CERTIDÃO DE JULGAMENTO PRIMEIRA TURMA Número Registro: 2007/0080299-0 RHC 21122 / SP Números Origem: 11493 200603000265706 EM MESA JULGADO: 05/06/2007 RelatoraExma. Sra. Ministra DENISE ARRUDA Presidente da Sessão
Exmo. Sr. Ministro TEORI ALBINO ZAVASCKI Subprocurador-Geral da República
Exmo. Sr. Dr. JOÃO FRANCISCO SOBRINHO Secretária
Bela. MARIA DO SOCORRO MELO
AUTUAÇÃO
RECORRENTE : JOÃO MARCOS BACHEGA
ADVOGADO : MARIA DANIELA BACHEGA FEIJÓ
RECORRIDO : TRIBUNAL REGIONAL FEDERAL DA 3A REGIÃO
ASSUNTO: Execução Fiscal - Depositário Infiel - Prisão Civil
CERTIDÃO
Certifico que a egrégia PRIMEIRA TURMA, ao apreciar o processo em epígrafe na sessão realizada nesta data, proferiu a seguinte decisão:
A Turma, por unanimidade, negou provimento ao recurso ordinário em "habeas corpus", nos termos do voto da Sra. Ministra Relatora.
Os Srs. Ministros José Delgado, Francisco Falcão e Teori Albino Zavascki votaram com a Sra. Ministra Relatora.
Ausente, justificadamente, o Sr. Ministro Luiz Fux.
Brasília, 05 de junho de 2007
MARIA DO SOCORRO MELO Secretária