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Documento arquivístico: prova e verdade

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Academic year: 2021

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UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE DEPARTAMENTO DE CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO

COORDENAÇÃO DE ARQUIVOLOGIA

RAQUEL LUISE PRET COELHO

DOCUMENTO ARQUIVÍSTICO: PROVA E VERDADE

NITERÓI 2013

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RAQUEL LUISE PRET COELHO

DOCUMENTO ARQUIVÍSTICO: PROVA E VERDADE

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Departamento de Ciência da Informação e à Coordenação de Arquivologia da Universidade Federal Fluminense, como requisito para a obtenção do título de arquivista.

Orientador: Eduardo Murguia

NITEROI 2013

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RAQUEL LUISE PRET COELHO

DOCUMENTO ARQUIVÍSTICO: PROVA E VERDADE

Aprovado em : ---/---/---

BANCA EXAMINADORA

__________________________________________ Prof. Dr. Eduardo Murguia - Orientador

UFF

__________________________________________ Prof.ª Ms. Margareth Silva

UFF

_____________________________________________ Profª. Drª. Ana Célia Rodrigues

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AGRADECIMENTOS

Agradeço a Deus, à minha família e aos meus amigos, sem os quais o início desse caminho não seria possível. A minha mãe Maria Noemia com seus sábios conselhos, ao meu irmão Raphael Luiz e seus envios eletrônicos de meus arquivos que muito ajudaram a produção desse trabalho de conclusão de curso em lugares diversos, a Wanilucia Lyrio por todo o companherismo, a minha avó Zenir Azevedo de Pret (in memorian) que sempre foi exemplo de luta, garra e perseverança. Ao meu pai Jair Cosme pela paciência nos encontros adiados. Agradeço imensamente ao meu orientador, o professor Eduardo Murguia, que fez junto comigo essa caminhada, apontando possíveis trajetos e sempre me trazendo à realidade novamente. Agradeço também a professora Margareth Silva pelas sugestões e sempre apontar contraposições, dialética importante na construção desse trabalho. Sou grata aos meus amigos Marcelo Mérida, Carlos Eduardo Martins e Rafael Cardoso pelas dicas e as trocas durante todos esses anos de graduação. Adriane Gadelha, Alexsandra Andrade, Natália Gomes, Isabelle Vieira, Rodrigo Ségges, Laís Lanceiro, Renata Nogueira e demais amigos, familiares e professores do curso, agradeço da mesma forma por me ajudarem a concluir mais este ciclo.

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Resumo

Análise das relações entre o conceito de documento arquivístico e os critérios e validações que o definem como prova e verdade científica. O documento arquivístico torna-se inscrição da verdade por validações, critérios e métodos que o regulam. A configuração da Arquivologia como campo do conhecimento e sua aproximação com a Diplomática levou-a a utilização de métodos da ciência positiva para a validação dos documentos de arquivo. Abordagem a partir dos pressupostos de Michel Foucault em suas obras Em defesa da sociedade (2005) e A verdade e as formas jurídicas (2001). Primeiramente, este estudo procura compreender as relações entre a produção da verdade na cultura ocidental, o surgimento do documento e a regulação da verdade imposta pelo ordenamento jurídico. Depois, a influência dos métodos diplomáticos, como saber instituído, na validação de discursos verdadeiros registrados em documentos. Por fim, o estudo aproxima as características do documento arquivístico e os critérios para sua validação dos métodos da ciência positiva de Auguste Comte, procurando evidenciar possíveis influências na formação do conceito de documento pela Arquivologia.

Palavras-chave: documento arquivístico, diplomática, discursos de verdade, positivismo.

Abstract

This paper aims to analyze the relations between the concept of archival document and the criteria that define and validate it as evidence of the truth. The thesis presented here is that the archival document becomes prove of truth because has the influence of positivism methods, used by diplomatic and archival science. This approach starts from the assumptions of Michel Foucault in his books In Defense of Society (2005) and The Archaeology of Knowledge (1996). First, the study seeks to understand the relationship between the production of truth in Western culture, the emergence of the document and the regulation imposed by the legal system. Then, the influence of diplomatic methods, as established knowledge, validation of true discourses recorded in documents. Finally, the study approximates the characteristics of archival document and the positivism methods of Auguste Comte’s science, seeking to highlight possible influences on the formation of the concept of document by Archivology.

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SUMÁRIO

1. APRESENTAÇÃO 7

2. O DOCUMENTO E A PROVA

3. O DOCUMENTO E A VERDADE CIENTÍFICA 4. CONCLUSÃO 5. REFERÊNCIAS 15 22 39 42

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1. APRESENTAÇÃO

De acordo com Michel Foucault, em seu livro A verdade e as formas jurídicas (2001), somente com a consolidação dos ordenamentos jurídicos na sociedade ocidental, a exemplo do direito romano, é que o documento passou a incorporar o sentido probatório. Antes, nas sociedades antigas, como as existentes nas cidades-estado gregas, nos séculos V e IV a. C, o documento tinha a função de informar algo ou ensinar importantes tradições para diferentes gerações (FOUCAULT, 2001, p. 42).

Esta mudança de concepção acerca dos documentos é um importante marco, pois o documento passou a ser mediador de relações capaz de dizer a verdade, pois possuía formas, métodos e critérios na sua produção, circulação e guarda que garantiam ser ele uma prova de ação. Assim, decisões, ações, relações, interdições, coerções e condenações poderiam ser respaldadas pelo uso do documento como testemunho de verdade.

O documento passou a possuir esse poder de dizer a verdade na Antiguidade pela própria finalidade e contexto que estava associada a sua produção. A leitura e, sobretudo, a escrita eram ferramentas cognitivas pouco difundidas, símbolos de poder que circulavam somente nas instâncias superiores da vida política, assim o documento transitava entre as esferas políticas, fiscais e legais. Dessa forma, o documento se firmou como registro de importantes ações que deveriam ser lembradas (CHARTIER, 1999, p. 25).

Rodrigo Rabello em sua tese, A face oculta do documento (2009), afirma que a partir do século XII cresceram as preocupações com a falsificação dos documentos. Na Idade Média, com o surgimento de diversos reinos na Europa e a sociedade feudal, caracterizada pela divisão de classes em estamentos rígidos com pouca possibilidade de ascensão, a conquista de um título de terra ou nobiliário significava a possibilidade de ter poderes políticos, enriquecer, formar seu próprio exército, isto é, ocupar uma posição superior numa sociedade rigorosamente hierárquica (DUBY, 1976, p. 67). Com uma utilização maior da escrita, como relata Chartier, em A Aventura do Livro (1999), que saiu dos palácios e do uso quase exclusivo dos governos e passou a ser apropriada pelos nobres e pela própria Igreja Católica, os documentos passaram a comprovar direitos, títulos e garantias. O protagonismo da Igreja Católica no período medieval como instituição capaz de regular a vida em sociedade fez com que o Papa Inocêncio III se preocupasse com a profusão de documentos eclesiásticos falsificados, criando critérios para a produção dos documentos da Igreja e estabelecendo métodos capazes de aferir a

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veracidade dos documentos antigos. Surgia assim os primeiros métodos diplomáticos, consolidados no século XVII com a publicação da obra de Jean Mabillon, intitulada De re

diplomática libri VI, em seis volumes. Assim, os documentos continuavam sendo provas

de ações passadas, capazes de conferir direitos, títulos e obrigações de fazer. No entanto, nem todos os documentos tinham essa capacidade, apenas os que poderiam ser comprovados pelos métodos e critérios diplomáticos (RABELLO, 2009, p. 105).

Em defesa da sociedade (2005) mostra como os saberes transformam-se em

disciplinas que compõem a grande Ciência no século XVIII. Surgiram os conhecimentos-verdades, isto é, os saberes passaram a ser submetidos a validações, regulações, hierarquias de suas práticas e conteúdos para que pudessem ter efeito de verdade, a verdade científica. O ápice dessa forma de conhecimento foi no século XIX com o cientificismo, uma corrente filosófica de grande influência na Europa que reconhecia como saber apenas aquilo que fosse verificável pelos métodos e critérios das ciências ditas como naturais. Diversos saberes considerados do campo das ciências humanas, a partir da segunda metade do século XVIII, passaram a preocupar-se com as formas de legitimação de seus conhecimentos.

Sendo assim, o positivismo de Auguste Comte surgiu no século XIX como doutrina filosófica que defendia a análise dos fenômenos sociais a partir de métodos semelhantes às ciências naturais. A partir observação aprofundada de tais fatos poderia se atingir o verdadeiro conhecimento, formulando leis universais que regem esses fenômenos sociais, sem qualquer interferência do pesquisador (GIDDENS, 2005, p. 28). O Direito e a História, que possuem grande interlocução com a Arquivística, são exemplos de campos que, no século XIX, procuraram se firmar por meio de métodos positivistas de análise.

Diante deste cenário os documentos passaram a ser testemunhos do passado, registros confiáveis da verdade de outras épocas, no entanto, os documentos precisavam também ser validados. Dessa forma, o Direito e a História aproximaram-se das instituições arquivísticas, pois elas eram fontes confiáveis de proveniência dos documentos. Os documentos custodiados nos arquivos públicos, segundo Ernest Posner (1959), eram aqueles que haviam pertencido à administração do Estado ou eram considerados de importante valor histórico pelo próprio Estado. Portanto, os documentos arquivísticos eram chancelados pelo Estado e pelo tempo, validados por

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duas instâncias. Ademais, a custódia ininterrupta dos arquivos dos documentos era outro critério que conferia a estes a característica de serem registros da verdade.

No próprio século XIX, alguns princípios arquivísticos foram criados e passaram a ser implementados, primeiramente na França, depois na Alemanha, Inglaterra e Estados Unidos no sentido de assegurar a fidedignidade e autenticidade dos documentos de arquivo. Os princípios da proveniência, da ordem original, da organicidade, da custódia initerrupta surgiram no século XIX para, além de racionalizar o trabalho e o tratamento técnico nos arquivos, garantir que os documentos arquivísticos pudessem servir como prova para o Direito e testemunho para a História (ROUSSEAU & COUTURE, 1994, p. 31).

Em 1821 foi criada a École des Chartes, universidade especializada na análise de documentos, ministrando cursos de Paleografia, Diplomática, Heráldica, Sigilografia, entre outras disciplinas com métodos e critérios de validação de símbolos, marcas e formas presentes ou ausentes nos documentos que comprovavam se as informações contidas neles eram confiáveis ou não. Foi a École des Chartes que aproximou a Arquivologia e a Diplomática como disciplinas afins (RABELLO, 2009, p. 119).

De acordo com Guimarães e Tognoli (2011), no século XX, a Arquivologia procura se firmar como campo do conhecimento científico a partir da aproximação da metodologia da Diplomática para a validação de seus documentos arquivísticos. Conceitos como imparcialidade e autenticidade mostram a importância de se estabelecer critérios de validação da verdade que se dá por meio da influência de pressupostos positivistas como procuraremos mostrar ao longo desse exercício monográfico.

Dessa forma, este trabalho tem como principal tese de que o conceito de documento arquivístico torna-se prova a partir dos métodos dos ordenamentos jurídicos para aferição da verdade. Ademais, a partir do século XIX, o documento arquivístico, por meio de métodos da ciência positiva, utilizados pela diplomática e pela arquivologia, passou a ser comprovação de verdades, no entanto, diferentemente da prova dos ordenamentos jurídicos, mas da verdade científica, com a formação de um campo do saber próprio, a Arquivologia. A busca pela verdade, seu registro e comprovação é uma necessidade construída no seio da sociedade ocidental a partir de seus sistemas de pensamento, perpassando diferentes tempos, agentes e espaços. Este trabalho procura analisar as relações entre os sistemas de pensamento, as regulações e validações de verdade a partir do documento. Identificamos que na construção das

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características do documento arquivístico há uma forte influência do positivismo, sobretudo no tocante a sua imparcialidade e a sua autenticidade. Outra questão é a formação do campo disciplinar da Arquivística que procura por meio da singularização do documento arquivístico a legitimidade do seu fazer. A partir do desejo de verdade da sociedade ocidental os documentos são transformados em entidades com características e poderes próprios.

1.1. Objetivo Principal

• Refletir sobre a construção da concepção de documento como prova, inscrição da verdade, identificando as peculiaridades inerentes ao campo da Arquivologia.

1.1.1. Objetivos Secundários

• Perceber como o ordenamento jurídico utiliza o documento como instrumento de suas práticas nas validações de suas decisões;

• Compreender as transformações dos métodos e critérios de legitimação dos documentos arquivísticos a partir da disciplinarização dos saberes;

• Investigar as possíveis relações entre a formação do campo da Arquivologia com os métodos de validação da ciência positiva de Auguste Comte.

1.2. Quadro teórico

Para trabalhar a gênese do conceito de documento na Arquivologia, utilizaremos a categoria elaborada por Michel Foucault, em seu livro a Microfísica do Poder (2000), de gênese ao estudar as relações de saber e poder.

Utilizamos ainda a sua análise, em Em defesa da sociedade (2005) e A arqueologia do saber (1996) para qualificar categorias como regulações, normatizações, disciplinarizações e sistemas de pensamento. Em A Verdade e as Formas Jurídicas (2002), utilizaremos seu estudo do aparato jurídico na construção da verdade pela sociedade ocidental e as regras para sua legitimação, a partir da coerção de instituições como o Estado e os tribunais. Posteriormente, utilizaremos sua reflexão

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acerca dos arquivos, presente em A Arqueologia do Saber (1987) para qualificar a categoria documento arquivístico como um sistema de enunciados.

A categoria de campo e ator social são apropriadas da obra A Economia das Trocas Simbólicas (1987), de Pierre Bourdieu, para compreender a formação da Arquivística e suas estratégias de consolidação na sociedade ocidental.

Ao optar analisar os documentos como agentes, isto é, mediadores de relações sociais, operadores de trânsito, aproximamo-nos da categoria de agência, elaborada por Marcel Mauss, em seu artigo Ensaio sobre a Dádiva (2003), cotejando com a análise de Alfred Gell, em Art and Agency (1998) acerca da agência dos objetos de arte sobre os indivíduos que os manipulam.

A análise de Anthony Giddens (2005) sobre o positivismo de August Comte também nos fornece subsídios para investigar as possíveis relações entre esta teoria e a concepção de documento arquivístico na contemporaneidade.

Outros autores e categorias poderão surgir no decorrer da pesquisa, no entanto, ressaltamos que estes apresentados são o ponto de partida de nossa análise.

1.3. Metodologia e fontes

A partir dos finais do século XIX, o campo da Arquivística passou a configurar-se como disciplina a partir da publicação, em 1898, do manual de Muller, Feith e Fruin, intitulado Handleiding voor het ordenen en beschreijven van archieven, mas correntemente conhecido como “manual dos arquivistas holandeses”, a partir daí, abriu-se uma nova era para a afirmação da disciplina. A obra representa um grande avanço na teorização arquivística, não só pelo pensamento que lhe está subjacente, mas também pelo caráter sistemático com que se apresenta. Muitos dos aspectos considerados hoje essenciais no corpus teórico da Arquivística já foram formalizados e tratados com o devido relevo nesta obra.

Por outro lado, assistimos a desenvolvimentos importantes, como nos Estados Unidos da América, onde Waldo Leland formalizou, em 1912, alguns princípios arquivísticos fundamentais para a aplicação em serviços do Estado.

Além disso, o aparecimento de manuais especializados como o de Hilary Jenkinson, na Grã-Bretanha, intitulado Manual of Archive Administration (1922), que

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se tornou a obra de referência mais importante para os arquivistas britânicos e americanos, e do italiano Eugenio Casanova, com o título Archivistica (1928), é um sintoma da afirmação da disciplina.

Obras como o manual do alemão Adolf Brenneke (1953), o estudo já de Theodore Schellenberg, sob o título Modern archives: principles and techniques (1956), ou mesmo o trabalho do italiano Leopoldo Cassese, intitulado Introduzione allo studio dell’archivistica (1959), são exemplos da procura de sistematização teórica que envolveu a Arquivística, num período em que a acentuada evolução tecnológica criou e agudizou problemas práticos, acentuando-se a tendência tecnicista na forma de encarar a disciplina.

Por outro lado, na Austrália, Peter Scott formulou, em 1966, críticas ao conceito americano de record group, questionando a sua validade, devido a contradições entre a sua formulação e o princípio do respeito pela ordem original. A defesa da série como unidade arquivística fundamental veio dar corpo a uma teoria que, ainda hoje, constitui a referência de base para os arquivistas australianos.

No Canadá, em finais da década de 1960, houve a problematização dos fundamentos da Arquivística, sendo significativo o artigo que Louis Garon publicou no primeiro número da revista Archives (1969) sobre o princípio da proveniência.

No que se refere ao aprofundamento das questões teóricas, não podem ser ignorados dois trabalhos surgidos em França, um da autoria de Carlo Laroche (1971) e outro de Michel Duchein (1977). Embora defendendo perspectivas muito diferenciadas, os dois problematizam o chamado Princípio de Respeito pelos Fundos, procurando formular teorias consistentes para a sua aplicação. Laroche com uma visão estruturalista, entende a Arquivística como uma verdadeira ciência, enquanto que Duchein procura, essencialmente, definir princípios para orientar os arquivistas na aplicação do “respeito pelos fundos”, considerado este como o fundamento essencial da disciplina.

O reconhecimento de que a Arquivística está num momento de transformação, estudos na Alemanha, onde sobressai o nome de Angelika Menne-Haritz, da escola de Marburg. Numa comunicação apresentada ao XII Congresso Internacional de Arquivos (Montreal, 1992), esta autora considera precisamente que a “arquivística descritiva”, que se consolidou a partir do período de entre guerras, está prestes a ser substituída por uma nova fase, por ela designada como “arquivística multifuncional”. Defende, ainda, que nesta nova fase a Arquivística se imporá como ciência e que a

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análise é o método a seguir no trabalho do arquivista. Limita, contudo, a sua perspectiva teórica ao domínio específico da avaliação documental, à semelhança, aliás, de outros autores, como Helen Samuels, já referida.

A partir de seis artigos publicados em 1987, intitulados Diplomatics: new uses

for an old science, Luciana Duranti procurou consolidar as relações entre a Diplomática

e a Arquivística para a qualificação de documentos arquivísticos. A autora utiliza os princípios da Diplomática para a validação ou não de um documento autêntico, por conseguinte arquivístico. Ao procurar legitimar o campo da Arquivística como ciência que identifica, classifica, conserva e disponibiliza documentos “verdadeiros”, isto é, possuidores do estatuto de verdade, legitimada pelo campo legal e fiscal, os estudos de Luciana Duranti ganharam grande repercussão e ressonância, sobretudo no Brasil.

Entre as referências no campo nacional, encontramos Heloísa Bellotto, com publicações que demonstram a influência da escola canadense em sua abordagem sobre documentos arquivísticos e terminologia. Já José Maria Jardim direcionou sua problemática acerca da formação do arquivista e das políticas públicas acerca dos arquivos. Maria Odila Fonseca procurou em seus trabalhos mapear o campo da Arquivística no Brasil, destacando rupturas e continuidades, influências e contradições.

Sendo assim, a partir da revisão desses autores, procurando perceber suas concepções acerca de documentos arquivísticos, contextualizando-as com cada período em que suas obras foram criadas e cotejando com o quadro teórico supracitado, procuraremos estabelecer estratégias para atingirmos os nossos objetivos neste exercício monográfico.

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2. O DOCUMENTO E A PROVA

A palavra documento, na sociedade ocidental, tem a sua gênese, em termos etimológicos, no verbo latino docere, que significa ensinar, tornando-se documentum, relacionado ao meio em que se ensina ou se informa, ou seja, era sinônimo de lição, advertência, aviso, modelo, exemplo. Somente com a consolidação dos ordenamentos jurídicos, na Antiguidade clássica, a exemplo do direito romano, passou-se a incorporar um sentido probatório com significados como indício, testemunho, registro. Assim, notam-se dois grandes sentidos na gênese do documento em nossa sociedade ocidental: o de instrumento de ensino, de comunicação. E o sentido de prova, testemunho, registro. Ambos carregam em si a ideia de lugar onde se encontra a verdade.

Ernest Posner, em 1959, aproximou as práticas gregas e romanas de guardar cartas recebidas e registrar as expedidas no século IV a. C com técnicas arquivísticas primitivas (POSNER, 1959, p. 6).

Rousseau e Couture, em seu livro Os Fundamentos da Disciplina Arquivística (1994), destacam o papel de prova que os documentos desempenhavam na Grécia Antiga. A forma e o local em que os documentos eram guardados conferiam autenticidade. Sendo assim, eles eram depositados no archéion, uma das dependências do Métroon, templo da deusa mãe da Ágora de Atenas. Pela sacralidade do lugar, os documentos do archéion eram considerados de grande valor e possuidores de verdades incontestes (ROUSSEAU & COUTURE, p.33, 1998).

Com a laicização das cidades-estado, os documentos passaram a servir a administração das mesmas, estando mais próximos das Assembleias, no caso grego, e do Imperador no caso romano. Malheiro, em seus estudos sobre a formação do campo arquivístico, percebe que os romanos no século II d. C já possuíam um organizado sistema público de arquivos que refletia na complexidade da administração de seu Império (MALHEIRO, 2006, p. 21).

Segundo Michel Foucault (2005), a nossa sociedade é regulada pelo discurso de verdade. Comportamentos, relações, poderes, ações e subjetividades são formados a partir de discursos verdadeiros e disciplinados por eles.

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Numa sociedade como a nossa, múltiplas relações de poder perpassam, caracterizam, constituem o corpo social; elas não podem dissociar-se, nem estabelecer-se, nem funcionar sem uma produção, uma acumulação, uma circulação, um funcionamento do discurso verdadeiro. Não há exercício do poder sem uma certa economia dos discursos de verdade que funcionam nesse poder, a partir e através dele. (FOUCAULT, 2005, p. 28)

Nessa perspectiva, somos constantemente submetidos à produção de verdade pelo poder, seja de qualquer natureza (jurídica, religiosa, científica, econômica etc). Precisamos dizer a verdade, aceitar a verdade, encontrar a verdade, pensar e agir a partir da verdade. A partir da institucionalização dos discursos de verdade e dos meios para a sua produção é que a sociedade ocidental, em diferentes épocas, encontra um modo de se pensar e pensar o mundo, ou seja, uma episteme (FOUCAULT, 2005, p. 29).

Assim, num primeiro momento, os ordenamentos jurídicos revelaram-se como discursos de verdade. A norma, a lei, os códigos eram verdades, por eles julgava-se, condenava-se, classificava-se, obrigava-se a exercer tarefas, submetia-se a uma certa maneira de morrer.

No entanto, esses discursos de verdade são produzidos e validados a partir de métodos enunciativos. Os discursos são entidades dotadas de características que as personificam e as identificam. Os discursos de verdade precisam seguir um método de produção e regulação, caso contrário, são descartáveis ou efêmeros (FOUCAULT, 2005, p. 30).

São necessárias regras de seleção dos enunciados que permitam descartar o que não é verdadeiro, são necessárias formas de normalização e homogeneização dos discursos, de organização interna e externa. Para se dizer a verdade é necessário que se saiba como dizê-la (FOUCAULT, 2005, p. 218). Nesse sentido, o documento arquivístico faz parte dessa metodologia, está inserido nessa disciplinarização da verdade. Sua forma, os meios processuais em que é produzido, os agentes que o produzem, os agentes que o classificam e o custodiam, todo o disciplinamento em que é submetido fazem dele um meio, um registro de verdade.

O documento em nossa sociedade surgiu como instrumento de normalização do discurso da verdade, um meio da validação da verdade que possuía características que permitiam tal validação. “O normal é o que é primeiro, e a norma se deduz dele, ou a partir desse estudo das normalidades que a norma se fixa e desempenha seu papel operatório” (FOUCAULT, 2009, p. 83). Cada tempo e cada forma de poder vão adotar

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suas validações que permitam o documento ser um registro da verdade. Na Grécia Antiga, a sacralidade de sua guarda garantia a sua validação. Apenas um documento dotado de verdades poderia pertencer ao Métroon. Dessa forma, o documento tornava-se prova. Não era mais preciso guerras, confrontos, batalhas que envolvessem perdas materiais e humanas. Em uma disputa discursiva, no requerimento de um direito ou na imposição de um dever, bastava que seus articuladores pudessem revelar a partir do documento a verdade registrada.

A análise foucaultiana da tragédia grega Édipo-Rei nos mostra como a metodologia é fundamental para a produção do discurso de verdade e como os documentos são transformados em evidências, rastros de verdade (FOUCAULT, 2001). Esta tragédia, escrita por volta de 427 a. C., mostra várias práticas jurídicas do período clássico da Grécia Antiga. Os testemunhos e os indícios materiais que dão suporte são enunciados que vão se entrelaçando, se combinando, se arranjando até a formação de um discurso verdadeiro. A verdade é revelada por meio do inquérito, isto é, uma investigação validada pelo poder real, pelo próprio Édipo, no caso, que busca legitimar seu trono, e que segue parâmetros, normas, critérios capazes de selecionar evidências, descartando as falsas, organizá-las de forma coerente até que se descubra o que realmente aconteceu. Nessa tragédia, os testemunhos possuem o poder de dizer a verdade, pois cada um possui informações únicas, e combinados entre si possuem a forma necessária para validar uma verdade: Édipo matara o próprio pai e se casara com a própria mãe (FOUCAULT, 2001, p. 37).

Este exemplo mostra como, para que uma verdade venha à tona, é necessário uma regulação, uma normatização, uma disciplinarização dos enunciados. Cada testemunho diz apenas o que pode ser dito, não revela a verdade em si. No campo das regulamentações cada enunciado é único, no entanto, ele não pode exceder o seu campo, sob a pena de ser inválido, falso, mentiroso. Assim, Tirésias, como adivinho, somente por meio de metáforas poderia dizer que Édipo mataria o pai; os escravos, por pertencerem a Políbio, somente poderiam afirmar sobre a morte deste, que havia acontecido distante de onde Édipo se encontrava; e o pastor de ovelhas, tão somente poderia ter dito que Édipo foi entregue a ele por Laio e Jocasta para que o matasse, mas que, por pena, resolveu entregá-lo a Políbio para que criasse o menino. Qualquer inversão destes enunciados, fragmentação ou outro ordenamento, os transformaria em nulos e a verdade não poderia acontecer.

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A tragédia de Sófocles inaugurou na história das práticas judiciárias ocidentais a forma chamada racional da prova e da demonstração. A verdade era produzida a partir de condições plausíveis, formas de observar, regras de se aplicar (FOUCAULT, 2001, p. 54). Houve na Grécia, portanto, uma grande transformação que, através de uma série de embates, contestações e dialéticas, formou-se uma determinada forma jurídica da verdade, com o método do inquérito e o aparecimento do documento como prova da verdade.

De acordo com Foucault (2001), as práticas judiciárias era o meio pelo qual os homens regulavam-se a partir de acordos onde os politicamente mais fortes impunham regras, limites, punições e interdições aos mais fracos. Esses conjuntos de regras permitiam que homens fossem julgados em função de erros previstos ou práticas irregulares, em desacordo com os ordenamentos acordados.

Os tribunais têm por função histórica deslocar a justiça dos indivíduos, da população para a esfera de poder, na maioria das vezes o Estado. Com a criação dessa instituição, os indivíduos precisavam se submeter as suas regras e convenções. Ao ter um litígio com outro, o sujeito não pode exercer sua força – seja física, política, econômica etc – diretamente. Ele é regulado por um conjunto de normatizações que reduz, domina e sufoca a sua atuação, inscrevendo-a no interior das instituições (FOUCAULT, 2001, p. 39).

O surgimento de uma instância neutra, imposta a todos por via autoritária, com a competência de estabelecer o que é verdadeiro e falso, certo e errado, justo e injusto, inocente e culpado, retira do povo, das pessoas a possibilidade de resolver seus conflitos. É necessário se submeter a um conjunto de regras, critérios, formas de validações para se resolver uma disputa com outrem (FOUCAULT, 2001, p. 40)

Na Idade Média com esfacelamento do Império Romano e as forças emergentes de pequenos reinados e feudos militarizados, o importante era garantir o direito à propriedade. Os documentos importavam pela sua força de comprovar um direito a uma propriedade, a um título, a uma posse. As chancelas para os documentos passaram dos templos sagrados das cidades-estado e do lugar da administração destas para a instituição de maior poder político e econômico: a Igreja Católica. Passou a ser da Igreja a responsabilidade de salvaguardar documentos históricos, aferir direito sobre propriedades e registrar o nascimento dos cidadãos a partir do batizado. A Igreja Católica e seus monastérios cumpriram o papel de produzir e proteger os documentos

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considerados importantes para a sociedade ocidental, assim como os registros de batismo, considerados certidões de nascimento, os registros de pagamentos de foros que comprovariam as propriedades das terras, os registros de óbito, entre outros registros documentais. (REIS, 2006)

Arquivos medievais, tanto eclesiásticos como seculares, guardavam registros que possuíam algum valor financeiro ou legal. Os documentos eram acumulados por chancelarias que eram as únicas ou principais repartições administrativas independentes na Europa, durante a Idade Média.

Nesse período começou a despertar a atenção da Igreja a falsificação de documentos, pois tal prática passou a interferir nos sistemas político-religiosos do Ocidente. A partir do século XII, o Papa Inocêncio III passou a elaborar critérios de análise documental e a classificar os documentos pontifícios como falsos e autênticos a fim de punir os falsificadores com prisões e até enforcamentos. (RABELLO, 2009, p. 104)

A antiguidade que validava o documento como prova escrita de verdade. Critérios como a linguagem, a tinta, o tipo de escrita, os selos, a pontuação, a abreviação, as datas, entre outros elementos serviam de validações para conceder a estatuto de verdadeiro ou falso a um documento. Cabe ressaltar que a autoridade soberana, até a consolidação dos Estados modernos, aproximadamente no século XIV, era exercida pela Igreja Católica, instituição que tinha o poder de julgar e condenar vivos e mortos, sendo o papa a instância máxima da instituição. O documento se apresentava, dentro dessa dinâmica de validação, como testemunho, portanto, necessitava de regulação de sua forma e de seu conteúdo para ser considerado autêntico.

No direito feudal o litígio entre indivíduos era regulamentado pelo sistema de prova. Quando havia uma reivindicação de algum direito, ou acusação contra alguém, a solução do litígio entre os lados conflitantes se dava a partir de uma série de provas aceitas por ambos e a que os dois estavam submetidos. Era um sistema que não revelava a verdade, mas mostrava a força, o peso, a importância de quem dizia a partir das validações das provas (FOUCAULT, 2001, P. 59).

A dinastia feudal franca que governava Borgonha, no século XI, por exemplo, a hierarquia de provas documentais estabelecia-se da seguinte forma: provas sociais, provas da importância social de um indivíduo. Assim, se um indivíduo fosse acusado de assassinato não era necessário um álibi ou provar que a provável vítima estava viva. Bastava o acusado possuir 12 testemunhas que jurassem não ter cometido o acusado tal

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crime e ele não seria condenado. Para testemunhar a favor do acusado era necessário ter com ele relações de parentesco, não para provar a sua inocência, mas para provar a importância social do indivíduo. Assim, percebe-se que a validação da prova estava muito mais na influência do indivíduo na sociedade.

No sistema judiciário feudal a prova não se trata de uma investigação da verdade – como acontecia na Antiguidade –, mas de uma estrutura com regras fixadas que o indivíduo acusado aceitava ou rejeitava. A renúncia em se submeter, tentar a prova, já era considerado, de antemão, uma confissão de culpa (FOUCAULT, 2001, 61).

Nesse período, o tribunal arbitral – onde se recorria por consentimento mútuo, para por fim a um litígio ou uma guerra privada – foi substituído por um conjunto de instituições estáveis, específicas, intervindo de maneira autoritária e dependente do poder político (FOUCAULT, 2001, p. 42).

As justiças eram propriedades, meio pelo qual se enriquecia. “Produziam bens que se trocavam, que circulavam, que se vendiam ou se herdavam com os feudos” (FOUCAULT, 2001, p. 42). Portanto, instituir-se uma verdade sempre foi uma forma de exercer poder.

Segundo Foucault (2001), a prova é um exercício de poder. É a balança de forças que se estabelece a prova que será aceita e que será rejeitada, a partir de um jogo discursivo que penderá para o mais ágil intelectualmente, o mais eloquente, isto é, o que possui códigos sócio-culturais mais semelhantes aos julgadores.

No século XI, quando os normandos passaram a ocupar a Inglaterra, Guilherme o Conquistador para pacificar a região e integrar seu povo com os anglo-saxões, realizou um grande inquérito sobre o estado das propriedades, os estados dos impostos, o sistema de foro etc. Assim, nota-se que suas características principais domesday eram: o poder político como personagem principal; o poder exercido pelo direito de fazer perguntas na busca pela verdade; o poder de determinar o que é verdade (dirigido aos notáveis). O marco deste documento é que ele estabelece um tipo de verdade totalmente ligado à gestão administrativa. Foi a partir de um documento produzido pela Administração do reino, o domesday, que a verdade acerca do direito à terra foi estabelecida (FOUCAULT, 2001, p. 72). Assim, a partir da consolidação de validações de direitos por meio de documentos da Administração real, estes passaram a ter status de prova capaz de conferir direitos, delegar obrigações, impor sanções – não somente entre o rei e seus súditos, mas entre indivíduos litigantes.

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O inquérito, a acusação, a defesa, a audição das partes, a apresentação das provas, os testemunhos, a presença de um juiz, de um acusador, de um réu, a disposição dos agentes na sala do tribunal, inclusive, todos esses componentes são formas, regulações, normatizações para se produzir a verdade.

A partir dos séculos XIV e XV, com as mudanças sociais e culturais ocorridas no Ocidente, as práticas judiciais passaram a estabelecer a verdade a partir de considerações de saberes tais como a Astronomia, a Matemática, a Geografia, e até mesmo a própria Diplomática, que se firmavam como formas de conhecimento por estabelecerem critérios e métodos próprios a partir de regulações, enquadramentos e nivelamentos.

Esse método de validação do documento passou a possuir status de saber ao longo dos séculos XVII e XVIII. Os mosteiros, com suas universidades, instituíram a Diplomática como disciplina que analisava a autenticidade dos documentos. Portanto, a Diplomática passou a se articular dentro desse novo regime de validação de verdade como instrumento de legitimação fundamentado por uma teoria e um método normativo e regulatório. Isto é, um dispositivo de poder (POSNER, 1959).

Portanto, a validação da verdade por meio do documento como prova é uma prática existente desde a Antiguidade clássica, regulada pelos ordenamentos jurídicos. Os critérios e métodos de aferição da verdade foram se transformando de acordo com as mudanças políticas, econômicas, sociais, religiosas de cada tempo, no entanto, a validação da verdade como um dispositivo de poder atribuído a poucos continuou sendo uma característica que perpassou todas as épocas.

O tempo sempre foi uma validação de grande peso para um documento ser considerado prova em um ordenamento jurídico. Quanto mais antigo era considerado um documento, maior potencial de prova ele possuía por ser considerado um vestígio, um testemunho do passado (POMIAN, 1989). No entanto, esses documentos precisavam ser submetidos a critérios capazes de estabelecer quando, como e por quem foram produzidos – como os estipulados pela Paleografia e pela Diplomática. Além disso, a maneira em que os documentos eram guardados também se constituía como uma forma de validação destes como provas. Por isso, os documentos considerados de maior valor, geralmente aqueles ligados a registros de atividades fiscais ou importantes decisões de governantes eram preservados em lugares especiais. Na Antiguidade, esses documentos eram destinados ao templo da deusa Atena, o Métroon, na Idade Média,

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cabia aos monastérios à salvaguarda dos documentos considerados históricos. Já na transição da Baixa Idade Média para a Idade Moderna, no século XV, com a formação dos primeiros Estados Nacionais, surgiram também os primeiros arquivos reais que procuravam preservar os registros das inúmeras atividades comerciais, sobretudo em Portugal, Espanha e nas cidades italianas (ROUSSEAU & COUTURE, 1994, p. 19).

Na Revolução Francesa, em 1789, a invenção do conceito de patrimônio nacional como legado a ser preservado para futuras gerações influenciou a percepção do papel do Estado na custódia dos documentos. Os documentos sob custódia do Arquivo Nacional deviam ser preservados não somente por servirem de prova para a obtenção de um direito do indivíduo, mas por serem testemunhas históricas de um povo, por serem capazes de elucidar o passado de uma nação. Foi a partir de então que o documento arquivístico passou a ser não somente um instrumento de validação do ordenamento jurídico, mas também da História (ROUSSEAU & COUTURE, 1994, p. 81).

Dessa forma, percebe-se que os métodos diplomáticos consolidados no século XVII, com Jean Mabillon, constituíram-se em importantes formas de validação dos documentos como provas. Outrossim, as formas que os arquivos custodiaram e preservaram os documentos passaram a ser também critérios de legitimação dos documentos como inscrições de verdade.

Com a consolidação da metodologia e da teoria elaborada pela Diplomática de certificação e validação dos documentos, o Direito passou a apropriar-se desse campo disciplinar em seus estudos jurídicos, sendo incorporada inclusive como cadeira a ser cursada nas faculdades de Direito da Inglaterra, França, Alemanha, Espanha e Itália no século XIX (JARDIM, 1987, p. 54).

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3. O DOCUMENTO E A VERDADE CIENTÍFICA

De acordo com Michel Foucault,

O século XVIII foi o século da disciplinarização dos saberes, ou seja, a organização interna de cada saber como disciplina tendo, em seu campo próprio, a um só tempo critérios de seleção que permitem descartar o falso saber, o não-saber, formas de normalização e de homogeneização dos conteúdos, formas de hierarquização e, enfim, uma organização interna de centralização desses saberes em termo de um tipo de axiomatização de fato. Logo, organização de cada saber como disciplina e, de outro lado, escalonamento desses saberes assim disciplinados do interior, sua intercomunicação, sua distribuição, sua hierarquização recíproca numa espécie de campo global ou de disciplina global a que chamam precisamente de a “ciência” (FOUCAULT, 2005, p. 208).

Antes do século XVIII não existia “a” ciência, mas ciências, no plural, saberes, técnicas e questionamentos que se comunicavam entre si e que constantemente se questionavam por meio da filosofia. Funcionavam como um sistema de comunicação entre os diversos saberes, uns em relação aos outros. No entanto, a partir do século XVIII surgiu o conhecimento-verdade, um tipo de saber disciplinado no qual suas práticas e conteúdos passaram a ser selecionados, regulados e hierarquizados. Essa forma de disciplinar os saberes, centralizando-os, hierarquizando-os, distribuindo-os em um campo global, fez surgir a grande Ciência (FOUCAULT, 2005, p. 218):

A ciência, como domínio geral, como policiamento disciplinar dos saberes, tomou o lugar da filosofia, e passou a formular problemas específicos ao policiamento disciplinar dos saberes: problemas de classificação, problemas de hierarquização, problemas de vizinhança, etc. (FOUCAULT, 2005, p. 218).

Neste sentido, a partir do século XVIII, a Ciência, o campo disciplinado dos saberes, surgiu como instituição com o poder de dizer a verdade, compartilhando com o ordenamento jurídico, o direito e o dever de selecionar o que poderia ser considerado como enunciado verdadeiro e o que deveria ser descartado como falso. Diferentemente do método judicial, não há o policiamento da violência física do discurso não verdadeiro. No entanto, esses métodos disciplinares não se excluem, pois em nossa sociedade não estar submetido às leis das instituições judiciárias, não dizer a verdade acarreta uma série de sanções que podem culminar, em um grau maior, na suspensão ou mesmo perda da liberdade. O indivíduo pode ser retirado, exilado por não respeitar as

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regras do jogo social. Já no caso da Ciência, o discurso julgado não verdadeiro passa a ser considerado um saber “sujeitado”. Não se trata somente de reconhecer o método para validar um discurso como verdadeiro, mas de saber quem falou e se era qualificado para falar, em que nível se situa esse enunciado, em que conjunto pode-se colocá-lo, em que medida ele é conforme ou oposto a outras formas e outras tipologias de saber (FOUCAULT, 2005, p. 218).

É a universidade que transforma os saberes em Ciência. A seleção dos saberes, o papel de distribuição do escalonamento, da qualidade e da quantidade dos saberes, em diferentes níveis, quem realiza é o aparelho universitário. Dessa forma é possível a homogeneização desses saberes com a constituição de uma espécie de comunidade científica (FOUCAULT, 2005, p. 219).

A Diplomática saiu dos monastérios, assim como a Arquivologia saiu das instituições administrativas estatais e migraram para as universidades. Esses saberes passaram do status de técnicas para serem incorporados como disciplinas capazes de produzir discursos verdadeiros acerca dos documentos. Foi a Universidade que aproximou a Arquivologia da Diplomática, uniformizou-as, com suas diferentes categorias e seus diferentes prolongamentos, seus escalonamentos e seus tentáculos, subordinando-as à história medieval.

A criação da École Nationale des Chartes, em 1821, consolidou a Diplomática como saber instituído no campo acadêmico, uma vez que essa universidade francesa tinha como especialidade o estudo histórico de documentos medievais (RABELLO, 2009, p. 115). Essa crítica documental, influenciada pelo historicismo alemão do século XIX, levou a École des Chartes a aproximar a Diplomática de seus estudos medievalistas. Somente aqueles documentos que passassem pela validação da disciplina podiam ser considerados pelos estudos históricos promovidos pela universidade.

O monopólio da seleção do que pode ser considerado método diplomático ou método arquivístico será da Universidade. Se o ordenamento jurídico necessita da Diplomática e de seu método para aferir autenticidade a um documento, a Arquivologia fornecerá o método para conservar um documento como verdadeiro. Estes saberes necessitam da validação da Universidade para enunciá-los como ciências, e, portanto, como emissores de verdade (FOUCAULT, 2005, p. 219).

Na Arquivologia, o conceito de documento arquivístico ocupa um lugar central na consolidação do seu campo. A importância de tal conceito reflete-se no próprio

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trabalho de classificação dos arquivistas, baseados nos princípios de organicidade e de proveniência.

O campo da Arquivologia consolidou-se com o surgimento de manuais que consagraram seus métodos de seleção, classificação, organização e guarda dos documentos arquivísticos. Assim, a regulação, regularidade, repetição, homogeneização necessários a um saber científico foi garantido. Por outro lado, foram esses manuais que deram estabilidade ao saber arquivístico, no sentido que as práticas podiam ser transmitidas.

Na França, em 1841, elaborou-se um dos fundamentos da Arquivologia: o princípio de respeito aos fundos, que consiste em manter agrupados os documentos arquivísticos de uma mesma instituição, sem misturá-los a outros. Os arquivos provenientes de uma administração, de uma instituição ou de uma pessoa física ou jurídica são unidades singulares (DUCHEIN, 1983, p. 14). Dessa maneira, o campo arquivístico passou a consolidar suas especificidades enquanto saber. Seria de competência e responsabilidade dos arquivos classificar, ordenar e guardar documentos, sobretudo do Estado, da administração pública, documentos de interesse dos cidadãos a partir de critérios criados por sua ciência, a Arquivologia.

Em 1898, a publicação do Manual dos arquivistas holandeses, por Muller, Feith e Fruin, marcou a disciplinarização da Arquivologia, firmando o conceito de arquivo, a organização dos documentos, a descrição, os inventários, o uso de normas etc. Houve a estabilização também do princípio da ordem original, que estabelece o ordenamento dos documentos de acordo com a organização dada pela instituição produtora do documento:

Os dois princípios, formalmente proclamados como normas jurídicas, converteram-se no núcleo histórico da ciência Arquivologia. O princípio de proveniência (principio di pronienza, em italiano; provenienzprinzip, em alemão; herkomstbeginsel, em holandês; respect des fonds, em francês; principle of provenance, em inglês) e o princípio da ordem original (metodo storico, strukturprinzip ou registraturprinzip, respect de Vordre primitif, principle of original order) evoluíram a partir de uma obrigação legal até uma opção científica e cultural (SOUZA, 2003, p. 249).

Já no século XX, outro manual que obteve grande ressonância no campo da Arquivologia foi o Manual of Archive Administration, de Hilary Jenkinson, de 1922. Esta obra, além de reiterar os princípios já consagrados, instituiu a custódia como

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princípio basilar da Arquivologia. Segundo Jenkinson, o papel dos arquivistas é o exercício da custódia (RIDENER, 2009, p. 51). Destaca-se que o autor propunha que o arquivo não deveria ter um papel ativo na seleção do documento. Caberia ao Estado a decisão de seleção daquilo que deveria ou não permanecer no arquivo.

Assim sendo, a custódia ininterrupta, a manutenção das evidências naturais dos documentos e, o mais importante, o contexto no qual foi produzido cada documento singular é de fundamental importância para a autenticidade do documento. A quebra desses requisitos leva à falta de credibilidade dos documentos.

Voltamos à questão do método, do estabelecimento de critérios e técnicas que permitem a construção do discurso verdadeiro, neste caso, do documento autêntico. Para Jenkinson, arquivo e documento são sinônimos. Os arquivos são documentos que fizeram ou fazem parte de transações de uma administração, especialmente produzidos para elas e preservados para referência da própria instituição (JENKINSON apud RIDENER, 2009). De acordo com o manual criado por Jenkinson, a validação do documento como verdadeiro está não só na forma em que é produzido e dentro de uma circunscrição precisa, mas também pela forma em que eles são preservados ao longo do tempo. Documentos que não são registros de ações realizadas no curso das atividades administrativas não são considerados arquivísticos e não podem ser legitimados por este saber. Todavia, a importância dos arquivos enquanto instituições validadoras de documentos verdadeiros, segundo Hilary Jenkinson, encontra-se na forma em que estas salvaguardam tais documentos, impedindo a contaminação dos registros por interferências externas.

Embora não coubesse ao arquivo o papel de seleção, a custódia ininterrupta que ele exerce é um modo de preservação que valida o documento como autêntico. “É o que há de mais importante nos arquivos” (JENKINSON, 1965). A corrupção do documento por efeitos do tempo, de sujeitos, de rearranjos que adulterem a forma em que foi produzido, ou seja, a alteração da forma original transforma o documento em inautêntico, não verdadeiro, sendo desconsiderado como testemunho ou prova em esferas como a jurídica, por exemplo.

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3.1. O Método Positivista de Validação

O positivismo surgiu na segunda metade do século XIX, com os pressupostos defendidos por Auguste Comte com o objetivo de fundar uma doutrina filosófica, sociológica e política que levaria ao desenvolvimento pleno do espírito humano. Influenciado pelos avanços tecnológicos oriundos da Revolução Industrial e o cientificismo das consideradas ciências naturais, Comte defendia que o único conhecimento possível era o que as ciências permitiam conhecer, pois o único método de conhecimento advinha das ciências naturais. Havia assim a positividade da ciência e a divinização do fato, postura que levava à mentalidade positivista a combater as concepções idealistas e espiritualistas da realidade, concepções que os positivistas rotulavam como metafísicas (GIDDENS, 2005, p. 28).

O caráter fundamental da filosofia positiva é tornar todos os fenômenos como sujeitos a leis naturais invariáveis, cuja descoberta precisa e cuja redução ao menor número possível constituem o objetivo de todos os nossos esforços, considerando como absolutamente inacessível e vazia de sentido para nós a investigação das chamadas causas, sejam primeiras, sejam finais. (COMTE, 1988, p. 9)

De acordo com Comte, os fenômenos sociais deveriam ser estudados com a mesma metodologia de ciências como a astronomia, a física, a matemática e a fisiologia. Pois os fenômenos sociais também seriam fatos lógicos e somente a partir da observação aprofundada de tais fatos que se poderia atingir o conhecimento de suas leis. Todos os conhecimentos deveriam ser fundados em observações, quer dos fatos aos princípios, quer dos princípios aos fatos, e quaisquer outros aforismos parecidos. (COMTE, 1988, p. 15)

Todas as vezes que chegamos a exercer uma grande ação, é somente porque o conhecimento das leis naturais nos permite introduzir, entre as circunstâncias determinadas sob a influência das quais se realizam os diversos fenômenos, alguns elementos modificadores que, em que pese a sua própria fraqueza, bastam, em certos casos, para fazer reverter, em nosso proveito, os resultados definitivos do conjunto das causas exteriores. (COMTE, 1988, p. 23)

Comte afirmava que somente a partir do conhecimento aprofundado das leis relativas ao indivíduo seria possível estudar os fenômenos sociais. A física social

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baseava-se num corpo de observações diretas que lhe era próprio, possuindo uma relação íntima com a fisiologia propriamente dita. (COMTE, 1988, p. 33)

A proposta metodológica de Comte (1988) para as ciências sociais consistia no estudo dos fenômenos sociais a partir da investigação, observação, proposição de teses, modelos, para, enfim, a elaboração de leis sociais. Isto é, uma transposição das técnicas e metodologias utilizadas pelas ciências naturais que haviam se consolidado como campos disciplinares conceituados e legitimados socialmente no século XIX. Comte procurava legitimidade em áreas como a medicina, a astronomia, a matemática e a física para consolidar a sua física social, a sua ciência positiva.

O positivismo comteano, usado como arcabouço teórico nas ciências humanas no século XIX, estabelecia que o conhecimento se explicaria por si mesmo, necessitando apenas o estudioso recuperá-lo e colocá-lo à mostra. A teoria positivista ganhou força num momento em que se acreditava ser a verdade um fim atingível e somente possível por meio dos métodos científicos como a investigação, a observação e comprovação das leis do mundo – princípios naturais que regiam as coisas e que estavam no universo prontos a serem descobertos assim como foram as leis newtoneanas (LÖWY, 2003).

No próprio campo do Direito, que tanto influenciou a Arquivística, havia a corrente positivista que defendia não haver lacunas no direito do homem, as lacunas estariam nas leis ou na falta de compreensão destas. Os juristas seriam intérpretes das leis, deveriam se distanciar de seus juízos e assumir uma postura neutra baseada em provas produzidas pelas partes litigantes num processo. (NEUMAN, 1986, p. 29)

A Teoria Crítica do Direito que surgiu na década de 1930, em seu embate com o positivismo, afirmava que as lacunas não estariam nas leis, mas nas ações “político-jurídicas” dos agentes do campo do Direito. Nesse sentido, a jurisprudência, a sentença e outros atos de poder decisório dos juristas seriam atos soberanos, pois julgariam subjetivamente, utilizando o aparelho coercitivo do Estado para impor suas sentenças transformadas em obrigações de fazer e deixar de fazer aos que se submetessem às regras e aos critérios criados pelo poder judiciário. Essas decisões seriam atribuições de valores baseadas nos discursos apresentados pelas partes, na subjetividade dessas, mas também na subjetividade, na interpretação das leis e nos valores preservados pelo jurista, responsável por mediar tal questão. (NEUMAN, 1986, p. 32)

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Portanto, a doutrina positivista do século XIX criou a necessidade de se utilizar na pesquisa e na análise dos fenômenos sociais o máximo de documentos possíveis com o objetivo de se obter a totalidade sobre os fatos. A busca desses fatos deveria ser feita por mentes neutras, pois qualquer juízo de valor na pesquisa e análise alteraria o sentido e a verdade própria dos fatos, modificando a própria História, ou o próprio julgamento da justiça que deveria ser imparcial. Análises subjetivas e parciais tornariam os saberes falhos, sem caráter científico, destituídos assim de valor e validade. Fustel de Coulanges, historiador do século XIX, influenciado por Comte, chegou a afirmar que: “a História não é arte, mas uma ciência pura (...) a busca dos fatos é feita pela observação minuciosa dos textos, da mesma maneira que o químico encontra os seus em experiências minuciosamente conduzidas" (COULANGES, 2003).

A objetividade, a minuciosidade, o detalhe e a dedicação impessoal, portanto, foram as grandes lições da escola positivista para o estudo de áreas que influenciaram o campo da Arquivística como a História e o Direito no século XIX. Numa sociedade européia que buscava seu próprio desenvolvimento e avançava rumo a grandes descobertas na ciência e na tecnologia, a cientifização que marcou a época também se espalhou para o campo dos estudos humanos, reduzindo o papel do profissional das ciências humanas a um mero coletor de informações (LÖWY, 2003).

Entretanto, tanto a História com a École des Annales e a Nova História, quanto o Direito com a Teoria Crítica do Direito a partir dos anos de 1930 procuraram repensar seus campos, abandonando a doutrina positivista. Já a Arquivística, fez o caminho inverso, ao aproximar-se do campo da Administração e das Ciências Tecnológicas e tecer novas relações com o Direito e com a Diplomática, a partir dos estudos, primeiramente de Hilary Jenkinson, em 1965, e posteriormente de Luciana Duranti, a partir do final da década de 1980, sendo aprofundados pelo grupo InterPARES, em 2001. A concepção arquivística, a partir desses nomes da área, alinhou-se com os pressupostos positivistas de método científico e documento para legitimar o seu campo e as suas práticas.

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3.2. O Direito Positivo

No Direito, a partir do século XIX, as universidades francesas, alemãs e italianas passaram a conceber a justiça como um princípio positivo, no qual o indivíduo deveria sair de seu estado natural e adotar certas regras, normas e leis a fim do bem estar comum. Daí se extrai o princípio geral de direito, a saber: “Aja de tal modo que o livre exercício do teu arbítrio possa estar em conformidade com a liberdade de todos segundo uma lei universal”. (HESPANHA, 2003, p. 309) O direito passou a ser entendido como o conjunto de leis fornecido a um povo, exigida, para tanto, uma promulgação para que se produza um estado jurídico. A lei, nessa perspectiva era o absoluto, de tal modo que a função do jurista não consistia senão em extrair e desenvolver o sentido pleno dos textos, para apreender-lhes o significado, ordenar as conclusões parciais e, afinal, atingir as grandes sistematizações (CELLA, 2007, p. 09).

O positivismo de quase todo o século XIX tentou fazer da ciência do Direito e da interpretação uma tarefa mecânica de hermenêutica exegética, o código não deixaria nada ao arbítrio do intérprete, o qual não teria por missão criar o direito, uma vez que todo o direito já estava feito a partir de leis sociais observáveis (CELLA, 2007, p. 24).

Os conceitos jurídicos eram positivos, pois eram, assim como outros das demais ciências, genéricos e abstratos, rigorosamente construídos e concatenados, válidos independentemente da variabilidade da legislação positiva, obedecendo ao novo modelo de ciência como discurso de categorias teoréticas. O saber jurídico escaparia, assim, quer ao império da lei mutável e arbitrária, quer ao subjetivismo do doutrinarismo jus-teológico ou jusracionalista. Com isto, ganhava uma firmeza e universalidade que eram características das outras ciências. Ao mesmo tempo, instituía-se como um saber acumulativo, isto é, que ia acumulando certezas e progredindo sucessivamente — como as outras ciências — para formas mais perfeitas e completas de conhecimento (CELLA, 2007, p. 35).

Para teóricos do Direito como John Austin (1832), Herbert Hart (1961) e Hans Kelsen (1972), o sistema jurídico seria um sistema lógico fechado, onde as decisões jurídicas corretas poderiam ser inferidas, por meios lógicos, a partir de regras jurídicas predeterminadas sem referência a objetivos sociais, políticos ou morais. Os juízos morais poderiam ser emitidos, ou defendidos, como o poderiam as afirmações de fatos, por meio de argumentação racional, evidência ou prova.

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O positivismo comteano, usado como arcabouço teórico nas ciências humanas, defendia que o conhecimento se explica por si mesmo, necessitando apenas seu estudioso recuperá-lo e colocá-lo à mostra. Não foram poucos os que seguiram a corrente positivista: Auguste Comte, na Filosofia; Émile Durkheim, na Sociologia; Fustel de Coulanges, na História, entre outros, contribuíram para fazer do Positivismo e da cientifização do saber um posicionamento poderoso no século XIX. A teoria positivista ganhou força num momento em que se acreditava ser a verdade um fim a ser atingido e que isso somente seria possível por meio dos métodos científicos como a investigação, a observação e comprovação das leis do mundo – princípios naturais que regiam as coisas e que estavam no universo prontos a serem descobertos assim como foram as leis newtoneanas (LÖWY, 2003).

Dessa forma, havia no Direito a necessidade de se utilizar na pesquisa e análise o máximo de documentos possíveis: para se obter a totalidade sobre os fatos e não deixar nenhuma margem de dúvida no que se refere à sua compreensão. A busca desses fatos deveria ser feita por mentes neutras, pois qualquer juízo de valor na pesquisa e análise alteraria o sentido e a verdade própria dos fatos, modificando o próprio julgamento da justiça que deveria ser imparcial. Esta atitude tornaria o Direito um saber falho e sem caráter científico, e, portanto, destituído de valor e validade. A objetividade, a minuciosidade, o detalhe e a dedicação impessoal, portanto, foram as grandes lições da escola positivista para o estudo do Direito no século XIX. Numa sociedade europeia que buscava seu próprio desenvolvimento e avançava rumo a grandes descobertas na ciência e na tecnologia, a cientifização que marcou a época também se espalhou para o campo dos estudos humanos, reduzindo o papel do profissional desse campo para um mero coletor de informações (LÖWY, 2003).

São essas bases teóricas do positivismo que a Arquivística, influenciada pelo Direito e pela Diplomática, utilizou para se consolidar como campo disciplinar a partir do século XX.

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3.3. A influência do positivismo nas validações do documento arquivístico

A Arquivística no século XX continuou a defender os princípios positivistas como arcabouço teórico para suas práticas mesmo que as áreas que haviam legitimado o seu campo como a História e o Direito já tivessem abandonado tal filosofia.

No período entre as duas guerras mundiais, preocupações de nova ordem caracterizaram a Arquivística, especialmente sobre o ofício do arquivista. Os problemas de avaliação, seleção e eliminação, em consequência do aumento considerável da produção de documentos levou a uma reflexão da própria práxis do campo.

A década de 50 caracterizou-se pelas preocupações de caráter pragmático do campo da Arquivística, embora a componente teórica não tenha estado ausente por completo. Obras como o manual do alemão Adolf Brenneke (1953), o estudo já referido de Theodore Schellenberg, sob o título Modern archives: principles and techniques (1956), são exemplos da procura de sistematização teórica que envolveu a Arquivística, num período em que a acentuada evolução tecnológica criou e agudizou problemas práticos de vulto, acentuando-se a tendência tecnicista na forma de encarar a disciplina.

A necessidade de se controlar a produção documental fez com que os arquivos deixassem de prioritariamente servir à pesquisa histórica e ao desenvolvimento cultural, e passassem a atuar de forma mais pragmática, procurando atender às demandas de informação com metodologias semelhantes às utilizadas pelas ciências exatas, ou seja, por meio de observações, teses, modelos e leis. A Arquivística ao aproximar-se dos saberes exatos procurou utilizar de seus métodos para obter a sua legitimação entre seus consumidores.

Nas décadas de 1960 e 1970 a Arquivística preocupou-se com o debate de questões de ordem técnica envolvendo a classificação e o armazenamento dos documentos custodiados pelos arquivos como, por exemplo, a problematização dos fundamentos da Arquivística no Canadá, sendo significativo o artigo que Louis Garon publicado no primeiro número da revista Archives (1969) sobre o princípio da proveniência e a problematização de Michel Duchein em 1977, sobre o princípio do respeito aos fundos, na França.

Todavia, a partir dos anos de 1980, a Arquivistica procurou legitimar-se enquanto campo científico com métodos e epistemologia próprios. As revistas Archives e Archivaria produzidas no Canadá tiveram grande influência neste campo, sobretudo os

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estudos de Luciana Duranti sobre as características dos registros documentais a partir da década de 1980. Influenciados pela teoria de Hilary Jenkinson (1965) sobre documentos, os estudos da autora aproximam-se da Diplomática e do método positivista de Auguste Comte ao estabelecer como características inerentes aos documentos, que deveriam ser observadas e extraídas destes, valores atribuídos por seus produtores, classificadores e arquivistas.

Em seu artigo Registros documentais contemporâneos como provas de ação (1994), Luciana Duranti afirma que a imparcialidade, a autenticidade e a naturalidade seriam atributos verificáveis nos documentos que comprovam ações. Caso não fosse possível a observação destes atributos, o motivo seria por se tratarem de documentos ilegítimos e, portanto, não deveriam ser analisados pela Arquivística.

A imparcialidade do documento residiria no fato deste ser produzido para desenvolver uma ação e sob circunstâncias, ou seja, rotinas processuais, que assegurassem uma promessa de fidelidade dos fatos e das ações. (DURANTI, 1994, p. 51).

Já a autenticidade estaria associada à capacidade do documento ter mantido a sua integridade apesar das possíveis manipulações sofridas. Ele precisaria ser produzido, mantido e arquivado de acordo com normas e padrões autorizados. Qualquer alteração fora deste contexto faria o documento perder seu caráter autêntico, pois sofreria alterações que o fariam perder a sua essência (DURANTI, 1994, p. 52).

Os documentos arquivísticos acumulam-se naturalmente, no curso de suas transações, de acordo com as necessidades de agir. A autora os compara com formações geológicas que se formam progressivamente de acordo com a coesão espontânea da natureza. Essa terceira característica diferenciaria os arquivos dos museus e bibliotecas que escolheriam seus acervos, selecionando o que deveria ou não pertencer as suas coleções, uma forma de aquisição artificial (DURANTI, 1994, p. 52).

O inter-relacionamento seria a quarta característica dos registros documentais que estabeleceriam relações entre si no desenvolvimento das ações ou transações que os produziram. “Cada documento está intimamente relacionado com outros tanto dentro quanto fora do grupo no qual está preservado e seu significado depende de suas relações” (DURANTI, 1994, p. 52). Nesse sentido, um único documento não poderia se constituir em testemunho suficiente dos fatos e atos passados, ele perderia sua

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