“Chega de Saudade”
Layla Lima
Ruth Gelehrter da Costa Lopes
Sinopse
A história acontece em uma noite de baile, em um clube de dança em São Paulo, acompanhando os dramas e alegrias de cinco núcleos de personagens frequentadores do baile. A trama começa ainda com a luz do sol, quando o salão abre suas portas, e termina ao final do baile, pouco antes da meia-noite, quando o último frequentador desce a escada. Mesclando comédia e drama, Chega de Saudade aborda o amor, a solidão, a traição e o desejo, num clima de muita música e dança.
Entrevista
R. L. C., feminino, 44 anos, casada, Técnica Administrativa O que é velhice para você?
É a pele enrugar. O mais importante é a cabeça, que precisa estar sempre ativa. Agora o físico não tem jeito, mesmo você cuidando da saúde, chega uma hora que já não é mais a mesma coisa.
Como você acha que a velhice é vista atualmente?
Vejo que existe certo preconceito por parte dos mais jovens, apesar deles não admitirem isso. Não digo com relação aos idosos, mas às pessoas de meia idade.
Quais aspectos relacionados à velhice te chamaram a atenção no filme Chega de Saudade?
No início, percebi a resistência da jovem em ajudar o namorado em uma festa classificada como sendo de "velhos", no entanto ela foi uma das pessoas que mais se divertiram, principalmente na companhia de um "velho", considerando a idade dela.
Outra coisa também, uma "jovem senhora" fingir que ia ao shopping, deixar seu motorista esperando no shopping, sair de táxi pelos fundos para se divertir em um baile digamos, "de velhos". E como se divertiu, heim!
O modo como o filme aborda este tema mudou algo na sua concepção de velhice? Não, sempre achei que a idade está na cabeça de cada um. E que todos, devem e podem se divertir, independente da sua idade.
Como você imagina este momento na sua vida?
Se eu chegar nesta idade, pretendo ser uma velhinha bem divertida, dançar bastante e estar sempre rodeada de jovens e crianças alegres. Fazer bastante festa juntando todas as idades. Tudo isso se os "jovens" aceitarem se misturar, né.
Análise
O filme Chega de Saudade, dirigido por Laís Bodanzky e cujo roteiro é de autoria de Luiz Bolonghesi, mostra a velhice a partir de um ângulo pouco difundido nos dias de hoje. Em tempos mais remotos, a velhice era considerada principalmente a partir do ponto de vista biológico e fisiológico, porque:
Apenas no início da década de 1920 algumas pesquisas entraram realmente na pauta das pesquisas científicas, “com investigações que contemplavam, basicamente, as transformações fisiológicas e suas perdas para o organismo, nesta fase do desenvolvimento”. (Moreira, 2007:1)
Por conta disto, e até os dias de hoje, a velhice é amplamente associada a limitações, deficiências, ao “fim da vida” etc. Assim, o homem contemporâneo mostra cada vez mais uma forte necessidade de evitar a velhice a qualquer custo.
A velhice e a iminência da morte apresentam-se, então, como incômodos que devem ser afastados através de diversos hábitos "saudáveis" e “rejuvenescedores”: as cirurgias plásticas, ingestão de todo tipo de medicamento, a preocupação excessiva e exagerada com a aparência física e a moda, a ginástica, os cosméticos, as vitaminas, dentre outros (Maia, 2008).
Esta questão é tão presente na atualidade que são utilizados de diversos meios de comunicação – da televisão até a internet, dos jornais às revistas – para divulgar velhas e novas possibilidades de evitar a velhice. Exemplos disto são sites que apresentam os seguintes atrativos: “Produtos para evitar a velhice” 1 ou “Métodos para evitar a velhice” 2. Assim, a sociedade contemporânea se firma cada vez mais em padrões e ideais que pregam o medo de envelhecer, que buscam a distância da morte e iludem-se com a imortalidade.
Além disso, a sociedade moderna passa a pregar um novo “modo de ser velho”: não mais ligado a estereótipos negativos, mas baseado em um ethos em que os idosos são vistos como confiantes, engajados, joviais. Àqueles que não aderem a este ethos resta apenas a imagem de desviantes, velhos, estranhos e ultrapassados (Maia, 2008).
Moacyr Scliar (2010) traz um ponto de grande importância a esta reflexão ao comentar sobre um livro lançado recentemente nos Estados Unidos: How Not to Act Old, de Pamela Redmond Satran. Segundo ele, o livro traz conselhos – de todo e qualquer tipo – que têm como objetivo ensinar os idosos a não parecerem idosos. Scliar finaliza afirmando:
Que pessoas de idade aprendam a usar o computador, que façam esporte, que cuidem da aparência, que aprendam a andar de moto, tudo bem. Mas que renunciem à sua própria vida, à sua identidade, essa não. Os livros de autoajuda têm de arranjar um assunto melhor. Como diz a resenha do jornal Independent, a autora esqueceu só uma coisa: não existe nada mais velho do que ficar se preocupando em como evitar a aparência de velhice. (Scliar, 2010:2)
A questão da perda de identidade é então trazida à tona: diante de tantos preconceitos e estereótipos relacionados à velhice, aonde entra a individualidade de cada um neste momento da vida? Além disso, a própria visão do processo do envelhecimento como algo natural à existência é colocada cada vez mais distante – além de, muitas vezes, ser distorcida e negada. Os antigos estereótipos negativos relacionados à velhice passaram, então, a ser substituídos por uma imagem do idoso produtivo – assim, só é velho quem quer. Deste modo, a juventude passa a ser considerada um estilo de vida, algo a ser alcançado por indivíduos de toda e qualquer idade. Assim, a busca por este ideal de juventude e perfeição é cada vez mais
1 http://guiadicas.net/produtos-para-evitar-a-velhice/
constante, de modo que o idoso precisa se identificar com estes padrões, “uma vez que para este ideal a velhice é pensada enquanto uma falha que necessita ser corrigida”. (MAIA, 2008). A subjetividade e a individualidade do sujeito são, desta forma, perdidas nesse processo. Isto porque há um esforço do indivíduo em se ajustar a estes padrões impostos, além de uma necessidade de se sentir jovem e de não se colocar frente a frente à idéia da inexorabilidade da finitude e da mortalidade humanas. Assim, o social e o individual fundem-se – ao mesmo tempo em que se distinguem – de tal maneira que o indivíduo se perde diante destas exigências da sociedade.
Na sociedade atual convive-se com diferentes tempos: o tempo do indivíduo e o tempo social. [...] O tempo social é imposto às crianças, adolescentes, adultos e idosos, e é um modelo linear de desenvolvimento do qual não se pode fugir. Ele define também em que momento as pessoas são consideradas velhas. Desta forma, a velhice é uma construção social e cultural, sustentada pelo preconceito de uma sociedade que quer viver muito, mas não quer envelhecer. (Schneider & Irigaray, 2008:592)
A diferenciação entre tempo social e tempo do indivíduo é de extrema importância, especialmente no que tange ao papel da sociedade no processo do envelhecimento. O modo como a sociedade entende a velhice é o que determina quem é velho e quem não é, isto é, a relação entre fatores cronológicos, biológicos, psicológicos e culturais é fundamental neste sentido (Schneider & Irigaray, 2008).
Desta forma, e como já foi abordado anteriormente, a relação direta entre indivíduo e sociedade fica clara também na maneira como é difundido o novo “modo de ser velho”. O papel da sociedade no processo de envelhecimento do indivíduo fica evidente: são os estereótipos, padrões e ideais que movimentam este processo e influem na subjetividade dos idosos da contemporaneidade.
Entretanto, é possível observar uma sobreposição de estereótipos e padrões culturais que trazem à tona conflitos e contradições. Os estereótipos negativos relacionados à velhice não estão totalmente extintos – pelo contrário, ainda são alimentados, só que de maneira indireta. Enquanto isso, os estereótipos do idoso produtivo aparecem justamente para camuflar a imagem negativa que é delegada ao idoso. Surge um círculo vicioso.
Assim, o filme Chega de Saudade traz uma imagem da velhice que ultrapassa estes estereótipos culturais. A velhice aparece, neste filme, como uma época da vida a ser vivida como outra qualquer. Entretanto, não está ligada à imagem de produtividade, vai mais além: há uma aceitação da velhice. O filme é uma exaltação à vida – não importando a idade –, mostrando ser possível viver bem na velhice.
Além disso, o longa-metragem traz também um conflito de gerações: Marquinhos (Paulo Vilhena) é contratado como DJ para trabalhar no baile de terceira idade “Chega de Saudade”, e leva sua namorada Bel (Maria Flor) - um jovem casal. Diante daquele contexto, em algumas falas de Bel ficaram explicitados conflitos de expectativas – e, consequentemente, de estereótipos:
Bel: - É tão animado o baile, eu achava que era... não sei... que a música era mais antiga, sabe?
Assim, Bel simboliza a juventude que, ao entrar em contato com a realidade do envelhecimento e a possibilidade de uma aceitação da velhice, vê suas ideias pré-concebidas desmoronarem. Para Bel abre-se, então, a possibilidade de se viver bem na velhice – algo que não era visto como possibilidade.
Em outros momentos do filme, Bel se fortalece como a representação da juventude: ela chama a atenção de diversos homens do baile, em especial de Eudes (Stepan Nercessian). Entre
danças, bebidas e canções há um envolvimento entre eles – um flerte entre juventude e velhice, e vice-versa.
Eudes mostra-se claramente interessado e encantado por Bel, o que simbolicamente expressa um desejo de (novamente) alcançar a juventude. Apesar disso, ao final do filme, ele volta para sua antiga pretendente Marici (Cássia Kiss), afirmando que aquilo havia sido apenas um encantamento passageiro, mas que a mulher de verdade era ela. Neste momento, Eudes volta-se à sua velhice, apropriando-volta-se dela.
Em outro momento do filme, fica bem clara a maneira como a velhice é explicitada no filme. Ernesto (Luiz Serra) – um dos mais exímios frequentadores do baile – acaba indo para a enfermaria por passar por fortes emoções relacionadas a seu casamento. Trava-se um diálogo com o enfermeiro:
Enfermeiro: - Nessa idade tem que evitar emoções. Ernesto: Tá me receitando a novela das seis? [...]
Ernesto: Melhor mesmo é deitar no caixão e esperar a danada chegar, certo?
Este diálogo explicita bem a questão da sobreposição de estereótipos discutida anteriormente. Enquanto se prega que o idoso deve ser produtivo e jovial, isto deve acontecer com algumas restrições. Passa-se a idéia de “viva, mas pela metade”, ou então “viva, mas sem emoções”, como afirma o enfermeiro.
Dentre outras questões, o filme traz à tona o aspecto da sensualidade e da sexualidade na velhice – algo considerado tabu, mesmo nos dias de hoje. A própria dança do salão já é algo que foca na corporeidade humana e, deste modo, chama a atenção para este aspecto da sensualidade. Neste sentido, o filme de Laís Bodanzky, quebra mais um estereótipo: a questão da sexualidade na velhice.
Com uma visão restrita tanto em relação à sexualidade quanto à velhice, a sociedade muitas vezes classifica esse período da vida como de assexualidade e, até mesmo, de androginia. Dessa forma, nesse período o indivíduo teria de unicamente assumir o papel de avô, ou de avó - ao lhes ser delegado pelos filhos o cuidado de seus netos - na expectativa de os monitorarem enquanto, concomitantemente, realizam atividades como fazer tricô e assistir à televisão, usufruindo sua aposentadoria (Risman, 2005 apud Almeida & Lourenço, 2008:131).
A questão da sexualidade, se encarada como um fator de bem-estar na velhice, a saúde do idoso, bem como sua vida afetiva, seriam muito melhor visadas na sociedade, de modo que o próprio idoso não teria que encarar sua sexualidade com estranhamento (Almeida & Lourenço, 2008). O filme, neste sentido, mostra um grupo de idosos que está bem apropriado de sua sexualidade – o assunto é apresentado com muita naturalidade e espontaneidade no filme. Este modo de encarar a velhice, pouco difundido nos dias de hoje, aparece também na entrevista feita. Nela, R. aponta que idade está na cabeça das pessoas. Segundo ela, as limitações físicas ficam evidentes, mas deixa claro que a velhice é um modo de encarar a vida, não um determinante físico, psicológico ou biológico – visão esta que parece permear o filme Chega de Saudade.
Nestes dois materiais, a velhice não aparece como um obstáculo a ser destruído ou como algo a ser evitado, mas como um momento da vida que deve ser vivido. A velhice não impossibilita
ninguém de viver, o que dificulta este momento são os estereótipos negativos colocados cada vez mais fortemente pela sociedade – fator que aparece nas falas de R. ao afirmar que os jovens são preconceituosos, “apesar deles não admitirem isso” (sic).
Portanto, é possível observar que a sociedade prega um embate entre juventude e velhice, o bom e o mau, o certo e o errado que é construído cultural e historicamente. Ainda assim, o filme e a entrevista explicitam que existem novas possibilidades, novos olhares que podem ser construídos sobre o processo de envelhecimento. O importante é não deixar que os estereótipos e valores negativos paralisem o idoso – e, até mesmo, o jovem – impossibilitando-o de perceber suas pimpossibilitando-ossibilidades nimpossibilitando-o mundimpossibilitando-o.
“Eu é que não me sento no trono de um apartamento com a boca escancarada cheia de dentes esperando a morte chegar.”
(Ouro de Tolo - Raul Seixas).
Ficha Técnica
Título no Brasil: Chega de Saudade Título Original: Chega de Saudade
País de Origem: Brasil Roteiro: Luiz Bolonghesi
Gênero: Drama Classificação etária: 14 anos Tempo de Duração: 92 minutos
Ano de Lançamento: 2008 Estréia no Brasil: 21/03/2008
Site Oficial: http://www.chegadesaudadeofilme.com.br Estúdio/Distrib.: Buena Vista
Direção: Laís Bodanzky
Referências
ALMEIDA, Thiago; LOURENÇO, Maria Luiza. Amor e sexualidade na velhice: direito nem sempre respeitado. RBCEH, Passo Fundo, v. 5, n. 1, p. 130-140, jan./jun. 2008.
BODANZKY, L. Chega de saudade. [Fime-DVD]. Brasil, 2008. Buena Vista.
MAIA, Gabriela Felten da. “Corpo e velhice na contemporaneidade.” Estud. pesqui. psicol., Rio de Janeiro, v. 8, n. 3, dez. 2008. Disponível em
http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1808-‐ 42812008000300011&lng=pt&nrm=iso. Acesso em 15/11/2010.
MOREIRA, Maristela Poubel Araújo. Como ainda estamos olhando a velhice na atualidade? Pauta Social, 2007. Disponível em http://www.pautasocial.com.br/artigo.asp?idArtigo=599. Acesso em 15/11/2010.
SCHNEIDER, Rodolfo Herberto. IRIGARAY, Tatiana Quarti. O envelhecimento na atualidade: aspectos cronológicos, biológicos, psicológicos e sociais. Estudos de Psicologia, Campinas, 2008.
SCLIAR, Moacyr. A velhice maquiada. Disponível em
http://www.clicrbs.com.br/especial/rs/donna/19,206,2903090,Moacyr-‐Scliar-‐A-‐velhice-‐maquiada.html. Acesso em 15/11/2010.