O
SISTEMA
TEMPORAL
DO
PORTUGUES
BRASILEIRO
TESE NA
ÁREA DE
VEESTRUTURASENTENÇIALY
APRESENTADA
COMO
REQu1s¡To PARCIAL
À oBTENçÃo-
Do
GRAU DE
DouToRA
Ao PROGRAMA
DE.PÓs~GRADuAçÃo
EM
l_1NG`üísT1cADA
UNIVERSIDADE
FEDERAL
DESANTA
CATARINA,SOB A
ORIENTAÇÃO DA
PROFESSORA
DRA. MARIA CRISTINAFIGUEIREDO SILVA.
ELORIANDPOLÁÉB
O
SISTEMA
TEMPORAL
DO
PORTUGUES
BRASILEIRO
TESE NA ÁREA
DEESTRUTURA
SENTENCIAL
APRESENTADA
GOMO
REQUISITO PARCIAL
À
OBTENÇÃO
DO
GRAU
DEDOUTORA
AO
PROGRAMA
DE
PÓS~GRADuAçÃO EM
LINGIJÍSTICADA
UNIVERSIDADE
FEDERAL DE
SANTA
CATARINA,SOB A
ORIENTAÇÃO
DA
PROFESSORA
DRA.MARIA
CRISTINAFIGUEIREDO SILVA.
FLORIANOPOLIS
Tese
aprovada
como
requisito parcial paraobtenção
do
graude
Doutorno
Curso
de Pós-Graduação
em
Lingüísticada
Universidade Federalde
Santa
CatarinaOrientadora
O
SISTEMA
TEMPORAL
DO PORTUGUÊS
BRASILEIRO
pela
banca
examinadora
formada
pelos professores:/É
.To
Czoxczwz.
\l:¿«»zz‹MâozQtzoz
D
. Maria Cristina Figueiredo SiIvaz(UFSC)Dra. Roberta Pires
de
Oliveira(UFSC)
voáflozé
lY`Carlos
Mioto
(UFSC)
g
or. Rodolfo Hari
(UNICAMP)
"Dr. Sérgio
Menuzzi
(PUC/RS)
Dra.
Ruth
Elisabeth V.Lopes
(suplenteUFSC)
(Florianópolis, 14
de
fevereirode
2001.Aos meus
familiares,em
especial, Sirlei, Lúcio, imara, Carolinae
Mariana,peio carinho,
amizade e
suporteque
me
ajudaram a
prosseguirem
busca
de
meus
objetivos.`
Aos
muitose
muitosamigos
de
UFSC,
com
quem
eu
sorri e choreinesses
quatro
anos de
curso;e
os velhosamigos
que permaneceram sempre ao
meu
lado
com
seu
carinhoe
apoio.À
minha
orientadora, Profa. Dra. Maria Cristina Figueiredo Silva, peloincentivo
dado desde
o
meu
primeiro cursode
sintaxee
pelaconfiança
depositada.
À
Profa. Dra. Roberta Piresde
Oliveira, porsua grande
e inestimável ajudanas
discussões e sugestoes neste eem
outros trabalhose porque sua
paixãopela
semântica
me
contagiou.À
amiga
Giorgia Brazzarola,minha
inesquecível professorade
italiano,e a
seu companheiro Davide
Franco,que
me
ajudaram nos
julgamentos relacionadosà lingua italiana.
Aos
professoresdo
curso,grandes
mestres, especialmenteao
Prof. Dr.Apóstolo Nicolacópulos ie Prof. Dr. Carlos Niioto, pelo incentivo, apoio
e
amizade.Aos
'professores Dr. PierMarco
Bertinetto (orientadorem
Pisa)e
Dra.Valentina Bianchi
da
ScuolaNormale
Superiore.À
CAPES.,
pelofinanciamento de
meus
estudos e pelaconcessão da
bolsa “Sandwich” para aprimorarminha formação na
ScuolaNormale
Superiore di Pisa(itália).
A
todos, oslembrados
e os esquecidos:OBRIGADA!
LisTA
DE
s¡MBo|.os
... ..RÊSUWÍÔ
... _.ABSTRACT
... _ _ ..-iNTRorJuÇAo
... .. 1.O
RÊFERENCIAL TEÓRICO
... _. 1.1O
tratamentosemântico
... _.1.1.1
A
abordagem
iógica (ciássica) ... _.1.1 .2
A
abordagem
referenciai ... ._'
1.1.3
Um
tratamentobaseado
em
eventos ... _.1.1.4
Propondo
modificações'em
Reichenbach
(1947) ... _.1.2
O
tratamento sintático ... ..1.2.1
A
hipótese Spiít-ínfi ... ._1.2.2
O
programa
minimaiistade
Chomsky
... ._1.2.2.1 Teoria
da
estrutura frasai ... _.1.2.2.2. Teoria
do
movimento
... _.1.2.2.3.
Os
traços ... _.1.2.2.4.
Mais
sobreeconomia
... _.1.2.2.5.
Sobre
aordem
das
paiavras ... _.1.2.3.
Considerando
a estrutura frasai ... ..1.2.4. Categorias sincréticas e
0
Princípiode
dispersãode
traços2.1.1
O
probiema do
pretérito perfeito ... ._52
2.1.2
Uma
estrutura temporal parao
pretérito perfeito ... _.63
2.1.3
Um
passado
composto
pecuiiar ... ._66
2.2
Pensando
no
presente ... __70
2.2.1
0
presente simpiesdo
PB
eo
progressivo presente ... ._ 712.2.2
Os
problemas
do
presenteem
iínguasromânicas
egermànicas
80
2.3
Um
pouco de
teoria ... ._84
2.3.1
A
teoriada
reiação partede
... __86
2.3.2 Pontuaiidadez
uma
propriedadede
S
... ._90
2.3.3
Revisando
anoção
de
pontuaiidade ... ._ 1912.4
Buscando
soiuções ... ... ._98
L
2.4.1 Presente
e
interpretação perfectiva ... _.98
2.4.2
Sobre
a impossibilidadede
uma
ieitura continua ... _.104
2.4.3
Sobre
a ieitura habituaido
presente ... _. 1112.4.4
O
progressivo ... _.116
2.4.5
O
passado composto do
PB
... ._123
2.5 Outras
conseqüências da
teoria ... ._132
2.6
Conciuindo
o capítuio ... ._136
3. UNI
SÍSTÊNIÀ TÊÍVTPÔRÀL
MÕRF`Õ'SSINTÁTICÔ
... _.145
3.1
A
sintaxeque
ostempos
têm
... ..145
3.1.1
O
sistema temporai itaiianoe
ingiës (Giorgi&
Pianesi 1997) ... _.145
3.1.2
O
sistemado
latim (ciássico) ... _.155
Uma
3.2.1
O
presente simpies e o progressivo ... _.164
3.2.2
O
pretérito perfeito e o'passado
composto
... ._167
3.2.3
O
pretérito mais-que-perfeito ... _.178
3.2.4
O
futurodo
presente ... ._180
3.3 Concluindo 'o capituio ... __182
4.
TÊÍVIPÕ
E
ÍVÍOÚÍFÍCÁÇÂÕ
ÀDVERBÍÀL
... __18/
4.1 ix/iodificarçäo adverbiai
no
sistema temporal ... ._187
4.1.1
Revendo
fenômenos
com
adverbiais temporais ... ._188
4.1.2
A
propostade
Hornstein (1993) e oPB
... _.189
4.1.3
A
sintaxedos
adverbiaisde
tempo
... _.195
4.2 Conciuindo
o
capituio ... ... _.205
«CÔNCLUSAO
... __BIÊLIIOGRÂFIÂ
__________ ._ ________________________________________________________________________________ __210
________________________________________________________________________________ __216
VIIIP
(operadorde
tempo
passado)
... ._4
F
(operadorde
tempo
futuro) ... ..4
e
(o eventode
Davidson) ... _.15
S (o evento
da
faia) ... ._18
S'(tempo
da
faiade Reichenbach)
... ._19
E
(tempo
do
evento
de
Reichenbach)
... _.19
R
(tempo de
referênciade Reichenbach)
... ._ 19Z
(a estruturacomputada
por CHL) ... _.30
N
(numeração)
... _.30
Ã
(níveide
representação LF) ... __30
n
(níveide
representaçãoPF)
... _.30
(vv, Ã) (expressões iingüísticas
de
L) ... _.30
8 (o rótuio
de
um
constituinte) ... _.32
P
(parte de;uma
reiaçäo binária) ... _.86
O
(sobreposição;uma
reiaçäo binária) ... _.87
cl (o
fechamento
de
um
evento;uma
função) ... _.88
Cl (evento fechado;
um
predicado) ... _.89
êš
(um
domínio
rnerotopoiógico) ... _.92
< õ>
(estruturade
eventos orientada) ... ._92
d
(o divisorde
um
evento;uma
função) ... ._92
sô (precedência temporai, reiativa a
um
dado
d;uma
relação) ... ._92
zõ (simuitaneidade, reiativa a
um
dado
d;uma
relaçäo) ... ._93
TOS
(sobreposição temporai,a
um
dado
uma
reiaçäo)¢ (processo) ... ._
TPP5
(parte própria temporai,como
relativaa
um
dado
d;uma
reiação)em
(aí)(tempo de
um
evento;uma
reiaçäo) ... _.Gen
(genérico; operador diädico) ... ._I (intervaão íemporai;
uma
noção)
... _.< (indicador
de
precedência) ... ..Esta pesquisa,
que
investiga a interpretação temporal, desenvolve-sena
interface' entre sintaxe
e
semântica.Seu
domínio
empírico considerasentenças
com
formas
verbais (esua
morfologia 'flexional)em
português brasileiro (PB)e
outras línguas-românicase
germãnicas,como
o
italianoe o
inglês..
Como
aparatoteórico,usamos
a semântica
formal,mais especificamente a
proposta
de
Giorgi &' Pianesi (1997)que
tem
eventoscomo
um
primitivo (cf.Parsons
1990):os
tempos
estabelecem
relações entreeventos
A
que
correspondemàs
entidades reichenbachianas.Cada
tempo
é,nesse
contexto,o
resultado
da composição de
uma
relaçãoR/E
com
uma
relação R/S,conforme a
revisão
da
teoriade
Reichenbach (1947)proposta
por Hornstein (1993).Utilizando
uma
teoria merotopológica (cf. Giorgi&
Pianesi: 1997),mostramos
porque
o
,presente simplesnão
denota,na
maioriadas
vezes,a
interpretação
de
presente “real”; tal interpretação é obtidacom
a morfologiado
progressivo presente.
No
caso
do
pretérito perfeito,ao
qualfreqüentemente se
atribuiambigüidade
entre a interpretaçãode
passado
simplese a correspondente
ao passado composto de
outras línguas românicas,mostramos que
é
possíveldefender
uma
única estrutura temporal reichenbachiana,uma
vez
que
ainterpretação
de passado composto
só
está disponívelmediante
modificaçãoadverbial.
K
Sintaticamente,
a
pesquisasegue
a
teoriada
gramática gerativa. Utilizandoo
arcabouço
teóricodo Programa
minimalista(Chomsky
1995),TP
é divididoem
dois núcleos distintos,
onde
os
morfemas
tempo-aspectuaisrecuperam as
relações
semânticas
estabelecidasem
cada
tempo
verbal: T1, para relação R/S; T2, para a relação E/R. Assim, a distribuição sintáticado
tempo
recebeu
um
tratamento
que acaba
considerando
também
sua
interpretação.. z 2
_ .^ \
This research,
which
investigates temporal interpretation, lies in theinterface
between
syntaxand
semantics. Its empiricaldomain
coverssentences
with verbal forms (and their inflectional morphology) in Brazilian
Portuguese
(PB)and
otherRomance
and Germanic
languages, like Italianand
English.As
our theoretical framework, Iuse
formal semantics,more
specificallyGiorgi
&
Pianesi's (1997) proposalwhich has
events as its primitive (cf.Parsons
1990), according to
which
tenses establish relationshipsbetween
events thatcorrespond
toReichenbachian
entities.Each
tense is, in this context, the result of the composition ofan R/E
relation withan R/S
relation, following the revision ofReichenbach's
theory (1947)proposed by
Hornstein (1993).Making use
of a mereotopological theory (cf. Giorgi&
Pianesi: 1997), Ishow
that the simple presentdoes
not denote,most
of the times, the “real” presentinterpretation;
such
interpretation is obtained withI
the
morphology
of the progressive present. In thecase
of the past perfect, towhich
ithas
oftenbeen
attributed
an
ambiguitybetween
the interpretation of simple pastand
theone
corresponding to the past perfect of other
Romance
languages, lshow
that it ispossible to defend only
one
Reichenbachian
temporal structure, given that theperfect past interpretation is only available
by
adverbial modification.Syntactically, the research follows the generative
grammar
theory.Using
the minimalist
framework
(Chomsky
1995),TP
is divided intotwo
different heads,where
the tenseand
aspectmorphemes
recover thesemantic
relationshipsestablished in every verbal tense: T1, for
R/S
relation; T2, forE/R
relation. ln thisway, the syntactic distribution of the tense receives
a
treatmentwhich
ends up
also considering their interpretation.
`
As
teorias lingüísticaspreocupadas
em
descrever sintáticae
semanticamente
uma
línguatomam
o
verbocomo
um
predicador por excelência.E,
embora
as
línguashumanas
exibam
uma
variaçãoem
sua
morfologia flexional,todas
possuem
um
sistema para exprimira
anterioridade, a simultaneidadeou
a posterioridadeem relação à enunciação. .zO
tempo
é, por isso,um
elemento
centralna
sintaxe -dassentenças
em
qualquer língua natural.
Suas
propriedades,no
entanto,não
estãocompletamente
estabelecidas,
em
particular oseu poder
de
licenciar .a inclusãoou a
exclusãode
itens Iexicais
na
sentençaou
de
permitir interpretaçõessemânticas
diversas.Sua
expressão na
línguaenquanto
categoria abstrataparece
mostrarque
nenhuma
sentença se
constróisem
que
se leveem
conta as exigênciasde
uma
*sintaxetemporal. . ~
O
ponto, entretanto, é delicado:é
possível falarde
uma
“sintaxe”de
tempo?
O
que
sepode
exigirde
uma
teoriade
sintaxe temporal?São
estasas
questões
centraisque
este trabalhose propõe a
responder.Para
respondè-las,serviram
como
pontode
partidaos
contrastes temporais .relevados pelouso dos
diversos
tempos
verbaisem
sentenças do
português brasileiro (doravante PB).Nesse
sentido, constatou-seque
falarde
uma
sintaxe temporal envolvefenômenos
relacionados à sintaxe,à semântica
e à morfologiade
uma
flínguaf .Com
relação à interpretação temporal, os estudosem
semânticadefinem
tempo de
formas
variadas:tempo é
um
operador
sentencialdenotando o
tempo
em
que
averdade da
sentença estásendo
avaliada;é
uma
expressão
referencialdenotando
otempo
de
um
evento;é
um
predicado temporal análogoao
verbo.A
proposta aqui seguida
é a
de
Giorgi&
Pianesi (1997),que
tem
eventoscomo
primitivo (cf.também
Parsons
1990).Neste
dominio, ostempos
se
colocam
paraestabelecer relações entre eventos
que
correspondem, às entidades reichenbachianas: e,o
evento “predicador“'; s,o
eventoda
fala. R,o
tempo de
:>€`,,_.,,,._z_.__,,‹ V»-z ¬¬____/_,«
referência, sen/e
de
intermediárionessa
relação.Cada
tempo
é o
resultado obtidopela
composição de
R/E,de
um
lado,e
de
R/S,de
outro,conforme
a revisãoproposta por Hornstein (1993)
da
teoriade Reichenbach
(1947).'
Sintaticamente, a pesquisa
segue
a
teoriada Gramática
gerativa.A
inclusão,
na
Teoria X-barra,de
uma
categoriamáxima,
TP,Tense
Phrase
(Pollock1989), tornou possível investigar
os
reflexosda afixação
morfológicana
estruturafrasal.
Em
termos mais
específioos, utilizandoo arcabouço
teóricodo
Programa
minimalista
(Chomsky
1995),TP
é
divididoem
dois núcleos distintos,onde
os
morfemas
tempo-aspectuaisrecuperam as
relaçõessemânticas
estabelecidas «emcada
tempo
verbal: T1, para a relação R/S; T2, para a -relação E/R. Assim,a
distribuição sintáticado
tempo
recebeu
um
tratamentoque acaba
considerandotambém
sua
interpretação. `A
pesquisa, -então, se estruturada
seguinte maneira:no
primeiro capítulo,estão expostos
os
referenciais teóricos,semântico
e
sintático, utilizadosno
trabalho.No
segundo
capítulo,encontram-se os
fenômenos
interpretativossurgidos
da
atribuiçãode
estruturas semânticas reichenbachianasaos
«nossostempos
verbais(em
particular, o pretérito perfeitoe o
presente simples)e
da
comparaçãodo
PB com
outras línguasromânicas e
germânicas.O
tratamentosemântico destes
fenômenos
é
explorado nestemesmo
capitulo.No
capítulo 3, busca-se capturarem
nivel sintático as propriedadesformulação
de
Giorgi&
Pianesi (1997), são, então, sugeridas derivações parasentenças
do
PB
com
predicadosem
.diversostempos
verbais.Finalmente,
o
quarto capítulotem
por objetivo compatibilizar algunsfenômenos
referentesà modificação
adverbial (detempo)
com
a análisesemântica
e sintática anteriormente realizada.Nesta
integração,são
fundamentais
as obrasde
Hornstein (1993)e de
Thompson
(1996).Acreditamos, pois,
que
a primeiraquestão
-
té possível falarde
.uma“sintaxe”
de tempo?
-
pode
receberuma
resposta afirmativa pelos resultadosobtidos
no
final desta investigação.Com
relação àsegunda
questão
(oque
se
pode
exigirde
uma
sintaxe temporal?),a
expectativa éde que
estapesquisa
aponte e
explique algunsfenômenos
temporaisdo
PB
(os aspectuaisacabam
envolvidos), 'observando a interpretação temporal
e a presença de marcas
formais(morfológicas
e
sintáticas).São
estasas
exigências aserem
satisfeitas poruma
investigação
dessa envergaduraie
que
seespera
tenham
sidomodestamente
cumpridas. _
'
Vale
lembrarque
a discussão teóricado
primeiro capítuloe
as partesiniciais
do
segundo
e
terceiro capítulo se inspiram diretamentena
obrade
Giorgi&
Pianesi (1997), respeitandosua
estrutura argumentativae sua
exemplificação.Os
motivos para tal atitude sedevem
não
só
àcomplexidade
do
assuntoe
àconseqüente
dificuldadede
formulação independente,mas
igualmenteao
fatode
que
estes autorestambém
se inspiramem
argumentações
já clássicas,como
ade Enç
(1986; 1-987).Além
disso, muitas vezes,foram
inseridosexemplos e
comentários
nossos e
de
outros autores paraum
melhor
entendimentodo que
estava entãoem
discussão.1.1
O
tratamentosemântico
Para
proporuma
análisedos
fenômenos
relacionadosaos
sistemastempo-
aspectuais
das
línguashumanas,
vamos
reverduas
abordagens'semânticas
disponíveis
na
literatura especializada: a lógicae
a referencial.1.1.1
A
abordagem
lógica (clássica)A
abordagem
lógica trataos
tempos
como
operadores
sentenciais (cf. Prior1967;
Montague
1974; citados por Giorgi&
Pianesi 1997: 17)que
se aplicariama
formas
básicasou
atemporaisde
uma
sentença
para produziruma
sentença.O
resultado
é
a alteraçaodo
tempo de
avaliaçãode
uma
sentença
para opassado
ou
o futuro1 1(1) a.
John
saw
Mary
/oJoão
viu a Maria/ b.P[see
(John, Mary)](2) a.
John
willsee
Mary
/oJoão
vai ver a Maria/ b. F[see (John, Mary)]Nos
casos
em
(1)e
(2),o
tempo
de
avaliação coincidecom
o
tempo da
enunciação
eos operadores
P
(passado) eF
(futuro)requerem
a existênciade
1
Os
exemplos deste capítulo são de Giorgi&
Pianesi (1997), salvo quando indicado eem
exemplos
em
PB. '~› .
um
tempo
para a proposição onde' se apiicamsuas
condiçõesde
verdade.Um
modeio
utiiizadonesse
tratamento iógicoé
uma
“tríade”M
= (T, <, V),onde
T
é
um
conjuntode
momentos
de
tempo, < éuma
relaçäo binária antesque
aplicada-I' H
ao
conjunto 1,V
éuma
funçao
interpretativaque
atribuium
valorde
verdade
V
¡(¢)para
cada
fórmuia proposicional ‹|› e paraum
momento
t e T.As
condiçõesde
verdade
relevantes para osoperadores
P
e F sao
dadas
em
(3a)e
(3b),respectivamente:
(3) a.
V
W
(P¢) = 1sse
existe t', t'<te
V
Mm
(¢) = 1b.
V
W
(F¢) = 1 sse existe t”, t<t'e
V
M, f (¢) = 1P¢
é
verdadeiraem um
tempo
tcom
respeitoa
um
modelo
M'sse
existeum
tempo
t'
que
é
anteriorem
relação at, tal
que
‹)› é verdadeiraem
t'com
respeito aM.
iguaimente,
F¢ é
verdadeiraem um
tempo
tcom
respeitoao
modelo
M
sse existeum
tempo
t' posteriorem
retação a ttaique
¢é
verdadeiraem
t'com
respeito a M.Apiicando (3)
a
(1) e (2), temos:'
(4) a.
V
M,z(P('Johnsee
Mary')) = 1 sse existe t', t' <te
V
M1-('Johnsee
Mary') = 1 b.V
M_z(F('Johnsee
Mary')) = 1 sse existe 1", t < t'e
V
M,¢-('John see Mary') = 1Por (4a),
John
saw
Mary
é
verdadeiraem
um
tempo
tsse
existeum
tempo
t'que
precede o
tempo da
enunciação
e a proposição atemporalp
= 'Johnsee
Mary'é
verdadeira
em
t'.Em
(4b), porsua
vez,John
willsee
Mary
é verdadeiraquando
Essa abordagem
é
descartada por autorescomo
Giorgi&
Pianesi (1997)que retomam
as críticas feitas porEnç
(1986) eas
derivadasdas observações
de
Kamp
(1968).Em
primeiro lugar, setempos
são
operadores, entãodevem
exibirpropriedades
de escopo semelhantes
a
de
outrosoperadores
e expressões
quantificadas,
como
DPs. Seria esperado, portanto, interaçõesde
escopo.No
entanto,
consideremos
(5) esuas duas
leiturasnas formas
lógicas,em
(6),que
dependem
do escopo
relativodo
NP
sujeitoe
do
tempo
(adaptadode
Enç
1986:407): ~
(5) All rich
men
were
sad
children/Todos os
homens
ricosforam
crianças tristes/(6) a.
Vx
(rich-man (x) -›P
(sad-child (x)))b.
P
(Vx (rich-man (x) -› sad-child (x)))Observamos
que,em
(6a), oNP
sujeito está forado escopo
do
operador
de
tempo
passado.Nesta
leitura, a proposiçãoé
verdadeira sse todo aqueleque
é
um homem
ricoagora
foiuma
criança tristenum
tempo
passado. Esse,entretanto,
não
é
o significadode
(5)porque
em
(6a)são
consideradossomente
os
homens
ricosdo
presente ea
interpretaçãode
(5) incluitambém
oshomens
ricos
do
passado.Na
fórmulaem
(6b),com
ooperador
P
com
escopo
sobreo
NP
sujeito, a proposição é verdadeira sse existeum
tempo
no passado
quando
todo aqueleque
foium
homem
rico naqueletempo
foiao
mesmo
tempo
uma
criançatriste.
Note
que
asentença
em
(5)nunca
será verdadeira nesta leitura,uma
vez
que
seria necessárioque
os indivíduosfossem
homens
ricose
crianças tristesao
Um
outroproblema
éque
operadores
temporais introduzidos pormorfologia verbal
não são
suficientes para explicar alguns fatos interpretativos.Compare
(7a) e o significadoque
lhe seria atribuído pelaabordagem
dos
operadores
em
(7b)t-(exemplo
(13)de
Enç
1986: 409):(7) a.
Every
fugitive isnow
in jail/Todo
(cada) fugitivo estáagora na
prisão/b.
Todo
(cada)X
que
é agora
um
fugitivo está atualmentena
prisãoO
significadoem
(Tb)é
claramente contraditório.A
sentença
em
(7a), contudo,é
uma
asserção
sobre fugitivosdo
passado que
estãona
cadeiano
presente.Suas
condições
de
verdade
corretas estãoem
(8):›\
(8) \-/×
«P
(fugitive (×))) _› in-jan (×))Para
obter (8),deve-se
assumirque
o operadorP
é
instanciado peloDP
sujeito,uma
vez
que
otempo
verbalde
(7a)é
o presente eP
não
pode, portanto, serinstanciado pelo verbo.
Também
o escopo
do
operador
não
deveria incluiro
predicado,
mas
ser restritoao
sujeito. Entretanto,operadores
temporaissão
normalmente
introduzidos pormorfemas
temporais ligadosaos
verbose
têm
o
predicado
em
seu
escopo.Em
(7a)não
existeesse
morfema de tempo passado
-
isto é,não
existe evidência morfossintáticade
sua presença e
não
existeum
modo
para restringirseu
escopo ao
DP.Na
verdade,um
operador
associadoao
(9)
VX
(P (fugitive (X) -› in-jail (x)))Mas, seguindo
aforma
em
(9), a proposiçãoem
(Ta) é verdadeira sse todoaquele
que
foium
fugitivono passado
está nestemesmo
tempo
na
cadeia.Essa
leituranão
está correta e,conseqüentemente,
a hipótesede que
DPs
introduzemoperadores
temporaisnão
faz previsões corretas.Mesmo
porque, seDPs
introduzemoperadores
temporais,poderíamos
zz
investigar
as
relaçoesde
escopo
entre doisDPS, cada
um
carregando
sua
interpretação temporal própria (já
que
têm seu
própriooperador
temporal).Nessa
visão,
quando
um DP
éc-comandado
por outro, espera-seque
sua
interpretaçãotemporal
dependa da
interpretação temporal deste outro(baseado no
ex. (8)de
Enç
1986: 408):(10)
Every
journalist willhave accused a
president/Cada
jornalista teráacusado
um
presidente/Imagine
que
(10)é
proferidano
seguinte contexto: as jornalistassão
Mónica, Pat e Reggire. Clintoné
presidenteagora
e ele terácomo
sucessor
Bush.Reggie
acusou
Reagan
enquanto
ele era presidente. Pat vai acusarBush
amanhã
quando
ele será presidente.Mónica acusou
Clinton ontem.Em
março de
2001
será verdadeiro
que
cada
jornalistaacusou
um
presidente e, portanto,é
verdadeiro
agora
que
cada
jornalista teráacusado
um
presidente. Considere-se então quais leiturassão
permitidas para (10)sob
a perspectiva clássica.E
umg
cada
jornalista tenhaescopo
iargo sobreos
tempos.As opções
são, pois,as
trêsespecificadas
em
(11):(11) a. \r'xíjornalista(x) -›
FP
Ely[presidente(y)&
acusar(x, y)]] b. Vx[jornaiista(x) -› Ely[presidente(y)&
FP
acusar(x, y)]]c. Vx[¡ornalista(x) -› F3y[presiden`te(y)
&
P
acusar(x, y)]]Em
(11a),o
NP
objeto está dentrodo escopo dos
doistempos
e a sentença seriafalsa
sob
tal ieitura, poisno
tempo
em
que
Mônica acusa
Clinton ele jánão é mais
o
presidente.Em
(11b), oNP
objetotem escopo
largo sobreambos
ostempos
e asentença
seria falsa nesta leituraporque
Bush
e
Reagan
não são
presidentesagora.
Em
(11c),0
objetotem
escopo
estreitocom
relaçãoao
tempo
futuro,mas
tem escopo
largo sobreo
passado.A
sentença
seria falsa sobre esta-leitura,porque
ela tratade
presidentes futurose
Reagan
não
seráum
presidenteno
futuro.
Todas
as leituras disponíveissao
falsas,embora
seja verdadeiroque cada
jornalista terá
acusado
um
presidente. Portanto, a expectativade
que
operadores
temporais introduzidos por
DPS
exibam as
propriedades normaisde escopo
sobreexpressões
quantificadasnão
produz
resultados satisfatórios.A
abordagem de tempo
como
operador
também
mostra resultadosinsatisfatórios para a anáiise
da
interação entreos
tempos
em
sentenças
complexas
(cf. .discussãode
Kamp
1968, citado por Giorgi&
Pianesi 1997: 34,nota 28). Considere as
sentenças
em
(12)e
aforma
lógicaem
(13):(12) a.
A
childwas
born vifnowould be
kingb.
A
childwas
bornwho
willbe
king/nasceu
uma
criançaque
vai ser rei/(13) P(Elx (chiid'(x)
&
born(x)&
F (king(x))))(13) representa (12a), pois (13) é verdadeira
sse
existeum
tempo passado
tem
que
uma
criançanasceu e
existeum
tempo
futurocom
respeitoa
tquando
é
verdade
que
a criança é rei. Já asentença
em
(12b),com
futuro simplesna
oração
relativa,não tem
suas
condiçõesde
verdade expressas
por (13),dado que
(12b) requer
que
o
tempo
em
que
a criançaé
dita ser rei seja futurocom
respeitoao
tempo de
enunciação
agora.Uma
alternativa seriapensar
o
operadorF
como
tendo
escopo
sobre o operadorP da
matriz:/
(14)
FP
(ax (¢h¡iô(×)a
b<›m(×) az k¡ng(×)))Mas
(14)não
é
uma
boa
representação para (12b), poisa forma
lógicaem
(14)requer
um
tempo
futuro t eum
ternpo t”,sendo
tt < t, talque
bom(x) e
king(x)sejam
ambos
verdadeirosem
t'.Em
(12b),é
necessárioque
os
doistempos
sejam
avaliadosindependentemente
com
relaçãoao tempo da
enunciaçãoz.Cabe
aindauma
últimaobservação
sobrea
combinação
dos operadores
básicos F
e
P
paraobtenção
de
operadores complexos na
abordagem de tempo
como
operador.Conforme
Giorgi &l Pianesi (1997: 21),de
um
lado,em
línguascomo
inglês, por exemplo, existemtempos que
podem
ser analisados através2
Em
nota(cf. p. 34, nota 28), Giorgi
&
Pianesi (1997) lembram que a abordagem lógica poderia,todavia, dar conta de sentenças
como
(12b) através da introdução deum
outro operador, N, queforça a oração relativa a ser avaliada
com
respeito ao tempo de enunciação (cf.Kamp
1968).A
fomta lógica de (12b) seria (i):
dessa abordagem,
como
o mais-que-perfeito eo
futuro perfeito.Por
outro lado, existerntempos compostos que não
podem
ser descritos atravésdesse
tratamento,
ou
que não
se distinguemde
outrostempos
pelacomposição
de
operadores,
como
acontece
com
o Present perfect eo
Simple past. - ~Sob
o
pontode
vista teórico~
e estaé
também
uma
das observações
de
Hornstein
1993
-,não
há
nada que
previnauma
composição
ilimitadade
operadores,
mesmo
que
nenhuma
destascombinações
se verifiqueem
qualquer língua. Talcomposição
ilimitada seria restritasomente
por condiçõesad
hoc,o
que não
explicaria porque
existeum
número
limitadode
tempos
nas
línguashumanas.
1.1.2
A
abordagem
referencialDescartada a
abordagem
lógica,podemos
analisar aabordagem
referencial,
assim
chamada
por consideraros
tempos
como
expressões
relacionaisque
codificarn diretamenteas
relações entre entidades temporais.Nesse
sistema,o
inventáriode
tempos
'possíveisé
obtido atravésda
interaçãoentre a natureza e
o funcionamento das
entidades temporais relevantese
asua
realização morfossintática.
Um
argumento
em
favordessa
abordagem
éa
análisede
anáforas temporais (cf.Kamp
&
Reyle 1993; Partee 1984; citados por Giorgi&
Pianesi1997:22y
(15) a.
John
left the room.He was
furious. .b.
John
said tnat Niarywas
pregnant.lo
João
disseque
a Maria estava grávida/Em
(15a), asegunda
sentença é
entendidacomo
ocorrendo no
mesmo
tempo da
primeira. 'Nasentença
em
(15b), por outro lado, a gravidezde
Mariapode
serentendida
como
ocorrendo no
mesmo
tempo do
dizerde
João,ou
como
sendo
um
evento
anterior. Portanto,em
(15a)e
(15b)podemos
dizerque
o
tempo da
segunda
sentença é dependente
do tempo
de
outra sentença,a
precedenteou a
matriz.
Esse fenômeno
lembra ocomportamento dos
pronomes
(Partee 1973;citada por Giorgi
&
Pianesi 1997: 22) esua
explicaçao requerque
entidadescomo
tempos
e
eventos(bem
como
individuos ordinários referentes a objetos espaciais)estejam
estocados
epossam
seracessados
para referência posterior.Entretanto,
tendo
ou
pontos temporaisou
iritervaioscomo
objetosontológicos,
seguindo a argumentação de
Giorgi&
Pianesi (1997: 23),mesmo
teorias referenciais
apresentam
problemas.Consideremos
oproblema
com
pontos temporais
em
uma
sentença
como
John
ran (João correu)e suas
diferentes
formas
lógicascomo
aem
(16a),da abordagem
lógica,e
(16b),da
abordagem
referencial:(tô) â. Prrun
(Jem)
io. sir (run (John, r)
&
té
U)Para a sentença
ser verdadeira,deve
existirum
pontono
tempo
passado
tem
que
a
proposição seja verdadeira.Em
(16), portanto, 'hánecessidade
de
dificuidade
é
exatamente
esta:sob
que
condições run (John) é verdadeiraem
t?John
deve mover
sua perna
esquerda, a direita,ou
ambas?
O
que
acontece
seem
tJohn
estiver entreduas passadas
sucessivas?Uma
solução intuitiva,segundo
os autores, seriatomar
ostempos
como
intervaios, e
a
abordagem
referenciai teriacomo
primitivo semântico 'serverdadeira
em
um
intervaio i".Nesse
caso,a
proposiçãoJohn
ran (João correu)é
verdadeira
sse
existeum
intervaiopassado
i talque
i cobre (oucontém)
exatamente
um
estadode
coisasque
envolveo
correrde
John. Entretanto,em
uma
sentença
como
aem
(17),(17)
John
was
sick/João estava doente/
devemos
suporque
i éum
intervaiopassado
correspondendo à
doença de
John,desde
seu
início atéseu
fim.Seguindo a argumentação
de
Giorgi&
'Pianesi(1997: 24),
o probiema
surgequando
se
tenta acessar o 'vaiorde
verdade
em
intervatos
que
contém
ou
são
contidosem
i.O
predicadoem
(17) é estativo;de
acordo
com
um
pontode
vistaampiamente
aceito (cf. Dovvty 1979; citado porGiorgi
&
Pianesi 1997: 24), proposições cujo predicado principalé
estativotêm
a propriedade taique
serern verdadeirasem um
intervaio i acarretaserem
verdadeiras
em
quaiquer subintervalode
i. Assim,se
i' éum
subintervalode
í, adoença de
John
deve
semanter
também
em
i'.Suponha,
entretanto,um
intervaiojque
contém
i. Então, existeuma
partede
jem
que
John
estádoente
(1)e
outraparte
em
que
eienão
está doente (i') [sic].Quai
é o estatutode
proposiçõescondições de
subintervalonão são
satisfeitasem
j devido a [sic].Por
outro lado,/- -is `~I
`nÍ D”
ão
pode
ser falsaem
j.A
negação,
John
was
not sick,não
é verdadeiraem
j, pois existem subintervaios
em
que
eianão
ê
verdadeira, pelomenos
em uma
interpretação
ingênua
de negação
e sob
aassunção de que
a
negação de
um
predicado estativo
produz
aindaum
estativo. Assim, para (17)não
é possívelatribuir
um
valorde
verdade
em
j.-Lu flã N
(D¬
A
este ponto,precisamos
alguns comentários.Embora
a
argumentação dos
autores seja razoável,não
conseguimos
encontrarum
exemplo
em
que
temporalrnenteum
estadoem um
intervalode
i precise seravaliado
em um
intervalo maior.Em
outras palavras,em
geral,é
o estadoem
seu
perdurar
que
é
avaliadoe
não
o
recortede tempo
maiorque
o
envolve.Além
disso,
há
propostasde
sucesso
na
literaturaque
se
utilizamda noção
de
'intervaloe
que
não
podem
ser descartadas,como,
por exemplo,os
trabalhosde Enç
(1986, 1987),
Parsons
(1990), entre outros. Assim,embora não
estejamosassumindo
anoção de
intervalocomo
um
primitivoem
nosso
trabalho, elanão
será descartada
na
avaliaçaode
algunsfenômenos
referentesàs
interpretaçõesaspectuais
do
tempo
presentee
do
imperfeito (cf.seção
2.4.2)3.1.1.3
Um
tratamentobaseado
em
eventos'Uma
alternativaaos
tratamentos vistos até aquié
considerarque
sentenças
como
aem
(17)envolvem
referencia a eventos, i.e., (17) seriaverdadeira sse existe
no passado
um
estadode doença de
John.Segundo
GiorgiSurpreendentemente, embora Giorgi
&
Pianesi (1997), como reproduzimos anteriormente,desenvolvam argumentação contra a utilização da noção de intervalo, ela será bastante usada por
estes autores na explicação dos fenômenos relativos às leituras habituais e genéricas do tempo
presente (cf. seção 2.4.3 do capítulo 2). 3
&
Pianesi (1997: 25), hipotetizara
existênciade
entidadescomo
eventos e estadosnão
acarretaos
mesmos
problemas
levantados pelasdemais
abordagens.As
condiçõesde verdade
para asproposições
seriam similaresàquelas
de
uma
sentença
existencial normal,como
existeuma
mesa.
Portanto,Giorgi
&
Pianesi (1997)admitem
eventos individuaisem
sua
ontologiade base
de
tal
modo
que
proposiçõessão
avaliadascom
respeitoa
um
mundo
que
incluiambos,
objetose
eventos (estados inciusos), taiscomo
um
correr particularde
João,
o
cornerde
tvtaria etc. _Do_,po¿<1to
de
vista format,vamos
defendercom
os
autoresque
verbostem
um
argumento
para eventosem
suaestrutura predicativo-argumentai-
no
sentidode Davidson
1967;Higginbotnam
1983, 1985, 1989;Parsons
1990
(autoresI\) U1 *gif
citados por Giorgi &-Pianesi 1997:
Urna sentença
como
aem
(18a)tem
a
_i .v
forma
iogica cornoem
/“x _\ OJ U' \,øL... Cl. Il' Ii
(18) ran
8.
aê
(run (âúi-in, e))¬(18a)
é
verdadeira sse existeum
eventoe
(passado)“que
é
o correrde
John; elaenvolve
uma
quant`ifi'cação existenciai sobre eventos individuais,sendo
a variáveteventiva
dada
pelo predicado. _Segundo
Giorgi&
Pianesi (1997), o objetivode
Davidson é
explicaro
fatode que
averdade de
(19a), abaixo, acarreta averdade
de
(19b)baseado
unicamente nas
propriedadesde
suas formas
lógicas:4
Note que nada
em
(18) diz que o evento é passado.Os
autores comentam 0uma
linguagem para formas lógicas
com
variáveis diversas, onde e tem alcance solgifg gyentos.(19) a.
John
buttered the toast slowly/João
amanteigou
a torradavagarosamente/
b.
John
buttered the toast/João
amanteigou
a torrada/Observando
(19),Davidson mostrou
que
o acarretamento entreas
sentenças
é obtido seassumirmos
que:(a) predicados verbais
têm
uma
posição eventiva;(b) (pelo
menos
alguns) adverbiaissão
predicados eventivos; e(c)
um
quantificador existencial ocultoprende
a variável eventiva.Assim, as
sentenças
em
(20a) me (20b)mostram
a seguir asformas
lógicasde
(19a) e (19b), respectivamenteõ:(20) a. Ele (butter (John, the-toast, e)
&
slow
(e))b. Ele (butter (John, the-toast, e))i
Outros estudiosos
têm
fornecidotambém
evidências favoráveis à inclusãode
eventosna forma
lógicade
sentenças.É
o caso de Parsons
(1990)que
analisacontextos
com
verbosde
percepção.O
autor mostraque
este tipode
contextose
caracteriza por ser
uma
sentença envolvendo
um
predicadode
percepção
5
Giorgi
&
Pianesi (1997: nota 36, p. 35) comentam que Davidson construiu seu argumento a partirda teoria de eventos de Reichenbach (1947).
O
ponto de contato entre as duas teorias é que aforma lógica de
uma
sentença como Brutus stabbed Caesar contémum
quantificador existencial.Os
dois autores diferem, entretanto, nomodo
como analisam eventos - para Davidšõn eles sãoseguida por
uma
oração tendo
a estruturade
uma
sentença
simplesem
que
otempo
se
perde.Nos
exemplos
em
(21)-
(traduzidosde Parsons
1990: 15):(21) a. Maria viu Brutus
apunha/ar
César
b. Maria viu
que
Brutusapunhalou
César
vemos
que
em
(21 a) aoração
em
itálico éuma
sentença
simples, exceto pelo fatode
que não
apresenta tempo. Eladeve
sercomparada
a (21b), cujoconteúdo se
encontra
em um
contexto opaco.Se César
éo
imperador, então (21a) acarretaque
Maria viu oesfaqueamento do imperador
por Brutus,mas
(21b)não
acarretaque
Maria viu oesfaqueamento
do
imperador; nesta última,pode
sero caso
que
Mariatenha
tidoapenas
evidências indiretasdo
acontecimento,como
verCésar
caídoe
Brutussegurando
o punhalao
ladodo
corpo. Ditode
outromodo,
(21a)acarreta 'Brutus
apunnalou
César”,mas
(21 b) não.A
análise proposta porParsons
(1990)pode
explicar este contrastedemonstrando
que
em
(21a) o sujeitopercebe
um
certo evento,um
eventodo
tipodescrito pela
oração
encaixada. Ela teria, assim,uma
forma
lógicacomo
em
(22a),
e
(21 b),uma
forma
lógicacomo
aem
(22b):(22) a. (3e)[Ver(e)
&
Suj(e, Maria)&
(Ele') [Apunhalaf(e')&
Suj(e', Brutus)&
Obj(e', Cesar)
&
Obj(e, e')]]b. (Ele)[Ver(e)
&
Suj(e, Maria)&
(Ele) [Apunhalar(e')&
Suj(e', Brutus)&
Obj(e', Cesar)]]ou
seja,em
(21a), existeum
evento (estado)dever
cujo sujeito é a Mariae
cujoobjeto
é
0 eventode
esfaqueamento
de Cesar
por Brutus.No
caso de
(2tb),temos: existe
um
evento
(estado)de
ver cujo sujeitoé
a Mariae
existeum
evento
de
apunhaiar cujo sujeito é Brutus e cujo objeto é César.Em
outras paiavras,em
(2ia)
0
próprio eventode
esfaquearé o
objetode
ver,enquanto
em
(21b) aproposição
é o
objetos.Como
conclusão,entendemos que
aabordagem
semântica
baseada
em
eventos apresenta
vantagens
em
relaçao àsabordagens
lógica e referencial,resolvendo outras
questões
empíricas, taiscomo
acarretamento entre'proposiçoes
e
contextosde
percepçao.1.1 .4
Propondo
modificações
em
Reichenbach
(1947)Giorgi
&
Pianesi (1997: 26-7)vão
desenvolveruma
teoriabaseada na
hipótese
de que
“ostempos
estabelecem
relações entre eventos.De
acordo
com
essa
proposta, aforma
lógicade
um
tempo contém
termos
que
se referem aeventos particulares,
e
e
s (o eventoda
fala),e
um
termo
introduzindouma
relação
de
precedência temporal entre eles” (a tradução é nossa).Assim,
uma
sentença
simplescomo
a
em
(23a)recebe
a representaçãosemântica
como
em
(23b):(23) a.
John
atean
aple/Joäo
comeu
uma
maçã/
tb. Éleãx (eat (e, John, x)
&
apple (x)&
e
< s)6 Outras evidências lingüísticas sustentam a existência de
um
argumento de evento. Verem
(23b) traz incorporada a
forma
verbalde
passado.No
caso
de
tempos
compostos,
contudo,
é
necessáriaalguma
impiementação, poissomente
atravésde
doispontos
não
poderíamos
distinguiros
tempos
simplesdos
compostos.A
teoria proposta porReichenbach
se baseiaem
três entidades temporaisprimitivas ordenáveis: a primeira, S, refere-se
ao
tempo da
enunciação;a
segunda,
E,denota
otempo do
eventoe é
ticenciada pelo predicadoda
sentença;a
terceira entidade é R, o pontode
referência.A
existênciadesse
terceiro ponto-
proposto porReichenbach
a partirde
.tespersen (1924)-
é justificada peladistinção entre
o
Simple past e 0 Present perfect. Se,em
uma
sentença
como
(24),
(24)
Nowl
have
eatenenough
/Agora
eu
tenho
comido
suficiente/suporrnos
que
R
está presente eque
adverbiaisde
tempo
se
referem a eie,então
podemos
dizerque
a possibilidadede
(24) ser aceitável sedeve
ã representação7E
_
R,S
do
Present perfect; o Simple past, cuja representação éE,R_S,
seriaincompatível
com
o
adverbialnow
(cf. Giorgi&
Pianesi 1997: 35, nota 39).O
modelo
reichenbachianotem
sidoadotado
e
revisto por muitosestudiosos (Hornstein 1993;
Comrie
1976; entre outros);uma
das mais
produtivaspropostas feitas
é
-ade
que
se considereque
a relação entreE
e
S
jamaisse
realize
de
forma
direta,mas
pelamediação
do
ponto R. Estamos, portanto, diantede
duas
reiações:uma,
entreR
e S,que
Giorgi&
Pianesi (1997)denominarão
T1;7 Na
representação de Reichenbach (1947), a virgula indica simultaneidade entre os pontos, o travessão indica precedência temporal do elemento à esquerda.
outra, entre
E
e
R,chamada
T2
pelos autores.As
relações possíveissão as
seguintes (cf. (46)
de
Giorgi&
Pianesi; 1997: 27`)8:(25) T1:
S
__R
futuro T2:E
_
R
perfeitoR
_
S
«passadoR
_
E
prospectivo(S , R) presente (E, R) neutro
Os
autoresassumem,
portanto,que tempos
são composições
de
uma
relaçãodo
tipoT1
com uma
relaçãodo
tipo T2.A
representaçãodo
Present perfect, porexemplo, é
o
resultadoda combinação S,R
com
E__R
que
produz
E_R,S,
enquanto o
'SimpfePast é
o resultadode
R__'S
mais
E,R, produzindoa
representação
E,R_S.
Empiricamente,
esse
tratamento permite explicaros
dados do
Futureperfect,
que
resultariada
combinação de
S_R
eE__R. Comrie
(1985; citado porGiorgi
&
'Pianesi 1997: 28) mostraque
em
inglês (eem
italiano)uma
sentença
como
a
em
(26)é ambigua,
(26)
John
willhave
finished 'his manuscript bytomorrow
`
/João terá terminado
seu
manuscrito até (por)amanhãí
pois
não
'podemos
saber a localização temporal exata entreo
terminardo
manuscrito (E)
e
o
tempo
S.Em
uma
interpretação,pode
serque
John
tenha játerminado
seu
manuscritoquando
asentença
é proferida (S),em
outra, o terminar (E)pode
ser locaiizadocomo
simultâneoa
S;e
em
uma
terceira interpretação,o
8
As
relações de simultaneidade estão entre parênteses porque apresentam
um
estatuto diferenciado na proposta de Giorgi & Pianesi (1997). Ver seção 3.1.1 (3° capituIo)._terminar (E) se localiza
como
futuro àenunciação
(S), qualquermomento
entreS
e
amanhã. Essa
ambigüidade
pode
ser capturada atravésda
representaçãoque
resulta
da
combinação
de T1
eT2
(cf. (48)de
Giorgi&
Pianesi 1997: 28):(27)
sí/¬R
_,/' ,,/,/
/
E
Notar que, por (27),
não
existeum
modo
únicode
ordenaras
três entidadestemporais,
dado que
a relaçãoEÍS
não
é
especificada.Outra
vantagem
dessa
proposta (cf.em
Comrie 1985 e
em
Hornstein 1990)é
que
eia limita onúmero
de
tempos
morfológicos existentes.Sem
a
modificação,a
expectativa éde que
paracada
possivel posiçãode
E
existauma
realizaçãomorfológica diversa.
Por fim,
como
o sistema ébaseado
sobre três objetos primitivosmais as
relações binárias -que o limitam, ele
pode
ser facilmente adquirido, satisfazendoassim
um
importante requisito para qualquer teoria temporal.Em
(28), abaixo,segue
o inventáriode
tempos,baseado
em
Hornstein (1990: 117),com
o
acréscimo
de
um
“futuro distante”de
Giorgi&
Pianesi (1997: 29, ex. (49)):(28) present: (S, R) - (R, E) = S, R,
E
past:(R_S)
* (E, R) = E,R_S
future:
(S_R)
- (R, E) =S_R,
E
present perfect: (S, R) -
(E_R)
=E_S,
R
future perfect:(S_R)
-(E_R)
pastperfect:
(R_S)
-(E_R)
=E_R_S
future in past:
(R_S)
-(R_E)
proximate future: (S, R) --r (R__E) = S, iR_E distant-future:
(S_R)
-(R_E)
=S_R_E
No
inventárioem
(28), as estruturas temporaisque aparecem
após
o sinaide
iguaidade
são
aexpressão dos casos
em
que
a reiação entreE
e
S
pode
serinferida
sem
amb“ig'üidade.Para
motivar a propostade
divisãoem
Tie
T2, Giorgi&
Pianesi (1997: 29)hipotetizam
uma
distinção categoriai entreos
dois,dado que
osmortemas que
reaiizam
cada
uma
dessas
reiaçõestem conteúdo
(traços temporaisou
traços-1)e
comportamento
morfossintático diferentes (ver cap. 3,seção
3.1.1).T1
e
T2
são, pois, categorias iexicais distintas
que
atribuem,sob
regência,uma
T-roíe(funçäo~T) a posições
de
eventona
grade
temáticado
verbo.Gs
autoresestabeiecem
entãoum
T-critério (trad. iivrede
Giorgi&
Pianesi 1997: 29):(29) T-critério:
cada função-T
deve
serunicamente
atribuídaa
uma
posiçãode
evento,e
cada
posiçãode
eventodeve
receberno
máximo
uma
função-T.Semeihante ã
(função-9,uma
função-Té
um
instrumento formatque
permite a identificação
do
argumento
"eventivo”do
verbo,ou
de
modo
geraide
um
predicado,com
um
lugar argumentai vaziona
grade-T
do
predicado temporai,morfoiogico,
segundo
os autores, (29) fazuma
generaíizaçäo correta,uma
vez
que
no
máximo
um
morfema
temporalaparece
em
cada
verbo.Para
concluiressa
partededicada
ao
tratamento semântico,podemos
sintetizar
o
que
foi expostoda
seguinte forma:a) os vários
tempos
são
resultadosda composição da
relação entre T1e
T2; -
b) a
semântica de formas
verbais simples resuitade
uma
reiaçâo entreum
evento identificado peto predicado, e, e o
tempo da
fala, s. Estes últimoscorrespondem
às entidades reichenbachianasE
e S;c)
no
que
se refereao
ponto R, esteé
inseridocomo
implementador
do
sistema temporat.
Senão
vejamos: T1 eT2
Iegitimamuma
reiação entreas
'variáveis eventivase
e
s; a variável correspondente aR
é
aconexão
entrea
variávei
do
evento e o contexto.Quando
o
contexto reievanteé
extra.-sentenciai, atigação
se
estabelececom
o eventoda
fala;quando
é intra-sentencial,R
é~
determinado
(fornecido) peiaoraçao
em
posição superiorna
estruturaou
porum
auxiliar.
1.2
O
tratamento stntáticoO
tratamento sintético utilizado para o sistema temporai sefundamenta nos
pressupostos teóricos
da Gramática
Gerativa,em
particular odo
Programa
Minimaiista
-
PM
(Chomsky
1995).lniciaimente,
expõem-se algumas
propostas pertencentesao quadro
'~< .zzs-.w zm*
Y
delineado por Lectures