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Perceções sobre o regime legal das drogas e influências normativas nos consumos de drogas

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Academic year: 2021

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i Universidade do Porto

Faculdade de Direito

Helena de Fátima Ferreira Antunes

Perceções sobre o regime legal das drogas e Influências normativas nos consumos de drogas

Mestrado em Criminologia

Trabalho realizado sob a orientação do Professor Doutor Jorge Quintas

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ii

Agradecimentos

Ao Professor Doutor Jorge Quintas, pela orientação científica desta Dissertação, pelo incentivo constante e por acreditar no meu trabalho.

À instituição “Projeto Homem” de Braga, na pessoa da Dr.ª Virgínia Freitas, presidente da instituição, pela autorização concedida para a realização de entrevistas aos toxicodependentes. Aos Terapeutas da fase de Reinserção Social pela forma acolhedora e disponível como me receberam; aos utentes da Reinserção Social, em especial aqueles que colaboram com os seus relatos através das entrevistas.

Aos não consumidores de drogas ilícitas que também colaboraram com os seus relatos para esta investigação, ao se disponibilizarem para a realização das entrevistas.

À Professora Felisbela Freitas pela preciosa ajuda nesta Dissertação. Aos meus pais, sobretudo à minha mãe pelo apoio incondicional.

Ao meu avô Armindo que, embora já não presente fisicamente, continua a ser uma referência para mim.

Aos meus amigos mais próximos, por estarem sempre presentes na minha vida e pelo apoio constante.

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iii Título: Perceções sobre o regime legal das drogas e Influências normativas nos consumos de drogas

Resumo

Pelo presente estudo procuramos compreender, de forma aprofundada e com detalhe, as perceções sobre o regime legal das drogas e as influências normativas nos consumos de drogas, através de dois grupos contrastantes – um grupo de consumidores toxicodependentes e um grupo de não consumidores de drogas ilícitas – utilizando, para tal, metodologias de índole qualitativo. Os dados foram recolhidos através de entrevistas semiestruturadas realizadas a 16 indivíduos (8 indivíduos de cada grupo).

Os resultados indicam que os dois grupos contrastantes apresentam-se, genericamente, favoráveis à interdição do consumo de drogas, sendo que o grupo de toxicodependentes considera que o consumo deve ser classificado com um regime de contra ordenação, ao invés do grupo de não consumidores que são favoráveis ao consumo como um crime. Os dois grupos percebem como legítima, mas como ineficaz a interdição do consumo de drogas. O grupo de toxicodependentes considera injusto que o consumidor de drogas seja sancionado pelo ato de consumo, ao contrário do grupo de não consumidores que perceciona como justo o sancionamento para delitos de consumo. Os participantes de ambos os grupos têm conhecimento de que a lei do consumo de drogas em Portugal interdita o consumo. Os toxicodependentes tendem a considerar que vigora um regime de contra ordenação, enquanto os não consumidores revelam desconhecimento do regime em vigor.

No que respeita às influências dissuasivas, a ameaça da sanção não é relevante para uma parte dos não consumidores. Justificam-se pela lei atual, provavelmente por ser menos punitiva, e pela necessidade/dependência da substância. A variável ameaça da sanção é sentida pelos toxicodependentes, contudo, não modifica os seus consumos diretamente, apenas os leva à utilização de estratégias de consumo que lhes permita evitar a possibilidade de deteção policial. A experiência da deteção nos consumidores é escassa e, também, não levou a modificação nos consumos. A experiência vicariante de punição é mais evidente no grupo dos toxicodependentes, mas a estimativa do risco de ser detetado também não teve importância nas suas decisões de consumo.

Os participantes apresentam uma avaliação moral negativa do ato de consumo de drogas, assumindo um certo sentimento de culpa pelos consumos. Há também a perceção de que, a sociedade em geral, condena comportamentos de consumo de drogas. Acresce que os

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iv controlos informais exercidos pela família e/ou pelo grupo de pares e a própria ameaça de sanções informais também não exercem influência direta nos consumos, na medida em que, no caso dos toxicodependentes, estes utilizam estratégias de evitamento da possibilidade de deteção familiar. Estas normas pessoais e sociais não exerceram um efeito eficaz de regulação dos consumos no grupo de toxicodependentes porque, mais uma vez, a necessidade de consumo das substâncias se sobrepõe. Estes resultados mostram, assim, a irrelevância das influências dissuasivas e normativas em detrimento de fatores motivacionais de determinação dos consumos de drogas.

Palavras-chave: consumo de drogas; lei do consumo de drogas; dissuasão; ameaça da sanção; experiência de deteção; avaliação moral; controlos sociais informais.

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v Title: Perceptions about the legal framework of drugs and normative influences in drug use

Abstract

Throughout this study we seek to understand, in depth and detail, the perceptions about the legal framework of drugs and normative influences in the use of drugs, through two contrasting groups - a group of drug addicts and a group of non-consumers of illicit drugs - using for that effect, qualitative methodologies. Data was collected through semi-structured interviews to 16 subjects (8 subjects of each group).

The results indicate that the two contrasting groups present themselves, generally favourable to the interdiction of drug use, and the drug addicts group believes that drug use should be classified within a legal framework of infringement, opposing to the group of non-consumers that are favourable to the consumption as a crime. Both groups recognize as legitimate, but also as ineffective the prohibition of drug use. The drug addicts group considers unfair that the drug user is sanctioned by the act of consumption, unlike the group of non-consumers that considers as fair sanctioning for drug use. The participants of both groups are aware of the drug law consumption in Portugal and the prohibition of drug use. Drug users tend to consider a legal framework of infringement, while non-consumers do not know the legal framework in force.

Regarding dissuasive influences, the threat of sanctions is not relevant to a part of non-consumers. They are justified by current law, probably because it is less punitive, and by the need of/dependency on drugs. The variable threat of sanction is felt by drug addicts, however, it does not alter directly their consumption habits, it only leads to the use of consumption strategies that allow them to avoid the possibility of police detection. The experience of detection on drug users is scarce, and also did not lead to changes in consumption habits. The experience of vicarious punishment is more evident in the group of drug addicts, but the estimate of the risk of being detected was not relevant for their consumption decisions.

Participants present a negative moral evaluation of the act of drug use, assuming a certain sense of guilt for drug consumption. There is also the perception that, society in general, condemns drug use behaviours. Moreover, the informal controls exercised by family and/or peer group and the very threat of informal sanctions do not exert direct influence on consumption habits, to the extent that, in the case of drug addicts, they use avoidance strategies of the possibility of family detection. These personal and social standards did not

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vi exert an effective effect on consumption adjustment in the group of drug addicts because, again, the need to use drugs overlapped. Thus, these results show the irrelevance of dissuasive and normative influences to the detriment of motivational factors for determining the consumption of drugs.

Keywords: drugs use; drug law; deterrence; threat of sanction; detection experience; moral evaluation; informal social controls.

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vii

Índice de matérias

Agradecimentos ... ii

Resumo ... iii

Abstract ... v

Índice de matérias ... vii

Lista de Abreviaturas... x

Lista de tabelas ... xi

Introdução ... 1

PARTE A – ENQUADRAMENTO TEÓRICO ... 4

Capítulo I - Regime legal das drogas ... 4

1. Regimes de regulação das drogas ... 4

2. Comparação de regimes – os estudos agregados ... 8

3. Lei do consumo de drogas – em particular a descriminalização portuguesa ... 12

Capítulo II - Normas e Dissuasão ... 13

1. Normas e Desvio ... 13

2. Controlo Social ... 16

2.1 Controlo Social Formal ... 19

2.1.1- Dissuasão ... 19

2.1.1.1 – A Dissuasão Clássica ... 19

2.1.1.2 A dissuasão geral e a dissuasão específica ... 21

2.1.2 Normas e Sanções legais ... 23

2.2 Controlo Social Informal ... 26

2.2.1 Normas e Sanções Sociais ... 26

2.2.2 Normas Internalizadas ... 28

3. Estudos empíricos sobre Normas e Dissuasão ... 29

3.1 Estudos de Dissuasão Percetual ... 29

PARTE B – ESTUDO EMPÍRICO ... 33

Capítulo III – Metodologia ... 34

1. Descrição e Fundamentação da Metodologia ... 34

2. Desenho de Investigação ... 35

(8)

viii

3.1 Participantes ... 38

4. Instrumentos ... 40

5. Procedimentos ... 42

6. Análise dos dados ... 43

Capítulo IV – Resultados ... 45

1. Perceções sobre o regime legal das drogas ... 46

1.1 Perceção sobre o regime legal do consumo de drogas ... 46

1.1.1 A interdição do consumo de drogas ... 47

1.1.2 A não interdição do consumo de drogas ... 50

1.1.3 A interdição de algumas substâncias ... 51

1.2 Eficácia e legitimidade da lei e legitimidade do sancionamento... 53

1.2.1 A ineficácia da interdição do consumo de drogas ... 55

1.2.2 A legitimidade da interdição do consumo de drogas ... 56

1.2.3 A dúvida quanto à legitimidade da sanção ... 57

1.2.4 A intervenção das instâncias formais de controlo ... 59

1.2.4.1 Atuação das autoridades policiais ... 59

1.2.4.2 Sancionamento dos delitos de consumo ... 60

2. Atual regime legal do consumo de drogas ... 61

2.1 Conhecimento da Lei do consumo de drogas ... 61

2.2 Opinião sobre a lei portuguesa da descriminalização ... 63

2.2.1 Opinião sobre o regime da descriminalização do consumo de drogas ... 64

2.2.2 Influência da atual lei nos consumos e no número de consumidores dependentes . 68 3. Dissuasão ... 69

3.1 Influência da ameaça da sanção ... 69

3.1.1 Influência da ameaça da sanção nas decisões de consumo ... 70

3.1.2 Influência da ameaça da sanção na carreira dos consumidores... 74

3.2 Experiência de deteção e sanção ... 76

3.3 Experiência vicariante de deteção e sanção ... 80

3.4 Consequências informais da sanção ... 83

4. Normas Internalizadas ... 85

5. Normas sociais/Sanções informais ... 90

5.1 Relação com as pessoas próximas ... 90

5.2 Relação com a família ... 93

5.3 Relação com o grupo de pares ... 95

Capítulo V – Discussão dos Resultados ... 96

(9)

ix

1. Conclusões ... 106

2. Limitações do Estudo ... 112

3. Pistas para Investigações Futuras ... 113

BIBLIOGRAFIA ... 115

LEGISLAÇÃO ... 118

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x

Lista de Abreviaturas

CAT – Centro de Atendimento a Toxicodependentes CDT – Comissão para a Dissuasão da Toxicodependência CEN - Cannabis Expiation Notice

CNU88 - Convenção das Nações Unidas contra o tráfico (1988) CSP71 – Convenção de 1971 sobre as Substâncias Psicotrópicas CUE61 – Convenção Única sobre os Estupefacientes de 1961

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xi

Lista de tabelas

Tabela 1: Caracterização sociodemográfica da amostra Tabela 2: Perceções sobre o regime legal das drogas

Tabela 3: Perceções sobre a eficácia e legitimidade da interdição, sobre a legitimidade da sanção, sobre a atuação das autoridades policiais e sobre o sancionamento dos delitos de consumo

Tabela 4: Conhecimento da lei do consumo de drogas

Tabela 5: Opinião sobre a lei portuguesa da descriminalização do consumo de drogas Tabela 6: Perceção da ameaça da sanção e sua influência nas decisões de consumo Tabela 7: Influência da ameaça da sanção na carreira de consumos

Tabela 8: Experiência com deteção e sanção

Tabela 9: Experiência vicariante de deteção e sanção

Tabela 10: Existência de consequências informais da sanção

Tabela11: Avaliação moral de comportamentos de consumo de drogas Tabela 12: Opinião das pessoas próximas sobre consumos de drogas Tabela 13: Ameaça da sanção informal na carreira de consumos

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1

Introdução

O presente trabalho de investigação inscreve-se na Dissertação do Mestrado em Criminologia e tem como objetivo central analisar: as Perceções sobre o regime legal das drogas e as Influências normativas nos consumos de drogas. Este estudo de investigação tem a finalidade de, através dele, compreendermos e explicarmos as perceções sobre o regime legal das drogas em Portugal, assim como a influência da dissuasão e das normas nos consumos de drogas, a partir de dois grupos diferenciados – um grupo de consumidores toxicodependentes e um grupo de não consumidores de drogas ilícitas - selecionados de forma intencional. O motivo que justifica a escolha desta área temática prende-se com a sua pertinência científica no âmbito da Criminologia, e tem a relevância de explorar este fenómeno a partir de uma metodologia de cariz qualitativo ainda não usada nesta temática das influências normativas nos consumos de drogas. Visamos, assim, obter uma compreensão profunda do objeto de estudo.

As temáticas suprarreferidas transformam-se em questões de partida/investigação que demonstram significativa pertinência na procura de resposta: 1 – Que perceções os

consumidores toxicodependentes e não consumidores de drogas ilícitas têm acerca do regime legal português que regulamenta o consumo de drogas? 2- Que influências exercem as normas legais, sociais e internalizadas nos consumos de drogas?

Com este estudo pretendemos verificar empiricamente o seguinte: por um lado, compreender e analisar as perceções que os indivíduos têm acerca do regime legal das drogas e do conhecimento sobre o regime de descriminalização em vigor; por outro lado, a influência que as normas e sanções legais têm sobre comportamentos de consumo de drogas, isto é, a importância normativa do interdito legal no que respeita aos consumos de drogas, nomeadamente a importância dissuasiva dos mecanismos sancionatórios aos consumidores de substâncias ilícitas; assim como, a influência que as normas internalizadas e as normas/sanções sociais têm sobre esses mesmos consumos.

O presente trabalho de investigação1 encontra-se dividido em duas partes essenciais: a Parte A destinada ao enquadramento teórico; e a Parte B que integra o nosso estudo empírico. A Parte A, que incide na apresentação e explicitação dos quadros teóricos envolventes, integra dois capítulos, sendo que o primeiro incide sobre o regime legal das drogas e o segundo

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De salientar que as traduções das citações em língua estrangeira, ao longo de toda esta Dissertação, são da responsabilidade da autora deste trabalho.

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2 destinado às normas e à dissuasão. A Parte B integra o terceiro capítulo onde apresentamos a metodologia, o capítulo quarto que respeita aos resultados e o capítulo quinto onde consta a discussão dos resultados. As considerações finais integram algumas conclusões do estudo, assim como as suas limitações, sem esquecer a apresentação de pistas para investigações futuras. Passamos, então, a uma explicitação sucinta de cada uma das partes.

O primeiro capítulo consiste na apresentação das Convenções Internacionais que interditam o consumo de drogas, assim como dá conta dos diferentes regimes de regulação do consumo/uso de drogas, segundo alguns autores. De seguida, procedemos a uma comparação de regimes, através da apresentação de estudos agregados levados a cabo por diversos investigadores: autores que compararam diferentes áreas geográficas, relacionando as variações nas taxas de consumo e nos níveis de sancionamento; e autores que avaliaram o impacto de uma determinada modificação legislativa ou forma de aplicação das leis nos comportamentos. Por fim, apresentamos a modificação legislativa operada em Portugal, com a introdução da lei da descriminalização em 2001.

O segundo capítulo, por seu turno, apresenta, de forma explícita, os quadros teóricos nos quais se inscrevem as normas e a dissuasão. Deste modo, começamos por delimitar os conceitos de “norma”, “desvio” e “controlo social” (formal e informal). De seguida, são apresentadas e explicadas as teorias da dissuasão, começando por focar a dissuasão clássica de Beccaria e Bentham, com a apresentação das suas variáveis (certeza, severidade, celeridade), sem descurar as críticas que têm vindo a ser tecidas por autores mais recentes. No que concerne ao controlo social informal, pretendemos definir e destacar a influência das normas e sanções sociais, assim como das normas internalizadas, nos consumos de drogas. Após isto, abordam-se os estudos de dissuasão percetual e damos conta de alguns estudos empíricos de dissuasão percetual, relacionados com consumos de drogas.

A Parte B inicia-se com a apresentação dos objetivos que conduzem esta investigação. Integra-se, aqui, o capítulo três destinado à apresentação da metodologia usada, sendo de realçar que esta é de índole qualitativa. A descrição e fundamentação pela metodologia qualitativa é apresentada, assim como o desenho de investigação que justifica a opção por esta metodologia. Os participantes e a caracterização sociodemográfica da amostra são apresentados de seguida. Ainda para a definição do desenho de investigação, procuramos ter em conta os objetivos da investigação. Por tal, optamos pela realização de entrevistas a toxicodependentes e não consumidores de drogas ilícitas, que permitissem uma recolha mais aprofundada dos dados dos dois grupos em análise. Assim sendo, a técnica de entrevista

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3 semiestruturada afigura-se-nos como a técnica principal no que concerne a recolher, através dos discursos dos indivíduos, informação mais direcionada para o nosso tema de pesquisa. Para a realização das entrevistas concebemos um guião para o efeito. As entrevistas realizadas foram, obviamente, sujeitas a transcrição total e, posteriormente, procedemos à análise de conteúdo das mesmas. A descrição da forma como os dados serão analisados também se inclui neste capítulo, assim como todos os procedimentos adotados para levar a cabo a investigação.

No capítulo quarto, destacado para a apresentação dos Resultados, apresentamos um estudo de natureza qualitativa, com entrevistas semiestruturadas realizadas a consumidores toxicodependentes e não consumidores de drogas ilícitas pretendendo analisar com detalhe: a) as perceções que os dois grupos contrastantes têm sobre o regime legal do consumo de drogas; b) e a influência dos três tipos de normas – legais, sociais e internalizadas - nos consumos de drogas.

O capítulo quinto, destinado à discussão dos resultados, visa a sua ligação ao enquadramento teórico, contrapondo os resultados que obtivemos através da nossa investigação com o que foi sendo apresentado nos quadros teóricos.

Nas Considerações Finais pretendemos apresentar alguns aspetos conclusivos acerca deste projeto de investigação, nomeadamente a apresentação das respostas às questões de investigação formuladas. Também aqui apresentamos algumas limitações do nosso estudo, sugerindo algumas pistas para investigações futuras.

Resumindo: analisar as perceções sobre o regime legal do consumo de drogas e a influência das normas nos comportamentos de consumo de drogas é, como já referido, a contribuição que pretendemos dar com o nosso estudo.

(15)

4

PARTE A – ENQUADRAMENTO TEÓRICO

Capítulo I - Regime legal das drogas

1. Regimes de regulação das drogas

A legislação do consumo de drogas e/ou posse de droga para consumo difere nos diversos países. Apesar do tráfico de drogas ser, em todos os países, um ilícito passível de registo criminal e, por conseguinte, ser um ato punido, o mesmo não sucede em todos os países relativamente ao consumo e/ou posse para consumo, sendo a opção legislativa deixada ao critério de cada país, embora sempre interdito (mas nem sempre crime), no respeito pelas Convenções Internacionais.

Durante o século XX, a nível do direito internacional da droga, tiveram lugar algumas Convenções. Em 1961, a Convenção Única sobre Estupefacientes estipulou que as Partes devem limitar a produção, exportação/importação, distribuição, comércio e uso de estupefacientes exclusivamente a fins médicos e científicos. A CUE61 (Convenção Única sobre Estupefacientes de 1961) visa controlar cerca de 120 substâncias. As Partes ficam sujeitas a uma supervisão por parte das Nações Unidas, com objetivo de impedir o desvio das substâncias para o mercado ilícito, pelo que, se violarem os preceitos convencionais, estarão sujeitas a sanções de caráter penal. (Martins, 2003)

A Convenção de 1971 sobre as Substâncias Psicotrópicas (CSP71), visa – tal como a anterior Convenção - a limitação do uso de substâncias para fins médicos e científicos e a proteção da saúde física e mental da Humanidade. A CSP71, relativamente à CUE61, autonomiza algumas substâncias de uso mais frequente e consideradas menos perigosas e visa o controlo de 115 substâncias (Martins, 2003)

Em 1988 teve lugar a Convenção das Nações Unidas (CNU88) contra o tráfico. A necessidade desta Convenção ficou a dever-se ao consumo descontrolado de algumas drogas que, “…para além de atacar a saúde de uma parte da população, mina a economia legítima…” (Martins, 2003, p.58) A CNU88 traz como objetivo novo, o controlo de outras substâncias (por exemplo, produtos químicos e insolventes) dada a sua suscetibilidade de desvio para o fabrico ilícito de drogas. Estas e outras substâncias (num total de 22) ficam sujeitas a um controlo a nível da produção, distribuição e comércio internacional, embora esse controlo seja de menor peso do que o das Convenções anteriores. (Martins, 2003)

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5 Quanto aos regimes que regulamentam o consumo e/ou posse de drogas, segundo alguns autores, existem várias classificações. Caballero e Bisiou (2000) apresentam quatro opções de regulamentação do consumo e/ou posse para consumo: a proibição; a redução de riscos; a despenalização; e a legalização controlada.

Caballero e Bisiou presumem que o uso de estupefacientes é perigoso para a sociedade, porque põe em causa a saúde pública. Segundo os autores, o fundamento sanitário e social é o princípio que melhor justifica a proibição do consumo de estupefacientes. No entanto, os autores assumem também que, a proibição, apresenta uma série de efeitos perversos que resultam, em parte, da repressão severa que a acompanha. Efeitos esses, por vezes, desastrosos no plano sanitário, com graves consequências para a saúde pública, e também no plano social, uma vez que conduzem a um aumento considerável da criminalidade e da delinquência.

A redução de riscos (sendo uma opção de regulamentação do consumo de caráter não legal), para Caballero e Bisiou, consiste em “…ações individuais e coletivas, médicas e sociais, que visam minimizar os efeitos negativos ligados ao consumo de drogas ilícitas.” (2000, p.107) Como exemplos destas medidas, os autores apresentam o programa de troca de seringas; e produtos de substituição (como por exemplo, a metadona).

Segundo os autores, os defensores do regime da despenalização opõem-se à aplicação de penas de prisão para consumidores simples. Caballero e Bisiou falam de um “interdito sem pena”, em que se mantém a criminalização do uso ilícito, mas removendo a sanção. Porém, este fundamento terapêutico não se aplica aos consumidores de drogas duras que necessitam de um tratamento de desintoxicação ou substituição.

A legalização controlada, para Caballero e Bisiou, é um sistema que visa substituir a atual proibição de drogas por uma regulamentação que vai da produção ao comércio e uso, a fim de limitar o abuso prejudicial à sociedade. Este tipo de regulamentação, segundo os autores, pretende combinar as vantagens da redução de riscos, quer sob o plano sanitário, quer sob o plano social. O Estado pode dedicar-se à luta civil contra o abuso de drogas, à luta contra a toxicodependência. Do ponto de vista dos autores, a informação/prevenção é uma boa política de moderação do consumo. De realçar que, a legalização controlada, visa também a interdição de todo o uso de drogas em locais públicos.

Quintas (2011), por sua vez, sintetiza em sete as opções legais: três dessas opções são regimes de interdição, a saber: a criminalização, a descriminalização e a despenalização; as restantes quatros opções são não proibicionistas, legalizam o consumo de drogas: a

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6 liberalização do consumo e do mercado das drogas; a legalização do consumo mas proibindo a produção e comércio de drogas; a legalização do consumo e do mercado das drogas; e a regulação sanitária.

No regime de criminalização do consumo de drogas (e/ou de posse para consumo), o consumo é, segundo o autor, considerado um ilícito passível de registo criminal e de sanção penal. Consiste na supressão da oferta de drogas por via da interdição absoluta do uso, comércio e produção, sob pena de sofrerem sanções repressivas. Quintas (2011, p.41) afirma que “O direito exerce um papel de regulação que se alicerça na interdição do consumo e do tráfico de determinadas substâncias psicoactivas, tipicamente por via criminal, e na utilização de mecanismos sancionatórios para as transgressões.” Assim sendo, a sanção é de caráter penal, visando penalizar o indivíduo pela transgressão cometida. Este regime da criminalização está em vigor na maioria dos países. Os delitos de consumo podem ser sancionados através da aplicação de multas, admoestações ou pequenas penas de prisão. O autor refere que, na União Europeia, as penas de prisão (tratando-se de um sancionamento mais severo) são pouco utilizadas para punir os crimes por consumo e/ou posse de estupefacientes. A França é um exemplo claro de uma forte política repressiva no que concerne a comportamentos de consumos de drogas, coexistindo com um número elevado de consumidores.

A descriminalização do consumo (e/ou posse) de drogas é um regime legal, considerado como uma experiência positiva, que tem vindo a ser adotado em alguns países, nomeadamente Portugal. A descriminalização do consumo de drogas mantém o consumo interdito, mas o ato deixa de pertencer a um regime criminal e passa a ser considerado uma contra ordenação social. “Continuando a ser ilegais os comportamentos de consumo podem ser sancionados, nomeadamente por via administrativa.” (Quintas, 2011, p.95) Isto significa que não existe punição através de pena de prisão para comportamentos de consumo de drogas, sendo as possíveis sanções aplicadas por instâncias administrativas e não por instâncias legais (ex. tribunais). A Itália foi o primeiro país do mundo a descriminalizar o consumo de drogas. Portugal descriminalizou o consumo de drogas em 2001, através da Lei 30/2000, e tem sido considerado um exemplo bem-sucedido.

A despenalização de facto do consumo de drogas consiste numa certa tolerância a comportamentos de consumo em determinados contextos, assim como a possibilidade de posse de pequenas quantidades de algumas substâncias para consumo. O exemplo mais marcante deste tipo de regime é a Holanda com os coffee-shops, onde é permitido o consumo

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7 e venda de cannabis, desde que em pequenas quantidades, mesmo mantendo a lei holandesa a interdição do consumo.

Os regimes não proibicionistas, por seu turno, consideram que sendo respeitadas determinadas regras, o consumidor não fica sujeito a que lhe seja aplicada uma sanção legal pelos seus consumos. Contudo, nestes regimes não proibicionistas, os consumos não deixam de estar sujeitos a alguma regulação.

A liberalização do consumo e do mercado de drogas, segundo o autor, é a mais extrema das formas de legalização: as drogas estão disponíveis no mercado (como qualquer outro produto) e sujeitas às regras de funcionamento dos mercados; e estão à venda em espaço comercial para o efeito e, tal como qualquer produto, o seu preço tem em conta os custos de produção.

A legalização do consumo de drogas (e/ou posse para consumo), com interdição da produção e do comércio é outro dos regimes de regulação das drogas de cariz não proibicionista. A intervenção das instâncias legais de controlo debruça-se, sobretudo, sobre o tráfico, de forma a limitar ao máximo a quantidade de oferta de drogas. Contudo, o consumo de drogas não é punido, pois considera-se que o consumo parte de uma opção pessoal. Além disso, veem o toxicodependente como um doente e não como criminoso, logo não deve ser punido pelos seus consumos.

Um outro regime de regulação das drogas é a legalização do consumo e do mercado de drogas. O consumo é legal, assim como é legal o fornecimento de drogas. Todavia, este mercado legal de drogas não deixa de ter de estar sujeito a um controlo acentuado, geralmente por parte do Estado, o qual controla a produção através de um monopólio sanitário e social, assim como controla a distribuição através de um monopólio de distribuição e da regulamentação dos meios de produção.

A regulação sanitária, outro regime não proibicionista, considera que o sistema de saúde tem a responsabilidade da prescrição e administração das substâncias que o consumidor necessita. Segundo o autor, esta regulação é, sobretudo, aplicada a consumidores toxicodependentes, para que estes acedam às drogas com qualidade e em condições sanitárias dignas. Contudo, é de salientar que a regulação sanitária também se aplica a outros consumidores que não os toxicodependentes, tais como consumidores ocasionais, experimentais, e outros, para evitar que esses consumidores recorram ao mercado ilícito.

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8 2. Comparação de regimes – os estudos agregados

Os estudos agregados são de dois tipos: os que visam a comparação entre áreas geográficas, relacionando as variações nas taxas de consumo e nos níveis de sancionamento – estudos de caráter transversal; e os que têm como objetivo avaliar o impacto de uma determinada modificação legislativa ou forma de aplicação das leis nos comportamentos – sobretudo, estudos longitudinais.

No que concerne ao primeiro tipo de estudos, e no que respeita à temática das drogas, eles visam a comparação entre países de regime proibicionista e países de regime tolerante. Apesar de o tráfico de drogas se incluir num regime de criminalização, o mesmo nem sempre acontece com a posse e consumo de drogas. Afirma Quintas (2011, p.69), que “Apesar da universalidade da proibição do uso de drogas, há importantes variações na forma como são legalmente previstas as penalidades para a posse para consumo e para o uso de drogas.” O autor salienta que, no que respeita ao controlo das drogas, a diversidade de experiências a nível internacional, permite utilizar uma estratégia de comparação entre países e regiões para analisar “…os possíveis efeitos de normas legais diferenciadas e de posturas específicas de aplicação das leis.” (2011, p.69) Embora na maioria de países estejamos perante uma lei que criminaliza o consumo de drogas, nos tempos mais recentes temo-nos deparado com alguns movimentos de descriminalização do consumo de drogas na Europa.

Reuband (1995) foi dos primeiros investigadores a levar a cabo um estudo agregado deste tipo, ao analisar a forma como a lei é aplicada quanto à classificação do consumo de drogas em cada país. Este investigador procedeu a um estudo que visa a comparação de dados de prevalência do consumo de cannabis em alguns países europeus. Comparou países classificados como repressivos (França, Alemanha, Reino Unido, Suécia e Noruega) com países tidos como tolerantes (Itália, Holanda, Espanha e Dinamarca). O autor constatou uma oscilação entre os 5 e os 10% nesses países, independentemente de serem repressivos ou tolerantes. Poder-se-á, assim, afirmar que a lei não teve influência nos níveis de prevalência do uso de cannabis, que o controlo legal não exerce assim uma influência tão marcante quanto seria de esperar no que diz respeito aos consumos de drogas.

Um estudo comparativo mais recente foi dirigido por Cesoni (2000), nos seguintes países europeus: Holanda, Itália, Espanha, Alemanha, França, Suécia e Grã-Bretanha. Também Cesoni constata a ausência de uma ligação de causalidade entre classificação do regime e a evolução do consumo de drogas. Da mesma forma, não é, de todo, evidente a relação da atuação do controlo legal com os consumos de drogas. Estes, segundo a autora,

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9 aumentaram durante a década de 90, independentemente de o país ser repressivo ou tolerante perante o consumo de drogas. As variações que foram surgindo nos consumos de determinadas drogas não se apresentam relacionadas com a legislação, ou seja, da forma como a lei é aplicada em cada um daqueles países.

A análise comparativa internacional não é fácil em nenhum domínio, em particular no estudo sobre drogas psicoativas, dada a sua natureza ilícita e fortemente estigmatizada. (MacCoun, 2003) Assim sendo, MacCoun (2003), enumera quatro dificuldades na análise de comparação de regimes:

- A escassez de dados: na maior parte dos países, não há uma recolha de dados constante ao longo do tempo que nos permita aferir da incidência e da prevalência dos consumos de drogas. MacCoun refere que praticamente não existem séries temporais nesta área.

- A má qualidade e comparabilidade dos dados: as séries de dados existentes sobre drogas raramente são criadas para fins de investigação, sendo que muitos dos estudos são realizados por instâncias governamentais ou agências privadas. Para agravar ainda mais, os diferentes países, embora apresentando burocracias semelhantes, raramente adotam as mesmas definições para conceitos básicos relacionados com a área das drogas.

- A inferência causal fraca: mesmo quando existem dados adequados, as correlações apenas fornecem uma fraca evidência sobre as consequências das políticas das drogas. A escassez de fortes dados de séries temporais impede, em grande parte, análises econométricas rigorosas.

- A generalização desconhecida: as nações e as culturas diferem em inúmeras formas, tornando difícil a generalização internacional.

O segundo tipo de estudos visa analisar o efeito de alterações legislativas ou a sua forma de aplicação em determinado país ou região. Segundo Quintas (2011), estes estudos visam examinar os dados relativos ao uso de drogas antes e depois da introdução de uma alteração legal de forma a permitir inferir o significado dessa mudança nos comportamentos dos indivíduos. Centrando-nos na Europa, temos o exemplo da descriminalização italiana e portuguesa e a despenalização de facto na Holanda.

A Holanda, em 1976, deixou de aplicar qualquer penalização criminal para o uso e venda de cannabis desde que em pequenas quantidades. Na década de 80, assistimos no país a um aumento considerável dos designados coffee-shops onde o consumo é mais tolerado. Já a partir dos anos 90, a Holanda procede a uma política mais restritiva, limitando a quantidade

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10 de posse de droga de 30 para 5 gr. Procede, ainda, a uma diminuição do número de

coffe-shops e aumenta a idade permitida de consumo dos 16 para os 18 anos de idade. (Quintas,

2011) De 1976 até cerca de meados dos anos 80, verifica-se uma diminuição do consumo na Holanda. (MacCoun & Reuter, 1997, 1999, 2001) Estes autores consideram, nas suas investigações, que a despenalização de facto não levou a modificações significativas no uso da cannabis. Contudo, a partir de meados dos anos 80, assistiu-se a um aumento no uso de substância que, segundo os autores, deveu-se ao aumento do número de estabelecimentos

coffee-shops, o que, consequentemente permitia maior acessibilidade à substância. MacCoun

(2003) considera que a promoção comercial pode ter exercido efeito no aumento da prevalência do consumo de cannabis.

A Itália foi o primeiro país do mundo a descriminalizar o uso de drogas, em 1975. Contudo, voltou a criminalizar o consumo em 1990. Três anos depois, adotou novamente a descriminalização do consumo de drogas. Soliveti (2001) procedeu a um estudo com o intuito de analisar os indicadores de consumo de drogas tendo em conta estas mudanças legislativas. O investigador constatou que, quer a alteração legislativa de 1990, quer a de 1993, não teve registo significativo nos indicadores de consumo.

A Lei 30/2000 instala, em Portugal, um regime de descriminalização do consumo de drogas. Pautado pela sua via não criminal, mas de ordem social, cabe à Comissão para a Dissuasão da Toxicodependência (criada na altura) a aplicação de sanções administrativas aos consumidores. Quintas (2011) procedeu uma investigação com o intuito de analisar o impacto da experiência portuguesa de descriminalização, tendo constatado um aumento dos consumos de drogas nos períodos respetivamente antes e após a descriminalização, assim como uma retração dos consumos problemáticos. Quintas (2011) afirma ainda que o nosso país mantém níveis modestos de consumo em comparação com os restantes países europeus, não devendo as oscilações do consumo ocorridas ser atribuídas diretamente à descriminalização, já que estas dependem da evolução dos padrões de uso de drogas e das medidas de redução de riscos e minimização de danos.

Fora do continente europeu, as experiências mais conhecidas de alteração legal são nos EUA e na Austrália, e têm como objeto a descriminalização do uso de algumas drogas leves. Nos EUA, alguns autores que levaram a cabo estudos com o objetivo de avaliar o impacto da alteração legislativa nos níveis de consumo de marijuana chegaram a uma conclusão similar: a descriminalização da substância teve um impacto pequeno ou quase nulo nas taxas de consumo. Com o recurso à técnica do questionário, Johnston, Bacham and

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11 O’Malley (1981), concluíram que os estados norte-americanos que descriminalizaram o uso de marijuana têm taxas de prevalência no consumo superiores aos restantes estados. Contudo, alertam que essa alta prevalência nos consumos já existia anteriormente à alteração legal, concluindo, portanto, que a descriminalização não exerceu um efeito notável no uso da substância. Single (1989), através da aplicação de questionários, denotou também um aumento das taxas de prevalência do consumo de marijuana, mesmo nos estados que não procederam a uma alteração legal. Thies and Register (1993), por seu turno, ao analisarem a influência da descriminalização da substância em onze estados (através de um estudo longitudinal, do consumo autorrevelado de indivíduos entre os 14-21 anos), concluiu que outros fatores (demográficos, económicos, sociais) apresentam um peso mais significativo na frequência e níveis de consumo, do que o peso do estatuto legal da substância. Também estes autores concluíram que a descriminalização da substância não teve um impacto marcante no seu uso.

Houve, de igual modo, na Austrália, em Estados do sul do país, algumas experiências de descriminalização relativamente ao uso de pequenas quantidades de cannabis. Este país introduziu o CEN (Cannabis Expiation Notice) que indica que os transgressores devem pagar uma multa, caso contrário sujeitam-se a uma condenação criminal. Alguns estudos levados a cabo através de questionários sustentam que, tanto antes como após a existência do CEN, houve aumentos no consumo de cannabis naqueles Estados, assim como nos estados que não procederam a qualquer alteração legal. Conclui-se, pois, que não se vislumbram mudanças nos níveis de consumo da substância que possam ser atribuídas ao CEN. McGeorge and Aitken (1997), através de um inquérito longitudinal aplicado a estudantes universitários, compararam níveis de consumo de estudantes da capital australiana (que descriminalizou o consumo de cannabis) com um grupo de controlo de estudantes de um Estado em que não houve alteração legislativa. Os autores concluíram o seguinte: a) não há diferenças significativas na comparação das duas amostras, nos dois momentos do estudo; b) não se vislumbraram diferenças também na dimensão longitudinal, ou seja, do primeiro para o segundo momento de aplicação do questionário. Apesar de pertencentes a regimes legais diferentes, não se notam diferenças nos dois grupos.

MacCoun (2003), num estudo em que analisou a influência da lei no uso de cannabis em países como os EUA e a Austrália, concluiu que a despenalização de pequenas quantidades de cannabis não aumentou a prevalência do consumo.

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12 3. Lei do consumo de drogas – em particular a descriminalização portuguesa Neste domínio das drogas, cabe ao Estado ter um papel interventivo no que concerne a políticas de controlo das substâncias psicoactivas, o que na linguagem jurídica designamos por estupefacientes e no senso comum, concomitantemente, designamos por drogas.

Até à entrada em vigor da Lei 30/2000 de 29 de Novembro que se pauta pela descriminalização no que ao consumo de drogas diz respeito, Portugal viveu num regime de criminalização do consumo de drogas. Parece-nos, todavia, de relevante pertinência aqui diferenciar em que consistem os regimes de criminalização e descriminalização do consumo de estupefacientes em Portugal.

Assim, no que concerne à criminalização do consumo de drogas, como o próprio termo indica, o consumo é tido como crime e, por tal, é passível de sanção penal coerciva. Como nos diz Quintas (2011, p.95) “O consumo é considerado um ilícito passível de registo criminal e de sanção penal. (…) O tratamento judicial das transgressões pode resultar na aplicação de multas, admoestações, esquemas de diversão judicial, designadamente para tratamento ou pequenas penas de prisão.”

A droga é vista como um grave problema social, causadora de desestabilização social, pelo que exige uma intervenção da esfera jurídico-penal como o único meio de impor a ordem pública. Segundo Poiares e Agra (2003, p.14) “…a droga tornou-se problema a partir do caos provocado e da inerente desestabilização social; a ordem jurídico-penal, confrontada com este novo átomo da desordem e incapaz de o gerir (…) optou por o transformar em problema do foro criminal (…) utilizando a lei penal como vacina social.” Pensava-se assim que, reportando o consumo de substâncias ilícitas para o foro criminal, se resolvia o problema da sociedade em geral, e dos consumidores em particular. Considerava-se que a atribuição de uma sanção coerciva ao indivíduo que infringiu a lei era a melhor forma de o penalizar pelos comportamentos desviantes e criminosos por ele cometidos, nomeadamente o simples facto de consumir drogas.

A criminalização do consumo de drogas está vigente na maior parte das sociedades. Contudo, nos anos mais recentes temo-nos deparado com movimentos de descriminalização, nomeadamente, na Europa. O primeiro país a descriminalizar o consumo de drogas foi a Itália, tendo Portugal mais tarde seguido o mesmo caminho.

Deste modo, em 2001, em Portugal, entra em vigor a Lei 30/2000 de 29 de Novembro, que procede a uma descriminalização do consumo das drogas ilegais, definindo “o regime jurídico aplicável ao consumo de estupefacientes e substâncias psicotrópicas, bem como a

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13 proteção sanitária e social das pessoas que consomem tais substâncias sem prescrição médica.” A lei mantém a proibição do uso de qualquer destas substâncias ilegais mas através de um regime de contraordenação e não de um regime criminal. Como realça MacCoun (1993, p.497), o regime de descriminalização é aquele “…em que as drogas permanecem ilegais mas as penalizações para posse pessoal são reduzidas ou eliminadas…” Ou seja, já não se considera o comportamento de consumo como um comportamento criminal, mas como um comportamento contra-ordenacional. Esta Lei,

“Contudo, retira da alçada do direito penal a apreciação legal das transgressões e cria um novo sistema sancionatório a aplicar por uma nova instância extrajudiciária (as CDT). É, assim, instaurado um regime contra-ordenacional que deve promover a proteção dos consumidores que forem detetados a consumir ou na posse de pequenas quantidades para consumo.” (Quintas, 2011, p.103)

O consumo e posse de drogas passam, assim, a ser controlados por uma instância administrativa. O primordial aqui, é garantir que o uso de drogas seja feito em condições sanitárias dignas e, ao mesmo tempo, assegurar o controlo social dos consumidores.

Como se pode constatar, a norma legal sofreu uma alteração legislativa. De realçar que esta lei acarreta consigo uma preocupação com o impacto que esta nova forma de reação do sistema legal possa causar nos comportamentos dos atuais e potenciais consumidores.

Por tal, importará analisar a influência das normas perante esta alteração legislativa. Deste modo, pretendemos, por um lado, averiguar o conhecimento sobre a lei da descriminalização, ou seja, se os indivíduos conhecem a lei que vigora em Portugal; por outro, conhecendo ou não a lei, importa analisar a sua influência nos consumos de drogas, isto é, as perceções sobre o impacto da lei nos consumos.

Capítulo II - Normas e Dissuasão

1. Normas e Desvio

O conceito de norma assume importância vital no presente trabalho de investigação, uma vez que este incide na influência de três tipos de normas nos consumos de drogas: as normas legais, sociais e internalizadas.

Comecemos, então, por ver o conceito de norma tal como tem sido apresentado por alguns autores. Gibbs (1981, p.7) define norma como sendo “uma crença partilhada até certo ponto pelos membros da uma unidade social, como que uma conduta que deve estar em situações ou circunstâncias particulares.” O mesmo autor acrescenta ainda que a norma “…é

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14 algo mais que uma avaliação isolada de uma conduta por um indivíduo em particular; ela é um fenómeno coletivo na maneira em que os membros de uma mesma unidade social tendem a juntarem-se nas suas avaliações dessa conduta.” (1975, p.79)

Robert (1997, p.17) afirma que a norma “…não é somente uma maneira de fazer, ser ou pensar, socialmente definida, operatória e sancionável. Ela tira o essencial da sua força de não ser percebida somente como uma simples arbitrariedade, mas como o reconhecimento da sua legitimidade que se mede pela referência aos valores.” Deste modo, concluímos que as normas nascem da existência de valores que vão condicionar as condutas e comportamentos dos indivíduos.

Não obstante, Cerclé (1999, p.133) define-o da seguinte forma: “Uma norma é uma regra comportamental ou de julgamento partilhada por um coletivo específico de indivíduos cuja aquisição é submetida a um processo de influência social. A existência de uma norma implica a atribuição de um valor reconhecido pelo coletivo.” A norma depende, segundo este autor, de uma aprendizagem social e possui um determinado valor que é partilhado por um grupo de indivíduos em interação.

A definição de Giddens (2004, p.22), para o conceito de normas reforça o já referido. Salienta que normas “…são as regras de comportamento que refletem ou incorporam os valores de uma cultura. As normas e os valores determinam entre si a forma como os membros de uma determinada cultura se comportam.”

Todavia, nem todos os membros pertencentes à comunidade, sociedade ou grupo, interiorizam as normas de forma a respeitá-las no que concerne aos seus comportamentos. Nestes casos, pode ocorrer que um ou mais indivíduos não se identifiquem com os valores, normas e comportamentos ditados pelo coletivo, ou seja, indivíduos que não se enquadram no que a maior parte das pessoas define como padrões normais de comportamento aceitável. Assim sendo, estes indivíduos podem ser considerados indivíduos com comportamentos desviantes perante o sistema de normas vigente. Brochu (1995), refere que há vários fatores que permitem prever o aparecimento de comportamentos desviantes, tais como rutura e laços com as instituições de socialização, inserção em grupos de pares desviantes, manifestação precoce de comportamento não convencional e determinadas condições de vida.

Giddens (2004, p.205) define desvio como “…o que não está em conformidade com determinado conjunto de normas aceite por um número significativo de pessoas de uma comunidade ou sociedade.” Este autor enfatiza ainda que o conceito de desvio pode aplicar-se tanto ao comportamento do indivíduo, como de um grupo.

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15 Para compreender de uma forma mais pormenorizada os conceitos de norma e desvio, parece-nos pertinente o recurso a teorias que os definem e explicam a sua ligação. Pareceu-nos que as teorias funcionalistas são as que melhor se enquadram no contexto do que temos vindo a falar. As teorias funcionalistas veem o crime e o desvio como o resultado das tensões estruturais (Merton) e da ausência de regulação moral no seio da sociedade (Durkheim). Durkheim era da opinião de que nas sociedades modernas as normas e modelos tradicionais desapareciam sem serem substituídos por outros novos, dando origem aquilo que designou por anomia. A anomia dá-se quando se está perante a ausência de normas, quando não há modelos comportamentais a seguir. Este clássico da Sociologia, via o desvio como um facto social, ou seja, crime e desvio eram factos inevitáveis, e mesmo considerados normais, nas sociedades modernas, visto que os indivíduos destas sociedades se sentiam menos coagidos pela ameaça da sanção do que nas sociedades tradicionais. Durkheim pensava que nenhuma sociedade conseguiria um consenso por completo sobre normas e valores e, por tal, um ato criminoso poderia provocar uma resposta coletiva que iria, consequentemente, clarificar as normas sociais. (Giddens, 2004)

Merton modificou o conceito de anomia de Durkheim, para se referir à tensão a que o comportamento dos indivíduos está sujeito quando as normas entram em conflito com a realidade social e, segundo Merton, o desvio ocorre como consequência das desigualdades económicas e da ausência de oportunidades iguais para todos. Na sociedade americana havia desiguais oportunidades no que concerne ao valor sucesso monetário. A anomia surgia como o sobre investimento no sucesso em detrimento do respeito pelas normas, havendo uma tensão para o seu rompimento. Quando determinados indivíduos não conseguiam obter os valores da riqueza e do sucesso por meios legítimos, recorriam então a meios ilegítimos. Assim associaram o desvio a determinados indivíduos que adotavam normas que encorajavam e recompensam comportamentos desviantes. Merton enfatizava, assim, os comportamentos desviantes individuais como resposta à tensão gerada entre os valores a atingir e os meios disponíveis para os alcançar. (Giddens, 2004)

Portanto, e de acordo com o ponto de vista de Merton, parece pertinente ainda falar de determinadas normas e desvios de grupo. De salientar que o que é considerado desvio para uns, pode não o ser para outros. Tudo depende do contexto e da cultura em que o indivíduo está inserido, assim como dos valores e normas que são transmitidos pelo grupo de pertença. Tal como Merton, Cohen (1955) associa o desvio a determinados grupos subculturais que criam as suas próprias normas, não raro, incentivando a comportamentos delituosos. Enquanto

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16 Merton falava de comportamentos desviantes individuais, Cohen, por sua vez, refere que as respostas à tensão entre os valores a atingir e os meios disponíveis ocorriam coletivamente através de subculturas. As subculturas delinquentes (como ele assim designava), constituída por indivíduos de classe baixa, agrupavam-se em subculturas delinquentes, que rejeitavam os valores da classe média e substituíam-nos por normas, tais como: a delinquência e atos de não-conformidade. A subcultura delinquente é negativista pois representa a subversão das normas e valores da cultura dominante. (Cohen, 1955). Como afirma o mesmo autor (1966, p.85), “Os indivíduos cometem comportamentos desviantes porque eles aprenderam as crenças e valores da subcultura em que eles participaram, da mesma forma que as pessoas aprendem as crenças e valores convencionais das suas subculturas, sendo eles sustentados nesse comportamento de acordo e com a aprovação dos seus grupos de referência.” Quando o indivíduo não se sente integrado, nem de acordo com as normas e valores do grupo de pertença, pode porventura acontecer que ele venha a inserir-se em grupos de referência.

Todavia, parece-nos ainda importante realçar que norma e desvio poderão estar interligados e não terem, necessariamente, de ser conceitos opostos. As teorias da reação social/etiquetagem salientam que o desvio é analisado a partir da existência de um processo social interativo, protagonizado por pessoas desviantes e por outras que não o são. A desviância, por seu turno, refere Agra e Matos (1997), emerge “…como estatuto social no termo de um processo de estigmatização. (…) O seu objeto é a interação entre o sujeito

desviante e os outros, enquanto processo gerador de desviância.” Agra (1993, p.8) afirma

ainda que “…não existem dum lado as ciências do comportamento normal e do outro as ciências do comportamento desviante e patológico; cientes de que explicamos o desvio pedindo contas à norma e, reciprocamente, explicamos a norma interpelando o desvio.” As normas existem para serem cumpridas mas, também, é inevitável que para outros elas serão quebradas. Agra e Matos (1997), realçam que normatividade e transgressão não constituem universos opostos, mas sim a dupla face dum mesmo facto social. E que se queremos explicar a transgressão temos que, por assim dizer, pedir contas à normatividade.

2. Controlo Social

O controlo social é algo que contribui para a ordem social, é, de alguma maneira, normativo. (Gibbs, 1981) Tendo por base Cusson (2007), entendamos por controlo social o conjunto de meios implementados pelos membros de uma determinada sociedade cujo objetivo visa conter ou reduzir o número e a gravidade dos desvios. Isto é, são os meios e

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17 processos pelos quais a sociedade obtém a conformidade dos seus membros, levando-os a cumprir os seus papéis da forma esperada.

Apresentando definições para o conceito de controlo social, Cohen (1966, p.39), designa-o como o “…processo social e estruturas sociais, tendendo a prevenir ou reduzir o desvio (…) é prevenção, dissuasão…”. Reforçando a ligação entre norma e desvio anteriormente explicitada, também Parsons (1999), afirma que a teoria do controlo social é o reverso da teoria da génese das tendências do comportamento desviante, a análise dos processos no sistema social que tende a contrariar as tendências desviantes e as condições sobre as quais esses processos operam. O autor refere que cada sistema social, além das recompensas óbvias para quem age normativamente e das punições para comportamentos desviantes, engloba também mecanismos não planeados e, em parte, inconscientes que visam também contrariar tendências desviantes. Tal acontece quando o indivíduo tem a norma interiorizada de tal forma, que não necessita que lhe estejam a ser constantemente lembradas as regras a seguir.

Classicamente na Sociologia, o controlo social assume duas formas: controlo social interno e controlo social externo. O controlo social interno “…consiste no autocontrolo do indivíduo que tem interiorizadas as normas, valores e padrões de conduta do meio em que foi socializado.” (Gamelas, in Dicionário de Sociologia, 2002, p.85) Por seu turno, controlo social externo “…por um lado, toma a forma de controlo espontâneo ou informal, através da pressão social e dos controlos informais exercidos pelos grupos primários sobre o indivíduo; por outro, designa-se controlo organizado ou formal, pois exerce-se através de controlos formais ou dos grupos secundários (instituições sociais) que, com as suas normas e sanções, controlam os indivíduos.” (Gamelas, in Dicionário de Sociologia 2002, p.85) Nestes controlos, inscreve-se a lei e as normas do sistema de justiça.

Assim, verificamos que o controlo interno diz respeito ao autocontrolo, no sentido da tomada de consciência de não cometimento de comportamentos desviantes. Resulta, em parte, das normas internalizadas, ou seja, acontece quando o indivíduo considera que determinados comportamentos são tidos como errados. Ao contrário, o controlo social externo, sendo exterior ao indivíduo provoca constrangimento através dos grupos informais (família, amigos, adultos de referência, entre outros) ou através de grupos formais como são as instâncias legais. Aqui entram as normas sociais e legais, que impõem um certo constrangimento ao indivíduo na prossecução de determinados comportamentos.

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18 Em suma, quanto à tipologia de normas, podemos referir a existência de três tipos: as normas legais, as normas sociais e as normas internalizadas, sendo que as normas legais se inscrevem em formas de controlo social formal, enquanto as normas sociais e internalizadas integram um controlo social informal. As normas e sanções legais são determinadas pelas instâncias de controlo social formal, o qual integra as variáveis da dissuasão geral: certeza, severidade e celeridade da sanção. Por seu turno, as normas e sanções sociais, ditas controlo social informal, são-nos impostas pela família, pelo grupo de pares, pelas pessoas próximas que respeitamos. Neste tipo de controlo inserem-se as normas internalizadas e a auto sanção, ligadas à moral.

A ameaça da sanção legal, impondo-se de forma isolada, pode não funcionar de forma suficientemente dissuasiva para evitar comportamentos desviantes, daí não podermos descurar a importância que as normas sociais e mesmo as normas internalizadas possam exercer nos comportamentos dos indivíduos, até porque, como refere Cusson (2007, p.16) “…a normatividade inerente à vida social preexiste às normas legais.” Verifica-se, pois, que a interligação das normas legais, sociais e internalizadas e a ameaça das suas respetivas sanções, assumem relevante interesse.

Quando o indivíduo não respeita a norma e, por conseguinte, apresenta comportamentos desviantes, ele ficará sujeito a que lhe possam ser aplicadas sanções, como forma de punir o seu comportamento de desvio à norma instituída. Giddens (2004) chama sanção a qualquer reação por parte dos outros em relação ao comportamento de um indivíduo ou grupo a fim de assegurar que determinada norma seja cumprida. Realça ainda que as sanções podem ser formais ou informais. As primeiras, a cargo das instâncias formais de controlo, dizem assim respeito a um grupo definido de pessoas ou agente encarregado de assegurar que um conjunto particular de normas é seguido, sendo que, segundo afirma Giddens, os diferentes tipos que estas sanções assumem fazem parte do sistema de punição representado, por exemplo, pelos tribunais e pelas prisões. Por sua vez, as segundas, são reações menos organizadas e mais espontâneas em relação à inconformidade.

Desta forma, o não cumprimento das normas por parte dos indivíduos poderá, porventura, conduzir a que lhe sejam aplicadas sanções. O controlo social apresenta-se, de certa forma, como um sistema que visa a interiorização da norma. A ameaça da sanção tem como objetivo o cumprimento das normas por parte dos indivíduos.

De salientar ainda que, tanto o sistema de sanções legais, como o sistema de sanções sociais visam ter uma atuação dissuasiva para com comportamentos desviantes. Pois, poderá

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19 suceder, que os indivíduos ao depararem-se com um sistema sancionatório pouco dissuasivo, venham a apresentar comportamentos que levam à transgressão de regras e normas.

2.1 Controlo Social Formal

Como já anteriormente referido, o controlo social formal é exercido através de grupos formais como as instâncias legais, as quais são responsáveis pela aplicação de sanções legais (ex. multa, pena de prisão, etc.) aos indivíduos que cometam uma transgressão à norma legal. As sanções formais integram, geralmente, o sistema de punição representado, por exemplo, pelos tribunais e pelas prisões.

Ainda como parte integrante deste controlo social formal temos a dissuasão, nomeadamente as variáveis da dissuasão geral - certeza, severidade e celeridade da sanção.

2.1.1- Dissuasão

2.1.1.1 – A Dissuasão Clássica

A teoria da dissuasão clássica teve origem na Escola de Direito Penal com Beccaria e Bentham. A visão sobre o crime pautava-se, entre outros aspetos, pelo princípio da utilidade do mesmo, pelo cálculo do prazer e da dor, em suma, pelo cálculo das penas. Os indivíduos eram livres de escolher, fazer a sua opção de vida, eram hedonistas (buscavam o tal prazer nas suas ações), eram racionais nos cálculos dos benefícios e custos dos seus comportamentos. Beccaria e Bentham diziam que as penas deviam ser certas, serem aplicadas sempre, no entanto, moderadas, visto que se considerava que não era pelo facto de serem demasiado severas que os crimes diminuiriam. Resumindo, as penas tinham a função de dissuadir os cidadãos de cometerem crimes e eram explicadas por três variáveis: certeza, severidade e celeridade. É, deste modo, através destas três variáveis que operacionalizamos empiricamente o conceito de dissuasão. Assim sendo, podemos afirmar que “O grau de um determinado tipo de crime varia na razão inversa à celeridade, certeza e severidade de punição desse tipo de crime.” (Gibbs, 1975, p.5)

As normas penais têm de ser protegidas das transgressões, pois caso sejam violadas poderá suscitar uma reação social repressiva. Quando os indivíduos não se comportam de acordo com as leis, é certo que eles poderão ter que se sujeitar aos sistemas punitivos que, embora sendo vários os seus fins, podem castigá-los pelos seus atos transgressores.

A finalidade da justiça penal passa por impedir os indivíduos de obterem os seus benefícios através do crime, aplicando para tal sanções. “Cesare Beccaria talvez tenha sido o

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20 primeiro académico a ter consciência completa da importância da probabilidade (e não só da severidade) da sanção.” (Killias, Scheidegger & Nordenson, 2009, p.388) Assim, partimos para os conceitos de certeza, severidade e celeridade da sanção.

A certeza da sanção diz respeito ao facto de que, o indivíduo sabe que se cometer algum ato transgressivo, será sancionado, sabe que a pena é certa. Acresce dizer que há penas que podem ser mais ou menos severas consoante a gravidade do delito, o que se designa por severidade da sanção. Para que os indivíduos se intimidem pela certeza da sanção, é necessário que esta seja célere, ou seja, a celeridade da aplicação da sanção poderá ter um efeito dissuasivo sobre o indivíduo porque a sua rápida aplicação fá-lo perceber que cometeu um ato que não é correto.

A teoria clássica da dissuasão, que sustenta a ideia da racionalidade dos indivíduos, vai de encontro à teoria da Escolha Racional. Como já supramencionado, o criminoso é um indivíduo que pensa, calcula e decide. Os delinquentes são indivíduos cognitivamente ativos, no sentido que pensam e agem como qualquer outro indivíduo, pensam nos prós e contras que os seus comportamentos podem acarretar. Procuram o prazer, evitam a dor, pretendem obter benefícios e prazeres com as suas ações. No caso das leis das drogas, e de acordo com MacCoun (1993, p.498) “O paradigma contemporâneo dominante sobre o efeito das leis da droga no comportamento é a perspetiva da escolha racional.” Define os consumidores de drogas como sendo atores racionais que sabem avaliar as consequências das suas escolhas, que tomam decisões visando maximizar a sua utilidade.

Todavia, alguns pontos críticos são apontados a esta teoria da escolha racional. Parece óbvio que os indivíduos, não raras vezes, agem irracionalmente ou com impulsividade, fazendo escolhas que não vão de encontro a esta teoria. Piquero e Pogarsky (2002), juntamente com outros autores, chegaram à conclusão de que uma elevada impulsividade pode reduzir o impacto da severidade da sanção, e uma extrema impulsividade pode mesmo eliminar a influência das sanções legais. Na verdade, nem sempre ponderamos as nossas ações, nem sempre fazemos cálculos das nossas escolhas. E, no que concerne aos consumidores de drogas, sabemos que assim ocorre, muitas vezes. Quando estão já numa fase de dependência acentuada dos consumos, torna-se mais difícil serem racionais na tomada de decisões e poderão, porventura, agir com impulsividade com vista a obterem os seus fins. E, como realça Weatherburn, Topp, Midford and Allsopp (2000, p.13), “O medo das sanções legais e o compromisso com a moral, o grau de integração social, a dimensão da alienação e a

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21 perceção da legitimidade da lei…” são elementos que também devem ser tidos em conta e que a teoria da escolha racional ignora.

Há quem fale numa teoria da dissuasão moderna que vem, em grande parte, tecer algumas críticas à dissuasão clássica. Becker e Gibbs são alguns dos autores que entram em colisão com o utilitarismo de Bentham. Estes, entre outros autores, falam da existência de algumas variações no modelo clássico, tais como: a utilidade dos lucros estar associada ao sucesso do crime; a probabilidade subjetiva de obter ganhos com o crime; a não utilidade das sanções legais mesmo que apanhado; a própria subjetividade das sanções legais. (MacCoun, 1993). MacCoun (1993) salienta que, nestes casos, os valores da certeza e da severidade deviam ser largamente suficientes para reduzir a atratividade pelo crime, mas na verdade nem sempre o são.

2.1.1.2 A dissuasão geral e a dissuasão específica

Ball (1955), citado por Gibbs (1975, p.29), afirma que “A dissuasão é normalmente definida como o efeito preventivo que a punição ou ameaça de criminosos tem sobre potenciais infratores.” Assim sendo, a partir desta definição, importa agora explicitar os conceitos de dissuasão geral e dissuasão específica e perceber a importância que a dissuasão pode assumir, quer para indivíduos normativos, quer para indivíduos desviantes. Salienta Paternoster e Piquero (1995) que o efeito da ameaça da sanção no comportamento de violação da lei, tradicionalmente tem a distinção entre estes dois tipos de dissuasão: a dissuasão específica e a dissuasão geral.

Crê-se que a dissuasão que não funciona de igual modo para todos, tendo a dissuasão geral e a dissuasão específica impacto em diferentes pessoas. A própria ameaça da sanção é direcionada para todos nós, mas afeta-nos de forma diferente. (Paternoster & Piquero, 1995 e Andenaes, 1974) Segundo Gibbs (1975), a doutrina da dissuasão conduz à ideia de que os elementos de uma população “criminal-delinquente” percebem a punição do crime com menos certeza do que os membros de uma população dita “normal”. E que a mesma ideia pode estender-se à perceção da severidade da sanção. Salienta o autor (1975, p.208) que “Se os indivíduos cometem crimes porque eles nunca foram dissuadidos e se os indivíduos evitam crimes porque foram dissuadidos, então os que cometem crimes tendem a perceber a punição como menos certa e/ou menos severa que aqueles que obedecem às leis.”

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