Tradução como ação comunicativa: a perspectiva do funcionalismo nos estudos da tradução
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(2) 22. Tradução como ação comunicativa: a perspectiva do funcionalismo nos estudos da tradução. 1.. INTRODUÇÃO Dentre as muitas vertentes e concepções constitutivas dos estudos tradutórios, o funcionalismo é, talvez, a que mais recebe resistência por parte de pesquisadores, em razão de subverter alguns dos padrões canônicos relacionados ao processo tradutório. Em função desse caráter subversivo, a concepção funcionalista aplicada à tradução é criticada por muitos autores e pesquisadores que a concebem como uma dissidência em tradução, ou como um olhar apenas idealista e sonhado. Noções como equivalência, processo tradutório, fidelidade ao texto-fonte ou competência tradutória são, segundo a ótica funcionalista, questionados e reconstruídos sob uma nova perspectiva: a do leitor-final, seja ele leitor do texto-fonte ou do texto traduzido. Essa perspectiva funcionalista, no entanto, apesar das críticas negativas, tem impulsionado muitas pesquisas de mestrado e doutorado envolvendo corpora diversos, contribuindo para a expansão da área e abrindo outras perspectivas e olhares para a análise do texto, permitindo diálogos multidisciplinares com o jornalismo, a sociologia, a antropologia e a própria linguística textual. Por não se pautar nos modelos, crenças ou concepções já apreendidas culturalmente sobre o fazer tradutório, percebe-se, de fato, que muitos pesquisadores e alunos encontram dificuldades em aceitar a concepção funcionalista, suas implicações e suas especificidades. Nesse sentido, tendo como objetivo uma proposta reflexiva, ressaltamos que não se vislumbra aqui discutir nenhum autor em especial, mas ressaltar alguns dos princípios fundamentais que norteiam essa visão aplicada à tradução. Para tanto, adotamos como estrutura de apresentação o eixo que percorrerá as seguintes questões:. 2.. i.. contextualização linguística;. ii.. funcionalismo e sua relação com os estudos tradutórios;. iii.. alguns autores funcionalistas mais representativos, sempre com vistas ao texto em sua modalidade escrita.. FUNCIONALISMO E FUNÇÃO O termo ‘função’, assim como ‘funcionalismo’, é utilizado nas mais diferentes áreas do conhecimento, podendo ser uma grandeza matemática que descreve relações entre fenômenos físicos, representar a utilidade de um objeto ou ainda o valor de um termo dentro de uma oração. É, portanto, uma tarefa bastante difícil conceituá-lo de uma única maneira, visto que sua perspectiva pode ser alterada dependendo da área de. Tradução & Comunicação: Revista Brasileira de Tradutores Nº. 24, Ano 2012 p. 21-37.
(3) Silvana Ayub Polchlopek, Meta Elisabeth Zilpser, Maria José R. Damiani Costa. 23. conhecimento a partir da qual se fala (POLCHLOPEK, 2005). Nesse sentido, existem diversos modelos e versões desses termos vinculados a antropologia, arquitetura, etnografia, sociologia, jornalismo e ciências matemáticas, por exemplo. No entanto, mesmo com tantas peculiaridades, é possível rastrear um ponto em comum: ser funcional significa responder (de alguma maneira) às necessidades (comunicativas, sociais, matemáticas) de outra pessoa ou situação. Um pressuposto básico é o de que as atividades parciais contribuem para o todo, ou seja, para a atividade global do sistema, segundo a Infopédia (2003). No que diz respeito aos estudos linguísticos, Weininger (2003, p.35) afirma que “de modo geral, teorias funcionalistas partem da prioridade da função comunicativa que determinadas estruturas linguísticas exercem para servir à intenção pragmática do usuário da língua e da análise de estruturas que contribuem para esta função”. Em outras palavras, ser funcional (ou funcionalista) implica quatro questões básicas: para que eu quero dizer isso (função comunicativa da mensagem); por que quero dizer isso (intenção pragmática); como vou dizer isso (estruturas que servem a essa intenção) e para quem eu digo isso (o interlocutor). Desse processo é possível depreender um canal de comunicação que não é neutro ou isento, visto que é carregado de intencionalidade, seja na fala ou na escrita, explícita na forma como a linguagem é construída para servir aos propósitos de seus interlocutores. Esse processo também não é linear ou ideal, conforme a tríade comunicativa emissor-mensagem-receptor, visto que as situações nas quais as mensagens são veiculadas não são padronizadas e, portanto, exigem que a intenção, as estruturas e a função da fala ou da escrita se modifiquem de acordo com as posições ocupadas pelo interlocutor final, com sua prática social, além do contexto no qual está inserido. Como escola linguística, o funcionalismo nasceu na década de 70 e teve seu auge nas décadas de 80-90. Opondo-se às abordagens formalistas como a da gramática gerativa e a estruturalista, voltadas para a transparência na forma, nos constituintes da oração e nas relações entre eles, nos ‘conjuntos de frases, sistema de sons e signos’ (NEVES, 2004), o funcionalismo passou a se preocupar com as situações comunicativas, isto é, com todos os eventos em que a comunicação poderia ocorrer (uma conversa telefônica; carta; palestra; aula; artigo, etc.). Sendo assim, uma das questões centrais dessa nova vertente foi compreender a ‘competência comunicativa’ (NEVES, 2004, p.44), ou seja, verificar como os usuários da língua se comunicavam com eficiência. Subjacente à noção de competência estava uma concepção de linguagem como “instrumento de interação social entre seres humanos, utilizado com a intenção de estabelecer comunicação”, conforme Camacho (1934, p.34 apud NOBREGA, 2000), de uma. Tradução & Comunicação: Revista Brasileira de Tradutores Nº. 24, Ano 2012 p. 21-37.
(4) 24. Tradução como ação comunicativa: a perspectiva do funcionalismo nos estudos da tradução. maneira dinâmica e de modo a permitir que as necessidades comunicativas respondessem a qualquer modificação linguística e, consequentemente, cumprissem com as funções e intenções da mensagem. A língua é vista, nesse sentido, como um produto social, e compreender o seu funcionamento responde à forma como o processo comunicativo flui de acordo com as necessidades intrínsecas dos interlocutores e a partir das exigências extrínsecas da situação em que o evento comunicativo se desenvolve (MARTINET, 1978; NOBREGA, 2000; AUSTIN, 1962; BAKHTIN, 1992). Por essa razão, o texto é compreendido e se constitui na prática social: primeiro porque é carregado da intencionalidade dos usuários da língua e, segundo, porque se origina das inter-relações entre os sujeitos num processo contínuo de (re)construção de sentidos (SOBRAL, 2009, p.7). O funcionalismo estuda a linguagem em seu contexto de uso, visto que só é possível construir sentidos a partir do ato comunicativo quando os interlocutores compartilham o assunto, a situação e compreendem (ainda que intuitivamente) o uso de determinadas estruturas em detrimento de outras, como é o caso de piadas e ironias, por exemplo. Como afirma Davidse (1987, p.40 apud NOBREGA, 2000): “[Language] is not a self-sufficient entity (…) it is used in. and indeed evolved to serve. human interaction. [Its. nature] can be understood only if we approach it functionally.” [Linguagem não é uma entidade autossufuciente (...) é usada em – e pretende servir – para a interação humana. [Sua natureza] pode ser entendida somente se a abordamos de forma funcional]. Essa visão também é compartilhada pela sociolinguística, vertente na qual Bakhtin, Vigotsky e Volochinov se destacam. De acordo com essa perspectiva, a linguagem só se concretiza através da interação social, do dialogismo1, evidenciando uma perspectiva sócio-histórica e também cultural (DELLAGNELO; RIZZATTI, 2009). Essa concepção implica que a fala e a escrita só têm sentido quando produzidas num contexto, numa determinada situação que também deve ser conhecida (ou inferida) pelo interlocutor, de modo que ele compreenda e responda a essa interação, chamada por Bakhtin de “atitude responsiva”. Dessa maneira, Bakhtin afirma que a linguagem é social, motivada sempre por necessidades comunicativas que acionam as engrenagens mencionadas anteriormente: para que; por que; como e para quem. Nesse sentido, ‘função’ diz respeito a uma perspectiva sociocultural da língua, designando ainda a relação entre uma forma e outra (função interna), entre a forma e o. O dialogismo é fundado no pensamento participativo, ou seja, todo sujeito e todo sentido é constituído, em sua identidade, num processo vinculado às relações com outros sujeitos e sentidos. Já a interação é, por sua vez, um lugar de “tensões”, a chamada “arena simbólica da linguagem”, base do fato de sermos seres relacionais, afinal, o sentido nasce da diferença, segundo Sobral (2009, p.7-8).. 1. Tradução & Comunicação: Revista Brasileira de Tradutores Nº. 24, Ano 2012 p. 21-37.
(5) Silvana Ayub Polchlopek, Meta Elisabeth Zilpser, Maria José R. Damiani Costa. 25. significado (função semântica) e entre o sistema da forma e o seu contexto (função externa), segundo Neves (2004, p.6). A autora acrescenta ainda que “o termo função nem sempre tem o mesmo sentido e a mesma abrangência, e que existem diferentes critérios e diferentes níveis de generalização nas diferentes classificações oferecidas dentro de cada quadro teórico.” (Ibid., p.10). Fundamentados nessas informações, cujo objetivo é tecer um panorama dos diversos pontos de vista relacionados ao termo ‘função’ e situar o leitor quanto a sua relação no campo da linguística, o próximo passo é compreender a aplicabilidade do termo ao contexto dos estudos tradutórios, apresentado a seguir.. 3.. FUNCIONALISMO E TRADUÇÃO Situar o leitor na perspectiva funcionalista aplicada à linguística permite que se compreenda a maneira como o funcionalismo atua nos estudos tradutórios, visto que muitos dos termos associados a essa vertente teórica tendem a gerar certa confusão entre os que estudam a linguagem e, mais especificamente, a tradução. Conforme Nobrega (2000), Neves (2004) e Munday (2002), a Alemanha do pósguerra foi pioneira nos estudos relativos a teorias e prática de tradução, além de ter sido o primeiro país a institucionalizar o treinamento de tradutores. Porém, até meados da década de 70, a tradução ainda era vista como uma atividade de mera transferência de códigos em nível de palavra ou frase, fortemente estabelecida nos princípios da busca de equivalência um-para-um2. O funcionalismo surge nessa época para romper com o formalismo saussuriano e a concepção vigente voltada para a arbitrariedade da língua, instaurada como um sistema de regras. A concepção saussuriana conduz a uma visão tradicionalista sobre o processo tradutório, subordinada a noções de equivalência e fidelidade ao texto-fonte. Já o funcionalismo apresenta uma nova perspectiva comunicativa pautada no contexto e na intenção do emissor. Consequentemente, a tradução passa a ser compreendida como um ato ou ação comunicativa, isto é, o texto deixa de ser um todo fechado em si mesmo e passa a comunicar propósitos e intenções específicos entre autor e leitor-final. Gradualmente, as pesquisas passaram também a exigir uma abordagem que considere o texto um todo incluindo seu entorno cultural, ou seja, seu contexto externo. A mudança mais significativa que o funcionalismo traz para os estudos da tradução diz respeito ao processo de produção textual e à própria noção de texto.. 2Equivalentes um-pra-um – equivalentes interlinguais. O conceito de equivalência é abordado em Nord (1997); Munday (2001) e Limongi (2000).. Tradução & Comunicação: Revista Brasileira de Tradutores Nº. 24, Ano 2012 p. 21-37.
(6) 26. Tradução como ação comunicativa: a perspectiva do funcionalismo nos estudos da tradução. Segundo Nord (1991, 1997), Reiss e Vermeer (1996) o processo de tradução passa a ser guiado por um propósito, designado por Vermeer através da palavra grega skopos e é esse propósito que, uma vez estabelecido, deve ser alcançado na cultura alvo, por meio de uma série de questões que o tradutor passa a gerenciar no processo de produção textual e sempre tendo o leitor final como foco. Nesse sentido, o que importa não é a equivalência ou a fidelidade ao texto-fonte, mas se a tradução conseguiu cumprir ou não as necessidades do seu iniciador, isto é, quem solicitou a tradução (autor, tradutor ou outra pessoa que não tenha necessariamente escrito o texto), de maneira apropriada ao seu leitor e contexto final. Dessa maneira, a tradução passa a existir como texto independente na cultura de chegada. Em outras palavras, ser funcionalista em tradução significa ter como foco principal a função (ou funções) inerente(s) aos textos e às traduções, visto que se pressupõe que todo texto, traduzido ou não, detém um propósito específico, uma intenção sustentada na relação presumida entre produtor e leitor(es) final. No entanto, quando se traduz um determinado texto para um contexto/cultura distinto daquele em que foi produzido (situação que pressupõe diferentes leitores), vale ressaltar que esse novo público receptor pensa, sente, observa e avalia o mundo a partir de outra perspectiva, podendo, até mesmo, já ter ou não certo nível de conhecimento em relação ao assunto do texto que vai traduzir. Essas questões devem ser gerenciadas no processo de tradução de modo que o texto referente seja plenamente compreendido por seus novos leitores, isto é, de modo que possam construir sentido, gerar novos conhecimentos a partir do texto. De outra maneira, se não forem considerados os pressupostos previstos pelo funcionalismo, o que se pode garantir é apenas a possibilidade de o leitor decodificar o código escrito, ato que destitui a língua de sua dinâmica transformadora e priva o texto da sua função de prática social comunicativa. Por essa razão, o funcionalismo oferece uma nova visão para o texto: ele é um ato de comunicação, tal como os atos de fala (AUSTIN, 1962) e, nesse sentido, pleno de significações para além das margens da página e até as especificidades culturais do seu contexto de produção e/ou de recepção. Segundo Reiss e Vermeer (1996, p.14), o texto passa a ser definido como uma “oferta informativa” de um produtor para um receptor. Nesse caso, o texto alvo – ao informar o sentido e, muitas vezes, a forma do texto referente (uma receita ou uma carta, por exemplo) – é compreendido como uma oferta informativa sobre outra oferta informativa (o texto referente), funcionado de maneira independente deste e determinando, por sua vez, o conceito de “adequação” (REISS; VERMEER, 1996, p.119), isto é, de adaptação, de ajuste do texto ao novo leitor. Isso se explica em virtude de os textos determinarem as razões e os meios da comunicação (o que e como a pessoa Tradução & Comunicação: Revista Brasileira de Tradutores Nº. 24, Ano 2012 p. 21-37.
(7) Silvana Ayub Polchlopek, Meta Elisabeth Zilpser, Maria José R. Damiani Costa. 27. comunica), situações essas que não são padronizadas, tampouco universais, ou seja, não se pensa e não se tem a mesma imagem de um objeto em lugares diversos. A palavra biblioteca, por exemplo, é capaz de gerar significados e sentidos os mais diversos considerando-se que pode ser pública, universitária ou particular. Os sentidos gerados por ela tornam-se específicos em razão do que a palavra evoca e das sensações que provoca nos leitores a partir de suas experiências pessoais geradas em contextos culturais distintos. Entendendo, portanto, a língua como parte integrante da cultura, o texto passa a ser influenciado (ou condicionado) pelas limitações da situação-em-cultura, isto é, da situação analisada do ponto de vista da cultura que a produz (ou recebe). Realizada entre sociedades distintas, a linguagem passa a representar a cultura no âmbito do que Nord3 chama de comunicação intercultural, isto é, a troca de conhecimento, símbolos e significados em contextos sociais diferenciados: Entendo por “cultura” uma comunidade ou grupo que se diferencia de outras comunidades ou grupos por formas comuns de comportamento e ação. Os espaços culturais, portanto, não coincidem necessariamente com unidades geográficas, linguísticas ou mesmo políticas (Nord, in ZIPSER, 2002, p.38).. Estruturadas dessa maneira como ambientes nos quais as pessoas interagem e trocam conhecimentos, as situações comunicativas ganham “dimensões históricas e culturais que condicionam o comportamento verbal e não verbal de seus agentes, seu conhecimento e expectativas entre si” e, consequentemente, “o ponto de vista a partir do qual eles se encaram entre si e o mundo” (NORD, 1997, p.16 – grifos nossos) aproxima-se de Sobral (2009, p. 4041). A questão que se coloca é que uma vez integrados na mesma cultura, emissor e receptor interagem sem maiores dificuldades; porém, quando pertencem a comunidades culturais diferenciadas, pode haver a necessidade de um intermediário capaz de não só estabelecer como também de manter a comunicação entre os interlocutores. Por essa razão, é comum acreditar que o funcionalismo é apenas uma teoria descritiva. Segundo Nord (1997, p. 2), o funcionalismo não descreve apenas o que pode ser observado no processo de tradução ou os resultados desse processo. O funcionalismo emprega métodos descritivos para localizar e comparar normas e convenções válidas em diversas comunidades culturais; assim, é também normativo e avaliativo em termos da funcionalidade do texto (traduzido ou não) numa determinada situação-em-cultura. Como resultado direto desse novo paradigma, a equivalência não é mais considerada o objetivo maior da tradução, na medida em que a existência de outros elementos passa a. 3Unter “Kultur” verstehe ich eine Gemeinschaft oder Gruppe. Die sich durch gemeinsame Formen des Verhaltens und Handelns von anderen Gemeischaften oder Gruppen unterscheidet. Kulturräume fallen daher nicht zwangsläufig mit geographischen. sprachlichen oder gar staatlichen Einheiten zusamunen.. Tradução & Comunicação: Revista Brasileira de Tradutores Nº. 24, Ano 2012 p. 21-37.
(8) 28. Tradução como ação comunicativa: a perspectiva do funcionalismo nos estudos da tradução. ser considerada fundamental no processo de tradução, a saber: cultura; conhecimento do leitor; função da tradução; propósito e intenção do autor. O tradutor ganha também um papel mais relevante e humano, distante do trabalho mecânico presente em outras teorias. Além de dominar suficientemente as línguas envolvidas, deve ser bi cultural, ou seja, deve ter um bom conhecimento acerca das manifestações culturais dos contextos envolvidos no processo de tradução (contexto de produção do texto referente e de recepção do texto traduzido), a fim de que as intenções do autor do texto referente sejam preservadas e claramente percebidas. A figura do tradutor ganha uma relevância maior à medida que focaliza aspectos pragmáticos e culturais da língua, enfatizando a natureza específica da competência tradutória como algo que vai além da proficiência linguística para a proficiência das particularidades culturais dos grupos sociais envolvidos no processo de tradução. O tradutor é visto por Nord (1991) como um “critical recipient” (receptor crítico) devido a sua capacidade de gerenciar as variáveis culturais e atuar como mediador entre dois códigos, motivo pelo qual está sempre “em conflito” entre as culturas envolvidas e o receptor, indiretamente ativo durante o processo de produção textual. A influência do leitor sobre todo o processo é decisiva, exercendo a função de voz norteadora para o tradutor. Conforme Nord (1997, p.17), os tradutores permitem, dessa maneira, que a comunicação aconteça entre diversas comunidades culturais, mesmo as mais distantes, pois conseguem preencher a lacuna existente entre comportamentos verbais e não verbais, expectativas, conhecimentos prévios e perspectivas distintas. A possibilidade de preencher essa lacuna se explica porque as situações comunicativas são cenários nos quais as pessoas interagem e, diga-se, cenários não universais, mas culturalmente marcados. Outra consequência direta e que implica mudanças nas visões tradicionalistas sobre a tradução é o papel do texto-fonte. Este deixa de ser o critério maior para a tomada de decisões por parte do tradutor, atitude mais comum em teorias fundamentadas na linguística e na equivalência. O texto referente passa a ser visto como uma das várias fontes de informação utilizadas pelo tradutor para dar conta do processo de tradução. Em outras palavras, a sacralidade do texto-fonte é desfeita, permitindo ao tradutor uma maior liberdade quanto às decisões, escolhas, alterações e estratégias (omissão; adição; expansão de informações; alteração de estrutura, por exemplo) que devem ser consideradas caso o contexto de recepção e o público leitor assim o determinem. Os itens informacionais escolhidos pelo tradutor são transferidos para o texto traduzido, seguindo a apresentação que o tradutor acredita ser adequada ao propósito de seu trabalho, fazendo da tradução ela mesma uma oferta de informações para o leitor final (NORD, 1997, p.26).. Tradução & Comunicação: Revista Brasileira de Tradutores Nº. 24, Ano 2012 p. 21-37.
(9) Silvana Ayub Polchlopek, Meta Elisabeth Zilpser, Maria José R. Damiani Costa. 29. Nesse cenário integram-se as teorias de Katherina Reiss, Hans Vermeer e Christiane Nord, três dos principais teóricos funcionalistas em tradução, comentados a seguir.. 4.. ALGUNS TEÓRICOS Tradutora experiente e influenciada ainda pelas noções de equivalência que perduraram boa parte da década de 70, Katherina Reiss desenvolveu o que chamou de ‘tipologia textual’ (ou situações comunicativas) unindo algumas funções e dimensões da linguagem4. Reiss sugeria que a transmissão de funções predominantes do texto-fonte (TF) era fator decisivo para avaliar a adequação do texto-traduzido (TT) ao leitor-final e, para tanto, utilizava critérios de instrução (Instruktionen) intra e extra linguísticos, que foram, posteriormente, expandidos por Christiane Nord (1991). Tais critérios permitiam ao tradutor avaliar o significado do TF, conferindo-lhe o poder de ‘interpretar’ o texto. A abordagem de Reiss considerava três características importantes: i. a transmissão da função predominante do TF era o fator principal para julgar o TT; ii. a importância dos critérios de instrução variava de acordo com a tipologia textual; iii. o reconhecimento de que a função comunicativa do TT poderia divergir daquela do TF e de que o TT poderia ser dirigido a um público diferente do que fora intencionado pelo autor – razão pela qual se fazia necessário avaliar a funcionalidade do TT em relação ao contexto da tradução. De acordo com a perspectiva de Reiss, a tradução ideal seria aquela na qual o propósito na língua de chegada (LC) fosse equivalente em relação ao conteúdo conceitual, a forma linguística e a função comunicativa do TF (apud NORD, 1997, p.9). Mesmo criticada por priorizar o TF, Reiss se destacou por definir, igualmente, a importância do TT para além de estruturas linguísticas em situação de simples equivalência, uma noção que, além de limitar a prática tradutória, não era mais considerada critério determinante de escolhas metodológicas (NORD, 1997). A ponte entre teoria e prática foi instituída por Hans Vermeer5 conforme seu objetivo de se afastar das teorias linguísticas. Seu posicionamento é relatado em um trabalho de 1976: A linguística por si só não irá nos ajudar. Primeiro, porque traduzir não é meramente e nem primeiramente um processo linguístico. Segundo, porque a linguística não formulou ainda as perguntas certas para lidar com os nossos problemas. Vamos, então, procurar em outro lugar. (apud NORD, 1997, p.10). Cf. Munday (2002, p.73-4) e Nord (1997, p.9) Cf. Munday (2000, p.79-81) e Nord (1997, p. 27-37) – a skopos foi desenvolvida no final da década de 70 (1978): “Linguistics alone won´t help us. First, because translating is not merely and not even primarily a linguistic process. Secondly, because linguistics has not yet formulated the right questions to tackle our problems. So let’s look somewhere else”. 4 5. Tradução & Comunicação: Revista Brasileira de Tradutores Nº. 24, Ano 2012 p. 21-37.
(10) 30. Tradução como ação comunicativa: a perspectiva do funcionalismo nos estudos da tradução. Vermeer considera a tradução um tipo de transferência na qual signos comunicativos verbais e não verbais são transferidos de uma língua para outra, ou seja, um processo que é visto de maneira semelhante ao ato de fala, só que na escrita: uma ação humana (NORD, 1997, p. 11). Subjaz a essa ideia de “ação” a intenção, o propósito da comunicação, verbalizadas ou não que, por sua vez, encontra-se inserida em um sistema cultural particular e que condiciona sua avaliação. Conforme Nord (1997, p.16 apud von Wright, 1963) ação é o processo de agir e significa que as mudanças no mundo (na natureza) são intencionalmente provocadas ou evitadas. Ação (ou a interação humana) pode ser descrita, portanto, como a mudança ou transição intencional de um estado de relacionamentos para outro e que afeta dois ou mais agentes. E essa interação é comunicativa quando realizada através de signos produzidos intencionalmente por um agente no papel de emissor e dirigido para outro no papel de receptor. Vermeer utilizou a palavra grega skopos (objetivo, propósito) para definir o que chamou de ‘teoria da ação proposital’ ou skopostheory. É o propósito da tradução que determina os métodos e estratégias. a. serem. empregados. pelo. tradutor. para. conseguir. um. resultado. funcionalmente adequado (MUNDAY, 2002, p.79). A skopostheory concentra-se nos aspectos interacionais e pragmáticos da tradução, determinados pelo skopos que se pretende atingir no contexto alvo, voltada a figura do addressee6, conceito presente também na teoria de Nord (1991). Como resultado desse novo paradigma, a tradução voltava-se exclusivamente para o TT, opondo-se a Reiss, para quem o TF era a medida para avaliar a qualidade da tradução. Emprestando conceitos de Reiss e Vermmer, o modelo de análise proposto por Nord (1991; 2005) aparece como uma postura de equilíbrio, estabelecendo o processo de tradução com a atuação conjunta do TF e do TT e a função textual. Subjazem à teoria de Christiane Nord duas importantes qualidades da autora que fundamentam sua concepção de tradução: Nord foi e é, ao longo de sua vida, professora de tradução, além de tradutora juramentada, o que lhe confere uma boa visão sobre a prática real do ofício do tradutor e das dificuldades que novos tradutores podem enfrentar no aprendizado e no exercício da profissão. Alia, em si mesma, a conjugação da teoria e da prática. Além disso, a autora reúne um extenso trabalho acadêmico (teoria, metodologia, pedagogia, estilística comparativa e analise do discurso hispano-germânica) e junto a instituições como CETRA e a European Society for Translation Studies desde 1998. A conjugação teoria-prática lhe confere um aporte de conhecimento bastante amplo sobre a vertente funcionalista.. 6O addressee se caracteriza como receptor ou como público intencionado pelo autor no TF com seus conhecimentos culturais específicos, suas expectativas e necessidades comunicativas.. Tradução & Comunicação: Revista Brasileira de Tradutores Nº. 24, Ano 2012 p. 21-37.
(11) Silvana Ayub Polchlopek, Meta Elisabeth Zilpser, Maria José R. Damiani Costa. 31. Nord aponta para o que parece ser um consenso entre teóricos: o de que uma análise completa do TF deve não só preceder a tradução, como também assegurar ao tradutor total compreensão e interpretação do texto. Desse modo, seria possível explicar suas estruturas linguísticas e textuais, sua relação com os sistemas e normas da língua, além de se obter uma base confiável para a tomada de decisões durante o processo tradutório. Para um tradutor profissional (experiente), tais considerações ocorrem quase “intuitivamente” na prática diária. Porém, a questão é que “propósitos diferentes requerem abordagens diferentes”, sugerindo que os modelos existentes de análise textual não são os mais apropriados à tradução (NORD, 1991, p.1). Dessa forma, o problema a resolver é como conduzir um processo que satisfaça a análise do TF e permita lidar de modo eficiente com os obstáculos que a tradução normalmente expõe. Nord parte da necessidade de um ‘modelo de análise do TF integrado num conceito global de tradução, como referência permanente ao tradutor’ (NORD, 1991, p.1) para desenvolver uma sistematização que possa ser utilizada com qualquer tipologia textual ¡ lembrando a teoria de Reiss ¡ e em qualquer situação de tradução; que tenha como base a função dos elementos e das características observáveis dentro do conteúdo e estrutura do TF; que tenha na figura do tradutor a escolha das estratégias mais adequadas para o propósito da tradução que está trabalhando; que possa ser utilizado pelo profissional em tradução, como forma de reflexão sobre a sua prática, e por trainees (estudantes),enfatizando a sua competência linguística e cultural; e que seja adequado aos estudos da tradução, ao treinamento e à prática tradutória. Portanto, ainda que os textos não sejam produzidos exclusivamente para serem traduzidos, serão submetidos à função de análise, no nível da sentença e acima dela, ou seja, passam por abordagem “de investigação” através de características: externas (macro) e internas (micro) presentes na produção e recepção desse texto. Nord (1997, p.1) define, então, funcionalismo como meio de focalizar a função(ções) dos textos e traduções, especialmente quando elementos dos dois códigos linguísticos/culturas estão envolvidos na transmissão da mensagem entre Emissor ou Produtor Textual (tradutor ou iniciador) e Receptor. Consequentemente e, segundo Nord (1991; 1997; 2005), as situações que determinam ‘o que’ e ‘como’ as pessoas se comunicam podem ser modificadas sempre que a situação comunicativa exigir e/ou se outras variáveis forem colocadas em prática, visto que essas situações ou eventos comunicativos não são institucionalizados ou padronizados, mas ocorrem inseridos em ambientes culturais que as estabelecem e condicionam.. Tradução & Comunicação: Revista Brasileira de Tradutores Nº. 24, Ano 2012 p. 21-37.
(12) 32. Tradução como ação comunicativa: a perspectiva do funcionalismo nos estudos da tradução. Devido à inexistência de contextos comunicativos padronizados, Nord (1997, p.9) compreende o termo “função” como a representação do ato comunicativo que, por sua vez, determina a função que o texto (traduzido ou referente) terá para o público alvo num determinado momento, lugar e, portanto, o propósito que motivará sua produção. Em outras palavras, é o contexto que ajuda a definir a função textual, bem como as estratégias pragmáticas necessárias para concretizá-la. Logo, não há como analisar TF e TT separadamente, visto que um precisa recorrer ao outro para que o processo de tradução ocorra de modo funcional, isto é, que o texto de fato comunique a intenção e o propósito do autor. Por outro lado, a situação de produção do TF nem sempre é a mesma da situação de recepção (leitura) do TT, principalmente se houver uma distância de tempo e espaço entre ambos. A função textual pode, então, ser analisada considerando-se o contexto de produção do TF e o contexto de recepção do TT. Ao analisar o TF, o tradutor tem condições de reconstruir as reações desses primeiros leitores, para só então inferir a intenção do autor. A partir daí, o tradutor é capaz de antecipar as reações do públicoleitor alvo, analisando o contexto sociocultural de recepção (leitura), e definir as estratégias tradutórias para o TT. A função (propósito + intenção do autor) é estabelecida, portanto, no contexto comunicativo e também através dele, ou seja, é o contexto que determina a função do TF e do TT, assim como são as estratégias que determinam o modo como o autor ou o tradutor podem concretizar essa função, valendo-se da articulação de elementos linguísticos. Como os contextos são histórica e culturalmente marcados, isto é, influenciados pelo momento histórico e pela cultura do emissor/leitor, o processo de tradução estabelece o que Nord chama de uma comunicação intercultural considerando-se os seguintes passos: 1) análise da situação comunicativa e das estratégias e articulações linguísticas empregadas pelo autor na produção do TF; 2) análise dos elementos do TF que deverão ser adequados ao propósito comunicativo do leitor da tradução, preservando a intenção do autor, mas alterando a função se for necessário e, 3) produção de uma tradução funcional e adequada às necessidades do Iniciador (I) se houver algum.. 5.. CRÍTICAS Como todo movimento teórico e/ou metodológico que surge para romper barreiras ou se mostrar oposto a algo anteriormente tido como certo, o funcionalismo é criticado em vários aspectos. Tais críticas são válidas na medida em que contribuem para que se conheça o trabalho do tradutor e se possa esclarecer sempre mais o campo de estudos em. Tradução & Comunicação: Revista Brasileira de Tradutores Nº. 24, Ano 2012 p. 21-37.
(13) Silvana Ayub Polchlopek, Meta Elisabeth Zilpser, Maria José R. Damiani Costa. 33. relação a essa nova perspectiva, visto que não se sustentam aquelas que não se baseiam em uma experiência real, em um conhecimento empírico acerca dessa postura tradutória. A seguir discutimos rapidamente algumas dessas críticas, conforme expostas por Nord (2002). Conforme mencionado, o enfoque funcionalista em tradução se fundamenta na teoria do skopos, ou seja, no fato de que todo texto, seja ele um original ou uma tradução, tem uma função e um propósito específicos e que, por essa razão, a maneira como esse texto é produzido, sua estrutura de organização, de linguagem e de informação devem seguir o propósito e a função intencionados e devem estar sempre voltados ao leitor final. Assim, a primeira crítica é a de que pode haver ação sem intenção. Na verdade, nenhuma palavra é dita ou nenhuma ação é executada sem que haja alguma intenção por parte de quem falou ou agiu. O próprio Vermeer define “ação” como um “comportamento intencional” (REISS; VERMEER, 1996). Porém, para a teoria funcionalista, segundo Nord (2002), não é relevante que a ação seja intencional, mas sim que seja interpretada como sendo intencional por alguém, visto que a intenção é o resultado de uma decisão livre numa situação que permite duas ou mais formas de agir (incluindo a escolha sobre o não agir). O mesmo vale para quando se argumenta que, ao traduzir, tendo em mente uma finalidade específica, o tradutor exclui outras possibilidades de interpretação do texto. Sim, é possível que isso aconteça, caso contrário haveria uma tradução para cada um dos leitores numa determinada cultura alvo. O que faz o tradutor é determinar um ponto que seja comum para o grupo de leitores, de forma a tornar possível um critério de decisão e realizar sua tarefa tendo em vista esse grupo, a menos que a tarefa de tradução receba claramente um objetivo potencial e específico. Portanto, todo tradutor, se deseja que sua tradução se torne compreensível, ainda que intuitivamente, pensa num leitor final. Outra questão levantada sobre o leitor final é o fato de que a tradução, à luz do funcionalismo, extrapola os conceitos mais tradicionais sobre o ato tradutório, especialmente quando preconiza que não se precisa partir de um texto-fonte para que se tenha uma tradução, concepção e práticas defendidas por Reiss e Vermeer (1996). Essa rejeição em conceber o princípio do ato tradutório sem um texto de base evidencia, sobretudo, uma contradição dentro da própria academia e do fazer teórico e reflexivo proposto no ambiente acadêmico. Vejamos: busca-se visibilidade para os estudos tradutórios; insiste-se no posicionamento reflexivo, na possibilidade de explorar caminhos e perspectivas diversas sobre um mesmo objeto de estudo e, neste caso específico, as manifestações tradutórias; enfatiza-se a dessacralização do texto fonte focalizando a. Tradução & Comunicação: Revista Brasileira de Tradutores Nº. 24, Ano 2012 p. 21-37.
(14) 34. Tradução como ação comunicativa: a perspectiva do funcionalismo nos estudos da tradução. tradução como processo e não como produto, mas rejeita-se a visão de que a própria interpretação dos fatos, concretizados na fala ou na escrita, já se configura como tradução, “a própria atividade simbólica humana consiste em traduzir (...) ampliando o sentido de tradução (...) pois torna explícitos atos que realizamos no dia a dia sem mesmo nos darmos conta”, seguindo o raciocínio de Sobral (2008, p. 8). A própria teoria da representação cultural (ZIPSER, 2002) comprova e reitera através de inúmeros desmembramentos em pesquisas acadêmicas que não precisamos necessariamente de um texto para que a tradução possa ocorrer. Nesse sentido, de fato não precisamos aceitar o novo, mas devemos estar abertos a ele e admitir que a manifestação tradutória reclama um conceito muito mais amplo, que permita ir além das restrições que acabam sendo impostas a ela. Considerando esse sentido mais amplo, parece infundada a crítica de que o funcionalismo não respeita ou desconsidera o texto original. Para isso lembramos o conceito de texto vigente na teoria: o texto é em sua essência um ato comunicativo (NORD, 1991, p. 12-15), sujeito a variáveis externas e internas à situação comunicativa que o produziu e que, por sua vez, também está sujeita às variáveis persentes na sua recepção. Em outras palavras, não existe “um” original, mas sim tantos “originais” quanto tradutores-leitores existirem, seja esse original o texto propriamente dito, registrado em papel, ou a própria situação de comunicação. Outra questão correlata é o fato de se pensar o funcionalismo apenas como uma teoria de “adaptação” textual. A questão de o leitor final ser o fator de maior destaque no processo de tradução funcionalista não significa que adaptar (ou adequar) o texto a ele seja o único propósito da atividade tradutória. No processo de tradução funcionalista a intenção do autor é respeitada e mantida entre os textos, e esse fator justifica a possibilidade de o processo de tradução funcionalista poder ser aplicado também à literatura, conforme as já conhecidas traduções de Graciliano Ramos e Jorge Amado, por exemplo, para idiomas relativamente distintos da língua portuguesa. Em nenhum momento se perdeu a qualidade ou estilo pessoal da escrita desses autores por se privilegiar o leitor final.. 6.. CONSIDERAÇÕES FINAIS Delisle e Woodsworth (1998), no prefácio de “Os tradutores na história”, afirmam que as pessoas têm traduzido desde tempos imemoriais e que os tradutores têm sido elos vitais na transmissão de conhecimentos entre sociedades separadas por barreiras linguísticas e, devemos acrescentar, também culturais. Se o propósito de um texto é, independente de. Tradução & Comunicação: Revista Brasileira de Tradutores Nº. 24, Ano 2012 p. 21-37.
(15) Silvana Ayub Polchlopek, Meta Elisabeth Zilpser, Maria José R. Damiani Costa. 35. sua área de conhecimento, ser uma oferta de informação, ela deve ser clara (e adequada, se necessário) a qualquer público que possa se beneficiar dessa oferta. Voltando um pouco antes dessas barreiras linguísticas lembramos que, enquanto característica evolutiva, a linguagem foi o fator decisivo para nos diferenciar de outras espécies e que, graças a essa linguagem, pudemos desenvolver a capacidade de criar, organizar e nomear símbolos e significados. Portanto, o ato de traduzir não deve (ou não deveria) ficar restrito apenas a variáveis linguísticas, mas também culturais, temporais, geográficas e identitárias entre emissor (tradutor, iniciador, autor) e destinatários. De acordo com Bakhtin (1992), todo discurso manifestado pelo sujeito sofre também influências ideológicas do próprio autor, do interlocutor e, principalmente, do contexto discursivo em que se enquadra. Assim, pode-se afirmar que a linguagem em tradução, considerando os preceitos bakhtinianos, jamais é neutra, jamais pode ser vista como transcodificação isenta, isto é, como transferência literal de sentidos e signos, justamente porque carrega consigo historicidades, marcas pessoais e visões de mundo específicas. Tudo isso implica a necessidade de acomodações nessa língua, de modo que o destinatário construa sentidos a partir da leitura da tradução e compreenda a existência de Outro como diferente – apenas diferente, e não melhor ou pior, nem agente de dominação ou de submissão. A discussão proposta neste artigo não se pretende uma imposição do funcionalismo a nenhum leitor e nem a sobreposição dessa vertente teórica sobre qualquer outra. Os argumentos visam tão somente torná-la mais transparente para o leitor, a fim de demonstrar que o funcionalismo, assim como qualquer outra perspectiva teórica, é apenas uma entre muitas abordagens para se discutir uma atividade tão complexa como a tradução. De maneira mais geral, queremos dizer que, antes de o texto ser discutido como sendo funcional ou equivalente, como voltado ao leitor ou ao autor, é a própria área da tradutologia que ganha, ao reforçar seus contornos e consolidar a atividade tradutória – seja qual for a concepção adotada – como um território híbrido e múltiplo.. REFERÊNCIAS AUSTIN, J.L. How to do things with words. Oxford University Press, 1962. BAKHTIN, M. Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo, Hucitec, 1992. DELLAGNELO, Adriana K.; RIZZATTI, Mary Elisabeth C. Introdução aos estudos da linguagem. Licenciatura em Letras-Inglês na modalidade à distância. Florianópolis: LLE/CCE/UFSC, 2009. DELISLE, Jean; WOODSWORTH, Judith. Os Tradutores na História. São Paulo: Ática, 1998. Tradução de Sérgio Bath. Tradução & Comunicação: Revista Brasileira de Tradutores Nº. 24, Ano 2012 p. 21-37.
(16) 36. Tradução como ação comunicativa: a perspectiva do funcionalismo nos estudos da tradução. FUNCIONALISMO. In: Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2010. Disponível em: <http://www.infopedia.pt/$funcionalismo>. Acesso em: nov. 2010. LIMONGI, Eliana Maria. The interdependence of extratextual and intratextual factors in translated texts: a sample analysis of Ícaro Brasil, Varig´s Bilingual in-flight magazine. Dissertação submetida (Mestrado em Letras-Inglês) - Universidade Federal de Santa Catarina, 2000. Unpublished. MARTINET, A. Elementos de linguística geral. São Paulo: Martins Fontes, 1978. MUNDAY, Jeremy. Introducing Translation Studies: theories and application. Routledge, NY, 2002 NEVES, Maria Helena de Moura. A Gramática Funcional. Martins Fontes, São Paulo, SP, 2004. Coleção: Texto e Linguagem. NOBREGA, Maria Helena da. Análise funcional de advérbios e adverbiais modalizadores no texto jornalístico. 2000. Tese (Doutorado) - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas – Universidade de São Paulo - USP, São Paulo, 2000. NORD, Christiane. Functionalist Approaches Explained. Manchester, UK: St. Jerome Publishing, 1997. ______. Text Analysis in Translation. Tradução de Christiane Nord e Penelope Sparrow. Amsterdan / Atlanta, GA: Rodopi, 1991. ______. La Traducción como actividad intencional: conceptos-criticas-malentendidos. In: TRIGO, Elena Sánchez; FOUCES, Oscar Diaz (Eds.). Traducción y Communicación, v.3, Vigo: Servicio de publicaciones, 2002. p.109-124. POLCHLOPEK, Silvana. A Interface Tradução-Jornalismo - Um Estudo dos Condicionantes Culturais e de Verbos Auxiliares Modais em Textos Comparáveis das Revistas Veja e Time. 2005. Dissertação (Mestrado em Estudos da Tradução) – Programa de Pós-Graduação – Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC, Florianópolis, 2005. REISS, Katharina e VERMEER, Hans J. Fundamentos para una teoria funcional de la traducción. Tubingen: Akal Ediciones, 1996. Tradução do alemão de: Sandra García Reina e Celia Martín de León. SOBRAL, Adail. Do dialogismo ao gênero. Campinas, SP: Mercado de Letras, 2009. ______. Dizer o “mesmo” aos outros: ensaios sobre tradução. São Paulo: Specialo Books Services Livraria, 2008. WEININGER, Markus. A Verbalklammer: estruturas verbais descontínuas em alemão. 2000. Tese (Doutorado) - Departamento de Letras Estrangeiras Modernas - Universidade Federal de Santa Catarina, UFSC, Florianópolis, 2000. ZIPSER, Meta Elisabeth. Do fato a reportagem: as diferenças de enfoque e a tradução como representação cultural. 2002. Tese (Doutorado) - Departamento de Letras Modernas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas - Universidade de São Paulo, São Paulo, 2002.. Tradução & Comunicação: Revista Brasileira de Tradutores Nº. 24, Ano 2012 p. 21-37.
(17) Silvana Ayub Polchlopek, Meta Elisabeth Zilpser, Maria José R. Damiani Costa. 37. Silvana Ayub Polchlopek Tradutora e professora de Língua Inglesa na Universidade Tecnológica Federal do Paraná UTFPR. Membro do grupo de pesquisa TRAC/CNPq - Tradução e Cultura. Mestre e Doutora em Estudos da Tradução pela Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC, com ênfase em tradução jornalística. Meta Elisabeth Zilpser Professora de Língua Alemã e Tradução na Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC. Membro do Grupo de Pesquisa Tradução e Cultura TRAC/CNPq. Doutora pela Universidade de São Paulo - USP. Maria José R. Damiani Costa Professora de Língua Espanhola, Linguística Aplicada e Tradução da Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC. Membro do Grupo de Pesquisa Tradução e Cultura - TRAC/CNPq e Doutora pela Universidad Complutense de Madrid.. Tradução & Comunicação: Revista Brasileira de Tradutores Nº. 24, Ano 2012 p. 21-37.
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