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Brigas entre adolescentes: Fatores de risco e de proteção

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(1)Encontro Revista de Psicologia Vol. XI, Nº. 16, Ano 2007. BRIGAS ENTRE ADOLESCENTES: FATORES DE RISCO E DE PROTEÇÃO FIGHT BETWEEN ADOLESCENTS: PROTECTION AND RISK FACTORS. Miria Benincasa Universidade de São Paulo – USP. RESUMO. [email protected]. Manuel Morgado Rezende Universidade Metodista de São Paulo UMESP. Lígia M. Furusawa Universidade de São Paulo – USP. A grande incidência de violência, manifestada através de brigas entre grupos de jovens, vem se apresentando como um problema em escolas, instituições de lazer e espaços públicos. Neste estudo, buscou-se identificar a percepção deste risco entre adolescentes, suas causas e fatores de proteção. Para isso, selecionou-se 32 adolescentes, distribuídos em 4 grupos de oito participantes. Dois grupos pertenciam à classe A e dois à Classe D, conforme especificações do IBGE. O instrumento utilizado para obtenção dos dados foi o Grupo Focal. A análise dos dados foi realizada através da Grounded Theory. Relataram como causa destas brigas, principalmente, o ganho social desta prática. Não identificaram conseqüências graves e a forma de proteção apontada foi andar em turma. Identificou-se a necessidade, entre os jovens, de verbalizar suas experiências como forma de refletir sobre alternativas de ação, além da violência. Palavras-Chave: Adolescência; violência; fatores de risco e proteção.. ABSTRACT. Anhanguera Educacional S.A. Correspondência/Contato Alameda Maria Tereza, 2000 Valinhos, São Paulo CEP. 13.278-181 [email protected]. The increasing of violence, evidenced through fights between youth groups, is becoming a common problem in many public spaces. This research searches to identify the risk perceptions among teenagers, their causes and protection factors. The sample was composed by 32 adolescents, distributed among 4 groups with eight participants. Two groups belongs to the A social class and the other two groups belongs to the D social class, according to IBGE’s classification. It was used a group method to obtain data. Data analyses were based in grounded theory. They related social gains as motivation to fight. Serious consequences weren’t identified and a protection way to avoid the fights related was belong to a group. They showed a need to talking about their experiences as a way to reflect about actions alternatives, instead to use violence. Keywords: Adolescence; violence; risk and protection factors.. Coordenação Instituto de Pesquisas Aplicadas e Desenvolvimento Educacional - IPADE Artigo Original Recebido em: 04/06/2007 Avaliado em: 16/06/2007 Publicação: 27 de outubro de 2008 223.

(2) 224. Brigas entre adolescentes: Fatores de risco e de proteção. 1.. INTRODUÇÃO Segundo Meneghel, Giugliani e Falceto (1998), os conceitos de agressão, agressividade e violência, envolvem múltiplos enfoques e direcionamentos. Podem estar inseridos dentro de referenciais biológicos comportamentalistas, de modelos exclusivamente psiquiátricos ou de abordagens mais amplas, como a da violência estrutural, proporcionada pelo próprio sistema social com suas desigualdades. Para estes autores, a literatura psiquiátrica tem se mostrado contraditória, ambígua e mesmo preconceituosa na abordagem do tema agressividade na infância e adolescência. Enfatizam, prioritariamente, os aspectos legais da violência, principalmente, quando relacionados a danos à propriedade privada, em detrimento das condutas socialmente destrutivas aos jovens. Acrescentam ainda que outro grupo de pensadores percebe as condutas violentas como estratégia de sobrevivência das classes populares, vítimas das contradições do capitalismo no País. Jovens violentos podem pertencer a culturas marginais e apresentar comportamentos agressivos como forma de defesa, adaptação ao grupo ou ascensão social. A evidência de que o número ascendente da mortalidade por causas externas está ocorrendo com maior freqüência nos grupos mais jovens, tem sido mostrada em estudos em várias partes do mundo, prioritariamente, por dois motivos: sua repercussão imediata de índices elevados e por sua projeção nas idades mais produtivas da vida, quando se analisa o indicador “anos potenciais de vida perdidos” (Jeammet, 2004; Sauer & Wagner, 2003). A grandiosidade da violência no segmento infanto juvenil, atualmente, no Brasil, foi reconhecida como um importante problema de saúde pública, levando autoridades e pesquisadores a desenvolverem propostas de prevenção e assistência frente à violência contra esse contingente populacional (Barros, Ximenes, & Lima, 2001). Souza, Gonçalves e Silva (1997) afirmam que, a morte por causas externas ocupava o quarto lugar nos índices de mortalidade geral do Brasil, no início da década de 80. No final, as causas externas se configuravam na segunda causa morte geral e primeira entre adolescentes e, estas causas externas, são as principais responsáveis por anos potenciais de vida perdidos. Alguns estudos que vêm embasar esta observação e, a título de exemplo, citase uma pesquisa realizada para identificar causas de morte juvenil nas capitais de São Paulo e Rio de Janeiro de 1930 a 1991 (Vermelho & Melo Jorge, 1996), apontam que, até. Encontro: Revista de Psicologia • Vol. XI, Nº. 16, Ano 2007 • p. 223-236.

(3) Miria Benincasa, Manuel Morgado Rezende, Lígia M. Furusawa. 1960, as doenças infecciosas, principalmente a tuberculose eram causa da mortalidade elevada. Após esta década, no entanto, as causas violentas ocuparam a primeira posição, principalmente acidentes de trânsito e homicídio. Algumas doenças originadas por grande exposição a riscos sociais, como doenças respiratórias e AIDS, também se destacaram. Os homicídios e os acidentes automobilísticos, entre todas as causas externas violentas, foram os que apresentaram taxas de mortalidade sempre crescentes nas duas cidades. Outro estudo, também relacionado a fatores de risco envolvendo adolescentes, realizado em escolas públicas e particulares da cidade de São Paulo (CarliniContrim, Gazal-Carvalho & Gouveia, 2000), confirmam a maior exposição entre jovens de escolas públicas são nas áreas de trânsito, de violência e de comportamento sexual de risco. Nas escolas particulares, as áreas de maior exposição são: consumo de drogas, violência e trânsito. Na rede estadual, os resultados declaram que: 17% dos estudantes não possuem hábito de colocar cinto de segurança; 70,4% dos usuários de motocicleta (39,1%) não usam capacete; 4,8% portam armas de fogo, chegando a 9% entre o sexo masculino; 12,7% das estudantes do sexo feminino tentaram suicídio nos últimos 12 meses. Quanto às práticas sexuais, cerca de um terço daqueles que já tiveram relação sexual completa, deixaram de usar preservativos e, aproximadamente um quarto deles, não usaram qualquer método contraceptivo na última relação. 23,6% dos estudantes que referiram comportamento de risco para o álcool, nos últimos 30 dias, relatam envolvimento em pelo menos uma briga por agressão física nos últimos 12 meses. Nas escolas particulares, o consumo de maconha e o risco de álcool são praticados por cerca de um quarto da amostra pesquisada, sendo o uso habitual de cigarros e uso de inalantes também consideráveis. Quase 12% relatam porte de armas; 8,3% das estudantes relatam tentativa de suicídio nos últimos 12 meses. No trânsito, é comum o uso de cinto de segurança, mas quando se trata de motocicleta (39,4% no último anos), a prática vem quase sempre desacompanhada de uso de capacete (66,3% dos que andaram nos últimos 12 meses. 35,3% dos estudantes que relatam risco para uso de álcool se envolveram em pelo menos uma briga com agressão física nos últimos meses). Gianini, Litvoc e Eluf Neto (1999) identificaram que, homens solteiros e separados e mulheres em relações informais, estão expostos a maior risco. Este dado tem sido atribuído a maior freqüência de saídas noturnas e hábitos solitários, enquanto o risco aumentado nas uniões informais está no fato de serem muitas vezes conflituosas e instáveis. Meneghel, Giugliani e Falceto (1998) relatam que o comportamento agressivo dos adolescentes certamente está relacionado com as várias formas de violência,. Encontro: Revista de Psicologia • Vol. XI, Nº. 16, Ano 2007 • p. 223-236. 225.

(4) 226. Brigas entre adolescentes: Fatores de risco e de proteção. explícitas ou não, que eles vivem na família, na escola e em outras instituições sociais, muitas das quais, com a função de protegê-los.. 2.. OBJETIVOS Os objetivos deste estudo foram investigar, entre adolescentes, a percepção do risco de violência e briga durante este período da vida; identificar o que relatam como fatores de risco e compreender o que consideram como fatores de proteção ao refletir sobre o tema.. 3.. MÉTODO. 3.1. Participantes Foram selecionadas, pelo critério de conveniência, três escolas de ensino médio e fundamental, de duas cidades da região sudeste do Brasil. Duas escolas estão localizadas na cidade de São Paulo e uma escola de uma cidade de tamanho médio do interior de Santa Catarina. A inclusão de distintas regiões geográficas objetivou contemplar diferenciações sociodemográficas, na formação da amostra. As localizadas na região metropolitana São Paulo foram: uma particular, de um bairro nobre da cidade, que disponibilizou sujeitos de classe A; outra pública, localizada na periferia da cidade, que disponibilizou os sujeitos de Classe D. A terceira escola, localizada no interior o estado de Santa Catarina disponibilizou dois grupos: indivíduos de classe A que estudavam pela manhã e indivíduos de classe D que estudavam a noite. As determinações de classes A e D dos participantes dos grupos foram delineadas segundo as normas do IBGE. Selecionaram-se, em cada escola, 12 adolescentes com as características de idade e classe social estabelecidas para este estudo. Foi apresentada a proposta e combinadas as datas. O número de oito participantes foi atingido para cada grupo, respeitados os critérios estabelecidos pelos próprios adolescentes, sob a coordenação da pesquisadora, a partir do interesse em participar desta atividade e disponibilidade no horário proposto. Adotou-se a mesma sistemática nos demais grupos para homogeneizar a composição numérica de participantes. Os adolescentes e seus responsáveis assinaram termo de consentimento livre e esclarecido. Os grupos foram considerados: Grupo1 (G1), pertencente a classe social A de Santa Catarina; Grupo 2 (G2), classe social A. Encontro: Revista de Psicologia • Vol. XI, Nº. 16, Ano 2007 • p. 223-236.

(5) Miria Benincasa, Manuel Morgado Rezende, Lígia M. Furusawa. de São Paulo; Grupo 3 (G3), classe social D de São Paulo e; Grupo 4, classe social D de Santa Catarina. Foram selecionados 32 adolescentes entre 14 e 18 anos incompletos, sendo 16 do sexo feminino e 16 do sexo masculino. Para selecionar estes adolescentes, primeiramente foi aplicado o questionário ABEP (Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa, 2002) de classes econômicas, encontrando os sujeitos das classes A1 e D, determinadas para este estudo. Foi feito o convite a todos aqueles que contemplavam esta classificação. Em todos os grupos houve um número de candidatos maior que oito. A seleção final ocorreu em função da disponibilidade de horário para participar das atividades propostas pela pesquisadora, mantendo-se o número de quatro adolescentes do sexo feminino e quatro do sexo masculino em cada grupo. Metade da amostra pertencia à classe social A e metade à classe D, segundo especificações da ABEP. O número de participantes foi definido pelo critério de oito participantes por grupo focal, sugerido por Osório (2000). A opção pelas classes sociais A e D deveu-se ao interesse por identificar a percepção deste risco nas duas classes sociais extremas, excluindo-se a classe E, porque esta faixa etária está, freqüentemente, ausente das escolas.. 3.2. Procedimento Foi um estudo exploratório e de natureza qualitativa, empregando-se o Grupo Focal. Carlini-Contrim (1996, p. 286) descreve o Grupo Focal como “um método de pesquisa qualitativa que pode ser utilizado no entendimento de como se formam as diferentes percepções e atitudes acerca de um fato, prática, produto ou serviço”. Acrescenta que “a essência do grupo focal consiste em se apoiar na interação entre seus participantes para colher dados, a partir de tópicos que são fornecidos pelo pesquisador (moderador do grupo)” (Carlini-Contrim, 1996, p. 286). O material obtido, segundo esta autora, é a “transcrição de uma discussão em grupo, focada em um tópico específico” (p. 286). O roteiro adotado para investigar o tema incluiu as seguintes questões: “Vocês acham que violência e briga são riscos na adolescência? Como o adolescente se expõe a este risco? Por que desta exposição? Como é possível se proteger deste risco?” Antes do início da atividade, foram definidas as regras de participação: a) falar uma pessoa de cada vez; b) evitar discussões paralelas para que todos participem; c) ninguém pode dominar a discussão; d) todos têm o direito de dizer o que pensam;. Encontro: Revista de Psicologia • Vol. XI, Nº. 16, Ano 2007 • p. 223-236. 227.

(6) 228. Brigas entre adolescentes: Fatores de risco e de proteção. e) todos se comprometeram com o respeito e o sigilo sobre os diversos pontos de vista manifestados na atividade. Foram realizadas três sessões de 90 minutos com cada grupo e o papel do coordenador foi o de facilitar e incentivar as discussões sobre o tema Todas as sessões foram filmadas e, posteriormente, transcritas na íntegra. A análise dos dados iniciou-se com uma codificação dos dados extraindo-se três categorias: I. Fatores de Risco para briga e violência; II. Conseqüências deste risco e; III. Fatores de Proteção para este risco. A partir destas categorias estabeleceram-se subcategorias que foram organizadas com citações literais dos participantes dos grupos. Elaborou-se, então, uma apresentação deste material, que contemplasse as percepções dos adolescentes. Estes resultados foram discutidos à luz de artigos encontrados sobre o tema.. 4.. RESULTADOS Serão apresentadas as categorias I. Fatores de risco, II. Conseqüências e III. Fatores de Proteção. Paralelamente, as subcategorias serão exemplificadas a partir de citações que ilustrem os principais dados da análise. No final de cada citação será indicado o grupo ao qual pertence o relato. Todas as subcategorias aqui descriminadas foram apontadas por todos os grupos, no entanto, serão apresentadas apenas duas citações de cada categoria.. 4.1. Fatores de Risco É escolha “Não é exatamente um risco, né? Porque a gente briga porque a gente quer.” (G1) “(...) Mas tem muita gente que já sai pra brigar. Já vai pra balada a fim de brigar com alguém. (...)” (G2). Demarcar território, competir “(...) É aquela história de competição que a gente falou. Tem as competições boas e as ruins. Estas talvez sejam das ruins.” (G1) “(...) é só um não gostar do outro, não ir com a cara mesmo que pode acontecer alguma treta.” (G3). Encontro: Revista de Psicologia • Vol. XI, Nº. 16, Ano 2007 • p. 223-236.

(7) Miria Benincasa, Manuel Morgado Rezende, Lígia M. Furusawa. Estímulo externo “Teve uma vez que um cara passou por mim e me chamou de merda. (...) Aí briguei com o cara. Mas eu não vou atrás se mexer comigo eu também não saio correndo, mas eu não vou atrás.” (G2) “É mais ou menos assim. Por exemplo, eu tô com minha mina na balada e vejo que tem um cara querendo xavecar. O que eu vou fazer? Já chego junto. Se eu estiver com os meus amigos, nem penso duas vezes.” (G3). Popularidade e Poder “Mas não dá pra você ficar por baixo. Se acontece isso, você perde totalmente a moral, as pessoas vão ficar te chamando de nerd, babaca e mina nenhuma vai querer ficar com você. Vai ficar como um cara que apanha e não faz nada.” (G3) “Ah! É pra se mostrar pras gurias, pra se mostrar pra todo mundo.” (G4). Defesa “(...) Acho que a briga, quando acontece é pra se defender de alguma coisa.” (G1) “(...) Não é bem assim, às vezes acontece briga de piá nos bailes. Principalmente pra defender as gurias, pra se defender de outros piás (...).” (G4). 4.2. Conseqüências Não há conseqüência grave “Acho que não é uma violência que chegue a não ser sadia (...).” (G1) “Ah! Isso é normal, acontece sempre. Alguém se machuca, mas não é nada grave.” (G4). Perdas sociais “O problema é de depois da briga, se você se machuca, acaba a festa. Você tem que ir pra casa.” (G1) “(...) porque eu vou ser de maior e posso ser preso. Hoje meu pai resolve tudo pra mim, mas depois dos dezoito eu vou ter que resolver sozinho, né? Vou ter que pensar duas vezes antes de fazer as coisas que eu faço.” (G2). Encontro: Revista de Psicologia • Vol. XI, Nº. 16, Ano 2007 • p. 223-236. 229.

(8) 230. Brigas entre adolescentes: Fatores de risco e de proteção. Se machucar ou machucar alguém “(...) Eles podem morrer. Muitas vezes vão todos para o hospital depois de brigar.” (G3) “O problema é que acaba com o baile e sai gente até machucada de lá”. (G4). 4.3. Fatores de Proteção Criar alternativas alem de brigar (...) Acho que existem outras alternativas pra se resolver um problema. Eu, por exemplo, nunca briguei e tenho vontade de nunca brigar. Não é por covardia. É porque realmente não acho que é o melhor jeito de resolver problemas.” (G2) “Além disso, não é todo mundo que briga, são mais os piá que tem dinheiro. A gente sabe conversar direito.” (G4). Andar em turma “É, as vezes não tem jeito e por isso não dá pra ficar sozinho, tem que estar em turma.” (G1) “Por isso que eu também saio em turma. Se neguinho tretar já sabe que leva.” (G3). 5.. DISCUSSÃO Ao sugerir o tema violência para os sujeitos pesquisados, este foi identificado, pelos mesmos, como briga entre iguais, individualmente ou em grupo. Contudo, não foram encontrados, nas fontes pesquisadas, artigos que abordassem o tema briga diretamente. Utilizou-se, para esta discussão, artigos que fizessem menção indireta a este tema, mas que tinham como objetivos gerais: mortalidade, violência, promoção de saúde e adolescência. Quanto às propriedades comuns a todos os sujeitos sobre “violência como briga”, encontraram-se como fatores de risco: “é escolha”; “demarcar território, competir”; “estímulo externo”; “popularidade e poder”; “defesa”. Foi unânime a afirmação de que muitos adolescentes brigam porque escolhem fazer isso, principalmente a noite, quando pretendem se divertir. Musa e Costa (2002). Encontro: Revista de Psicologia • Vol. XI, Nº. 16, Ano 2007 • p. 223-236.

(9) Miria Benincasa, Manuel Morgado Rezende, Lígia M. Furusawa. também encontraram relação entre comportamento violento e diversão. No presente estudo, 13 (40%) adolescentes, do sexo masculino, assumiram ter escolhido brigar, mesmo sem motivos claros, pelo menos uma vez na vida. Os adolescentes apontaram que a briga, freqüentemente, é uma “escolha” e pode ser originada por: intenção de “defesa”, necessidade de “popularidade e poder” ou “estímulo externo”. Meneghel, Giugliani e Faceto (1998) questionam esta escolha e esta intenção relatando que, possivelmente, esta manifestação da agressividade representa uma forma de defesa à sociedade (família, escola e outras instituições sociais), também violenta. Taquette, Ruzany, Meirelles e Ricardo (2003) apontam que os adolescente escolhem o comportamento de briga para solucionar várias de suas dificuldades. Quanto ao fator de risco “estímulo externo”, os adolescentes pesquisados demonstraram não ter interesse em desencadear uma briga, no entanto, ficam determinados a brigar quando são estimulados pelos seus pares. Se o sujeito concorda em brigar e ganha esta briga, aumenta a “popularidade e o poder”. Todos os participantes masculinos apontaram o “estímulo externo” (de outros adolescentes) como desencadeador de brigas. As meninas, em todos os grupos, demonstraram não concordar com essa afirmação. Disseram que: há opção de não brigar, apesar do estímulo; todos os meninos envolvidos em brigas relatam que o outro (sempre o outro) foi o primeiro agressor. Porem, tanto meninos como meninas concordam que há privilégios sociais para quem vence as brigas. Alguns autores, em seus estudos, encontraram esta intenção de adquirir popularidade e poder através de comportamentos violentos. Meneghel, Giugliani e Faceto (1998) afirmam que há grande incentivo social para a violência, pois, assumir comportamentos violentos, promove maior popularidade entre os iguais. Esta popularidade também é indicada pelo estudo de Musa e Costa (2002) que revela a intenção, do adolescente, de evidenciar força e superioridade perante os iguais através da violência. A subcategoria “defesa” se confundiu com a subcategoria “popularidade e poder” durante as discussões. Ao justificarem os motivos pelas quais têm que se defender, argumentam defender a namorada, o território e também a própria masculinidade e popularidade. Quanto ao fator de risco “demarcar território”, os adolescentes concordaram que, freqüentemente, as brigas podem ocorrer por disputas: de lugar, de parceiras amorosas, de amigos e de idéias, o que chamaram de “demarcar território”. Em apenas dois grupos (G3 e G4) foram citadas brigas entre meninas. Nenhuma das participantes relatou ter estado envolvidas em brigas com contato físico, apenas em discussões verbais. Todos os estudantes que abordaram este tema, afirmaram que a freqüência de. Encontro: Revista de Psicologia • Vol. XI, Nº. 16, Ano 2007 • p. 223-236. 231.

(10) 232. Brigas entre adolescentes: Fatores de risco e de proteção. brigas entre meninos é maior do que entre meninas. Musa e Costa (2002) encontraram resultados semelhantes, relatando que, entre os sujeitos de sua pesquisa, foi freqüente a utilização da violência entre grupos com o objetivo de competir e disputar, almejando valorização social e delimitação de espaços. Esta afirmação demonstra a necessidade dos adolescentes estudados pelo autor de demarcar território. Quanto às conseqüências comuns a todos os grupos estudados, identificaramse: “não há conseqüência grave”, “perdas sociais” e “se machucar ou machucar alguém”. Durante toda a discussão deste tema, os meninos tenderam a minimizar as conseqüências decorrentes ao envolvimento em brigas. Demonstraram sentir-se magicamente protegidos: ou pela turma ou pelos pais ou por se sentirem fortes e poderosos. Pechansky, Szobot e Scivoletto (2004), confirmam o resultado de que não há conseqüência grave em brigar, segundo os adolescentes que pesquisaram. Considerando as características deste período de desenvolvimento, este pensamento mágico, inerente ao desenvolvimento psicológico do adolescente, corresponde à idéia preconcebida de que nada de ruim poderá acontecer com ele, independente das ações praticadas, sejam elas conduzir em alta velocidade (Benincasa, & Rezende, 2006), consumir álcool (Kuntsche &, Gmel, 2004), ou assumir comportamentos violentos, como demonstraram neste estudo. Esta sensação de estar protegido potencializa a exposição a riscos. Santos Junior (1999) também identificou este funcionamento nos adolescentes que estudou. Taquette, Meirelles e Ricardo (2003), associam este comportamento violento ao fato de que os adolescentes e jovens que pesquisaram viverem num meio social onde a violência está presente como meio usual de resolução de conflitos, o que justifica muitas de suas ações violentas. No entanto, neste estudo, foram pesquisados adolescentes de classe social A, onde, supostamente, a violência não é tão presente e, mesmo assim, está naturalizada através das brigas. Durante as discussões, foram as meninas que sugeriam alguns prejuízos nesta prática, sendo acatados pela maioria e, desta forma, introduzindo as discussões para as subcategorias “perdas sociais” e “machucar-se ou machucar alguém”. A conseqüência “perdas sociais” foi abordada pelos participantes, tanto na sua relação com o adulto (diminuição da confiança e da credibilidade) e na perda de respeito pelos seus pares. Demonstraram receio de receber punições das figuras de autoridade como pais ou policiais, sendo proibidos de sair a noite, ir à casa de amigos, receber mesada ou ir para a delegacia. Meneghel, Giugliani e Falceto (1998) afirmam que,. Encontro: Revista de Psicologia • Vol. XI, Nº. 16, Ano 2007 • p. 223-236.

(11) Miria Benincasa, Manuel Morgado Rezende, Lígia M. Furusawa. freqüentemente, os jovens são rotulados negativamente pelos adultos, quando apresentam comportamentos violentos. A perda na relação com os pares foi apresentada como perder o respeito de seus amigos que, muitas vezes, é conquistado pela força. Durante a discussão destas perdas sociais, muitas vezes, foram contraditórios com as informações apresentadas anteriormente (não há conseqüência grave). Quando apontei tais contradições, tenderam novamente a minimizar as perdas. Resultados semelhantes foram encontrados nos estudos de Meneghel, Giugliani e Falceto (1998) e Taquette, Meirelles e Ricardo (2003). Quanto à conseqüência machucar-se ou machucar alguém, apesar de todos os grupos terem apontado essa possibilidade, os adolescentes demonstraram preocupação e medo de saírem machucados de uma briga. No entanto, as adolescentes, consideraram a possibilidade de seus amigos, namorados e conhecidos machucarem outras pessoas. Elas tenderam a repudiar atitudes de briga enquanto eles mostraram interesse em continuar com esta prática. Não houve referência a esta questão na literatura consultada. Este fato deve-se, hipoteticamente, à prioridade dos autores em estudar outras formas de violência e preterindo o tema briga entre adolescentes. Quanto aos fatores de proteção participados por todos os sujeitos, verificouse: criar alternativas além de brigar e andar em turma. Embora 90,7% (29) dos adolescentes do sexo masculino tenham admitido ter se envolvido em briga em algum momento, mesmo que tenha sido apenas estimulando ou olhando (40% admitiram ter entrado num combate físico), todos concordaram que existem outras alternativas para resolver cada um dos problemas apontados como causadores das brigas. Campos, Del Prette, e Del Prette (2000), em estudo com meninos de rua, identificaram a capacidade de negociação, de dizer e aceitar o não como alternativas para o não envolvimento em atividades agressivas ou ilegais. Os autores acrescentam, assim como os sujeitos deste estudo, que criar estas alternativas para não ceder aos impulsos ou ao meio tendem a ser valorizadas por alguns adolescentes. Taquette, Ruzany, Meirelles e Ricardo (2003), relatam que em situação de ciúme ou traição efetiva, alguns rapazes tendem a se envolver predominantemente em discussões como solução para não brigar. Ao serem discutidas alternativas para não brigar, os adolescentes apontaram “andar em turma” como um fator de proteção recorrente. A turma, segundo relatam, protege o adolescente, pois, inibe que alguém o provoque para uma briga. No entanto, a literatura aponta que as turmas são fator de risco para brigas e conflitos. Musa e Cos-. Encontro: Revista de Psicologia • Vol. XI, Nº. 16, Ano 2007 • p. 223-236. 233.

(12) 234. Brigas entre adolescentes: Fatores de risco e de proteção. ta (2002) demonstram encontrar entre os sujeitos de sua pesquisa freqüentes conflitos entre grupos. Schoen-Ferreira, Aznar-Farias, e Silvares (2003) consideram o grupo de pares, constituído na adolescência, como um "laboratório social". As relações igualitárias e recíprocas permitem a exploração de diversos tipos de comportamentos, favorecendo o desenvolvimento do adolescente. Os pares, realmente, exercem forte influência, mas, em geral, os adolescentes tendem a escolher amizades que sejam como eles próprios, influenciando-se mutuamente, tornando-se mais parecidos. Os adolescentes associam-se a grupos que compartilham seus valores, atitudes e comportamentos.. 6.. CONSIDERAÇÕES FINAIS As brigas, para os sujeitos pesquisados, simbolizam uma medida justa para demarcação de território e para a aquisição de poder entre os iguais. Na discussão deste tema, a tendência grupal foi marcada pela idéia de proteção física, embora esteja subentendida a proteção psicológica que o grupo de pertença propõe, pois, serve como um espaço transicional, de emancipação e construção da identidade social. Foi percebido, através das atividades realizadas, a necessidade que os adolescentes possuem de falar sobre suas experiências. A impossibilidade de expressar o que pensam e sentem acaba os conduzindo à ação. Se o adolescente é alguém caracterizado pelo “pensamento-ação”, ou seja, pensa na ação, a falta de oportunidade para refletir sobre todos estes temas, provavelmente o expõe a mais riscos, os quais não pode refletir, até o momento em que a situação-risco se impõe.. REFERÊNCIAS ABEP - Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (2002). Critério de classificação econômica no Brasil. Acesso em 22 de abril, 2007, em http://www.abep.org/codigosguias/ABEP_CCEB.pdf. Barros, M. D. A., Ximenes, R., & Lima, M. L. C. (2001). Mortalidade por causas externas em crianças e adolescentes: Tendências de 1979 to 1995. Revista de Saúde Pública, 35(2), 142-149. Benincasa, M., & Rezende, M. M. (2006). Percepção de fatores de risco e de proteção para acidentes de trânsito entre adolescentes. Boletim de Psicologia, LVI (125), 241-256. Campos, T. N., Del Prette, Z. A. P., & Del Prette, A. (2000). (Sobre)vivendo nas ruas: Habilidades sociais e valores de crianças e adolescentes. Psicologia: Reflexão e Crítica, 13(3), 517-527. Carlini-Contrim, B., Gazal-Carvalho, C., & Gouveia, N. (2000). Comportamento de saúde entre jovens estudantes das redes pública e privada da área metropolitana do Estado de São Paulo. Revista de Saúde Pública, 34(6), 636-645.. Encontro: Revista de Psicologia • Vol. XI, Nº. 16, Ano 2007 • p. 223-236.

(13) Miria Benincasa, Manuel Morgado Rezende, Lígia M. Furusawa. Carlini-Contrim, B. (1996) Potencialidades da técnica qualitativa Grupo Focal em investigações sobre abuso de substâncias. Revista de Saúde Pública, 30(30), 285-293. Gianini, R. J., Litvoc, J., & Eluf Neto, J. (1999). Agressão física e classe social. Revista de Saúde Pública, 33(2), 180-186. Jeammet P. (2004). L'adolescent, aujourd'hui: Réflexions d'un clinicien sur la violence à l'adolescence. Bull Acad. Nati. Med. 188(8), 1347-1360. Kuntsche, E. N., & Gmel, G. (2004). Emotional wellbeing and violence among social and solitary risky single occasion drinkers in adolescence. Addiction. 99(3), 331-339. Meneghel, S. N., Giugliani, E. J., & Falceto, O. (1998). Relações entre violência doméstica e agressividade na adolescência. Cadernos de Saúde Pública, 14(2), 327-335 Muza G. M., & Costa, M. P.(2002). Elementos para a elaboração de um projeto de promoção à saúde e desenvolvimento dos adolescentes: O olhar dos adolescentes. Cadernos de Saúde Pública, 18(1), 321-328. Pechansky, F., Szobot, C. M., & Scivoletto, S. (2004). Uso de álcool entre adolescentes: Conceitos, características epidemiológicas e fatores etiopatogênicos. Revista Brasileira de Psiquiatria, 26(1), 14-17. Sauer, M. N., & Wagner, M. B. (2003). Acidentes de trânsito fatais e sua associação com a taxa de mortalidade infantil e adolescência. Cadernos de Saúde Pública., 19(5), 1519-1526. Schoen-Ferreira, T. H., Aznar-Farias, M., & Silvares, E. F. M.(2003). A construção da identidade em adolescentes: Um estudo exploratório. Estudos de Psicologia, 8(1), 107-115. Souza, E. R., Gonçalves, S. A., & Silva, C. M. F. P. (1997). Violência no Município do Rio de Janeiro: Áreas de risco e tendências da mortalidade entre adolescentes de 10 a 19 anos. Revista Panamericana de Saúde Pública,1 (5), 389-398. Taquette, S. R., Ruzany, M. H., Meirelles, Z., & Ricardo, I. (2003). Relacionamento violento na adolescência e risco de DST/AIDS. Cadernos de Saúde Pública, 19(5), 1437-1444. Vermelho, L. L., & Melo Jorge, M. H. P. (1996). Mortalidade entre jovens: Análise do período de 1930 a 1991 (a transição epidemiológica para a violência). Revista de Saúde Pública, 3(4), 198210. Miria Benincasa Mestre em Psicologia da Saúde pelo Programa de Pós Graduação em Psicologia da Saúde Universidade Metodista de São Paulo (UMESP). Doutoranda do Programa de Pós Graduação em Psicologia da Aprendizagem e do Desenvolvimento Humano da Universidade de São Paulo – USP. Manuel Morgado Rezende Doutor em Saúde Mental pela Universidade de Campinas – UNICAMP. Professor e Orientador do Programa de Pós Graduação em Psicologia da Saúde da Universidade Metodista de São Paulo – UMESP.. Encontro: Revista de Psicologia • Vol. XI, Nº. 16, Ano 2007 • p. 223-236. 235.

(14) 236. Brigas entre adolescentes: Fatores de risco e de proteção. Lígia M. Furusawa Mestre em Psicologia pelo Programa de Pós Graduação em Psicologia da Aprendizagem e do Desenvolvimento Humano da Universidade de São Paulo (USP). Doutoranda do Programa de Pós Graduação em Psicologia da Aprendizagem e do Desenvolvimento Humano da Universidade de São Paulo – USP.. Encontro: Revista de Psicologia • Vol. XI, Nº. 16, Ano 2007 • p. 223-236.

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