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Um panorama do Contrato de Aprendizagem no município de Caicó/RN

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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE CENTRO DE ENSINO SUPERIOR DO SERIDÓ

CURSO DE GRADUAÇÃO EM DIREITO

MATHEUS MAZUKYEWSKY OLIVEIRA DE MEDEIROS

UM PANORAMA DO CONTRATO DE APRENDIZAGEM NO MUNICÍPIO DE CAICÓ/RN

CAICÓ/RN 2019

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MATHEUS MAZUKYEWSKY OLIVEIRA DE MEDEIROS

UM PANORAMA DO CONTRATO DE APRENDIZAGEM NO MUNICÍPIO DE CAICÓ/RN

Monografia apresentada à Universidade Federal do Rio Grande do Norte como pré-requisito parcial para a conclusão no curso de graduação em Direito, campus CERES/CAICÓ. Orientador: Prof. Dr. Carlos Francisco do Nascimento.

CAICÓ/RN 2019

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Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN Sistema de Bibliotecas - SISBI

Catalogação de Publicação na Fonte. UFRN - Biblioteca Setorial Profª. Maria Lúcia da Costa Bezerra - - CERES--Caicó Medeiros, Matheus Mazukyewsky Oliveira de.

Um panorama do contrato de aprendizagem no município de Caicó/ RN / Matheus Mazukyewsky Oliveira de Medeiros. - Caicó, 2019. 51f.: il.

Monografia (Bacharelado em Direito) - Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Centro de Ensino Superior do Seridó - Campus Caicó. Departamento de Direito. Curso de Direito. Orientador: Prof. Dr. Carlos Francisco do Nascimento.

1. Contrato de Aprendizagem. 2. Cotas Obrigatórias. 3. Caicó/RN. I. Nascimento, Carlos Francisco do. II. Título.

RN/UF/BS-Caicó CDU 349.22(813.2)

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MATHEUS MAZUKYEWSKY OLIVEIRA DE MEDEIROS

UM PANORAMA DO CONTRATO DE APRENDIZAGEM NO MUNICÍPIO DE CAICÓ/RN

Monografia apresentada à Universidade Federal do Rio Grande do Norte como pré-requisito parcial para a conclusão no curso de graduação em Direito, campus CERES/CAICÓ. Orientador: Prof. Dr. Carlos Francisco do Nascimento.

Aprovado em 28/11/2019

BANCA EXAMINADORA

______________________________________ Prof. Dr. Carlos Francisco do Nascimento

Orientador

______________________________________ Prof. Dr. Rogério de Araújo Lima

Examinador

______________________________________ Prof.Ms. Saulo de Medeiros Torres

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AGRADECIMENTOS

Agradeço primeiramente a Deus pela sua infinita graça e bondade que me conduziram por todos esses anos de graduação com esperança e fé, fazendo-me superar limites e me ensinando o valor paciência. Agradeço a meus pais, Francisco e Onzieme, por ficarem tão felizes com as minhas conquistas. Eu só pude chegar até aqui porque dentro de mim existem vocês. Obrigado por me amarem incondicionalmente. Agradeço também ao amor dos meus melhores amigos e irmãos, Larissa e Artur, preciosos. Vocês são meus companheiros de vida, com quem aprendi que amar é acreditar. Quero envelhecer com vocês e rir até tarde relembrando nossas histórias. Agradeço ao meu Professor e Orientador, Carlos Francisco do Nascimento, que me mostrou que caminhar na universidade e na produção monográfica é algo simples. Agradeço também a Thiara Oliveira, bênção de Deus na minha vida, minha companheira de jornada. Obrigado por me suportar até tarde com meu desespero pra concluir esse trabalho. Você me conduziu do começo ao fim com um amor cuidadoso. Agradeço a todos os meus amigos que sempre me incentivaram na caminhada, especialmente a Caio César Garcia, meu amigo e conselheiro.

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“Mas ele foi transpassado por causa das nossas transgressões, foi esmagado por causa de nossas iniqüidades; o castigo que nos trouxe paz estava sobre Ele, e pelas suas feridas fomos curados”. Isaías 53:5

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RESUMO

O Instituto da aprendizagem talvez seja o maior instrumento de inclusão de jovens no mercado de trabalho brasileiro, estando intimamente ligado aos diversos setores da economia nacional. No município de Caicó/RN ele também desempenha esse papel singular, servindo de mecanismo de entrada para muitos jovens no mercado de trabalho local. Desta forma, o objetivo principal deste trabalho foi analisar o contrato de aprendizagem no município para fins de melhor compreensão sobre como este vem sendo cumprindo. O presente trabalho apresenta um panorama da sua eficiência entre os anos de 2017 e 2019 no município de Caicó, descrevendo os principais problemas de execução e suas possíveis causas. Para tanto, foi elaborada uma investigação quantitativa e qualitativa, a partir do levantamento de dados das principais instituições envolvidas com a operacionalização da aprendizagem local, além de uma revisão bibliográfica da temática e estudo da legislação e jurisprudência pertinente. Verificou-se que apenas uma pequena parte do potencial da aprendizagem tem sido atingida no município, em decorrência da pouca fiscalização trabalhista existente e do alto índice de descumprimento das cotas obrigatórias pelo empresariado. Nesse sentido concluiu-se que embora o contrato de aprendizagem seja um instrumento de inclusão efetiva no mercado de trabalho, no município de Caicó ele é empregado ainda de forma muito aquém do seu verdadeiro potencial, sendo necessária uma intervenção estatal no sentido de ampliar significativamente a fiscalização trabalhista no município. Aponta-se ainda, a possibilidade de o cenário local estar a repetir-se em todo o território nacional, podendo este trabalho servir de ponto de partida para pesquisas futuras que se proponham a averiguar a eficiência do programa de aprendizagem em um nível mais amplo.

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ABSTRACT

The apprenticeship institute is perhaps the largest instrument for inclusion of young people in the brazilian job Market, being closely linked to the various sectors of the national economy. In the municipality of Caicó/RN it also plays this unique role, serving as an entry mechanism for many young people in the local labor market. Thus, the main objective of this work was to analyze the apprenticeship contract in the city for better understanding about how this contract has been executed. This paper presents an overview of its efficiency between 2017 and 2019 in the municipality of Caicó, describing the main execution issues and their possible causes. Therefore, it was elaborated a quantitative and qualitative investigation, based on data collection of the main institutions involved with the operationalization of local apprenticeship, as well as a bibliographic revision of the thematic and studies of the legislation and pertinent jurisprudence. It was found that only a small part of the apprenticeship potential has been achieved in the municipality, due to the inexpressive labor inspection and the high rate of noncompliance of mandatory quotas by the Caicó’s employers. In this sense, it was concluded that although the apprenticeship contract is an instrument of effective inclusion in the labor market, in the municipality of Caicó it is still used far below its true potential, being required a governamental intervention to significantly expand labor inspection in the city. It is also pointed out the possibility of the local scenario is being repeated throughout the national territory, and this research may serve as a starting point for future others that aims to ascertain the efficiency of the learning program at a higher level.

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SUMÁRIO

1. INTRODUÇÃO 09

2. APREDIZAGEM: DA ORIGEM À ATUALIDADE 11

2.2. PRINCIPAIS MARCOS HISTÓRICOS E AS CORPORAÇÕES DE OFÍCIO 11

2.2. APRENDIZAGEM NA ATUALIZADE 13

3. O INSTITUTO JURÍDICO DO CONTRATO DE APRENDIZAGEM 16

3.1 DAS COTAS OBRIGATÓRIAS E DOS SERVIÇOS DE APRENDIZAGEM 21

4. O CONTRATO DE APRENDIZAGEM NO MUNICÍPIO DE CAICÓ 25 4.1. ATUAÇÃO DA SUPERINTENDÊNCIA REGIONAL DO TRABALHO E

EMPREGO 25

4.1.1. Subdivisão e atuação 27

4.1.2. Fórum Potiguar de Aprendizagem – FOPAP-RN 30 4.1.3. FOCA-RN – Trabalho infantil e aprendizagem 31

4.1.4. Dados da atuação em Caicó 35

4.2. SERVIÇOS DE APRENDIZAGEM 36

4.2.1. Aldeias Infantis SOS 36

4.2.1.1. Da captação de jovens e da inserção no programa 38 4.2.1.2. Operacionalização dos cursos e acompanhamento 38 4.1.2.3. Do papel da empresa em parceria com a instituição 40 4.1.2.4. Dos dados e resultados do programa 40

4.2.2. SENAC-RN 40

4.3.3. IFRN 41

4.3. MINISTÉRIO PÚBLICO DO TRABALHO 42

5. CONCLUSÕES 46

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1. INTRODUÇÃO

Segundo o Art. 227 da Constituição Federal de 1988 ―é dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão (BRASIL, 1988)‖.

No que se refere à profissionalização, o programa de aprendizagem na atualidade assume um papel importante no contexto social e econômico do cenário brasileiro, sendo um instrumento eficaz de inserção de jovens e adolescentes no mercado de trabalho de forma digna, através de um projeto de ensino aprendizagem eficiente.

Tal contrato goza de todos os direitos inerentes ao contrato por prazo determinado, mas cessa quando o aprendiz completa 24 anos, devendo o empregador contratar novo aprendiz conforme determinação legal, gerando manutenção do programa. Porém, a realidade nem sempre segue a métrica legal.

Por possuir certos entraves que o contrato por prazo indeterminado não tem, como a impossibilidade de realização de horas extras, e por objetivar a inserção laboral de um trabalhador que ainda está aprendendo seu ofício, os empresários muitas vezes tem uma forte tendência de descumprirem as cotas obrigatórias para suas empresas, preferindo contratar profissionais já qualificados. Senão, quando contratam, acabam por não cumprirem os limites legais impostos, cometendo assim abusos que descaracterizam o contrato.

Tais práticas, se não coibidas, tendem a mitigar a função social do contrato de aprendizagem, que é a de ser um instrumento de profissionalização, inclusão e capacitação, podendo gerar impactos sociais e financeiros negativos, gerando desemprego e ocasionando a falta de mão-de-obra qualificada que atenda as exigências do mercado de trabalho interno. Esta realidade é presente em vários estados da federação, inclusive nas cidades da região nordeste. Dessa forma, busca-se, através dessa pesquisa, verificar se o contrato de trabalho tem se desenvolvido de forma eficiente na realidade do município de Caicó/RN.

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Esse trabalho tem por objetivo analisar a situação do contrato de aprendizagem na cidade, através de uma análise quantitativo-qualitativa dos dados encontrados, traçando um panorama geral de como esses contratos vêm sendo realizados e cumpridos, a partir do levantamento de dados sobre a operacionalização da aprendizagem na realidade municipal. Tem-se ainda, como objetivos específicos, identificar a forma como as instituições de ensino e o órgãos de fiscalização têm atuado e apontar as principais diferenças entre a maneira como eles desenvolvem suas funções.

A pesquisa foi realizada através de consulta bibliográfica de autores que estudam a temática, análise dos principais dispositivos que tratam do tema e consulta com coleta de dados nas principais instituições envolvidas na aprendizagem em nível local e regional, como as Aldeias Infantis SOS, a Superintendência Regional do Trabalho e Emprego do Rio Grande do Norte, o Ministério Público do Trabalho, o SENAC-RN e o IFRN.

A partir disso, a presente obra monográfica foi estruturada em três partes. A primeira parte introduz o tema a partir de uma explanação histórica mostrando como tais institutos evoluíram, passando pelos principais marcos históricos até a atualidade, discutindo os principais direitos do aprendiz. A segunda parte trata do instituto jurídico do contrato de aprendizagem, discutindo as principais normas e alterações legais sobre o tema. A terceira parte trata da operacionalização da aprendizagem na cidade de Caicó/RN, descrevendo a atuação das principais entidades necessárias às execução ou fiscalização do contrato de aprendizagem entre os anos de 2017 e 2019, possibilitando assim a construção de posicionamentos sobre a temática discutida.

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2. APREDIZAGEM: DA ORIGEM À ATUALIDADE

O instituto da aprendizagem perpassou vários momentos históricos até se tornar o instituto reformado que conhecemos hoje. Nessa perspectiva abordaremos adiante os principais marcos históricos que precederam a realidade atual do contrato de aprendizagem.

2.1. PRINCIPAIS MARCOS HISTÓRICOS E AS CORPORAÇÕES DE OFÍCIO

Como toda manifestação social, a Aprendizagem enquanto programa de governo teve uma gama de eventos históricos que o precederam e serviram de base para a sua construção ideológica. Desde que existe sociedades organizadas, ainda que minimamente, existe a troca de bem pela prestação de serviço e consequentemente a aprendizagem de certas competências.

Vários trabalhos acadêmicos e pesquisas historiográficas já se propuseram a investigar o tema, traçando as origens da aprendizagem profissional no Brasil e no mundo. Nesse sentido, Alberto Martins (Graf, 2008, p. 3) diz que ―é muito provável que a utilização de menores no trabalho tenha início com o trabalho do próprio homem‖.

Graf (2008, p.3) aponta ainda que ―o menor sempre teve sua participação em algum tipo de atividade, sejam afazeres domésticos ou até mesmo trabalho próprios de adultos‖, em suas famílias, ou tribos. A autora aponta ainda que nas sociedades antigas como Egito, Roma e Grécia, já se dava conta do trabalho dos menores, da mesma forma que os outros trabalhadores, sendo a escravatura lícita e não havendo proteção estatal.

Segundo Amauri Mascaro Nascimento (2011), em seu livro História do Direito do Trabalho, o trabalho evoluiu a partir da escravidão, de onde derivou o trabalho servil. Posteriormente viria a surgir o trabalhador ambulante, servindo de intermediário entre o produtor de bens e o consumidor. A partir deste último é que se caracteriza pela primeira vez o trabalho livre.

A partir do ambulante, viria a surgir a figura do artesão, que nada mais era que aquele ambulante que decidia fixar-se em um lugar, especializando-se e fazendo uso de suas ferramentas próprias para produzir sua mercadoria, fazendo surgir assim os ofícios.

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Nascimento, Ferrari e Filho (2011) destacam a primeira raiz histórica do aprendizado trabalhista como sendo uma consequência do surgimento dos artesãos, na idade média, em detrimento do aumento da clientela dos artesãos nos ambientes urbanos. Em decorrência desse aumento, fazia-se necessário o aumento da produção, que limitada pela própria condição humana induzia à contratação de auxiliares. Todavia estes demandavam tempo de aprendizado, surgindo assim a figura do aprendiz. Com o tempo os mestres artesãos acabaram se unindo e formando as corporações de ofício.

O autor destaca ainda que no século XIII as corporações, que eram geridas por estatutos próprios, autoritários e rígidos, receberam seus primeiros dispositivos por iniciativa do Reitor de Paris, Etienne Boileau, que determinou que ―aquele que for capaz e tenha os meios de exercer determinado ofício, é livre de o empreender‖ (NASCIMENTO, FERRARI e FILHO, l 661).

Tal reitor foi quem regulamentou, sob o reinado de Luís IX, o controle de todas as atividades locais, através do Livre des Métiers (Livro dos Ofícios ou profissões), conforme afirma Rodrigues (2016).

Nesse período, a normatização permitia como única forma de trabalho profissional aqueles realizados pelas corporações. Dessa forma via-se o aprendiz como parte integrante da escala hierárquica privilegiada, essencial à continuidade do crescimento, enquanto que hoje, em decorrência da oferta massificada de trabalhadores no mercado, o aprendiz só existe por causa de uma obrigação legal imposta.

As primeiras formalizações contratuais coletivas da aprendizagem vão acontecer apenas no século XVI, com os primeiros contratos entre as paróquias e os fabricantes ingleses, conforme aponta Mantoux (Graf, 2008).

Com o passar do tempo e a chegada da revolução industrial o trabalho dos menores tendia a ser cada vez mais degradante. Segundo Graf, 2008, ao redor do mundo a realidade era cruel, com crianças vivendo em regime de exploração extrema, trabalhando a partir dos quatro anos de idade, sendo praticamente escravizadas, com jornadas de até 18 horas por dia no verão, nas manufaturas pré-industriais e entre 13 e 16 horas a partir da industrialização.

Com o surgimento da máquina a vapor houve um desemprego em massa. Em seguida, com o crescimento da produção revolucionária surgiu uma expressiva oferta de empregos ainda mais precários, passando o trabalhador do campo a

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migrar para as cidades. Isso fez com que surgisse o trabalho assalariado. Dispensa comentários a piora na precariedade das condições de trabalho da época, que incluía mulheres e crianças.

Em decorrência dessas precariedades, no final do século XIII começam a surgir movimentos trabalhistas em defesa dos direitos do homem e do cidadão, motivados pela onda iluminista. Em vários lugares ao redor do mundo começaram a surgir normas em defesa do trabalho e da exploração infantil.

No contexto brasileiro, como veremos adiante, com o advento da República começaram a ser inseridas no ordenamento jurídico normas em defesa dos direitos da criança e do adolescente. Todavia a situação brasileira do trabalho da criança e do adolescente nem sempre teve normatização em defesa da exploração do trabalho do menor, deixando-os a mercê de vários tipos de exploração ao longo de sua história, como destaca Graf (2008), só vindo efetivamente construir uma política verdadeiramente coesa na atualidade.

Todavia Carvalho (2017) destaca que ainda no governo de Floriano Peixoto, em 1892, já se vislumbrava a aprendizagem como instrumento importante para o desenvolvimento industrial do país, objetivando a instituição do ensino profissional brasileiro.

É nessa perspectiva que anos mais tarde, em 1909, o então presidente Nilo Peçanha assinou o decreto de criação de 19 Escolas de Aprendizes Artífices, entre as quais a de Natal/RN, embriões da atual rede de Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia – IF’s.

2.2. APRENDIZAGEM NA ATUALIZADE

Como já visto anteriormente, a aprendizagem caminhou ao longo da história, passando de um instrumento precioso de transmissão do ofício até se tornar esse direito essencialmente internacional defendido e pleiteado pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), nos mais diversos países, independente do seu nível de desenvolvimento. E a maneira de instrumentalizar tal processo é pelo contrato de aprendizagem, que surge buscando dar forma substancial e controlada a essas atividades.

No ordenamento brasileiro o contrato de aprendizagem é definido pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT, art. 428) como sendo contrato de trabalho

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especial, ajustado por escrito e por prazo determinado, em que o empregador se compromete a assegurar ao maior de 14 (quatorze) e menor de 24 (vinte e quatro) anos inscrito em programa de aprendizagem formação técnico-profissional metódica, compatível com o seu desenvolvimento físico, moral e psicológico, e o aprendiz, a executar com zelo e diligência as tarefas necessárias a essa formação.

Ter a figura de um contrato específico com normas próprias para a aprendizagem traz segurança para o aprendiz, assegurando aos mesmos seus direitos, sendo um instrumento de efetivação e comprovação no mundo jurídico do vínculo trabalhista especial que ele representa. Por ser um contrato que estipula direitos e deveres, este rege todo o processo, contendo os requisitos de um contrato de trabalho de forma peculiar, envolvendo aspectos educacionais, trabalhistas e profissionalizantes, mesclados em um só pacto.

Na atualidade a aprendizagem desempenha papel muito importante para as economias ao redor do mundo, sendo mecanismo essencial de inserção de jovens no mercado de trabalho, adotado em muitos países com uma política voltada para esse grupo de pessoas. Por ser instrumento capaz de inserir o jovem no mercado de trabalho de forma já qualificada, o sistema de aprendizagem prepara profissionais qualificados para desempenhar suas funções com excelência e sem vícios, evitando assim que sejam geradas despesas decorrentes de quebra de material, ou outros prejuízos advindos da má prestação de serviços. Nessa perspectiva o Manual da Aprendizagem, do governo federal, define aprendizagem como sendo

O instituto destinado à formação técnico-profissional metódica de adolescentes e jovens, desenvolvida por meio de atividades teóricas e práticas e que são organizadas em tarefas de complexidade progressiva. Tais atividades são implementadas por meio de um contrato de aprendizagem, com base em programas organizados e desenvolvidos sob a orientação e responsabilidade de entidades habilitadas.(BRASIL, 2014, p. 13).

Tal conceito toma por base a Lei 10.097 de 19 de dezembro de 2000. Esse dispositivo, chamado de Lei do Aprendiz, modificou vários dispositivos da CLT e traz em sua essência um conjunto de aspectos importantes que objetivam assegurar ao empregado aprendiz a inserção no mercado de trabalho, de forma não degradante, preservando ao máximo a sua integridade biopsicossocial.

Os primeiros que a nova lei alterou foram os artigos 402 e 403. Anteriormente a previsão do primeiro dispositivo considerava como ―menor, para os

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efeitos desta Consolidação o trabalhador de 12 (doze) a 18 (dezoito)‖ anos. Já o caput do segundo continha a proibição de qualquer tipo de trabalho a menores de 12 anos. Com as alterações o limite inferior passou a ser de 14 (catorze) anos, em consonância com a diretriz constitucional que determina a ―proibição de trabalho noturno, perigoso ou insalubre a menores de dezoito e de qualquer trabalho a menores de dezesseis anos, salvo na condição de aprendiz, a partir de quatorze anos‖ (art. 7, inciso XXXIII).

Vale ressaltar ainda que o texto original da CLT preconizava originalmente a proibição de trabalho a menores de 14 anos mas excluía dessa proibição os alunos ou internados nas instituições que ministravam exclusivamente ensino profissional e nas de caráter beneficente ou disciplinar submetidas à fiscalização oficial. Foi somente no Regime Militar, através do Decreto-lei nº 229 de 1967, que esse limite desceu para 12 anos, excluindo qualquer possibilidade de trabalho inferior e inaugurando, no parágrafo único do artigo 403, a exigência da frequência escolar e a proibição de trabalhos de natureza pesada e que prejudicassem o desenvolvimento normal do adolescente entre 12 e 14 anos de idade.

O texto, reformado pela Lei do Aprendiz, findou por ser mais protetor, determinando que o trabalho do menor em qualquer idade não poderá ser realizado em locais que prejudiquem sua formação, o seu desenvolvimento físico, psíquico, moral e social nem que sejam desenvolvidos em horários e locais que não permitam a frequência à escola.

Como já visto anteriormente, a aprendizagem caminhou ao longo da história, passando de um instrumento de transmissão de conhecimentos e aptidões para o ofício até se tornar esse direito essencialmente internacional defendido e pleiteado pela OIT nos mais diversos países, independente do seu nível de desenvolvimento. E a maneira de instrumentalizar tal processo é pelo contrato de aprendizagem, que surge buscando dar forma substancial e controlada a essas atividades.

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3. O INSTITUTO JURÍDICO DO CONTRATO DE APRENDIZAGEM

No ordenamento brasileiro o contrato de aprendizagem é definido pela CLT (art. 428) como sendo contrato de trabalho especial, ajustado por escrito e por prazo determinado, em que o empregador se compromete a assegurar ao maior de 14 (quatorze) e menor de 24 (vinte e quatro) anos inscrito em programa de aprendizagem formação técnico-profissional metódica, compatível com o seu desenvolvimento físico, moral e psicológico, e o aprendiz, a executar com zelo e diligência as tarefas necessárias a essa formação.

Essa definição é o texto atual do artigo em pauta, com redação dada pela Lei 11.180 (conversão da MPv nº 251 de 2005). Antes dela o limite máximo era o de 18 anos. De acordo com a nova redação, jovens maiores de idade que ainda não tivessem atingido os 24 anos poderiam ingressar no mercado de trabalho na condição de aprendiz.

Ter a figura de um contrato específico com normas próprias para a aprendizagem traz segurança para o aprendiz, assegurando ao mesmo seus direitos, sendo um instrumento de efetivação e comprovação no mundo jurídico do vínculo trabalhista especial que ele representa. Por ser um contrato que estipula direitos e deveres, este rege todo o processo, contendo os requisitos de um contrato de trabalho de forma peculiar, envolvendo aspectos educacionais, trabalhistas e profissionalizantes, mesclados em um só pacto.

Partindo da conceituação legal do Contrato de Aprendizagem, Maurício Godinho Delgado (2019, p. 688) assim o define:

Pacto a termo que ostenta, como peculiaridade relevante, a combinação de objetivos educacionais e profissionalizantes com os trabalhistas que igualmente lhe são próprios. Consiste, ademais, em importante instrumento de inclusão, no mundo do trabalho, de pessoas mais vulneráveis.

Vemos então que esse tipo de contrato trás em seu bojo um conjunto de regramentos específicos que visam à segurança do jovem em aprendizagem, permitindo a inclusão deste no mercado de trabalho de forma segura e saudável. Nesse sentido podemos ver alguns aspectos importantes a serem discutidos.

O primeiro deles é a obrigatoriedade de o contrato de aprendizado ser celebrado por escrito, sob pena de caracterizar-se como contrato por prazo

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indeterminado, passando a gozar de todos os direitos inerentes a este. Tal exigência difere do contrato de trabalho comum e protege o aprendiz de desempenhar atividades fora do objeto de suas atribuições. Além disso, deve ser realizado na modalidade por prazo determinado, não podendo ultrapassar os dois anos de execução, por entender-se que esse tipo de contrato tem a finalidade de gerar aprendizado e não vínculo definitivo.

Outro aspecto importante é a limitação de idade imposta. Em regra a figura do aprendiz não existe no direito brasileiro a partir dos 24 anos de idade, nem antes dos 14, a não ser em caso de pessoa portadora de deficiência, no qual não existe limite superior. Essas limitações são de pronto muito importantes e profundamente entrelaçadas com a conceituação de aprendizagem construída ao logo da história jurídica brasileira. Por caracterizar-se como trabalho, não pode ser desempenhada por menores de 14 anos devido a expressa proibição constitucional. Por outro lado o limite de 24 anos acaba por ser algo já atrelado a outros entendimentos jurisprudenciais sobre profissionalização e sustento no Brasil. É o caso da obrigação para com alimentos no caso de filho maior que possua até 24 anos de idade e que esteja matriculado em curso superior ou médio, incapaz de prover seu próprio sustento.

Percebe-se que o legislador buscou, na alteração do limite máximo para 24 anos, levar em consideração a cronologia formativa educacional brasileira, entendendo que o jovem geralmente conclui suas atividades escolares em média aos 24 anos. Com tal limite não fixado e levando em consideração o viés inclusivo da aprendizagem, restaria punido o jovem que seguiu estudando após os 18 anos. Nesse caso estaria o legislador penalizando aqueles que decidissem buscar o mercado de trabalho somente após concluir sua matriz escolar. Haveria assim um desestimulo à educação curricular nacional.

Outro aspecto importante é o fato de que o legislador se preocupou em determinar, ainda na própria conceituação do contrato de aprendizagem, que o aprendiz, inscrito em programa de aprendizagem, deve ter assegurado pelo empregador formação técnico-profissional metódica.

Tal formação, como veremos adiante, pode ser ofertada pelo Sistema Nacional de Aprendizagem ou, em sua falta, por instituições de aprendizagem sem fins lucrativos. Porém o aprendiz não pode se inscrever em qualquer curso, mas apenas naqueles que sejam compatíveis com o seu desenvolvimento físico, moral

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ou psicológico. Dessa forma não poderia o aprendiz matricular-se em um curso que exija de si um esforço físico inadequado à sua idade, ou ainda que o exponha à corrupção moral ou psicológica, sendo insalubre ou ilegal. O empregador deve se comprometer ainda em executar de forma adequada todas as tarefas necessárias a essa formação, como por exemplo, supervisionar as atividades do aprendiz no ambiente de trabalho.

Vale mencionar ainda que o artigo 428, não teve apenas sua redação alterada pela lei do aprendiz, mas recebeu também oito parágrafos a partir desta e de outras leis, alguns destes sofrendo alterações anos depois de suas inclusões.

O paragrafo primeiro submete a validade do contrato de aprendizagem à anotação na Carteira de Trabalho, matrícula e frequência na escola, caso ainda esteja cursando o ensino médio (antes da alteração inserida pela lei do estágio, lei 11.178 de 2008, o requisito se aplicava a estar cursando o ensino fundamental) e inscrição em programa de aprendizagem desenvolvido soba orientação de entidade qualificada em formação técnico-profissional metódica. O parágrafo oitavo estende essas obrigação para o caso do aprendiz portador de deficiência maiores de 18 anos (incluído pelo lei 13.143 de 2015).Todavia o parágrafo sétimo faz uma ressalva ao nível de escolaridade exigido ao orientar que ―nas localidades onde não houver oferta de ensino médio (...) a contratação do aprendiz poderá ocorrer sem a frequência à escola, desde que ele já tenha concluído o ensino fundamental‖.

Exigir que o aprendiz esteja cursando uma formação em instituição de ensino técnico-profissional de forma metódica faz com que a aprendizagem esteja emaranhada com um mecanismo realmente caracterizado pelo ensino de competências profissionais.

Ainda nessa linha a lei elenca em seu parágrafo quarto que o aprendiz precisa desenvolver atividades teóricas e práticas, de complexidade progressiva. Essa modalidade de ensino faz com que o trabalhador possa, além de desenvolver competências cognitivas, instrumentalizar na prática o seu aprendizado, sedimentando o conhecimento e desenvolvendo habilidades profissionais satisfatórias. O fato de serem atividades de complexidade progressivas é orientação que segue justamente o viés da aprendizagem, onde o jovem inicia nas tarefas e conceitos mais simples e termina por desenvolver as atividades mais complexas. Nesse sentido o TST já decidiu sobre o tema:

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RECURSO DE REVISTA. CONTRATO DE APRENDIZAGEM. FORMAÇÃO TÉCNICO-PROFISSIONAL METÓDICA. COMPLEXIDADE PROGRESSIVA. ARTS. 428 E SEGUINTES DA CLT. TOMADORA DE SERVIÇOS. NECESSIDADE DE OBSERVÂNCIA 1. A contratação de aprendizes por empresa interposta, nos termos do art. 431 da CLT, pressupõe igualmente que o tomador de serviços comprometa-se a assegurar formação técnico-profissional metódica, sob pena de desvirtuamento da norma contida no art. 428 da CLT. 2. As funções de operador de máquina copiadora e de contínuo ou ―office-boy‖ não justificam a contratação especial prevista nos arts. 428 e seguintes da CLT, por não proporcionarem ao jovem formação profissional de complexidade progressiva, de forma a facilitar o posterior acesso do aprendiz ao mercado de trabalho, finalidade precípua da norma em apreço e da matriz principiológica que emana do art. 227 da Constituição Federal. 3. Recurso de revista de que não se conhece.(TST-RR-1402500-23.2004.5.09.0007, 4ª Turma, Min. Rel. João Oreste Dalazen, Data de Julgamento 30.04.2014)

O segundo parágrafo garante ao aprendiz o direito ao salário mínimo hora proibindo assim discriminação pecuniária em decorrência da sua condição. Tal discriminação não é algo difícil de pensar na perspectiva trabalhista brasileira. É comum que o empresário não queira pagar o mesmo valor de um empregado convencional a um aprendiz, por entender que o aprendiz, por não dominar ou executar todas as funções, deveria ganhar menos.

No tocante à duração, o contrato de aprendizagem não poderá ser estipulado por mais de 2 (dois) anos‖. É o que preconizava o parágrafo terceiro incluído pela Lei do Aprendiz. Mas em 2008, com a alteração promovida também pela lei 11.788, a redação passou a excluir dessa limitação a pessoa portadora de deficiência. Segundo o novo texto, não há limitação de tempo para a execução do contrato de aprendizagem no contexto da pessoa com deficiência. O legislador portanto foi sensível às limitações que o ser humano pode ter devido a barreiras biológicas que podem fazer com que o aprendizado necessite de tempo indeterminado a depender de certas condições. Inclusive o parágrafo 6º orienta que seja considerada, na comprovação de escolaridade deve-se considerar ―as habilidade e competências relacionadas com a profissão‖.

Nessa perspectiva o parágrafo quinto já trazia uma disposição especial em defesa dessas pessoas. Em seu texto o dispositivo preconiza que a idade máxima de 24 anos não se aplica a aprendizes portadores de deficiência. Isso pode ser considerado um avanço social substancial, tendo em vista as dificuldades de qualificação e inserção que o portador de deficiência sempre teve na sociedade brasileira. Muitos são os casos em que estes demoram muito mais tempo para

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conseguir se qualificar em decorrência da precariedade que assolou as políticas de acessibilidade durante a história nacional.

Além disso, o preconceito sofrido acaba sendo majorado por outros fatores no mercado de trabalho. Já não basta o preconceito empresarial em decorrência da própria condição de aprendiz, há ainda o preconceito com a deficiência e com a idade no mercado de trabalho, tornando o acesso cumulativamente mais difícil para quem possui alguma deficiência. O que se percebeu com essa análise legislativa e através de conversas informais em órgãos locais foi a ausência de um dispositivo que alocasse, dentro da cota obrigatória de aprendizagem, um percentual específico para pessoas com deficiência. Além do mais o que pode se perceber é que o empresariado não costuma contratar esse tipo de aprendiz.

Vale observar ainda que as empresas podem contratar por tempo indeterminado jovens a partir dos 16 anos. Todavia, abaixo dos 16 anos, só poderão ser contratados na função de aprendizes, conforme assegura a Constituição no inciso XXXIII do art. 7.

Por último vale observar algumas das principais regras do contrato de aprendizagem. Segundo o artigo 432, a duração da jornada somente poderá exceder às 6h de duração nos casos em que os aprendizes já houverem concluído o ensino fundamental, podendo chegar a 8h, desde que computadas nesse período o horário destinado à aprendizagem teórica. Além disso, de acordo com o artigo 433, as hipóteses possíveis de rescisão antecipada (antes de completados 2 anos) previstas no segundo artigo são:

I - desempenho insuficiente ou inadaptação do aprendiz, salvo para o aprendiz com deficiência quando desprovido de recursos de acessibilidade, de tecnologias assistivas e de apoio necessário ao desempenho de suas atividades;

II – falta disciplinar grave;

III – ausência injustificada à escola que implique perda do ano letivo; ou

IV – a pedido do aprendiz.

Portanto vemos que legislação diferencia o contrato de aprendizagem de forma substancial e ainda assegura a esses os direitos do menor trabalhador quando for o caso, tornando o instituto do contrato de aprendizagem um marco na legislação trabalhista e proporcionando oportunidades de inserção ao jovem de forma mais efetiva.

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3.1 DAS COTAS OBRIGATÓRIAS E DOS SERVIÇOS DE APRENDIZAGEM

O artigo 429 da CLT determina que os estabelecimentos de qualquer natureza são obrigados a empregar e matricular nos cursos dos serviços nacionais de aprendizagem número de aprendizes o equivalente a 5% no mínimo e 15% no máximo dos trabalhadores existentes em seu quadro, cujas funções demandem formação profissional.

Ora, de nada adiantaria a lei criar a figura do contrato de aprendizagem profissional se as empresas não fossem obrigadas por esse mesmo dispositivo a contratar esses aprendizes. Já falamos anteriormente que grande parte dos empregadores tem resistência a contratar aprendizes tendo em vista que estes estão iniciando a sua profissão, não possuindo ainda experiência. Nessa perspectiva muitos não compreendem a oportunidade que tem de formar um aprendiz que está ali como uma folha em branco, disposto a aprender e internalizar a cultura da empresa.

Nesse sentido o parágrafo 2º, do artigo 52, do Decreto 9579/18 determina que ―deverão ser incluídas na base de cálculo todas as funções que demandem formação profissional, independentemente de serem proibidas para menores de dezoito anos‖ e a jurisprudência tem condenado a prática do não cumprimento de cotas de aprendizagem como dano moral coletivo:

RECURSO DE REVISTA. AÇÃO CIVIL PÚBLICA. DANO MORAL COLETIVO. DESCUMPRIMENTO DA COTA DE CONTRATAÇÃO DE MENORES APRENDIZES. CONFIGURAÇÃO. 1. Releva para a configuração do dano moral coletivo a materialização de ofensa à ordem jurídica, ou seja, a todo o plexo de normas edificadas com a finalidade de tutela dos direitos mínimos assegurados aos trabalhadores a partir da matriz constitucional de 1988 e que se protrai por todo o ordenamento jurídico. No caso sub judice, ficou incontroversa a conduta antijurídica da empresa, que violou interesses coletivos decorrentes de normas de trabalhistas ao não contratar a quantidade mínima de aprendizes. O argumento utilizado no acórdão regional de que "a empresa proporciona fonte de renda para mais de 1. 000 empregados, o que, certamente, injeta grande quantidade de recursos na comunidade local e impulsiona a economia, proporcionando que sejam criados outros empregos indiretos" (pág. 743) não tem o condão de elidir o malfadado dano no tecido social. Justificativas dessa natureza não podem ser utilizadas como desculpas para o não cumprimento da cota determinada, isentando-se de proporcionar o aprendizado de função qualificada para o futuro. Dessa forma, resta caracterizado o dano moral coletivo pelo descumprimento da função social da empresa no que diz respeito à inserção dos jovens aprendizes no mercado de trabalho, bem como o seu dever de indenizar nos termos dos artigos 186 e 927 do CCB. 2.

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Tendo sido reconhecida a ocorrência do dano moral coletivo passa-se à análise do quantum indenizatório. No arbitramento da indenização por danos morais devem ser consideradas as peculiaridades do caso concreto, observando-se a capacidade financeira do ofensor, o contexto social do dano, bem como o caráter pedagógico da pena, de forma a desestimular a prática do ato. 3. No caso, observando-se o contrato social da empresa, a quantidade de filiais, capital social, empregados registrados informados pelo TRT, bem como a reprovabilidade da conduta na sociedade, pela não observância da cota de menores aprendizes e os limites do pedido, e atendendo aos princípios da razoabilidade e da proporcionalidade arbitro o valor da indenização por danos morais coletivos em R$300.000,00 (trezentos mil reais), a ser revertido a fundo de direitos difusos ou às instituições e projetos ligados à seara laboral, a ser definido na fase de liquidação, observada a região geográfica onde se situa a empresa ré . Recurso de revista conhecido por violação dos artigos i86 e 927 do Código Civil e provido.

(TST - RR: 8226820115230056, Relator: Alexandre de Souza Agra Belmonte, Data de Julgamento: 28/02/2018, 3a Turma, Data de Publicação: DEJT 02/03/2018)

Verificamos que esse dispositivo é, portanto, a forma de assegurar legalmente o cumprimento do programa de aprendizagem profissional no Brasil, trazendo obrigações muito bem definidas.

Dos aspectos trazidos pela legislação o primeiro a tratar nesse artigo é justamente a obrigatoriedade que a empresa tem de matricular nos cursos dos serviços nacionais de aprendizagem, não apenas contratar. É preciso ter em mente que não adianta simplesmente contratar um aprendiz se ele não estiver em formação profissional teórica. Para isso o legislador direciona a essas instituições a responsabilidade de ofertar cursos de aprendizagem.

Outro aspecto importante a tratar, porém com menos aplicação, é o limite máximo de 15%. Acredito que o legislador decidiu impor tal limite para que não houvesse uma instituição simplesmente abarrotada de aprendizes decorrente das ―vantagens‖ que a alíquotas diferenciadas, como o valor do recolhimento do FGTS mais baixo, poderiam gerar.

Além dos dispositivos mencionados, vale observar o que preconiza o parágrafo primeiro do artigo, incluído justamente pela lei do aprendiz. O dispositivo faz determina que o limite fixado no artigo não se aplica quando o empregador for entidade sem fins lucrativos que tenha por objetivo a educação profissional. Aqui se enquadram justamente as instituições que em sua razão de ser já objetivem funcionalmente fornecer suporte instrucional para a aprendizagem. Não haveria porque onerar ainda mais essas entidades que já desempenham um papel tão importante na execução da política da aprendizagem no Brasil.

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Outro aspecto importante está descrito no parágrafo 1b do referido artigo veio sanar uma dificuldade apresentada por muitos empregadores, inclusive aqui em Caicó, conforme pude captar através algumas conversas informais. Tal dispositivo estabelece que as empresas destinar o equivalente a até 10% (dez por cento) dos aprendizes à formação em áreas relacionadas a práticas de atividades desportivas, à prestação de serviços relacionados à infraestrutura de instalações esportivas e organização e promoção de eventos. Antes dessas alterações o empresariado alegava a dificuldade de alocar esses aprendizes em cursos quando as instituições próximas não comportavam o quantitativo municipal. No RN e em Caicó a realidade não era diferente. Portanto vemos justamente que o legislador veio sanar essa dificuldade, incentivando a profissionalização desportiva, abrindo a oportunidade para formar aprendiz em áreas diversas daquelas.

Podemos observar também parágrafo segundo estabelece ainda que a empresa também deverá ofertar vagas para adolescentes usuários do Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo, ou seja, jovens em condição de vulnerabilidade social. Já a alteração mais recente incidiu sobre o parágrafo terceiro e foi estabelecida pela lei 13840/2019, chamada de nova lei de drogas, e dispõe que os estabelecimentos citados no artigo poderão ofertar vagas para adolescentes usuários do Sistema Nacional de políticas públicas sobre drogas. Percebe-se, a partir desse dispositivo, uma abertura profissionalizante para tentar reinserir na sociedade aqueles adolescentes que têm problemas com drogas. Para isso a legislação permite que o empregador se valha da cota obrigatória para atingir esse objetivo.

Os artigos 430 e 431 foram reformados em sua totalidade pela lei do aprendiz e pela lei 13420/2017 para incentivar a prática do esporte profissional no Brasil. O primeiro se direciona a resolver uma problemática, que é a questão da quantidade insuficiente de vagas nos estabelecimentos do sistema nacional de aprendizagem em algumas localidades. De acordo com esses dispositivos reformados abrem-se hipóteses fora do sistema para o preenchimento dessas vagas, que são as escolas técnicas em educação (inciso I), como o IFRN, as entidades sem fins lucrativos (inciso II) como as Aldeias Infantis SOS e as entidades de prática desportiva das diversas modalidades filiadas aos sistemas de desporto oficiais dos entes da federação.

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Destaca-se também, além desses dispositivos, o que preconiza o parágrafo único do artigo 431: ―Aos candidatos rejeitados pela seleção profissional deverá ser dada, tanto quanto possível, orientação profissional para ingresso em atividade mais adequada às qualidades e aptidões que tiverem demonstrado‖.

Esse parágrafo demonstra um traço difícil da realidade trabalhista que acaba se estendendo ao contrato de aprendizagem: a competição, na qual muitos candidatos podem ser rejeitados para as devidas vagas por inaptidão. A lei determina que nesses casos tais candidatos deverão ser orientados de forma a poderem ingressar em atividades mais adequadas as suas aptidões. Vemos assim que o legislador trouxe para o campo legal a preocupação em abarcar todos os casos específicos do processo de aprendizagem, buscando atender a todos de forma específica e isonômica.

A legislação determina ainda as hipóteses de rescisão contratuais e as verbas rescisórias às quais o aprendiz tem direito. Nesse sentido o Manual da Aprendizagem trás um quadro sinótico explicativo, conforme figura 01.

Figura 01 – Quadro síntese das verbas rescisórias

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4. O CONTRATO DE APRENDIZAGEM NO MUNICÍPIO DE CAICÓ

Falar sobre o funcionamento do programa de aprendizagem e sua articulação em nível nacional e local não é tarefa simples. São vários os atores que direta ou indiretamente estão envolvidos na busca pela sua efetiva proteção e execução.

São entidades engajadas, sejam elas executoras, fiscalizadoras, empregatícias, não-governamentais, desportivas, sociais, ou outras tantas interessadas em proteger o jovem aprendiz de abusos ou fomentar o desenvolvimento econômico através do programa. Todas têm um papel importante na defesa e consolidação das políticas de aprendizagem no país.

Trataremos aqui os atores mais importantes no cenário local, mostrando desde a sua essência institucional até o seu funcionamento efetivo no panorama da aprendizagem no município de Caicó. São eles a Superintendência Regional do Trabalho e Emprego do Rio Grande do Norte, os órgão mediadores de ensino profissional (Aldeias Infantis SOS, SENAC-RN e IFRN) e o Ministério Público do Trabalho.

4.1. ATUAÇÃO DA SUPERINTENDÊNCIA REGIONAL DO TRABALHO E EMPREGO

O antigo Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio foi criado por Getúlio Vargas em 26 de novembro de 1930 e surgiu da necessidade de o governo brasileiro interferir nos conflitos na relação entre o capital e o trabalho, diante de um aumento significativo de trabalhadores no país, decorrente a abolição da escravidão e da chegada de um grande número de imigrantes. Foi a partir daí que surgiram os primeiros sindicatos. Tal criação seguiu uma tendência mundial protetiva e intervencionista que buscava a valorização do trabalhador e a sua proteção

Barifouse (2018) citando Renan Pieri, professor de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV-SP) e do Inspe, aponta que a política de Getúlio para a seara trabalhista no Brasil era uma política alinhada com o que se pensava sobre o papel do Estado como um mediador das relações entre grupos e indivíduos.

Embora o Ministério do Trabalho tenha sido criado nesse período, a inspeção do trabalho já havia sido criada muito antes, no ano de 1891, por

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intermédio do Decreto nº 1313, e era vinculada ao Ministério do Interior. Esse decreto já demonstrava, em seu primeiro artigo, a preocupação que as instituições começavam a ter com o trabalho infantil brasileiro, seguindo a tendência de outros países que iniciaram movimento de proteção da criança, após as aberrações trabalhistas criadas pela revolução industrial, onde elas se submetiam a jornadas de até 15 horas de trabalho diárias em locais insalubres (SINAIT, 2019).Assim preconiza o artigo 1º do decreto:

Art. 1º- É instituida a fiscalização permanente de todos os estabelecimentos fabris em que trabalharem menores, a qual ficará a cargo de um inspector geral, immediatamente subordinado ao Ministro do Interior, e ao qual incumbe:

Conforme aponta o sítio do SINAIT, além do fortalecimento trazido pela política Vargas, nas décadas de 30 e 40 houve uma grande demanda social pelos direitos trabalhistas e os trabalhadores passaram a gozar cada vez mais de direitos, o que gerou muita insatisfação do empresariado brasileiro. Porém a luta do trabalhador e da inspeção continuou crescente.

Esse movimento, se comparado à involução dos direitos defendida nos últimos anos, deixa muito claro o quão refém das grandes organizações colegiadas empresariais se tornou o governo brasileiro.

O momento em que a inspeção trabalhista encontrou seu maior fortalecimento da história foi em 1942, com a promulgação da Consolidação das Leis do Trabalho, que lhe conferiu caráter nacional e poder de polícia para penalizar os empregadores que descumprissem a legislação pertinente. Houve também a ratificação pelo Brasil da convenção internacional do trabalho da OIT nº 81, de 1947, estabelecendo que deve haver um sistema de inspeção de trabalho nos países signatários. Já em 1988 a nova Constituição Brasileira passou a instituir, em seu artigo 21, XXIV que ―compete à União: (...) organizar, manter e executar a inspeção do trabalho‖.

Além das previsões legais já mencionadas, há ainda o Regulamento da Inspeção do Trabalho, instituído pelo Decreto nº 4552/2002, trazendo no artigo 1º a grande finalidade da inspeção do trabalho no Brasil:

Art. 1º O Sistema Federal de Inspeção do Trabalho, a cargo do Ministério do Trabalho e Emprego, tem por finalidade assegurar, em todo o território

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nacional, a aplicação das disposições legais, incluindo as convenções internacionais ratificadas, os atos e decisões das autoridades competentes e as convenções, acordos e contratos coletivos de trabalho, no que concerne à proteção dos trabalhadores no exercício da atividade laboral.

Tendo em vista o caráter desigual entre empregador e trabalhador na relação contratual, o direito trabalhista brasileiro conta com princípios norteadores que visam equiparar essas duas figuras para que o primeiro não subjugue o segundo nem cometa abusos que atentem contra a sua dignidade. É nesse sentido que tanto a justiça especializada opera seguindo a principiologia protetiva constitucional como a fiscalização trabalhista sobrevive incansável no combate a todo tipo de exploração trabalhista que atente em qualquer nível contra a vida, a saúde ou a dignidade do trabalhador.

Dessa forma verifica-se que a inspeção do trabalho constitui-se em importante mecanismo histórico de defesa dos direitos do trabalhador, não só no Brasil, mas em todo o mundo, responsável por fiscalizar qualquer ramo da atividade trabalhista, possuindo poder para multar e coibir quaisquer abusos e ilegalidades.

4.1.1 Subdivisão e atuação

Atualmente no Brasil a pasta da fiscalização trabalhista do governo federal funciona dividida entre o Ministério da Economia e o Ministério da Justiça. Nesse sentido a fiscalização do contrato de aprendizagem ficou no Ministério da Economia a cargo da Secretaria Especial de Previdência e Trabalho, que atua através das Superintendências Regionais do Trabalho espalhadas pelos estados.

A fiscalização da Secretaria Regional do Trabalho do Rio Grande do Norte vem enfrentando vários problemas estruturais ao logo dos últimos anos em decorrência da redução do seu número de auditores. De acordo a Coordenação de Aprendizagem da SRTE-RN, a fiscalização na área tem tido sérias dificuldades de ser realizada no interior do estado, tendo em vista contar apenas com dois auditores fiscais para desenvolver as funções de coordenação e fiscalização no estado inteiro. Nesse sentido, nos últimos anos foram realizadas ações pontuais em Caicó e Mossoró, tendo havido em torno de duas fiscalizações anuais presenciais em cada um desses municípios.

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Se nos anos anteriores já estava sendo difícil fazer o trabalho, o ano de 2019 enfrentou ainda mais dificuldades, em decorrência da escassez de recursos e da mudança estrutural que sofreu o antigo Ministério do Trabalho, que foi dividido e passou a integrar o Ministério da Economia e o Ministério da Justiça. Nesse ano, de acordo com o órgão, não foi possível fazer nenhum deslocamento dos auditores para Caicó, tendo a fiscalização se concentrado basicamente na região metropolitana de Natal, onde corre de forma sobrecarregada.

Tendo em vista essa problemática sistêmica, a fiscalização no interior do Estado tem sido realizada da seguinte forma: tomando por base o cadastro de empresas, verificam-se quais estabelecimentos são obrigados a cumprirem as cotas obrigatórias de contratação de aprendizes. Após isso são enviadas correspondências com notificações indiretas para os empregadores, convocando-os para comparecerem à sede local da SRTE e comprovarem que estão contratando aprendizes. Caso a empresa não comprove o cumprimento a mesma é autuada.

O mecanismo tem funcionado como uma alternativa à fiscalização presencial. Nesse sentido pretende-se, em 2020, implementar uma sistemática de fiscalização totalmente eletrônica, visando agilizar os processos e alcançar uma capilaridade maior na fiscalização. Dessa forma a documentação do empregador seria entregue não mais de forma presencial nas sedes, mas via transmissão de dados virtuais.

A fiscalização da aprendizagem profissional ocorre levando-se em consideração a obrigação legal imposta ao empregador de empregar e matricular nos cursos dos Serviços Nacionais de Aprendizagem número de aprendizes equivalente a no mínimo cinco por cento dos trabalhadores existentes em cada estabelecimento. Nesse sentido a SRTE fiscaliza tanto a obrigatoriedade de contratar em empresas que não possuem aprendizes como naquelas que possuem número inferior a esse percentual. Além disso, fiscaliza-se também a manutenção do cumprimento da cota, que é obrigação de preencher vagas de aprendizes que já completaram o programa.

Segundo dados do Ministério da Economia, em 2019 já foram inseridos, no Brasil, mais de cem mil aprendizes a partir das ações de fiscalização das SRTE’s espalhadas pelo país. No portal do trabalho, do governo federal, podemos acompanhar como tem sido a fiscalização da aprendizagem no estado do Rio Grande do Norte, a partir do Radar da Secretaria de Inspeção do Trabalho.

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Quadro 01 – Quadro síntese da fiscalização da aprendizagem no RN. Ano Empresas Fiscalizada : Aprendizes Contratados Sob Ação Fiscal:

Média de aprendizes contratados por empresa

fiscalizada

2017 447 1732 3,87

2018 813 2406 2,95

2019* 573 2119 3,87

Período Total 1257 6257 4,97

*dados computados até setembro

Fonte: Elaborado pelo autor segundo dados do Radar da Secretaria de Inspeção do Trabalho do Ministério da Economia.

Percebe-se a partir dos dados que no período de 2017 a setembro de 2019, que algumas empresas foram fiscalizadas mais de uma vez e que, tendo em vista a média do período total ter sido mais expressiva que separadamente, existe a possibilidade de ter havido várias recidivas de irregularidades em algumas empresas, demonstrando a resistência que alguns empregadores no estado têm em contratar aprendizes.

Apreende-se ainda, a partir dos dados acima, que tendo sido cada vez mais dificultosas as ações de fiscalização no estado em detrimento das ações governamentais restrição orçamentária, o ano de 2019 tende a encerrar com menos ações de fiscalização em empresas que no ano anterior. Apesar disso, a média de aprendizes contratados por empresa fiscalizada aumentou substancialmente em 2019. Acredito que esse aumento tenha alguma relação com uma possível mudança na percepção do empresariado norte-rio-grandense frente às alterações governamentais na estrutura trabalhista no país.

O gráfico abaixo apresenta as estatísticas desde janeiro de 2017 até setembro de 2019 relacionando aprendizes contratados e quantidade de fiscalizações no Rio Grande do Norte (Figura 02).

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Figura 02 – Gráfico da Fiscalização da Aprendizagem no RN.

Fonte: Radar da Secretaria de Inspeção do Trabalho do Ministério da Economia, 2019.

Se observarmos com atenção as mudanças de direções das curvas e compararmos durante o período completo perceberemos um comportamento similar, o que demonstra que a quantidade de contratações decorrentes de fiscalizações está atrelada à quantidade de empresas fiscalizadas. Isso demonstra a ligação direta que existe entre a fiscalização e efetivação do programa de aprendizagem no estado, havendo uma relação de dependência intrínseca do cumprimento legal das cotas com o quantitativo de ações da secretaria regional do trabalho. Em linhas gerais, quando há pouca fiscalização, o cumprimento legal segue o mesmo padrão.

Em nível nacional a linearidade entre as curvas é ainda maior e demonstra o risco que corre a efetividade da legislação instituidora do contrato de aprendizagem caso a inspeção do trabalho continue sofrendo com a diminuição do seu quadro de auditores. Para mais detalhes sobre esse apontamento o leitor pode consultar o estudo realizado pelo Prof. Sílvio Carlos Andrade da Silva, AFT aposentado, no site https://trabalhodigno.org/quadroaft/agosto2019/ onde ele demonstra que do quantitativo de cargos de auditores criados por lei (3.644), 40% estão vagos (1.466), sendo 8 deles no Rio Grande do Norte.

4.1.2. Fórum Potiguar de Aprendizagem – FOPAP-RN

A equipe da coordenação de aprendizagem da SRTE-RN tem empregado esforços substanciais com foco na conscientização e divulgação dos benefícios da aprendizagem para o mercado de trabalho. Um exemplo disso foi o 2º Encontro de Parceiros da Aprendizagem que foi realizado no dia 13 de novembro, no campus central do IFRN, e objetivou reunir o máximo de parceiros (empresas, aprendizes e

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instituições de ensino) envolvidos no programa para premiar aquelas empresas que mais contribuíram para a aprendizagem no município de Natal.

O evento foi realizado pelo Fórum Potiguar de Aprendizagem – FOPAP-RN, que é composto pela Coordenação Estadual do Projeto de Inserção de Aprendizes, por instituições formadoras e pelo Ministério Público do Trabalho, e premiou 495 instituições destaques no Programa Jovem Aprendiz no RN em 2019.

Durante o Encontro foi informado pela coordenadora estadual do projeto de Inserção de Aprendizes do RN e do Fórum, Sofia da Silva Gomes, que o RN possui em atividade cerca de cinco mil jovens e adolescentes aprendizes e ainda tem potencial para o preenchimento de mais quatro mil vagas. Esse número demonstra o total de vagas no estado que podem ser preenchidas levando-se em consideração as cotas obrigatórias das empresas, mas que não estão sendo cumpridas. Tal realidade revela o nível de trabalho que ainda tem que ser desenvolvido na fiscalização e conscientização para que as empresas contratem aprendizes e possam inserir tantos jovens carentes no mercado de trabalho.

Ficou claro nos depoimentos, prestados no evento a importância que tem o contrato de aprendizagem para a economia potiguar. Nesse sentido algumas empresas trouxeram relatos, por meio dos seus representantes, denotando a importância que tem a formação profissional dos jovens no seu quadro de funcionários. Através do programa muitos jovens podem ser orientados desde cedo sobre as rotinas específicas e a cultura organizacional de cada empresa, sendo direcionados e acompanhados, senão formados, conforme os requisitos de qualidade e desempenho exigidos pelos empregadores.

Além de casos com esses a SRTE tem retirado jovens das feiras livres e incluído estes em programas de aprendizagem, o que tem mudado suas realidades e mostrado uma nova perspectiva de vida voltada para o trabalho formal e promissor.

4.1.3. FOCA-RN – Trabalho infantil e aprendizagem

A luta contra o trabalho infantil, que se estende também à proteção do trabalho do menor, tem ligação direta com a causa da aprendizagem, uma vez que, ao serem retiradas das situações ilegais existentes, as crianças terão posteriormente na adolescência a necessidade de serem introduzidas no mercado de trabalho,

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principalmente por serem, em sua maioria, provenientes de situações de vulnerabilidade social. Nesse sentido tanto o MPT, como a Secretaria Estadual de Trabalho Habitação e Assistência Social, o Centro de Referência em Saúde do Trabalhador, algumas secretarias municipais de trabalho e assistência social, e entidades educacionais como o CIEE/RN, o SENAI, o Centro Educacional Dom Bosco e as Aldeias Infantis SOS, integram oFOCA-RN, que é o Fórum Estadual de Combate ao Trabalho da Criança e Proteção ao Trabalhador Adolescente, formando assim, como o próprio nome já sugere, uma rede de trabalho e combate à exploração do trabalho infantil e proteção do trabalho do adolescente.

O FOCA-RN é coordenado pela auditora fiscal do trabalho Marinalva Cardoso Dantas, representante da Superintendência Regional do Trabalho/RN e referência nacional na luta contra o trabalho escravo e no combate ao trabalho infantil, sendo composto por várias entidades interessadas na erradicação do trabalho infantil e na inserção do jovem no mercado de trabalho de forma digna. O fórum é pioneiro na luta contra o trabalho infantil, atuando há 26 anos como defensor da causa e integra o Fórum Nacional de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil, que foi criado em 1994, com o apoio da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), tendo o mesmo objetivo do FOCA.

No dia 11 de novembro foi realizada, na sede da SERTE-RN, em Natal, a última reunião do ano de 2019 (Figura 03),contando com vários segmentos da sociedade. A reunião teve como objetivo principal o planejamento de ações para 2020, FOCAndo em ações dedicadas a uma frente de combate à exploração de crianças e adolescentes em vias públicas, e tratando também de várias outras questões, como a situação das feiras livres e a mendigagem infantil exploratória no município. Além disso, mencionou-se ainda a criação recente do Instituto FOCA, pessoa jurídica própria para gerir fundos financeiros direcionados ao combate ao trabalho infantil por meio de projetos direcionados.

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Figura 03 – Equipe e participantes da última reunião do FOCA-RN de 2019.

Fonte: Arquivo Pessoal, 2019.

Dentre as discussões mais relevantes tratadas, foram mencionadas realidades alarmantes. Dentre elas foi menciona a exploração sexual do menor, que é ainda uma realidade existente no cenário estadual, como sendo uma atividade que sofreu mutação, ocorrendo em ambientes domésticos e não mais em casa de prostituição urbanas.

Ainda além dessa outra questão alarmante foi relatada, que é a situação da exploração do trabalho infantil em supermercados e nas vias públicas através da mendicância. Nessa realidade, exploradores literalmente contratam crianças como pedintes e retém seu apurado em favor próprio. Tal problemática chega a ser usada inclusive pelo tráfico de drogas. Mas a realidade ainda vai além. Existem mulheres que literalmente alugam bebês e crianças pequenas a suas mães com o objetivo de, através da sensibilização, aumentar a renda através da esmolagem.

Com relação a situação das crianças pedintes em supermercados, após a verificação de exploração por terceiros, a inspeção trabalhista tem orientado os supermercados a evitarem a venda de gêneros alimentícios a crianças sob pena de serem autuados como beneficiários da exploração infantil. Por causa disso tem surgido projetos com o intuito de financiar programas, através das redes de supermercados, que venham a dirimir essa realidade absurda. Nessa ótica, durante a reunião sugeri que a rede buscasse parcerias com a impressa e associações atléticas profissionalizantes com o objetivo de fornecer algum tipo de bolsa-esporte

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desestimular ainda mais o trabalho infantil, tendo em vista a impossibilidade de inclusão em programas de aprendizagem profissional antes dos 14 anos de idade.

Foi falado ainda que a população também pode ajudar a desestimular a mendicância infantil destinando esses valores a projetos específicos de monitoramento e assistência a famílias retiradas das ruas. Todavia existe ainda uma resistência social grave quanto à compreensão da realidade obscura por trás das esmolas, e muitos combatem a própria filosofia da causa.

Faz-se necessária acima de tudo trabalhar a conscientização social através de campanhas sólidas eficazes que busquem despertar o povo para que não ajude a piorar a situação, direcionando a sua solidariedade da forma certa, não sendo reféns da engrenagem criminosa que existe por trás da realidade vista nas ruas.

Aparentemente, no município de Caicó, a realidade tende a ser a mesma. Vê-se até tarde da noite, crianças pedindo dinheiro na praça de alimentação, das quais algumas aparentam estar ligadas de alguma forma a orientações de adultos. Na cidade esse trabalho de monitoramento do trabalho infantil e da vulnerabilidade tem sido feita pelo município, através dos Centros de Referência em Atendimento Social, palas Aldeias e pelo programa Busca Ativa, da Secretaria de Educação, que visa trazer de volta para a escola menores que não estejam frequentando as aulas.

Nessa perspectiva o FOCA, por ser um fórum estadual, acaba atuando também no município de Caicó através das Aldeias Infantis SOS e do Instituto Dom Bosco, que detém cadeiras no fórum, com direito a voto e apresentação de projetos.

O presente trabalho monográfico aponta para a criação de uma rede municipal oficial própria como estratégia de combate à exploração do trabalho infantil e proteção do trabalhador menor de idade, tendo em vista a realidade de mendicância infantil, a vulnerabilidade ao consumo de drogas na adolescência e a necessidade de aumento no quantitativo de integrantes em programas de aprendizagem.

A partir das percepções feitas, visitas institucionais, conversas, participações nos eventos citados, e demais informações descritas acima, percebe-se que a SRTE-RN tem uma atuação vasta na defesa do trabalho do jovem e do adolescente no estado, através de seus auditores, coordenando projetos vultuosos que envolvem não só setores governamentais administrativos mas organizações civis e jurisdicionais, desempenhando um papel dramático na mudança da realidade norte-rio-grandense e caicoense. Tanto é que no município tem havido, após as

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