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Algumas Considerações sobre o Conceito de Forma em Bacon

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Algumas Considerações sobre o Conceito de Forma em Bacon

LUÍS OLIVA

Departamento de Filosofia Universidade de São Paulo Av. Prof. Luciano Gualberto, 315 05508-900 SÃO PAULO, SP [email protected]

Resumo: A questão da forma no pensamento de Bacon coloca sérios problemas para os leitores: por que manter uma palavra tão sobrecarregada? O que ela significa em uma filosofia que se opõe explicitamente às tradições platônica e aristotélica? A análise do termo no Novum Organum

dar-nos-á uma pista para responder a estas perguntas a partir das noções de lei e causa constante, além de explicar a relação que a forma apresenta com o processo e o esquematismo latentes, noções ligadas à parte prática do saber.

Palavras-chave: Bacon. Novum Organum. Forma, conceito de.

1. Introdução

Em que pese a existência de análises alternativas que não vêem uma ruptura radical no período, bem como de historiadores que situam Francis Bacon em posição mais próxima dos renascentistas que dos modernos, é inegável que o pensador inglês foi uma das figuras-chave do início do século XVII, usualmente conhecido como o século da revolução científica. Criador da nova ciência da natureza, Bacon foi em seu tempo o “arauto” da experiência, o defensor da necessidade de fazer as coisas se revelarem através de experimentos controlados, em vez de impor à natureza hipóteses mirabolantes que pouco tinham a ver com o mundo. Mais ainda, Bacon foi o responsável pelo rompimento com a tradição que via a ciência como estritamente contemplativa: ao dizer que ciência e poder coincidiam, Bacon tornou o conhecimento um instrumento para o controle dos fenômenos naturais, fazendo dos frutos práticos da ciência uma contraprova de

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sua veracidade teórica. Foi esta união que deu à ciência um papel relevante para a melhoria das condições de vida e para o progresso da humanidade.

Neste quadro, seria de se esperar que nosso revolucionário tivesse abdi-cado de todas as noções antigas e medievais, criando um novo vocabulário filosó-fico para pensar a natureza. Ledo engano: ele não só manteve como colocou no centro de seu projeto científico a mais desgastada das noções filosóficas: a forma. Por que as velhas formas? A resposta a esta pergunta pode servir de guia para uma compreensão mais profunda e menos “heróica” da obra de Bacon.

O conceito de forma remonta a Platão, constituindo o núcleo da teoria do conhecimento e da metafísica platônicas. As formas eram as idéias eternas e imutáveis das coisas, através das quais era possível um conhecimento verdadeiro, estável e necessário, ao passo que o mundo sensível estava mergulhado na contínua transformação inapreensível. Um exemplo de forma é o quadrado. Trata-se da idéia de uma figura de quatro lados iguais que se unem em quatro ângulos retos. Não há, porém, nenhum quadrado perfeito no mundo sensível. Todos eles são cópias imperfeitas do modelo ideal. Além disso, estes quadrados também têm cores e tamanhos variados, situam-se em lugares diversos, desgas-tam-se com o passar do tempo, características essas que não se inscrevem na idéia perfeita de quadrado. Esta é toda pura, não muda nem se corrompe, e limita-se àquilo de comum que unifica a multiplicidade dos quadrados imperfeitos que encontramos no dia-a-dia. Só com as formas podemos apreender a inteligibi-lidade de um mundo repleto de aparências e efemeridade. Mais ainda, as formas constituem a verdadeira existência, já que as cópias sensíveis têm uma realidade fugidia, e mesmo assim apenas na medida em que se assemelham às formas eternas separadas de nosso mundo.

O conceito também aparece em Aristóteles. Este filósofo atacou as formas platônicas como existências separadas situadas em um mundo ideal. No universo aristotélico só há indivíduos, e nada mais. Contudo o filósofo manteve as formas como núcleo da inteligibilidade da natureza. Elas não podem ser separadas senão por uma abstração do espírito, mas o fato de só existirem combinadas com a matéria não as faz menos reais enquanto fundamento da organização dos

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indi-víduos: o que distingue os homens dos cavalos são ainda as formas de homem e de cavalo, mesmo que estas não existam por si, separadamente dos homens e ca-valos particulares. De uma maneira ou de outra, as formas continuam sendo o conceito essencial para o conhecimento verdadeiro, e assim permanecerão, evi-dentemente com variações, pelos séculos seguintes.

Teriam, entretanto, lugar num projeto científico como o de Bacon, que rompe com a ciência antiga, a começar por Platão e Aristóteles? Dado que a resposta é afirmativa, é preciso considerar a exigência que as fez necessárias. Dizer que ciência e poder coincidem significa almejar um pleno conhecimento das coisas e um pleno domínio sobre elas. Em outras palavras, a ciência perfeita deverá permitir transformar qualquer corpo em qualquer outro. É isso que o conhecimento das formas obterá. Se será possível chegar tão longe, nem Bacon sabia, mas o escopo da ciência não muda por causa dos obstáculos que se lhe impõem.

2. A Forma no Novum Organum

Para um exame mais detalhado da forma, sem a pretensão de esgotar a complexidade do tema, abordaremos os aforismos iniciais do livro II do Novum

Organum, onde são apresentados alguns elementos fundamentais para a

com-preensão da noção.

O aforismo 1 se inicia com a declaração da obra e do intento primários do poder humano: engendrar e introduzir uma nova ou novas naturezas em um corpo dado. O termo natureza, neste sentido, não deve contudo ser confundido com A Natureza, entendida na acepção corrente. As naturezas, para Bacon, são as propriedades ou qualidades predicáveis de um corpo (que é um conjunto de diversas naturezas). Portanto, o que o aforismo diz é que o escopo primeiro do poder humano (ou, em outras palavras, da parte ativa, operativa ou prática do saber) é inserir em um corpo novas qualidades simples que antes ele não possuía. Por sua vez, a obra e intento primários da ciência humana (ou da parte contemplativa do saber) é descobrir a forma de uma natureza dada, ou sua verdadeira diferença, ou fonte de emanação, ou natureza naturante. Estas diversas

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caracterizações da forma de uma natureza apontam para as limitações voca-bulares que que impunham a Bacon. O autor optara (como diz explicitamente no

Advancement of Learning II, 6, 2) por manter os termos antigos dando-lhes contudo

novos significados. Daí seu esforço em várias obras para impedir uma leitura platônica, aristotélica ou escolástica do termo forma, sem contudo abdicar dele.

Em seguida, o autor apresenta as empresas secundárias do saber humano, respectivamente subordinadas às primárias: a saber, a obra secundária do poder humano, subordinada à introdução de novas naturezas, é a transformação de corpos concretos em outros corpos. A obra secundária da ciência humana, subordinada à descoberta da forma de uma natureza, é a descoberta, nos corpos em movimento, do processo latente e, nos corpos em repouso, do esquematismo latente. Do processo latente, é dito ser contínuo desde as causas eficiente e material mani-festas até a forma inserida, o que será melhor explicado no aforismo seguinte.

Mesmo sem ter com clareza o sentido dos vários termos envolvidos (forma, natureza, processo, esquematismo), devemos já notar que esta distinção dos domínios ativo e contemplativo (ou poder e ciência) deve ser relativizada e compreendida à luz do aforismo 3 do livro I: “Ciência e poder coincidem, uma vez que, sendo a causa ignorada, frustra-se o efeito. Pois a natureza não se vence, senão quando se lhe obedece. E o que à contemplação apresenta-se como causa é regra na prática” (BACON, 1999, p. 33). Ou seja, nas empresas secundárias, a descoberta do processo latente, imperceptível pelos sentidos e conduzindo uma matéria e um agente até a realização da forma, é o que permite a transformação de corpos concretos em outros corpos concretos. Bem como, nas empresas primárias, a descoberta da forma de uma qualidade simples (brancura, calor, transparência, etc), desvinculada de uma matéria ou corpo específicos, permitia a introdução desta qualidade simples em um corpo dado, o qual poderia ser qualquer corpo passível de ter tal qualidade e não apenas o corpo A ou B. Em outras palavras, a ciência do processo que transforma a água em neve leva ao poder de transformar um pouco de água em um pouco de neve; e a ciência da forma da brancura leva ao poder de inserir o branco em qualquer corpo.

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No aforismo 2, o autor passa à análise das quatro causas aristotélicas. Aceitando a distinção quadripartite das causas, bem como o lema conhecer é conhecer

pelas causas, Bacon todavia aponta a inadequação do tratamento dado à

causalidade pela tradição. Das quatro causas, Bacon ataca de pronto a causa final considerando-a um obstáculo às ciências, e mesmo um motivo de corrupção delas. A finalidade só será aceita no terreno da moralidade, nunca na filosofia natural, onde é deslocada e leva a que se negligencie a verdadeira investigação. Como diz Bacon,

Este deslocamento causou uma deficiência, ou ao menos grande incompetência, nas próprias ciências. Pois tratar de causas finais, misturadas com o restante das pesquisas físicas, interceptou a severa e diligente busca de todas as causas reais e físicas e deu aos homens a ocasião de contentarem-se com estas perigosas causas, para grande entrave e prejuízo das descobertas futuras (BACON, 1952, p. 45, l. II, 7, 7).

Quanto à causa formal, objeto próprio da Metafísica, sua descoberta é comumente tida por impossível, tal como Bacon descreve no aforismo 75 do livro I do Novum Organum, no qual é feita a crítica à Nova Academia:

Mas, não contentes de falarem deles próprios, põem fora dos limites do possível tudo o que tenha permanecido ignorado e inatingível para si e para os seus mestres, e declaram-no incognoscível e irrealizável, quase sob a autoridade da própria arte. Com suma presunção e malignidade fazem de sua fraqueza razão de calúnia para com a natureza e desespero para com todos os demais. Assim, a Nova Academia professou a acatalepsia e condenou os homens à perpétua ignorância. Daí surge a opinião de que as formas, que são as verdadeiras diferenças das coisas, isto é, as leis efetivas do ato puro, são impossíveis de serem descobertas, porque colocadas além de qualquer alcance humano (BACON, 1999, p. 59).

Finalmente, as causas material e eficiente, que não são deslocadas na filosofia natural, como a causa final, nem simplesmente ignoradas, como a causa formal, nem por isso são tratadas devidamente. É verdade que elas são o objeto próprio da Física (enquanto as formas são o da Metafísica), mas desvinculadas do processo latente que as conduz à forma, tornam-se inúteis. No AdvancementII, 7, 4, o fogo é apresentado como causa eficiente do derretimento da matéria cera. É

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verdade. No entanto, estas causas não podem ser vistas como causas constantes do derretimento. Em contato com o barro, por exemplo, o fogo produz o efeito oposto: o endurecimento. Bacon não nega as causas eficiente e material, mas considera-as causas variáveis e relativas (ora causam o efeito ora não), cujo valor consiste em atuarem como veículos para as formas, estas sim causas constantes:

Pois a forma de uma natureza dada é tal que, uma vez estabelecia, infalivelmente se segue a natureza. Está presente sempre que essa natureza também o esteja, universalmente a afirma e é constantemente inerente a ela. E essa mesma forma é de tal ordem que, se se afasta, a natureza infalivelmente se desvanece; que sempre que está ausente está ausente a natureza, quando totalmente a nega, por só nela estar presente (BACON, 1999, p. 103, l. II, 4).

Sendo assim, vê-se que o experimento do fogo e da cera nada revela sobre as formas (intento primário da ciência humana), mas também não será inútil se o cientista puder ir além do meramente sensível e detectar o processo latente que conduz à cera derretida, o que lhe dará o poder de transformar certos corpos concretos em outros (intento secundário da ciência humana).

O relevo dado às formas não deve, vale ressaltar mais uma vez, dar margem a uma leitura platônica em que as formas tivessem existência separada. As formas só têm sentido na matéria, e a Metafísica, que as estuda, é parte da filosofia natural.

Mas é manifesto que Platão, como alguém de elevadíssimo engenho, em sua opinião sobre as idéias disse que as formas eram o verdadeiro objeto do conhecimento; mas perdeu o real fruto desta opinião ao considerar as formas como absolutamente abstraídas da matéria, e assim voltar sua opinião para a teologia, que contamina toda sua filosofia natural (BACON, 1952, p. 44, l. II, 7, 5).

Ao dar às formas a existência independente, Platão caiu na teologia, embora tivesse razão em dizer que eram o verdadeiro objeto do conhecimento. Até aí, Bacon não vai além de Aristóteles. No entanto as diferenças se acirram quando examinamos quais são as formas que Bacon procura. O inglês não queria as formas do homem, do leão ou do cavalo. Isso lhe imporia um trabalho interminável e inútil. Afinal, qual é a vantagem de conhecer todas as palavras de

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uma língua quando se pode conhecer as vinte e poucas letras do alfabeto que as compõe? O que interessava a Bacon era o conhecimento das qualidades simples que constituem todos os corpos. O que é o ouro além do amarelo, de um certo peso, da ductibilidade, etc.? Produzir estas qualidades é produzir o ouro, assim como associá-las a outras pode gerar outro corpo.

A seqüência do aforismo 2 do Novum Organum também aponta para o caráter imanente das formas. Ali diz Bacon que nada há na Natureza além de corpos individuais que produzem atos puros individuais, atos estes que não ocorrem por mero acaso, mas são produzidos segundo uma lei, a forma, cuja descoberta, investigação e desenvolvimento constituirão o fundamento da ciência e do poder. Agora, portanto, a forma é caracterizada como uma lei e seus parágrafos:

Com efeito, quando falamos das formas, mais não entendemos que aquelas leis e determinações do ato puro, que ordenam e constituem toda e qualquer natureza simples, como o calor, a luz, o peso, em qualquer tipo de matéria ou objeto a elas suscetível. Falar em forma do calor ou da luz é o mesmo que falar da lei do calor ou da luz; não nos afastamos ou abstraímos do aspecto operativo das coisas (BACON, 1999, p. 128, l. II, 17).

Associando os termos do vocabulário jurídico, poderíamos dizer que a Lei imutável se aplica aos casos concretos por meio daquele processo latente que conduz as causas eficiente e material a seu efeito. Esta lei ou causa constante nem por isso pode ser dita exterior aos corpos concretos, já que o processo latente não deixa de ser, na ordem física das causas eficiente e final, a mesma ação causal das formas na ordem metafísica. Esta será nossa hipótese de trabalho: a mesma causa age fisicamente e metafisicamente sem deixar de estar confinada na matéria, nem poder ser abstraída dela. Daí talvez possamos entender a identificação do aforismo 1 entre forma e natureza naturante.1

1A respeito de natureza naturante leia-se a nota de James Spedding: “Na escolástica

tardia, assim como em Espinosa, denota Deus considerado como causa imanente do universo e portanto, ao menos segundo o último, não distinto hipostaticamente dele ... Bacon aplica o termo à Forma, considerada como a causa imanente das propriedades do corpo ...” (BACON, 1858, p. 277, vol. 1).

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Quem conhece as formas abarca a unidade de uma natureza (a brancura, por exemplo) nas mais variadas matérias (neve, nuvem, ovo, etc) e pode produzi-la em qualquer matéria. Este conhecimento habilitaria o homem a realizar o que nunca foi produzido antes, seja pelas vicissitudes naturais, seja pela indústria experimental, seja pelo acaso (a enumeração evidentemente não é casual: Bacon esgota todas as possibilidades de articulação das causas material e eficiente). Esta será a verdadeira contemplação e permitirá, já que ciência e poder coincidem, a operação livre, entenda-se, engendrar uma natureza em qualquer corpo. Esse poder, só alcançável através do conhecimento pleno das formas (Metafísica), Bacon chamará de Magia:

Pois assim como nos assuntos civis há uma sabedoria de discurso e uma sabedoria de como dirigir-se; assim também é nos naturais. E aqui peço que para o último (ou ao menos para uma parte dele) eu possa reviver e regenerar o desgastado e abusado nome de magia natural, cujo verdadeiro sentido não é senão sabedoria natural, ou prudência natural, tomado segundo a acepção antiga e purgado da vaidade e da superstição (BACON, 1952, p. 42, l. II, 7, 1).

O outro lado da moeda, contudo, aparece no aforismo 3, onde Bacon diz que o conhecimento, só em certos objetos, da causa de alguma natureza ou qualidade é uma ciência imperfeita, que por isso redunda em um poder imperfeito, ou seja, pode produzir efeitos apenas em algumas matérias. É o que ocorre a quem só conhece as causas eficiente e material, causas instáveis, veículos que transferem as formas para algo em certos casos somente. Esta ciência só dá o poder de fazer novas descobertas em matéria e condições semelhantes, sem chegar a mudar os limites mais profundos das coisas. O que não se vê com clareza (e esta é uma oscilação que permeia a obra toda) é se Bacon aqui se refere ao conhecimento vulgar das causas material e eficiente, desvinculado do processo latente, ou se visa também a tais causas ligadas ao processo latente e portanto àquilo que chamara no aforismo 1 de obras secundárias do saber humano, subordinadas às primárias. Ora Bacon parece valorizar as empresas secundárias (que abordam os corpos compostos) como um caminho necessário para o alcance das formas; ora rebaixa-as como um conhecimento de segunda categoria.

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Nossa hipótese de trabalho, anunciada acima, seria incompatível com a segunda alternativa.

O fato é que Bacon não tem muitas ilusões quanto à possibilidade de obter as formas eternas que regem o mundo, embora refute veementemente, como mostramos, aqueles que sustentam a impossibilidade de direito de alcançá-las. O autor sabe que a Metafísica e, por conseguinte, a Magia Natural muito provavelmente jamais chegarão ao domínio dos homens, o que lhes tolherá a realização das chamadas empresas primárias da ciência e do poder humanos. Qual é a dificuldade?

Certamente os resultados serão melhores ou piores conforme a capacidade e a força do intelecto que opera. Contudo, só a Deus, criador e introdutor das formas, ou talvez aos anjos e às inteligências celestes compete a faculdade de apreender as formas imediatamente por via afirmativa, e desde o início da contemplação. Certamente essa faculdade é superior ao homem, ao qual é concedida somente a via negativa de procedimento, e só depois no fim, depois de um processo completo de exclusões, pode passar às afirmações (BACON, 1999, p. 127, l. II, 15).

Isto não seria grave caso este processo exclusivo, o método indutivo, trou-xesse ao fim e ao cabo a forma pura. Bacon contudo não pode oferecê-la. Dada a precariedade da história natural de sua época, a deficiência dos instrumentos, os prejuízos do intelecto, etc, chega-se apenas a resultados provisórios, que não são e nem se pretendem definitivos. Não se trata, todavia, de uma operação frustrada. Muito pelo contrário, o processo indutivo, mesmo inconcluso, gera resultados que iluminam intensamente as chamadas empresas secundárias da ciência e do poder humanos. Como se vê, é difícil manter a interpretação de que Bacon coloca estas empresas em segundo plano (a despeito de certos textos), pois isso faria do projeto científico de Bacon uma tarefa fracassada.

Além do mais, as próprias tentativas de Bacon de realizar a descoberta indutiva das formas apontam para uma revelação progressiva do processo e do esquematismo latentes dos corpos, que são a base das empresas secundárias, não das primárias. O esquematismo, do qual ainda não havíamos falado, é o arranjo das partes mínimas da matéria:

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De acordo com Bacon, a matéria existe em dois estados: espíritos e matéria tangível. Espíritos são ativos, a matéria tangível é passiva, fria e inerte. Os espíritos operam na matéria produzindo a maior parte dos processos observáveis no mundo terrestre (CLERICUZIO, 2000, p. 78).

O esquematismo muda de acordo com a proporção da matéria tangível (rígida) e dos espíritos (voláteis). Estes últimos, embora materiais, têm apetites, desejos e impulsos, e determinarão o caráter inanimado, vegetal ou animal do corpo em que residem.

Pois não há corpo tangível sobre a terra que não cubra um espírito invisível, como uma veste. Aí tem origem a tríplice fonte tão admirável e poderosa do processo do espírito em um corpo tangível: se o espírito se desprende, o corpo se contrai e seca; se retido, abranda e torna fluidos os corpos; se não se desprende nem permanece por completo, empresta forma, cria membros, assimila, digere, organiza, etc. (BACON, 1999, p. 173, l. II, 40).2

Todos os processos latentes e, por conseguinte, todos os movimentos e altera-ções dos corpos dependerão da estrutura da matéria contida no esquematismo.

Ora, o que será a forma do calor, exemplo usado por Bacon para a apresentação de seu método experimental? Qual será a causa do calor, seja no fogo, nos raios do sol, nas entranhas de um corpo vivo ou onde quer que exista? A resposta (ainda provisória ou, como diz Bacon, “primeira vindima”) extraída negativamente da análise das tábuas de citação é que tal forma é um movimento expansivo reprimido das partículas de um corpo. Produzir este movimento é engendrar calor:

O que dissemos a respeito do movimento (ou seja, que é como o gênero em relação ao calor) não deve ser entendido como significando que o calor gera o movimento ou que o movimento gera o calor (embora nisso haja alguma verdade), mas que o calor é em si, ou que a própria qüididade do calor é movimento e nada mais; limitado, porém, pelas diferenças que a seguir enumeraremos, depois de indicar algumas precauções contra os equívocos (BACON, 1999, p. 132, l. II, 20).3

2 Tradução levemente modificada. 3 Tradução levemente modificada.

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Em resumo, muito longe das formas platônicas como idéias eternas, o que temos aqui é uma forma como atividade inerente à matéria (matéria que não é mais mero receptáculo, como em Aristóteles) produzindo uma qualidade sensível nos corpos. O problema é que o movimento, como qualquer outra atividade que se dá na matéria, depende e resulta da estrutura da matéria, ou seja, do esquematismo latente, da proporção entre espíritos e matéria tangível. Poderíamos então dizer que o primeiro resultado na busca da forma (empresa primária) revela-se na verdade um aprofundamento do conhecimento do esquematismo e do processo latentes dos corpos (empresa secundária).

Isso vai ao encontro da hipótese que lançamos acima: forma, de um lado, e processo e esquematismo latentes, de outro, são os dois níveis de uma mesma ação causal. Por isso não há contraposição entre empresas primárias e secundárias, embora as primeiras se situem na ordem metafísica e as segundas na ordem física. A dita “imperfeição” das empresas secundárias só é realmente negativa quando vista em descontinuidade com o projeto maior de filosofia natural, pois neste caso serão limitadas e infecundas, mesmo que verdadeiras. Por outro lado, voltada para a Metafísica, a Física do processo e do esquematismo funcionará como uma visão indireta das formas, ou, no mínimo, como um instrumento cada vez mais preciso e poderoso para o homem aproximar-se da Magia Natural.

Abstract: The question of the form in Bacon’s thought puts serious problems to the readers: why

does Bacon keep such an overburdened word? What does it mean in a philosophy that is explicitly opposed to platonic and aristotelian traditions? The analysis of the term in the Novum Organum

will give us a clue to answer those questions through the notions of law and constant cause, and will also explain the relation that form presents with the latent process and the latent schematism, both notions related to the practical part of knowledge.

Referências Bibliográficas

BACON, F. Novum Organum. São Paulo: Nova Cultural, 1999. (Coleção Os Pensadores.)

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BACON, F. The Works of Francis Bacon. Londres: Longman and Co., 1858.

CLERICUZIO, A. Elements, Principles and Corpuscles. A Study of Atomism and Chemistry

in the Seventeenth Century. Dordrecht/Boston/Londres: Kluwer Academic

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