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Pedras no caminho[1]

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Academic year: 2021

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1ª Edição

Câmara Brasileira de Jovens Escritores

Ivo di Freyoli

Pedras no

Caminho

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Câmara Brasileira de Jovens Escritores Rua Crundiúba 71/201F - Cep 21931-500

Rio de Janeiro - RJ Tel.: (21) 3393-2163 www.camarabrasileira.com [email protected] Dezembro de 2007 Primeira Edição

Coordenação editorial: Gláucia Helena Editor: Georges Martins Produção gráfica: Alexandre Campos

Revisão: do autor

É proibida a reprodução total ou parcial desta obra, por qualquer meio e para qualquer fim, sem a autorização

prévia, por escrito, do autor. Obra protegida pela Lei de Direitos Autorais

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Rio de Janeiro - Brasil Dezembro de 2007

Ivo di Freyoli

Pedras no

Caminho

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SOBRE O AUTOR

Nasci na cidade de Iturama-MG. Sempre gostei de ler: José Mauro de Vasconcelos, José de Alencar, Machado de Assis, José Lins do Rego, Graciliano Ramos, Disney, Maurício de Souza, Ziraldo, Milôr Fernandes, Harold Hobins, Sidney Sheldon...

Estou aprendendo a escrever. Escrevi algumas historinhas infantis. Estou empenhado em um livro de contos, e este romance Pedras no Caminho. Pretendo continuar. Es-pero que os leitores me ajudem. Sugestões e críticas serão bem recebidas pelo fone (034) 3411-0569 ou pelo E.mail: [email protected], ou cartas para Rua B, 31 – Bairro Santa Helena-CEP 38280.000 – Iturama-MG. Abraços

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PEDRAS NO CAMINHO – é uma breve narrativa a respeito de um engenheiro civil nascido no interior do esta-do de Mato Grosso esta-do Sul, o qual após completar os seus estudos muda-se para a capital de São Paulo e funda uma empresa no ramo de construção civil. Homem rude e ganan-cioso ao extremo não mede conseqüências a fim de atingir os seus objetivos, tentando enriquecer-se à custa de negociatas, golpes e manipulações. No auge de sua carreira empenha-se na construção de um edifício na cidade de Campinas. E ali trava negócios com um humilde e honesto proprietário de uma loja de materiais de constr ução, levando-o consequentemente à falência e ao suicídio, destruindo-lhe a família e o lar. Oscar Arruda, que é o proprietário da loja, ao morrer deixa dois filhos e a esposa, que também morre louca em um hospício. Um dos filhos, o mais moço, torna-se defici-ente mental. E o mais velho, depois de ambos continuarem a viver com uma tia em São Paulo, e já adulto, planeja a vingan-ça contra o engenheiro com o intuito de destruir-lhe também a vida. O primeiro passo trata-se de um bem arquitetado seqüestro, onde lhe é tirado uma boa parte das finanças. Mas ao conhecer a filha do grande magnata, uma jovem simples e atraente, os seus planos começam a mudarem-se, pois daí sur-ge uma interessante história de amor.

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DEDICATÓRIA

Dedico este livro à minha esposa Brasilina, e à minha filha Aline, que tiveram a coragem de incentivar-me a seguir em frente.

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A garoa fina cobria as ruas da cidade.

O engenheiro e industrial Raul Montilla, um dos ho-mens mais bem sucedidos da capital de São Paulo, divertia-se em uma noite de gala no Everiday Dance, um dos clubes da alta sociedade paulista. Tinha 57 anos e orgulhava-se da boa saúde e aparência jovial que possuía. Acompanhavam-no a sua bela esposa Adriana Ferraz de Vasconcelos Montilla, dama sorridente, ricamente vestida e atraente, e a filha, Cristina Ferraz Montilla, jovem de rosto meigo, que expressava inteligência e bondade, e atraía diversos olhares de rapazes cobiçosos de sua beleza.

Era a noite de sábado do dia 18 de setembro de 2004. O recinto encontrava-se apinhado de figurões da elite, ban-queiros, comerciantes abastados, escritores, artistas. Ornava-se também com a exuberância dos ricos vestidos de Ornava-seda, o charme, e o perfume de inúmeras mulheres bonitas e luxuo-sas, num ambiente requintado e de classe.

O som da orquestra cessara por alguns momentos, pairando no ar somente o ruído característico das conversa-ções animadas, as risadas, e uma profusão de tinir de copos e garrafas ao tocarem as mesas e bandejas dos garçons. De repente ouviu-se um disparo e um grito estridente. Próximo ao local onde se encontrava o engenheiro, viu-se uma mu-lher emborcar-se, e uma mancha vermelha surgia instanta-neamente em seu busto, empapando de sangue o vestido branco. Ao cair, o cabelo comprido cobriu-lhe o rosto difi-cultando-lhe a identificação.

Apagaram-se as luzes, aumentando o pânico, a gritaria das mulheres, e o tumulto. Houve uma correria geral,

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bando-se mesas, cadeiras, copos e garrafas. O alvoroço na es-curidão prolongou-se por quase dez minutos, sem que nin-guém compreendesse o que estava acontecendo. Em seguida voltou a claridade ao recinto. O porteiro encontrava-se des-maiado com uma coronhada na cabeça. A mulher baleada desaparecera misteriosamente, e o engenheiro Raul Montilla também não se encontrava presente. Fora seqüestrado.

Ia agora para algum lugar ignorado. Encontrava-se no interior de um veículo, mais precisamente uma ambulância. Estava assentado. Tinham amarrado-lhe as mãos e os pés, e dirigiam calados, em alta velocidade. Sua boca havia sido amordaçada e enfiaram-lhe um capuz na cabeça. Achava que iria sufocar-se. Um deles, o que se encontrava ao seu lado, acendera um cigarro e fumava. Percebia-se que ao todo eram quatro seqüestradores.

Raul Montilla encontrava-se ainda meio zonzo. Um pouco pelo efeito do que bebera na festa, mas um tanto pelo impacto do que acontecia tão inesperadamente. Todavia acha-va-se consciente, e podia ouvir perfeitamente tudo o que se passava ao redor. Andaram quase uma hora dando voltas pela cidade. De vez em quando a sirene era acionada, e soava com estridência. Ouvia a tosse de um deles, e percebia-se pelo per-fume que havia uma mulher no grupo.

De repente a ambulância parou, estacionando-se. – Desamarre os pés do cachorro e coloque-o para fora. -Ordenou com voz rouca o homem que dirigia.

Raul Montilla percebia ódio na voz daquele homem. Teve um pressentimento ruim, e o seu coração começou a pulsar com mais força. No entanto, pôde notar que apenas trocavam de veículo. Passavam para um carro esporte.

Ao descer da ambulância o engenheiro tropeçou e qua-se caiu.

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– Está bêbado, velho miserável! Vamos depressa! -Exclamou a voz de outro seqüestrador, empurrando-o desa-jeitadamente para o interior do carro.

Montilla bateu com a cabeça na quina da porta, e sol-tou um gemido abafado. Amarraram-lhe novamente os pés, enquanto o motorista guardava a ambulância rapidamente em uma garagem. Ouviram-no trancar os portões da casa e em seguida entrou no carro e prosseguiram a viagem. Tinha a impressão de que se dirigiam para os lados de Santos, pois as curvas da estrada eram constantes. Julgava ser mais ou menos umas quatro horas da manhã, quando o veículo saíra da rodo-via para uma estrada de terra pedregosa e cheia de buracos. Depois de rodarem aos solavancos por um certo tempo, Montilla sentiu que o carro parara em um local escuro e silen-cioso. Achava que seria uma casa velha abandonada ao pé de algum morro. Entraram em uma garagem, e o veículo foi des-ligado. Neste momento abriram a porta da casa, e ele pode ouvir uma voz diferente, de outro homem que se aproximava do veículo e dizia:

– O aposento já está pronto, chefe! – Está bem, ajude a trazer o velho.

– É para desamarra-lo, senhor? - Perguntou um deles. – Não. Tragam-no amarrado mesmo! - Ordenou o que estava no comando.

Os outros dois arrastaram-no para fora do carro. Um deles agarrou-o pelos ombros e o outro nos pés, e foram con-duzindo-o para o interior da residência.

– O desgraçado pesa como porco! - Exclamou um deles em tom de mofa.

O outro riu.

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Montilla sentiu que entravam em um compartimento completamente escuro. Jogaram-no ao chão, e ele emitiu ou-tro gemido rouco. Bateu a cabeça no ladrilho e uma dor agu-da quase o fez desmaiar.

– Retirem-lhe o capuz e a mordaça. - Disse o chefe. E trate de comportar-se, velho ordinário! Se começar a gritar, encho-lhe a boca de chumbo, entendeu?

O engenheiro imaginou qual seria a arma apontada para ele naquele momento e estremeceu. Depois que retira-ram-lhe o pano da boca, Montilla ainda ousou perguntar num fio de voz:

– Onde estamos?

– Não é da sua conta! - Respondeu-lhe o chefe. Revistaram-lhe os bolsos, afrouxaram-lhe as roupas, retiraram-lhe os sapatos. Entre os pertences encontrados ha-via um aparelho celular, cheques, carteira com documentos, dinheiro, relógio. E, escondida sob a meia da perna direita, uma pistola automática, carregada.

– Vejam! O velho está armado! Ele é perigoso! - Ex-clamou um dos seqüestradores.

– Eu sei disso. - Respondeu o chefe com azedume. Deixem-no descansar. Ao amanhecer conversaremos.

Saíram, e Raul Montilla viu-se sozinho, trancado em um quarto escuro, amarrado, e deitado no chão duro. Sentiu um frio intenso a percorrer-lhe o corpo, e um nó de revolta a subir-lhe pela garganta. A humilhação que sofria deixava-o amargurado e com vontade de chorar. Sentia ódio de tudo e de todos. Começava ali o seu cativeiro.

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Adriana Ferraz de Vasconcelos Montilla, esposa do engenheiro Raul Montilla, e sua filha, Cristina Ferraz Montilla, encontravam-se no apartamento onde residia a família, uma cobertura de 500 m2, quatro suítes, no bairro Pinheiros, onde abriga-se parte da classe média e alta paulista.

Desde o momento em que o engenheiro fora levado pelos bandidos as duas mulheres entraram em desespero. Es-tavam apavoradas. O irmão de Adriana, Haroldo Ferraz, fora chamado para ajuda-las. Logo após o seqüestro conseguira sair com elas por uma porta dos fundos do clube, a fim de evitarem o batalhão de repórteres e de câmeras fotográficas que invadiam o recinto naquele momento. Na certa seria um furo de primeira página o acontecimento daquela noite. A imprensa em peso dava cobertura ao caso.

Cristina, a filha de Raul Montilla, era uma jovem alta, cabelos pretos, pele clara, com 24 anos, um rosto meigo e inteligente, olhos castanhos, alegres. Tinha um rosto bonito, que refletia sinceridade. Era simpática, carinhosa, e amava o pai. Estava perplexa a respeito do seqüestro do mesmo, e te-mia por sua vida. Onde estaria ele? A sua mãe estava em pâni-co, não sabia o que fazer. Cristina também estava tensa. Ama-nhecera o dia tentando acalma-la, mas nenhuma das duas ha-via dormido.

Os seqüestradores ligaram para o advogado de Montilla exigindo um valor de duzentos mil dólares pelo resgate do mesmo. Não queriam a interferência da polícia. Cristina conhecia o advogado de seu pai, Sr. Jetro Tobias da Cunha. Sabia que era proeminente, e que havia argumentado com os seqüestradores.

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– Duzentos mil dólares é uma quantia bastante expres-siva. - Disse. Conforme o nosso contador, não dispomos desse dinheiro em caixa no momento.

O homem que estava na linha respondera:

– O Sr. Raul Montilla estará bem seguro em nos-sas mãos. Daremos um prazo de três dias para arruma-rem o dinheiro.

– Mas é muito pouco...

– Voltaremos a conversar daqui a três dias. Caso não tenham conseguido o que queremos, devolveremos o seu pa-trão de volta para casa.

– É mesmo?

– Com a cabeça esmigalhada, e os miolos embrulha-dos em papel de presente, certo?

Desligaram, e Jetro sentira um calafrio a percorrer-lhe a espinha.

Cristina vira a mãe fora de si, quase louca, quando sou-bera da conversa. Um médico viera aplicar-lhe um sedativo, e a Sra. Adriana havia adormecido. Sozinha na sala, Cristina li-gara a televisão. O noticiário da manhã mostrava o seqüestro em primeira mão. Sentia pena do pai. Lembrava-se de que em criança ele a pegava no colo, dava-lhe carinho. Sempre fora bom para com ela e a mãe. Nascera no melhor hospital de São Paulo, tivera tudo que uma criança recém-nascida necessi-tava. Quarto decorado com castelinhos, fadas, flores, borbo-letas. Quadros com pinturas de personagens de histórias in-fantis, berço de madeira trabalhada, enxoval completo, brin-quedos. A mãe fora bem cuidada pelos médicos, nada faltara. Gostava do pai. Era um homem rico, influente. Residi-ram a vida inteira em casas enormes, luxuosas, e com uma porção de criados. Ele as levava para passearem em fazendas, montavam cavalos, nadavam, iam à praia. Estudava nas mais

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bem conceituadas escolas, onde só freqüentavam os filhos de gente rica. Via as amigas na ostentação de luxo e riqueza, e ficava de lado a ouvir-lhes a conversa.

– Marcela, mas que vestido lindo! Onde você o com-prou? - Dizia uma delas.

– Minha mãe é freguesa da Kirk’s, sabe? - Respondia a outra entusiasmada.

Cristina não se importava com aquilo. Não era vaidosa, não exibia grandeza. Era uma menina bonita, porém sentia-se melhor na simplicidade. As amigas mostravam-se salientes ao aproximarem-se de um garoto atraente e bem vestido.

– Olha como o Henrique é lindo! - Dizia uma.

– Ai! Acho que estou apaixonado por ele. Respondia a outra.

– O pai dele é dono de uma rede supermercados, sabia? Cristina permanecia fora dessas manifestações, e as outras estranhavam-na. Ela era diferente. Gostava de parti-lhar os seus brinquedos com as outras crianças pobres, que nada possuíam. No Natal juntava-os em uma enorme sacola e pedia ao pai que mandasse um dos empregados distribuí-los na periferia. No início o engenheiro estranhara aquilo, mas depois não quis contrariá-la. Era de natureza tão diferente, seria mesmo sua filha aquela criaturinha tão bondosa?

Cristina lembrava-se da cozinheira, Dona Iraci, uma preta empregada de sua mãe há muitos anos. Ela tinha uma netinha, cuja mãe morrera em um acidente. Um dia, Dona Iraci mostrara-lhe uma foto da neta. Era uma menina raquíti-ca, desnutrida, e de olhos fundos. Ia fazer cinco anos. Sabia que a velha jamais poderia comprar-lhe uma boneca no dia do seu aniversário. Teve pena dela. Embrulhou, às escondi-das, um dos melhores vestidos e a sua boneca mais cara e mandou que Iraci levasse de presente à neta.

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– Deus lhe pague, minha filha! - Disse a velha abraçan-do-a com lágrimas nos olhos.

Quando ela tinha doze anos a mãe engravidara novamente.

– Então vou ter um irmãozinho, mamãe? - Perguntou à mãe entusiasmada.

– Sim, querida!

Sentira-se muito feliz e contara a todas as professoras e amigos da escola. Via o pai sorridente e eufórico. Teria um filho homem, que era o sonho de sua vida. Trazia amigos para casa, fazia festas, e eles o felicitavam. Abraçava a esposa, dava-lhe flores. Queria muito aquele filho, seria o seu sucessor nos negócios. Há tempos que esperava por ele, e agora a sua vida seria completa.

– Agora teremos um homem para gerir os negócios no futuro! - Exclamava o pai. Um Montilla!

O pai esperava que o menino viesse a ser como ele. Inteligente e hábil nos negócios. A sua alegria era visível. An-dava de cabeça erguida, orgulhoso. Porém, de um momento para outro a animosidade esvaíra-se como a névoa. A euforia desaparecera, e ele tornara-se acabrunhado. Não sorria, não mais se alegrava com a filha, mostrava-se frio para com a es-posa. O motivo Cristina soubera alguns dias depois. Sua mãe sofrera um pequeno acidente e abortara. Não poderia mais ter filhos, não havia nada que os médicos pudessem fazer. Ela não teria mais o irmãozinho que tanto esperara, e o pai entris-tecera-se pela perca do filho que queria.

No entanto, o pai continuara a construir prédios, e a cuidar dos negócios. Prosperava. Vivia no comando de ho-mens, trabalhadores rudes e de mãos calejadas. Tirava do pa-pel construções magníficas, que se erguiam rapidamente, qua-se da noite para o dia. Lidava com tijolos, pedra e aço e, no

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entanto era homem fino, polido, e de bom trato. Tomava di-nheiro emprestado nos bancos para os seus empreendimen-tos, lidava com milhares de pessoas. Dava trabalho a muita gente, e movimentava um enorme capital.

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Todos os anos Cristina recebia inúmeros presentes de aniversário. Mas ao completar quinze anos ganhara uma suntuosa festa no Over Night Club, um dos melhores clubes da capital. Fora um tremendo sucesso. Atraíra representan-tes de empresas e dos dignitários mais importanrepresentan-tes da cida-de. Trajava um vestido longo, e os cabelos negros realça-vam-lhe a beleza do rosto. O pai estava radiante, e não se cansava de elogia-la.

– Você está linda, minha filha!

A mãe sorria amavelmente e conversava com os con-vidados, andando com elegância de um lado para outro no recinto. Usava roupas e jóias das melhores grifes de São Pau-lo, Rio de Janeiro e até de Nova Iorque.

Havia uma profusão de celebridades, jogadores famo-sos, importantes executivos. Mulheres lindas e bem vestidas, usando colares de pérolas e brincos de brilhantes. As suas amigas de escola vieram parabenizá-la, e trouxeram presentes caríssimos. Dançara com jovens executivos, artistas, jornalis-tas, muitos deles ansiosos para receberem dela alguns minu-tos de atenção.

Notara a presença de um jovem que a olhava com insistência. Não o conhecia. Achava que nunca o havia visto. Desviara-se do olhar por alguns segundos. Porém ao voltar a vista naquela direção não o enxergara mais. Havia desapa-recido. Quem seria? Guardou aquele olhar enigmático, e ja-mais o esquecera. Certamente haveria de vê-lo outra vez em algum lugar.

Cristina sentia-se feliz, porque via o pai alegre e sorri-dente. Amava-o, e queria que continuasse com aquele

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asmo e jovialidade. Ia freqüentemente a eventos beneficen-tes, teatro, exposições de arte, e a imprensa registrava regu-larmente a presença da família Montilla. O nome do pai apa-recia nos jornais, em entrevistas a respeito do sucesso dos seus empreendimentos.

Cristina tornara-se uma jovem bonita e atraente. Estu-dara e formara-se em Sociologia. Porém não se afeiçoara ao luxo e à pompa em que vivia. Satisfazia-se com as coisas mais simples. Comportava-se no mesmo estilo de vida de quando criança. Não mudara em nada. Gostava de ajudar aos pobres, socorre-los em suas necessidades. Doía-lhe o coração ao ver alguém chorar, ou padecer algum infortúnio.

Lembrava-se de certa vez, numa tarde fria e chuvosa, ao sair da faculdade encontrara uma jovem adolescente assen-tada a um banco da praça com o rosto coberto entre as mãos. Tinha os cabelos loiros e a roupa amarrotada e gasta pelo uso. Cristina segurou-lhe o queixo levantando-lhe o rosto. A meni-na fitou-lhe com os olhos marejados de lágrimas.

– O que aconteceu? - Perguntou Cristina.

– Não foi nada! - Respondeu-lhe a jovem bruscamen-te, tentando desvencilhar-se.

Cristina percebera que o estado de espírito dela era de desespero e de desconfiança. Tentara acalma-la assentando-se ao seu lado.

– Não tenha medo, eu só quero ajuda-la. - Disse. – Não preciso de ajuda. Deixe-me em paz!

Cristina ficou pensativa por alguns segundos. Não sa-bia o que fazer, mas sentia pena da garota. Em seguida voltou a falar.

– Queria apenas ser sua amiga. - Murmurou. Qual é o seu nome?

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– Está bem, Elizabeth. Posso ser sua amiga?

A menina levantou a cabeça e fitou-a com um olhar indeciso e triste.

– Eu não tenho amigos.

– Que tal ser eu a primeira? - Disse Cristina com suavidade. Conseguira com muito custo leva-la ao barzinho onde os estudantes reuniam-se. Dera-lhe um lanche, e ficara saben-do de sua história.

Elizabeth era filha de um eletricista que morrera há dois anos de uma descarga elétrica. Moravam em um bairro po-bre, ela ficara com a mãe e um irmão mais novo. Um ano e seis meses após a morte do pai, a mãe não suportava mais lavar, passar, e fazer faxina nas residências das senhoras ricas. Mas precisava manter a casa e o sustento dos filhos. Passara então a morar com um pedreiro, que trabalhava dois dias na semana e tirava os outros cinco de folga para beber, dormir, e infernizar a vida de Elizabeth e a do irmãozinho em casa. Batia neles sem motivo, e muitas vezes, quando a mãe se en-contrava no trabalho, queria forçá-la a sentar-se em seu colo, tentando beija-la, insinuando obscenidades.

– Venha cá, minha gatinha! - Dizia ele, pegando-a pelo braço, recendendo ao bafo de cachaça e fumo.

Ela escapava-se com um safanão, e ele a esbofeteava. Cristina ficara consternada com a história.

– Não quero mais voltar para casa. - Dissera Elizabeth. – Vamos dar um jeito nisso.

Deixara-a na casa de Dona Iraci, a cozinheira. Com-prara-lhe roupas, calçados. Dera um jeito de mandar um por-tador entregar nas mãos da mãe uma quantia em dinheiro, e dizer que a filha estava sob a proteção de pessoas de bem. Providenciara, com o passar dos tempos, que se encontras-sem, e se vissem de vez em quando.

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Elizabeth era uma menina compreensiva, educada, e estudiosa. Depois de três anos tornara-se uma linda jovem de cabelos loiros e encaracolados. Falava Inglês e Espanhol, e trabalhava no escritório da empresa Montilla & Ferraz Em-preendimentos, como secretária do pai de Cristina.

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– Como é que é, já arrumaram o dinheiro?

Era a voz do chefe dos seqüestradores ouvida pelo advogado que cuidava dos negócios do Sr. Raul Montilla, Jetro Tobias da Cunha. Terminara o prazo de três dias dado por eles para conseguirem os duzentos mil dólares do resgate, e ligavam para obterem o resultado da proposta: Ou o dinhei-ro, ou a morte do engenheiro.

Jetro estava preocupado. Havia percorrido as institui-ções financeiras que emprestavam dinheiro para as obras de Raul Montilla. Os banqueiros não se dispunham a abrirem mais crédito ao engenheiro, menos ainda, quando se tratava de quan-tia tão elevada. Na maioria dos bancos havia inadimplência, e muitos dos títulos no protesto. Jetro sabia disso, e não via solução imediata para o problema.

– É... Quer dizer, ainda não. - Gaguejou em resposta. – Muito bem, seu engraçadinho, você pensa que estamos de brincadeira, não é?

O advogado Jetro Tobias da Cunha era um homem de meia idade, alto, e de cor preta. Agora estava encolhido na cadeira, quase branco de medo, e a voz saía fraca e entrecortada.

– É... Bem... É que...

– Certo. Pelo menos o dinheiro para o enterro de seu patrão vocês devem ter...

– Não! Espere! Nós vamos conseguir. Só que não te-mos uma fonte precisa. Caso dispuséssete-mos em vender al-guns bens da família haveria a demora de alal-guns dias! - Expli-cou Jetro, tentando ganhar tempo.

O advogado trabalhava para o Sr. Montilla há muitos anos, e tinha um completo domínio sobre a situação

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ra do mesmo. O que possuía, a sua renda anual, os seus com-promissos mais urgentes, as suas dívidas.

– O que nos sugere então? - Perguntou o chefe dos seqüestradores.

Jetro sabia que Raul Montilla não era homem de guar-dar dinheiro, que era mais fácil estar em débito com os ban-cos do que deixar alguma quantia acumulada em suas contas. Caso tivesse que vender algum imóvel a decisão teria que par-tir do patrão. Pensou por alguns segundos e disse:

– Bem, quem sabe o Sr. Raul Montilla tem algu-ma sugestão?

– Está certo. Conversaremos com ele, e voltaremos a falar amanhã. Caso não tenha solução alguma enviaremos-lhe a sua língua de presente. Está bem?

O telefone ficou mudo.

Jetro permaneceu por um longo tempo segurando o aparelho, pensativo. Era o homem de confiança de Raul Montilla, e gostava de seu trabalho. Estivera em muitas situa-ções embaraçosas. Porém, jamais se imaginara em uma difi-culdade como aquela. Consultara os bancos, procurara até o cunhado de Montilla, Haroldo Ferraz, o qual era dono de uma proeminente rede de supermercados.

– Vou ver o que posso fazer. - Dissera-lhe Haroldo. Até agora nada conseguiram, e Jetro estava desolado. Não queria que Montilla morresse. Precisariam dar um jeito. O advogado levantou-se e começou a andar pela sala. Estava irrequieto. Aproximou-se da janela e olhou a rua lá embaixo. O escritório da organização Montilla & Ferraz Empreendi-mentos situava-se do terceiro ao oitavo paviEmpreendi-mentos de um edifício de vinte e seis andares na Avenida Paulista. Era reple-to de salas, divisórias, escrivaninhas, com um número enorme de telefones, interfones, computadores, e lindas secretárias à

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disposição de cada um dos departamentos, tais como: Contábil, Financeiro, Pessoal e Relações Humanas, Publicitá-rio, Jurídico.

Jetro era o chefe do Departamento Jurídico, e estava contente. Havia tirado Raul Montilla de várias complicações, de dificuldades incontáveis. Mas o patrão o ajudara muito. Lembrava-se do que acontecera há dezoito anos atrás. Jamais se esqueceria da ajuda que Raul Montilla lhe dera.

Jetro era filho de pais negros. Porém, fora educado re-gularmente desde criança. A mãe morrera poucos anos de-pois de seu nascimento, e criara-se com o pai, que era jardinei-ro na mansão dos Castilhos, uma família rica da cidade de Campinas. O pai era homem honrado e trabalhador, e Jetro, um menino inteligente e esperto. Fora encaminhado aos estu-dos desde pequeno. Cursara o segundo grau, e aos dezoito anos ingressara-se na Faculdade de Direito. Estudava e traba-lhava para o Sr. Castilho e família, prestando-lhes alguns ser-viços sem muita importância. Limpava os carros, polia, com-prava jornais, ia ao correio. Aos poucos se tornara pessoa de confiança da casa. Aprendera a dirigir, e fora colocado como o motorista do velho. Às Vezes ele lhe dizia:

– Jetro, pegue o carro e vá até o mercado. Ele ia e voltava sem problemas.

– Busque-me o terno no alfaiate.

E Jetro cumpria as ordens com retidão e humildade. O Sr. Hermínio Castilho, há muitos anos, operava no ramo de transações imobiliárias. Possuía mais de cinqüenta pequenas residências em diversos bairros da ci-dade, as quais eram alugadas às pessoas de baixa renda a um valor compatível. Não havia cobradores para executa-rem os recebimentos das mensalidades, e o Sr. Hermínio Castilho fazia-o pessoalmente.

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– Castilho, mande uma empresa imobiliária cuidar dis-so! - Aconselhava-lhe a esposa.

Ao que o Sr. Hermínio respondia:

– Este é o meu serviço, mulher! Deixe-me em paz! Mas a verdade era que o Sr. Castilho não se dispunha a desembolsar do seu dinheiro com mais aquela despesa. Pre-tendia economizar o máximo. Tudo o que ajuntasse seria pou-co para pou-comprar outras casas e tornar a aluga-las. O seu patrimônio e a sua renda cresceriam mais e mais a cada ano, e a sua ganância também.

Os aluguéis eram baratos, e a maioria das pessoas pa-gava com pontualidade. Mas sempre havia inquilinos que da-vam trabalho. Um dia o Sr. Hermínio disse a Jetro:

– Vamos visitar um mau-pagador.

Jetro pegou o carro e dirigiram-se a um bairro afasta-do. Bateram na residência de Aparício Gambá, e surgiu na porta um homem mal-vestido, de barbas espessas, e cabelos compridos, desalinhados. Dentro da casa recendia a um chei-ro de comida estragada.

– O que é? - Perguntou Aparício, com uma voz pastosa. Jetro percebeu que ele estava bêbado.

– Vim receber o aluguel atrasado! - Disse o Sr. Castilho entrando na casa.

Aparício Gambá ficara possuído de um espírito de re-volta, e maltratara o velho com palavras ofensivas.

– Cale a boca, e pague o que me deve, seu bêbado or-dinário! - Vociferou o Sr. Castilho.

– Espere aí, seu velho caduco!... - Tornou a gritar Aparício.

E adiantou-se para agredir o velho, tentando tropega-mente agarrar-lhe o pescoço. O Sr. Castilho empurrou-o com força. Ele cambaleou e caiu, batendo a nuca em um degrau de

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concreto. Jetro vira-o estremecer e virar os olhos. O Sr. Castilho abaixse, tomando-lhe o pulso. Em seguida colocou o ou-vido em seu peito auscultando-lhe o coração.

– Está morto. - Disse, virando-se para Jetro.

O velho estava apavorado. Encostaram a porta e fo-ram-se embora. Jetro testemunhara um assassinato.

– Não conte isso a ninguém. - Pediu-lhe o Sr. Castilho. E Jetro guardara segredo, mas jamais se esquecera da-quela cena.

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Quando tinha vinte e dois anos de idade Jetro termina-ra o curso de Direito. Etermina-ra um jovem cheio de vigor, e com um sorriso de dentes brancos e perfeitos.

– Parabéns, meu filho, você venceu! - Dissera-lhe o pai. Mas Jetro sabia que não havia vencido. Procurara tra-balho em escritórios de advocacia. Em alguns achavam-no muito jovem, sem experiência. Mas na maioria deles era rejei-tado por causa da cor da pele, por ser negro. Um ano depois o pai falecera, e ele continuara a trabalhar e a residir na man-são dos Castilhos.

A família Castilho era constituída pelo velho, Sr. Hermínio Castilho, esposa, e uma filha do casal, a Srta. Marle-ne Castilho. MarleMarle-ne era filha única, e vivia com os pais na mansão. Era feia e desengonçada. Alta, magra, de olhos fun-dos e andar desajeitado. Tinha uma voz fina e esganiçada. Quando jovem conseguira engravidar-se, não se sabe como, e era mãe-solteira de uma linda menina, de pele clara, olhos azuis e cabelos loiros. Chamava-se Jéssica, e não completara onze anos ainda.

Ela e Jetro às vezes aproximavam-se um do outro e trocavam palavras. Jetro não tinha nenhuma experiência na área profissional, e muito pouca na área sexual. Lembrava-se que em adolescente masturbava-se olhando revistas pornográfi-cas, e era aficionado em loiras. Tinha uma fantasia inexplicável por traseiros bem feitos, e na rua olhava as mulheres, e a sua atenção voltava-se para esta área da anatomia feminina. De vez em quando ia a casas de prostituição e pegava as mulhe-res por trás. Elas sofriam com isso, e havia lugamulhe-res em que já era conhecido, e criava fama devido esta preferência.

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– Cuidado, meninas! Lá vem o papa-rabos! - Brincava a dona da casa ao vê-lo chegar.

Em casa, Jetro ia para a cama e pensava na filha de Mar-lene Castilho. Achava que estava enlouquecendo. Um dia ele a vira sair da piscina nua, com a pele muito branca e os cabelos loiros e encaracolados a escorrerem-se pelas costas. Correu-lhe a vista pelo bumbum e teve uma ereção muito grande. Não podia esquece-la. De vez em quando Marlene lhe dizia:

– Jetro, pegue o carro e busque a Jéssica na escola. Ele ia voando, e quase não podia conter-se. As mãos tremiam no volante, o corpo suava frio. Tinha ímpetos de passar a mão em suas pernas, leva-la a um lugar deserto e... Estava louco. Não queria cometer nenhuma tolice, teria de controlar-se.

À noite, sozinho no quarto, fantasiava. Pensava nela dormindo lá em cima. Imaginava-se passando-lhe a mão so-bre as nádegas, acariciando-lhe o corpo, sentindo-lhe a maci-ez, o calor. O pênis se enrijecia, e ele ficava como louco. Esta-va possesso, era um maníaco sexual. Teria que fazer alguma coisa, sair daquela angústia que o sufocava. Mas fazer o que? Iria embora daquela casa, e nunca mais voltaria. Partiria para São Paulo, antes que cometesse uma loucura. Mas precisaria de dinheiro, e não tinha como consegui-lo. Pedir ao Sr. Castilho era perca de tempo. O velho era sovina, e não descolava um centavo que não fosse em prol dos seus negócios imobiliári-os. E o dinheiro que lhe dava no fim do mês mal sobrava para uma roupa barata, e uma cerveja em companhia de alguma loura oxigenada na casa de Madame Brígida. Porém o saldo bancário do velho era sempre gordo. Recebia os aluguéis, depositava, economizava, e ajuntava com precisão matemáti-ca. De vez em quando adquiria uma nova propriedade, dava-lhe alguns retoques e alugava-a.

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Jetro lembrava-se de que naquela manhã o velho fecha-ra o negócio da compfecha-ra de uma casa pequena em um bairro afastado. O proprietário, um senhor idoso e sistemático, exi-gira o pagamento em dinheiro.

– Pegue o carro e vamos ao banco. - Dissera-lhe o Sr. Castilho.

Vira-o sacar vinte e cinco mil reais, e coloca-los em um envelope amarelo. Não era uma quantia muito expressiva. Porém dava para passar alguns dias na capital. Pensou Jetro. Dirigiram-se para um bairro afastado, e entraram por uma rua de terra, esburacada.

A rua estava completamente deserta, e começou uma chuvinha fina. Jetro parou o carro e apontou um revolver Smith & Wesson para a barriga do velho, que levou um tre-mendo susto.

– Mas o que... ?

– Passe-me o dinheiro, Sr. Castilho. Vou fazer uma viagem e preciso dele.

– Mas... - Fez o velho sobressaltado entregando-lhe o envelope.

Jetro apanhou-o tranqüilamente, e disse:

– Seja bonzinho, Sr. Castilho, e jamais pense em dar queixa à polícia, ouviu?

O velho estava trêmulo e de olhos arregalados. – Você se lembra de Aparício Gambá? - Perguntou Jetro. Eu não contei a ninguém que você o matou. Mas se me denunciar por essa pequena brincadeira...

E Jetro comprimiu mais o revólver sobre a barriga do velho, fazendo-o soltar um gemido.

– ...Eu abrirei o bico, e iremos os dois para a ca-deia. Entendeu?

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– Está certo... Jetro. Jamais darei parte de você. Eu prometo, eu juro! - Respondeu o velho, quase chorando.

– Está bem. Desça do carro!

O Sr. Hermínio Castilho desceu, e foi a última vez na vida que viu Jetro. O carro saiu em alta velocidade espalhando lama por todos os lados. Jetro ainda passou em casa a fim de apanhar suas coisas. Colocou as roupas na mala, pegou os do-cumentos e o seu diploma de advogado. Ao sair avistou Jéssica no jardim. Parou por alguns momentos a contempla-la.

– O que foi Jetro? - Perguntou a menina.

Jetro ficou paralisado. A tentação voltara com todas as forças. Queria ir embora, mas tinha desejos impetuosos de agarra-la e leva-la consigo. Sabia que jamais iria vê-la nova-mente. Estava preso por uma força estranha, incontrolável. Achava que iria cometer uma loucura. Não havia ninguém por perto. Faria com que ela entrasse no carro, e partiria para lon-ge. Ninguém saberia de nada, faria o que quisesse com ela. Haveria de possuí-la, mataria aquele desejo louco. Só de pen-sar sentia uma ereção.

Mas naquele momento abrira-se uma porta e alguém chamara a menina. Jetro acordou do devaneio, saiu correndo, e partiu para nunca mais voltar.

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Um ano depois que Jetro se encontrava em São Paulo o dinheiro havia se acabado. No início hospedara-se em ho-téis. Procurara emprego em firmas e escritórios. Todavia, sem referências pessoais, em uma cidade desconhecida, tornara-se difícil conseguir alguma coisa. Não sujeitaria a trabalhos infe-riores, como garçom, jardineiro, vendedor. Era um advoga-do, e exerceria a sua profissão. Estava determinado a conse-guir o que queria. Andara pelas ruas, seconse-guira anúncios em jor-nais, batera em muitas portas. Porém, quando não o rejeita-vam de imediato, anotarejeita-vam-lhe o nome e endereço em um papel, que era jogado no lixo ao verem-no virar as costas. Jetro aguardava ansioso uma entrevista, o que jamais ocorria. Às vezes passava horas e horas perdido no meio da multidão que transitava apressadamente, comprimindo-se e empurrando-se pelas ruas da cidade, ou assentava-se em um banco da Praça da Sé, a olhar os pombos. Entrava em cine-mas, e via uma fita, duas, três vezes, só para passar o tempo. Enfadava-se de não ter o que fazer. À noite ia a boates e gasta-va com bebidas e mulheres. Jogagasta-va em cassinos, e perdia. Cer-ta vez começara a ganhar muito dinheiro numa banca de jogo de cartas em um beco escondido da Rua Montevidéu. Porém, suava frio e tremia. Aplicava um truque sujo, que aprendera em Campinas com um sujeito chamado Ranulfo Mão-de-Gato. Jetro estava nervoso. Os parceiros perceberam-lhe o embuste e colocaram-no para fora com um chute no traseiro e os bol-sos vazios.

– Merda! - Exclamou Jetro.

Passara a residir em pensões baratas. Lembrava-se de que numa delas encontrara Aracélio Casagrande. Um homem

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baixo, careca e rechonchudo, que exibia uma papada conside-rável sustentando um rosto liso e de bochechas avermelhadas. Tinha uma conversa agradável, era engraçado, e aparentava ser um bom amigo. Era divorciado, e Jetro e ele sempre saíam juntos para uma cerveja no Gingo’s.

Certa vez Jetro lhe dissera:

– Aracélio, preciso vender o meu carro. – Qual é o problema?

– Documentos. - Respondera-lhe Jetro. – Daremos um jeito.

O carro encontrava-se em estado lastimável, e fora ven-dido a um desmanche por um valor desprezível.

Jetro recordava-se de que Aracélio Casagrande era o contador de uma empresa recém-constituída, a organização Montilla & Ferraz Empreendimentos, de propriedade do eminente engenheiro civil, vindo do estado de Mato Grosso do Sul, Sr. Raul Montilla. A empresa possuía escritório mon-tado, e inúmeros funcionários empenhados na construção de um imponente arranha-céu no centro da capital. A obra to-mava um grande avanço, e Aracélio conseguira um emprego para Jetro, preenchendo uma vaga de apontador.

– Não é grande coisa, mas foi o que consegui no mo-mento. - Explicou.

Jetro estava com três meses de atraso nos pagamentos da pensão. Os sapatos tinham buracos enormes no solado, e as calças gastas nos fundilhos. Não tinha outra alternativa a não ser agarrar-se àquela oportunidade valiosa.

– Obrigado, amigo! - Disse ao contador. – Você começa amanhã.

– Está bem.

Jetro foi para o trabalho. Seis meses depois tinha co-nhecimento de grande parte sobre a movimentação da obra.

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Anotava as horas trabalhadas de cada funcionário. Sabia o valor do salário que receberiam no final da semana, conhecia as ferramentas recolhidas no almoxarifado e o preço de cada uma. Entrava e saía no depósito de materiais.

Jetro trabalhava, porém não se achava satisfeito. O sa-lário que recebia mal dava para as despesas. Pagava a pensão, a lavadeira, o ônibus e comprava alguma coisa de seu próprio uso. Às vezes tomava uma cerveja no final da tarde, e não havia mais dinheiro. Começou a pedir emprestado aos com-panheiros de serviço, e ficou com fama de mal pagador. Ali-mentava também o sonho de um dia ainda poder exercer a sua profissão, e de montar o seu próprio escritório de advo-cacia. Mas para isso precisava de uma soma considerável, e o sonho tornava-se cada vez mais distante da realidade.

Um dia descobriram o desaparecimento de algumas ferramentas de valor elevado e materiais da obra, e Jetro fora apontado como principal suspeito, conforme a inquisição exe-cutada pelo mestre de obras e o guarda daqueles setores. Que-riam chamar a polícia, e Jetro ficara perturbado. Sabia que se metera em uma encrenca e poderia ser preso.

Porém, decidiram levar antes o caso ao engenheiro. Montilla mandou chamá-lo ao escritório para conversarem. Havia-o visto na obra certa vez, e gostara daquele rapaz de cor preta. Notara que era um sujeito inteligente e esperto.

– Por que fez isso? - Perguntou o engenheiro.

E Jetro contou-lhe sobre o seu passado, a sua vida de apertos e de necessidades. Ressaltou que era advogado e que jamais lhe deram oportunidade para exercer a profissão que tanto desejava. Jetro sabia que iria preso, e estava a ponto de considerar-se um fracassado.

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Colocara-o como advogado da organização Montilla & Ferraz Empreendimentos, com um ordenado que lhe sur-preendera. Jetro não cabia em si de contente, e temia que tudo aquilo não passasse de um sonho.

– Agora trabalharemos juntos, amigo! - Dissera-lhe um dia a Aracélio Casagrande.

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Raul Montilla estava preso em um quarto escuro. Ha-via apenas uma luz no banheiro. Soltaram-lhe os pés e as mãos, e ele caminhava de um lado para o outro. Era um homem alto, magro, cabelos grisalhos, feições serenas e olhar calmo. Tinha cinqüenta e sete anos, e jamais se encontrara em uma situação como aquela. Mas era forte e não se desesperaria. Passara por inúmeras dificuldades na vida, e vencera todas. Era pessoa de prestígio, homem de poder na alta sociedade. Desde criança primara-se em ser um grande, um forte. Queria estar sempre no comando, olhando de cima. Não seria mais ultrajado. Não por esses bandidos. Haveriam de pagar caro pelos seus atos.

Raul Montilla pisava o chão com força. Lembrava-se da primeira vez na vida em que fora humilhado. Tinha dezessete anos, e vivia com o pai em uma fazenda no muni-cípio de Cassilândia, uma pequena cidade do interior do Mato Grosso do Sul. O pai trabalhava na lida de gado, e Montilla ajudava-o. O fazendeiro, Coronel Herculano, aposentado no Exército, era rico. Tinha uma filha bonita ao extremo, e Montilla apaixonara-se por ela. Um dia o Coronel chamara-o para uma cchamara-onversa.

– Não quero que se aproxime da minha filha, entendeu? – Por que? - Perguntou Montilla.

– Minha filha merece coisa melhor. Não um pé-rapa-do como você!

Montilla sentira o ódio a subir-lhe pela garganta. Que-ria falar muita coisa àquele velho arrogante. Porém, engoliu em seco, e só conseguiu balbuciar:

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– Está bem, senhor.

Tempos depois ela casara-se com um político milioná-rio, e Montilla entendera que precisava ser alguém na vida. Dissera ao pai que queria estudar, e desde então fixara um objetivo: Seria rico, milionário. Colocaria em breve o velho Herculano e sua filha a lamberem-lhe os pés. Eles que se cui-dassem. Não seria mais humilhado por ninguém.

O pai colocara-o na faculdade na cidade de Campo Grande, e era um dos primeiros em inteligência. Morava em uma pensão. Conversava pouco, e não se dava com as pessoas à sua volta. A maioria eram empregados assalariados, que vi-viam do pouco que recebiam. Montilla não lhes dava atenção. Não se importava com as pessoas humildes, abominava a pobreza, desprezava-os. Passava por eles, e nem se dignava a olha-los. Não se comunicava com ninguém, era como se per-tencesse a outro mundo.

Na faculdade procurava estar ao lado dos alunos de posição. Os que possuíam bens, os que tinham dinheiro. Bajulava-os, ajudava-os em seus trabalhos escolares. Fazia tudo para agradar-lhes, para conseguir-lhes a amizade. Um dia se-ria como eles, ou mais do que eles. Pensava Montilla. No meio dos outros, gabava-se contando histórias de grandeza.

– Meu tio é deputado. - Dizia. E o meu avô era dono de duzentos alqueires de terra em Rondônia.

E junto com as garotas:

– Minha grife preferida é a Arthur Caliman. As roupas que eu uso caem-me no corpo com perfeição.

Elas admiravam-se de seu bom gosto.

– Não uso outro perfume a não se Albany. É maravilhoso!

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– Eu tinha uma namorada na cidade de Rondonópolis, que dizia amar-me. Dei-lhe de presente um relógio a ouro de dois mil reais. Um colar de pérolas de seis mil dólares, um par de brincos e uma pulseira. Mas quando parei com os presen-tes ela abandonou-me. Vejam como as mulheres só amam o nosso dinheiro, e são interesseiras!

Montilla imbuíra-se de um espírito de grandeza e poder. Sonhava-se rico, poderoso, dono de fortunas incalculáveis, pa-lacetes, fazendas. Comparava os objetos que adquiria com os amigos. Considerava-os melhores do que os deles, e se envaide-cia e diminuía os colegas. Conheenvaide-cia as marcas de veículos mais vendidos, sabia mais do que todos sobre a vida de um homem bem-sucedido, discutia sobre o sucesso de artistas famosos. Conhecia o valor dos salários de jogadores que ganhavam mi-lhões, e quem eram as pessoas mais ricas do mundo.

Tinha a ostentação nas veias, e o desejo de opulência corri-lhe no sangue.

– Meu pai é criador de gado Nelore. Possui várias medalhas de campeões. - Mentia.

O pai era um simples vaqueiro, que se molhava de suor, e vivia queimado de sol e coberto de poeira. Lutava desespe-radamente para cumprir com as obrigações, e manter o filho na escola. Enviava-lhe o suficiente para as despesas e o paga-mento do curso no final de cada mês. Era o sonho do pai, o seu orgulho.

Montilla tornava-se a cada dia mais ansioso de posse, e seu desprezo pelos menos afortunados aumentava. Tratava mal as cozinheiras da pensão, e descompunha a pobre senho-ra que lavava-lhe as roupas.

– Olha só que roupas mal lavadas! Tem manchas por todo lado! - Dizia. A senhora trate de fazer um serviço me-lhor, ou não lhe pagarei da próxima vez, entendeu?

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A velha senhora pegava o dinheiro, e saía cabisbaixa. Tinha uma filha doente, e a casa para sustentar. Mas as duas negras arrumadeiras ao verem Montilla chegar de cara feia, diziam entre si, com ares de deboche:

– Lá vem Vossa Majestade o rei da cocada preta! E saíam-se rindo.

– Idiotas! - Exclamava Raul Montilla.

Porém, orgulhava-se de sua esperteza e sabedoria. Lem-brava-se da vez em que a funcionária de uma loja lhe dera um troco a maior. Ela era pobre, e fora despedida do emprego. Não tinha como ajudar nas despesas de casa, e mãe era tuberculosa.

– Não tive culpa, ela deu-me o dinheiro com as pró-prias mãos. - Disse Montilla, justificando-se.

Uma tarde, na rua, uma velhinha estendeu-lhe a mão pedindo-lhe uma esmola. Mandou que ela fosse trabalhar, e que não o amolasse. A velhinha o amaldiçoara.

No meio dos colegas de faculdade ninguém conhecia o pai de Montilla a não ser através de comentários do mesmo. Emprestava-lhe uma imagem de exaltação e grandeza.

– O meu pai comprou mais uma fazenda no Triângulo Mineiro! - Vangloriava-se, exacerbando-se em mentiras.

Pintara o pai como um homem rico e poderoso. Mas sabia que no fundo nada possuía, era um simples trabalhador como os demais que desprezava.

Montilla formara-se em Engenharia Civil. Houve uma grande festa de formatura, e o pai comparecera contra a sua vontade. Envergonhava-se dele. Vestia-se com simplicidade, e Montilla tentou esconde-lo dos colegas. Manteve-o à distân-cia, e quase nem se aproximara do pobre homem. Não podia dizer a eles que aquele simples vaqueiro, de aspecto humilde e acanhado era o seu pai. Zombariam dele, descobririam-lhe a verdade, e seria motivo de grande humilhação.

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O pai de Montilla percebera que fora rejeitado pelo filho. Sentiu uma dor profunda no peito, uma grande amargu-ra. Um dia de triunfo e alegria para ele, transformara-se em sofrimento e tristeza. Foi-se embora para casa, e nunca mais tornara a ver o filho. Tempos depois morrera de um ataque cardíaco.

Montilla vendera o que sobrara das posses do pai: Umas quinze vacas de leite, e uma pequena casa em Cassilândia. Mudara-se para São Paulo, montara o seu escritório, e come-çara a trabalhar em busca do seu objetivo.

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– Vocês não conseguirão um centavo do meu dinhei-ro! - Exclamou Montilla com irritação na voz.

Os dois seqüestradores encapuzados haviam entrado no quarto e aproximaram-se. O chefe empunhava uma arma e o outro o telefone celular do engenheiro.

– Ligue ao seu advogado e diga-lhe que venda o que for preciso para conseguir o dinheiro. - Disse entregando-lhe o aparelho.

– Não vou fazer isso! - Grunhiu Montilla com a voz rouca.

– Por que? - Perguntou o chefe com frieza.

– Vocês não sabem com quem estão se metendo! Eu sou um homem poderoso, eu tenho influência, eu...

Recebeu um soco na boca com tanta força que ba-teu a cabeça na parede, e o sangue começou a escorrer-lhe pelo queixo.

– Eu devia era mata-lo, velho imundo! - Exclamou o chefe dos seqüestradores. Sei muito bem com quem es-tou lidando!

Levantou a arma e deu-lhe uma coronhada no nariz, exprimindo toda a ira que havia dentro de si. Montilla camba-leou e começou a cair. O outro homem segurou-o, e ajudou-o a assentar-se no piso. O engenheiro tossiu e esguichou sangue pelas narinas, empapando-lhe a camisa.

– E então? - Perguntou-lhe o seqüestrador. – Eu... Eu ligo. - Gaguejou Montilla.

Tornou a tossir, e apertou os botões do aparelho. Colocou-o no ouvido, e percebeu a voz do advogado do outro lado.

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– Alô?

– Jetro... Venda os apartamentos... rápido, e consiga o dinheiro...

O chefe dos seqüestradores retirou o aparelho da mão de Montilla.

– Ligaremos daqui a uma semana. - Disse ao advoga-do. Enquanto isso cuidaremos da saúde de seu patrão. Ele está mesmo necessitando de uma dieta...

Ouviu o telefone sendo desligado.

– Vocês se arrependerão por isso! - Esbravejou Montilla.

Os seqüestradores olharam-no com desprezo e saíram, trancando a porta.

– Acho que vamos conseguir. - Disse o chefe. – Com certeza. - Respondeu o outro.

Odete Arruda, a mulher que participara também do seqüestro, aproximou-se.

– E aí? - Perguntou-lhes querendo saber das novidades. – Mais uma semana de espera. - Respondeu-lhe um deles. Odete Arruda era morena, de cabelos pretos, e usava um short curto, deixando à mostra as pernas bem feitas. As-sentou-se em um tamborete na varanda, e ligou um radinho portátil procurando um pouco de distração.

A tarde estava silenciosa. Começou a chover de mansi-nho, e Odete contemplava os pingos a caírem sobre as folhas. Acendeu um cigarro, e pôs-se a fumar pensativa. Havia três dias que tudo começara, e que se envolvera nessa história. Nunca se metera em complicações como esta. Tinha medo. Envolveram-se ela, os dois primos, e o namorado. A idéia fora de Angelo Arruda, o seu primo mais velho. Era ele quem estava no comando da operação. Odete não sabia o porque daquilo tudo. Angelo sempre fora um jovem pacato, uma

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pes-soa de bem. Odete conhecia-o desde a infância, pois fora a sua mãe que criara os dois primos. Angelo e Jackson não ti-nham pai, e a mãe de Odete os amparara desde pequenos. Pelo que sabia Angelo não tinha ficha na polícia. Jamais quise-ra um vintém de outquise-ra pessoa, equise-ra um sujeito honesto.

– O que estaria acontecendo com Angelo? Por acaso ficara louco? - Perguntara ao namorado, Galdino Barbosa.

Mas Galdino não sabia, e nem queria saber. Só interes-sava-se pelo dinheiro. O que fizera Angelo planejar um seqüestro e envolve-los naquele jogo perigoso não era da sua conta. Seria problema dele.

Odete pensava no primo mais moço, Jackson. Era com-pletamente inocente. Tinha pena dele. Com vinte e três anos de idade, Jackson agia como criança. Sofria de problemas mentais devido traumas ocorridos na infância. Dependia em tudo de Angelo. Achava que Angelo envolvera-o, para não deixa-lo sozinho. Jackson amava Angelo a ponto de obedece-lo em tudo, idolatrá-obedece-lo. Angeobedece-lo representava tudo de bom em sua vida.

A família de Odete consistia somente dos dois primos e ela. A mãe já havia falecido, e viviam juntos em uma casa, e ela imaginava-se a mais errada dos três. Envolvera-se com aquele seu namorado, Galdino Barbosa, que era um marginal. Não era um bom exemplo de pessoa. Não trabalhava, e vivia de pequenos furtos e de jogo. Angelo dera-lhe conselhos, mas não adiantara. Galdino tratava-a bem, e respeitava o primo. Até então não tinha motivos para abandona-lo. Iam indo bem, sem problemas. Porém, Odete também não era flor que se cheirasse. Tinha os seus meios de defesa, não era qualquer homem que se metesse a maltrata-la. Sabia lutar Karatê, judô, e algumas gingas de capoeira. Freqüentava academias. Tinha o corpo ágil e os músculos rijos.

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Odete não se importava de participar de um seqüestro. Só tinha medo de que as coisas não dessem certo, e que fos-sem todos parar na cadeia. Não conhecia Raul Montilla. An-gelo Arruda planejara tudo.

– Você quer ganhar cinqüenta mil dólares? - Pergunta-ra a Galdino Barbosa.

– Que piada é essa, rapaz? - Espantara-se o marginal. – Não se trata de piada. É um seqüestro. - Expli-cou. Iremos em quatro: Eu, você, Odete e Jackson. Exigi-remos duzentos mil dólares de resgate, e cada um ficará com cinqüenta.

Galdino não acreditava no que ouvia. Tinha o primo de Odete na conta de um homem inofensivo, incapaz de pre-judicar um inseto. Mas ao inteirar-se de todo o plano, sentira que Angelo não estava brincando.

Odete lembrava-se de toda a encenação no dia do seqüestro. Não se sabia como Angelo conseguira que entras-sem naquela festa. Odete aproximara-se de Raul Montilla jun-tamente com Angelo e Galdino. Coube a Jackson soltar um tiro de festim, enquanto ela fingira ser atingida, estourando a bolsa de tinta vermelha provocando a mancha no vestido. Jackson agira novamente apagando as luzes, enquanto Ângelo e Galdino imobilizavam o engenheiro. Em seguida aproveita-ram o tumulto e o pânico para saírem. Colocaaproveita-ram o velho na ambulância, e partiram. Trouxeram-no ali para aquele sítio. Segundo Angelo dissera, aquela propriedade pertencia a um médico rico, residente na cidade do Rio de Janeiro. O caseiro que cuidava de tudo ali era conhecido de Angelo, e segundo ele não aparecia ninguém por aquelas bandas. O dono não fazia conta da propriedade, e só a visitara umas duas ou três vezes dentro de cinco anos. O zelador chamava-se Crispim. Angelo o havia conhecido na livraria onde trabalhara, quando

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o mesmo ia freqüentemente até lá em busca de revistas por-nográficas. Conversava com ele de vez em quando a respeito de plantas e hortaliças, e sabia que morava sozinho na casa. Tinha uns quarenta e poucos anos de idade. Era um homenzi-nho chocho e desconfiado. Concordara em participar do seqüestro, oferecendo alojamento e comida à vítima e aos demais componentes do bando, mediante o pagamento de cinco mil dólares no final de todas as transações.

A primeira parte do seqüestro fora um sucesso. Agora se encontravam ali aguardando o cumprimento da segunda parte do plano, que seria o recebimento do resgate. Odete e Galdino Barbosa estariam ricos. Comprariam um carro, e vi-ajariam. Certamente conheceriam países estrangeiros, e os lu-gares mais emocionantes do mundo. Andariam de avião e de navio. Participariam de cruzeiros internacionais. Vestiriam-se de lindas roupas, se apresentariam como pessoas bem-sucedi-das. Poderiam experimentar bebidas caras, e dormirem em hotéis de luxo.

Ela e Galdino já haviam feito planos. Bastava coloca-rem a mão no dinheiro, e iriam desfrutar os prazeres da vida. Achava que o seu primo Angelo tivera uma ótima idéia em seqüestrar o velho rico. Só tinha medo de falharem. Não que-ria ser presa, e nem complicar a vida.

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Angelo Arruda Montenegro era um sujeito fechado. Falava pouco, nunca sorria, mas tinha boa aparência. Alto, forte, pele morena, e cabelos pretos. Possuía um rosto boni-to, e o semblante triste. A boca era bem feita, de dentes bran-cos e perfeitos.

Sentava-se à mesa da cozinha e folheava um jornal. Chovia lá fora, e a tarde caía silenciosa e triste. Encontravam-se em um sítio distante da cidade, e o irmão de Angelo olhava a chuva através da janela.

– Nano, que dia a gente vai-se embora? - Perguntou-lhe o irmão, virando-se de repente.

Angelo sabia que o irmão começava a desinquietar-se. Aguardavam o pagamento do resgate, e teriam que ter paci-ência. Mas o irmão não entendia isso. Tinha vinte e três anos e era como criança. Lembrava-se que desde pequeno o irmão chamava-o de “Nano”. Angelo amava-o de todo o coração. Cuidara dele com carinho durante toda a sua vida.

– Daqui a poucos dias Jack. Tenha calma, está bem? -Respondeu Angelo.

Jackson voltara a contemplar a chuva através da janela. Angelo tinha pena do irmão. Não devia tê-lo feito participar do seqüestro. Achava que praticara uma injustiça submeten-do-o àquelas complicações. Jackson não compreendia o que se passava. Agia de acordo com as ordens do irmão, vivia em sua dependência, e era inofensivo. Mas Angelo fizera-o parti-cipar do seqüestro, ordenara-lhe aquela parte da ação, para que estivesse ao seu lado, não se afastasse de junto dele. Não toleraria que nada de mal lhe acontecesse. Tinha sempre o

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cuidado de não deixa-lo sozinho, pois Jackson longe de sua companhia ficava desorientado, sem saber o que fazer.

Angelo via o irmão a brincar inocente com a água da chuva que escorria da beira do telhado, e pensava em Raul Montilla. “Eu devia era mata-lo”. Pensava. “O velho desgra-çado é o culpado de tudo. Mas vou acabar com ele”. Contem-plava o rosto feliz do irmão, e concluía que Jackson possuía os traços do pai. O mesmo sorriso e a mesma bondade es-tampada nos olhos...

Angelo começou a lembrar-se de quando tinha oito anos de idade. Achava o pai um homem novo, bonito e atra-ente. Chamava-se Oscar Arruda, e a mãe, Rita Montenegro Arruda. Várias vezes o pai dera-lhe presentes de aniversário. Era alegre e amoroso. Via-o chegar do trabalho e encher a mãe de beijos. Amava também os filhos: Angelo, e Jackson. Havia grande contentamento quando chegava tarde em casa, cansado, e ainda tinha tempo de abraça-los, e brincar com eles na pequena sala da casa humilde em um bairro da cidade de Campinas. Jackson, seu irmão mais novo, tinha dois aninhos. Era apanhado ao colo, e Angelo e penduravam-lhe ao pesco-ço, e o pai fazia-lhes a maior festa. Às vezes chegava, e já os encontrava dormindo. Ia até ao quarto, aproximava-se, e dava-lhes beijinhos de boa noite. Todavia Angelo permanecia acor-dado horas e horas esperando-o. E quando chegava em sua cama Angelo o surpreendia.

– Por que ainda não dormiu, seu malandrinho! ? - Brin-cava o pai, fingindo zanga.

– Estava esperando-o. - Respondia-lhe Angelo. Oscar Arruda era bom pai, e um marido exemplar. Quando tinha tempo ajudava a esposa em seus afazeres do-mésticos, e os filhos em seus deveres escolares. Era um ho-mem honesto, trabalhador, e de boa índole. Estimado pela

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família, pelos vizinhos, e benquisto pelo povo. Gostava de ajudar as pessoas, tinha bom coração. Era raro o dia em que não prestava um favor, ou solucionava os problemas de al-guém em alguma necessidade.

– Oscar, empreste-me o seu cortador de grama? - Pe-dia-lhe um vizinho.

Às vezes alguém adoecia altas horas da noite, e vinham acorda-lo.

– Por favor, leve minha mãe ao hospital, que está nas últimas!

E lá ia ele, com prazer, sem reclamar, embora estivesse cansado e estremunhado de sono.

Oscar Arruda era proprietário de uma proeminente loja de materiais para construção. Tinha dois caminhões que executavam inúmeras entregas durante o dia. Todavia, nos fi-nais de semana, quando os caminhões estacionavam-se no pátio, vinha sempre alguém lhe bater à porta.

– Oscar, estou mudando-me, e precisava de um favorzinho.

– O que é? - Perguntava Oscar.

– O caminhão para transportar a mudança. Oscar cedia, e não cobrava nada do frete.

Nos dias de folga passava o tempo com a família. Pas-seava com eles, iam aos shopings fazer compras, levava-os ao zoológico, lanchavam nos McDonalds. Em casa, Ângelo lem-brava-se de que brincavam de bola, e ele ensinava a Jackson os primeiros passinhos. Jogava damas e dominó com a mãe. À noite freqüentavam sorveterias, ou visitavam amigos. Nessas ocasiões Angelo via a mãe trajando lindos vestidos. Ela era bonita. Sorria feliz com o seu rosto jovem e corpo atraente.

Oscar envolvia a esposa e os dois filhos em seus bra-ços, e exclamava com calor e convicção:

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– Um dia nós iremos morar em um palacete com so-brado, janelas amplas e varanda!

– Vai haver árvores, papai?- Perguntava Angelo, entu-siasmado.

– Ora, mas é claro! - Respondia o pai. Vai haver um belo jardim com muitas flores, grama, e inúmeras árvores com pássaros cantando por todo o lado.

– Vai ser muito bonito, não é papai? – Sim, filho. Muito lindo!

E Angelo via-se a correr alegremente no meio das árvo-res do jardim a brincar com Jackson, o irmãozinho mais novo... Oscar Arruda trabalhava incansavelmente na adminis-tração dos negócios. Era correto e pontual em seus compro-missos. Jamais atrasava o pagamento aos fornecedores, e as obrigações com os funcionários eram cumpridas com pontu-alidade. Nunca houvera reclamações na Justiça do Trabalho, e os compromissos bancários eram observados com rigor. Os gerentes dos bancos constantemente convidavam-no para al-moçarem em restaurantes de luxo, e ofereciam-lhe emprésti-mos. Mas Oscar Arruda era parcimonioso e moderado. Sabia perfeitamente o quanto necessitava de capital de giro para a sua empresa, e não exagerava nos investimentos. Preferia ca-minhar com lentidão, subir aos poucos.

Em casa, Oscar Arruda mantinha em perfeita harmonia com a esposa os compromissos domésticos. Era tudo contro-lado dentro do orçamento em que poderiam se dispor. Não havia contas além do que poderiam gastar, e as economias eram, de comum acordo, reinvestidas no comércio, ou em outros bens de valor para o patrimônio da família. A esposa de Oscar ad-mirava-o por isso, e amava-o cada vez mais. Não era homem dado a esbanjar dinheiro em farras, bebedeiras ou jogos. Não gastava com supérfluos, e pensava sempre no futuro.

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A primeira vez em que vira Raul Montilla, Angelo ti-nha apenas treze anos de idade. Raul era um homem atraente. Vestia-se bem, e tinha os cabelos alinhados e brilhantes. An-dava com firmeza, e a voz era possante. Dava a impressão de um homem enérgico. Estava em constante movimento, e fala-va com certa arrogância. Angelo vira-o na loja a conversar com o pai.

– Vou construir um prédio nesta cidade. - Disse-ra-lhe o engenheiro. E pretendo fazer negócios com o seu estabelecimento.

– Será um prazer. - Respondera-lhe o pai de Angelo. – Escolhemos a sua loja por estar mais próxima à obra e por ser uma das melhores, naturalmente! - Disse Montilla.

A princípio os negócios corriam bem. Os materiais eram transportados para a obra, e os pagamentos efetuados pontualmente no final de cada semana. Raul Montilla esmera-va-se no cumprimento dos compromissos, e Oscar Arruda mostrava-se satisfeito em negociar com ele. Angelo via-o sem-pre na loja em conversas amistosas com o pai. Parecia ser um homem direito, e esforçava-se o máximo em adquirir a confi-ança de Oscar Arruda. Levava-o para ver a construção, con-tava-lhe a respeito de outras obras que administrava na cida-de cida-de São Paulo. Procurava mostrar que era um homem prós-pero e que exercia influência e poder. Conversava com Oscar a respeito de seus projetos, oferecia-lhe sugestões para os ne-gócios. Comentava seus relacionamentos com políticos e ho-mens importantes da alta sociedade, tentando despertar ad-miração e respeito. Na loja cumprimentava os funcionários, tomava café na cozinha, entrava nos depósitos. Angelo vira-o

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várias vezes a conversar com o gerente em particular. Trata-va-o muito bem, e até o convidara para uma cerveja numa tarde de sol e calor. O gerente da loja chamava-se Custódio, mas tinha o apelido de “Troncho” devido faltar-lhe uma par-te da orelha direita. Ninguém sabia ao certo o porquê daquela anomalia, mas diziam ser o efeito provocado por um tiro que levara há tempos atrás. Aceitara a cerveja, e não cabia em si de tanta satisfação e orgulho. O engenheiro tornara-se como um ídolo para a sua admiração. Angelo via-os em constantes demonstrações efusivas. Pareciam-se velhos amigos. Custó-dio Troncho vinha-lhe ao encontro na porta da loja, cumpri-mentava-o calorosamente mostrando um enorme sorriso no rosto. Providenciava pessoalmente os pedidos de Montilla, e despachava as mercadorias com presteza e rapidez. As suas cargas eram as primeiras a saírem da loja.

Angelo desconfiava mesmo de uma certa intimidade entre os dois, um certo ar de cumplicidade. Um dia Raul Montilla vira a esposa de Oscar Arruda na loja. Ficou impres-sionado com a sua beleza.

– É a mulher do patrão. - Comentou o gerente. – Que mulherão, meu amigo! - Exclamou Montilla dando um cutucão em Custódio.

Os dois riram e saíram para a cozinha.

Em outra ocasião, convidara a família de Oscar para um jantar em um dos clubes da cidade, dizendo que era em homenagem ao sucesso de seus empreendimentos. Compare-cera muita gente importante, homens e mulheres bem sucedi-das da alta sociedade. Oscar levara a esposa, Rita Montenegro, e o filho mais velho, Angelo. Rita estava exuberante, trajando um vestido negro. Tinha as faces coradas e sorriso cativante. Era uma mulher maravilhosa em toda a sua simplicidade, e Angelo percebera o olhar insistente que Raul Montilla lançava

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em direção à mãe. No meio da festa o engenheiro chamara a atenção dos convidados.

– Perdoem-me o incômodo. - Disse. Quero ressaltar-lhes que devido a uma indisposição de última hora a minha querida esposa não pôde estar presente a esta importante co-memoração, e pede-lhes as escusas. Obrigado.

Mais tarde, quando a descontração era geral, Angelo, que se encontrava a um canto do recinto, vira-o chamar o gerente Custódio Troncho em particular. Segredara-lhe al-guma coisa ao ouvido. Notara que Custódio conseguira dis-trair o pai de Angelo, e Raul Montilla aproximara-se de sua mãe para conversar.

– Sinto uma grande atração pela senhora. - Disse o engenheiro, sem preâmbulos.

A mãe de Angelo ficou desconcertada e vermelha de raiva. – Podíamos almoçar juntos, a qualquer dia, o que acha? - Continuou Raul Montilla, sem perceber a reação de ódio que se estampava no rosto da mulher.

“Que descarado!” Pensou a senhora Rita Montenegro, não se contendo de indignação.

– Acho que está enganado ao meu respeito, Sr. Raul Montilla, sou uma mulher casada, e amo o meu ma-rido! Com licença!

Angelo viu-a afastar-se furiosa, aproximar-se do mari-do e convida-lo a irem para casa.

– O que aconteceu? - Perguntou Oscar Arruda. – Estou com uma grande dor de cabeça. - Disse ela pegando Angelo pelo braço e dirigindo-se para a saída.

Alguma coisa havia mudado em conseqüência ao que se passara naquela noite. Angelo não sabia ao certo o que acon-tecia. Mas depois de um certo tempo vira o pai com uma pre-ocupação diferente. Os compromissos já não iam tão bem, e

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havia um súbito descontrole nas contas. Não conseguia cum-prir pontualmente com os fornecedores, e os títulos eram pro-testados. Dependia cada vez mais de empréstimos bancários a juros exorbitantes.

Ao final de quase dois anos Oscar Arruda estava com um problema financeiro complicado, e em grande parte cau-sado por Raul Montilla. Era quase que o responsável pelo descontrole de suas finanças. O arrocho surgira inesperada-mente, desde que Montilla começara a atrasar-se nos paga-mentos semanais de suas faturas na loja. No início uma sema-na, depois duas, três. Houvera reclamações por parte de Os-car, mas Montilla sempre se desculpava com palavras convin-centes. E agora caminhava-se para dez meses de atraso, e Raul Montilla continuava a efetuar vultosas compras.

Os estoques de mercadorias chegavam ao fim, e Oscar tentava todos os meios para manter o comércio em funciona-mento. Porém não havia onde buscar mais recursos. Os ban-cos só queriam receber os seus empréstimos, e ele já quase não via o engenheiro. O gerente da loja despachava, ainda pontualmente, os seus pedidos. Oscar dera ordens para que parasse de enviar materiais à obra de Raul Montilla.

– Precisamos fazer um acerto. - Explicou Oscar. Escreveu uma carta a Raul Montilla, e ele compareceu à loja com uma pequena parte dos vencimentos.

– Preciso de mais um tempo, Oscar. - Disse Montilla. Estou concluindo a venda dos apartamentos do edifício, e logo teremos dinheiro bastante em mãos.

“Parece razoável”. Pensou Oscar Arruda. Em seguida procurou os bancos. Explicou-lhes o que Raul Montilla havia prometido e conseguiu uma elasticidade nos prazos das dívi-das, e mais um pequeno reforço no capital de giro da empresa a juros altíssimos.

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A situação era desesperadora. Oscar Arruda, que era um homem correto e metódico em seus negócios, agora não dormia, e nem se alimentava direito. Angelo via-o calado, pensativo, e a preocupação era visível em seu rosto. Andava triste e cabisbaixo. Os amigos começaram a afastarem-se, e Oscar Arruda não via mais o engenheiro, que parecia escon-der-se dele. Ligou várias vezes em seu escritório na grande São Paulo, mas não obteve resposta.

– O Sr. Montilla não está. - Dizia a secretária, e desli-gava o telefone.

Oscar não sabia mais o que fazer. Os bancos cobra-vam-lhe as dívidas diariamente, enquanto os títulos protesta-dos não lhe davam tempo. Vendeu a casa e um protesta-dos caminhões, e acertou uma quantia mínima das obrigações mais urgentes. Foi morar de aluguel, e as despesas aumentaram.

Em pouco tempo dispusera-se do restante dos bens de propriedade da família: O carro, e um terreno em um local nobre da cidade. Porém possuía ainda uma casa em São Paulo, onde vivia a sua irmã, viúva, com uma filha pe-quena. Chamava-se Oneida Arruda, e a filha Odete, a qual tinha mais ou menos a idade de Angelo. O marido, antes de falecer, possuía uma pequena livraria com uma freguesia ra-zoável. Sofria de cirrose hepática, e como a enfermidade se agravara, houve muitos gastos extraordinários com hospital e medicamentos. Portanto ao falecer deixara muitas dívidas, e então para auxilia-la, Oscar cedera-lhe a casa de São Paulo para morarem, sem exigir pagamento de aluguel. Não que-ria vende-la, mas a esposa, Rita Montenegro, insistira com ele para que a vendesse.

– Você conseguirá um bom dinheiro por ela. - Dis-sera-lhe a esposa. É mais uma ajuda até recebermos do Sr. Montilla.

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– A casa de São Paulo não está a venda. - Retrucara Os-car. Mesmo vendendo-a não aliviará em nada a nossa situação.

Angelo sentia que o pai já não era aquele homem ale-gre, disposto, e cheio de vida. Andava a pé pelas ruas, cabis-baixo, abatido e triste. Não mencionava mais o sonho de cons-truir o palacete. Angelo sabia que o pai havia até pedido a um projetista um desenho detalhado do mesmo. Porém guarda-ra-o na gaveta, abandonando-o, pois o dinheiro da loja mal dava para os juros, que se acumulavam dia-a-dia, e não sobra-va para as despesas. Alimentasobra-vam-se mal, e o pai estasobra-va ma-gro, e de olhos fundos. A vida de Oscar Arruda tornara-se um pesadelo.

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