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Os movimentos migratórios do século XXI e a proteção internacional

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JANAÍNA RAQUEL BALZ

OS MOVIMENTOS MIGRATÓRIOS DO SÉCULO XXI E A PROTEÇÃO INTERNACIONAL

Santa Rosa (RS) 2019

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JANAÍNA RAQUEL BALZ

OS MOVIMENTOS MIGRATÓRIOS DO SÉCULO XXI E A PROTEÇÃO INTERNACIONAL

Trabalho de Conclusão do Curso de Graduação em Direito objetivando a aprovação no componente curricular Trabalho de Conclusão de Curso - TCC.

UNIJUÍ - Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul.

DCJS – Departamento de Ciências Jurídicas e Sociais.

Orientador: Dra. Anna Paula Bagetti Zeifert

Santa Rosa (RS) 2019

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Dedico este trabalho à minha família que sempre me incentivou e garantiu que eu não desistisse nunca.

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AGRADECIMENTOS

Agradeço imensamente a Deus, por ter me concedido saúde, força e disposição para fazer a faculdade e o trabalho de final de curso. Sem Ele, nada disso seria possível.

Gostaria de agradecer minha família, especialmente minha mãe, que fez de tudo para tornar os momentos difíceis mais brandos.

Agradeço ao meu namorado, que jamais me negou apoio, carinho e incentivo. Obrigado, amor da minha vida, sem você do meu lado esse trabalho não seria possível.

Agradeço a professora Dra. Anna Paula Bagetti Zeifert, responsável pela orientação desse trabalho. Que me deu todo o suporte com suas correções e incentivos.

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“A justiça sustenta numa das mãos a balança que pesa o direito, e na outra, a espada de que se serve para o defender. A espada sem a balança é a força brutal; a balança sem a espada é a impotência do direito.” (Rudolf Von Ihering)

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RESUMO

O presente trabalho de conclusão de curso faz um estudo acerca dos Movimentos Migratórios do Século XXI e a Proteção Internacional, assim como busca entender as causas e consequências advindas do processo migratório do século XXI, bem como o papel dos Direitos Humanos na construção de uma nova política migratória. Desenvolve uma abordagem sobre as possíveis conceituações para expressão Direitos Humanos, analisa as Gerações dos Direitos Humanos e a proteção internacional dos refugiados. Finaliza com uma análise mais profunda dos movimentos migratórios do século XXI, com o intuito de contribuir, senão para a construção de uma nova política migratória ao menos para fomentar o debate e enriquecer a reflexão sobre a matéria, visto que o fenômeno das migrações internacionais aponta para a necessidade de repensar-se o mundo não com base na competitividade econômica e o fechamento das fronteiras, mas, sim, na cidadania universal, na solidariedade e nas ações humanitárias. Para seu delineamento a presente pesquisa utiliza o método de abordagem hipotético dedutivo e a técnica da pesquisa bibliográfica.

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ABSTRACT

The present work of conclusion of course makes a study on the Migratory Movements of the 21st Century and the International Protection, as well as seeks to understand the causes and consequences of the migratory process of the XXI century, as well as the role of Human Rights in the construction of a new migration policy. It develops an approach on possible conceptualizations for the expression Human Rights, analyzes the Generations of Human Rights and the international protection of refugees. It ends with a deeper analysis of the migratory movements of the twenty-first century, with the aim of contributing, if not to the construction of a new migration policy, at least to foment debate and to enrich the reflection on the subject, since the phenomenon of international migrations for the need to rethink the world not based on economic competitiveness and the closure of borders, but on universal citizenship, solidarity and humanitarian actions. For its delineation the present research uses the method of hypothetical deductive approach and the technique of bibliographic research.

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ... 3

1 ASPECTOS HISTÓRICOS E CONCEITUAIS DOS DIREITOS HUMANOS ... 5

1.1Possíveis conceituações para expressão Direitos Humanos ... 6

1.2Gerações dos Direitos Humanos ... 7

1.2.1 Primeira geração de Direitos Humanos ... 8

1.2.2 Segunda Geração de Direitos Humanos ... 9

1.2.3 Terceira Geração dos Direitos Humanos ... 10

1.2.4 Quarta Geração dos Direitos Humanos ... 11

1.2.5 Quinta Geração dos Direitos Humanos ... 12

2 OS MOVIMENTOS MIGRATÓRIOS DO SÉCULO XXI ... 17

2.1 Os movimentos migratórios do século XXI: causas e consequências ... 19

2.1.1 Causas ... 19

2.1.2 Consequências ... 22

2.2 A migração clandestina e o tráfico humano ... 22

2.2.1 O que é o tráfico de pessoas? ... 23

2.2.2 Elementos do Tráfico de Pessoas ... 23

2.2.3 O que é o contrabando de migrantes? ... 24

2.2.4 Qual é a diferença entre tráfico de pessoas e contrabando de migrantes? ... 25

2.3 O papel dos Direitos Humanos na construção de uma nova política migratória ... 25

2.3.1 A crise migratória no século XXI ... 28

2.3.2 Impactos da Nova Lei de Imigração nº 13445/2017 ... 32

CONCLUSÃO ... 35

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INTRODUÇÃO

O presente trabalho apresenta um estudo acerca dos Movimentos Migratórios do Século XXI e a Proteção Internacional, suas causas e consequências, bem como o papel dos Direitos Humanos na construção de uma nova política migratória.

Há uma diferença grande entre o imigrante que migra por questões econômicas e aquele que migra forçadamente. Muitas pessoas sofrem perseguições políticas, religiosas e culturais e são vítimas de diversos tipos de violência. Estas pessoas são amparadas por legislações específicas, e caracterizadas como refugiados. Elas são amparadas em outros países e não podem ser encaminhadas forçadamente de volta para seus países de origem. São consideradas pessoas que precisam de proteção. Almeja-se examinar qual a resposta institucional frente às demandas decorrentes dos fluxos migratórios internacionais, bem como caracterizar a atuação das instituições que operam no âmbito dos movimentos migratórios, na coordenação de seus programas e de suas ações.

Migrar é trocar de país, de Estado, região ou até de domicílio. O ato de migrar faz do indivíduo um emigrante ou imigrante. Emigrante é a pessoa que sai de um lugar de origem com destino a outro lugar. O imigrante é o indivíduo que entra em um determinado lugar para nele viver.

Os fluxos migratórios podem ser desencadeados por diversos fatores, dentre os principais fatores que impulsionam as migrações podem ser citados os econômicos, políticos e culturais, que acabam forçando os indivíduos a se deslocarem de um lugar para outro em busca de melhores condições de vida, à procura de trabalho para suprir suas necessidades básicas de sobrevivência.

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Inicialmente, no primeiro capítulo, foi feita uma abordagem sobre as possíveis conceituações para expressão Direitos Humanos, seguida de uma análise sobre as Gerações dos Direitos Humanos e a proteção internacional dos refugiados.

No segundo capítulo analisa-se os movimentos migratórios do século XXI, suas principais causas e consequências, com intuito de contribuir, senão para a construção de uma nova política migratória, ao menos para fomentar o debate e enriquecer a reflexão sobre a matéria. A migração clandestina e o tráfico humano, o fenômeno das migrações internacionais aponta para a necessidade de repensar-se o mundo não com base na competitividade econômica e o fechamento das fronteiras, mas, sim, na cidadania universal, na solidariedade e nas ações humanitárias. Também são analisados o papel dos Direitos Humanos na construção de uma nova política migratória, os países devem adotar políticas migratórias que contemplem e integrem o migrante, vendo, assim, as migrações como um ganho e não como um problema.

Para a realização deste trabalho foram efetuadas pesquisas bibliográficas e por meio eletrônico, a fim de enriquecer a coleta de informações e permitir um aprofundamento no presente estudo. O método de abordagem utilizado é o hipotético dedutivo.

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1 ASPECTOS HISTÓRICOS E CONCEITUAIS DOS DIREITOS HUMANOS

Falar de direitos humanos é como falar das necessidades mais básicas de toda a humanidade que nem sempre foram respeitados pelos mais fortes. Abordar direitos humanos muitas vezes é legitimar barreiras aos poderosos que, em uma situação de maior força e poder, abusam dos mesmos sobre as pessoas e as atingem em seus direitos mais fundamentais, em seus direitos mais básicos e elementares facilmente perceptíveis.

Segundo Erival da Silva Oliveira (2009, p.14-15), as origens dos direitos humanos estariam, por que não em todos os momentos nos quais, a qualquer título, uma pessoa natural tivesse seus direitos mais fundamentais, seus direitos naturais, violados por qualquer um.

Cita ainda Erival Oliveira, os direitos humanos foram incrementados em importância durante o século XX. No século XXI, portanto, já estariam incorporados ao pensamento jurídico. Os fundamentos teóricos dos direitos humanos estariam no positivismo ou no jusnaturalismo.

Segundo os autores do positivismo, previstos no ordenamento jurídico interno, ou seja, na Constituição e nas normas infraconstitucionais, como é o caso brasileiro, os direitos humanos podem ser exigidos. Além disto, também podem ser exigidos se estiverem previstos em tratados e em convenções internacionais sobre direitos humanos.

Em relação aos que defendem os direitos humanos como parte do jusnaturalismo, a pessoa humana seria o fundamento, seria a base e a razão de ser dos direitos humanos. A pessoa humana estivesse onde ela estivesse, deveria ser tratada de modo justo e solidário (OLIVEIRA, 2009).

Seriam marcos históricos dos direitos humanos: a) o iluminismo; b) a Revolução Francesa; c) a II Guerra Mundial. O iluminismo foi o movimento caracterizado pela exaltação da razão, do espírito crítico e da fé na ciência, em geral. Foram personalidades marcantes os filósofos John Locke, Jean-Jaques Rousseau, Thomas Hobbes, Immanuel Kant e Montesquieu. Estes autores teriam precedido os direitos humanos, teriam fundamentado

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filosoficamente o momento seguinte que experimentou a sociedade humana após a eclosão do movimento da Revolução Francesa de 1789.

As primeiras declarações de direitos humanos foram impulsionadas pelo iluminismo. Destaque-se a Declaração de direitos do Homem e do Cidadão, de 26 de agosto de 1789. A Revolução Francesa teria feito nascer os ideais dos direitos humanos representados nos seguintes valores: igualdade, liberdade e fraternidade (OLIVEIRA, 2009).

Após o fim da II Guerra Mundial, em 1945, tomou-se consciência de que as atrocidades então cometidas pelos alemães, pelos norte-americanos e por outros exércitos não poderiam acontecer novamente. No momento seguinte foi criada a Organização das Nações Unidas e foram assinados diversos tratados internacionais de direitos humanos como, por exemplo: Declaração Universal dos Direitos Humanos, Pacto Internacional de direitos Civis e Políticos, entre outros.

Os direitos humanos, ainda não são respeitados no mundo, apesar de tantas normas a respeito de sua proteção. Muito se fez, mas muito ainda está a ser feito.

Feitas essas primeiras colocações, esclarece-se que o presente capítulo tem por objetivo analisar os movimentos migratórios do século XXI, suas causas e consequências, bem como o papel dos Direitos Humanos na construção de uma nova política migratória.

1.1 Possíveis conceituações para expressão Direitos Humanos

Os Direitos Humanos podem ser definidos como o conjunto de princípios e de normas fundamentadas no reconhecimento da dignidade inerente a todos os seres humanos, ou seja, são todos os direitos básicos relacionados à garantia de uma vida digna a todas as pessoas (BARRETO, 1998).

De acordo com Celso de Albuquerque Mello (1997, p. 55):

Os direitos do homem são aqueles que estão consagrados nos textos internacionais e legais, não impedindo que novos direitos sejam consagrados no futuro. Considera que os já existentes não podem ser retirados, vez que são necessários para que o homem realize plenamente a sua personalidade no momento histórico atual. Se alguns vêm da própria natureza humana que construímos, outros advêm do desenvolvimento da vida social. Na verdade, o homem nunca existiu isoladamente.

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A esse respeito, leciona Norberto Bobbio (1992, p. 35):

Que os direitos do homem, por mais fundamentais que sejam, são direitos históricos, ou seja, nascidos em certas circunstâncias, caracterizadas por lutas em defesa de novas liberdades contra velhos poderes, e nascidos de modo gradual, não todos de uma vez e nem de uma vez por todas.

Os direitos humanos são direitos fundamentais que o homem possui pela sua própria natureza humana, para a proteção à dignidade humana em seu sentido mais amplo, de valor espiritual e moral inerente à pessoa. São direitos que não resultam de uma concessão da sociedade política, mas são direitos que a sociedade política tem o dever de oferecer, como mínimo de direitos necessários para garantir a existência digna do ser humano perante a sociedade (HERKENHOFF, 1994).

1.2 Gerações dos Direitos Humanos

Existem os direitos humanos de primeira geração (liberdade), os direitos humanos de segunda geração (igualdade), os direitos humanos de terceira geração (fraternidade), os direitos humanos de quarta geração (evolução) e os de quinta geração (Direitos virtuais) (DALVI, 2008).

Neste sentido, explica Luciano Dalvi (2008, p. 90-91) a classificação por gerações dos direitos humanos:

Os direitos humanos podem ser classificados em gerações, de acordo com o momento do seu surgimento. Podem ser de primeira, segunda, terceira e quarta geração:

a) primeira geração (liberdade): são os chamados direitos negativos ou de defesa, que impõem ao Estado limitações na sua atuação. São os direitos individuais que perfazem a liberdade do ser humano e têm como conteúdo os direitos políticos e os direitos civis.

b) segunda geração (igualdade): figura um novo pensar do Estado que antes se limitava a não infringir os direitos humanos e a partir dessa etapa passa o estado a ter uma obrigação de realizar no plano concreto os direitos sociais, econômicos e culturais. São os chamados direitos positivos.

c) terceira geração (fraternidade): etapa decisiva dos direitos humanos e que aborda a sociedade como uma organização de pessoas e não apenas o indivíduo singularmente considerado, abrindo espaço para o crescimento dos direitos coletivos. São exemplos, a defesa do consumidor, meio ambiente, idosos, crianças etc.

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Os direitos humanos estão sempre em evolução e é possível que sejam caracterizadas novas gerações dos direitos humanos. Neste sentido, vejamos os ensinamentos de Dymaima Kyzzy Nunes (2010):

[...] Direitos humanos de quinta geração: Finalmente, os direitos humanos da quinta geração, como os de quarta, também não são pacificamente reconhecidos pela doutrina, como o são os das três primeiras. No entanto, os direitos que por essa geração são reconhecidos, quais sejam, a honra, a imagem, enfim, os “direitos virtuais” que ressaltam o princípio da dignidade da pessoa humana, decorrem de uma era deveras nova e contemporânea, advinda com o exacerbado desenvolvimento da Internet nos anos 90. Tais valores, portanto, são defendidos e protegidos por essa geração de direitos, com a particularidade de protegê-los frente ao uso massivo dos meios de comunicação eletrônica, merecendo, assim, proteção não só as pessoas naturais, mas também as pessoas jurídicas (art. 50, Código Civil de 2002).

Assim, é importante compreender, que as gerações dos Direitos Humanos, que são construídas ao longo da história não são substituídas, pois uma geração complementa a outra.

1.2.1 Primeira geração de Direitos Humanos

No final da Idade Média, ocorre a formação dos Estados absolutistas. Somente com o surgimento do comércio e a substituição do regime feudal pelo sistema de produção capitalista que os direitos humanos de primeira geração iniciaram seu efetivo desenvolvimento, como prerrogativas jurídicas oponíveis em face dos próprios governantes (SILVA, 2016).

A materialização dos Direitos Fundamentais inicia na Inglaterra, com a Magna Carta de 1215, produto do conflito entre o Rei João e os barões. A referida Carta impôs limitações ao poder absoluto, garantindo-se aos indivíduos certos Direitos Fundamentais. Em 1629, o Petition of Rights (A Petição do Direito), o Habeas Corpus, que protegia a liberdade de locomoção, inspirou o ordenamento do mundo todo e, principalmente, o Bill of Rights (A Declaração de Direitos) de 1689, este documento reconheceu alguns direitos ao indivíduo, tais como o direito de liberdade, à segurança e à propriedade privada (SILVA, 2016).

A primeira geração dos direitos humanos consolidou-se na fase de resistência aos poderes dos monarcas absolutistas, em decorrência da luta da burguesia pela salvaguarda de direitos individuais básicos tais como a vida, a liberdade e a propriedade. A classe burguesa adquiria importância política, em razão de sua ascensão econômica. Surge o Estado Moderno, centralizando o poder político (SILVA, 2016).

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O marco documental foi a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, aprovada pela Assembleia Nacional Francesa, em 26 de agosto de 1789.

Os direitos de primeira geração têm por escopo a defesa das pessoas em face ao arbítrio dos governantes, mormente quanto à preservação de sua vida, de sua liberdade de locomoção, amplo exercício profissional e da possibilidade de constituírem patrimônio, sem que este seja confiscado pela exigência de tributos excessivos. Destarte, o conteúdo dos Direitos Fundamentais nessa época seriam os Direitos Individuais relativos à liberdade e à igualdade. E a base do Estado Liberal é o direito de propriedade privada, que é absoluto e intocável (SILVA, 2016).

Foi a partir das revoluções Inglesa, Americana e Francesa que os princípios liberais políticos e econômicos foram consagrados. Nesse período, triunfou o liberalismo, e não a democracia, havendo somente no futuro uma fusão desses dois.

Nos séculos XVII e XVIII a atitude de omissão do estado diante dos problemas sociais e econômicos conduziu os homens a um capitalismo desumano. O século XIX foi marcado pelas misérias sociais que a Revolução Industrial agravou e que o Liberalismo colaborou. Combatida, principalmente, pelo marxismo e o fascismo, a liberal-democracia estava encurralada.

Sendo assim, conforme Bárbara Thaís Pinheiro Silva (2016), o Estado não tinha mais como ignorar os problemas sociais e econômicos. Após a primeira Guerra Mundial, as novas Constituições preocuparam com a política do Estado, mas, também, com o direito e o dever do Estado em reconhecer e garantir as novas demandas sociais.

1.2.2 Segunda Geração de Direitos Humanos

A segunda geração de direitos humanos nasce das lutas sociais que buscavam uma maior salvaguarda das condições necessárias ao desenvolvimento pleno da humanidade, mas seus protagonistas foram às classes operárias, que apareceram em consequência da industrialização na Europa. Essa classe operária tinha formalmente resguardado direitos da primeira geração, mas eram explorados pelos detentores do capital, careciam de saneamento

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básico em suas residências, educação, atendimento médico, proteção jurídica adequada em face das péssimas condições de trabalho, de remuneração e jornada de trabalho (SILVA, 2016).

Karl Marx e de Friederich Engels, editaram o Manifesto Comunista que juntamente com outros documentos, tais como a encíclica papal Rerum Novarum (Das Coisas Novas) de Leão XIII de 1891, a Constituição Mexicana de 1917 e a Constituição Alemã de 1919, fortaleceram o desenvolvimento dos ideais de universalidade e socialismo (direitos sociais) dos direitos humanos. Com essas Constituições os direitos sociais passam a ser considerados direitos fundamentais dos seres humanos.

Após a Segunda Guerra Mundial já não se admitia mais o Estado nos moldes liberais clássicos de não intervenção. O Estado passa a ser um administrador da sociedade e neste momento deve aproveitar os laços internacionais para estabelecer um núcleo fundamental de Direitos Humanos Internacionais. Dessa forma, elabora a Declaração Universal de Direitos Humanos de 1948, a Declaração Americana dos Direitos do Homem, de 1969, em São José da Costa Rica, com objetivo de tornar universal aplicação dos Direitos Humanos. Surge organizações não-estatais, como a Anistia Internacional, a Comissão Internacional dos Juristas, o Instituto Interamericano dos Direitos Humanos, com a finalidade de divulgação de ideias e educação em Direitos Humanos. Houve a incorporação dos direitos sociais nos diversos ordenamentos jurídicos. No entanto, estes direitos não se realizam plenamente hodiernamente, principalmente pela insuficiência de recursos para que o Estado lhes confira eficácia, o que inicialmente os relegou à esfera meramente programática.

1.2.3 Terceira Geração dos Direitos Humanos

Esta fase não possui uma identificação clara dos agentes operadores, pois emergiu dos apelos de uma sociedade massificada, visando à preservação dos interesses coletivos ou difusos relacionados com a proteção do meio ambiente, preservação do patrimônio histórico e cultural, qualidade de vida no ambiente urbano e rural, tutela sobre a comunicação social, a bioética, ampliação dos direitos políticos, autodeterminação dos povos, o amplo acesso a informação e preservação da privacidade.

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É identificável na sociedade a partir da década de sessenta, devido às mudanças políticas, expansão do mercado, o surgimento das transnacionais, o desequilíbrio ecológico, disseminação de fatos inverídicos pelos meios de comunicação, e o progresso tecnológico, menciona Bárbara Thaís Silva Pinheiro (2016).

Mesmo que os direitos das gerações anteriores não tenham sido plenamente efetivados, o avanço civilizatório fez com que surgisse uma vasta gama de situações em que a personalidade humana é atingida, ensejando a enunciação de novos direitos. E gradativamente, tais prerrogativas jurídicas estão se incorporando aos diversos ordenamentos jurídicos, no plano infraconstitucional nas leis fundamentais (SILVA, 2016).

Alguns novos direitos são apenas os antigos adaptados às novas exigências do momento, isto é, alguns dos direitos fundamentais da primeira geração e da segunda geração estão sendo revitalizados e até mesmo ganhando importância e atualidade, de modo especial em face das novas formas de agressão.

Sendo assim, percebe-se que o desafio atual não é procurar investigar as futuras classes de direitos, mas sim verificar as modernas reivindicações sociais, para reconhecer e formular novos direitos (ou nova conformação de direitos clássicos). E analisar os meios mais adequados para imprimir efetiva concretude aos direitos já reconhecidos e, em grande parte, já incorporados em tratados internacionais ou mesmo positivados nos ordenamentos jurídicos particulares (SILVA, 2016).

1.2.4 Quarta Geração dos Direitos Humanos

Na atualidade existem doutrinadores que defendem a existência dos direitos de quarta geração ou dimensão, apesar de ainda não haver consenso na doutrina sobre qual o conteúdo dessa espécie de direito. Para Noberto Bobbio, tratam-se “dos direitos relacionados à engenharia genética” (BONAVIDES, 2018).

Apesar de ser por uma visão um pouco diferente de Noberto Bobbio, Paulo Bonavides (2018, p.189), também, “defende a existência dos direitos de quarta geração, com aspecto introduzido pela globalização política, relacionados à democracia, à informação e ao pluralismo”:

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A globalização política neoliberal caminha silenciosa, sem nenhuma referência de valores. [...] Há, contudo, outra globalização política, que ora se desenvolve, sobre a qual não tem jurisdição a ideologia neoliberal. Radica-se na teoria dos direitos fundamentais. A única verdadeiramente que interessa aos povos da periferia. Globalizar direitos fundamentais equivale a universalizá-los no campo institucional. [...] A globalização política na esfera da normatividade jurídica introduz os direitos de quarta geração, que, aliás, correspondem à derradeira fase de institucionalização do Estado social. É direito de quarta geração o direito à democracia, o direito à informação e o direito ao pluralismo. Deles depende a concretização da sociedade aberta do futuro, em sua dimensão de máxima universalidade, para a qual parece o mundo inclinar-se no plano de todas as relações de convivência. (...) os direitos da primeira geração, direitos individuais, os da segunda, direitos sociais, e os da terceira, direitos ao desenvolvimento, ao meio ambiente, à paz e à fraternidade, permanecem eficazes, são infra-estruturais, formam a pirâmide cujo ápice é o direito à democracia.

Além de Paulo Bonavides, outros constitucionalistas vêm promovendo o reconhecimento dos direitos de quarta geração ou dimensão, conforme podemos perceber nas palavras de Marcelo Novelino (2008, p. 229):

Tais direitos foram introduzidos no âmbito jurídico pela globalização política, compreendem o direito à democracia, informação e pluralismo. Os direitos fundamentais de quarta dimensão compendiam o futuro da cidadania e correspondem à derradeira fase da institucionalização do Estado social sendo imprescindíveis para a realização e legitimidade da globalização política.

Portanto, quando falamos em direitos de quarta geração, a base é a globalização política, sendo a universalização dos direitos fundamentais, o direito de ser diferente, ao acesso a informação, ao respeito, ou seja, são justamente os direitos ligados ao pluralismo e à democracia.

1.2.5 Quinta Geração dos Direitos Humanos

Os direitos humanos da quinta geração, como os de quarta, também não são pacificamente reconhecidos pela doutrina, como o são os das três primeiras. No entanto, os direitos que por essa geração são reconhecidos, quais sejam, a honra, a imagem, enfim, os “direitos virtuais” que ressaltam o princípio da dignidade da pessoa humana, decorrem de uma era deveras nova e contemporânea, advinda com o exacerbado desenvolvimento da Internet nos anos 90. Tais valores, portanto, são defendidos e protegidos por essa geração de direitos, com a particularidade de protegê-los frente ao uso massivo dos meios de comunicação eletrônica, merecendo, assim, proteção não só as pessoas naturais, mas também as pessoas jurídicas (art. 50, Código Civil de 2002).

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finalidade, ou pela confusão patrimonial, pode o juiz decidir, a requerimento da parte, ou do Ministério Público quando lhe couber intervir no processo, que os efeitos de certas e determinadas relações de obrigações sejam estendidos aos bens particulares dos administradores ou sócios da pessoa jurídica.

Segundo os ensinamentos de José Adércio Sampaio Leite (2002, p. 302), no qual referencia “os direitos de quinta geração ou dimensão como o sistema de direitos ainda a incorporar os anseios e necessidades humanas que se apresentam com o tempo”.

1.3 Os Direitos Humanos e a proteção internacional dos refugiados

A situação dos refugiados e o dever de protegê-los consistiram, portanto, em dois dos mais significativos temas da agenda política presentes na elaboração da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Tanto é assim, que o seu artigo XIV, assegura a todo ser humano que seja vítima de perseguição o direito de procurar e receber proteção internacional em outro país.

Em consulta ao sítio do Ministério dos Direitos Humanos, acessado em 02 de outubro de 2018, o Brasil presta sua contribuição à proteção dessas pessoas, acolhendo milhares de refugiados e solicitantes de refúgio em seu território. Segundo dados de abril de 2018, 10.145 (dez mil e cento e quarenta e cinco) pessoas já foram reconhecidas como refugiadas no país e existem 86 (oitenta e seis) mil processos de solicitação de refúgio em trâmite, conferindo às pessoas envolvidas o direito à documentação relativa à sua condição migratória e o acesso ao mercado de trabalho e aos serviços públicos de saúde e educação.

O site cita ainda, a Lei de Refúgio brasileira (Lei nº 9.474, de 22 de julho de 1997) é considerada uma das mais avançadas do mundo. Recentemente, a entrada em vigor da nova Lei de Migração brasileira (Lei nº 13.445, de 24 de maio de 2017) consolidou a perspectiva de direitos humanos no âmbito da política migratória nacional, posicionando o país na vanguarda do tratamento da temática e tornando o Brasil uma referência no debate global sobre migrações, em consonância com as normas e parâmetros internacionais mais elevados.

Os refugiados encontram proteção à luz do direito internacional. Da condição de refugiado decorrem violações de direitos humanos básicos que se encontram consagrados na Declaração Universal dos Direitos do Homem de 1948. A todos é assegurado, com base na

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Declaração de 1948, o direito fundamental de não sofrer perseguição por motivos de raça, religião, nacionalidade, participação em determinado grupo social ou opiniões políticas.

Como mecanismo para garantir esse direito fundamental, o artigo XIV da Declaração Universal dos Direitos Humanos supramencionada consagra o direito de toda pessoa, vítima de perseguição, procurar e gozar asilo em outros países. Apesar de não ter valor obrigatório, a Declaração é fonte que inspira diversos tratados, convenções e a própria legislação interna.

A Carta das Nações Unidas fundamenta-se no princípio da proteção e respeito dos direitos do homem e como corolário desse princípio o direito de asilo apresenta-se como forma de garantir as liberdades fundamentais a todos sem distinção.

Ocorre que, em diversas situações, o direito de asilo passa a ser considerado um problema de ordem pública, ou seja, um direito do Estado, e não encarado como integrante do elenco dos Direitos Humanos; nessa visão o Estado não estaria obrigado a conceder o asilo, só o faria se assim desejasse. Tal situação pode ser claramente verificada na posição atual dos Estados Unidos e de países da União Europeia que estão restringindo a entrada de estrangeiros, principalmente dos países considerados de terceiro mundo, sem nenhum critério ou distinção.

A Convenção sobre o Estatuto dos Refugiados de 1951 surge como um instrumento internacional e específico de proteção dos direitos dos refugiados enquanto pessoa humana e dispõe de forma universal sobre a questão dos refugiados, sobre seus direitos e sobre seus deveres.

Os recentes fluxos internacionais de pessoas para o Brasil, observados nos últimos anos, trouxeram novos elementos para a questão migratória no país, como a chegada em volume crescente dos naturais de países que não têm estreita relação com o Brasil, situação que não se conhecia desde a primeira metade do século XX. Se no início eram poucos, com o tempo o fluxo aumentou e redes foram se formando, com crescimento exponencial, chegando-se a 2014 com estimativas que ultrapassam vários milhares de novos migrantes.

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O século XXI anuncia o cenário da mobilidade, de modo que, apesar do ensejo de maior controle nas fronteiras, os fluxos internacionais de pessoas têm se intensificado em todo o mundo. Nesse sentido, os movimentos migratórios internacionais no Brasil, a partir dos anos 2000, reforçam a tendência de configuração de 67 espaços das migrações, com a necessidade de novas perspectivas para as escalas transnacionais e os arranjos institucionais junto aos quais esses fluxos se processam seus sentidos e repercussões dentro e fora das fronteiras nacionais.

Migrar de forma legal está se tornando cada vez mais difícil. À medida que as fronteiras dos Estados se fecham, mas continua crescendo a demanda por trabalho de imigrantes a baixo custo e não diminui o desejo de emigrar de pessoas de diversas partes do mundo, estas procuram meios marginais para entrar nos Estados (KAPPUR, 2005).

Como destacado por Samuel Miranda Arruda (2004, p. 14):

Mencionar ‘crime organizado’ no lugar de ‘imigração ilegal’ é uma fórmula ainda mais potente e populista. Medos e preconceitos em relação à ‘imigração ilegal’ estão dando novas bases (a questão não é apenas que a sociedade será ‘invadida’ por ‘alienígenas’, mas também surpreendida por ‘máfia’ e outros criminosos perigosos), e as repressões às migrações irregulares são justificadas e humanizadas (capturando, detendo e deportando migrantes sem documentação mudam de significado quando apresentados como resgatando, reabilitando e reinserindo as vítimas do crime organizado). Desta feita, apesar de o tráfico de seres humanos estar inserido no fenômeno migratório, não deve com este se confundir. Essa diferenciação deve estar clara principalmente para os Estados, para que possam elaborar políticas públicas e legislação adequadas para cada um desses processos, inclusive no que se refere à assistência e proteção às vítimas de tráfico, que devem receber um tratamento compatível com o grau de exploração e violação de direitos sofridos.

Nesse sentido, é o entendimento de Alberto Júnior Amaral (2009, p. 34):

Os direitos humanos representam um papel primordial na elaboração de uma nova política migratória no Brasil, devendo embasar as disposições da nova política em construção – Projeto de Lei nº 5.655/2009. Nesse contexto, o Direito Internacional dos Direitos Humanos 106 surgiu após a Segunda Guerra Mundial, como uma tentativa de reconstrução e unificação ética, através da criação de normas jurídicas e de um sistema de fiscalização do cumprimento das mesmas, com objetivo precípuo de proteção à pessoa humana.

Em consulta ao sítio Âmbito Jurídico acesso em 02 de outubro de 2018, os direitos humanos são reflexos de grandes evoluções históricas e sociais. Assim, embora durante a Idade Média e Moderna tenham sido realizados grandes avanços, não se pode falar ainda em direitos considerados universais. Além disso, não se pode negar a importância das Revoluções Inglesa e Francesa. Porém, foi apenas após a Segunda Guerra Mundial, com Declaração Universal dos Direitos do Homem, de 10 de dezembro de 1948, que podemos destacar a

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internacionalização dos direitos humanos. 133 legislações dos Estados e suas políticas públicas. Posteriormente, esses direitos passaram a fazer parte de tratados e convenções internacionais e foram albergados nas constituições de vários países. Em outras palavras, a vontade política internacional orientou a futura legislação interna dos Estados e suas relações internacionais.

Porém, a concretização dos direitos humanos, vem deixando a desejar, uma vez que muitos trabalhadores, diante da situação de irregularidade, não conseguem ter acesso a tais direitos humanos. Nesta toada, direitos humanos representam um tema global, que não pertence apenas ao domínio reservado dos Estados, o qual não pode violar normas de proteção aos direitos humanos, sob o argumento de soberania nacional.

A partir disso, os direitos humanos servem como limites ao poder, evitando abusos e assegurando a proteção da dignidade humana, logo não há como se falar em Estado Democrático de Direito, sem a garantia da proteção aos direitos humanos. Sob essa perspectiva, a Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948), em seu artigo XIII, assegura o direito de migrar ao ser humano, já no âmbito interamericano, a Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem (1948) dispõe:

Artigo XVIII: Toda pessoa tem direito de fixar sua residência no território do Estado de que é nacional, de transitar por ele livremente e de não abandoná-lo senão por sua própria vontade‖, demonstrando-se que o direito de migrar inclui-se dentre os direitos humanos fundamentais (RIBEIRO, 2018).

Assim, ao falarmos direitos humanos devemos destacar o direito de ingresso e a soberania estatal que, muitas vezes, tenta impedir a entrada do trabalhador estrangeiro. Os Estados, comumente, constroem barreiras ao ingresso de imigrantes, através de políticas restritivas, que estariam violando direitos humanos fundamentais, liberdade de ir e vir, conforme Artigo XIII da Declaração Universal dos Direitos Humanos:

1.Toda a pessoa tem o direito de livremente circular e escolher a sua residência no interior de um Estado.

2.Toda a pessoa tem o direito de abandonar o país em que se encontra, incluindo o seu, e o direito de regressar ao seu país. (RIBEIRO, 2018).

Porém este direito, sob a ótica dos direitos humanos, constitui um direito de primeira geração e não se circunscreve ao âmbito interno do Estado, não podendo sofrer restrições como vem ocorrendo. Logo, haveria um mínimo ético a ser seguido pelos Estados, ao que se

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refere a direitos humanos, e ao se estabelecer barreiras para impedir o ingresso de imigrantes estaria se violando o direito básico de liberdade.

Nesta toada, segundo Miguel Daladier Barros (2015, p. 95-96) a política migratória pode ser compreendida como:

A ação do Estado na regulação da entrada, da permanência e da saída do estrangeiro de seu território, além da gestão dos laços com o nacional que se encontra sob a jurisdição de outro Estado. De acordo com a política adotada, podemos vislumbrar a posição de determinado Estado em acolher ou rechaçar a figura do imigrante. Analisando a política migratória interna, esta se pauta na segurança nacional e encontra-se totalmente divorciada das proteções de direitos humanos. Além do mais, o atual Estatuto do Estrangeiro, não se adequa aos compromissos internacionais assumidos pelo Brasil, seja no âmbito da Organização Internacional do Trabalho, seja no âmbito do MERCOSUL, devendo a nova legislação enquadrar-se as obrigações assumidas internacionalmente. Contudo, a falta de reconhecimento da situação jurídica do imigrante, por parte do Estado, pode comprometer o exercício de seus direitos humanos mais básicos, como o acesso à saúde pública e à educação, além de expô-lo ao mercado de trabalho sem as garantias trabalhistas conferidas aos trabalhadores nacionais, em situação de vulnerabilidade extrema.

Conforme leciona Fernando Barcelos de Almeida (2014, p. 21):

A junção entre políticas que possam acomodar os imigrantes no mercado de trabalho formal, com a perspectiva dos direitos humanos, contribuirá de forma decisiva a consolidar a imigração como um ativo para o desenvolvimento do país, não somente do ponto de vista econômico, mas também cultural, social e político.

Portanto, urge por uma nova concepção de migrante, onde este seja visto como ser humano e detentor de direitos inatos a sua condição humana. Mais do que isso, faz-se necessário que os Estados adotem políticas migratórias humanistas, onde se reconheça o estrangeiro como titular de direitos humanos de forma isonômica aos nacionais, sem esquecer a política de reconhecimento das diversidades destes, afinal as migrações internacionais contemporâneas representam uma constante no século XXI e uma abordagem humanizada e livre de estigmas, na qual garantirá a esses um recomeço menos penoso e menos exposto a situações de vulnerabilidade.

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Os movimentos migratórios é compreendido por diversos motivos, dentre eles, a fome, conquista territorial, fuga, perseguições políticas e religiosas, e principalmente em busca de melhores condições de vida e ambientes mais seguros, têm se intensificado cada vez mais.

Os imigrantes procuram países que possam oferecer qualidade de vida, emprego e principalmente segurança para essas pessoas. Na atualidade as imigrações internacionais são o reflexo da desigualdade entre países ricos e países pobres, entre países estáveis e países instáveis, o modelo político do país a falta de liberdade de expressão, a coibição de alguns poderes políticos, estes são alguns fatores que contribuem fortemente para a imigração de países. Onde as liberdades fundamentais são mais eficazes e, sobretudo respeitadas.

Há também os refugiados, que são aqueles que mudam de região ou país, para fugir de guerras, conflitos internos, violação aos direitos humanos e perseguição de cunho político, étnico, religioso, entre outros.

Em consulta ao sítio da GloboG1, podemos citar o conflito da Síria registrado em Julho de 2013, que deu origem a cerca de 1,5 milhões de refugiados neste período. Segundo estudos, a presença contínua de uma longa situação de refúgio é um lembrete de que a travessia nas fronteiras internacionais não é opcional, mas sim, a única alternativa viável para milhões de pessoas.

Segundo dados da ONU (Organização das Nações Unidas), em 2013, 3,2 % da população mundial eram migrantes internacionais, aproximadamente 232 milhões de pessoas. Em 2005 a Europa acolheu 34% do total de migrantes, a América do Norte 23% e a Ásia 28%, apenas 9% viviam na África, 3% na America Latina e 3% na Oceania. Cerca de 6 a cada 10 migrantes internacionais residem em países considerados de elevado rendimento, além disso, nos países desenvolvidos as mulheres migrantes excedem o número de homens migrantes.

Cada época marca seu motivo. A verdade é que os movimentos de população permitiram o povoamento do mundo e significaram a expansão de etnias, línguas, religiões e conhecimento, num emaranhado processo que dá ao mundo atual os traços de grande diversidade e riqueza cultural. As chamadas Grandes Navegações ou “grandes invasões”, por exemplo, foram responsáveis pela colonização do continente americano a partir do século XVI; e significaram a difusão da cultura dos europeus, a qual entrou em choque com as culturas das comunidades indígenas que já habitavam o território (JILG, 2015).

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Esse deslocamento populacional foi estimulado pelo expansionismo territorial das potências europeias da época, que buscavam fontes de matérias-primas e novos mercados para seus produtos, portanto, tinha motivação geopolítica e econômica. Essa migração aumentou maciçamente no século XX e começo do XXI. Paralelamente, perseguições políticas e religiosas, guerras e crises econômicas foram responsáveis por grandes deslocamentos humanos da Europa e Ásia para as Américas. Outras partes do mundo sofreram estimulação migratória mais localizada, como é o caso da Austrália e Nova Zelândia, onde a perspectiva de melhoria de condições de vida, com a possibilidade de mobilidade social (ascensão econômica), incentivou especialmente parte da população da Grã-Bretanha a emigrar (JILG, 2015).

Com base nessas informações, é possível compreender a base do conceito de Migração Internacional, que independente do seu motivo tende a crescer devido a grande globalização que presenciamos. Com tudo, ela pode ser encarada de outra maneira, uma maneira que proporcione o aumento da competitividade e competência entre os povos e populações. De modo, que exista uma maior interação cultural e social em âmbito mundial.

2.1 Os movimentos migratórios do século XXI: causas e consequências

2.1.1 Causas

Na atualidade os movimentos migratórios atuais baseiam-se, principalmente, a duas causas: a busca por melhores condições de vida e a fuga de regiões em conflito.

Nas palavras de Karl Jilg (2015),

-A busca por melhores condições de vida: caracteriza os deslocamentos populacionais provocados pela miséria que se concentra em algumas partes do mundo. Portanto, têm caráter econômico, constituindo fluxos ou correntes migratórias de países pobres para países ricos. Exemplos: pós-década de 60 (século XX), da Europa Mediterrânea para a Europa Ocidental; na atualidade, do norte da África para países europeus, de regiões da América Latina para os EUA e Canadá, do extremo oriente para as Américas. Essas migrações são vistas como o efeito colateral mais perverso da globalização.

- A fuga de regiões em conflito: trata-se de migrações provocadas por guerras locais, portanto, têm motivação político-bélica, constituindo um verdadeiro êxodo para os países que recebem os refugiados. Esses deslocamentos ocorrem por uma questão de sobrevivência às perseguições motivadas por conflitos étnicos e às atrocidades cometidas contra as populações civis. Os exemplos mais recentes foram os que ocorreram na Bósnia-Herzegovina e Kosovo. Mas é no continente africano que se desencadeia a maior quantidade de movimentos migratórios: são legiões de refugiados vagando pelo espaço local, à procura de abrigo, fugindo de guerras tribais, instabilidades políticas, questões raciais e religiosas e golpes militares.

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Na atualidade, podemos identificar alguns países emissores e receptores com características de repulsão e de atração, que levam milhares de pessoas a se deslocar (JILG, 2015).

Como áreas de repulsão, podemos identificar:

a) América Latina (México, América Central e América do Sul): com seus históricos problemas de desequilíbrio econômico, provocados por endividamentos e mau gerenciamento do dinheiro público, gerando enormes bolsões de pobreza.

b) África: onde, além da pobreza crônica da população, ocorrem conflitos raciais de extrema violência dentro dos países artificialmente criados pelos colonizadores europeus.

c) Ásia: o continente que concentra o maior contingente absoluto de pobres do mundo onde as estruturas sociais são profundamente injustas, muitas vezes exacerbadas pelos sistemas de castas e pelo comportamento religioso.

d) Leste Europeu: onde o fim do socialismo gerou enorme desorganização econômica, com a eliminação de empregos e benefícios estatais, expondo diferenças antes controladas pela ideologia política comum, provocando conflitos étnicos e religiosos.

Como exemplos dessas áreas de atração, pode-se citar:

a) América Anglo-Saxônica: os EUA e, em menor escala, o Canadá, com suas ricas economias, são atrativos para as populações latino-americanas, principalmente mexicanos e centro-americanos que veem na poderosa nação (EUA) a solução para seus problemas. Veja mais em Imigração Ilegal ao EUA.

b) Europa Ocidental: essa região concentra as principais economias do continente: Alemanha, França, Itália e Reino Unido, além da Holanda, Suécia e Suíça. A Europa é circundada por várias regiões com economias problemáticas, como a África, Oriente Médio, Europa Oriental e, mais distante, o Sul e Sudeste Asiático.

c) Japão: relativamente recentes nos processos migratórios, os países começaram a se tornar um polo de atração a partir de seu acelerado crescimento econômico dos

anos 70. Inicialmente os imigrantes provinham das cercanias

de China, Taiwan e Coreia do Sul. O envelhecimento precoce da população, entretanto, serviu de maior atrativo, levando a um aumento da imigração, com destaque para o brasileiro, trabalhador não qualificado, aproveitado para as tarefas braçais. Milhares de famílias brasileiras mudaram para o Japão em busca de dólares.

De acordo com a Organização Internacional para as Migrações (OIM, 2019) considera-se migração:

o movimento de população para o território de um Estado ou dentro do mesmo que abrange todo movimento de pessoas, seja qual for o tamanho, sua composição ou causas; inclui a migração de refugiados, pessoas deslocadas, pessoas desarraigadas, migrantes econômicos.

Tal como relata o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), “aproximadamente 195 milhões de pessoas moram fora de seus países de origem, o equivalente a 3% da população mundial, sendo que cerca de 60% desses imigrantes residem em países ricos e industrializados. No entanto, em decorrência da estagnação econômica

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oriunda de alguns países desenvolvidos, estima-se que, 60% das migrações ocorram entre países em desenvolvimento” (PNDUD, 2019).

O conflito e a insegurança que nos encontramos imbuídos ultimamente, têm originado uma onda de imigrantes sem precedentes para diversos países da Europa, concretamente: Espanha, França, Portugal, Itália e Grécia. Grande parte com origem em países em conflito, nomeadamente: Líbia, Síria, Nigéria, Somália, Eritreia, Bangladesh e Marrocos e outros países.

Segundo Janísio Salomão (2015), são várias as causas atribuídas à migração, com maior destaque para:

Políticas: o modelo político do país, a falta de liberdade de expressão, ausência de jornais privados e a coibição de alguns regimes políticos são fatores que contribuem fortemente para a imigração de países aonde as liberdades fundamentais são mais eficazes e, sobretudo respeitadas;

Econômicas: o fraco crescimento das economias acaba por se repercutir em diversos indicadores econômicos como taxas de inflação, taxas de juros e o desemprego, que corroboram para um débil desenvolvimento das economias. Assistindo-se uma elevada densidade populacional que conduz a má remuneração dos empregos, contribuindo para elevados fluxos migratórios;

Religiosas: o combate e a estigmatização de grupos religiosos, a não aceitação de indivíduos que professam religiões distintas. Em grande parte dos países a intransigência religiosa tem originado muitas mortes, o exemplo prático são os considerados “extremistas religiosos”.

Étnicas: geralmente são causadas por grupos ou comunidades com origens étnicas diferentes, que quando instalados numa determinada região ou área, acabam por expulsar os demais, que normalmente constituem a minoria.

Naturais: são normalmente, provocadas por secas, inundações, catástrofes, erupções vulcânicas ou outras intempéries de índole diversa. A população é obrigada a imigrar com o intuito de sobreviver.

Socioculturais: acontece quando os cidadãos acabam imigrar para as grandes metrópoles por motivos de ordem cultural, aonde acabam por ficar pelo fato de favorecer o desenvolvimento da sua atividade: Estudantes, músicos, cientistas e artistas.

Turísticas: acontecem quando os cidadãos viajam para um país como turista, com o objetivo de passar as férias, ou conhecer novos locais, e acabam por permanecer e trabalhar.

Bélicas: estão relacionadas com os conflitos armados e guerras civis que acabam por degradar grande parte das infraestruturas e o tecido produtivo do país, levando-o as ruínas. Ultimamente está tem sido uma das principais causas de grande parte dos principais fluxos migratórios.

Com isso, é importante ressaltar que as pessoas muitas vezes não querem deixar sua cultura, sua religião, sua família, para ir para outros locais, mas existem alguns fatores que forçam para que a pessoa saia, dentre eles, a fome. Com isso, as pessoas acabam por sair em busca de melhores condições de vida e trabalho.

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2.1.2 Consequências

As consequências são inúmeras para os países geralmente para os países e localidades de origem e destino dos imigrantes. No ponto de vista demográfico, assiste-se a redução da população, uma vez que o país de origem não possui os requisitos ou condições que proporcionem a comodidade dos seus cidadãos e a melhoria da qualidade de vida.

Nos últimos tempos, em função da nova vaga de imigrantes, aproximadamente 4.800 imigrantes foram salvos do mar mediterrâneo e levados aos portos da Itália e Grécia. A guarda costeira Italiana salvou perto de 3.700 (três mil e setecentos) imigrantes no canal da Sicília, enquanto as forças marítimas conseguiram salvar aproximadamente perto de 1.100 (hum mil e cem) imigrantes (IOM- Organização Internacional para as Migrações). Por outro lado da moeda, ultimamente muito imigrantes têm perdido a vida ao tentar imigrar para outros países ou continentes.

De acordo Organização Internacional para as Migrações (OIM), “mais de 1.900 (hum mil e novecentos) imigrantes afogaram-se em 2017, ao tentar alcançar a Europa, e perto de 1.840 (hum mil e oitocentos e quarenta) morreram ao tentar chegar à Itália”.

2.2 A migração clandestina e o tráfico humano

O deslocamento forçado teve um crescimento acelerado desde o início do século XXI, alcançando níveis recordes em 2016, que configuram a atual crise de refugiados. Até o fim de 2015, mais de 65 (sessenta e cinco) milhões de pessoas foram forçadas a deixarem suas regiões, em função de perseguição, conflitos armados, violência generalizada ou violações de direitos humanos. Em uma população mundial de pouco mais de 7 (sete) bilhões de pessoas, isso significa que uma a cada 113 pessoas é hoje solicitante de refúgio, deslocado interno ou refugiado (ACNUR, 2016).

A grande maioria desses refugiados, provenientes do Oriente Médio e da África, é resultado da série de conflitos armados e guerras civis que degradam a região. No Iraque e na Líbia, conflitos armados acontecem diariamente, provocando a destruição de instituições estatais e sociais que forçam milhares de pessoas a buscar refúgio em países vizinhos e em

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outras regiões mais distantes, como o continente europeu. A Síria foi o país de origem da maior parte dos refugiados em 2015.

Estima-se que 4,9 milhões de refugiados sírios estejam sob mandato do ACNUR (Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados), os quais buscam refúgio, especialmente nos Estados fronteiriços, como Turquia, Líbano, Jordânia, Iraque e Egito.

Na prática, não há uma diferença tão grande entre migrações forçadas e voluntárias, já que o desrespeito aos direitos humanos pode surgir de outras formas. Um cidadão sem amparo governamental para sustentar uma condição digna de vida está igualmente em situação de risco (ELIE, 2014).

O caso dos migrantes ambientais é problemático, pois são pessoas que estão sendo obrigadas a deixar suas casas, por problemas decorrentes de desastres naturais ou mudanças climáticas, mas, em tese, ainda estão dentro do aparato governamental de seu país, além de não sofrerem fundado temor de perseguição, fator essencial para se enquadrar como refugiados (BIERMANN; BOAS, 2007, p. 5-6).

2.2.1 O que é o tráfico de pessoas?

Conforme a Convenção das Nações Unidas contra o Crime Organizado Transnacional, conhecido também como Convenção de Palermo, o tráfico de pessoas:

é caracterizado pelo recrutamento, transporte, transferência, abrigo ou recebimento de pessoas, por meio de ameaça ou uso da força ou outras formas de coerção, de rapto, de fraude, de engano, do abuso de poder ou de uma posição de vulnerabilidade ou de dar ou receber pagamentos ou benefícios para obter o consentimento para uma pessoa ter controle sobre outra pessoa, para o propósito de exploração (UNODC - Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime, 2019).

Conforme dispõe a ONU (Organização das Nações Unidas): “um número crescente de Estados vem ratificando a Convenção de Palermo e seus protocolos, entre eles os países na área de cobertura do Escritório de Ligação e Parceria do UNODC no Brasil” (2019).

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Segundo UNODC (Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime), Programa contra o Tráfico de Seres Humanos, são elementos do Tráfico de Pessoas: o ato, os meios e o objetivo:

ato (o que é feito): Recrutamento, transporte, transferência, alojamento ou o acolhimento de pessoas.

Os meios (como é feito): Ameaça ou uso da força, coerção, abdução, fraude, engano, abuso de poder ou de vulnerabilidade, ou pagamentos ou benefícios em troca do controle da vida da vítima.

Objetivo (por que é feito): Para fins de exploração, que inclui prostituição, exploração sexual, trabalhos forçados, escravidão, remoção de órgãos e práticas semelhantes. Para verificar se uma circunstância particular constitui tráfico de pessoas, considere a definição de tráfico no protocolo sobre tráfico de pessoas e os elementos constitutivos do delito, conforme definido pela legislação nacional pertinente (UNODC - Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime, 2019).

Portanto, entende-se como ato, a ação de captar, transportar, deslocar, acolher ou receber pessoas, com o objetivo de obter lucros financeiros. Como já foi mencionado, o tráfico de pessoas é um crime complexo, e assim, podem-se utilizar vários meios na execução de tal delito, ameaça, uso de força, fraude, abuso de poder, além de outros meios. A finalidade do tráfico pessoas tem o intuito de prostituição, trabalhos forçados e retirada de órgãos.

2.2.3 O que é o contrabando de migrantes?

O Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC, 2019), o Contrabando de Migrantes:

é um crime que envolve a obtenção de benefício financeiro ou material pela entrada ilegal de uma pessoa num Estado no qual essa pessoa não seja natural ou residente. O contrabando de migrantes afeta quase todos os países do mundo. Ele mina a integridade dos países e comunidades e custa milhares de vidas a cada ano. O UNODC, como guardião da Convenção das Nações Unidas contra o Crime Organizado Transnacional (UNTOC) e seus Protocolos, assiste os Estados em seus esforços para implementar o Protocolo contra o Contrabando de Migrantes por via Terrestre, Marítima e Aérea (Protocolo dos Migrantes).

A busca por melhores condições de vida leva grande número de pessoas a de um país para outro. Na maioria dos casos, esse trânsito é feito de maneira irregular e uma pessoa é beneficiada financeiramente para a entrada ilegal de outra. É o chamado contrabando de migrantes.

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2.2.4 Qual é a diferença entre tráfico de pessoas e contrabando de migrantes?

“Contrabando de migrantes é sempre transnacional, enquanto o tráfico de pessoas pode ocorrer tanto internacionalmente quanto dentro do próprio país” (INODC, 2019).

Consentimento: O contrabando de migrantes, mesmo em condições perigosas e degradantes, envolve o conhecimento e o consentimento da pessoa contrabandeada sobre o ato criminoso. No tráfico de pessoas, o consentimento da vítima de tráfico é irrelevante para que a ação seja caracterizada como tráfico ou exploração de seres humanos, uma vez que ele é, geralmente, obtido sob malogro.

Exploração: O contrabando termina com a chegada do migrante em seu destino, enquanto o tráfico de pessoas envolve, após a chegada, a exploração da vítima pelos traficantes, para obtenção de algum benefício ou lucro, por meio da exploração. De um ponto de vista prático, as vítimas do tráfico humano tendem a ser afetadas mais severamente e necessitam de uma proteção maior.

Portanto, contrabando de migrantes e o tráfico de pessoas são dois crimes diferentes que muitas vezes são confundidos. E esclarecer essas diferenças é fundamental para o desenvolvimento de políticas governamentais. Uma diferença imprescindível é que as vítimas de tráfico são consideradas vítimas de um crime nos termos do Direito Internacional, os migrantes contrabandeados, não, eles pagam contrabandistas para facilitar seu movimento. Assim, uma melhor conscientização sobre as distinções entre tráfico de pessoas e contrabando de migrantes pode potencialmente melhorar a proteção das vítimas e evitar sua reexploração.

2.3 O papel dos Direitos Humanos na construção de uma nova política migratória

Com a criação da ONU (Organização das Nações Unidas) e do ACNUR (Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados), esperava-se resolver a situação dos refugiados que não conseguiram se estabelecer depois da Segunda Guerra. Contudo, os problemas no acolhimento e integração dessas populações permaneceram, resultado da precariedade com que a questão é administrada pelos países, sendo necessários maior atenção e apoio financeiro por parte das nações (ANCUR, 2015).

Por mais reconhecido que seja o vínculo entre direitos humanos e proteção dos refugiados, esta se dá apenas dentro dos Estados, estando sujeita aos contextos internos de cada país (MENEZES; REIS, 2013).

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“A recepção de um grande contingente de pessoas gera custos. Além disso, é possível que a população local se oponha à entrada desses indivíduos, especialmente se possuírem traços culturais distintos em relação aos dela” (MOREIRA, 2006), de forma que “os Estados acolhedores podem colocar em risco a própria estabilidade interna” (LOESCHER, 1999). Assim, “dois princípios são colocados em conflito: a soberania do país e o atendimento das necessidades das pessoas em risco” (CHIMNI, 1998).

Os Estados, sendo soberanos, têm o poder de especificar as regras de admissão de refugiados em seu território. Isso gera, muitas vezes, consequências negativas aos fluxos de refugiados, como o fechamento de fronteiras e a hostilidade no controle da entrada desses migrantes (MALKKI, 1995). A resposta coletiva da União Europeia para tal fluxo tem sido desfavorável à proteção dos direitos de migrantes e refugiados, priorizando a segurança das fronteiras do bloco (PARK, 2015).

A relação entre a crise dos refugiados e a crise da União Europeia em seu sentido mais amplo está ligada à discussão sobre de que forma “os outros” podem ser incluídos em uma comunidade política. Tal discussão está estruturada em torno de uma compreensão de que a comunidade é pré-existente aos outros, e já contém em si o necessário para permitir sua inclusão, de forma que a obrigação de qualquer mudança a ser feita cabe somente à figura do estrangeiro. Assim, não há discussão sobre os processos políticos que excluíram os imigrantes no processo de estabelecimento da comunidade política na qual agora tem de buscar a inclusão e, além disso, não se discute como a própria comunidade política pode ser alterada através do envolvimento com os outros (BHAMBRA, 2009).

O impacto assimétrico da crise foi um grande obstáculo para uma resposta coletiva forte e coerente da UE. Uma minoria dos países do bloco foi significativamente afetada pela crise dos refugiados e tais países se dividem em três grupos. Os Estados de primeira chegada buscavam ultrapassar as limitações do Regulamento de Dublin. Os países de trânsito foram tentados a desviar o fluxo de migrantes, fechando seletivamente suas fronteiras e, caso não fosse possível, permitindo a passagem dos refugiados de forma rápida.

Os países onde os refugiados permaneceram buscaram abrandar o fluxo de entrada pedindo uma repartição dos encargos (LEHNE, 2016). Um exemplo nesse sentido foi à medida francesa em 2011, de proibir o uso de vestimentas que cobrem o rosto. A medida atingiu diretamente mulheres muçulmanas que usam o niqab, véu que deixa somente os olhos expostos, e foi vista como nova tentativa de impor às mulheres islâmicas o modo de ser

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europeu, em nome do laicismo do Estado francês e da manutenção da ordem, sob o frágil pretexto da libertação feminina, pautada pela visão ocidental (site TERRA, 2016).

Conforme disposto na ACNUR (Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, 2019) há duas formas de lidar com a questão dos refugiados:

- proteção aos refugiados que atingem o território do país, pela concessão do pedido de asilo - com normas claras e estabelecidas, baseadas na Convenção de 1951 e no princípio do non-refoulement13, além dos incentivos diretos para atuação; e - repartição da responsabilidade, pelo auxílio a terceiros países onde os refugiados se encontram, com fraca normativa legal, poucas normas ou princípios e pouco incentivo a atuação dos países não diretamente atingidos.

Dessa forma, “enquanto a primeira está parcialmente sujeita a um comportamento orientado por normas, a última é limitada pelo comportamento motivada por interesses, dada a sua natureza discricionária” (GIBNEY, 2014).

A soberania tenta classificar todos os indivíduos em espaços territoriais homogêneos. No processo alguns são inevitavelmente forçados entre fronteiras, entre soberanias. Como tal, os refugiados são vítimas, Princípio previsto na Convenção de Genebra Relativa ao Estatuto dos Refugiados, de 1951, de acordo com o qual “Nenhum dos Estados Contratantes expulsará ou repelirá um refugiado, seja de que maneira for para as fronteiras dos territórios onde a sua vida ou a sua liberdade sejam ameaçadas em virtude da sua raça, religião, nacionalidade, filiação em certo grupo social ou opiniões políticas.” Este princípio não poderá ser “invocado por um refugiado que haja razões sérias para considerar perigoso para a segurança do país onde se encontra, ou que constitua ameaça para a comunidade do dito país.” (art. 33.º, n.ºs 1 e 2, OIM, 2009).

Nesse sentido, menciona Haddad (2008):

O fato de os Estados terem assinado a Convenção de 1951 significa que eles têm obrigações para com os refugiados, o que não significa uma restrição a sua soberania, e sim um elemento de constrangimento institucional sobre si mesmos. Mas essa restrição é mínima: a Convenção de 1951 concede o direito de requerer asilo, mas o direito de obtê-lo não é garantido. O direito de fugir da fonte de perseguição é reconhecido, enquanto o direito de oferecer proteção contra a perseguição continua a ser uma prerrogativa estatal. Assim, a citada Convenção é apenas um exemplo da maneira como o refugiado traz à tona o choque entre os direitos soberanos e os direitos humanos.

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Ainda, reforça Simeon (2013):

Além das dificuldades criadas pela securitização de questões relativas a migrantes forçados, os fluxos atuais são causados por formas mais graves de instabilidade interna dos Estados do que as previstas nos instrumentos de proteção a refugiados, criados no contexto pós-Segunda Guerra Mundial e agora se mostram inadequados.

Mas, aos poucos, as políticas e os critérios de admissibilidade de pessoas de outros países começam a se tornar mais restritivas e os fluxos migratórios começam a mudar.

2.3.1 A crise migratória no século XXI

Segundo Emma Haddad (2008, p. 69):

A crise migratória no século XXI, um sistema internacional que os faz surgir e, em seguida, falha em assumir a responsabilidade por eles. A proteção internacional depende de Estados individuais, contudo, os Estados conservam o direito soberano de decidir quem pode entrar em seu território e, de tal forma, quem protegerão. Assim, a fuga do refugiado evidencia a falha tanto dos governos individuais em proteger seus cidadãos quanto do sistema internacional de Estados como um todo, em atribuir cada indivíduo a um estado e protegê-los como cidadãos.

Os refugiados são vistos como fonte de fragilidade pelos Estados, um risco que precisa ser corrigido. A distinção do termo refugiado a migrante é feita de forma artificial, com o intuito de favorecer políticas migratórias estatais, geralmente guiadas por interesses securitários. Assim, políticas relativas à migração têm como base também conceitos de soberania, do direito de cada país decidir quem são aqueles que podem entrar em seu território (ELIE, 2014).

Menciona inda Haddad (2008):

O regime de refugiados foi criado para restaurar as relações normais entre Estado e cidadão, sendo a solução para a questão a reterritorialização dos indivíduos que agem entre os Estados, numa tentativa de corrigir o desvio do modelo normal de sociedade internacional, em que todos os indivíduos pertencem a um Estado.

Assim, conforme o estudo de Gibney (2014):

A repartição da responsabilidade entre os países requer uma participação igualitária, evitando a sobrecarga. Uma resposta possível seria a distribuição sensível às capacidades integrativas de cada país (como nível do PIB, tamanho, estabilidade

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