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O (possível) encontro dos artistas Tebas e Jesuíno em Itu

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O (possível) encontro dos artistas Tebas e Jesuíno em Itu

No lançamento do livro TEBAS UM NEGRO ARQUITETO NA SÃO

PAULO ESCRAVOCRATA (abordagens), de Abílio Ferreira1, realizado na

Biblioteca Mário de Andrade no início de março, uma questão levantada pela plateia demonstra que o interesse sobre os nossos mais famosos artistas coloniais – especialmente os da raça negra – continua vivo entre nós. A indagação, formulada com expectativa de quem espera vir a ser confirmada a hipótese nela contida, era se artistas como Aleijadinho, Mestre Valentim e Tebas, todos mulatos, visto atuarem na mesma época embora em diferentes áreas da Colônia, por ventura fizeram contato e conheceram as respectivas obras?

Pois então, eu arrisco dizer que, se não se conheceram pessoalmente, ao menos tiveram notícias uns dos outros e de suas obras por intermédio de terceiros, de gente que por ofício ou deleite andou por Minas, Rio e São Paulo e assim, conhecendo suas obras artísticas, tenham-nos procurado para louva-las, manifestar a impressão e deleite estético causados, e quem sabe até tecer considerações sobre composição e estilos. Pena que tais manifestações de aprovação e apreço de suas obras artísticas, as quais não temos razão para duvidar terem sido expressadas por gente “sabida” ou comum do povo à época de sua criação pelos citados artistas, não tenham sido vertidas em escritos que nos alcançasse, de modo a que tomássemos conhecimento das reações que terão provocado em seus conterrâneos, chegado aos seus ouvidos e a maneira como as receberam então.

Mas, quero acrescentar que não descarto a possibilidade de que possa ter ocorrido contatos entre eles. Não sei de relato algum a respeito, mas, afinal, as distâncias entre as regiões que atuavam – Minas, Rio e São Paulo – não eram assim tão grandes.

Todavia, por outro lado parece-me impossível que o sucesso que suas obras tiveram ainda durante suas vidas se limitasse unicamente às regiões em que atuavam, sem repercutir fora delas.

O sucesso de um artista geralmente provoca nas pessoas que admiram suas obras o interesse em tê-las próximo de si e, se possível,

1 UM NEGRO ARQUITETO NA SÃO PAULO ESCRAVOCRATA (abordagens). FERREIRA, Abílio (org.) Vários autores. São Paulo: IDEA, 2018.

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lo trabalhar para seu deleite próprio ou para o deleite do grupo a que

pertence. Assim ocorria, naquele tempo, aos cidadãos que se destacavam pela sua importância social e econômica, destacadas autoridades e membros de associações religiosas que não mediam esforços em tê-los comprometidos com obras de edificação e ornamentação de suas igrejas e capelas, onde a Arte se manifestava como maior fartura e qualidade.

Um quadro assim não é difícil de imaginar, porém, comprovar é que são elas. Se tivéssemos acesso à correspondência da época, das cartas trocadas entre as pessoas, talvez... Outra maneira seria recorrer à criação literária coetânea, como fez maravilhosamente Lorenzo Mammi, com o quadro “Duas Meninas” de Renoir.2 Mas se essa inexiste para o caso dos

nossos artistas coloniais, o que podemos fazer? Como saber o que eles pensavam e diziam acerca de suas próprias obras, que impressão tinham das obras de seus companheiros de ofício, como reagiam às manifestações do público? Chegaram a revelar suas impressões e sentimentos a respeito entre si? Alguém terá feito algum registro dessas revelações. As dificuldades para a reconstituição de suas biografias já são enormes, o que então dizer sobre a repercussão das obras quando as realizaram? As crônicas posteriores abundam em elogio, mas pecam em documentação comprobatória.

Essas foram as maiores dificuldades enfrentadas por Mário de Andrade. Mas, sob esse ponto de vista seu estudo acerca das pinturas de Padre Jesuíno do Monte Carmelo constitui a maneira mais direta e eloquente de revivescência estética já elaborada pela historiografia da Arte Tradicional brasileira que inspirava seu amigo Lourival Gomes Machado a rumar pelo mesmo caminho, inquirindo e perscrutando a talha barroca das igrejas mineiras em análises magistrais e de extraordinário sabor literário.

Todavia, desde que fui despertado pela erudição e fértil imaginação do emérito professor e maestro Régis Duprat, cultivo a impressão de que os nossos artistas coloniais eram sujeitos muito ativos, inquietos, interessados em conhecer seus colegas de trabalho, suas obras, animados sempre pelas novidades, vindas ou não de fora, de outras regiões ou da

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Metrópole, enfim, tal como os artistas atuais, sempre a vivenciar a Arte

produzida por essa diferenciada categoria de gente que pertencem.3

Volto àqueles que conheço: a Tebas e a outro artista mulato que tenho dedicado muito do trabalho que desenvolvo no IPHAN: o também mulato, o pintor Jesuíno que as crônicas lhe atribuem dotes também de entalhador, afora ter sido compositor de música sacra antes mesmo de se tornar padre, atividade que ganharia maior dimensão e importância por força de sua atividade eclesiástica.

E com eles à questão levantada pela plateia.

Ao contrário de nossos literatos, o historiador quer sempre basear-se em documentos, mesmo basear-se poucos, porém que basear-sejam suficientes para aventurar-se em narrativas históricas... plausíveis.

De maneira que o documento que mais adiante apresento, suscitou em minha imaginação algo mais consistente, reforçando o que agora tornou-se convicção, qual seja: Tebas e Jesuíno tiveram ocasião de se encontrar como tempo para conversar sobre suas atividades artísticas e até mesmo sobre as possibilidades que as duas cidades paulistas ofereciam no contexto histórico porque passavam.

É preciso, todavia, recordar o passo anterior: em abril de 2016, pesquisando no Arquivo da Província Franciscana de São Paulo, me deparei com registros de pagamento ao Mestre Canteiro Joaquim Pinto de Oliveira Tebas efetuado pelos frades da Vila de Itu no mês de Janeiro de 17954,

revelavam uma inusitada informação: Tebas estava em Itu naquele ano para levantar o Cruzeiro defronte ao conjunto conventual5. Ora, esse

documento lhe conferiu dimensão inesperada, quer no âmbito espacial – pois até aquele momento nenhum cronista nem historiador que se dedicara a estudar a vida e as obras do famoso mulato indicara que teria atuado também fora da cidade de S. Paulo; quer profissional – visto que o entalhe deste símbolo cristão em Itu nos leva a conjecturar que Tebas terá

3 Duprat foi o grande inspirador dos artigos que eu e Julio Moraes escrevemos acerca de uma das obras primas de José Patrício da Silva Manso. Ver Uma família e uma tela de Duprat in José Patrício da Silva

Manso (1740-1801): UM PINTOR COLONIAL PAULISTA RESTAURADO. Documentação de Bens Culturais e

Monumentos Tombados. MinC. IPHAN. 9ª SR. São Paulo. 2007. pp. 10-15.

4 Livro de Receita e Despesa do Convento franciscano de São Luiz, da Vila de Nossa Senhora da Candelária de Itu, fl. 13. Arquivo da Província Franciscana.

5 Cerqueira, Carlos Gutierrez THEBAS EM ITU. Blog RESGATE – HISTÓRIA E ARTE II -https://docs.google.com/viewer?a=v&pid=sites&srcid=ZGVmYXVsdGRvbWFpbnxyZXNnYXRlaGlzdG9yaW FlYXJ0ZXxneDo1OWIyMjBkNzI2ZTYyYjYx.

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participado em outras mais obras realizadas naquela época na mais

importante Vila interiorana paulista, que rivalizava com a Capital em florescimento artístico.

Situemos uma vez mais esse importante contexto histórico cultural paulista.

A razão dessa florescência artística ituana provinha da riqueza que a lavoura açucareira lhe proporcionava. A vila mais próspera da capitania estava envolta a inúmeras fazendas e sítios cada qual com dezenas de escravos lavrando cana de açúcar em suas terras e produzindo muitas arrobas de açúcar transportado para Santos onde seguia em navio para Portugal. No ano em que localizamos Tebas em Itu, a Vila já se beneficiava desse progresso e sua riqueza atraia outros artistas importantes e igualmente consagrados, incluindo alguns vindos de fora, como o Dourador e Pintor mineiro José Patrício da Silva Manso, e mesmo da Metrópole, como fora o caso do português Bartholomeu Teixeira Guimarães, entalhador oriundo da região do Porto, contratado pelo Padre João Leite para confeccionar por volta de 1780-1786 o extraordinário retábulo mor da Matriz6, cuja policromia original foi desvelada recentemente em criteriosa

restauração executada pela empresa Julio Moraes Restaurações – obra de José Patrício da Silva Manso.

Mas volto a Tebas, agora para acrescentar um dado sobre a sua estadia em Itu. É interessante pois nos permite alimentar nossa imaginação no sentido de subsidiar com pouco mais de consistência o que vimos conjecturando sobre as possibilidades de contatos e de relações entre os artistas daquela época.

Ora isso diz respeito à esfera de vida religiosa daquela época que ainda pouco se deixara afetar pelas ideias liberais e iluministas. Costumes apoiados em organizações tradicionais, de cunho corporativista, vigiam extensamente ainda e com muito vigor, mesclando-se às práticas sociais e religiosas, de modo que moldavam ainda largamente a sociedade desse

6 A respeito desse entalhador português, uma igualmente grata e admirável novidade na historiografia das Artes Coloniais paulistas, pesquisas desenvolvidas pelo Professor Doutor Matheus Rosada demonstram que seu campo de atuação foi muito grande em São Paulo, estendendo-se a antigas regiões como a do vale do rio Paraíba. Ver do autor o artigo BARTHOLOMEU TEIXEIRA GUIMARÃES OBRA E

INFLUÊNCIA DE UM ENTALHADOR NORTE‐PORTUGUÊS NO INTERIOR DO BRASIL (publicado em EL

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período transicional de embate entre valores antigos e novos ideais.

Explicar esse processo, porém, não é fácil.

A religião era a Católica, sim, porém expressava-se de forma algo complexa no interior da sociedade escravocrata. A dicotomia básica, de caráter econômico-social, Senhor – Escravo, como categoria analítica, embora fundamental, não é suficiente para dar conta da complexidade dessa esfera da realidade sociocultural dessa sociedade em transição. A dificuldade, sem dúvida, é a escravidão. Ela é estrutural e permanecerá por mais uma centúria, independentemente das alterações que já se operavam no campo das relações internacionais, motivadas pelas revoluções econômicas e políticas em curso. O momento histórico do qual nos ocupávamos agora não se observa alteração nenhuma em sua base, na sua relação fundamental, entre Senhores e Escravos, muito menos no plano legal, que regula a propriedade e uso dos primeiros sobre os segundos.

A única novidade a merecer atenção dos estudiosos foi a urbanização ocorrida nesse período, destacadamente nas zonas auríferas, em Minas sobretudo, e, por rebatimento naquelas que constituíam seu hinterland, situadas em áreas de influência direta ou indireta. A cidade de S. Paulo pertencia a esta última, que viria a se constituir, no entanto, num centro autônomo de desenvolvimento a partir do desenvolvimento da lavoura cafeeira, onde, em meados do século XIX, lentamente novas relações de trabalho serão experimentadas e introduzidas e que muito lentamente atingirão a economia urbana. Mas não é isso que interessa por ora.

Volto, pois, ao tempo ainda da vigência das corporações, à segunda metade do século XVIII adentrando o XIX; embora seja preciso dizer que não tiveram em São Paulo o brilho nem a importância das ricas cidades mineiras e das nordestinas nesse mesmo período. Mesmo assim, e da mesma forma que nas mais ricas regiões, é pelas mãos de profissionais, presos ainda às tradicionais regras corporativas, que emergiam novos profissionais e era pautada também as obras artísticas. Em suma, no tempo dos artistas que nos referimos a produção era ainda artesanal, amestrada pelo ensino rigoroso dos mestres, regulada por padrões de qualificação rigorosos e tradicionais; e cujo sucesso calcava-se na capacidade criativa e na habilidade manual. Suas obras possuíam uma qualidade superior. Algumas das quais, felizmente, permanecem entre nós, raramente intactas, porém. Desfiguradas, senão escondidas por completo; daí o esforço por

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restaurá-6

las e reabilitá-las para a nossa apreciação e deleite estético. Ou deveríamos

aceita-las no estado em que se encontram, deformadas, que só expressam a tristeza dos processos ruinosos que lhes foram impingidos, retratando a história degradante que inspiram? Deixo essa questão de lado, por ora.

Dizia que alguns dos artistas daquele tempo das corporações conseguiam se destacar e ganharam celebridade e, dentre eles, encontravam-se alguns da raça negra brasileira, especialmente alguns mestiços, à época chamados de pardos e que depois ficaram conhecidos como mulatos. De dois deles me ocupo neste texto.

Bem, então vamos a eles.

Tebas, imagino, precisou de algum tempo para dar consecução ao que lhe encarregara os frades franciscanos. Infelizmente não temos o contrato nem o “risco” do Cruzeiro, sugerido pelo próprio Tebas talvez (se é que não foi utilizada alguma gravura extraída de algum livro da biblioteca do convento), nem sabemos como foi combinado a escolha da pedra, seu transporte, as instalações para a sua confecção. Os registros que localizamos no referido Livro de Receita e Despesa do Convento permitiu-nos concluir que 38$400 réis pagos a Tebas correspondiam ao valor da obra confeccionada – o que nos pareceu pouco tendo em vista os 8$800 pagos pelos “jornais” (diárias de quase um mês de trabalho) ao seu escravo João para assentar o Cruzeiro.

Somado ao tempo que Tebas precisou destinar para talhar as peças que compõem o Cruzeiro, quando tempo terá permanecido em Itu? E aonde ele, que já era Mestre reconhecido e em breve seria elevado à condição de Juiz do Ofício de Pedreiro em São Paulo, terá se hospedado?

Fiz essa pergunta assim que descobria esses registros. Mas a documentação que compulsava nada nos informa a respeito. Deixei então de lado o que não podia responder. Mas, não era propriamente uma questão nova que enfrentava. Quando procurei aprofundar um pouco mais as pesquisas sobre Jesuíno no tempo em que esteve em S. Paulo, pintando para as igrejas da comunidade carmelitana7, não encontrei nos maços de

população registro algum de onde esteve hospedado. Imaginei que a

7 A Comunidade carmelitana tinha na cidade de São Paulo as igrejas: das Irmãs Carmelitas, da Ordem Primeira do Carmo e a capela da Ordem Terceira do Carmo.

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própria comunidade carmelitana o tenha acolhido, hospedando-o numa

das inúmeras casas de morada de seu patrimônio.

Pois é. As coisas parecem que não eram bem assim naquele tempo. Tempo em que a separação entre as pessoas obedecia a critérios não somente referidos à condição livre ou escrava que viviam, mas dos costumes discriminatórios advindos da cor da pele próprios da sociedade escravocrata que se estendiam a outras esferas da vida social, a religiosa inclusive, por sua vez já afetada milenarmente pelas contingências históricas da evolução do Cristianismo que segregou povos e raças de origem religiosa diversa como a judia, a moura e os protestantes, calvinistas, luteranos e outras doutrinas que romperam com o Catolicismo. E nela mesma, ou seja, no interior da Igreja, as distinções conduziram a separações e rivalidades intermináveis que ao se reproduzirem criavam atritos que se desdobravam numa sucessão sem fim.

Na América portuguesa, a “condição colonial”, levou não sem resistências os povos indígenas e africanos também à subjugação cultural, religiosa inclusive, conferindo-lhe novos ingredientes discriminatórios. A religião é a mesma, cristã e Católica, mas a participação dos diferentes povos e raças convertidos compulsoriamente, segregada, apartados do convívio dos brancos; lhes são destinados espaços marginais aonde o culto e demais ofícios possam realizar.

A mesma estrutura estamental que define, organiza e permeia toda a sociedade europeia transplantada para o Brasil funde-se à escravidão dos índios e negros. E é a mesma que, por extensão e reforço à dominação bruta, nega a vida religiosa própria dos povos escravizados reorganizando-a reorganizando-aos moldes creorganizando-atólicos, conferindo-lhes preorganizando-articipreorganizando-ação nessreorganizando-a mesmreorganizando-a estrutura que ao mesmo tempo em que os diferenciam e os segregam concedem-lhes espaços de atuação controlada, através das corporações e irmandades religiosas.

À medida, porém, que a diferenciação entre os povos indígena e africanos avança e ganha complexidade maior através da miscigenação, dão origem a novas discriminações, segregados em novos agrupamentos sociais e religiosos distintos. Não só o índio, mas também o mameluco; aquele, quando não acolhido pelas Ordens Religiosas, lhe é reservado apenas o adro das igrejas, de onde assistem a missa e onde serão enterrados quando a morte chega. Assim também o preto e o pardo ou mulato. Tudo isso

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equivalia a dizer, em termos corporativos, a novas corporações ou

irmandades. Assim divididos e separados, colonizador e colonizado, senhor e escravo, branco, índio, mameluco, negro e pardo ocupam cada qual posições e espaços distintos na sociedade brasileira de então que, todavia, tem lá a sua dinâmica interna, pois que se estabelecem relações sociais mediante regras ditadas pelo privilegiamento hierárquico, embora baseadas numa estrutura só aparentemente estática, estamental-escravista, que definia e conformava a vida social e religiosa de então8.

O estudo de Fritz Teixeira de Salles, que acabei de citar (nota 7), continua a ser ainda o único a nos orientar quando tentamos entender essa rede de relações que se desenvolveu tanto no interior das corporações religiosas, também denominadas confrarias, desempenhando funções próprias à sua finalidade religiosa como de natureza assistencial que, por sua vez, se estendiam a outras já de natureza comercial e de prestação de serviços, como a de hospedagem a Irmãos vindos de fora, e até as que envolviam negócios propriamente ditos que Salles identifica como embrionárias das atividades bancárias. Todas essas “atividades” envolviam indivíduos de categorias sociais distintas, desde as mais elevadas até as mais humildes.

Pois bem, a ida de Tebas a Itu revela um pouco disso também.

Vimos, em artigo anterior, por um recibo passado a Tebas que a instalação do Cruzeiro requereu os serviços do escravo João por cerca de um mês. Não faço ideia do tempo que foi necessário para Tebas entalhar as peças que o compõem. Mas suponho que para tal precisou se utilizar de espaço que haveria de ser próximo ao convento franciscano, sendo possível admitir, até para economia de gastos, que os Frades hajam disponibilizado dependências do conjunto conventual ou algum imóvel que possuíam na vizinhança para transformá-lo em Oficina para a confecção que o novo monumento exigia.

Em princípio é possível admitir que ao escravo João fosse destinado algum canto dessa improvisada oficina, até mesmo para afastar os curiosos

8 Para estudo mais aprofundado e completo, indico a leitura do livro de Fritz Teixeira de Salles

ASSOCIAÇÕES RELIGIOSAS NO CICLO DO OURO. Introdução ao Estudo do Comportamento Social das Irmandades de Minas no Século XVIII, S P Perspectiva. 2007.

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e garantir a segurança das peças em fabricação e das ferramentas e

materiais utilizados. Ou se tais expedientes não fossem necessários, recolhê-lo às dependências destinadas à escravaria do próprio convento.

Mas e Tebas? O famoso Mestre de Cantaria de pedra.

De modo que lhe cabia respeito e consideração, ou seja: ser devidamente recebido e tratado com as deferências devidas para com gente de sua categoria profissional e de sua posição nos estratos sociais.

O próprio Tebas devia empenhar-se em se fazer reconhecer como tal. E, para tanto, cabia-lhe impor-se, valer-se do prestígio que desfrutava (aliás já presente desde antes de alcançar a liberdade cerca de vinte anos antes), e afirmar sua condição e importância.

Daí, com a altivez de quem sabe de si, usa de todas as armas de que dispõe.

E vale-se também do apoio que sua confraria religiosa lhe oferece, das relações que mantinha com outras corporações religiosas que agregavam gente da mesma origem étnica e social: as irmandades dos

homens pardos.

A congênere da Irmandade de São Gonçalo à qual pertencia na cidade de S. Paulo seria em Itu a Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte, à qual, como é sabido, Jesuíno Francisco de Paula Gusmão, futuro Padre Jesuíno do Monte Carmelo, pertencia e colaborava compondo músicas para as missas e Festas anuais da Senhora, assistências que o levariam poucos anos depois a tornar-se Juiz de Festas da irmandade.

Pois então é esse o documento que apresento agora e que consiste em dois lançamentos de pagamento de aluguel de uma casa pertencente a essa irmandade dos pardos de Itu, situada à rua das Baratas, como se vê a seguir.

Título: Termo dos Recibos dos dinros. da Irmde./ Pª a festa de 95: Té a festa de 96

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[Lê-se também na linha do meio:] Por dinhrº do mesmo Sr. Joaqm. Pinto [deolivrª ?] - 1$080

Embora um pouco prejudicada nas laterais (o fotógrafo é ruim, reconheço, me perdoem), a foto dessa folha do livro de lançamento de receita e despesas da Irmandade da Senhora da Boa Morte dos Pardos de Itu correspondente ao período de 1795 e 1796 de onde salientamos dois trechos onde se encontram os registros devidos ao recebimento dos alugueis pagos por Tebas nos valores indicados são todavia visíveis o suficiente para a leitura e transcrição feitas, restando somente a dúvida quanto às últimas palavras do segundo registro se deve-se ler de janrº, ou

de olvª que me pareceu improvável. De qualquer forma, parece-nos mais

um erro de grafia. Todavia, se for mesmo janrº o pagamento corresponderia já ao primeiro mês de 1796 – o que nos leva a supor um tempo relativamente largo, e que talvez se estendeu além do tempo necessário para entalhar e fixar o Cruzeiro franciscano.

Temos assim um dado à mais sobre o período em que Tebas permaneceu em Itu. Mas é só! Satisfaz-nos? Não. Esse é o problema maior de nossa historiografia. Pinçamos documentos, um aqui outro acolá, que suscitam nossa imaginação, abrindo tão somente possibilidades para especular o que mais, além da fatura e instalação do Cruzeiro, Tebas teve oportunidade de fazer naquele curto período que permaneceu em Itu.

Diante do que possa ter ocorrido, a narrativa (histórica?) parece-me recurso válido se decido privilegiar a ótica probabilística, tendo por base a situação e o contexto em que o artífice mulato então se encontrava. É o que tenho a oferecer no momento:

Curto período de tempo, todavia suficiente para que Tebas conhecesse muita coisa da próspera vila e de sua gente, percorresse as praças e ruas e ir a Matriz onde pode admirar sua pujante decoração interior. E o que mais lhe chamou a atenção foi o retábulo mor, obra prima do português Bartholomeu Teixeira Guimarães. Soube que foi dourado e pintado por José Patrício da Silva Manso de quem já conhecia algumas obras de S. Paulo, na igreja de São Bento

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e outra muito bonita no forro da sacrista da capela da Ordem Terceira do Carmo além do painel do forro da capela mor 9. Tebas, contemplando ainda o grandioso retábulo mor da matriz, admirando seus diversos elementos, deixou-se dominar pelo espetáculo oferecido por suas formas e pelo doirado e as cores aplicadas nas curvas helicoidais de suas colunas que elevam nossa vista ao ponto mais elevado onde se funde com outra belíssima obra, o painel Mistério da Purificação que lhe informaram ser igualmente de José Patrício.

Tudo ali era belo e apresentava novidades, mesclando elementos tradicionais a originais. Mas era a disposição dos elementos com sua policromia intensa o que mais lhe chamou a atenção, produto de uma nova concepção arquitetural, o que o levou a ponderar: “Trata-se sem dúvida de um rico casamento de dois verdadeiros artistas!”

Em seguida foi a Carmo. Queria contatar algum Irmão da Boa Morte para agradecer a acolhida e a oferta da casa onde se hospedou. Um dos Irmãos, Escrivão da Irmandade, Antônio Vieira da Luz foi logo comunicando que o Irmão Jesuíno Francisco de Paula estava a caminho, queria conhece-lo pessoalmente. Enquanto esperava foi autorizado pelo Prior do convento a entrar na igreja da Senhora do Carmo e pode então conhecer as alegres pinturas de Jesuíno a quem teve a oportunidade de conhecer em seguida.

O que havia de comum entre Jesuíno e Tebas era serem mulatos. Em outras coisas também se assemelhavam, mas havia diferenças. Um era alto, elegante; o outro de altura mediana, humilde. O primeiro vestia-se todo de preto-luto; o segundo inteiramente de linho-branco, só as sandálias, de couro cru, destoavam um pouco. As mãos de Jesuíno eram delicadas, dedos finos; as de Tebas eram grossas, os dedos ásperos e calosos. As de Jesuíno escreviam, misturavam tintas e pintavam e ainda tocavam órgão e compunham músicas sacras que regiam músicos e cantores nas igrejas de Itu; as de Tebas agora só talhavam pedras que se tornavam portadas, arcos, cimalhas, pináculos, rocailles, cunhais que decoravam as fachadas das igrejas, e ainda chafarizes e cruzeiros pros franciscanos, e torres dizem, as muitas torres das igrejas de S. Paulo.

9 Esse painel José Patrício pintou em 1784; seria depois desfeito ou recoberto em 1796-98 por uma nova pintura, então executada por Jesuíno.

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Tebas comprara sua liberdade cerca de vinte anos antes. Jesuíno nascera livre; pai desconhecido. Tebas casado por duas vezes. Jesuíno, viúvo, tinha 3 filhos e uma filha ainda pequenos para criar. Tebas vivia em S. Paulo com Natazia, sua mulher, e a filha. Naquele ano de 1795 já tinha Tebas a cabeça bem esbranquiçada e uma coroa bem aberta no cocuruto; Jesuíno, que a bem dizer mal iniciara a fase adulta, com seus vinte e poucos anos, já apresentava, aqui e ali, sua vasta cabeleira pixaim pincelada de fios brancos.

Tebas logo se apercebeu que estava diante de um homem que ainda não superara a dor da separação definitiva. E sua aparência, avaliou, expressava completa oposição à pintura que realizara na Carmo. Tebas entendeu que seu olhar, suas atitudes, suas palavras exprimiam não somente dor, mas indicavam um caminho talvez perigoso, de alheamento da vida. Só a Religião e as Artes pareciam despertar seu interesse. Impressionou-o, porém e vivamente, sua atitude permanentemente afável e sua nobreza de espírito. Jesuíno, por sua vez, admirou aquele homem que se conservava ainda belo e forte, que manifestava uma alegria de viver que chegava a incomoda-lo, por intensa e contagiante, mas a circunspeção que o dominava o impedia de se deixar contaminar por aquele senhor que parecia superior a todas as dores que sofrera no mundo. E Jesuíno o invejou, ao mesmo tempo que se deixou tomar por uma doce ternura pelo famoso artífice.

Descobriram depois que eram conterrâneos, ambos nascidos em Santos, o que os fez recordar tempos de infância e juventude, contrastantes todavia pois, mesmo iguais na cor, foram distintos no viver: um coagido ao trabalho que cedo o obrigou a aprender ofício que todavia o irá redimir em boa hora; outro, embora carregasse também o estigma da cor, pode orientar-se apenas pelo interesse desde cedo despertado pelas nobres Artes da Música e da Pintura que atingiam sua plenitude no espaço privilegiado das igrejas.

Nelas, nas igrejas, artistas de todas as Artes e Ofícios se encontravam para produzir. Delas provinha o interesse de ambos. Tebas sabia das intenções de carmelitas e franciscanos, dos planos para edificações novas, de complementação ou reformulação de ornamentação interior, e informa a Jesuíno: os Terceiros carmelitanos pretendem pintar todo o teto de sua nova capela, a mesma que ele, Tebas, construiu o frontispício, erguendo-o a partir de três arcos de pedra, irmanando-o depois aos edifícios dos Religiosos por meio de cimalhas e de elementos decorativos comuns,

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exceto o frontão, de gosto e fatura mais moderna, semelhante à da Matriz daqui de Itu. Jesuíno pareceu se interessar. Deixara de pintar depois de completar a decoração da Carmo onde agora se encontravam. Se os carmelitanos de S. Paulo pretendem mesmo, pensou, é a oportunidade de retornar ao trabalho. Tebas se comprometeu a mandar notícia; haveria de encontrar um Irmão de São Gonçalo ou da Boa Morte a quem poderia confiar uma tal incumbência.

Jesuíno pediu que desse um abraço grande no Zé Patrício, padrinho de seu filho Elias. Tebas por sua vez insistiu, fosse sim a S. Paulo, e lá chegando mandasse avisa-lo para que a Irmandade de São Gonçalo o hospedasse. “Faço questão, Jesuíno, quero retribuir minha acolhida pelos Irmãos da Senhora da Boa Morte com o que temos de ‘milhor’”, disse Tebas assim com essa entonação, que é um jeito nosso gostoso de falar e que outro mulato depois dirá ser próprio do povo brasileiro, e cujo talento literário lhe facultava inventar e contar como ninguém episódios dessa natureza; era o seu modo de entender o que a História não encontrava maneira de explicar.

Quando saíram da Carmo, seguiram rumo ao convento franciscano, do outro lado da vila. Jesuíno queria ver ainda mais uma vez o Cruzeiro, mas agora ao lado de Tebas, antes que fosse embora.

No ano de 1796, escreveu Mário de Andrade, Jesuíno dará início às pinturas da Terceira do Carmo paulistana10, obra que se estenderá por mais

dois ou três anos. Repito: nos maços de população da Capital não encontrei registro de onde esteve hospedado. Pode-se imaginar muitas possibilidades, pois era muito querido pela comunidade carmelitana, pelos sacerdotes e altas autoridades do Bispado paulista, e podia contar em S. Paulo com os próprios Irmãos da Senhora da Boa Morte ou mesmo aceitado a oferta de Tebas. Por isso vale verificar se há apontamento sobre aluguel de casas em algum livro de Receita e Despesa da Irmandade de São Gonçalo daquele período por ventura ainda existente.

10 ANDRADE, Mário de - PADRE JESUÍNO DO MONTE CARMELO Publicação N. 14 do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Min. da Educação e Saúde. R.J. 1945.

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Nesse intervalo de tempo (1796 – 1798) Tebas se encarrega da fatura

de peças que compõem o frontispício da igreja dos Terceiros franciscanos11.

Jesuíno pinta para todos os carmelitanos. Estavam a pouca distância um do outro.

Tebas e Jesuíno tiveram, pois, novas oportunidades para travar conversações. Jesuíno aproveitou também para se tornar sacerdote. Daí em diante foi o Padre Jesuíno do Monte Carmelo. Saiu de S. Paulo e foi a Itu dizer a sua primeira missa na Matriz. Talvez já passasse por sua cabeça construir uma igreja onde pudesse reunir sacerdotes mulatos, como o padre Antônio Feijó, e dotá-la de um bonito frontispício, adornado com pedras ricamente entalhadas pelo Mestre Canteiro Tebas.

S. Paulo, abril de 2019. Carlos Gutierrez Cerqueira

OBSERVAÇÃO: O livro de Receita e Despesa da Irmandade da Boa Morte de Itu, que encontrei e fotografei em 2014 nas dependências da Matriz de Itu, na verdade não me parece ser propriamente um livro; mas apenas uma recomposição de suas partes. Antes, ao ser encadernado teve as folhas refiladas, perdendo infelizmente a numeração. É nesta folha (foto seguinte) que localizei os dois registros que apresentei no artigo.

11 ORTMANN, Frei Adalberto ‐ História da Antiga Capela da Ordem Terceira da Penitência de São

Francisco em São Paulo, Publicação No 16. Diretoria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. MES.

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