MINISTÉRIO DA CIDADANIA SECRETARIA DA CULTURA
INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL SUPERINTENDÊNCIA DE SÃO PAULO
PARECER TÉCNICO nº 183/2019/COTEC IPHAN-SP/IPHAN-SP SOBRE PEDIDO DE TOMBAMENTO DA
BIBLIOTECA MÁRIO DE ANDRADE E DE SUA COLEÇÃO DE OBRAS RARAS E ESPECIAIS
Tenho o prazer e a honra de apreciar o Pedido de Tombamento encaminhado em 16 de junho de 2015 pelo Secretário de Cultura do Município de São Paulo, Nabil Bonduki, e pelo Diretor da Biblioteca Mário de Andrade, Professor Luiz Armando Bagolin, processo que requeri ao Senhor Coordenador, arquiteto Ronaldo Cunha Ruiz, tendo em vista o longo período em que se encontrava nesta superintendência à espera de manifestação técnica. É o que ora dou procedimento.
Está o processo constituído por onze volumes, constando listagem da Coleção de Obras Raras e Especiais, reproduções de quatro pranchas de levantamento arquitetônico do edifício, dossiê com exemplos de programação, reprodução da “Gazeta BMA”. O pedido ainda se faz acompanhar por “petição popular” (com 3.179 assinaturas).
Em apoio ao tombamento, a direção da Biblioteca anexou “cartas
de recomendações assinadas por intelectuais e gestores de instituições culturais nacionais e internacionais”, as quais passo a considerar, visto
que as considero da maior relevância para se avaliar o valor e a importância da Biblioteca Mário de Andrade por emitirem os juízos de seus signatários e por expressar experiências vivenciadas em diferentes momentos de sua formação profissional e intelectual, assinalando, com uma ou outra exceção, pontos de vista confluentesque concorrem ao fim almejado.
Inicio pelos pareceres acerca do edifício, emitidos pelos ilustres arquitetos Carlos Alberto de Cerqueira Lemos, Paulo Mendes da Rocha, Joana Mello de Carvalho e Silva e Nestor Goulart Reis Filho.
O primeiroa se manifestar pronuncia-se nos seguintes termos: “O
prédio da Biblioteca Municipal Mário de Andrade teve o seu início de obras em 1938, projetado pelo arquiteto Jacques Pilon por iniciativa de seu diretor o bibliófilo Rubens Borba de Morais, personagem participante do movimento modernista de São Paulo, que tinha à sua frente o escritor Mário de Andrade.” Faz, porém, uma curiosa
observação a respeito do “agrupamento de intelectuais paulistanos [...] era dissociado do grupo análogo carioca, sobretudo quanto à
arquitetura” (grifo meu). E, continuando a sua digressão, acrescenta:
“No Rio o arquiteto Lúcio Costa, naqueles dias, acabara de convidar Le
Corbusier para orientar profissionais brasileiros no projeto da sede do Ministério da Educação” enquanto que “Aqui [em São Paulo], no entanto, os modernistas não iam além do estilo ‘Art Déco’...” como se a
vanguarda do modernismo brasileiro vivenciasse uma limitação ou atraso, enfim uma contradição que estaria sendo superada com a
iniciativa dos arquitetos do Rio que confiavam ao já famoso arquiteto estrangeiro a elaboração do projeto do Min. da Educação e Saúde. Portanto, não sendo carioca e estando distante da influência do renomado arquiteto franco-suíço, mago do modernismo inaugural em terras brasileiras, de acordo com o mencionado arquiteto, os daqui, os arquitetos paulistanos, estariam ainda presos a estilos que os do Rio já se propunham superar; isso a despeito das casas modernistas de Warchavchik (1927, 1928) e a despeito também de quando da chegada de Le Corbusier a São Paulo, cerca de dez anos antes,ter sido festejada por Mário de Andrade, demonstrando em matéria escrita para o Diário Nacional (“Le Corbusier” de 19 de novembro de 1929) amiudado conhecimento das atividades do arquiteto:... um espírito bem
moderno, cujos trabalhos, demonstram mentalidade das mais exatas, que hoje em dia tratam da arte. Por sinal, que este termo não fica bem aplicado à atividade de Le Corbusier. Arte ele faz quando pinta, porque é pintor, porém na arquitetura transforma-se em cientista. Suas concepções são rigorosamente baseadas em princípios práticos, vindo daí a íntegra impressão de atualidade que desprendeu”, e chamava a
atenção para as palestras que iria realizar no Instituto de Engenharia:
“Podem por isso se rejubilar os arquitetos e demais pessoas que se interessam pela arte moderna e modernismo na arquitetura.”1 (grifo
meu). Assinale-se, por oportuno, que naquele ano, antes de seguir para proferir novas palestras no Rio de Janeiro, Le Corbusier foi, em companhia dos ‘modernistas paulistanos’, visitar as casas de Warchavchik.
1 Le Corbusier, ao desembarcar em Santos, pensava, por informação que lhe fora transmitida, que todos
por aqui falavam francês, razão porque Mário lamenta que “Sua chegada foi acidentadíssima”. Conforme ZAKIA, Silvia Palazzi – Primeira visita de Le Corbusier ao Brasil em 1929 Uma chegada acidentadíssima!– VITRUVIUS Arquiteturismo. 102.01 viagem histórica ano 09, set. 2015.
O professor Lemos, no entanto, prefere deixar de lado esses importantes fatos que pontuaram a história da arquitetura moderna paulista e brasileira no seu início. E, embora diga em seu parecer acerca do estilo aplicado na Biblioteca Mário de Andrade que não está “a insinuar que essa escolha estilística possa obstaculizar o almejado
tombamento” afirma, porém, que o projeto de Jacques Pilon não tinha
valor algum: “era inexpressivo, a nosso ver” (grifo meu), corrigido depois pelo engenheiro Prestes Maia.
Posiciona-se, portanto, em princípio, contrário ao tombamento e, desse modo, deixa transparecer a sua conhecida aversão aos “modernistas paulistanos”.
Mas apresenta uma ressalva: o ”contexto urbano de alto interesse
paisagístico e ambiental” no qual está inserida a biblioteca – o que o
faz voltar atrás e emitir opinião oposta aos argumentos que desenvolvia e aceita o tombamento; mas tão somente devido à sua “integração” com a praça “que lhe dá certa legitimidade na ação
preservacionista” (grifo meu), a despeito das desvalorizações antes
indicadas. É, portanto, com essa argumentação oscilante que consente ao órgão federal de preservação que outorgue o tombamento.
Este último ponto de vista, o paisagístico, é também o que vemos prevalecer na manifestação do arquiteto Paulo Mendes da Rocha que “ressalta a sua peculiar implantação no recinto da cidade”; constitui a praça a razão porque propõe que o tombamento do edifício da biblioteca deverá ser diferençado, tendo em vista a necessidade que
antevê de “ampliação e obras de atualização dos recursos técnicos e de expressão arquitetônica deste acervo agora e no futuro”. Justifica Paulo
Mendes da Rocha sua proposição com o seguinte argumento: “Assim a
idéia de Tombamento avança quanto simples conservação de memória“ para se tornar “instrumento ativo claro da construção de um desejado futuro” (grifos meus). Interessante proposição, mas vale
alertar que um tal tombamento necessariamente implicaria em revisão conceitual do instrumento do tombamento, para que se pudesse conferir uma nova e inusitada dimensão, pressupondo e planejando intervenções futuras, pois que essa ainda não encontra lugar no Decreto-lei nº 25, de 30 de novembro de 1937 – o que talvez nem esteja ao alcance imediato do Conselho Consultivo do IPHAN.
Vale, contudo, observar que o IPHAN, ao examinar o presente pedido, está a considerar um edifício num momento em que já recebeu acréscimos, autorizados pelo CONDEPHAAT e pelo CONPRESP, órgãos que já tombaram a Biblioteca Mário de Andrade, e que acarretaram alterações, embora pouco significativas no estado original do prédio, aceitáveis diante de necessária e justificada intervenção que se revelou benéfica ao seu funcionamento e que não fere a sua estética e se demonstrou compatível com o seu entorno imediato, a Praça Dom José Gaspar, e da aprazível paisagem urbana ao derredor.
De forma muito diversa dos anteriores manifesta-se a Professora
Joana Mello de Carvalho e Silva, estudiosa da arquitetura do período e
profunda conhecedora da obra arquitetônica de Jacques Pilon, e que oferece em seu parecer um panorama das transformações porque passava a cidade no período rumo à “modernização”, destacando que a biblioteca municipal foi um dos primeiros prédios a “romper com a
Quanto ao estilo, diz a estudiosa, é o prédio sim “contemporâneo ao
edifício do Ministério da Educação do Rio de Janeiro, marco afirmativo da chamada ‘arquitetura moderna brasileira’, porém a Biblioteca Mário
de Andrade “testemunha a existência de outros referenciais
arquitetônicos da modernidade” (grifo meu). E explica que a
“linguagem adotada é próxima do vocabulário art-déco” que era empregada nesse período especialmente “em programas considerados
avançados como arranha-céus, rádios, cinemas, estações de tratamento de água, estações elevatórias de energia, pontes, viadutos, túneis, indústrias...” Embora mantenha fidelidade aos parâmetros
acadêmicos, “o edifício introduz notas modernizantes... no desenho
geométrico, ... no rompimento com os princípios de simetria... seja ainda na racionalidade da estrutura em concreto armado.”
Salienta que “Fora o pórtico de entrada de matriz classicizante, cujo
desenho destoa do conjunto (interferência do engenheiro Prestes Maia, prefeito), a composição se destaca pelo dinamismo, pela elegância e o ajuste perfeito entre programa, formas arquitetônicas e definições técnico estruturais”, dinamismo que é acentuado pela contraposição
dos “volumes retilíneos e curvilíneos de dimensões variadas [que]
contrastam com o bloco vertical”.
E conclui: “Dessa forma, seja como testemunho dos processos de
verticalização, metropolização e modernização, comuns a outras capitais brasileiras no período, seja pela importância de seu programa, seja pela qualidade de sua arquitetura, seja pelos significados atribuídos à sua linguagem, seja ainda pelo reconhecimento e o afeto que alcançou entre seus usuários, a Biblioteca Mário de Andrade merece ser inscrita entre os bens tombados pelo IPHAN.”
Ampliando ainda mais essa perspectiva valorativa, o parecer do
arquiteto Nestor Goulart Reis Filho é o que, a nosso ver, o que alcança
com mais felicidade toda a significação da Biblioteca Mário de Andrade, quer em seu valor intrínseco, quer em sua importância
cultural.
Inicia o seu parecer com essas palavras: “Por diversos motivos, a
Biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo, é um marco histórico da vida cultural da cidade, do estado e do país. Sua fundação foi um dos objetivos centrais das atividades de Mário, quando criou o Departamento de Cultura do município de São Paulo, entre 1934 e 1937”, destacando que o IPHAN já reconheceu o valor de suas
atividades ao dar proteção aos “registros referentes à expedição de
pesquisa folclórica e etnográfica organizada por Mário de Andrade e coordenada por Luís Saia, em 1937-38”.
Destaca a “importância do edifício”, projeto elaborado pelo arquiteto francês Jacques Pilon com a colaboração de Rubens Borba, seu primeiro Diretor: “foi um dos marcos de modernização da parte
nova da área central de São Paulo”, ganhando “destaque pelos aspectos renovadores de sua arquitetura, contrastando com o que até então se fazia entre edificações de maior porte, quase todas de caráter acadêmico” – modernização que se completava no centro novo da
cidade com o Viaduto do Chá idealizado inicialmente pelo francês Jules Martin e reconstruído em 1934 no estilo Art Déco, projetado pelo arquiteto Elisiário Bahiana que projetou também edifício Art-déco do Mappin (construído defronte ao eclético Teatro Municipal, obra de Ramos de Azevedo, 1911) e bem ainda o edifício Esther (de Álvaro Vital
Brasil) “complementando o quadro de renovação daqueles dias, no
centro de São Paulo.”
Como a sua jovem colega da FAU/USP, o Professor Nestor chama a atenção para aspecto importante do nascimento do modernismo paulista: “os caminhos da Arquitetura Moderna em São Paulo eram
diferentes dos que estavam sendo estabelecidos do Rio de Janeiro, com o projeto do Ministério da Educação.” As referências em São Paulo
eram “as obras de Gregori Warchvchik, Júlio de Abreu, Rino Levi e
Flávio de Carvalho, mais próximas à arquitetura do norte europeu.”
(grifo meu). Enfim, obedeciam a outras coordenadas da estilística moderna em evolução, a qual se manifestava não somente na Arquitetura como nos demais setores artísticos na época, inclusive na Literatura, que, no Brasil, se iniciara sob a liderança dos modernistas paulistas, tendo à frente o escritor e poeta Mário de Andrade.
É também o Professor Nestor o primeiro dentre os arquitetos a chamar a atenção a respeito de documentos antigos valiosíssimos constantes na mapoteca da Biblioteca Mário de Andrade, como o “das
fortificações de Santa Catarina no século XVIII e uma vista da cidade de Goiás (antiga Vila Boa de Goiás) de 1803. Esses são apenas exemplos sobre o interesse de seu acervo” sobre o qual endossa seu
tombamento.
Acompanham-no todos os demais pareceristas que se associam à pretensão da Direção da Biblioteca.
Destacando a importância de seu “admirável acervo”, escreve o
Professor Antonio Gomes da Costa em nome do Real Gabinete Português de Leitura; em nome da Association Internationale de
Bibliophilie, ressalta Jean-Marc Chetelain “a qualidade bibliográfica das coleções”, a série “Brasiliana” e especialmente acerca do
“modernismo literário e artístico”; pelo que é acompanhado por Annie
Charon da École Nationale dês Chartes que acresce o papel que a
Biblioteca vem desempenhando desde a sua criação como palco de importantes debates políticos e artísticos nacionais.
O sociólogo e educador Miguel Gonzalez Arroyo manifesta seu apoio ao tombamento, sendo pelo senador Eduardo Suplicy e pelo
jornalista Elio Gaspari que acresce depoimento em favor do
“profissionalismo de seu quadro técnico”. O historiador inglês Peter
Burke, da univ. de Cambridge, ressalta a importância da Biblioteca e de
suas coleções de livros para a “história da cidade” e “o patrimônio
cultural do país”.
O colecionador, historiador, editor, curador e administrador Pedro
Corrêa do Lago destaca também a importância do seu acervo de livros,
destacando que a biblioteca foi o “primeiro projeto do Departamento
de Cultura de São Paulo liderado por Mário de Andrade, a importância da Coleção de Arte Pública da Cidade sob a direção de Sérgio Milliet”,
na qual salienta “as obras modernistas reunidas na biblioteca antes
mesmo da existência do MASP, MAM e da 1ª Bienal de Arte de São Paulo” e, por fim, chama a atenção para a implantação da plataforma
de pesquisa presencial e digital disponibilizando arquivos online, o que fez triplicar o número de consulentes.
Dentre as figuras expoentes da Universidade de São Paulo, cabe-nos ressaltar também os depoimentos da professora Marilena de Souza
marcos cultural de maior significação na cidade de São Paulo é a Biblioteca Municipal Mário de Andrade, fundada e dirigida pelo escritos paulista quando da criação da Secretaria de Cultura do Município de São Paulo. A Biblioteca contou com direções expressivas, entre elas as de Rubens Borba de Moraes e Sérgio Milliet, que lhe asseguraram um acervo amplo, diversificado tanto nas áreas de Humanidades e Artes como nas de Ciências Exatas, além de um acervo de obras raras, obras de arte e periódicos, no espírito das grandes bibliotecas públicas, como as de Paris e Nova York. Parte essencial da vida cultural da cidade, a Biblioteca Mário de Andrade tem sido palco de movimentos artísticos, filosóficos, científicos e políticos, oferecendo-se como espaço para debates, cursos e inovações culturais.”
E conclui: “Considerando sua importância na história cultural de São
Paulo, a magnitude de seu acervo e sua capacidade para atuar como biblioteca pública aberta a todos os cidadãos, cremos que a Biblioteca Mário de Andrade é digna de receber o apoio do IPHAN e, por meio do tombamento, ser por ele integrada ao conjunto do patrimônio cultural brasileiro. É o que aqui, respeitosamente solicitamos.”
José de Souza Martins, por sua vez, nos contempla com
manifestação das mais sinceras e convincentes, expressando seu mais profundo reconhecimento pelo que lhe proporcionou ao longo de sua formação intelectual e acadêmica. Para ele “O tombamento federal da
Biblioteca Municipal Mário de Andrade impõe-se como bandeira da inteligência em favor de mais ampla garantia de apoio e preservação de uma instituição cultural que, desde o início, tem tido em São Paulo envergadura e função de biblioteca nacional.”
Destaca em seguida sua função “Pública e democrática”, acolhendo “leitores sem distinção de classes ou de situação social”. E enfatiza: “Intelectuais de renome também a freqüentam desde que foi criada.
Pesquisadores brasileiros e estrangeiros têm recorrido a seus preciosos acervos, especialmente o de obras raras e o de jornais raros, para realizar suas pesquisas. Muitos livros publicados no Brasil, nos Estados Unidos e na Europa, nasceram e ganharam corpo em nossa Biblioteca.”
E revela com entusiasmo: “A pesquisa para escrever meu livro ‘O
cativeiro da Terra” [em 1979] ... um estudo sobre a transição do trabalho escravo para o trabalho livre, foi em grande parte realizada no recinto e nas obras da nossa maior e mais importante Biblioteca Municipal.” E nos contempla com um saboroso depoimento: “Comecei a frequenta-la quase menino, em 1955. Lá cresci e me tornei intelectualmente adulto. Devo-lhe muito do que sou, como tantíssimos outros. ‘Leitura’, de Fracarolli, no hall de entrada, é para muitos de nós símbolo do acolhimento do livro aberto. Plasma os versos de Castro Alves: ‘Oh! Bendito o que semeia livros...’ Ali, a poesia dessa semeadura era e é uma coisa viva” para, em seguida, mencionar suas
coleções de fotografias e documentos raros, como os do Brigadeiro José Custódio de Sá e Faria.
Conclui seu depoimento enaltecendo uma importante função que a caracterizou desde sempre: “Seu auditório tem sido lugar de
conferências e debates. [...] Foi lá, numa noite de 1964, logo depois do golpe de Estado, que ocorreu a primeira manifestação pública da cidade contra a ditadura recém implantada. Lembro-me bem do auditório cheíssimo. Lá no meio, o Professor Ulhoa Cintra, que fora reitor da USP, ao lado do escritor Paulo Duarte, que fora um dos
fundadores da USP e que seria logo mais cassado pelo regime militar. Ouvíamos as primeiras análises para compreender o que havia ocorrido, a quebra dos rumos de nossa história política, o início difuso dos longos anos de chumbo que cobririam de sombras o país inteiro. Os anos do regime que afastaria da universidade professores e pesquisadores que passaram decisivos anos de sua formação naquelas salas, aprendendo para ensinar, sonhando com um país livre, democrático e culto.” Para José de Souza Martins “A Biblioteca Municipal Mário de Andrade é em si mesma um legado, é um marco não só do que temos sido, mas também e sobretudo do que queremos ser. É esse nós que pede seu justo e necessário tombamento.”
Desse modo, com a exceção apontada no início, os demais pareceristas manifestam-se favoráveis ao acolhimento do pedido de tombamento por esse órgão federal de preservação.
Acresço a essas manifestações um testemunho antigo, mas muito próximo do tempo em que a essa biblioteca foi idealizada por Mário de Andrade e seus amigos: um artigo do escritor e político Paulo Duarte, intitulado Departamento de Cultura: Vida e Morte de Mário de
Andrade, publicado na Revista do Arquivo Municipal, volume CVI, em
1946, onde descreve as reuniões que o grupo de intelectuais, paulistas e paulistanos, realizou em setembro de 1934, na casa do próprio Mário, depois de receber o convite do Prefeito Fábio Prado para trabalhar em sua gestão. Os fatos narrados estão na origem de muita coisa boa que esse grupo de intelectuais modernistas projetava realizar para São Paulo e o Brasil, dentre as quais figurava a biblioteca
municipal: “Fui à casa de Mário de Andrade. Fechamo-nos naquele
quarto em que trabalhava. ... Mário me ouviu. E disse: Mas isso é felicidade demais! Era mesmo. Mandou-me uma porção de dados, dois dias depois. Mostrei o primeiro projeto a Fábio Prado. Nunca vi homem de negócios nem homem rico mais acessível às coisas inteligentes. ... Mandei mimeografar aquele ante-projeto, onde se esboçava um sistema de parques infantis, e restauração e publicação de documentos históricos, teatros, bibliotecas. ... O Rubens [Borba de Morais], pelo gosto de ir para a biblioteca, abandonara na Recebedoria de Rendas, um lugar onde ganhava mais. O Sérgio [Milliet] também ganhava mais na Faculdade de Direito. ... Uma grande biblioteca infantil entrava em gestação, e ia ser entregue aos cuidados de Alice Meireles Reis. ... a biblioteca municipal fazendo coisa que não fazia há anos: comprando livros. ... Comprou-se a biblioteca Félix Pacheco. E a de Alberto Lamego. E os manuscritos de Rui [Barbosa]. Para a compra da de Alberto Lamego, o Mário, ele mesmo, foi a Campos, no Estado do Rio. O Departamento estava só nascendo ... um grande prédio para a biblioteca ...“ e os “preparativos para o grande Instituto Brasileiro de Cultura, que seria a etapa final e natural do Departamento de Cultura; o diabo, enfim.” e que, de certa forma, alimentaria outro dois anos
depois,o ante-projeto do Serviço do Patrimônio Artístico Nacional (SPAN), elaborado também por Mário de Andrade atendendo a pedido do Ministro Gustavo Capanema, que subsidiou projeto de lei que todavia, com o Golpe de Estado de Getúlio Vargas transformou-se no Decreto-lei nº 25, de 20 de novembro de 1937.
Os dois órgãos vingaram, e no início Mário de Andrade trabalhou para ambos, dando-lhes organização, elaborando e desenvolvendo
projetos, contratando gente da sua confiança, atribuindo cargos e encargos, confiando-lhes tarefas inúmeras e até missão longe de São Paulo, revisitando o Nordeste, lá produzindo registros de sua riqueza etnográfica, do “patrimônio imaterial” como denominamos hoje, de sua pobre gente que já inundava a Paulicéia oferecendo a sua força de trabalho para torná-la o grande centro industrial e fazê-la moderna, tal qual a vemos na foto de 1938 construindo o prédio da Biblioteca que receberá depois (1960) o seu nome – a primeira homenagem oficial que lhe prestou o Poder Público em reconhecimento por tudo que fez pela Cultura brasileira.
Essa relação interinstitucional que nos irmana desde a origem – o Departamento de Cultura de São Paulo e o IPHAN –, instituições que se responsabilizam, desde sua criação, pela preservação / renovação / atualização do patrimônio cultural paulista e brasileiro, têm, a meu ver, na Biblioteca Mário de Andrade um marco simbólico que traduz o pensamento e a criatividade de seu idealizador, identificado ao ideário
modernista que liderou e que na feliz interpretação do Professor
Walter Figueiredo Lowande correspondia a “descobrir a cultura e
civilizar a Nação”.2
Nem tudo transcorreu, todavia, como desejava. Como disse seu amigo e poeta Manuel Bandeira num poema que lhe dedicou após a sua morte, intitulado “VARIAÇÕES SOBRE O NOME DE MÁRIO DE
ANDRADE” 3:
“[...]
2 LOWANDE, Walter Francisco Figueiredo. Uma história transnacional da modernidade: Produção de
sujeitos e objetos da modernidade por meio dos conceitos de civilização e cultura e do patrimônio etnográfico eartístico. Doutorado. Campinas: UNICAMP. 2017 p. 43 e segs.
Mário, um cigarro ! CAPORAL LAVADO !
Numa pia de igreja em Bizâncio estava gravada esta frase: NI(OS) ONANOMHMATAMHMONO (OS)IN
Lida da direita para a esquerda recompõe o mesmo sentido: LAVA OS PECADOS NÃO LAVES SÓ A CARA
Mário, eles não lavam nem os pecados nem a cara ! Os homens são horríveis.
Por isso – HÁ QUE OS AMAR.[...]” Poema que assim termina:
“Brasil ...
Como será o Brasil ? ... E como será São Paulo ? ... – MÁRIO DE ANDRADE.”
Incertezas que rondam nossas mentes e nos preocupam de tempos em tempos; mas que nos fazem refletir sobre a necessidade de continuarmos acreditando que é preciso resgatar e produzir a Cultura, defender o nosso rico e diversificado Patrimônio Artístico, construir a Nação e lutar contra tudo que possa representar risco ou retrocesso a Civilização brasileira.
Quando o tombamento foi proposto ao IPHAN, em 16 de junho de 2015, o então diretor da Biblioteca Mário de Andrade, Professor Luiz Armando Bagolin, como vimos, procurava se articular com quem confiava por serem gratos ao que ela representou na sua formação intelectual e profissional, solicitando-lhes apoio. O momento agora é
outro. Muita coisa mudou de lá para cá! Estamos diante de um panorama ameaçador, que haveremos de enfrentar sem se dobrar.
Desse modo, face ao extenso universo de significações aqui representado, consubstanciado nos pareceres e nas manifestações de seus ilustres signatários que apoiam o tombamento do Prédio da
Biblioteca Mário de Andrade e de sua Coleção de Obras Raras e Especiais, e mediante também dos testemunhos aqui recuperados
daqueles que participaram do processo de sua criação, não cabe outra decisão ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional senão aplicar os artigos 1º, 2º e 4º, alíneas 2 e 3 do Decreto-lei nº 25, de 30 de novembro de 1937 ao prédio e à dita coleção, o qual entendemos e propomos seja extensivo a Praça Dom José Gaspar, em todo o seu atual perímetro, a qual constitui o seu entorno original, formado à época com a finalidade precípua de alocá-la edestacar a magnitude de sua arquitetura e da importante função que passava a desempenharna cidade, e sobre a qual parafraseio os termos da resolução do órgão coirmão que a reconhece enquanto elemento “marcante na paisagem
paulistana e marco do processo de modernização de sua arquitetura, representativa da tendência de modernização das linguagens plásticas e da racionalidade das construções”.4
O tombamento da Coleção de Obras Raras e Especiais far-se-á de acordo com as listagens anexas fornecidas pela direção da biblioteca, constantes neste processo.
4Resolução SC-82, de 20-08-2013 – CONDEPHAAT. Vale observar que o órgão estadual de preservação,
nesta resolução, ao determinar o tombamento da Biblioteca Mário e da Praça Com José Gaspar, reconheceu a intervenção na sala de leitura, a criação de circulação externa ao nível térreo realizado em 2007-2008 que poderão “ser mantidas ou modificadas a critério de futuras restaurações ou reutilizações do local”, bem como isentou-osda delimitação de “área envoltória”.
Em adendo, sugiro que poderá a Direção da Biblioteca Mário de Andrade, a qualquer tempo, solicitar ao órgão federal de preservação a inclusão de elementos agora não contemplados, sejam os de natureza bibliográfica, cartográfica e documental, sejam os de natureza artística alocados nos recintos da biblioteca, encaminhando a Presidência do IPHAN na forma de complementação do presente processo, que poderá ordenar novos expedientes para ajuizar sobre sua inclusão no tombamento que ora se procede.
É o parecer.
S. Paulo, 14 de maio de 2019 Carlos Gutierrez Cerqueira IPHAN/SP matr. 224062