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Relações sociais de produção na fábrica ocupada Flaskô relatos sobre condições sui generis

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UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS

FACULDADE DE CIÊNCIAS APLICADAS

CÍCERO COSTA HERNANDEZ

Relações sociais de produção na fábrica ocupada

Flaskô relatos sobre condições sui generis

LIMEIRA – SP

2017

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UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS

FACULDADE DE CIÊNCIAS APLICADAS

CÍCERO COSTA HERNANDEZ

Relações sociais de produção na fábrica ocupada

Flaskô relatos sobre condições sui generis

Dissertação apresentada à Faculdade de Ciências Aplicadas da Universidade Estadual de Campinas como parte dos requisitos exigidos para a obtenção do título de Mestre em Ciências Humanas e Sociais Aplicadas.

Orientador: Prof. Dr. Carlos Raul Etulain Co-orientadora: Profa. Dra. Laís Silveira Fraga

ESTE EXEMPLAR CORRESPONDE À VERSÃO FINAL DA DISSERTAÇÃO DEFENDIDA PELO ALUNO CÍCERO COSTA HERNANDEZ, ORIENTADA PELO PROF. DR. CARLOS RAUL ETULAIN.

LIMEIRA–SP 2017

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Autor: Cícero Costa Hernandez

Título: As Particularidades da fábrica ocupada Flaskô sob controle

operário.

Natureza: Dissertação de Mestrado

Instituição: Faculdade de Ciências Aplicada (FCA)/Unicamp

Data da defesa: Limeira, 24/03/2017

BANCA EXAMINADORA

Prof. Dr. Carlos Raul Etulain (Orientador)

Prof. Dr. Henrique Tahan Novaes (prof. Externo)

Profª. Dra Sandra Francisca Bezerra Gemma (profª

interna)

Ata da defesa com as respectivas assinaturas dos membros encontra-se no processo de vida acadêmica do aluno.

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Agradecimentos

Agradeço ao orientador Carlos Raul Etulain e minha Coorientadora Lais Silveira Fraga, aos trabalhadores(as) da Flaskô, os professores(as), estudantes e colegas da UNICAMP, UNESP, USP, UFRJ, UFF, UFRN e UFVJM envolvidos direta ou indiretamente na presente tese, meus amigos(as), colegas e minha família especialmente minhas mães. Dedico também aos militantes e ativistas que buscam mudanças sociais espalhados pela cidade de Limeira e pelo mundo. Um especial agradecimento em memória de Lilian Padilha.

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RESUMO

A Flaskô é uma fábrica produtora de bombonas plásticas atuante no mercado a mais de 20 anos, onde a mais de 13 anos é gerida pelos trabalhadores organizados. Na presente tese, a fábrica será objeto de estudo tendo como referencial teórico as relações sociais de produção e elementos relacionados à sua configuração, como a produção e a atividade política. A Flaskô é um território complexo e a presente pesquisa visa explorar o campo a partir de uma investigação exploratória dentro da fábrica, buscando identificar elementos que revelem as condições particulares do seu modo de produção. O mundo do trabalho, sendo plural, possui diversas dimensões passando pela subjetividade até ao território, e assim, o presente estudo visa compreender a racionalidade capitalista sobre o trabalho na fábrica ocupada Flaskô fazendo uma pesquisa de campo baseada em entrevistas e imersões que possam trazer luz sobre as questões particulares do controle operário, tendo em vista novas relações sociais de produção.

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ABSTRACT

Flaskô is a plastic bottle-making factory active in the market for more than 20 years, where more than 13 years is managed by organized workers. In this thesis, the factory will be object of study having as theoretical reference the social relations of production and elements related to its configuration, such as production and political activity within the factory. Flaskô is a complex territory and the present research aims to explore the field from an exploratory investigation inside the factory, seeking to identify elements that reveal the particular conditions of its mode of production. The work world, being plural, has several dimensions passing through the subjectivity to the territory, and thus, the present study aims to understand the capitalist rationality about the work in the factory Flaskô occupied doing a field research based on interviews and immersions that can bring light On the particular questions of workers' control, in view of new social relations of production.

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LISTA DE ILUSTRAÇÕES E TABELAS

FIGURA 1: Fábrica ocupada em Sumaré (SP) ... 3

FIGURA 2: CPFL cortando energia da Flaskô em 28/07/2016 ... 5

FIGURA 3: Base da competitividade na fabricação de embalagens plásticas.. 43

FIGURA 4: Teatro dentro da fábrica 1 ... 58

FIGURA 5: Teatro dentro da fábrica 2... 58

FIGURA 6: Máquina recuperada pelos trabalhadores da Flaskô ... 91

FIGURA 7: Mapa Radar ... 95

QUADRO 1: Indicador de desempenho ... 10

QUADRO 2: Objetivos da reestruturação empresarial... 30

QUADRO 3: Metabolismo social do novo (e precário) Mundo do Trabalho, a nova precariedade salarial, década de 2000... 70 TABELA 1: Redução de pessoal na CHB entre jan/1992 e dez/1993 ... 31

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LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS

ABIPLAST - Associação Brasileira da Indústrias do Plástico AE - Aparelho de Estado

AST - Adequação sócio técnica

BNDES - Banco Nacional do Desenvolvimnto Economico e Social CCQ - Círculos de controle de qualidade

CEPAL - Comissão Econômica para América Latina

CHB S.A. - Corporação Holding Brasil Sociedade Anônima CLP - Controle Logístico de Produção

CLT - Consolidação das leis de trabalho

COFINS - Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social CPFL - Companhia Paulista Força e Luz

ERTs - Empresas recuperadas por Trabalhadores FGTS - Fundo de Garantia do Tempo de Serviço FHC - Fernando Henrique Cardoso

FRs - Fábricas recuperadas por trabalhadores

GPERT - Grupo de Pesquisa em Empresas Recuperadas por Trabalhadores GSP - Grande São Paulo

ICMS - Imposto sobre circulação de mercadorias e serviços INSS - Instituto Nacional do Seguro Social

IPEA - Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada IPI - Imposto sobre produtos industrializados

ITCP - Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares JK - Juscelino Kubitschek

LER/DORT - Lesão por esforço repetitivo/Distúrbio osteoarticular relacionado ao trabalho

MFO - Movimento de Fábricas Ocupadas MRP - Material requirement planning P&D - Pesquisa e Desenvolvimento

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Pead - Polímero de alta densidade

PEC 241/55 - Projeto de emenda constitucional PES - Planejamento estratégico situacional PIS - Programa Integração Social

PMEs - pequenas e médias empresas PRP - Processo de produção

RMC - Região metropolitana de Campinas RMSP - Região metropolitana de São Paulo

SUMOC - Superintendência da Moeda e do Crédito TGA - Teoria geral da administração

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO

Uma descrição sobre a Fábrica Flaskô... 1

Objetivo ... 3

DISCUSSÃO METODOLÓGICA E PROBLEMATIZAÇÃO

Discussão sobre a configuração do método ... 4

Manifestações políticas, Eventos culturais e Projetos de apoio produtivo como metodologia... 6 O Planejamento Estratégico Situacional... 7

Interdisciplinar? Os métodos hackeados... 8

Problematização... 10

1

.

PERCURSOS DO CENÁRIO ECONÔMICO BRASILEIRO,

DESCRIÇÃO DE VETORES QUE INFLUENCIARAM NA

OCUPAÇÃO DA FÁBRICA FLASKÔ

1.1. Das rodovias do café até a crise dos anos noventa... 16

1.2. Desconcentração econômica brasileira... 24

1.3. Breve histórico da Flaskô: sucateamento da fábrica, processo de ocupação e outras questões... 29 1.4. A cadeia de transformação de plástico ... 35

1.4.1. Conhecendo o setor de transformação de plástico... 35

1.4.2. Estratégias de competitividade do setor... 41

1.5. Um breve relato sobre urbanização na RMC... 45

2

.

AS CONDIÇÕES QUE DELIMITAM O TERRITÓRIO E O

TRABALHO, PARA ALÉM DA ECONOMIA

2.1. Território e subjetividade... 49

2.2. A importância dos movimentos sociais na identificação de vulnerabilidade social como participação política e coletiva... 54 2.3 Inovação e empreendimentos autogestionários... 59

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2.4 Algumas reflexões sobre tecnologia e inovação... 62

2.5 Relações sociais de produção, subjetividade e subsunção... 64

3. RESULTADOS ALCANÇADOS

3.1Condições particulares ... 80

3.2 Trabalhadores que moram na fábrica e atividades paralelas para arrecadação de fundos... 84 3.3 Mobilização política é parte da atividade produtiva... 86

3.4 Trabalhadores que vieram da academia: Josiane, Pedro e Alexandre... 88

3.5 As máquinas são apropriadas ... 91

3.6 A Flaskô resiste produzindo ... 96

3.7 Dificuldades e potencialidades do controle operário... 99

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

... 104

5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

... 110 .

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INTRODUÇÃO

Uma descrição sobre a Fábrica Flaskô

A Flaskô é uma fábrica ocupada por 55 trabalhadores há mais de 13 anos, situada no bairro Parque das Nações, na cidade de Sumaré, interior do estado de São Paulo. A sua ocupação pelos trabalhadores derivou da má administração dos antigos administradores e uma série de problemáticas estruturais, o que levou os trabalhadores a ocuparem a fábrica para manter os postos de trabalho. E o que a Flaskô produz? Ela é uma fábrica produtora de bombonas, galões e tambores plásticos e possui um portfólio de sete produtos que são os galões de 25, 30,50, 75 litros, bombonas de 100 e 200 litros e por fim os tambores de 200 litros. Esses produtos são utilizados na indústria de maneira geral para a armazenagem de produtos alimentícios e não alimentícios. No caso da Flaskô, existe uma série de condições que faz com que a fábrica não produza produtos com matéria prima virgem, o que reduz o portfólio e escopo da fábrica, porque não pode vender para ramos alimentícios de maneira geral. A produção mensal gira em torno de dez mil produtos, de forma que o material utilizado pela fábrica é 95% reciclável, ou seja são materiais comprados por um processo mais barato do que a matéria prima não reciclada.

A utilização deste tipo de material, tendo em vista ser o mais acessível para a fábrica, limita a Flaskô a operar apenas no ramo não alimentício, tendo em vista que os materiais recicláveis carregam os substratos do processo de reciclagem e pode contaminar e intoxicar os produtos perecíveis que são armazenados nessas embalagens, limitando a participação de mercado da fábrica. Os 5% de material não reciclável é utilizado especificamente para a transformação do Pead em tampas. Neste sentido, a maior parte dos produtos vendidos é de origem de materiais recicláveis, comprando 5% de resina virgem da Brasken e o restante do insumo de indústrias recicladoras. A carteira de clientes da Flaskô é composta por mais de 80 empresas do ramo de transformação de plástico de maneira geral, empresas do ramo químico, de limpeza automotiva e setor têxtil.

Este setor de transformação de plástico é extremamente competitivo e, como veremos, a Flaskô sofre de dificuldades com o mercado, tendo em vista as condições particulares de sua existência. Outra dificuldade que verificamos a partir da qual

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associamos à condição sui generis da fábrica foi o seu abandono pelos antigos donos que se apresenta como um fator crítico, mas também que favorece a ocupação.

Os antigos donos detinham uma holding, um grupo de empresas que operavam no setor de transformação, dentre elas a Flaskô, que rumaram para o mesmo caminho no sentido da ocupação das fábricas sucateadas. Devido às mudanças estruturais da economia, à má administração e também à alta competitividade do setor, a fábrica quebrou e foi ocupada pelos trabalhadores durante o ano de 2003. O tempo passou, a antiga administração responsável por sucatear a fábrica foi substituída pela administração dos trabalhadores, a crise dos anos noventa foi “superada” (sabemos que hoje vivemos outras condições tanto mais críticas) e o mercado de transformação de plástico continuou competitivo. Nesse sentido, a Flaskô mantém suas operações com inúmeras dificuldades, desde as dívidas deixadas pelos antigos donos, até o problema da flutuação de mercado, que impacta diretamente na produção e nas operações da fábrica.

A Flaskô está inserida na terceira geração do setor de transformação de plástico, um setor com altas barreiras à entrada no mercado, como veremos adiante nos outros capítulos. Existem cerca de onze mil empresas nesse setor, e a maior parte dessas empresas são pequenas e médias, e ainda, há uma grande proporção de fábricas familiares. Ela opera atualmente com cerca de cinquenta e cinco trabalhadores, divididos em três turnos e sete departamentos. Como a fábrica atualmente funciona com três turnos de trabalho, as máquinas ficam em constante produção. A maior parte dos trabalhadores são homens que estão concentrados em sua maioria nos setores operacionais da empresa. As mulheres se concentram nos setores administrativos. Todavia, há mulheres nos setores operacionais e homens no administrativo, .

Assim sendo, a Flaskô, como carrega todo o histórico de ocupação, mantém-se em operação sem a presença da hierarquia típica de uma empresa tradicional. Os trabalhadores da fábrica possuem um engajamento e não se limitam apenas a fazer a boa execução de seu trabalho, mas procuram defender os postos de trabalho que garantem sua subsistência.

A Flaskô, é vista como algo fora do comumum exemplo a não ser seguido ou um símbolo da revolução, mas é como “única fábrica sob controle operário no Brasil” (RIBEIRO, 2013, p.1) a forma pela qual ficou conhecida pela grande mídia. Assim

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sendo, a Flaskô conta com uma descentralização da decisão, na medida em que estipula assembleias e conselhos para realizar as deliberações.

Temos uma assembleia que reúne todos os trabalhadores uma vez por mês. Nela são definidas as diretrizes gerais sobre o funcionamento da fábrica e, como a execução disso requer um trabalho cotidiano, é eleito o conselho de fábrica, com representantes de cada setor e turno que se reúnem toda semana (trabalhador entrevistado por RIBEIRO, 2013).

FIGURA 1 - Fábrica ocupada em Sumaré (SP)

(Foto: Janaína Ribeiro)

Objetivo

O objetivo deste estudo é identifica algumas particularidades da fábrica Flaskô que evidenciam seu caráter social e que reforça a necessidade de pensar novas formas de reprodução das condições materiais de vida para uma emancipação política, social e humana. Uma das bandeiras da fábrica é de que a fábrica pertence à sociedade e desta maneira sua função é social e não particular/privada como as demais empresas capitalistas. Assim, a partir de um método, onde adentraremos posteriormente em suas características, que busca uma aproximação da fábrica, o objetivo é evidenciar as particularidades que não necessariamente estão ligadas à relação econômica de produção, para trazer luz aos leitores, sobre novas relações sociais de produção no contexto capitalista, tendo como objeto de estudo o embrião das lutas por ocupação e recuperação de fábricas, a Flaskô.

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Assim sendo, o estudo, que se divide em três capítulos, busca no primeiro capítulo vincular a crise estrutural do capitalismo e a má administração que gera o sucateamento da fábrica, como elementos que levam os trabalhadores a um salto de consciência na luta de classe, resultando na tomada dos meios de produção; no segundo capítulo uma abordagem que visa agregar um ponto de vista que revela a diversidade que existe na fábrica que se estende para além de uma pura propriedade de reprodução do capital e produção de mercadorias, buscando embasar como poderíamos identificar as particularidades dentro do controle operário. O terceiro capítulo é a junção dos elementos identificados pela pesquisa, organizando aquilo que chamamos de particularidades das relações sociais de produção dentro da Flaskô. Para tal, é lançado mão um método que se estende por um período de 4 anos e que se construiu a partir da orientação visando as particularidades da Flaskô.

DISCUSSÃO METODOLÓGICA E MÉTODOS Discussão sobre a configuração do método

Para compreender esse campo complexo da Flaskô a participação nas atividades da fábrica foi constante durante um período de 4 anos. Durante este período foram realizadas visitas, participações em eventos e manifestações, reuniões e projetos junto à fábrica. Durante o período do mestrado foi possível organizar teorias e práticas com as ideias de maneira à evidenciar as particularidades da fábrica. Este desejo surge na medida em que a construção da forma de investigação do objeto é feita, se torna sui

generis. Aí a necessidade de um método que seja interdisciplinar em sua construção,

que não apenas junte teorias de diferentes disciplinas, mas também práticas que se estendam para além da ciência. Neste sentido, a militância e o ativismo político, somado à indignação político-social fazem parte dos percursos metodológicos que a pesquisa toma. Se tratando de um caso particular relacionado diretamente com a política, o estudo se coloca em uma posição de visão crítica da forma como nossa sociedade se reproduz e bem como as dificuldades humanas em compreender a totalidade das estruturas,

A pesquisa realizada tem como modus operandis o método exploratório como forma de chegar ao objetivo de identificar condições particulares da fábrica. Isso se faz necessário dado a relação que a fábrica possui com a sociedade, que se vincula com a legitimação e socialização do espaço de produção. Isso torna as pesquisas acadêmicas

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possíveis na medida em que existe convergência entre a teoria acadêmica e a prática trabalhista presente na Flaskô. A partir dos resultados que são encontrados espera-se que o método de investigação exploratória crie a possibilidade para que outros estudos possam escolher técnicas mais precisas, bem como teorias de estudos, que contribuam para a construção de arcabouço teórico e prático sobre casos que possuem particularidade frente às formas de reprodução das condições materiais frente ao capital. Para tal, dentro do método foram organizadas perguntas que pudessem ser aplicadas aos trabalhadores durante o período de trabalho e que buscassem trazer elementos que pudessem ser considerados como sui generis. Todavia foi verificado que a partir da vivência decorrida na fábrica durante os 4 anos, já havia conteúdo suficiente para construir uma perspectiva acerca das particularidades. Neste sentido entrevistas, diálogos e conversas com os trabalhadores, posicionamentos e discussão sobre os rumos da fábrica em conferências, vivência no chão de fábrica e fora do setor produtivo, participação em manifestações e também a construção de outros projetos, fizeram parte do método exploratório, que configura uma pesquisa observante sobre o objeto de estudo. . Foram feitas mais de 15 visitas na fábrica e em cada uma foi possível apreender elementos sobre as atividades e as particularidades da fábrica. Durante todas as visitas, sempre houve a preocupação de evidenciar e compreender o papel dos trabalhadores e suas opiniões sobre o controle operário. Nem tudo que foi vivenciado e que foi observado pôde entrar na pesquisa, seja pela dificuldade em organizar o conteúdo ou por não fazer parte da discussão, ou ainda por questões éticas.

A princípio, o método consistiu em fazer uma entrevista com oito trabalhadores da Flaskô de distintos setores da fábrica, mas com o conteúdo que já havia sido coletado foi lançado mão um método que revisasse as visitas realizadas e que pudessem ser relatadas pelo autor de maneira fidedigna aos eventos vivenciados. Neste sentido, durante o decorrer da elaboração da dissertação, surgiu um trabalho paralelo à Flaskô do Grupo de Pesquisa em Empresas Recuperadas por Trabalhadores (GPERT) em parceria com a Incubadora Tecnológica de Cooperativas Popular (ITCP) de Limeira, grupo esse de pesquisadores de fábricas recuperadas e cooperativas que visam estimular e contribuir para a reprodução de novas relações sociais de produção.

O território torna-se complexo, à medida que apresenta resiliências, vulnerabilidades e riscos que devem ser encarados pelos que nele habitam e transitam, ou seja, quanto mais distintas as perspectivas que o formam, mais complexas as pessoas

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que estão ali se tornam, e por isso que uma disciplina ou um método isolado jamais compreenderia por inteiro a realidade e as dinâmicas do campo de estudo, bem como apenas uma ou duas visitas e encontros, não dariam conta de agregar toda a pluralidade de elementos que configuram a Flaskô.

Manifestações políticas, Eventos culturais e Projetos de apoio produtivo como metodologia

A partir do momento em que o trabalho se coloca no quadrante acadêmico da crítica política, humana e social, um método que esteja em meio a tais esferas se torna necessário para compreender as particularidades. Assim, um método que coloca o pesquisador próximo do objeto de estudo e que se dispõe a contribuir para que o objeto possa se desenvolver, e não apenas disseque-o com os bisturis científicos, se tornou essencial. Estar presente nos espaços de discussão e ação foi uma forma de construção metodológica, de maneira que essa construção em si já se torna sui generis, porque a partir desta abertura que a universidade e academia possuem com a fábrica, os laços se estreitam e um vínculo é criado. Diferente de um churrasco de empresa ou uma atividade de responsabilidade social, a presença do pesquisador em espaços de confraternização foi vista não como algo alienígena à fábrica, mas como parte dela. Em todos os momentos que o autor vivenciou na fábrica sempre houve um tratamento de parceria e fortalecimento da luta que também caracteriza uma particularidade da fábrica.

Poderíamos comparar uma pesquisa ou uma assessoria que um acadêmico realiza para uma empresa, com aquela que é feita na Flaskô, e observar que as atividades do pesquisador se estendem para além da teoria, da técnica e científica.

Período de imersão

A pesquisa foi realizada durante um período de 4 anos, de maneira que neste período inúmeras visitas foram feitas. Durante esses 4 anos, que compreende o período entre 2013 – 2016, no último ano foram feitas imersões que contribuíram diretamente para este projeto, ainda que não estavam programadas no início. É dito isso tendo em vista que existem outros grupos de pesquisadores pesquisando o caso do controle operário. No ano de 2016 foram feitas 2 imersões das quais foi possível compreender a perspectiva dos trabalhadores sobre a realidade que vivem bem como o trabalho que

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realizam. O grupo composto por integrantes do GPERT e da ITCP juntaram esforços para compreender como se dão as dinâmicas da fábrica. É importante separar que o objetivo da presente pesquisa buscou compreender as particularidades da fábrica, enquanto aquela realizada pelo GPERT/ITCP buscou compreender as dificuldades em relação à produção e operações da fábrica, mas que o método da imersão foi importante para a construção e coleta de elementos que configuram as particularidades da fábrica.

O Planejamento Estratégico Situacional (PES)

O Planejamento Estratégico Situacional está diretamente vinculado à compreensão das problemáticas de uma organização tendo como objetivo criar táticas de ação dentro da organização para aprimorar seu funcionamento e desenvolvimento. “Planejar significa explicar as possibilidades, analisando as vantagens e desvantagens de cada uma delas e propor objetivos” (MIGLIATO e FILHO, 2003 p. 9), mas aqui sabemos que a realidade da Flaskô exige mais do que o acompanhamento de um planejamento, mas um protagonismo político que a acompanhe permanentemente. Desta maneira, o trabalho tentou elaborar um mapa radar das intensões que existem por detrás da demanda, a fim de identificar elementos que podem contribuir para maior resiliência da fábrica, de maneira que consigam manter a sua postura ideológica, na medida em que a utilização do mapa radar permite a melhor comunicação entre o cliente, uma vez que este aponta pontos fortes e fracos dos fatores apreendidos pela pesquisa, contribuindo para o enfrentamento econômico. O questionário aplicado aos clientes diz respeito à fatores econômicos e foi elaborado junto aos trabalhadores. Retirado da teoria geral da administração, o questionário visa maior competitividade de mercado e aqui na medida em que é utilizado por uma fábrica ocupada por trabalhadores tem uma aplicação que resulta em defesa da resistência do território político produtivo da fábrica pela gestão do controle operário na sociedade capitalista.

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QUADRO 1: Indicador de desempenho

Atributo Fator (descrição)

Confiança Serviço técnico e pós-venda de apoio ao cliente Confiança Troca sistemática de informações

Confiança Interação com usuários Confiança Boa relação

Confiança Marca forte no mercado Custo Baixo preço do produto Custo Redução do custo de estoque Custo Comprar de poucos fornecedores Custo Comprar do maior n° de fornecedores Custo Relações de longo prazo com o cliente Logística Rapidez de entrega

Logística Logística de movimentação

Logística Controle sobre o sistema de distribuição (sistema MRP, CLP, PRP, processos etc) Logística Pontualidade na entrega

Logística Conformidade às especificidades de entrega do cliente

Qualidade Conformidade às especificações de qualidade do produto e da MP Qualidade Diferenciação e adequação ao uso dos produtos

Qualidade Padronização de processos

Qualidade Comprar de fornecedores certificados Qualidade Durabilidade dos produtos

Know-how Alta capacidade de produção Know-how Conteúdo tecnológico do produto Know-how Sofisticação técnica de equipamentos Know-how Flexibilidade da programação da produção

Know-how Cooperar no desenvolvimento de produtos e processos do cliente (Fonte: própria)

Assim, tal esforço é acreditar que um método em sua aplicação pode assumir inúmeras formas, conforme o direcionamento que lhe é dado, e que os resultados que são encontrados dependem do olhar do pesquisador, de seu arcabouço teórico, da ideologia, da intenção e da área do saber. De uma maneira que tanto mais, a aplicação do método depende da intenção daqueles que aplicam e o utilizam durante o dia a dia.

Interdisciplinar? Os métodos hackeados...

Hackear um método, no presente contexto, surgiu do desejo de ir além do

território produtivo, tentando compreender as relações humanas, sociais e políticas que estão em constante dinâmica dentre os muros da fábrica a partir do campo proporcionado pelo projeto do GPERT. Em si, há uma plena condição que recai sobre a

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realidade da Flaskô, que são relações sociais e humanas de produção. Essas ocorrem dentro de uma fábrica, e portanto quando buscamos compreender para além das relações estabelecidas pela produção, mas também relações entre o ser humano e natureza, foquemos às relações sociais e humanas de produção, e isto porque, “enquanto o estudo técnico da relação sociedade-natureza se concentra na análise das forças produtivas, a análise da relação sociedade-natureza-sociedade incorpora o entendimento das relações sociais de produção” (MONERAT, 2013 p. 2). De uma forma que ao observarmos o contexto de uma unidade produtiva tendemos a focar em determinadas disciplinas que carregam instrumentos adequados para determinadas lógicas. Assim quando estudamos um território produtivo e político podemos observar de diversas maneiras, desde um ponto da economia, até da ergonomia e da subjetividade, e aqui busca se evidenciar relações sociais de produção que contribua para um maior entendimento das relações entre o ser humano e a natureza.. Daí a necessidade de buscarmos uma combinação de disciplinas, teorias e métodos. Fica ressaltada a importância de compreender elementos que estão para além daquilo que se vê, problematizando a complexidade do objeto e do campo estudado, indo para além da representação oferecida pelo método disciplinar que apresenta uma perspectiva unilateral do objeto, já que não consegue aglutinar outros elementos (que só podem ser vistos a partir de outras disciplinas), e força, dentro dos limites da racionalidade, a aceitação das regras da representação, e não do real.

Existe uma Terceira linha política, que se mantém para além das alianças e compromissos colocados pelo mundo pós 1989. Onde ambas as políticas, progressivas e regressivas são políticas representativas, no qual cada pespectiva agrega partidos, alianças e interesses, esta Terceira linha política é uma política sem Estado, que busca escaper desta forma política convencional. Uma política do hack, que inventa relações para além da representação (MACKENZIE, 2004 tradução própria).

Wark Mackenzie aponta para uma terceira via política em que está justamente entrelaçada essa questão de ressignificar os sentidos materiais, nos quais a informação seria o grande catalisador deles, não ficando, então, na mera representação. Ainda que a informação seja uma propriedade — e disso podemos ver os sigilos, confidencialidades, os códigos, as linguagens etc. que há sobre o mundo da informação —, é daí que sua importância aparece, pelas formas de vigilância, controle e punição dos que a utilizam de maneira subversiva ou, leia-se, ressignificadora: “a informação como propriedade deve ser distribuída sem diminuir nada, senão sua escassez. Informação é aquilo que escapa da forma de comoditie” (MACKENZIE, 2004). Por esse ângulo, um método que

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se aproveita de outro método busca dar um novo sentido dentro da aplicação que já está sendo dada e expandir o conteúdo informacional acerca do campo e do objeto.

Problematização

A conjuntura brasileira e mundial tem se acirrado cada vez mais com o avanço do desenvolvimento do ser humano sobre a sociedade, de forma que, desde a educação até a economia, há impactos. Assim podemos ver a fábrica sobre a perspectiva de que ela surge sob um contexto de acirramento da luta de classes no Brasil dado as contradições do desenvolvimento brasileiro. Na medida em que apresenta particularidades, a Flaskô se organiza na contramão do sistema capitalista.

“Prefiro a liberdade da gestão operária, do que estar sob o chicote do patrão”, relata um trabalhador em entrevista para a repórter Janaína do Globo (2013 ).com. No curta metragem produzido pelo produtor audiovisual Emiliano Goyeneche no ano de 2013, o trabalhador AR aponta essa mesma visão que o trabalhador entrevistado pela repórter do G1 ressalta:

O bom mesmo é a realidade que você tem. Se tem que ter a responsabilidade, mas você tem liberdade, que você não tem aquela, aquela preocupação de já entrar preocupado, de que o patrão se não fazer as coisa certa, o patrão vai ficar te cobrando resultado e resultado. Aqui agente sabe que o resultado é para nós mesmos (AR, trabalhador entrevistado por GOYENECHE, 2013).

No mesmo documentário, o trabalhador faz um relato muito sincero sobre a realidade da fábrica: “Se sabe que ocupar a fábrica ou terra, que seja, é um negócio meio... um negócio, assim, é montar num cavalo doido” (trabalhador entrevistado por GOYENECHE, 2013).

Em outras falas sobre a história da fábrica, os trabalhadores apontam a forma como o movimento e a própria fábrica são marginalizados. Isso se faz relevante, na medida em que esse pressuposto se torna motivo para que terceiros cortem relações com a fábrica, como, por exemplo, a CPFL que, em julho do ano de 2016, interrompeu o fornecimento de energia a Flakô. Essa problemáticaafeta diretamente na organização do abastecimento, produção e distribuição, porque as máquinas são antigas e, se param de operar, elas podem dar perda total.

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Manter a resistência a marginalização se liga diretamente com a questão econômica administrativa. Além disso, outros ataques também são observados por meios jurídicos.

A União, na medida em que possui crédito com a Flaskô tendo em vista as dívidas deixadas pelos antigos donos, encargos esses sobre os direitos a férias remuneradas, FGTS, INSS entre outros que diz respeito aos direitos dos trabalhadores, executa leilões das máquinas da Flaskô a fim de quitar as dívidas, o que é algo impossível uma vez que a quantidade arrecadada dos leilões não seria suficiente para acabar com as dívidas que passa da casa das centenas de milhões. Além desses métodos indiretos, a fábrica já sofreu intervenções diretas, como a chegada da polícia militar em suas dependências e também a de um interventor do estado, orientado a negociar com a fábrica e que sempre resulta na resistência dos trabalhadores.

Quando a fábrica recebeu da justiça no ano de 2003 uma decisão que tentou barrar suas atividades, uma intervenção amparada pela decisão judiciária para pôr fim nas atividades foi elaborada pelo poder público de maneira à interromper as atividades na fábrica. A partir deste episódio os trabalhadores perceberam o descaso da instituição judiciária da Cidade de Sumaré, evidenciada na fala do juiz responsável pela condição da fábrica que poderia ir de encontro à estatização ou divergiria desta perspectiva. O advogado da fábrica, responsável por acompanhar os processos pela qual a fábrica se encontrava responde relata:

É um processo de 1998, uma dívida da gestão patronal, e nessa sentença ele vai fundamentar, e ele coloca, [o juiz] vai indo, primeiro, segundo... e aí no quinto ele fala “quinto e talvez o mais importante argumento: ao defender de maneira intransigente os postos de trabalho, estar-se-ia desrespeitando o estado democrático de direito, imagina se a moda pega”. E a gente brinca bastante com isso, nós queremos que a moda pegue! (Alexandre entrevistado por GOYENECHE, 2013).

Essa problemática que advém das dívidas dos antigos patrões é o ônus que os trabalhadores assumiram pela ocupação da fábrica. Desde o ano de 2003 até 2016, a fábrica tem sofrido com inúmeros boicotes, desde leilões das máquinas na justiça (sem o conhecimento dos trabalhadores), até os cortes de energia feitos pela CPFL. No dia 28 de julho, a fábrica soltou uma nota no facebook:

Urgente!!! CPFL rompe negociação com fábrica ocupada Flaskô e corta a luz, ferrando com a vida dos trabalhadores. Chamado imediato para ato público em frente à CPFL (final da norte sul, ida para campinas-mogi), hoje, quinta-feira, dia 28/07, às 14h. Pedimos ampla solidariedade e divulgação!!!

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Todos à CPFL em defesa dos postos de trabalho e de todas a conquistas da Flaskô. Decisão aprovada agora em Assembleia. São 13 anos de luta em jogo!!! Não pagaremos pela crise!!! Não aceitaremos a intransigência da empresa que detém o monopólio de energia e possui ações na bolsa de NY!!! Viva a luta da Flaskô!!! (MANDL, 2016 p. 1).

FIGURA 2 – CPFL cortando energia da Flaskô em 28/07/2016.

(Foto: Facebook Flaskô)

A Figura 2 ilustra que o que houve foi uma tentativa de liquidar com as atividades da Flaskô, já que, como já foi mencionado, as máquinas sofrem da obsolescência e, quando ficam paradas por muito tempo, consequentemente sofrem danos e problemas mecânicos. O que se tem é uma série de boicotes e tentativas de barrar as atividades controladas pelos trabalhadores. Enfim, existem inúmeras situações e problemáticas que decorrem da ocupação.

“A gente não tem ajuda financeira igual outras empresas têm, a gente tem que pagar dívida anterior, que é o que eu acho que é o que mais pesa, porque, se fosse só dívida nossa, eu acho que a gente conseguiria” (trabalhadora entrevistada por

GOYENECHE 2013), relata no curta metragem. A trabalhadora também ressalta a questão das dívidas como um

“problemas da época patronal, que deixou varias dívidas, não só com o governo, mas com diversos fornecedores. Como eles [os fornecedores]

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consultam e veem que a gente tem muitas dívidas, eles acabam não concedendo para gente essa parte, de financiamento. Hoje a gente acaba pagando tudo a vista, o que é muito difícil para a gente” (GOYENECHE 2013).

Essas são falas que mostram algumas das realidades que perpassam a Flaskô. Seja simbólica ou concretamente, a Flaskô é uma fábrica que contribui para o desenvolvimento local.

Assim, é essencial à fábrica ter o controle de suas operações, já que busca se efetivar concretamente, tendo em vista o mercado ser extremamente competitivo, como veremos adiante nos próximos capítulos. Desta forma a fábrica de bombonas e galões tem que estar a todo vapor, em pleno funcionamento, para a sustentação de outras atividades de cunho social que a fábrica fomenta, como a fábrica de cultura os eventos, e as atividades do Centro de Memória Operária e Popular (CEMOP)

Uma problemática gerada pela má administração do antigo dono e pela reestruturação do capitalismo engendrou uma má reputação atual da fábrica, o que não lhe permite acessar investimentos, financiamentos e empréstimos e gera dentre outras, a necessidade da fábrica pagar a vista, obrigando a manter a produção constante para que consiga sempre ter dinheiro em caixa. Como nem sempre tudo aquilo que é produzido é vendido, a fábrica gera a necessidade de armazenamento e gerenciamento dos materiais. Ressalta-se esta questão, tendo em vista que o esforço da Flaskô é dobrado. Ela tem de defender suas práticas, já que é uma práxis, envolve a ação política, e ainda deve se manter no mercado tão forte quanto aqueles que não têm nenhuma dessas preocupações políticas. Dessa forma, a Flaskô mantém sua postura política, além de manter sua produtividade e suas operações, como já avaliadas pelo BNDES em análises sobre a produção da fábrica. Ela enfrenta inúmeras dificuldades em relação ao mercado, e, mesmo assim, seus trabalhadores continuam enfrentando, denunciando e combatendo as relações assimétricas de poder, desde o imperialismo à exploração da propriedade privada.Como se vem verificando, faz-se necessário o estudo das contradições do controle operário presente na fábrica ocupada Flaskô, de maneira que se possa observar e analisar como elementos dessa conjuntura, que possui um impacto em escala micro, atingem e se relacionam diretamente com tudo o que envolve a fábrica.

Entender a fábrica Flaskô é compreender como um grupo, estruturado em moldes familiares, sofreu com a chegada do neoliberalismo no país durante a década de noventa. O antigo grupo se chamava Grupo Hansen e foi dividido em holdings,

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(empresas que atuam em diversos ramos, mas que pertencem a um único grupo) responsáveis cada uma por um conjunto de fábricas, firmas e empresas. Foi, então, que houve a divisão do Grupo Hansen S.A. em Grupo Tigre e CHB S.A.

A holding CHB S.A., uma sociedade anônima que ficou para a filha/herdeira Eliseth Bautschauer e seu marido Luís Bautschauer, foi, então, o novo grupo criado do qual a Flaskô fazia parte. Durante a década de noventa, começou um processo de sucateamento da Flaskô, porque, dentro do processo de reestruturação empresarial, houve redução do corpo de funcionários, desativação das plantas, corte de gastos, desmobilização de ativos, e também o pagamento de acionistas em detrimento dos trabalhadores das empresas.

Takayuki (2013, p. 59) aponta que o processo de divisão das atividades operacionais da CHB S.A., formando empresas juridicamente independentes, responsáveis por seus lucros operacionais, gerenciamento do quadro de pessoal e do parque de máquinas etc., foi a forma de reestruturação encontrada pela holding, mas que não foi o suficiente para que as empresas que a compunham conseguissem se manter competitivas no mercado, devido à entrada de competidores mais fortes, equipados tecnologicamente e com muito mais porte, gerando a consequente quebra do grupo.

Nessa década de 1990, a economia brasileira era de grande abertura para o mercado internacional, acompanhada de um complexo programa de privatizações, quando vista de uma perspectiva geral, que acirrava a concorrência e a competitividade para as pequenas empresas. Essa abertura gerou um movimento de crescimento econômico no estado de São Paulo, principalmente na capital, aumento esse que não teve um mesmo acompanhamento em desenvolvimento social e humano, e que, na medida em que houve uma saturação de empresas na região, gerou deseconomias de escala caracterizadas pela presença de desemprego, monopólio tecnológico e barreiras à entrada, como efeitos do próprio investimento e injeção econômica na região.

Em outras palavras, a deseconomia de escala é refletida por

situação na qual o custo médio por unidade de produto declina à medida que a quantidade produzida aumenta (analogamente, a ocorrência de deseconomias de escala retrata um aumento do custo médio unitário a partir de um determinado nível de produção) (CONCEIÇÃO; FEIX, 2013 p. 29).

Esse efeito local, a deseconomia de escala, desencadeada devido a uma causa global, a abertura econômica para empresas estrangeiras, gerou um efeito que não se

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limitou à região metropolitana de São Paulo, mas também à do interior. As empresas e indústrias que perderam mercado devido ao acirramento da competitividade e da limitação da capacidade produtiva se deslocam, então, para o interior do estado, e à medida que isso ocorre, as empresas do interior, que antes estavam sob determinadas condições de concorrência, agora têm que competir com grupos com maior capacidade de controle dos meios de produção anteriormente alocadas na capital.

Podemos pensar que o caso da Flaskô é particular, devido a todos os fatores que a caracterizam, tais como a conjuntura em que surge e as suas práticas diárias. Nesse sentido, a existência da fábrica se deu devido a uma série de particularidades que envolvem a desigualdade social, problemas econômicos, resistência à precarização etc.

Nunca é demais insistir na alta complexidade das relações entre ‘a sociedade’, cidadãos e habitantes, e a cidade, o urbano, o espaço. Para o indivíduo, a cidade que o cerca é ao mesmo tempo lugar de desejo (dos desejos: o que os desperta, os multiplica ,os intensifica) e o conjunto das pressões que pesam sobre os desejos, que inibem o desejo. É no urbano que se instala, se institui ‘o cotidiano’. Entretanto, a cidade suscita o sonho e o imaginário (que exploram o possível e o impossível, os efeitos da riqueza e da potencia) (NASCIMENTO, 2014, p. 2).

Nesse sentido, o filosofo Henri Lefebvre (1966) aponta que, dentro da estrutura social, há pontos fortes e fracos, que se evidenciam nas relações sociais e nas trocas, quando destas a fragmentação do mundo se apresenta. Para o autor, há uma distinção entre os pontos fortes e os pontos frágeis da organização social capitalista que podem ser exemplificados, respectivamente, pelo Estado e livre mercado (fortes), e a corrupção governamental e a falência de empresas (fraco). “Lefebvre aponta o “ponto fraco” onde surgiu a autogestão: as fábricas abandonadas pelos patrões” (NASCIMENTO, 2014, p. 5), e assim dentro das relações sociais de produção vemos o quanto o capitalismo é um sistema que na medida em que o lucro de suas atividades vivencia uma queda constante, em relação ao capital orgânico acumulado, ele tende a criar novas formas para sua manutenção, mas que abre brechas das quais a autogestão surge como uma alternativa, que mais traz e revela as problemáticas do que propriamente as soluciona.

Deste conceito de Lefebvre poderíamos pensar que as empresas repousariam nos pontos fortes e que a dinâmica de desconcentração da indústria da capital para o interior pela busca de vantagem competitiva representaria a caracterização do ponto forte dentro do capitalismo: vantagem competitiva, incentivo do governo, fomento vindo de instituições públicas e capacidade de adaptação pelo território de um Estado.

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Por outro lado, os pontos frágeis, que nada mais são do que a outra face da moeda do sistema capitalista ficam evidentes de diversas maneiras, e uma delas é a própria quebra das firmas. É aí neste ponto que Lefebvre ( 1966 ) argumenta sobre como a autogestão brota: nos pontos frágeis da estrutura social, naqueles pontos em que o que se pode fazer é a denúncia das falácias que sustentam os pontos fortes que compõem a armadura social da estrutura existente na sociedade. É claro que essa noção de ponto forte e frágil da qual Lefebvre se utiliza para fazer sua proposição é aquela em que a racionalidade capitalista se difundiu por todas as partes da vida. Essa análise dos pontos fortes da estrutura social deve ser entendida como recortada pela visão econômica. Sob outras perspectivas, como a da Psicologia, por exemplo, a competitividade é vista como um ponto frágil da estruturação do sujeito, e tão logo poderíamos pensar na discussão acerca dos “controles psicológicos do capitalismo” (HELOANI, 2003).

Assim, é necessária a discussão de que apenas a tomada dos meios de produção não é suficiente para dar conta da mudança esperada, mas que são necessárias novas relações sociais de produção. Dessa maneira, entendendo que as empresas e as fábricas ocupadas e recuperadas são embriões de novas relações sociais de produção, elas estão diretamente ligadas à uma nova configuração das realidade da produção das condições materiais de vida, convivem com a lógica do metabolismo do capital.

1. PERCURSOS DO CENÁRIO ECONÔMICO BRASILEIRO, DESCRIÇÃO DE VETORES QUE INFLUENCIARAM NA OCUPAÇÃO DA FÁBRICA FLASKÔ 1.1 Das rodovias do café até a crise dos anos noventa

Entender a história da economia brasileira e relacioná-la com a realidade da Flaskô não é uma tarefa fácil, todavia existem alguns padrões que sugerem ter havido determinada conjuntura que gerou um ponto fraco no interior do capitalismo e que possibilitou o surgimento da empreitada dos operários na fábrica. Esta seção tem este intuito, compreender como a concentração cafeeira gerou excedentes para a industrialização brasileira ― industrialização essa que em seu decorrer deu possibilidade para a Flaskô ser fundada ―, e como a região metropolitana de São Paulo ficou saturada. Em decorrência disso, ela passou a se desconcentrar, durante os períodos da colônia, para as antigas regiões que eram rotas do café, como Campinas, no interior do estado, que, hoje em dia, também se tornou uma região metropolitana.

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Para compreendermos a presente situação de nosso país e das condições em que ele se encontra, é de essencial importância identificar como nossa história se desenvolveu. Se hoje em dia presenciamos uma precarização nas condições de trabalho, isso se deve a um encadeamento de ações tomadas há séculos, e não a ações pontuais que foram executadas no decorrer do tempo. Ao verificarmos os períodos da industrialização brasileira, desde 1500 até 2014, veremos uma série de atrasos e retrocessos na industrialização, a começar pelos 300 anos (1500 – 1808), quando a colônia ficou proibida de realizar qualquer atividade industrial, que não fosse para sua subsistência. Um fato interessante é que, em 1822, o novo império estava constituído de tal forma que a única maneira de ingressar no contexto industrial seria aceitando a submissão frente ao imperialismo britânico, refletido nos diversos acordos desiguais com os países europeus. Essas ações que causaram um desequilíbrio fiscal surtiriam efeito ao longo da década de 40 até que expirasse o acordo com a Inglaterra, como coloca Celso Furtado:

É necessário ter em conta a quase inexistência de um aparelho fiscal no país, para captar a importância que na época cabia às aduanas como fonte de receita e meio de subsistência do governo. Limitado o acesso a essa fonte, o governo central se encontrou em sérias dificuldades financeiras para desempenhar suas múltiplas funções na etapa de consolidação da independência. A eliminação do entreposto português possibilitou um aumento de receita. Mas, efetuado esse reajustamento, o governo se encontrará praticamente impossibilitado de aumentar a arrecadação até que expire o acordo com a Inglaterra em 1844. [...] Nesse período, o governo central não consegue arrecadar recursos, através do sistema fiscal, para cobrir sequer a metade dos seus gastos agravados com a guerra da Banda Oriental. O financiamento do déficit se faz principalmente com a emissão de papel-moeda, mais que duplicando o meio circulante durante o referido decênio (FURTADO, 1995, p. 97).

Este elemento revela um traço marcante em nosso país que é o fato de ele ter sido colônia de exploração agrícola durante a sua formação e seu desenvolvimento, o que culmina, segundo a teoria ricardiana da vantagem comparativa, na especialização no segmento, de tal forma que o conflito latente entre elite agrícola e industrial ficasse cada vez mais evidente. Além disso, o déficit da balança comercial revelou a necessidade de se buscar outra maneira de gerar receita.

Nesse sentido, ao longo do século XIX, começou haver reestruturações na política comercial brasileira, desde a revogação da proibição para o estabelecimento de fábricas e de atividades manufatureiras em 1808, até as diversas reformas alfandegárias ao longo do século (HEES, 2011, p. 101), que delimitava a participação do país nas

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atividades industriais. Ao longo da segunda metade do século XIX, assistiu-se a sucessivas alterações das tarifas alfandegárias. Por mais que se encontrem alusões à proteção da indústria nacional, a motivação primeira de todas essas reformas era invariavelmente o déficit público (HEES, 2011, p. 107), gerado pela falta de receita para pagamento dos gastos, ocasionada, dentre outras coisas, pela limitação fiscal do Império.

Na segunda metade do século XIX, vê-se uma crise no setor agrícola, principalmente com o café, espelhada na sua baixa de preço. A despeito do que precede a crise da lavoura no último quartel do século XIX, o aumento da imigração e, principalmente, a baixa dos preços do café no início da década de 1880 permitiram o surgimento de condições mais favoráveis ao desenvolvimento de uma política industrial (HEES, 2011, p 108), sendo criada, nesse ano, a AI (Associação Industrial). No final da segunda metade desse século, a autora Nícia Luz (1978) aponta um marco de discussão na economia brasileira em que havia, de um lado, a elite agrícola e, de outro, os industriais, tendo sua primeira formalização ocorrida por meio da Associação Industrial em 1880.

O Brasil vai debater-se, desde a sua elevação à categoria de Reino Unido ao de Portugal, a princípio, e a de Estado Independente, a seguir, de um lado entre os interesses agrícolas, cada vez mais predominantes no país, e de outro, o desejo de industrializar-se, condição julgada imprescindível, pelos espíritos mais lúcidos, à prosperidade brasileira (LUZ, 1978, p 56).

Isso evidencia o caráter agrícola do nosso país no início do século XX e, ainda, uma falta de controle sobre o aparelho fiscal, financeiro e industrial, caracterizada pela Associação Industrial pela falta de proteção à indústria e a instabilidade das tarifas aduaneiras que, ao não incentivar o “trabalho nacional”, condenavam as populações urbanas “ao parasitismo e à miséria com prejuízo da riqueza nacional e da ordem pública” (HEES, 2011, p 109). Para Nícia Villela Luz, o processo de industrialização se desenrola ‘aos trancos e barrancos’ ao longo do século XIX:

Ao desvencilhar-se, em 1808, do regime colonial, presenciou o Brasil a primeira tentativa de industrialização, sob a tutela do próprio Estado, enquadrando-se, as medidas adotadas, nas práticas usuais da política mercantilista. A segunda tentativa, ainda de iniciativa estatal, com a tarifa Alves Branco, em 1844, já apresentava aspectos mais modernos e, a nosso ver, mais propriamente nacionalistas, pois pretendia basear-se, essencialmente, no protecionismo aduaneiro, prática, sem dúvida alguma, mais niveladora, mais democrática, do que as concessões de privilégios e monopólios dispensados pelo monarca estilo Antigo Regime (LUZ, 1978, p. 205).

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E, ainda que se tenha desenvolvido alguma atividade industrial, Junior (1996) aponta que a indústria brasileira não sairá tão cedo da sua mediocridade e lutará com dificuldades que lhe limitam consideravelmente os horizontes. “Também não resolverá por isso, de uma forma ampla, nenhuma das contradições e dos problemas econômicos e sociais do país” (JUNIOR, 1996, p. 184).

É importante lembrar que nesse período de concepção da indústria brasileira, o sistema tarifário, fiscal, industrial e o capital financeiro ganhavam atenção da economia, havendo, num primeiro momento (século XIX), uma dualidade entre indústria e agricultura, que pode ser observada ora como divergente, ora convergente, dado os protecionismos do estado e o jogo de interesses entre a elite. Divergente, no momento em que se opõe agricultura e indústria, como observa Luz (1978); convergente, no sentido de que da agricultura surgem motivos para se industrializar, para acompanhar a demanda social e, ainda, que da indústria surgem motivos para a agricultura produzir na medida em que é necessário mais pessoas na indústria e, portanto, mais bens não duráveis para suprir esse contingente. Isso para dizer que, por mais que houvesse discussões e oposições entre burguesia industrial, burguesia rural, comércio e indústria, o capital comercial e o financeiro nunca buscaram a ruptura, mas sim novas formas de utilizar a potencialidade do país para o crescimento capitalista dado a competitividade global.

Assim, Hees (2011) aponta que, para o autor Celso Furtado, o protecionismo surge da necessidade de se manter a lucratividade do setor dinâmico da economia, ao passo que Nícia Villela Luz vê o protecionismo como mero elemento que refletia os conflitos de interesse entre o Fisco, a indústria e os interesses agrícolas e sugere que o Estado, por não ter uma política racionalmente protecionista, teria dificultado a industrialização brasileira (HEES, 2011, p.120).

É o aproveitamento dessas condições que, na década de 30, tornou-se possível uma “expansão da produção industrial, que passa a ser o fator dinâmico principal no processo de criação de renda” (FURTADO, 1995, p. 202), mesmo havendo dificuldades econômicas, dadas a dependência internacional e a desvalorização da moeda brasileira. Isso se deve ao fato de haver um mercado internacional em ascensão que mobiliza produção e consumo.

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A procura de bens de capital coincide, nas economias desse tipo, com a expansão das exportações ― fator principal do aumento da renda ― e, portanto, com a euforia cambial. Por outro lado, as indústrias de bens de capital são aquelas com respeito às quais, por motivos de tamanho de mercado, os países subdesenvolvidos apresentam maiores desvantagens relativas. Somando-se essas desvantagens relativas às facilidades de importar que prevalecem nas etapas em que aumenta a procura de bens de capital, tem-se um quadro do reduzido estímulo que existe para instalar as referidas indústrias nos países de economia dependente. Ora, as condições que se criaram no Brasil nos anos trinta quebraram este círculo. A procura de bens de capital cresceu exatamente numa etapa em que as possibilidades de importação eram as mais precárias possíveis [...] É evidente, portanto, que a economia não só havia encontrado estímulo dentro dela mesma para anular os efeitos depressivos vindos de fora e continuar crescendo, mas também havia conseguido fabricar parte dos materiais necessários à manutenção e expansão de sua capacidade produtiva (FURTADO 1995, p. 199).

João Manuel Cardoso de Mello (1991) viveu contexto distinto do de Celso Furtado, porém construiu em O capitalismo tardio uma crítica à Comissão Econômica para América Latina (CEPAL), na medida em que essa colocava que o desenvolvimento econômico em igualdade traria o fim do subdesenvolvimentismo. Todavia, sob essa perspectiva, desconsideram-se princípios da economia política, uma vez que tal pensamento implicaria a planificação econômica, impossibilitando elementos básicos para a efetivação do capitalismo, como a divisão internacional do trabalho, e assim a concentração e centralização do capital. Como aponta Marx (2004),

partimos dos pressupostos da economia nacional. Aceitamos sua linguagem e suas leis. Supusemos a propriedade privada, a separação de trabalho, capital e terra, igualmente do salário, lucro de capital e renda da terra, da mesma forma que a divisão do trabalho, a concorrência, o conceito de valor de troca etc (MARX, 2004, p.1).

Mello (1991) ainda indica outro fator desigual propagado pelo capitalismo:

A propagação desigual do progresso técnico (que é visto como a essência do desenvolvimento econômico) se traduz, portanto, na conformação de uma determinada estrutura da economia mundial, de uma certa divisão internacional do trabalho: de um lado, o centro, que compreende o conjunto das economias industrializadas, estruturas produtivas diversificadas e tecnicamente homogêneas; de outro, a periferia, integrada por economias exportadoras de produtos primários, alimentos e matérias-primas aos países centrais, estruturas produtivas altamente especializadas e duais (MELLO, 1991, p. 14).

Dessa forma, vê-se que a divergência entre indústria e agricultura ocorre apenas na forma como os bens são produzidos, sendo a questão central para o entendimento do desenvolvimento econômico brasileiro, a convergência entre os dois setores (cafeeiro e industrial), ao invés da sua segregação. Por conseguinte, ambos possuem mais relações dialéticas do que se aparenta, como aponta Cano (1990):

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A forma pela qual a intermediação financeira se apropriou de grande parte do capital cafeeiro mascarou a sua origem, não se dando conta que os capitais industrial, financeiro e comercial são eles próprios face do capital cafeeiro. Um ponto que reforça ainda mais o mascaramento da origem desses capitais se deve à própria transferência de capital cafeeiro investido diretamente por fazendeiros [...] em atividades urbanas (CANO, 1990, p. 86).

Sendo o capital comercial aquele que fomentou a base da indústria brasileira, esta, após a sua iniciação, depara-se com uma crise infra estrutural, pois,

se o período que vai da Proclamação da República até 1933 pode ser caracterizado como o momento de nascimento e da consolidação do capital industrial, de 1933 até 1955 temos o período de industrialização restringida [...] Tal situação só será superada com a industrialização pesada, a partir de 1956, com o Plano de Metas no governo de Juscelino Kubitschek (HEES, 2011, p.131).

No governo Juscelino Kubitschek, foi utilizada pela Superintendência da Moeda e do Crédito (SUMOC) a instrução 113 que consistia em importar do exterior bens e serviços sem cobertura cambial, o que contribuiu para que o capital estrangeiro adentrasse o país. Segundo Saretta (2001, p. 116), "a historiografia econômica brasileira é unânime em reconhecer o favorecimento que a Instrução 113 significou para o capital estrangeiro". Além disso, a instrução 113 estava consonante com o Plano de Metas, no sentido de incentivar indústrias pesadas. O documento oficial do Plano de Metas (1958) destaca quatro metas que receberiam equipamentos por meio da referida política cambial: alumínio, cimento, indústria automobilística e construção naval (CAPUTO e MELO, 2009, p. 521). Dessa forma, o capital direto estrangeiro inundou a economia brasileira durante oito anos:

Entre 1955 e 1963, o valor dos investimentos diretos estrangeiros totalizou US$ 497,7 milhões. A sua maior concentração ocorreu entre 1957 e 1960, com 73,0% do total do período (US$ 363,1 milhões) [...] No início dos anos de 1960, ocorreu uma queda bastante acentuada dos investimentos, que passaram de US$ 107,2 milhões em 1960 para US$ 39,2 milhões em 1961, US$ 20,1 milhões em 1962 e US$ 4,5 milhões em 1963, o último representando menos de 1% do valor total investido no período (CAPUTO e MELO, 2009, p. 521).

O plano de metas e a instrução 113 revelam o atraso econômico e, nesse sentido, as tentativas do governo JK em minimizar a industrialização tardia por meio de métodos cambiais que beneficiassem formas de investimentos para além do país. Caputo e Melo (2009) apontam a problemática resultante da abertura econômica para o capital estrangeiro no sentido de que o capital privado nacional perdeu parcela de sua participação na vida econômica brasileira, enquanto o capital estrangeiro aumentava sua voz, tanto econômica como politicamente (CAPUTO e MELO, 2009, p. 535).

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Isso não significa afirmar que o capital privado nacional tenha sido prejudicado em termos absolutos por tal política, mas esse declínio relativo deveu-se tanto ao crescimento do setor público quanto aos benefícios ao setor estrangeiro oriundos, naqueles anos, das políticas governamentais (CAPUTO e MELO, 2009, p. 535).

A década de 60 ficou marcada pelo plano de metas composto por diversos programas do governo de incentivo às indústrias pesadas e infraestruturas que permitiram uma maior capacidade da indústria brasileira em responder às adversidades impostas pela indústria internacional. Lopez (2009, p.) esclarece que

Juscelino Kubitschek possibilitou a construção de hidrelétricas, criou Furnas, adotou o Modelo Rodoviarista e construiu rodovias em abundância, criou a USIMINAS e investiu amplamente nas indústrias. Ele ainda coloca que, com a forte entrada do capital externo, o Brasil passou por um período de grande expansão, mas, também, ampliou sua dependência tecnológica e financeira.

A industrialização centrada no Sudeste revela que a concentração comercial que estava instalada nessa região no século XIX e até a década de 30 do século XX por causa do café serviu de base para a consolidação da indústria brasileira (havendo investimentos tanto do capital comercial quanto financeiro, como já visto), sendo considerada hoje um polo tecnoindustrial, estando a produção de bens e serviços centrada nessa região.

Esse investimento proporcionado pelo governo Juscelino Kubitschek serviu como base para a descentralização da indústria brasileira, no sentido clarear a relação entre centro e periferia existente em nosso país, não mais sendo considerada como arquipélago econômico ou como a relação entre colônia e metrópole dos idos do século XVI, mas como uma atividade interligada entre as diversas regiões do país.

Com esses investimentos a dinâmica econômica começou a ser reconfigurada, para uma “industrialização concentrada no Sudeste”, como mostra Lopez (2009). Para este teórico, “o padrão em arquipélago foi gradativamente substituído pelo ‘Padrão Centro Periferia’, no qual o Sudeste era o centro e fornecia bens industrializados para as demais regiões que seriam a periferia”, revelando os primeiros indícios de conexão entre as indústrias brasileiras, mas também os de desigualdades regionais. Ele aponta ainda a criação da Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) em 1958, como tentativa de “evitar essa desigualdade regional enorme”, ainda “que pouco se realizou efetivamente no período” (LOPEZ, 2009, p.).

“Até a década de 1960, existia um alto grau de concentração industrial na cidade de São Paulo e na sua região metropolitana” (LIMA, 2006 p. 22). Segundo Tinoco

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(2001), o período entre o início da industrialização brasileira até 1970 é um período de intensa concentração das atividades industriais no Brasil e da consolidação da Região Metropolitana de São Paulo como polo no cenário econômico nacional.

Com a ditadura militar (1964–1985), houve a concentração do poder e a configuração de um estado de exceção, privando os cidadãos de direitos e de decisões. Essa medida foi tomada, em meio a outros motivos (como pressão internacional, problemas sociais e políticos), devido à crise econômica gerada pelas políticas de JK, dentre elas, a de não cobertura cambial para importações, dando espaço para que as empresas internacionais ocupassem o mercado e a produção brasileira, causando um déficit na indústria nacional e tornando-a dependente do capital estrangeiro.

Já nos anos de chumbo, foram características marcantes o milagre econômico, as obras 'faraônicas', déficits na balança comercial, instabilidade política, dívidas externas exorbitantes, desemprego estrutural, concentração da renda na mão de uma elite e perseguição de opositores. Os déficits na economia brasileira no período da ditadura terão seus efeitos no decorrer dos anos oitenta e noventa, de maneira que os anos oitenta representam o momento de crise do capitalismo brasileiro contraposto pela Constituição Federal de 88.

A década de noventa é um período marcado por políticas neoliberais em pacotes econômicos que buscavam reestruturar a economia brasileira, mas que visaram ao crescimento e à austeridade econômica e não, ao desenvolvimento e às condições sociais. O Brasil utilizou em grande escala estratégias de abertura de mercado para sobreviver durante a década de oitenta e noventa, viveu nesse período a crise da dívida:

Os anos 80 foram marcados por uma forte crise econômica em função da redução de investimentos externos no Brasil e uma ruptura política com a passagem para democracia. Em termos econômicos, o Brasil decretou a moratória (não pagou sua dívida externa, ou seja, "faliu") em mais de uma oportunidade, viu a dívida externa explodir (de 4 bilhões de dólares para 95, em 1985), concentrou investimentos na agropecuária para atrair capitais e pagar os juros da dívida, sofreu com o atraso tecnológico por não conseguir importar produtos, viveu dramas com planos econômicos que só prejudicaram a economia e projetavam políticos oportunistas, em resumo: viveu a Crise da Dívida (LOPEZ, 2009, p.).

O cenário nacional instável dos anos noventa revelava os déficits na indústria brasileira que, à medida que abria o mercado para as empresas estrangeiras, gerava um movimento de desaceleração do avanço industrial no sentido da criação e fomento da indústria nacional e das cadeias de produção. Isso pôde ser visto no reflexo que a crise gerou, uma vez que se identificou o movimento de desconcentração das atividades econômicas, comerciais e industriais da capital paulista para o seu interior, movimento

Referências

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