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1.3. Breve histórico da Flaskô: sucateamento da fábrica, processo de

1.4.1. Conhecendo o setor de transformação de plástico

A investigação que ora pretende ser realizada não é aquela de cunho cronológico dos fatos, mas um recorte baseado nos dados secundários presentes no setor, de forma que a realidade com a qual a economia se preocupa possa ser vista de maneira mais aproximada. Trata-se de entender como o setor em que a Flaskô está inserida se comporta, quais são as estratégias por detrás da sua demanda, para, assim, verificar como a fábrica responde às adversidades que enfrenta, e, em seguida, apontar que, possivelmente, não apenas fatores relacionados às questões econômicas estariam

dinamizando as relações que a fábrica possui com a sociedade, como também aqueles de cunho social. Desse modo, a preocupação aqui colocada é de cunho econômico, de forma que essa base nos dê condições para entender como ocorre a atuação do controle operário e fazer um paralelo entre as estratégias do setor de transformação de plástico e aquelas tomadas pela fábrica, etapa essa que será realizada por meio da pesquisa de campo.

Para Fleury (2000) a indústria de transformação de plástico está ganhando importância estratégica na medida em que as aplicações do plástico: 1) tornam-se cada vez mais numerosas e mais sofisticadas; 2) exigem o desenvolvimento de conhecimento e competência específicos; 3) requerem, por sua vez, empresas dedicadas; 4) trabalham ou não articuladas a cadeias produtivas.

O Brasil, como já vimos, desde que alcançou certo nível de industrialização, era tão dependente do capital estrangeiro quanto as indústrias que surgiam no país. Em outras palavras, “como reflexo da alta do volume das importações e baixa performance das exportações, a balança comercial do setor de transformados plásticos acumulou déficit de U$1,9 bilhão (R$ 3,3 bilhões). Um aumento de 40% no déficit comercial do setor em relação a 2010” (COELHO, 2011, p. 16), ou seja, o mercado externo e o capital estrangeiro consolidaram-se em terras tupiniquins. Isso trouxe uma série de impactos para o setor e para a economia brasileira.

Segundo o economista do BNDES, Maurício Moreira, “os efeitos da abertura econômica não foram muito fortes até 1992 [...], [enquanto] em 1994, as importações representaram 16% do consumo aparente tanto de transformados plásticos quanto de resinas termoplásticas” (GUSMÃO, 2001, p. 21). Assim, até 1999, o regime cambial vigente favorecia o processo de inclusão tecnológica no sentido de estarem mais acessíveis os produtos importados, insumos diferenciados e máquinas. Entretanto, se, por um lado, fosse facilitado o acesso a novas perspectivas, por outro lado, as empresas que não possuíssem os recursos necessários não teriam tal acesso. A falta de

recursos para investimento em tecnologia e a dificuldade de obter financiamentos, no entanto, fez com que muitas empresas optassem por um processo de downsizing [demissão de pessoal], passando a comprar componentes importados com custos competitivos, ganhando alguma produtividade sem necessidade de grandes investimentos (GUSMÃO, 2001 p. 21).

Dessa forma, no ano de 1998, “foi dado início ao processo de substituição de importações, no qual cada empresa passou a buscar alternativas de fabricação nacional para os itens que passara a importar na época da abertura de mercado e da sobrevalorização do real” (GUSMÃO, 2001, p. 22).

Gusmão (2001) aponta ainda essa política como um elemento que dificultou a grande parte das empresas em retomar o mercado que lhe pertencia:

As empresas nacionais têm tido que lutar para recuperar o mercado perdido desde o início da década. Os fornecedores de matérias primas e de equipamentos têm tido que se esforçar para conseguir fornecer produtos com qualidade comparável a dos produtos importados que dominaram o mercado, mas que hoje perdem pelo custo elevado (GUSMÃO, 2001, p. ).

Seja nos recentes relatórios da ABIPLAST ou nos dados coletados em outros estudos, os produtos importados causam um evidente impacto no setor de transformação de plástico. Se estivermos pensando na questão da competitividade, é importante ressaltar que a consolidação desse fator conjuntural e seu resquício histórico é o cotidiano das empresas do setor. O estudo se preocupa com a questão das importações, pois acredita que, por meio da balança comercial, ter-se-ia um termômetro para investigar a organização de um setor da indústria. Desse modo, em relação à questão econômica das forças de aglomeração e dispersão, poderíamos associar o que diz respeito às importações a uma alternativa dentro da acumulação flexível de expansão dos mercados e ganho de competitividade; a uma maneira de se dispersar daqueles antigos centros que passam a acumular tanto, a ponto de gerar deseconomias de escala, de forma que tendem à promoção de importações em outros países e à multinacionalização através de filiais que, dispersas pelo mundo, adaptam-se e criam formas de concentrar e centralizar o capital.

Convém ressaltar a necessidade de observamos a composição do setor de transformação de plástico. Fontes da Associação Brasileira de Plástico (ABIPLAST), informa que (ABIPLAST, 2012 p. 5)

atualmente 1 1.690 empresas que empregam um total de 348 mil pessoas, a Entidade além de incentivar ao longo das últimas quatro décadas o uso do plástico nos mais diferentes segmentos, tem exercido ativa participação junto aos órgãos governamentais, de forma a reivindicar medidas que atendam às necessidades do setor. (ABIPLAST 2012, p. 5).

Quando olhamos para as ações estratégicas que configuram o futuro do setor e compreendemos como o capital estrangeiro afeta o país, passamos a entender que o

déficit precisa ser gerido de maneira que a balança comercial não continue gerando mais custos do que renda. Assim, COELHO (2011) sugere algumas propostas em dez áreas diferentes, todas visando à maior capacidade de participação das empresas nesse setor.

A primeira área seria aquela de redução de alíquotas sobre as resinas plásticas e ampliação do período de cobrança dos impostos (IPI, PIS, COFINS, ICMS), a fim de aproximar data do recebimento das vendas com o pagamento dos impostos. E uma proposta nessa primeira área seria a redução dos encargos sobre juros, encargos relacionados a custos fixos, burocracia, custos logísticos, entre outros. Na segunda área, o tema é investimento, ou seja, “melhorar a atratividade das linhas de financiamento do Pró-Plástico que possuem exigências de financiamento mínimo muito elevadas” (COELHO, 2011 p. 20) seria uma segunda maneira de incentivar a produção do setor. Colocar as empresas nacionais na linha de frente para as necessidades da União, tendo em vista que o governo desse preferência para tais aplicações, é uma terceira proposta que visa à constituição de uma cadeia de produção que estaria sendo puxada pela aplicação dos transformados nas áreas da saúde, construção civil e produtos de utilidade doméstica. Novas aplicações para os transformados é outra área para a qual Coelho aponta a necessidade de apoio. Assim, o próximo horizonte indicado pela cartilha de proposta é o de apoiar a inclusão das empresas nas cadeias do pré-sal:

Incentivar a produção de plásticos de engenharia para compor revestimento de tubos e componentes dos equipamentos para a exploração e produção em águas profundas, [...] [bem como] a alta produção de petróleo e gás e estimular a agregação de valor em subprodutos petroquímicos (resinas) (COELHO, 2011, p. 23).

É apontada, também, a necessidade de agregar valor à cadeia dos produtos in- natura e comodities agrícolas. Uma sétima proposta é o desenvolvimento de uma cadeia de produção:

• Desenvolver novos compostos em parceria com fornecedores de matérias primas para aumentar a qualidade, as especificações técnicas e novas utilizações do plástico. • Promover programas de modernização do parque industrial do setor de transformados plásticos. • Desenvolver o potencial de criação em parceria com clientes de moldes e ferramentaria, promovendo a inovação de produtos e processos. • Apoiar a criação de observatório de prospecção de demandas futuras de clientes da cadeia, tais como dos segmentos de construção civil, alimentos, higiene pessoal, automobilística, utilidades domésticas, médico-hospitalar etc. (COELHO, 2011, p. 25).

E, quanto mais o desenvolvimento da cadeia for importante para o desenvolvimento do setor e da balança comercial, mais investir nas pequenas e médias

empresas e indústrias de nosso país se torna uma condição para a evolução do setor, ainda mais que, segundo COELHO (2011), o setor de transformação de plásticos é composto em 95% por pequenas e médias empresas (PMEs).

Esse cenário se relaciona com a questão das forças de dispersão, pois, na medida em que as empresas nacionais praticavam downsizing durante a década de noventa, o mesmo setor era invadido pelo capital estrangeiro e por multinacionais. Poderia-se dizer que, da mesma maneira que a Região Metropolitana de São Paulo (RMSP) fica saturada pelas forças de aglomeração, gerando forças de dispersão refletidas na ocupação na Região Metropolitana de Campinas (RMC), no contexto da acumulação flexível, os centros globais também estariam saturados, estabelecendo novas formas de relacionar com outros países por meio da aplicação do capital, emprego e insumos de maneira internacional.

Sendo assim, as forças de dispersão e aglomeração podem ser verificadas em nível global, refletidas na configuração de novos mercados e indústrias em locais até então não explorados, que poderiam ser evidenciados pelo saldo da balança comercial e pela quantidade de investimento direto estrangeiro em determinada indústria.

Voltando ao que menciona o professor Afonso Fleury (2000) em relação ao saldo da balança e o setor de transformação, “a formação e o desenvolvimento da indústria brasileira de transformação de plástico está em relativo descompasso com essas tendências. Numa avaliação agregada, responde mal às demandas” (FLEURY, 2000, p. 5), o que faz o país recorrer à importação. O professor continua apontando que

No plano das empresas pode-se destacar a dificuldade de se estabelecer estratégias e comportamentos empresariais cooperativos e uma orientação programática de curto prazo. Com isso as condições para um alinhamento proativo ficam prejudicadas e, na prática, a formação de cadeias passa a depender de jogos de pressão e de força das empresas que comandam as cadeias produtivas (FLEURY, 2000, p. 5).

Assim, vemos dificuldades na cadeia de transformação de plásticos, dada a saturação de indústrias no setor, falta de incentivos, culminando na falta de competitividade e capacidade de atender à demanda e competir com as empresas internacionais.

Silva et. al. (2013 p, 18) caracterizam o setor como fragmentado, devido a tal saturação bem como à ausência de uma cadeia de suprimentos integrada que não haja

disparidades nas arenas de barganha e negociação. No estudo, são apontados alguns motivos para a fragmentação, como

reduzidas barreiras de entrada financeiras, de mercado e de conhecimento na indústria; limitadas possibilidades de alcance de economias de escala na operação da indústria; necessidades muito variadas do mercado, que tornam mais diversas as linhas de produtos, o que contribui para sacrificar economias de escala; pouca vantagem do tamanho para lidar com clientes e, sobretudo, fornecedores, normalmente empresas de maior porte; custos de transporte elevados em relação ao valor dos produtos em diversos segmentos em função dos volumes transformados; dificuldades de consolidação na indústria em função da elevada informalidade existente, que pode originar elevados passivos para as empresas adquirentes; um histórico de reduzida qualificação de recursos humanos e disponibilidade de capital na indústria (SILVA et. al., 2013, p, 18).

Os mesmos autores utilizaram uma metodologia baseada em questionário para identificar as estratégias utilizadas por cerca de mil indústrias que se relacionavam com a empresa Brasken e/ou o BNDES. Dessa forma, Silva et. al. (2013, p. 161) se preocuparam com variáveis relacionadas à renda e produção cujas principais estratégias verificadas foram aquelas relacionadas a: resina plástica e sua utilização; processos utilizados na transformação; mercados e atuações finais dos produtos; canais de escoamento; receita líquida e vendas; quantidade de quilos transformados; número de funcionários; retorno do patrimônio líquido; rentabilidade de vendas e crescimento anual das vendas.

O questionário foi enviado para 1.131 empresas associadas à Abiplast, clientes da empresa Braskem ou do BNDES, nos meses de junho e julho de 2013. A lista de clientes da Braskem configura uma amostra de empresas de maior porte, capazes de adquirir resinas plásticas em uma escala compatível com as vendas efetuadas de maneira direta pelo fabricante. A lista de associadas à Abiplast representa empresas localizadas predominantemente no estado de São Paulo, e a lista de empresas clientes do BNDES caracteriza-se por ter empresas de maior porte, capazes de apresentar projetos diretamente ao banco de (SILVA et al. 2013 p. 161).

Os resultados da pesquisa puderam revelar que a origem da referida fragmentação “na indústria estão na origem da reduzida rentabilidade das empresas do setor de transformação de plásticos, seja em termos locais ou internacionais” (SILVA et. al., 2013, p. 166) e “seu progresso poderá ser acelerado com iniciativas: (1) ao alcance das empresas, associadas a suas escolhas estratégicas; (2) de apoio financeiro, para o qual o BNDES desempenha um papel relevante; e (3) de políticas públicas”. (SILVA, et. al., 2013, p. 166). Também “cabe apontar a relevância das características internas das empresas, não abordadas na pesquisa, como sua capacidade de gestão, reconhecidamente limitada na indústria de transformação.” (SILVA et. al. 2013, p 165)

Percebemos que a pesquisa ficou limitada pelas variáveis escolhidas que giram em torno da renda e pelas características que as empresas teriam em comum, no caso a relação com BNDES e Brasken. No entanto, os resultados estavam relacionados à renda.

Enfim, tal como a pesquisa com base nas entrevistas aponta, ficam claras as dificuldades que o setor enfrenta, o que lhe é mais relevante, o que tem relação nas questões da organização industrial e das políticas econômicas que o país tem adotado, e, dessa maneira, o setor de transformação de plástico fica problematizado sob diversos aspectos econômicos. Vejamos outros detalhes que recai sobre a existência da fábrica e configura diretamente as relações sociais e o território político produtivo da fábrica.