SUL - UNIJUI
KELVIN RODRIGO CARVALHO DE MORAIS
A HISTÓRIA DO PROGRAMA RADIOFÔNICO GALPÃO DE ESTÂNCIA
Ijuí 2017
KELVIN RODRIGO CARVALHO DE MORAIS
A HISTÓRIA DO PROGRAMA RADIOFÔNICO GALPÃO DE ESTÂNCIA
Artigo apresentado como avaliação parcial do Trabalho de Conclusão do Curso – Projeto Experimental “A História do Programa Galpão de Estância”, do Curso de Comunicação Social – Habilitação Jornalismo, da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul – UNIJUÍ.
Orientador: Celestino Perin
Ijuí 2017
UNIJUÍ – Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul DACEC – Departamento de Ciências Administrativas, Contábeis, Econômicas e da
Comunicação
A Comissão Examinadora, abaixo assinada, aprova a Dissertação.
A HISTÓRIA DO PROGRAMA RADIOFÔNICO GALPÃO DE ESTÂNCIA
Elaborada por
KELVIN RODRIGO CARVALHO DE MORAIS
Como requisito parcial para obtenção do título de Bacharel em Comunicação Social – Jornalismo
Comissão Examinadora
_______________________________________
Professor Me. Celestino Perin (Orientador) – DACEC/UNIJUÍ
_______________________________________
Professor Me. Felipe Rigon Dorneles (Banca Titular) – DACEC/UNIJUÍ
A HISTÓRIA DO PROGRAMA RADIOFÔNICO GALPÃO DE ESTÂNCIA
MORAIS, Kelvin Rodrigo Carvalho de, graduando em Comunicação Social – Habilitação Jornalismo. UNIJUÍ – Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul – RS. [email protected]
RESUMO
O presente artigo teve como objetivo apresentar a história do programa radiofônico Galpão de Estância, atração transmitida pela Rádio São Luiz de São Luiz Gonzaga-RS, onde músicos da Região Missioneira realizam apresentações artísticas. Para tanto foi produzido um documentário em vídeo que registra a memória de figuras importantes para a comunidade local por meio de entrevistas com pessoas relacionadas com o mesmo.
Palavras-chave: Rádio. Música. Nativismo. Galpão de Estância. ABSTRACT
The present article had the objective of presenting the history of the radio program Galpão de Estância, an attraction transmitted by the Radio São Luiz de São Luiz Gonzaga - RS, where musicians from the Mission Region perform artistic presentations. For that, a video documentary was created that records the memory of important figures for the local community through interviews with people related to it.
SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO...……….……….………...….5
2.1 SURGIMENTO DA RÁDIO SÃO LUIZ...8
2.2 SÃO LUIZ GONZAGA E A MÚSICA...11
2.3 A ORIGEM DO PROGRAMA GALPÃO DE ESTÂNCIA...12
3 CONCLUSÃO...15
1 INTRODUÇÃO
O rádio é um dos principais veículos de comunicação já criado pela humanidade. A ele podem ser atribuídas ao menos duas principais características que são a instantaneidade na informação e a capacidade de entreter o público.
O presente artigo intitulado A História do Programa Radiofônico Galpão de Estância é resultado das várias fases do Trabalho de Conclusão de Curso, que foi norteado pela temática envolvendo a música nativista no rádio são-luizense como fator sociocultural para aquela cidade e municípios da Região Missioneira. Isso resultou na produção de um documentário em vídeo de nome homônimo deste artigo.
O Projeto Experimental visa trazer a este público, segmentado, um relato sucinto da ampla história do programa, o qual foi transmitido pela primeira vez na Rádio São Luiz em 1950. Dedicado à apresentação de músicos amadores e profissionais, recebe artistas cujo estilo musical é ligado ao tradicionalismo. Tem no seu embrião a participação de um dos maiores nomes da poesia gaúcha, o pajador Jayme Caetano Braun, e é um dos programas mais antigos do gênero no Rio Grande do Sul.
Em regiões do interior do estado, como é o caso de São Luiz Gonzaga, o rádio ainda tem uma presença muito forte. Seu elo com a comunidade local vem garantindo a sobrevivência mesmo diante das novidades dos outros meios que surgiram com a era digital. Mesmo este programa de formato tradicional adaptou-se às novas ferramentas sendo exibido atualmente em vídeo pelas redes sociais.
Assim, este documentário em vídeo procurou, por meio de entrevistas com apresentadores, radialistas, músicos, personalidades, ouvintes e pesquisas no jornal local, mostrar a importância que programas deste gênero têm para artistas do ramo musical nativista e como isso contribui para a manutenção e perpetuação da identidade cultural do local de origem, bem como salvaguardar a história do programa radiofônico e disponibilizar a quem tiver interesse um material para pesquisa sobre a identidade musical da Região Missioneira.
Devido ao número reduzido de trabalhos acadêmicos que abordem a história do rádio em São Luiz Gonzaga e Região das Missões, considerando, ainda, a importância que ele tem para a comunidade desses locais, este projeto se justifica uma vez que coloca em evidência o tema escolhido e proporciona a manutenção da sua memória. Com isso, pretende-se expor a dimensão que programas do gênero têm para artistas do ramo musical nativista e como isso
contribui para a perpetuação da identidade cultural do local de origem. Além disso, o documentário em vídeo será uma ferramenta acessível às pessoas que queiram ver, futuramente, como eram executados os tradicionais programas de auditório.
O público-alvo deste Projeto Experimental são os ouvintes fidelizados do programa, que na maioria das vezes apenas imaginam como acontecem as transmissões. A característica do rádio proporciona esse exercício imaginativo. Agora, os mesmos poderão ver o que de fato realiza-se. Neste projeto também é registrado o trabalho dos artistas que participam do programa, com isso, está relacionado em vídeo a imagem e memória de figuras importantes para a comunidade local.
Outro fato relevante ao executar este Projeto Experimental se dá por meio da história das figuras que estão envolvidas no seu surgimento. Trata-se de um nome notável na cultura gaúcha e um dos filhos mais ilustres de São Luiz Gonzaga que é Jayme Caetano Braun. O pajador tem esse período da sua vida pouco explorado pela comunidade, ou seja, muitos desconhecem onde de fato o vulto missioneiro iniciou sua caminhada artística.
Assim, também ficará disponível à Rádio São Luiz, emissora pioneira na cidade, um material documental que revela quão importante a emissora foi para projetar nomes como o do Jayme e estilos musicais como a pajada e mais tarde o missioneiro, já com a formação dos chamados quatro Troncos Missioneiros, Noel Guarani, Jayme Caetano Braun, Pedro Ortaça e Cenair Maicá. Diante desse cenário, fica evidenciado a importância deste projeto, que a partir do registro audiovisual cumpre com uma função sociocultural.
O Projeto Experimental foi produzido por meio de revisão bibliográfica que discorre sobre a história do rádio, mídia nativa e a cultura gaúcha. Também fez parte do material de pesquisa o Jornal A Notícia, veículo de comunicação mais antigo da cidade e que, através do Instituto Histórico e Geográfico de São Luiz Gonzaga, mantém vivo um acervo de quase um século.
A pesquisa, no entanto, centrou-se em entrevistas com pessoas contemporâneas as duas fases do programa Galpão de Estância como Juca Ramos, Gelsa Ramos, José Antônio Fontoura Gomes, Julio Fontela, Alcides Figueiredo, Luiz Oneide Nonemacher, Chico Marques e Denise Figueirêdo. O próprio Elias Possap (in memoriam), fundador da Rádio São Luiz, está entre os entrevistados, uma vez que foi explorado o uso do arquivo pessoal do atual apresentador e estudo já concretizado sobre o tema que é o Projeto Experimental Rádio:
A escolha deste tipo de abordagem, priorizando entrevistas pessoais, se justifica, pois até o momento poucos estudos práticos, com exceção ao acima citado, haviam sido realizados sobre a música no rádio missioneiro. Assim, além das personalidades do rádio, buscou-se entrevistar ouvintes do programa e os principais promotores do que o Projeto Experimental registra que são os músicos.
Por fim, como resultado da aplicação das ações descritas, é disponibilizado um documentário em vídeo que tem o objetivo de assegurar para as gerações futuras a memória do rádio no interior com um formato único que envolve música ao vivo e versos de improviso e/ou trovas. O roteiro e a edição do documentário em vídeo foi acompanhado pelo professor orientador deste trabalho, Celestino Perin.
2.1 SURGIMENTO DA RÁDIO SÃO LUIZ
Criação de Guglielmo Marconi em 1896, o rádio é um dos meios de comunicação mais relevante. Está ao lado da TV, do jornal impresso e mais recentemente da internet. Sua capacidade de informar através do som lhe assegura a instantaneidade e a possibilidade do ouvinte desempenhar outras atividades ao mesmo tempo em que o escuta, essa característica faz dele o principal companheiro de milhares de brasileiros em suas casas, nas repartições públicas, no trânsito, entre outros.
No campo do entretenimento, passando pela década de ouro com as radionovelas e programas de auditório, até os atuais programas musicais e de humor, o veículo tem entregado bons produtos para a sua audiência. Em São Luiz Gonzaga, ele surgiu em 1º de outubro de 1949, por meio da Rádio São Luiz.
A inauguração de uma emissora de rádio em São Luiz Gonzaga foi um marco para a comunidade local. Fundada em 1º de outubro de 1949, a Rádio São Luiz, emissora comercial, tornou-se uma das mais importantes empresas da cidade. Suas transmissões empolgavam os ouvintes que antes só conseguiam ouvir emissoras da capital do estado através das ondas curtas. (Nonemacher, 2013, apud Rádio: paixão
e história, 2013, disponível em:
<http://bibliodigital.unijui.edu.br:8080/xmlui/bitstream/handle/123456789/1867/Arti go%20pronto%20KATIUZE.pdf?sequence=1>)
A primeira emissora da cidade, e a segunda da Região das Missões, foi criada pelo empreendedor Elias Possap (in memorian). Segundo Julio Fontela, o embrião de tudo está centrado na figura do visionário engenheiro alemão Walter Kurt Ballé. Sua chegada ao município são-luizense tinha a finalidade específica de montar a Usina do Salto Pirapó, na época pertencente à prefeitura municipal. A partir daí, inúmeras inovações para a época começaram a surgir, exemplo é a primeira central telefônica no município, primeiro aparelho de raio-x do hospital, bem como a construção do primeiro cinema de São Luiz Gonzaga. É por meio de um sistema de alto-falantes de Ballé, instalados em postes da cidade com o objetivo de divulgar a programação do cinema, que Possap vê despertado o interesse para montar uma emissora de rádio.
Eu tinha um amigo que era telegrafista, conversei com ele, e ele procurou saber qual era o tramite para se conseguir a rádio, aí o informaram que São Luiz Gonzaga já tinha autorização para uma emissora, que era gente de Erechim. Entrei em contato com eles, me acertei, terminei montando a emissora e comprando deles a autorização. (Possap, 2012, apud Rádio: paixão e história, 2013, disponível em: <http://bibliodigital.unijui.edu.br:8080/xmlui/bitstream/handle/123456789/1867/Arti go%20pronto%20KATIUZE.pdf?sequence=1>)
Kurt Ballé foi quem construiu os transmissores da Rádio São Luiz, bem como os de outras seis de propriedade de Elias Possap. Estes fatos denotam a importância de Ballé, ao lado de Possap, para a concretização deste pioneiro veículo de comunicação da região.
Desde a fundação a emissora mostrou-se atuante em vários segmentos. No radiojornalismo, por exemplo, estão grandes transmissões radiofônicas. Conforme Julio Fontela, o histórico dessas coberturas começou com o discurso de Getúlio Vargas na sua última campanha para a presidência, oportunidade em que o estadista esteve no município. Outros fatos relevantes objetos de cobertura são a 1ª Fesoja, funeral de Getúlio Vargas em São Borja e a inauguração da BR-285.
Fontela, um dos funcionários mais antigos da emissora, tem na memória muitas histórias do período inicial da Rádio São Luiz. Uns por ter vivido pessoalmente, outros por ouvir do próprio Elias Possap que durante muito tempo foi o seu empregador. “Elias Possap foi um grande amigo e ele me contava as histórias de como começou a Rádio São Luiz. Na verdade ela iniciou como a ‘Voz Alegre’ que eram as cornetas daquela época, seriam caixas de som nos dias de hoje, erguidas nos postes, principalmente ali no entorno da Praça Matriz e aí com um estúdio de onde falavam, e eles foram aumentando até chegar no ano de 1949 quando da instalação da Rádio São Luiz”.
Tamanha é a dimensão e a representatividade do que significou a inauguração da emissora naquele fim da década de 1940 que grandes eventos foram realizados para marcar a passagem do acontecimento. O Jornal A Notícia, que a exemplo do que acontece em outros municípios menores, tornou-se a memória documental da época, relata a festa que foi durante aquele período. Muitas atrações pautaram o momento da novidade radiofônica local. Julio acrescenta que “Em 1949, quando da inauguração da Rádio São Luiz, um dos grandes artistas em nível nacional que fez show na inauguração foi Luiz Gonzaga, o homem do chapéu de couro, o rei do baião”.
Antes da chegada dos primeiros gravadores a Rádio São Luiz veiculava seus programas e comerciais ao vivo, foi assim que surgiram atrações de auditório e que mais tarde dariam início ao Galpão de Estância. Logo que foram lançados, programas deste gênero predominaram na grade, era uma tendência.
Conforme José Antônio Fontoura Gomes, a Rádio São Luiz foi projetada para ter um palco auditório para a apresentação dos artistas, local que comportava mais de 200 pessoas.
Ele acrescenta que naquela época o meio rural era bastante habitado e que os músicos que vinham para participar dos programas carregavam a autenticidade de vir à rádio, por exemplo, à cavalo, deixando suas montarias atadas em frente a emissora.”O prédio da Rua Venâncio Aires foi projetado para um palco, então você entrando tinha um corredor e o salão amplo, depois o palco. À direita a técnica de som e a esquerda o estúdio, na entrada. Um palco maravilhoso, um mezanino especial, onde ficavam os artistas. O público ficava de pé, mas era uma aglomeração impressionante do pessoal que vinha de longe, do interior, de toda região. Tinha gente que saia a pé de madrugada de Santo Antônio das Missões pra ver se pegava carona pra vir pra cá e às vezes não pegava, chegavam cansadas, mas vinham, vinham ver os programas de palco da Rádio São Luiz”.
Quem viveu a experiência dos programas de auditório dessa época, define o acontecimento com algo simplesmente maravilhoso. Segundo Julio Fontela, a Rádio São Luiz muito contribuiu para a identidade musical da região por meio dos diversos programas existentes. “Nós tínhamos um programa no sábado a tarde que era o programa Mate Amargo do Seu Olívio de Matos, que era um dos programas que tinha uma audiência impressionante e uma participação maior ainda. Hoje você tem verdadeiros ícones da musicalidade missioneira e todos esses gigantes da nossa música passaram pelo microfone da Rádio São Luiz, sem sombra de dúvida”.
Na Região Missioneira sempre houve um grande número de pessoas identificadas com a música e que por isso carregavam o gosto de cantar. O local sempre foi caracterizado por pessoas nativistas, que gostam de cultuar e valorizar as coisas de sua terra, entretanto, antes da criação da rádio não havia este espaço.
2.2 SÃO LUIZ GONZAGA E A MÚSICA
Desde os primórdios a música está presente em nossas vidas, é uma linguagem de comunicação universal. Ao mesmo tempo em que é influenciada pela cultura local, ela também se torna a identidade de determinada região ou grupo.
A constituição da história musical brasileira começa com os índios e com a música feita pelos jesuítas que aqui aportaram. Esse encontro entre a música dos jesuítas e a música dos indígenas é a pré-história da Música Popular do Brasil. Contudo, os primeiros registros em partituras surgem em 1557, que consistiam em melodias indígenas anotadas pela tripulação de Jean de Lery (viajante francês que comandava as expedições ao Brasil). (Rêgo; Aguiar, 2006, disponível em: <http://www.brapci.ufpr.br/download.php?dd0=13375>)
Devido sua proximidade com a fronteira Argentina, São Luiz Gonzaga, assim como os demais municípios da região, sofreram forte influência cultural do país vizinho. Isso se percebe nas vestimentas, nas expressões utilizadas nas conversas e, por consequência, na letra e ritmo da música. Essa influência, por sinal, é presente em todo o solo gaúcho.
Situado em região de fronteira com dois outros países (Argentina e Uruguai, além da proximidade do próprio Paraguai), nosso estado, por fatores históricos (guerras; invasões), econômicos (comércio; contrabando) e sociais (imigrações), assimilou parte da cultura vivenciada pelos nossos vizinhos. [...] Ligado ao país pela via terrestre apenas pela então Capitania de Santa Catarina, e considerando as peculiaridades acima apontadas, podemos compreender porque a gente do nosso Estado, apesar dos conflitos históricos, guarda identidade com a cultura das nações lindeiras. (Oliveira; Verona, 2006, p. 81-83)
Conforme dados da Associação São-luizense de Músicos, o município tem 370 músicos cadastrados e mais de mil jovens distribuídos pela cidade em grupos musicais. Em 2012, através do projeto de lei 172, foi declarada Capital Estadual da Música Missioneira.
É o berço do que hoje chamamos de quatro Troncos Missioneiros que tiveram, na sua época, uma grande promoção. Foi um movimento de marketing que lançou Jayme Caetano Braun, Noel Guarani, Cenair Maicá e Pedro Ortaça. Antes de estes nomes surgirem, a musicalidade da região, principalmente em bailes, vinha baseada no ritmo serrano dos Bertussi. Cancioneiros populares do Rio Grande do Sul eram Teixeirinha e Gildo de Freitas. Aí os quatro Troncos Missioneiros trouxeram a digital, a identidade da música missioneira, o que então transformou-se nessa grande valorização. Hoje, ao falar nos Missioneiros, muitos param para escutar.
2.3 A ORIGEM DO PROGRAMA GALPÃO DE ESTÂNCIA
Um ano após o surgimento da Rádio São Luiz, portanto em 1950, por ocasião das eleições, Danton Ramos, amigo de Elias Possap, residente da Timbaúva, localidade que na época pertencia ao município de São Luiz e hoje faz parte de Bossoroca, procurou o proprietário da emissora solicitando que este visse a possibilidade de colocar no ar uma propaganda política para seu irmão, o candidato a deputado federal Ruy Ramos. Para atender ao pedido de que esta propaganda fosse feita de uma maneira diferente, Elias pensou na possibilidade de fazer num formato que explorasse o lado gauchesco de Ruy. Então, convida Jayme Caetano Braun, sobrinho do político, Antonino Ramos, Darcy Dutra, Jaime Pinto e Dangremon Flores, para compor o programete. Em 2002, ao conceder entrevista para Alcides Figueiredo, Elias disse o seguinte: “todos os dias, às seis horas da tarde, nós fazíamos um programa gauchesco em que a propaganda do deputado Ruy Ramos era feita em verso”.
Terminada a eleição, com Ruy eleito, ele percebeu que havia tido muita aceitação por parte do público. Então passou a ser apresentado um programa gauchesco aos domingos de manhã, sempre ao vivo, pois não poderia ser de outra forma, já que não existiam discos gaúchos e livros de poesias eram escassos. “Existia só um livro do Glaucus Saraiva, aí é que eu convidei o Jayme para continuar escrevendo poesias especialmente pro nosso programa, e assim foi feito”, disse Elias nesta mesma entrevista.
Todas as manhãs de domingo, por volta das 9h, Elias Possap ia até a casa de Jayme Caetano Braun, localizada na Rua Treze de Maio, um quadra antes da Vila Militar, e ele, se já não tinha feito fazia rapidamente, pois tinha uma habilidade extraordinária desde o início. Segundo Juca Ramos, era duas coisas que seu pai, Danton Ramos, queria. Uma delas era projetar o “cristal” da família que estava aparecendo como poeta e a outra era fazer a campanha política do irmão que foi o deputado federal Ruy Ramos. “Tanto meu pai como meu tio achava que o Jayme era um gênio. Nós não achávamos, porque o Jayme era lugar comum aqui de casa (sic). Então o pai queria ter um programa na Rádio São Luiz que proporcionasse uma abertura política para o irmão, que estava concorrendo a deputado, mas que incluísse o Jayme como apresentador, porque eles entendiam que o Jayme seria o grande como ele terminou sendo”.
Voltando ao programa, conforme ele ia sendo continuado e ampliado, começou a aparecer gente para tocar violão e gaita, aí sua viabilidade se tornou muito mais fácil. Nele
abriram-se as portas para todos que tinham o desejo de cantar. Não havia pré-seleção de participantes, excluindo-se os amadores, como em outros programas da casa. O único pré-requisito era cantar músicas gauchescas em seus mais variados estilos.
A titulação de Galpão de Estância foi dada por Jayme Caetano Braun. Aos 26 anos o pajador já tinha muitos poemas escritos e ele sempre foi muito aguerrido à tradição campeira. Logo, um galpão de estância simbolizava bem esse sentimento. Tanto é que em 1954, pela editora do Jornal A Notícia, é publicado o primeiro livro de Jayme Caetano Braun e este também leva essa denominação.
Nos primeiros anos da década de 1950, Elias Possap vai até a Capital do Estado para divulgar a inauguração da emissora são-luizense que tinha sido realizada anos antes. Estando lá, conforme José Antônio Fontoura Gomes, alguém dos meios de comunicação proporcionou que ele tivesse um encontro com Paixão Cortes e Darci Fagundes. Naquela época Paixão Cortes estava organizando no estado, junto com a secretaria da cultura, um movimento para que se fundassem os centros de tradição gaúcha. “Elias disse não saber como articular um movimento tradicionalista em São Luiz, mas comprometeu-se que na chegada ao município tentaria algo fazer. Aí convocou as pessoas mais ligadas ao meio de comunicação pra uma reunião e deu ciência a eles do que havia tratado no encontro”.
No dia 24 de junho de 1954, um encontro, que aconteceu onde ficava o antigo prédio da Rádio São Luiz, reuniu as forças vivas da cidade que tomaram interesse no assunto. Ali mesmo foi composta uma diretoria e fundado o CTG Galpão de Estância, que levou este nome justamente por causa do programa e pela figura ímpar que estava na diretoria e se chamava Jayme Caetano Braun. Após essa data, que elegeu Antônio Caetano Sobrinho como primeiro patrão, o programa passou a ser apresentado por ele. Depois, a titularidade da apresentação seguiu esta linha. Assim, conforme os patrões iam sendo eleitos, além de gerir o CTG, comandavam o programa. “Os presidentes dessa época foram o Antonio Caetano Sobrinho, Ico Trolle, Alcides Lauter, José Rene, Waldemar de Miranda, Theodosio da Silva, Pedro Marques dos Santos e o meu pai José Gomes”.
Logo, esse novo formato inviabilizou o programa. O acúmulo de afazeres e os outros compromissos do patrão da entidade acabaram por encerrar a primeira fase do Galpão de Estância no fim dos anos de 1960. Somente 24 anos depois, conforme revela a edição de A Notícia, é que o programa volta ao ar já sob o comando de Alcides Figueiredo.
Alcides, na época, era um funcionário do CTG. Trabalhava como professor de dança e cobrador das mensalidades dos sócios da entidade. Sempre interessado em histórias, um dia, numa roda de conversa com outros integrantes do Galpão de Estância, descobre a existência do programa e se propõe a colocá-lo outra vez no ar. Assim, ao lado de Chico Marques, companheiro de CTG, em 7 de julho de 1991, entra no ar a segunda fase do programa que se mantém até os dias de hoje.
Atualmente ele tem a mesma essência, mesmo estilo e mesmo objetivo que é divulgar e valorizar as raízes da terra missioneira. Conforme Juca Ramos, “nenhum programa se mantém por tanto tempo sem ter um comando que lhe dê sustentação. O Galpão de Estância nos outros comandos e também com o Alcides Figueiredo tem respeitabilidade. Quem ouve o programa o faz porque traz qualidade, tradição, cultura e isso não se compra em boteco”.
3 CONCLUSÃO
Ao concluir este trabalho que fala sobre um programa de rádio e sua ligação sociocultural com a comunidade, observa-se a importância que a academia tem para municípios interioranos, uma vez que assim, acadêmicos das diversas áreas podem realizar pesquisas que promovam o registro de fatos importantes para a história local. Desta forma, com a conclusão deste documentário em vídeo intitulado A História do Programa Galpão de Estância, contribui-se para documentar algo que estava somente na memória das pessoas, disponibilizando a comunidade um registro físico da história.
Durante o desenvolvimento deste trabalho, enquanto as pesquisas eram feitas, observou-se a dificuldade que pequenas localidades têm em preservar sua história. A emissora de rádio onde se desenrola o fato, por exemplo, guarda pouco ou nenhum arquivo sonoro da época, deixando mais de meio século num completo limbo. Por outro lado, o documento em papel mostra-se muito mais útil quando o assunto é prover um banco de memória. A partir deste registro estudantes poderão ampliá-lo observando questões como o futuro do rádio no momento em que a grande maioria das emissoras do interior migra da amplitude modulada para a frequência modulada, e como ficará a identidade cultural em longo prazo diante da globalização e misturas de novas culturas e costumes.
4 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
JORNAL A NOTÍCIA. Imprensa escrita. São Luiz Gonzaga, de 1949 a 1999. Acervo: Instituto Histórico e Geográfico de São Luiz Gonzaga.
NONEMACHER, Katiúze. O Rádio em São Luiz Gonzaga: Paixão e História. Disponível em:<http://bibliodigital.unijui.edu.br:8080/xmlui/bitstream/handle/123456789/1867/Artigo% 20pronto%20KATIUZE.pdf?sequence=1>. Acesso em 10 de maio de 2017.
OLIVEIRA, Silvio de; VERONA, Valdir. Gêneros Musicais Campeiros no Rio Grande do
Sul: ensaio dirigido ao violão. Porto Alegre. Editora Nativismo, 2006.
POSSAP, Elias. Arquivo pessoal. Alcides Figueiredo. São Luiz Gonzaga, 25 de agosto de 2002.
RÊGO, Leylane Michelle Vieira; AGUIAR, Virgínia Bárbara. Música, Cultura e
Informação: preservação do acervo musical alagoano. Disponível em:
<http://www.brapci.ufpr.br/download.php?dd0=13375>. Acesso em 12 de maio de 2017.
ENTREVISTAS REALIZADAS
FONTELA, Julio. Entrevista pessoal. São Luiz Gonzaga, 25 de janeiro de 2017. GOMES, José Antônio Fontoura Gomes. Entrevista pessoal. São Luiz Gonzaga, 4 de fevereiro de 2017.