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Prefácio

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Academic year: 2021

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Maria do Carmo Fonseca

As organizadoras deste livro foram bastante felizes por terem conseguido construir um todo a partir de uma seleção de trabalhos realizados por diferentes autores, nas mais diversas áreas do Brasil e versando sobre a grande temática saúde sexual e reprodutiva. Cada um dos 18 trabalhos, apesar das suas particularidades, oferece aos estudiosos da saúde sexual e reprodutiva uma vasta gama de achados, que propõem novas questões acerca desta temática. Como um todo, os trabalhos tangenciam as complexidades dos conceitos, percepções e conteúdos do tema saúde sexual e reprodutiva: falam de sexualidade e da (des)informação sobre o assunto; de mudanças nas gerações de homens e mulheres, na adolescência e na vida adulta; de gravidezes não planejadas; de aborto, contracepção, esterilização e parto; de maternidade e paternidade; de vulnerabilidades relacionadas ao HIV/AIDS; e do sistema de saúde, naquilo que se relaciona ao acesso e ao atendimento à saúde reprodutiva no Brasil. Sexualidade, raça/cor e desigualdade social são temas comuns nos artigos que compõem este livro. Há, como forma de ligação entre eles, pilares teóricos que permeiam todos os trabalhos. A vivência e prática da sexualidade e da reprodução são diferentes para indivíduos de diferentes grupos sociais, mas o eixo unifi cador que perpassa todos os trabalhos é o de gênero. Não poderia ser diferente! Embora nem sempre explícitas, as perspectivas analíticas necessariamente vão imbricar nos sistemas e contratos de gênero prevalentes na nossa sociedade. Por exemplo, a socialização de gênero em alguns dos trabalhos vão desde uma perspectiva de cunho patriarcal mais arcaico a comportamentos mais modernos, quando se trata de uniões, recasamentos, relacionamentos entre homens e mulheres. Quando nos deparamos com os achados de alguns trabalhos sobre a questão do aborto, temos de nos perguntar se ainda estamos nos referindo à primeira década do século XXI, pois nos parece que muito pouco mudou relativamente às dores, medos, angústias e solidão sofridos pelas mulheres que se defrontam com uma gravidez não planejada. Os riscos e as barreiras que elas têm de enfrentar são ainda piores quando pertencem aos segmentos socioeconômicos mais baixos.

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Há que se lembrar que, em 1933, uma norueguesa feminista, em uma de suas conferências, defendeu o direito das mulheres de administrarem o tamanho de suas famílias. “Eu sonho com o dia em que cada criança nascida é planejada e bem-vinda, quando homens e mulheres forem iguais e a sexualidade seja uma expressão de intimidade, prazer e carinho”. Por sua posição de defesa dos direitos reprodutivos da mulher, Elise foi banida da Noruega e mudou de nome para exercer a profi ssão de jornalista na Suécia. Como Elise, outras feministas que lutaram e continuam a lutar na defesa do direito das mulheres de controlarem o próprio corpo e sua sexualidade são “mal vistas” por grupos sociais, religiosos e conservadores, da mesma forma com que aquelas mulheres que ajudavam as outras na hora do parto ou davam chás às suas clientes foram consideradas bruxas e nefastas à sociedade.

Outro aspecto a destacar no conjunto de trabalhos aqui reunidos é o uso de métodos quali-tativos para investigar os mais diferentes temas e subtemas. Entrevista em profundidade, entrevista semi-estruturada, grupo focal e outras técnicas são utilizadas para se entender comportamentos e percepções ou, ainda, para obter um maior aprofundamento de achados inesperados. O trabalho de Fazito, que abre este volume, tem caráter epistemológico e chama a atenção para o fato de que os métodos qualitativos podem ser de extrema relevância nos estudos demográfi cos, quando estes estão entrelaçados aos processos históricos e sociais, nos quais a signifi cação de comportamentos depende de outras disciplinas, tais como sociologia, etnografi a e história. Para o autor, um maior aprofundamento das variáveis e componentes demográfi cos se torna mais rico quando se integram ou combinam estratégias metodológicas quantitativas e qualitativas, fazendo uma crítica às ques-tões de objetividade e subjetividade, alegando que, raramente, os fenômenos e fatos demográfi cos estão isentos de subjetividade.

Um grupo de trabalhos trata de temas relacionados à saúde sexual e reprodutiva de adolescentes. As fontes de informação sobre assuntos ligados à sexualidade é tema em artigo de

Miranda-Ribeiro. A pesquisa, realizada em meados dos anos 90 em Montes Claros, em uma favela

na cidade de São Paulo e em uma vila de dois mil habitantes no Rio Grande do Norte, utilizou grupos focais para contrastar a opinião de adolescentes do sexo masculino e feminino com a de uma coorte mais velha, composta por mães de adolescentes. A conclusão é de que a geração das mães de adolescentes contava basicamente com as amigas para obterem informações sobre sexo, ao passo que, na geração mais nova, além dos pares, a mídia passou a ser uma fonte de informação importante. No entanto, o papel da família pouco mudou.

O trabalho de Pirotta também está focado em adolescentes de ambos os sexos, alunos da Rede Estadual de Ensino Público. A autora discute profundamente os signifi cados de maternidade e

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paternidade na adolescência, usando um levantamento quantitativo de caráter sócio-demógrafi co com alunos da rede pública além de realizar 40 entrevistas em profundidade, visando uma maior compreensão de como se faz a escolha de métodos e quando se usa o serviço de saúde. As entrevistas permitem compreender o “universo de crenças, de valores e signifi cações que orienta as vivências e as práticas, sobretudo no âmbito da construção das identidades de gênero”. Chama a atenção, em seus resultados, o fato de que um número signifi cativo de adolescentes do sexo feminino relatam não gostar de camisinha e, mesmo que os parceiros insistam, elas não gostam. Ao mesmo tempo, não relatam ter projeto de maternidade para o curto prazo. A questão é que este grupo estaria vulnerável às DSTs e HIV/AIDS e, assim, necessitariam estar em programas específi cos de sexualidade para saber dos riscos de uma relação desprotegida.

Rezende & Fonseca investigaram as concepções de adolescentes sobre maternidade,

sexualidade e gravidez, utilizando entrevistas semi-estruturadas e grupo de discussões. A análise foca nas metáforas utilizadas pelas adolescentes para identifi car seus sentimentos próprios, de seus familiares e seus parceiros diante de uma gravidez não planejada. Sentimentos de culpa, incertezas perante o futuro e as surpresas de sentir seus corpos fragmentados foram analisadas sobre a ótica do modelo teórico conceitual de Lakoff e Johnson.

Tratando de aborto, o artigo de Silva & Fusco traz à tona o terror e a angústia de jovens que se deparam com a gravidez e não têm condições econômicas e psicológicas de levá-la a termo, principalmente sendo pobres e não podendo contar com o parceiro. Para essa adolescente, a educação sexual e informações sobre o uso de anticoncepcionais adequados não chegaram até ela. Onde encontrar os métodos efi cazes, fazer consultas informativas sobre sexualidades/DST parecem não fazer parte do seu cotidiano.

Cabral também trata de gravidez na adolescência, mas sua análise parte da premissa

que a paternidade é pouco visibilizada nos estudos de saúde reprodutiva. A autora entrevista 15 adolescentes entre 18 e 24 anos que são pais e 14 do sexo feminino, já mães, e encontrou que o comportamento contraceptivo não é planejado, ou seja, é pós facto. Com o reconhecimento da paternidade, pode acontecer a coabitação, mas o mais comum é as famílias apoiarem (estrutural e materialmente) a situação de conjugalidade. O problema maior é quando o “pai não reconhece a paternidade”, então todo o ônus recai sobre a família materna: os avós passam para categoria de “pais” e toda a rede familiar contribui para as despesas.

O artigo de Simão utiliza a técnica de grupo focal, com recortes por idade, escolaridade e cor, constituindo duas coortes de mulheres: uma de 20 a 24 anos e outra de 50 a 59 anos. A questão da virgindade para mulheres negras de baixa escolaridade parece ser mais importante do que para

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jovens brancas, principalmente quando o resultado é a chegada de um fi lho. Neste caso, acham pouco provável encontrar um companheiro. Na coorte de idade mais jovem, mulheres negras de alta escolaridade têm percepção diferente: avaliam que experiências prévias podem levá-las a conhecer melhor os seus parceiros e se ter experiência. A pressão grupal pesa muito na hora de se ter a primeira relação. Coortes mais jovens, brancas e de mais escolaridade separam sexo de casamento e como tal apontam experiência sexual prévia como um dado importante para a vida marital. Entretanto, para as brancas de educação baixa, a virgindade deve ser preservada “mulher tem de si valorizar e não se oferecer aos homens”. O grupo de mulheres mais velhas critica as mais jovens por iniciarem a relação sexual em idades muito jovens. Existe um consenso de que elas deveriam esperar até os dezoito anos. Também valoram mais os rituais como namoro, noivado e casamento. Dizem que a primeira relação deve estar vinculada ao casamento. Segundo a autora, virgindade ainda é um “atributo feminino” do ponto de vista de suas entrevistadas. Algumas delas defendem a virgindade como ponto de honra para as mulheres que pensam em construir família. Está implícito nestas respostas que, apesar de sentirem muita “liberdade”, ainda estão presas a antigos valores que eram cultivados pela família patriarcal. Apesar de parecer contraditório, tal achado está consoante com o baixo poder que as mulheres têm relativamente ao homem. Não importa idade ou raça – as duas coortes apresentam pouco poder de barganha e têm de “mascarar” um pouco os seus desejos nas práticas sexuais por viverem numa sociedade onde igualdade e equidade de gênero estão bem aquém do que se esperaria neste primeiro decênio do século XXI.

O trabalho de Moore também nos fala da experiência da primeira relação sexual. Usando a técnica de grupo focal para grupos de mulheres residentes em Belo Horizonte e Recife, a autora explora inicialmente temas como “quem iniciou a relação sexual”, “onde aconteceu”, “falaram de sexo”, “se discutiram o uso de algum anticoncepcional”, “se a relação foi planejada ou não”. Os recortes por idade e educação apresentam pouca diferenciação. Uma grande maioria declarou como razão principal para o “sexual debut” o desejo de “saber como era”. O grupo 30-39 anos e de classe média de Belo Horizonte e Recife, falando da primeira experiência, declara que tinha medo de “engravidar”, “ser abandonada”, “fi car falada”, e “perder a respeitabilidade junto a sua família”. Usando outras expressões, a geração mais jovem também tem os seus medos, dentre os quais engravidar é o pior de todos. Fica patente que, com tantos temores, a grande maioria não relata ter sentido prazer em seu “debut”. Pelo contrário, preocupou-se em dar prazer ao parceiro, “pois já sabem que são egoístas e só pensam no seu prazer”. Apesar de perceberem estas diferenças de gênero, as mulheres deste grupo pesquisado não estão empoderadas o sufi ciente para desejarem mudanças comportamentais na área da sexualidade, ou seja, elas se comportam como as gerações mais velhas. Quando se trata de

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virgindade, este grupo se parece com as mulheres pesquisadas por Simão, pois a razão instrumental para o debut foi a pressão do grupo de referência.

De maneira similar, no artigo de Resende & Fonseca, cuja pesquisa foi realizada na Maternidade Odete Valadares, em Belo Horizonte, a coorte mais jovem utiliza, para se referir à virgindade, “amiga perdeu”, “eu perdi a mim mesma”, “não segurou a onda”. O mais surpreendente está no fato de que as mulheres da coorte mais velha (30-39 anos) se “sentem na obrigação de “dar prazer ao companheiro”, pois assim evitam que o parceiro as “abandone”. Para estas mulheres, parece que liberação e liberdade ainda não fazem parte de seus cotidianos, pois pensam como suas mães e suas avós. A sexualidade destas mulheres parece estar mais no campo do sofrimento do que do prazer.

Os artigos de Torres, Miranda-Ribeiro & Machado, de Portella et all e de McCallum & Reis têm, em comum, a questão de analisar os serviços oferecidos à saúde sexual e reprodutiva das mulheres. Em Belo Horizonte, Torres et al mostram que as mulheres reclamam dos serviços médicos dizendo, inclusive, que não fariam mais consulta ginecológica devido ao tratamento que recebem – consideram-se desrespeitadas e têm uma extrema vergonha quando o profi ssional é do sexo masculino. Ao serem perguntadas como trabalhariam se fossem elas os profi ssionais, respondem que melhorariam a qualidade da consulta atendendo com carinho e paciência, entabulando conversa e diálogo com a paciente, ao invés do tratamento frio e sem interação que receberam. Para as de escolaridade mais baixa, que talvez sejam as que têm sentimentos mais negativos em relação à consulta, não há necessidade de ir ao médico, a não ser quando se está grávida. Já para as de alta escolaridade, a primeira consulta deveria se dar na puberdade, que seria o momento oportuno para se inteirar acerca da sexualidade e buscar informações sobre métodos anticoncepcionais e as DSTs.

Em Pernambuco, Portella e colegas ressaltam a importância da informação como um fator fundamental no uso da contracepção, pois é ela que permite à mulher o uso informado de métodos contraceptivos – ponto central para o movimento feminista. Apesar dos avanços nos serviços de saúde, os resultados do estudo indicam que, embora atualmente a maior parte das mulheres faça uso de contracepção, suas escolhas ainda são feitas como há vinte anos, em um contexto que não lhes oferece opções reais e, em muitos casos, premidas pelas relações difíceis ou violentas que vivem com seus parceiros.

Em Salvador, o artigo de McCallum & Reis sobre a assistência ao parto numa maternidade pública considerada referência em saúde reprodutiva faz uma análise sob a vertente antropológica, verifi cando os sentimentos que as mulheres demonstram relativamente a todo o processo da interação com os profi ssionais, bem como os seus sentimentos com relação à experiência. Os sentimentos são de solidão, porque não podem ser acompanhadas por parentes, e de abandono, pois a interação

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com os profi ssionais se faz apenas no que diz respeito aos seus corpos. Assim, as autoras interpretam todo esse processo como sendo um rito de passagem, que vai legitimar a maternidade e, como as próprias mulheres dizem ao sair de lá, não gostariam de retornar.

Hopkins analisa os estudos de casos sobre mulheres que queriam a esterilização como método

contraceptivo e tiveram de traçar estratégias das mais variadas para a obtenção ou não da ligadura tubária. Examinou casos em hospitais públicos e privados em Porto Alegre e Natal, realizando 321 entrevistas de survey e 41 entrevistas em profundidade com mulheres no puerpério no período de1995-1996. Esta é, portanto, uma época em que não havia ainda a regularização da esterilização pelo SUS. Mesmo assim, a autora apurou que 49% de mulheres entrevistadas nos hospitais particulares a conseguiram, enquanto apenas 13% a conseguiram em estabelecimentos públicos. Chama a atenção a tenacidade e perseverança das mulheres na busca de suas estratégias reprodutivas, principalmente daquelas que têm seus fi lhos nos hospitais públicos. Alguns casos estudados constituem verdadeiras sagas, como a de “Rosangela” com 24 anos e 4 fi lhos, que tentou de várias maneiras, tanto durante a gestação do terceiro fi lho como durante a gestação do quarto fi lho, conseguir um médico que lhe fi zesse o procedimento de ligadura tubária. Não conseguiu. Durante o último parto, no entanto, apresentou problemas, teve de se submeter a uma cesárea sob forte hemorragia e o médico fez a esterilização sem consultá-la. Quando foi informada que o procedimento fora feito, ela fi cou extremamente agradecida, pois após nove meses de luta, tendo até mesmo oferecido seu voto a um político em troca da ligadura, ela a obteve sem pedir, quando ainda estava anestesiada.

A população masculina é o foco dos trabalhos de Oliveira, Bilac & Muszkat e de Santos, Juarez

& Moreira. Santos e colegas investigam as atitudes e percepções de homens adolescentes e jovens de

classes mais baixas em Recife, relativamente à não prática de sexo seguro. Nos seus achados, indicam que o grupo detém conhecimento sobre DST/AIDs e que só a camisinha os protege. No entanto, são poucos os que praticam sexo seguro. Estabelecem quatro categorias de razões pelas quais os jovens não utilizariam sexo seguro: ausência de informação; relação não planejada; atrapalha o prazer e conhecimento prévio da pessoa e/ou medo de engravidar a parceira. Dentre as quatro categorias, o “tira o prazer” e o “medo de engravidar” pesam mais, apesar de reconhecerem o risco elevado das DSTs/AIDs. Os autores sugerem, ao fi nal, que, para mudar o comportamento de risco em populações jovens, devem ser desenvolvidos programas contínuos e campanhas informativas que trabalhem a auto-estima e a equidade de gênero, pois do contrário muda-se pouco ou quase nada nos comportamentos de risco.

Oliveira, Bilac & Muszkat, por sua vez, escolhem duas gerações de homens de classe média

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e, mais especifi camente, a contracepção. Estabeleceram duas coortes geracionais (nascidos em 1937 e 1957) para a pesquisa. Os métodos são avaliados pelos dois grupos em função de sua efi cácia, facilidade de uso e interferência no prazer. Na percepção desses grupos, os métodos menos utilizados e de baixa apreciação são os de barreira (diafragma e preservativo). O DIU e o contraceptivo oral seriam os desejados. Há que se observar que estes dois últimos são “métodos femininos” e são quase invisíveis ao olho masculino e não interferem na questão do prazer, mas são de risco relativamente alto quanto às DSTs/AIDS. Métodos considerados tradicionais, como o coito interrompido/ritmo e camisinha, podem estar presentes nas relações consideradas estáveis (aquelas que envolvem laços afetivos mais duradouros). O conceito de naturalização da reprodução (responsabilização da mulher no que diz respeito à “vigilância” para não haver gravidez não planejada, desejo e busca da maternidade) permeia a maior parte do grupo – independentemente da profi ssão e da idade. Nesta mesma linha da naturalização dos gêneros, as mulheres, segundo o grupo, foram feitas para construir famílias e, portanto, fazer fi lhos, enquanto os homens apreciam e fazem sexo. Recriminam tanto a esterilização quanto a vasectomia como métodos que levam à castração/mutilação. Seguindo a linha da naturalização, também cabem as mulheres o cuidado com a contracepção e, assim, fi cam perplexos quando a parceira engravida. O aborto, além de sua dimensão ilegal, constitui experiência traumática para eles, que têm sentimentos de culpa. Dizem que lhes restam dar apoio e serem solidários. O grupo mostra-se informado e participa de decisões da reprodução mas, pela sua socialização de gênero, percebem as mulheres como as maiores responsáveis por esta dimensão reprodutiva. Da perspectiva de gênero, a naturalização permeia todos os entrevistados.

Marcondes também escolhe os homens como seu grupo de análise, chamando a atenção para

a construção/socialização de gênero, na qual o masculino está interligado à dimensão do provedor e o feminino está na esfera do reprodutivo, da “naturalização da reprodução”. Esta percepção se apresenta semelhante ao grupo pesquisado por Oliveira el al e que pertence às camadas médias, com formação universitária. Marcondes focaliza sua investigação nas dinâmicas reprodutivas de homens recasados, investigando que tipo de vínculo eles criam com os fi lhos em situações de status diferenciados. O fi lho próprio é visto como um “rito de passagem” para a vida adulta. Enteados são vistos como de alçada da responsabilidade da esposa, mas também traz mudanças e reavaliação de valores, pois têm de conviver com os “fi lhos de outros”. Já o fi lho comum da atual união é bem-vindo, pois, promove uma consolidação da relação.

Três dos trabalhos apresentados neste livro tratam do HIV/AIDS. Garcia et al tratam das práticas sexuais e vulnerabilidades tendo como objetivo “investigar as inter-relações entre as variáveis sócio-demográficas e as práticas sexuais da população negra e não negra de ambos

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os sexos, pertencentes às faixas etárias de 16-24 e acima de 45 anos”. Utilizam a combinação de métodos quantitativos e qualitativos, tendo como banco de dados o Inquérito Populacional gerado pelo GEPAIDS, denominado “Comportamento Sexual e Percepções da População Brasileira sobre o HIV/AIDs – 2005”. Dois grandes objetivos nortearam a investigação para se compreender o processo de vulnerabilização de segmentos populacionais. Primeiramente, queriam identificar as inter-relações entre as variáveis sócio-demográficas e econômicas e as práticas sexuais desses segmentos. Num segundo plano, explorariam o significado das percepções e práticas sexuais em São Paulo e no Recife. O artigo utilizou a perspectiva de gênero, levando em conta raça e geração, para um maior aprofundamento dos temas tais como “conhecimento e percepção sobre aids”, “percepção de risco individual e social”, “negociação e uso de preservativo” e “testagem anti-hiv”.

Também com o tema HIV/AIDS, mas envolvendo apenas homens, está o trabalho de Lacerda, que teve como objetivo verifi car as percepções relacionadas ao uso do preservativo, usando a perspectiva de gênero como seu eixo teórico. Utiliza entrevistas em profundidade (72 no total) com duas coortes de homens (uma mais jovem e outra mais velha), para verifi car se há diferenças na socialização de gênero. O que se verifi ca, na verdade, é que a idade não será o “divisor de águas”, pois os valores de gênero permeiam o grupo como um todo. Seus principais resultados: estando em relações ditas estáveis, nas quais a mulher usa contracepção, a ele/homem não cabe usar o preservativo – vigora o princípio da fi delidade. Em relações do tipo ocasional, usam a camisinha para se preservarem das DSTs/AIDs e, mais ainda, para não ocorrer uma gravidez, o que complicaria em muito a sua situação (uma visão masculina). Estando a mulher em relação dita estável, torna-se extremamente difícil barganhar o uso do pretorna-servativo – esta, talvez, torna-seja uma das razões da feminização da AIDS em mulheres vivendo em relações heterossexuais.

Vulnerabilidade ao HIV/AIDS entre as mulheres é o tema do artigo de Miranda-Ribeiro et

al. Utilizando 83 entrevistas em profundidade realizadas em Belo Horizonte e Recife, as autoras

verifi cam que, além das razões tradicionais apontadas pelas mulheres para o não uso da camisinha – gravidez, vontade de engravidar, parceiro fi xo e impossibilidade de negociar o uso da camisinha por ser desempoderada, há um quinto motivo que não costuma ser badalado pela literatura: muitas mulheres não usam camisinha porque não gostam. Este achado também aparece no trabalho de

Pirotta, com adolescentes do sexo feminino. Em geral, o pressuposto é o de que quem não gosta de

camisinha é o homem e que a mulher nada mais é do que uma vítima desta iniqüidade de gênero. Será que elas de fato não gostam ou já incorporaram o discurso masculino de que usar camisinha “é como chupar bala com papel”?

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Os trabalhos, de uma maneira em geral, em seu conjunto, demonstram muito pouca transformação do modelo tradicional de representação dos gêneros: existe o provedor, que desempenha o papel social-político, enquanto a cuidadora é a responsável pelo domicílio, pela família e pela reprodução (por isso, contracepção é de responsabilidade das mulheres). Scott, ao introduzir a dimensão do poder nas relações de gênero, inclui também a questão política, que se encontra no cerne da questão de gênero. Comparativamente, os trabalhos aqui reunidos, em maior ou menor grau, colocam as mulheres em situações de subordinação e confl ito, situações estas distantes de serem solucionadas, pois a solução depende de muita negociação e esta se torna difícil perante à desigualdade e à ineqüidade de gênero que perpassam a nossa sociedade. Segundo Scott, estudar gênero é entranhar-se nos meandros dos sistemas predominantes e, através deles, tentarmos entender as particularidades das relações de gênero que governam os subsistemas (família, trabalho, etc.). Esta discussão não teria sido possível sem pesquisas de natureza qualitativa, tais como as apresentadas aqui. É exatamente isto que as autoras dos 18 trabalhos reunidos neste volume, organizado por Miranda-Ribeiro e Simão, trazem brilhantemente: uma qualifi cação dos números.

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Referências

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