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Animação musical: formação de uma filarmónica

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Academic year: 2021

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ANIMAÇÃO MUSICAL: FORMAÇÃO DE UMA FILARMÓNICA

ESTUDO DE CASO

Dissertação de Mestrado em Ciências da Educação Área de Especialização em Animação Sociocultural

MANUELHEITORFERREIRADOSREIS

Trabalho realizado sob a orientação do

Professor Doutor Agostinho da Costa Diniz Gomes

(2)

Este trabalho foi expressamente elaborado como dissertação original para efeito da obtenção do grau de Mestre em Ciências da Educação, Área de Especialização em Animação Sociocultural, sendo apresentada na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro

(3)

R

ESUMO

O presente trabalho tem como objectivo fundamental dar a conhecer a Banda Musical da Casa de Cultura Popular de Outeiro Seco, descrever a sua origem e fundação e ao mesmo tempo demonstrar que, apesar das dificuldades e das contrariedades do momento, ainda é possível desenvolver actividades no âmbito da Animação Sociocultural e formar um grupo musical de raiz.

O presente projecto assentou num pressuposto de valorização não só da educação permanente e comunitária mas também etnomusical, social e pedagógica, consolidando um desenvolvimento pessoal e social.

Para a consecução deste projecto, preconizámos um Enquadramento Teórico em diferentes parâmetros de investigação, estabelecemos objectivos de trabalho, hipóteses a testar e metodologia.

Abordámos a Música sob o ponto de vista da Animação Musical subsidiada pela Animação Sociocultural, fizemos um levantamento histórico da Casa de Cultura Popular de Outeiro Seco e abordamos a criação da Banda Musical.

Por último aplicámos um Inquérito por Questionário aos elementos constituintes da Banda Musical, com o propósito de saber a sua opinião relativamente à sua participação, à sua realização, às relações humanas e ao seu grau de satisfação na banda, com a banda e com o maestro.

Da análise dos resultados podemos constatar que todo o trabalho desenvolvido foi profícuo, gratificante e, sobretudo, enriquecedor a nível de satisfação pessoal, quer dos músicos, quer do maestro.

Em forma de conclusão podemos afirmar que a criação da Banda Musical da Casa de Cultura Popular de Outeiro Seco foi uma mais-valia, quer para a Animação Sociocultural e Musical, quer para o desenvolvimento, projecção e reconhecimento da aldeia.

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A

BSTRACT

The main goal of this work is to present the Popular Culture House Musical Band of Outeiro Seco, to describe its origin and foundation. At the same time demonstrate that, despite the everyday adversities and difficulties, it is still possible to develop socialcultural activities and create a musical group.

It was the purpose of this project to show not only the permanent value of social and community education, as well as the pedagogical advantages of ethnic music contribution in a personal and social development.

In order to execute this project we established a theoretical framing in several research parameters, work objectives, hypotheses and respective method for proofing.

We considered ethnic music and its roll in Socialcultural Animation, the importance of the creation of a Musical Band, and made a historical survey on the Popular Culture House of Outeiro Seco.

In order to assess the degree of fulfillment and integration of each element of the Band, the relationships established amongst the members and individually with the Maestro, a questionnaire was made.

Analyzing the results we can establish that this activity was fruitful, gratifying, and above all personally enriching, bringing satisfaction to all band members as well as for the Maestro.

To conclude, we can state that the founding of the Popular Culture House Musical Band of Outeiro Seco was an excellent asset. Not only considering the importance of the Sociocultural and Musical Animation, but also, for projecting the development of the village and contributing to its recognition.

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A

GRADECIMENTOS

À UTAD, na pessoa do Magnífico Reitor, Professor Doutor Carlos Sequeira, pelos meios colocados à minha disposição.

À Direcção do Curso de Mestrado em Ciências da Educação, área de Especialização em Animação Sociocultural.

Ao Professor Dr. Marcelino de Sousa Lopes, animador e “tutor” da Animação Sociocultural.

Ao Professor Doutor Agostinho da Costa Diniz Gomes, orientador deste trabalho, pelo incentivo, confiança, disponibilidade, rigor e dedicação depositados.

Às diferentes direcções que geriram a Casa de Cultura, em especial a Dona Albertina, a Dona Antonieta, o Francisco Pipa e Fernando Dias pelo apoio e carinho sempre dispensados.

A todos os Músicos da Banda Musical da Casa de Cultura Popular de Outeiro Seco desde a sua fundação até ao presente.

Ao Jorge Bernardo e Eliseu André pela disponibilidade e incentivo na realização deste projecto.

Ao Ulisses Guerra pelo exemplar desempenho que demonstrou enquanto elemento da Banda Musical.

A título póstumo, ao Capitão Cruz que tão benfeitor foi desta colectividade.

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Í

NDICE

G

ERAL

RESUMO ... iii

ABSTRACT ... iv

AGRADECIMENTOS ... v

ÍNDICE GERAL ... vii

ÍNDICE DE QUADROS ... x

ÍNDICE DE GRÁFICOS ... xi

ÍNDICE DE FOTOGRAFIAS ... xiii

SIGLAS ... xiv

INTRODUÇÃO ... 1

CAPÍTULO I – ENQUADRAMENTO DO ESTUDO ... 9

1.1–NOTA INTRODUTÓRIA ... 10

1.2–PARÂMETROS DA INVESTIGAÇÃO ... 11

1.2.1 – Objectivos do Trabalho ... 11

1.2.2 – Questões de partida ... 12

1.2.3 – Hipóteses ... 13

1.2.4 – Indicações genéricas do processo estudo de caso ... 14

CAPÍTULO II – A ANIMAÇÃO SOCIOCULTURAL ... 16

2.1–CONCEITOS E ÂMBITOS DA ANIMAÇÃO SOCIOCULTURAL ... 17

2.2–EDUCAÇÃO FORMAL,NÃO FORMAL E INFORMAL ... 18

2.3–AMÚSICA NA ANIMAÇÃO SOCIOCULTURAL ... 22

CAPÍTULO III – A ANIMAÇÃO SOCIOCULTURAL/ANIMAÇÃO MUSICAL ... 25

3.1–BREVES NOTAS SOBRE A ORIGEM E IMPORTÂNCIA DA MÚSICA ... 26

3.2–CONTEXTO HISTÓRICO DA MÚSICA COMO FORMA DE ANIMAÇÃO ... 29

3.3–A APRENDIZAGEM MUSICAL NAS BANDAS FILARMÓNICAS ... 32

(8)

CAPÍTULO IV – METODOLOGIA ... 41

4.1–PRESSUPOSTOS DA METODOLOGIA ... 42

4.2–NATUREZA DA METODOLOGIA ... 44

4.3–SOBRE A NATUREZA DO ESTUDO ... 46

4.4–SOBRE O ESTUDO DE CASO ... 48

4.5–A RECOLHA DE DADOS ... 50

4.6–OBSERVAÇÃO PARTICIPANTE ... 52

4.7–AAMOSTRA ... 54

4.8–OINQUÉRITO POR QUESTIONÁRIO ... 56

4.9–AANÁLISE DE CONTEÚDO ... 58

CAPÍTULO V – A CASA DE CULTURA POPULAR DE OUTEIRO SECO ... 59

5.1–DOS PRIMÓRDIOS À ACTUALIDADE ... 60

5.2–AC.C.P.O.S., O ASSOCIATIVISMO E O VOLUNTARIADO ... 64

5.3–AC.C.P.O.S. E A BANDA MUSICAL ... 66

CAPÍTULO VI – A BANDA MUSICAL DA CASA DE CULTURA POPULAR DE OUTEIRO SECO ... 68 6.1–NOTA INTRODUTÓRIA ... 69 6.2–ORIGEM E FUNDAÇÃO... 72 6.3–METODOLOGIA DE ENSINO ... 74 6.4–ESTRUTURA E FUNCIONAMENTO ... 76 6.5–DESENVOLVIMENTO ... 79 6.6–ABANDA E O REPORTÓRIO ... 93

CAPÍTULO VII – APRESENTAÇÃO DOS RESULTADOS... 98

7.1–NOTA INTRODUTÓRIA ... 99

7.2–ANÁLISE DOS RESULTADOS DO QUESTIONÁRIO ... 101

(9)

ANEXOS ... 143

ANEXO I – Constituição da Associação ... 144

ANEXO II – Diário da República ... 146

ANEXO III – Estatutos da Casa de Cultura Popular de Outeiro Seco... 149

ANEXO IV – Regulamento da Banda Musical da Casa de Cultura Popular de Outeiro Seco ... 154

(10)

Í

NDICE DE

Q

UADROS

Quadro 1 – Educação formal, não formal e informal ... 18

Quadro 2 – Tipologia de formação da banda ... 76

Quadro 3 – Elementos constituintes da banda no ano de 2000 ... 84

Quadro 4 – Elementos constituintes da banda no ano de 2003 ... 85

Quadro 5 – Elementos constituintes da banda no ano de 2004 ... 86

Quadro 6 – Elementos constituintes da banda no ano de 2005 ... 87

Quadro 7 – Elementos constituintes da banda no ano de 2006 ... 88

Quadro 8 – Elementos constituintes da banda no ano de 2007 ... 89

Quadro 9 – Elementos constituintes da banda no ano de 2008 ... 90

Quadro 10 – Elementos constituintes da banda no ano de 2009 ... 91

Quadro 11 – Elementos constituintes da banda no ano de 2010 ... 92

(11)

Í

NDICE DE

G

RÁFICOS

Gráfico 1– Distribuição por sexo ... 101

Gráfico 2 – Distribuição dos elementos da Banda Musical por faixa etária ... 102

Gráfico 3 – Distribuição dos elementos por habilitações literárias ... 102

Gráfico 4 – Formação musical dos elementos constituintes da Banda Musical ... 103

Gráfico 5 – Anos de actividade musical ... 104

Gráfico 6 – Anos de actividade musical numa Filarmónica ... 104

Gráfico 7 – Motivação de ingresso numa Banda Musical ... 105

Gráfico 8 – Grau de receptividade ... 105

Gráfico 9 – Grau de satisfação relativamente ao instrumento que executa ... 106

Gráfico 10 – Grau de satisfação com o repertório da Banda Musical ... 106

Gráfico 11 – Grau de satisfação relativamente à adequação do repertório face à actividade que a Banda Musical desenvolve ... 107

Gráfico 12 – Grau de satisfação quanto adequação dos ensaios à sua vida pessoal e social ... 108

Gráfico 13– Tempo dispensado para a aprendizagem/formação ... 108

Gráfico 14 – Tempo semanal dedicado ao estudo ou prática instrumental (para além dos ensaios) ... 109

Gráfico 15 – Adequação do nível das músicas à capacidade do inquirido ... 109

Gráfico 16 – Nível das músicas executadas ... 110

Gráfico 17 – Nível da Banda Musical ... 110

Gráfico 18 – Preferências relativamente aos momentos de actuação da Band a Musical ... 111

(12)

Gráfico 20 – Grau de satisfação na Banda Musical ... 113

Gráfico 21 – Classificação do convívio entre os elementos da Banda Musical... 114

Gráfico 22 – Espírito de equipa e colaboração ... 114

Gráfico 23 – Divulgação e promoção da aldeia ... 115

Gráfico 24 – Divulgação e promoção da aldeia (comentários) ... 116

Gráfico 25 – Dificuldades sentidas pela banda (comentários) ... 118

Gráfico 26 – O que gostaria de mudar ... 120

Gráfico 27 – Trabalho desenvolvido pelo maestro ... 122

Gráfico 28 – Mudança de maestro ... 124

Gráfico 29 – Mudança de maestro (comentários) ... 124

(13)

Í

NDICE DE

F

OTOGRAFIAS

Fotografia 1 – Casa Paroquial – Sede da ARCOS ... 61

Fotografia 2 – Sede da C. C. P. O. S. ... 62

Fotografia 3 – Banda Musical da C.C.P.O.S. no”Cantar dos Reis” em finais de 1999 .... 79

Fotografia 4 – Banda Musical da C.C.P.O.S. no”Cantar dos Reis” em finais de 1999 ... 80

Fotografia 5 - Banda Musical da C.C.P.O.S. na”Bênção dos instrumentos e fardamento” em Março de 2000 ... 80

Fotografia 6 – Banda Musical da C.C.P.O.S. na”Bênção dos instrumentos e fardamento” em Março de 2000 ... 81

Fotografia 7 – Banda Musical da C.C.P.O.S. na”Feira do Folar” em Abril de 2000 . 81 Fotografia 8 – Banda Musical da C.C.P.O.S. na”Feira do Folar” em Abril de 2000 .. 82

Fotografia 9 – Banda Musical da C.C.P.O.S. na”Torre de Menagem” em Abril de 2000 .. 82

Fotografia 10 – Banda Musical da C.C.P.O.S. no ano de 2000 ... 84

Fotografia 11 – Banda Musical da C.C.P.O.S. no ano de 2003 ... 85

Fotografia 12 – Banda Musical da C.C.P.O.S. no ano de 2004 ... 86

Fotografia 13 – Banda Musical da C.C.P.O.S. no ano de 2005 ... 87

Fotografia 14 – Banda Musical da C.C.P.O.S. no ano de 2006 ... 88

Fotografia 15 - Banda Musical da C.C.P.O.S. no ano de 2007 ... 89

Fotografia 16 – Banda Musical da C.C.P.O.S. no ano de 2008 ... 90

Fotografia 17 – Banda Musical da C.C.P.O.S. no ano de 2009 ... 91

(14)

S

IGLAS

A.A.C. – Academia de Artes de Chaves

A.C.R.E.O.S. – Associação Cultural e Recreativa da Estrada de Outeiro Seco

A.R.C.O.S. – Associação Recreativa e Cultural de Outeiro Seco

A.T.L. – Actividades de Tempos Livres

C. C. P. O. S. – Casa de Cultura Popular de Outeiro Seco

EsProArte – Escola Profissional de Arte de Mirandela

FAOJ – Fundo de Apoio aos Organismos Juvenis

FNAT – Federação Nacional para a Alegria no Trabalho

I.P.J. – Instituto Português da Juventude

INATEL – Instituto Nacional para o Aproveitamento dos Tempos Livres dos Trabalhadores

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(16)

I

NTRODUÇÃO

O presente trabalho insere-se no âmbito do Projecto de Dissertação de Mestrado, do Curso de Mestrado em Ciências da Educação – Especialização em Animação Sociocultural, ministrado na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro – Pólo de Chaves.

Qualquer prática musical levada a cabo por uma Filarmónica, acarreta consigo formas, técnicas e concepções inerentes à região e aos locais por onde desenvolve o seu papel de animadora e defensora das tradições musicais populares e eruditas. A sua identidade é determinada por uma série de estigmas antropológicos marcantes na sociedade portuguesa.

Lameiro refere que:

“A Banda Filarmónica é conjunto de instrumentistas de sopro e percussão, amadores, associados em colectividades a partir de meados do século passado no nosso país, que actuam com fardas mais ou menos próximas das militares, numa grande diversidade de acontecimentos públicos, profanos ou religiosos” (1997:2).

A sua multiculturalidade que hoje apresenta através da execução de temas extra nacionais, faz com que transporte consigo um património sociocultural difícil de encontrar noutras formações não artísticas.

Estas formações transportam consigo uma enorme fonte de riqueza a nível da Musicologia Comparada, da Antropologia Musical e da Etnomusicologia. Por não haver muitos registos capazes de fazerem história, as Filarmónicas apresentam uma enorme potencialidade de pesquisa, trabalho, investigação e reflexão.

Gomes afirma que:

“Cabe, por isso, ao plano interdisciplinar, acolher a etnomusicologia e dar sentido a alguma audácia necessária para, por um lado, a consecução de novos objectivos afectos à própria etnomusicologia e, por outro, para uma evolução do seu conceito, proporcionando novos desafios aos investigadores e reconceptualizando

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No entanto verificam-se algumas dificuldades a nível da investigação, referindo Gomes que:

“As dificuldades sentidas pelo etnólogo criam-lhe o sentimento de marginalidade, na medida em que apesar da dicotomia fazer-se aceitar/ser aceite, casar bem na grande maioria dos casos, ele terá que, como observador, criar os distanciamentos necessários para que a observação tenha a objectividade adequada”(2007:88).

Neste sentido, Gomes afirma ainda que:

“por outro lado, é importante o sentido da curiosidade, isto é, o desejo de conhecimento, o espírito da dúvida, porque há que saber pôr em dúvida o que lemos, o que nos diz o informante e o que nós elaboramos e, além disso, devemos tornear os esquemas pré-concebidos, ou seja, esquemas culturais, de forma a compreendermos outras maneiras de entendermos a realidade”(2007:89).

No entanto é no associativismo, com o associativismo e pelo associativismo que as Filarmónicas vão sobrevivendo e desenvolvendo o seu papel cultural na sociedade.

As inúmeras actividades sociais, culturais e religiosas que desenvolvem, bem como os apoios que lhes são disponibilizados são um meio de sobrevivência essencial para a preservação do património musical português, não esquecendo a formação educativa, lúdica e educacional que elas potenciam. Este mecanismo de divulgação do património musical e cultural só é possível se houver voluntariado.

O associativismo e o voluntariado, por estar inserida numa Associação, a par com a educação permanente e comunitária e ainda a ocupação dos tempos livres serão temas a abordar ao longo do nosso trabalho1. É com base nesse associativismo, no voluntariado, na ocupação do tempo livre e do tempo liberto, na necessidade de afirmação e na colectividade que o trabalho e animosidade deste grupo deve ser dado a conhecer.

Por serem um agrupamento musical com características muito peculiares, muitas vezes não são vistas como um grupo de música tradicional nem erudita. Isto, porque se as observarmos à luz das bandas militares, onde foram “beber”, as actividades que desenvolvem são de carácter militar por desfilarem, usarem um fardamento e músicas militares. Por outro lado, é essencialmente no mundo rural que desempenham o seu papel de animação, recorrendo desta forma à música tradicional.

Os primeiros estudos antropológicos nesta área referem que é nas comunidades

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rurais que se encontraram os primeiros músicos e instrumentos, sendo estes os mentores da nossa identidade cultural. Daí, os costumes e as tradições destas sociedades serem objecto de estudo por parte da Etnologia e da Antropologia, por contribuírem como uma fonte viva e pura da música tradicional portuguesa.

Embora inicialmente este estudo fosse feito ao nível de pequenos grupos de pessoas, ou mesmo de forma individual e isolada. Rapidamente as Filarmónicas pretenderam assumir o complemento destes pequenos grupos, associando-se e alargando os seus horizontes musicais, transformando-se numa especificidade de agrupamento musical muito particular. No entanto, estes agrupamentos musicais não eram vistos pelos estudiosos, como intérpretes de música tradicional, pois foram adicionados instrumentos musicais que não eram autênticos do mundo rural.

Podemos justificar esta selectividade musical e cultural dos estudiosos pelo trabalho desenvolvido por Michel Giacometti e Fernando Lopes Graça. Estes autores, embora tenham tido um trabalho notável ao nível da recolha da música tradicional, da sua harmonização e da respectiva herança que deixaram, das Filarmónicas pouco ou nada escreveram. Nem o papel que as Filarmónicas desenvolveram na formação musical, através de uma educação musical não formal e informal tão importante na cultura musical portuguesa, teve qualquer apontamento por parte destes musicólogos.

Para Lopes-Graça:2

“…apenas os Conservatórios e as Academias de Música são importantes no panorama musical português, descorando o papel importantíssimo que as Filarmónicas desenvolvem na prática amadora da música sendo um veículo de transmissão de valores musicais e de incentivos para futuros músicos profissionais a formar nos Conservatórios e Academias”.

Apenas se entende esta forma de pensar se associarmos estes preconceitos ao facto de ter vivido num período ditatorial, onde muitas vezes estas colectividades e associações musicais eram vistas como uma afronta ao regime.

Acresce ainda o facto de que as Filarmónicas apresentam um cariz militar e um instrumental que não é considerado tradicional. Os instrumentos não são tão elementares como os tradicionais, são mais elaborados, não são construídos pelo artífice e ainda por serem executados por pessoas do povo.

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Só mais tardiamente os estudiosos se interessaram pelas Filarmónicas considerando-as como um movimento válido e enriquecedor pois é um meio de desenvolvimento cultural que requer muito estudo e dedicação. Já se assiste hoje em dia a performances excelentes por parte de músicos das Filarmónicas que até então estavam apenas confinadas aos músicos profissionais dos Conservatórios e Academias. Daí, as Filarmónicas assumirem mais um papel de desenvolvimento de música erudita que da música tradicional e por apresentarem instrumentos musicais mais evoluídos e distintos dos tradicionais, quer a nível da sonoridade, quer da execução.

Verificam-se dois aspectos importantes na apreciação atribuída às Filarmónicas. O primeiro tem a ver com os instrumentos e a particularidade que os tradicionais apresentam, mesmo sendo idênticos, podem variar de região para região, enquanto que os instrumentos das Filarmónicas são construídos em série e assumem características quase universais. O outro aspecto prende-se com o facto de que actualmente as Filarmónicas apresentam um reportório mais clássico e consequentemente considerado mais erudito.

Apesar de as Filarmónicas nunca terem assumido um papel relevante nem um estatuto que merecesse uma abordagem mais entusiasta por parte dos estudiosos, Gomes refere que:

“(…) elas são consideradas como as grandes mentoras do desenvolvimento musical da sociedade, por terem alimentado as bandas militares e ao mesmo tempo desenvolverem actividades recreativas e culturais ímpares e inigualáveis paralelamente com outras associações de carácter musical e não só”(Gomes, 2007).

Muito apreciadas na segunda metade do século XIX e no início do século XX, foram desprestigiadas durante o Estado Novo, sendo no último quartel do século XX que a sociedade valorizou e reconheceu o papel das Filarmónicas e se preocupou com a revitalização, criação, desenvolvimento e estudo destas.

No entanto, a antiga FNAT e o INATEL são os responsáveis pela valorização e progresso das Filarmónicas, promovendo uma série de iniciativas artísticas e culturais associadas à música tradicional, como refere Lopes:

“Todas as suas atribuições, fortemente marcados pelos princípios ideológicos oficiais, visaram a acção educativa e recreativa e a promoção de actividades e o uso de equipamentos integrados no âmbito da acção (…), saraus de música e de teatro, (…) centros de cultura profissional ou geral”(2008:108,109).

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Contam ainda com diversas ajudas por parte do IPJ, Câmaras Municipais e outras instituições de apoio que, mesmo ao abrigo da Lei do Mecenato, vão patrocinando estas colectividades, contribuindo desta forma para a preservação do Património Musical Português.

Certo é que nos tempos que correm, as dificuldades são acrescidas, os apoios escassos, sendo as actividades recreativas cada vez menos.

Assim, pretendemos, com o desenvolvimento deste projecto de investigação e concretamente com o estudo de caso, aflorar estes assuntos de forma precisa e concisa, centrando-nos apenas na Banda Musical da Casa de Cultura Popular de Outeiro Seco.

O estudo em causa refere-se à criação da Banda Filarmónica da Casa de Cultura Popular de Outeiro Seco – Chaves, que foi fundada em 4 de Janeiro de 1999.

Para a materialização dos objectivos propostos, tivemos algumas dificuldades na recolha de bibliografia referente à temática em análise. Desta forma, decidimos complementar e ampliar a nossa investigação, articulando o estudo com outras áreas da Animação Sociocultural.

Com esta investigação pretende-se, ainda, e de forma indelével, abordar as delimitações históricas, sociológicas, culturais e evolutivas de uma Banda Filarmónica e em particular a evolução da investigação apresentada.

A escolha da Banda Musical da Casa de Cultura Popular de Outeiro Seco para o estudo de caso teve como ponto-chave a própria relação que este grupo tem com o mestrando, uma vez que foi seu fundador, criador e maestro.

Consideraremos uma breve apresentação e discussão dos procedimentos e pressupostos teóricos e metodológicos que nortearam a nossa investigação, as fontes documentais e a relação que foi estabelecida com elas e que em seguida será apresentada.

A maior parte das fontes produzidas e construídas no processo interactivo da pesquisa, da relação directa entre o investigador e os sujeitos históricos, as condições em que a pesquisa foi feita, por via da interactividade com o grupo, o diário de bordo e os seus problemas metodológicos, são parte constitutiva da própria análise, trazendo

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percepção das suas características, dificuldades, ambiguidades e contradições.

A experiência pessoal e profissional do investigador foi principal pilar de apoio para a consecução, desenvolvimento e projecção da temática por nós abordada, uma vez que as expectativas eram elevadas e o apoio bibliográfico bastante escasso.

Feita a revisão literária e bibliografia preconizada para esta abordagem, efectuado o enquadramento teórico da investigação e explorados os registos existentes, preconizamos para este trabalho a estrutura que em seguida é apresentada.

No Capítulo I, será feito o enquadramento do estudo com uma abordagem sobre os parâmetros da investigação, delineando objectivos de trabalho, hipóteses a testar e indicações genéricas do processo de estudo de caso.

No Capítulo II, percorreremos a temática da Animação Sociocultural, abordando o contexto histórico da mesma, a Educação Formal, a não Formal e a Informal e, ainda, a Música na Animação Sociocultural.

No Capítulo III, focalizamos o aparecimento e a importância da Música na Animação Sociocultural com breves referências ao contexto histórico da Música como forma de Animação, a importância da aprendizagem musical nas Bandas Filarmónicas, a metodologia de ensino nestes contextos e, também, o Perfil do Animador Musical.

O Capítulo IV tem como ponto de partida os pressupostos da metodologia e da respectiva natureza metodológica, bem como a natureza do estudo e o estudo de caso. Refere ainda a recolha de dados, a observação participante, a amostra, o inquérito por questionário e a análise de conteúdo.

O Capítulo V refere-se à Casa de Cultura Popular de Outeiro Seco, fazendo uma abordagem histórica e sociológica das vertentes do associativismo e do voluntariado que irão servir de base para a valência musical desta associação.

No Capítulo VI, é aprofundado o historial da Banda Musical da Casa de Cultura Popular de Outeiro Seco, a sua origem e fundação, a metodologia de ensino preconizada para a sua formação musical, a estrutura e funcionamento, o seu desenvolvimento e,

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No Capítulo VII, serão apresentados os resultados da aplicação do questionário à Banda Musical, explanadas as referências e alusões por eles proferidas bem como a transcrição na íntegra de todas as afirmações.

Por último, manifesta-se uma síntese conclusiva do estudo apresentado, expondo, por um lado, as constatações que nos levaram à compreensão desta realidade social, associativa e musical, e por outro lado, alguns limites verificados face às expectativas inicialmente criadas, acautelando o aperfeiçoamento que possa vir a suceder.

(23)

CAPÍTULO I

(24)

1.1 –NOTA INTRODUTÓRIA

Para se abordar convenientemente este tema, e embora não esgotando de forma alguma todas os paradigmas teóricos nem todas as dimensões analisadas na história da música, da animação e do associativismo, considerámos importante fazer primeiro um enquadramento da disciplina no quadro mais geral da prática da investigação.

O estudo de caso terá uma metodologia de investigação centrada no modo de pesquisa qualitativo e com uma configuração de paradigma não só interpretativo (naturalista e qualitativo) mas também sócio-crítico (por via da paridade e da partilha).

O nosso papel enquanto investigadores deste caso teve uma observação participante pois o mentor deste projecto, o mestrando, foi fundador desse grupo, o formador musical e é o maestro.

Como refere Russo, a partir do estudo em causa, vamos procurar

“perceber o seu processo de dinamização ao longo do tempo, as funcionalidades que foi adquirindo, o modo de funcionamento que foi adoptando, a forma como tem sido apreendida e assumida pela sociedade e o contexto a que está actualmente vinculada”(2007:1).

Estes dados vão-nos permitir analisar e reflectir sobre alguns aspectos socioculturais que estão inerentes a esta prática musical e que nos poderão ajudar a interpretá-la com maior clareza e a abordar os processos de identidade e patrimonialização que lhe estão associados

A Educação Musical não formal e informal será o tema principal de estudo do presente trabalho e por ser um grupo heterogéneo, serão abordados temas referentes à educação musical na Juventude e na Idade Adulta.

Também o perfil do Animador Sociocultural na vertente de Animação Musical será objecto de referência e estudo.

(25)

1.2–PARÂMETROS DA INVESTIGAÇÃO

Os fundamentamos da escolha da temática abordada, os objectivos de trabalho, as questões de partida, as hipóteses a testar e a metodologia utilizada, bem como as técnicas e os instrumentos de pesquisa são a base de construção da nossa investigação.

1.2.1 – Objectivos do Trabalho

O objectivo de valorizar o ser humano servindo-se de recursos socioeducativos, como por exemplo a prática instrumental em âmbitos associativos, são ferramentas fundamentais da educação para o ócio e uma forma de educação transversal de carácter sociocultural. É com base neste pressuposto que propomos os seguintes objectivos:

-

Demonstrar a importância da Animação Sociocultural e em particular a Animação Musical, na criação de uma Banda Musical;

-

Compreender a importância da Animação Sociocultural como veículo de motivação para actividades musicais e de preservação do Património Musical;

-

Contribuir para a compreensão da música em relação à sociedade, à história e à cultura (Outeiro Seco/região);

-

Contribuir para a valorização do património artístico/musical;

-

Investigar o papel da música em diferentes contextos sociais, culturais, históricos e estéticos;

(26)

desenvolvimento bio-psico-social;

-

Compreender as transformações “sócio-históricas” e “socio-técnicas” de acordo com o desenvolvimento e crescimento da Banda;

-

Valorizar o Cultural/Social/Educativo no contexto da Educação Musical não formal e informal;

-

Enumerar factores de bloqueio que impedem o desenvolvimento (artístico, relacional e de participação);

-

Contribuir para a valorização dos tempos livres das diferentes faixas etárias;

-

Desenvolver capacidades de trabalho em equipa, contribuindo assim para uma dinâmica de grupo que permita articular o trabalho individual para proveito colectivo;

-

Incentivar a participação individual, como forma de afirmação do indivíduo dentro de um grupo, sensibilizando para a interacção com os outros elementos, visando uma valorização individual e colectiva;

-

Promover o convívio inter-geracional, com o objectivo de aproximar a comunidade e o meio envolvente;

-

Dar a conhecer melhor a Banda Musical da Casa de Cultura Popular de Outeiro Seco.

1.2.2 – Questões de partida

As nossas preocupações face à problemática da Banda Musical da Casa de Cultura Popular de Outeiro Seco, levam-nos a levantar as seguintes questões:

-

De que forma a Animação Sociocultural influencia as dinâmicas da Banda Musical?

(27)

suficientes para a consecução dos objectivos da colectividade?

-

Qual o contributo educativo musical e geral da Banda para os seus elementos?

-

Como contribui a Banda para a compreensão da importância da música na sociedade, numa perspectiva de construção da história e cultura da aldeia de Outeiro Seco e na preservação do património artístico/musical?

-

Em que medida a Banda é promotora de animação social, cultural,

educativa e política da comunidade em que está inserida?

São estas questões que marcam o trilho da nossa investigação, no sentido de dar uma resposta à problemática inerente a um projecto com esta temática.

1.2.3 – Hipóteses

O desenvolvimento dos objectivos acima descritos assenta nas seguintes hipóteses:

-

A Animação Musical/Animação Sociocultural é factor relevante na dinâmica da Casa de Cultura Popular de Outeiro Seco em geral e da Banda Filarmónica em particular;

-

Os recursos humanos e físicos existentes são suficientes para a actividade da Banda;

-

A Associação tem capacidade para dinamizar acções de desenvolvimento da Animação Musical;

-

A prática musical realizada na Banda potencia os elementos constituintes da mesma, numa perspectiva de educação permanente e comunitária;

-

A Banda Musical promove a compreensão da música em relação à sociedade, à história e à cultura (Outeiro Seco/região) e a valorização e

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-

A Banda Musical é um veículo promotor de desenvolvimento cultural e educativo.

Todas as hipóteses apresentadas assentam num pressuposto de recolha e tratamento de informação recolhida com base nas técnicas metodológicas a utilizar.

Pretendemos ser objectivos e, o mais claros e específicos possíveis, no sentido de melhor podermos transmitir o trabalho realizado.

Por estar em causa o desenvolvimento de tarefas de coordenação e intervenção artísticas por parte do mentor do projecto, não queremos, de alguma forma, ocultar dados que possam interferir na qualidade e na capacidade interventiva e de acção do mestrando.

1.2.4 – Indicações genéricas do processo estudo de caso

O estudo apresentado tem como perspectiva metodológica um estudo de caso, confinado a uma amostra constituída pelos elementos da Banda Musical da Casa de Cultura Popular de Outeiro Seco cuja recolha de dados será feita através de análise documental, observação, inquéritos por questionário à amostra e aos intervenientes directos, fotos e narrativas, como descreveremos no Capítulo VII.

O paradigma interpretativo, naturalista e qualitativo em que se insere o estudo e face à observação directa e participante por força da intervenção/acção/participação em que nos encontramos poderá levar a resultados qualitativos subjectivos.

Com vista à validação das hipóteses definidas aplicar-se-á a metodologia seguidamente exposta:

-

Sistematização das fontes de informação relevantes;

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partida que a base de estudo tem um carácter local, pelo que se recorrerão a fontes internas para obtenção dos elementos;

-

Selecção de uma amostra estatisticamente representativa da realidade em estudo;

-

Preparação do modelo de questionário a aplicar;

-

Teste do questionário a um conjunto reduzido de elementos da amostra;

-

Recolha e validação dos dados;

-

Tratamento estatístico dos dados.

A análise de conteúdo será feita numa perspectiva

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CAPÍTULO II

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2.1–CONCEITOS E ÂMBITOS DA ANIMAÇÃO SOCIOCULTURAL

A evolução contínua e inevitável da sociedade sofre inúmeras transformações culturais, sociais, políticas e económicas.

Apesar de se verificar uma grande evolução da espécie humana e consequentes registos da mesma evolução, torna-se difícil delimitar um marco histórico para o desenvolvimento, crescimento e aperfeiçoamento de todos os acontecimentos.

A Animação Sociocultural também não foge à regra. Não a conseguimos circunscrever a um determinado espaço nem localizá-la no tempo.

Como refere Lopes:

“Por antecedentes da Animação entendemos qualquer acção, com dimensões social, cultural e educativa, que tenha por objecto dinamizar programas junto das populações” (2008:95).

Assim, desde tempos remotos, a Animação Sociocultural desempenha um papel preponderante na evolução do Homem em que o social, o cultural e o educativo está sempre presente.

É esta evolução e consequente processo contínuo de construção que nos leva a sermos mais autónomos, mais desenvolvidos e desta forma contribuirmos para o crescimento comunitário.

Esta perspectiva tridimensional da Animação Sociocultural será objecto de referência no ponto 3.2 do Capítulo III, quando abordarmos os âmbitos da Animação Sociocultural no contexto Histórico da Música, como forma de Animação.

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2.2–EDUCAÇÃO FORMAL,NÃO FORMAL E INFORMAL

Segundo La Belle, define-se educação não formal como

“toda actividade educacional organizada, sistemática, executada fora do quadro do sistema formal para oferecer tipos seleccionados de ensino a determinados subgrupos da população” (1982:2).

Uma definição que mostra a ambiguidade dessa modalidade de educação, já que ela se define em oposição (negação) a um outro tipo de educação: a educação formal.

Com base na perspectiva de Ventosa, Gomes apresenta o seguinte quadro referência para os três modelos de educação.

Quadro 1- Educação formal, não formal e informal Educação formal

Sector da educação que pertence ao sistema educativo de um país e que, por isso, tem um carácter arrumado, isto é, com uma estruturação de objectivos, conteúdos, requisitos e atribuição de títulos e diplomas.

Ex: Nono ano, décimo segundo ano, bacharelato, licenciatura, mestrado, doutoramento.

Educação não formal

Aquele tipo de educação que, ainda que sistemática e estruturada, não entra dentro do sistema educativo, permanecendo à margem da regulação e reconhecimento oficial que aquele promove e outorga.

Ex: Educação do tempo livre, academias, grupos musicais integrados em ambientes associativos, oficinas, etc.

Educação informal

Todos aqueles processos que, sem ter uma intencionalidade educativa explícita, influem nas condutas, valores e conhecimentos das pessoas de uma maneira não sistemática.

Ex: Os média, a publicidade, os amigos, etc.

FONTE: Gomes (2007:37)

Usualmente define-se a educação não formal por uma ausência, em comparação com a escola, tomando a educação formal como único paradigma, como se a educação formal escolar também não pudesse aceitar a informalidade, o extra-escolar.

Gostaríamos de definir a educação não formal por aquilo que ela é, pela sua especificidade e não pela sua oposição à educação formal. Como diz Paulo Freire:

“Se estivesse claro para nós que foi aprendendo que aprendemos ser possível ensinar, teríamos entendido com facilidade a importância das experiências informais nas ruas, nas praças, no trabalho, nas salas de aula das escolas, nos pátios dos recreios, em que

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variados gestos de alunos, de pessoal administrativo, de pessoal docente se cruzam cheios de significação” (1997:50).

Segundo Gomes:

“A educação formal é aquela que tem como suporte toda a legislação que orienta e regulamenta os sistemas educativos, dando-lhe credibilidade através do reconhecimento das competências e formação aí adquiridas, através de certificados e diplomas, remetendo as aprendizagens formais para o âmbito da educação escolar (…) a não formal, sem reconhecimento por parte do sistema educativo, apesar de sistematizada, desenvolve-se em contextos de trabalho ou de acções de formação sem reconhecimento formal, isto é, sem a certificação ao nível escolar ou profissional (…) a informal será potenciadora de aprendizagens informais (…) A educação informal é o processo que tem lugar ao longo da vida e pelo qual todo o indivíduo adquire atitudes, valores, habilidades e conhecimentos a partir das experiências diárias e das influências de recursos educativos do seu meio: a família, os vizinhos, o trabalho, o jogo, o mercado, a biblioteca e os meios de comunicação. (2007:38,39)

Toda educação é, de certa forma, educação formal, no sentido de ser intencional, mas o cenário pode ser diferente: o espaço da escola é marcado pela formalidade, pela regularidade, pela sequencialidade.

Gostaríamos, a seguir, de nos referir a um exemplo concreto de um espaço cada vez mais utilizado para na educação tanto formal quanto não formal. Trata-se do ciberespaço da formação propiciado pelo avanço das novas tecnologias.

As novas tecnologias da informação criaram novos espaços do conhecimento. Agora, além da escola, também a empresa, o espaço domiciliar e o espaço social tornaram-se educativos. Cada dia mais pessoas estudam em casa, podendo, de lá, aceder ao ciberespaço da formação e da aprendizagem a distância, procurar fora das escolas a informação disponível nas redes de computadores interligados, serviços que respondem às suas procuras pessoais de conhecimento. Por outro lado, a sociedade civil está a consolidar-se, não apenas como espaço de trabalho, mas também como espaço de difusão e de reconstrução de conhecimentos. Como previa McLuhan na década de 60,

“o planeta tornou-se a nossa sala de aula e o nosso endereço. O ciberespaço rompeu com a ideia de tempo próprio para a aprendizagem. O espaço da aprendizagem é aqui, em qualquer lugar; o tempo de aprender é hoje e sempre”(1969).

Hoje vale tudo para aprender. Isso vai além da reciclagem e da actualização de conhecimentos e muito mais além da assimilação dos próprios conhecimentos. A sociedade do conhecimento é uma sociedade de múltiplas oportunidades de

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geral são enormes. É essencial saber comunicar, saber pesquisar, ter raciocínio lógico, saber organizar o seu próprio trabalho, ter disciplina para o trabalho, ser independente e autónomo, saber articular o conhecimento com a prática e ser aprendiz autónomo e a distância.

Neste contexto, o “professor” é muito mais um mediador do conhecimento, deixará de ser um “leccionador” para se tornar num aprendiz permanente, num construtor de sentidos, num cooperador, e sobretudo, num organizador da aprendizagem.

O “aluno” precisa construir e reconstruir conhecimento a partir da prática. De nada adiantará ensinar, se os alunos não conseguirem organizar o seu trabalho, serem sujeitos activos da aprendizagem, auto-disciplinados e motivados.

Hoje as teorias do conhecimento estão centradas na aprendizagem. Mas só aprendemos quando nos envolvemos profundamente naquilo que aprendemos, quando o que estamos a aprender tem sentido para as nossas vidas.

Hoje não podemos estabelecer fronteiras muito rígidas hoje entre o formal e o não-formal. Na escola e na sociedade, interagem diversos modelos culturais. O currículo consagra a intencionalidade necessária na relação intercultural pré-existente nas práticas sociais e interpessoais. Uma escola é um conjunto de relações interpessoais, sociais e humanas onde se interage com a natureza e o meio ambiente. Os currículos mono culturais do passado, voltados para si mesmos, etnocêntricos, desprezavam o não-formal como extra-escolar, ao passo que os currículos interculturais de hoje reconhecem a informalidade como uma característica fundamental da educação do futuro. O currículo intercultural engloba todas as acções e relações da escola; engloba o conhecimento científico, os saberes da humanidade, os saberes das comunidades, a experiência imediata das pessoas, instituintes da escola; inclui a formação permanente de todos os segmentos que compõem a escola, a consciencialização, o conhecimento humano e a sensibilidade humana, considera a educação como um processo sempre dinâmico, interactivo, complexo e criativo.

Por último, a educação informal possui muitas significações distintas. Há autores que definem a educação informal como sendo aquela que está relacionada com o

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processo livre de transmissão de certos saberes, tais como: a fala comum a um dado grupo, as tradições culturais e demais comportamentos característicos das diversas comunidades presentes numa sociedade. Outros autores, utilizam outra terminologia: Educação Extra-Escolar que pode designar, não só os processos educativos anteriormente mencionados, mas também todo e qualquer processo educativo ocorrido em instituições que não pertençam às escolas, tais como cursos ministrados por instituições cuja actividade não seja a educação.

Poderemos enquadrar a Banda Musical neste leque de educação não formal e informal, uma vez que deixamos as escolas profissionais de música para a educação formal atendendo a que, cada vez mais, os jovens procuram estas instituições de ensino.

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2.3–AMÚSICA NA ANIMAÇÃO SOCIOCULTURAL

É numa perspectiva de Educação Não Formal e Informal que assenta o nosso estudo. Desta forma, deixamos, para as instituições públicas, a Educação Formal.

Vista numa perspectiva de convívio, partilha e socialização, a música é um veículo capaz de evangelizar uma comunidade, contribuindo desta forma para o bem-estar, realização e educação de um grupo.

O propósito pedagógico, a cooperação e a troca de saberes fazem com que as diferentes faixas etárias existentes no grupo investigado, sejam enriquecedoras e facilitadoras da integração e partilha inter-geracional.

A Música constitui para a Animação Sociocultural, como refere Ventosa:

“(…) uma fonte inesgotável de prazer e diversão, assim como um eficaz instrumento

para por em marcha posteriores processos sócio-educativos”(1999:33).

Por outro lado, o mesmo autor afirma que a Animação Sociocultural:

“(…) oferece uma ponte entre a potencialidade criativa, lúdica e motivacional da música e a capacidade das pessoas para se auto-apropriarem dela com vista a um desenvolvimento e melhoria da sua qualidade de vida”(1999:33).

Pelas afirmações já proferidas e, por ser uma linguagem universal, podemos constatar que a Música mantém uma relação muito estreita com a Animação Sociocultural uma vez que é um veículo de educação intercultural, multicultural, geracional e inter-geracional.

A participação voluntária das pessoas no desenvolvimento da actividade musical numa Filarmónica, com base no associativismo, é uma condição que valoriza o crescimento pessoal, social, comunitário, pedagógico e etnomusical.

A educação permanente e comunitária está subjacente ao desenvolvimento deste projecto, uma vez que a música, como forma de Animação, é tratada ao nível do não

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formal e informal, não esquecendo a carga temática constante que a própria música tem, na sociedade, para além do formal, no Sistema Educativo, na medida em que, grosso modo, a maior parte dos elementos da Filarmónica usufruíram da Educação Musical no 2º Ciclo do Ensino Básico.

Podemos considerar que a Música, melhor, a Animação Musical, âmbito da Animação Sociocultural, praticada na Banda Musical, interage com a Educação Musical-educação formal no sentido de valorização educacional e de auto auto-realização individual e consequentemente da comunidade onde está inserida.

Lobo, citado por Gomes, refere que:

“O interesse da participação de um indivíduo numa actividade sociocultural parece-me evidente, por duas entre muitas outras razões; como contributo para o desenvolvimento intelectual, no caso vertente de música, as suas pontes multidisciplinares são um instrumento de excelência para esse desenvolvimento; como exercício profiláctico, quem canta seus males espanta. A participação num coro ou num grupo instrumental, tal como outros exercícios lúdicos, tem efeitos positivos, comprovados, na saúde dos cidadãos. Poder-se-ia, a partir destes parâmetros, deduzir outros como uma consequência natural. Referirei um, pela sua actual premência: o factor económico. Para além do contributo que os cidadãos possam dar à sociedade, mesmo no plano lúdico e amador, como é sabido, existem coros e bandas filarmónicas do mais alto nível artístico. Está comprovado que a capacidade produtiva, sobretudo face às tarefas contemporâneas, é mais elevada nos indivíduos cujo exercício mental é dinamizado pela prática lúdica”(2007:435,436).

O sentimento de pertença, de identidade, de socialização e de solidariedade subjacente a estas organizações, devidamente hierarquizadas, funcionam como terapia ocupacional e despiste vocacional a nível musical. É neste contexto e, atendendo à situação geográfica da nossa região e às ofertas a nível de formação Musical no âmbito da educação formal e vocacional, que podemos considerar que estas organizações associativas são o despoletar de interesses musicais e potenciadoras de uma aprendizagem musical conducente a uma consolidação vocacional ao nível da música que leva muitos praticantes a integrar Bandas profissionais (Militares) e Orquestras.

Desta forma, Ribeiro, citado por Gomes, relata que:

“Há que referir aqui duas vertentes: a Lúdica/Recreativa e a Formativa.

A Banda Filarmónica é normalmente um organismo de referência e muito acarinhado pela comunidade que lhe dá corpo, e é-o tanto mais quanto menor é a extensão dessa comunidade.

Inicialmente as famílias encaminham os seus filhos para a aprendizagem da música porque é bonito ou por outras motivações menores, mas constatam a seguir que para além dessas formas mais simples eles interiorizam valores de maior importância na

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convivência do trabalho em conjunto (Grupo), no desenvolvimento da própria sensibilidade de análise aos mais variados níveis.

Sem haver estudos concretos em Portugal, constata-se na prática que estas pessoas, em comparação com estratos idênticos, mais desenvolvidas intelectualmente, divertem-se muito com o trabalho que realizam, ao mesmo tempo que prestam um serviço à comunidade na componente recreativa, ou seja, na animação sociocultural.

Para além desta ser por excelência uma forma de ocupação de tempos livres, evitando na maior parte dos casos, possíveis desvios aos referidos jovens.

Na vertente formativa reveste-se da maior importância o facto de muitas vezes se aderir à escola de música da filarmónica apenas para ocupar o tempo livre, conviver, divertir, encontrando-se a vocação desconhecida, e partindo-se para uma carreira em muitos casos de grande sucesso.

Também aqui, as Banda Filarmónicas fazem um trabalho de excelência, que é tanto maior quanto melhor for a capacidade pedagógica dos professores dessa escola, como é evidente.

Assim, para além da animação sociocultural que desenvolve na comunidade, realiza um trabalho importantíssimo na procura de vocações e no encaminhamento dos seus alunos para os escalões adequados das progressões profissionais no campo da música”

(2007:54).

Se analisarmos a Banda à luz do associativismo, verificamos que, pelo facto de estar integrada numa associação, são geradoras de conhecimento e garantem a partilha de oportunidades notáveis ao nível da interactividade com outros grupos similares, assimilando mutuamente, quer os conceitos directamente ligados à música quer outras experiências. São estas práticas partilhadas que garantem laços de fraternidade e consequente crescimento cultural e intelectual.

Por serem grupos específicos e tratarem apenas a temática musical, não descoram outros valores, que, pela experiência que temos na dinamização destes grupos, caem no marasmo da inércia e no descalabro da adversidade.

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CAPÍTULO III

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3.1–BREVES NOTAS SOBRE A ORIGEM E IMPORTÂNCIA DA MÚSICA

Não podemos definir com rigor a origem da Música. Sabemos sim, que desde sempre o Homem sentiu necessidade de se manifestar, quer através de sons extremamente simples emitidos por diferentes fontes sonoras, no passado, quer através de grandes obras musicais na actualidade.

“Segundo a lenda chinesa “LIÙ”, o poderoso Imperador Hoang-Ti, ordenou que houvesse música no seu reino e que o seu ministro se organizasse para tal. Dirigiu-se este, a um vale misterioso, nos confins do Império, onde permaneceu durante algum tempo. De volta contou que vira lá no fundo do vale, bambus maravilhosos. Cortou um pedaço de cana, soprou nele e obteve som. Este som era igual ao da sua voz quando falava com plena calma e sem qualquer compaixão e também igual ao de um regato que corria no vale. Então duas aves maravilhosas vieram poisar numa árvore. A primeira cantou seis sons a partir daquele que o ministro obtivera no bambu; a outra deu outros seis sons intermédios dos primeiros. O ministro, que se chamava Ling-Liu, ouviu atentamente e cortou doze canas correspondentes aos sons ouvidos. Reuniu-os e organizou assim, a escala, cumprindo a sua missão”3.

“A história da música imerge na história do Homem. Não há certezas sobre a sua origem e será muito difícil descobrir o porquê da sua génese. Em termos concretos, o que se sabe dos primórdios da nossa actividade musical provém essencialmente de alguma iconografia que sobreviveu a milhares de anos. As pinturas rupestres serão, por ventura, consideradas como o mais antigo testemunham da nossa história musical e que parecem evidenciar que o Homem pré-histórico já usava os sons de forma intencional”4.

Para o homem e para as culturas primitivas, a música não é uma arte, mas sim um poder cuja força se localiza na origem do próprio universo. Esta perspectiva encontra-se igualmente nas obras, ou fragmentos de obras, que nos chegaram da

3

http://www.aceav.pt

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antiguidade, nas quais a música aparece, frequentemente, associada a uma origem divina, aos mitos, a uma ideia de sobrenatural ou ainda aos elementos cósmicos.

Tanto Platão como Aristóteles mostraram apreensão acerca dos efeitos de determinados tipos de harmonias, pelo que se detiveram de forma pormenorizada na análise do tipo de música – modos, ritmos e instrumentos – que poderiam ser permitidos numa civilização ideal. Em A República, Platão estabelece diferenças entre vários tipos de harmonias e seus efeitos e define os tipos de música que deveriam ser permitidos numa civilização ideal.

Por outro lado, Aristóteles associa estados anímicos tais como dor ou embriaguez, entre outros, aos diversos modos da música grega, isto é, pressupondo que cada ritmo, cada som ou escala teriam o seu éthos respectivo.

Atentando aos pressupostos da teoria do éthos, na ideia que a música pode afectar o carácter e que os diferentes tipos de harmonia têm sobre ele efeitos diferentes, encontramos a essência das ideias que preconizam a actual musicoterapia.

A relação da música com a medicina também é longínqua. Remonta, provavelmente, à civilização egípcia a origem dos primeiros escritos sobre a acção da música no corpo humano em que mencionam, através de registos em papiros, a influência benéfica da música na fertilidade da mulher. Também são referências importantes as lendas da mitologia grega que enumeram episódios sobre o poder calmante e terapêutico da música.

No Antigo Testamento atribuíam-se à música poderes idênticos: “Todas as vezes

que o espírito de Deus o acometia, David tomava a lira e tocava; então Saul se acalmava, sentia-se melhor e o mau espírito o deixava” (Bíblia de Jerusalém, Samuel

16, 23).

Nesta óptica, a música deixaria de ser uma medicação externa e passaria a fazer parte do processo terapêutico.

O conceito de música na actualidade não tem muito em comum com aquela força misteriosa que os antigos associaram aos deuses e à magia. Do mesmo modo, o

(42)

percurso da Musicoterapia foi também polissémico, ou seja, os efeitos da música foram igualmente atribuídos a forças extra-sensoriais. Se ao longo da história ambas foram alvo de interesse nos contextos da magia, da religião, da filosofia, da política, da ética e da ciência, poder-se-á deduzir a possibilidade de a música ser tão importante por causa do seu efeito sobre o ser humano e a natureza em geral, sem pretender desvalorizar a fruição estética.

Como refere Gomes:

“A música sempre acompanhou o homem no seu dia a dia, sendo necessária, não só para ilustrar certos momentos da vida, mas também para exprimir estados de espírito, emoções e sentimentos. A sua prática carece sempre de processos de aprendizagem que se podem desenvolver, ou não, em contextos regulados por leis, normas, decretos, despachos, portarias, assumindo um carácter formal no primeiro caso e não formal ou até informal no segundo, conforme o grau de organização concebido. A música faz parte do património da humanidade e, como tal, está presente nos vários sistemas educativos, fazendo parte dos currículos dos cursos que integram esses mesmos sistemas”(2007:51).

Pelo que foi referido, parece-nos pertinente pensar na Musicoterapia como um modo de auto e hetero ajuda e de enriquecimento pessoal, social e cultural. Simultaneamente, poder-se-á olhar para esta área da ciência, recente e ao mesmo tempo tão enraizada na nossa natureza, como uma forma intrinsecamente humana de promover o encontro de cada sujeito consigo próprio e, a partir daí, com os outros e com o mundo.

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3.2–CONTEXTO HISTÓRICO DA MÚSICA COMO FORMA DE ANIMAÇÃO

A música é mais velha que a humanidade. Ela não necessita do ser humano para nascer, para ser. Contudo, para ser percebida, não prescinde dos órgãos e sentidos de alguma coisa viva, pois ela própria é algo vivo.

Desde tempos remotos que a música tomou um papel preponderante na animação, no passatempo e ainda como forma de agradecimento ou incentivo perante determinados acontecimentos.

Numa abordagem da Sociologia da Música, Gomes afirma em forma de conclusão que:

“… a intenção e o uso da música na sociedade, a compreensão do papel da música na cultura e na sociedade como forma de expressão, o contexto em que a música é criada, o seu valor para os povos em cuja cultura habita, os instrumentos utilizados e a transformação da própria música na nossa sociedade, bem como a interacção entre músicos, e o seu papel cooperativo, educativo, promotores do desenvolvimento individual e comunitário, são aspectos a considerar na análise sociológica da música”

(2007:99).

A valorização filosófica, pedagógica, espiritual e religiosa, da qual se revestiu a música entre os gregos, desde os tempos homéricos, não emprestou a sua importância àqueles que se empenharam, como profissionais, a prestigiar a arte das Musas. No entanto verificou-se sempre uma certa ambiguidade. Mesmo prevalecendo o julgamento de que fossem pessoas suspeitas, muitos desprezavam essas retaliações e preferiam reconhecer os méritos dos prodigiosos concertistas e professores que sabiam engrandecer essa arte cuja linguagem era tão apreciada pelos gregos. Indiferente às censuras filosóficas e moralistas, o público que acorria às competições musicais aplaudia efusivamente os vencedores pela sua destreza técnica e inspiração.

À medida que a história evoluiu também, a animação com recurso à música evoluiu. Os propósitos da animação através da música passaram por várias fases de transformação de acordo com as influências e propósitos de cada época. Desde a

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pré-história, passando pelo mundo helénico, pelo cristianismo, pelo tempo pitoresco dos trovadores, pela polifonia da Alta Idade Média, pela animação no teatro medieval, o nascimento da ópera, o grande barroco, a sinfonia, o romantismo, a animação nas cortes e o novo universo sonoro da electrónica são, sem dúvida, o enorme potencial na animação das sociedades ao longo do tempo.

A música é uma expressão espontânea de vida, um meio de comunicação que o ser humano desenvolveu até a tornar uma arte. É também um recurso ao serviço de todas as artes, desde o culto religioso, à expressão de sentimentos, passando pela animação das diferentes sociedades e em diferentes contextos. Sempre assumiu o papel principal quer como arte “individual”, quer associada ao teatro, dança, cinema, desenho animado ou mesmo representações quotidianas. Enfim, a música está presente em tudo e em todos os locais, quer de culto, quer de trabalho ou recreio, provocando reacções nas pessoas.

Neste âmbito podemos aflorar o conceito de Animação Sociocultural (âmbitos e técnicas), para melhor entendermos o perfil do animador musical enquanto promotor do desenvolvimento social, cultural e recreativo do grupo a que se refere o presente estudo.

Como refere Lopes:

“Falar em âmbitos da Animação Sociocultural significa ter presente a perspectiva tridimensional respeitante às suas estratégias de intervenção: dimensão etária (…), espaço de intervenção (…), pluralidade de âmbitos ligados a sectores de áreas temáticas (…)”(2008:315).

Desta forma, a Banda Musical apresenta uma dimensão etária essencialmente juvenil e adulta, com espaço de intervenção urbana e rural (apesar de se situar no meio rural) e com uma pluralidade de âmbitos que passam pela educação musical, pela ocupação dos tempos livres, pela comunidade, pelo turismo e consequentemente pela preservação do património musical português.

Por ser um grupo maioritariamente jovem, verificamos a necessidade de implementar referência de liberdade, de participação e de voluntariado, não esquecendo o propósito de, como refere Lopes:

“(…)proporcionar aos jovens alternativas para uma Animação do tempo livre e tempo de ócio numa perspectiva (…) de valorização pessoal e social; fomentar (…) aprendizagens diversas (…); favorecer o interagir e a inter-relação dos jovens (…); concretizar o triângulo constitutivo da animação (…)”(2008:319).

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Não podemos descorar os adultos que fazem parte deste grupo e para os quais teremos de adoptar também uma postura e uma intervenção capazes de os sensibilizar e motivar para a ocupação dos seus tempos. Desta forma Lopes afirma que:

“É na faixa etária da idade adulta que se justapõem três tempos diferentes, o tempo de trabalho, o tempo livre e o tempo liberto, ou seja o tempo de ócio” (2008:325).

Se considerarmos a Banda Musical como uma metodologia, na sua dimensão ética e no espaço de interacção na área temática da música, verificamos que ela dá um contributo fenomenal no âmbito do associativismo, do voluntariado, da preservação do património cultural, da promoção da localidade onde está inserida, mas também na valorização e formação dos jovens e ainda na ocupação do tempo livre e de ócio dos elementos constituintes da Banda Musical.

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3.3–A APRENDIZAGEM MUSICAL NAS BANDAS FILARMÓNICAS

Pelo seu poder criador, a música torna-se um poderoso recurso educativo e seus benefícios são inúmeros, além de estimular a sensibilidade e a expressão, a musicalidade aumenta a capacidade e concentração e disciplina, desenvolve o raciocínio lógico, a memória, a comunicação e a criatividade, favorece o desenvolvimento integral da personalidade, auxilia no equilíbrio emocional, social e nos comportamentos motores e gestuais, sendo uma fonte de expressão, estímulos e diversão.

Tal como refere Gomes:

“A música é intrínseca ao ser humano. Desde que há registos, sabe-se que o ser humano praticou música pelos mais variados motivos. Já anteriormente à Antiguidade Clássica, o ser humano organizava grupos musicais com diversas finalidades e utilizava a música pelas mais variadas funcionalidades. A música com fins militares sofreu uma evolução significativa e acabou por exercer influência, não só no aparecimento, mas também na evolução de grupos musicais civis que actualmente são conhecidos por bandas filarmónicas. O maior desenvolvimento ocorreu após a Revolução Francesa, em todo o ocidente, e, também, em Portugal” (2007:179). Os processos de ensino e os novos métodos pedagógicos inseridos nas modernas técnicas de aprendizagem da música para crianças e jovens, são hoje encarados como um estímulo ao desenvolvimento social e cultural e conduzem a resultados espantosos, com a formação de jovens músicos que se descobrem desde os primeiros dias de vida. Este processo de ensino está muitas vezes fora do formal, recorrendo à intervenção do animador musical que despoleta a predisposição para a música através da sua criatividade e sensibilidade no trato com as crianças e jovens.

Os primeiros sinais de afirmação e identidade surgem na adolescência uma vez que os jovens estão predispostos para a mobilidade. Neste contexto, Lopes afirma que:

“Uma outra característica que aparece na faixa etária juvenil, é o sentimento de pertença a um grupo, normalmente regido por normas e regras (…)” (2008: 318). Temos uma série de evidências de que crianças que aprendem a tocar um

Imagem

Gráfico 1 – Distribuição por sexo
Gráfico 2 – Distribuição dos elementos da Banda Musical por faixa etária
Gráfico 4 – Formação musical dos elementos constituintes da Banda Musical
Gráfico 6 – Anos de actividade musical numa Filarmónica
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