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UNIVERSIDADE METODISTA DE SÃO PAULO

FACULDADE DE HUMANIDADES E DIREITO

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS DA RELIGIÃO

MARCO DAVI DE OLIVEIRA

FÉ E TRANSFORNAÇÃO SOCIAL: A INFLUÊNCIA DA

RELIGIÃO NO MOVIMENTO DE MORADIA NA FAVELA

DE HELIÓPOLIS —1970-1993

SÃO BERNARDO DO CAMPO

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MARCO DAVI DE OLIVEIRA

FÉ E TRANSFORMAÇÃO SOCIAL: A INFLUÊNCIA DA

RELIGIÃO NO MOVIMENTO DE MORADIA NA FAVELA

DE HELIÓPOLIS — 1970-1993

Dissertação em cumprimento às exigências do programa de pós-graduação em Ciências da Religião para obtenção do grau de mestre.

Orientador: Prof. Lauri Emilio Wirth

SÃO BERNARDO DO CAMPO 2010

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A dissertação de mestrado sob o título ―Fé e Transformação social: A influência da religião no movimento de moradia na favela de Heliópolis 1970 - 1993‖, elaborada

por Marco Davi de Oliveira foi apresentada e aprovada em 13 de setembro de 2010, perante banca examinadora composta pelos professores Doutores Lauri Emílio Wirth (Presidente/UMESP), Jung Mo Sung (Titular/UMESP) e José Oscar Beozzo (Titular/ITESP).

__________________________________________

Prof. Dr. Lauri Emílio Wirth

Orientador/a e Presidente da Banca Examinadora

__________________________________________ Prof. Dr. Jung Mo Sung

Coordenador do Programa de Pós-Graduação

Programa: Pós-Graduação em Ciências da Religião Área de Concentração: Religião Sociedade e Cultura Linha de Pesquisa: Religião e dinâmicas sócio-culturais

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Ao meu pai, Paulo Esmério de Oliveira (em memória) por ter me ensinado o valor da oralidade ao contar suas histórias e cantar suas cantigas.

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Agradecimentos

Agradeço primeiramente às pessoas entrevistadas. Sem essa colaboração seria impossível a realização desta dissertação de mestrado. Devo a elas todo o meu respeito e admiração.

Ao meu orientador Lauri Emílio Wirth pela atenção, orientações e críticas no tempo certo e da forma adequada. Por sua amizade que o fez acreditar e me incentivar quando eu mesmo já não acreditava na possibilidade de terminar este trabalho. Por dizer sim quando eu dizia um não bem contundente. Agradeço às conversas amigáveis além daquelas direcionadas à pesquisa, ao apoio e ao profissionalismo.

A Valeria, minha esposa, pela graça comigo, paciência nos tempos mais difíceis e apoio dado nas etapas mais críticas. A você todo o meu carinho. Você é o prumo de minha vida.

Aos meus filhos Marco Davi Filho e Lethícia Mariáh, por serem minhas esperanças e razões de minha existência.

À minha mãe e meus irmãos por se alegrarem por minha caminhada.

Ao pastor Jonas Neves de Souza, líder da Igreja Batista do Povo, por ter acreditado no meu sonho.

Ao Jessé Nákel, pelo ombro amigo nos dias maus e a amizade em todo o tempo.

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À Vilma Schatzer, pela companhia em todo o processo de integralização em teologia e mestrado. Pela amizade e força nos momentos de desânimo.

À amiga Madalena Polzer, pela ajuda e por compartilhar da vida.

Ao amigo Gil, pela ajuda nas gravações das entrevistas.

À amiga Cláudia Sales, pela ajuda com os ajustes metodológicos.

Agradeço a oportunidade dada pelo CNPq que concedeu a bolsa de estudos, pois, sem ela, seria impossível a realização deste trabalho.

Aos meus professores do programa de pós-graduação em Ciências da Religião da UMESP por terem contribuído com ideias e novas perspectivas de conhecimento. E a todos os funcionários (as) da Universidade Metodista de São Paulo pela atenção e dedicação.

Agradeço à Banca examinadora formada pelo Dr. José Oscar Beozzo, Dr. Jung Mo Sung e Dr. Lauri Emílio Wirth.

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OLIVEIRA, Marco Davi. Fé e Transformação social: A influência da religião no movimento de moradia na favela de Heliópolis — 1970-1993. São Bernardo do Campo, 2010. (Mestrado em Ciências da Religião). Universidade Metodista de São Paulo- SP

Resumo

A pesquisa se propõe a refletir sobre a influência da fé na transformação social da favela de Heliópolis. Focada em algumas ações representativas da luta por moradia, no período de 1970 a 1993, e na conquista de melhores condições de vida na favela e na cidade de São Paulo, a pesquisa observa como as práticas religiosas servem ou não de motivação para a transformação social. A pesquisa pergunta pela influência da fé no engajamento de indivíduos envolvidos ativamente no movimento de moradia na favela e como essa fé se evidencia em meio à luta por melhores condições de vida.

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OLIVEIRA, Marco Davi. Faith the social transformation: The influence of religion in the housing movement in the shanty town of Heliópolis – 1970-1993. São Bernardo do Campo, 2010 (Mestrado em Ciências da Religião). Universidade Metodista de São Paulo - SP

Abstract

This research aims to reflect on the influence of faith for the social transformation in Heliopolis shanty town through religious practices. Focused on some representative actions in the fight for housing in the 1970-1993 period and better life conditions in the shanty town as well as in the city of São Paulo, the research observes whether the religious practices can be considered a motivator for the social transformation or not. The research wants to question about the influence of faith for the engagement of the people actively involved in the housing movement in the shanty town and how this faith is shown amidst the fight for better life conditions.

Keywords: religious practices, faith, tactics, social trajectories, shanty tow

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Lista de siglas

PMSP - Prefeitura Municipal de São Paulo

IAPAS- Instituto de Administração e Previdência e Assistência Social COHAB - Companhia Metropolitana de Habitação

SAMH - Sociedade dos Amigos Moradores de Heliópolis CM- Comissão de Moradores

INASA - Indústria Nacional de Artefatos

SENAI - Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial

SUDEPE - Superintendência do Desenvolvimento da Pesca MDF - Movimento em Defesa dos Favelados

MUF - Movimento Unificado de Favelas MLCC - Movimento de Luta contra a Carestia MLC - Movimento dos Loteamentos Clandestinos USP - Universidade de São Paulo

IEQ - Igreja do Evangelho Quadrangular

UNAS - União de Núcleos Associações e Sociedade dos Moradores de Heliópolis e São João Clímaco

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Lista de Mapas das Trajetórias no Espaço

Antonia Cleide Alves 58

João Mirando Neto 65

Genésia Ferreira da Silva Miranda 72

João Isaias 78

Delmiro Monteiro Farias 83

Miguel Borges Leal 91

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO, 11

CAPÍTULO 1 — A HISTÓRIA VEM DE DENTRO, 22 1.1 Era uma grande necessidade, 23

1.2 Comprei um barraco sem saber que existia grilagem, 29 1.3 Ninguém ia preso. Só nós, 35

1.4 A especulação imobiliária: externa e interna, 41

CAPÍTULO 2 — MEMÓRIAS, TRAJETÓRIAS E MIGRAÇÃO, 48 2.1 Memória e favela, 49

2.2 Memória e migração, 55 2.3 Memória e trajetória, 57

CAPÍTULO 3 — O COTIDIANO DA VIDA ILUMINADA PELA FÉ, 104 3.1 O sentido dessa cruz é a fé política, 105

3.2 Até nós tinha um canto que dizia, 108

3.3 A Bíblia é a história sagrada. Nós se baseava nela, 110 3.4 E aí foi engraçado que nós dramatizamos, 114

3.5 Era esse Deus que se manifestava aqui, 116

3.6 As ambiguidades da igreja: Se chegasse a entrar numa área dela, ela mandava tirar, 121

CONSIDERAÇÕES FINAIS, 128 REFERÊNCIAS, 136

ANEXO 1 — HISTÓRIAS DE VIDA, 143 ANEXO 2 — ENTREVISTA, 334

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1

Introdução

A pesquisa se propõe a refletir sobre a influência da fé na transformação social na favela de Heliópolis. Focado em algumas ações representativas da luta por moradia, no período de 1970 a 1993, e na conquista de melhores condições de vida na favela1 de Heliópolis, na cidade de São Paulo, a pesquisa observa como as práticas religiosas servem ou não de motivador para a transformação social. Portanto, a pesquisa pergunta pela influência da fé no engajamento de indivíduos envolvidos ativamente no movimento de moradia na favela.

Esta pesquisa justifica-se pela influência, especialmente, da Teologia da Libertação, nesse período tão conflitante da cidade de São Paulo, marcado pela transição da ditadura para os governos civis, o que despertava a esperança por tempos melhores também na população mais pobre e excluída do país.

Portanto, a suspeita que orienta a presente investigação é a de que a fé estava, de alguma maneira, imbricada na vida social de indivíduos que lutavam

1 De acordo com o IBGE, favela é um: ―Aglomerado subnormal é o conjunto constituído por um mínimo de 51 domicílios, ocupando ou tendo ocupado, até período recente, terreno de

propriedade alheia (pública ou particular), dispostos, em geral, de forma desordenada e densa, e carentes, em sua maioria, de serviços públicos essenciais". (INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA – http://www.ibge.gov.br) visitado em 05/05/2010

Utilizo a expressão favela e não comunidade como é usada pelos moradores, porque a palavra favela era mais usada nos períodos de 1970 a 1993. Período em que delimitamos a pesquisa.

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12 por moradia, naquele período. A pesquisa pretende testar tal suspeita em um contexto específico, a favela de Heliópolis, mais precisamente, e também pretende averiguar se essa suspeita se sustenta a partir das memórias dos líderes do movimento de moradia, captada a partir de depoimentos de sujeitos representativos.

Mais do que o lugar religioso institucionalizado, a pesquisa interessa-se pela fé na vida cotidiana. Ou seja, pergunta como a história de vida dos habitantes da favela é moldada, fundamentada ou perturbada pelo seu imaginário de fé. A partir das observações empíricas, por intermédio da observação participante e da leitura de referenciais teóricos em diversas áreas do conhecimento, observa-se o quanto as práticas religiosas são elaborados e reelaborados a partir de um lugar instituído e de como a fé ou tipos de fé são reelaboradas e re-significadas no cotidiano dos mais pobres. A pesquisa, portanto, interessa-se por verificar, na medida do possível, como a fé se relaciona com processos de transformação social.

Heliópolis é uma comunidade que, durante alguns anos, foi tratada como um dos maiores bolsões de pobreza da cidade de São Paulo. Oficialmente, a área de Heliópolis tem a influência do poder público municipal que transferiu os moradores de uma determinada área para morarem em alojamentos provisórios.

Muitas das favelas existentes no Município de São Paulo tiveram início pela ação do próprio Poder Público Municipal que — visando a liberar determinadas áreas ocupadas por núcleos carentes para a construção de obras públicas, principalmente viárias — transferia os habitantes para alojamentos provisórios, geralmente localizados em áreas pertencentes ao Estado, ao Município, ou a órgãos federais. (SAMPAIO, 1991, p.29)

No caso de Heliópolis, o poder público de fato participou na construção de parte do lugar; entretanto, a partir dessa ação, a favela foi crescendo

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13 mediante as ocupações posteriores após a construção do Hospital de Heliópolis, em 1969. Esse processo vem acompanhado da ―grilagem‖ da terra em que os grileiros mantinham seu ―poder paralelo‖ impondo medo sobre os moradores.

A área onde se localiza Heliópolis pertencia ao IAPAS (Instituto de Administração e Previdência e Assistência Social) que construiu o hospital de Heliópolis, inaugurado em abril de 1969. Após sua inauguração, os arredores foram sendo ocupados por muitos operários que haviam trabalhado na construção do Hospital, o que caracteriza um segundo momento de ocupação da área. Concomitantemente, iniciava-se um processo de grilagem da terra nas proximidades da Estrada das Lágrimas, uma das principais via de acesso da área. (JUNIOR, 2006, p.75)

As décadas de 1970 e 1980 foram fecundas no surgimento de movimentos populares que se organizaram ao longo do tempo. A cada dia, várias favelas nasciam das ações desses movimentos. Também eram as décadas do auge do êxodo rural, principalmente do nordeste para a cidade de São Paulo.

O avanço do processo de urbanização no país, entretanto, não atingiu todas as regiões de forma homogênea, de modo que os contrates socioeconômicos prevalecentes no território nacional refletiram-se no âmbito da urbanização. Em 1960, por exemplo, quando a média nacional apontava 45% da sua população morando em áreas urbanas, somente a região Sudeste registrava uma população superior a 50%, ao passo que, no Nordeste, essa participação chegava apenas a 34%. A acentuada urbanização que se processava contribuiu para que, no ano de 1980, em todas as grandes regiões, a população residente em áreas urbanas superasse 50%. No Sudeste, entretanto, o grau de urbanização já havia atingido 80% (BÓGUS & WANDELEY, 1992, p.16)

Isto proporcionou que cerca de 90% ou mais da população residente em Heliópolis seja de nordestinos ou de seus descendentes. A história de

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14 Heliópolis se confunde com a trajetória de vida dessa população carente, principalmente, o migrante. Pois,

a história é marcada por diversas ocorrências envolvendo grileiros, invasões, mutirões, informalidade, lutas contra a polícia, mas também conquistas por instalação de infraestrutura e pela posse da terra. A comunidade, desde 1971, foi buscar alternativas e soluções por intermédio de suas ações individuais e coletivas (SANDEVILLE, 2010, p.3-4). Essas práticas que se realizavam no cotidiano também tinham a fé do povo como base para a plataforma da transformação social do lugar.

A favela de Heliópolis, antes considerada uma gleba única, foi subdividida em 14 glebas que são identificadas por letras do alfabeto, indo da letra ―A‖ até a letra ―N‖. Essa subdivisão partiu da prefeitura Municipal de São Paulo; os moradores, entretanto, por intermédio de suas próprias táticas e práticas reelaboraram essa subdivisão e as chamam de núcleos, subdividindo a favela em dez núcleos espalhados pela área.

Desde a década de 1930, a cidade de São Paulo se tornou a metrópole mais influente do país no setor industrial e econômico. Mas, na década de 1970, a cidade experimentou grande crescimento econômico atraindo populações de vários estados do país. Nessa fase:

a urbanização da cidade de São Paulo se insere no contexto de transferência de recursos do setor agroexportador para o setor industrial, uma mudança no paradigma econômico; e a cidade recebe uma parcela desses capitais, incentivando a industrialização e tornando-se um pólo de atração para grandes contingentes populacionais. (JUNIOR, 2006, p.56)

Essa mudança paradigmática proporcionou crescimento de bolsões de pobreza na cidade e o surgimento de favelas que eram preenchidas por indivíduos originários das regiões rurais de todo o país. O processo de migração, alimentado pelo poder político e econômico (BÓGUS & WANDELEY,

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15 1992, p.30) conduziu vários indivíduos para os cantos da cidade constituindo uma periferia empobrecida

Surgem os movimentos em busca de moradia que têm apoio de alguns grupos sociais, como sindicatos, igrejas, organizações comunitárias, além de partidos políticos e agentes de diversas instituições governamentais.

A participação da igreja católica se torna emblemática, em particular, por intermédio do movimento das pastorais urbanas, como a pastoral da favela. De São Paulo, organizado pelo então arcebispo Dom Paulo Evaristo Arns e seus assessores, como Dom Antonio Celso Queiroz, esse movimento social ganhou força e se expandiu por todo o Brasil.

No primeiro capítulo, pretendemos relatar o processo de ocupação da favela a partir das memórias dos seus atores anônimos, mostrando as motivações que os mobilizaram nessa luta e os inúmeros obstáculos que tiveram de enfrentar. Quais foram as necessidades reais que enfrentaram antes de chegar à favela? O que os motivou a entrar em uma área quase erma como a de Heliópolis? Quais as táticas do cotidiano que precisaram criar para a manutenção dos espaços alcançados? Quais foram os maiores obstáculos que experimentaram quando chegaram à favela de Heliópolis?

No segundo capítulo, o interesse da pesquisa se direciona para as trajetórias de vida dos indivíduos que representam a história da favela de Heliópolis. A fim de deixar mais clara a exposição dos diferentes itinerários recolhidos, optou-se pela utilização de bases cartográficas. Contou-se com a colaboração de Beatriz Melo, participante do Grupo de Estudo ―Memória e Sociedade‖, coordenado pela Dra. Maria A. M. Silva, e mestre em Geografia (Unesp/Presidente Prudente) para a confecção dos mapas apresentados no texto. O objetivo dos mapas foi de ilustrar a correlação entre os itinerários profissionais e os deslocamentos geográficos fora e dentro da cidade de São Paulo. Para cada uma das entrevistadas um mapa da trajetória no espaço foi construído.

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16 Mas não seria possível traçar essas trajetórias de vida se os indivíduos entrevistados não se dispusessem a recordar o passado, mesmo que, para alguns, isso fosse um tanto quanto doloroso. As histórias de vida e a história da formação de uma favela estão enraizadas na memória que ―retrocede ao passado até certo limite, mais ou menos longínquo conforme pertença a esse ou aquele grupo‖ (HALBWACHS, 2006, p.133). A memória de um grupo se torna evidente por intermédio das lembranças individuais e das transformações do ambiente. Maurice Halbwachs (2006, p.69) diz:

cada memória individual é um ponto de vista sobre a memória coletiva [...] a sucessão de lembranças, mesmo as mais pessoais, sempre se explica pelas mudanças que se produzem em nossas relações com os diversos ambientes coletivos, ou seja, em definitivo, pelas transformações desses ambientes, cada um tomado em separado e em seu conjunto.

Ao conhecer suas histórias de vida e seus relatos, esta pesquisa se propõe a dar voz àqueles que são esquecidos da história. Também se propõe a revelar que as práticas religiosas servem como motivação para a transformação social e a construção de cidadania entre os mais pobres. Visa a investigar a participação precisa dos mais fracos e dos pobres na formação da cidade a partir de um lugar — a favela de Heliópolis.

Pretendemos identificar no terceiro capítulo que a fé é tática para a construção de uma abrangência social, política e cultural capaz de encorajar os pobres à ação diante dos sistemas excludentes. Ao final desta pesquisa, teremos a compreensão de que os espaços religiosos podem se transformar em focos de resistência e de conscientização dos pobres e dos mais fracos na sociedade.

A pesquisa privilegia aqueles que são esquecidos na história considerada oficial pelas instituições. Pretende, também, contribuir com os

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17 estudos acadêmicos pelo seu aspecto metodológico, utilizando histórias e relatos de vida.

Por meio de visitas constantes, da observação participante e, principalmente, da relação pesquisador/colaboradores (as), utilizou-se a metodologia que mais se adequava à possibilidade de dar voz aos excluídos socialmente. Para tanto, na presente pesquisa, valemo-nos da História Oral, com uma metodologia que utiliza materiais eletrônicos de gravação, transcrição, análise e manutenção de depoimentos ou testemunhos para dar voz preferencialmente aos que foram ―silenciados‖ da história oficial no processo de construção da favela de Heliópolis. Vários elementos e procedimentos compõem esse método. Alguns dos procedimentos usados foram: história oral de vida e relato oral de vida. Segundo Lang (1997, p. 34-35) ―história de vida é o relato de um narrador sobre sua existência através do tempo [...], o relato oral de vida, [...] solicitado ao narrador que aborde, de modo mais especial, determinados aspectos de sua vida‖.

A história oral de vida foi importante para avaliar as motivações que fizeram os entrevistados (as) ir para a favela de Heliópolis e lá permanecer mesmo diante de tantas necessidades e enfrentamentos. Por que permaneceram buscando moradias e realizando ocupações depois de já terem alcançado uma para sua família? Essa resposta serve para levantar questões da razão por que não retornaram após terem conseguido situação melhor economicamente. Contribuiu para que compreendêssemos as táticas na criação de espaços que determinavam lugares.

Esse método também permitiu o envolvimento do pesquisador com os entrevistados (as) ao possibilitar o relacionamento com eles nos vários espaços em que a UNAS2 atua e também a possibilidade, após as entrevistas, de

2 UNAS – União de Núcleos Associação e Sociedades dos Moradores de Heliópolis e São João Clímaco. Fundada em 20 de janeiro de1990. Localizada na Rua da Mina, 38, na favela de Heliópolis. Tem como missão: promover a cidadania, a melhoria da qualidade de vida e o desenvolvimento integral da comunidade.

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18 conversar fraternalmente com eles e descobrir outras situações que não haviam sido esboçadas no período das entrevistas.

Importante notar que, em História Oral, o pesquisador se torna um ator social importante na relação com o entrevistado que não é o objeto de estudo, mas um colaborador da pesquisa. Portanto, ao pesquisador resta o relacionamento ético com o entrevistado em uma perspectiva de cordialidade. Terá ele a necessidade de, além de entrevistar, colher e transcrever os documentos, manter uma relação tal com os entrevistados a ponto de devolver à comunidade ou aos colaboradores o resultado da pesquisa.

Alguns autores são importantes para se entender a dinâmica dessa metodologia na pesquisa que realizamos. Maurice HALBWACHS nos mostra que a história sofre interferências coletivas da vida, de grupos, das lembranças individuais. Diz que todo o depoimento de testemunhas só tem razão de ser na coletividade, na relação com um grupo social. A memória individual é influenciada pelo grupo, pelo coletivo, bem como o grupo é influenciado pelas memórias individuais.

O mesmo autor reflete sobre o tempo e a memória, mostrando que a memória coletiva não deixa o tempo ser dividido em partes, mas o utiliza com uma mesma duração. A memória mantém o espaço que faz com que o grupo coletivamente reflita sobre suas ações. Todas as ações do grupo têm um lugar espacial, guardado pela memória coletiva.

Outra categoria de análise que nos reportamos na pesquisa são as categorias de Michel de Certeau sobre tática e estratégias, lugar/espaço. Segundo Certeau (2007, p.100), a tática

não tem por lugar senão o do outro. E, por isso, deve jogar com o terreno que lhe é imposto tal como o organiza a lei de uma força estranha; [...] é movimento ‗dentro do campo de visão do inimigo‘ [...] e no espaço por ele controlado; [...] aproveita as ‗ocasiões‘ e delas depende, sem base para estocar benefícios, aumentar a propriedade e prever saídas.

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19 Segundo o referido autor, existem estratégias que determinam o lugar. Essas estratégias são:

O cálculo (ou a manipulação) das relações de forças que se torna possível a partir do momento em que um sujeito de querer e poder (uma empresa, um exército, uma cidade, uma instituição científica) pode ser isolado. A estratégia postula um lugar suscetível de ser circunscrito como algo próprio e de ser a base de onde se podem gerir as relações com uma exterioridade de alvos ou ameaças; [...] toda racionalização ―estratégica‖ procura em primeiro lugar distinguir de um ―ambiente‖ um ―próprio‖, isto é, o lugar do poder e do querer próprios. (CERTEAU, 2007, p.99)

Os colaboradores foram escolhidos pela participação ativa na construção da favela de Heliópolis, desde a antiga comissão de moradores na década de 1970 até a formação da UNAS. Entrevistei também o bispo Antonio Celso Queirós que colaborou muito na luta por moradia na favela. Pude entrevistar seis pessoas que fazem parte da liderança da UNAS. Não os escolhi por serem idosos, até porque entrevistei pessoas com menos de 60 anos, mas porque participaram da história da favela e constituem a própria história de Heliópolis. Participaram de vários períodos da luta por moradia nessa favela, alguns lutando desde o início na Comissão de Moradores. Outros, em processos posteriores, lutaram para garantir a permanência dos moradores na localidade e para reivindicar as condições básicas para viabilizar a vida no local. Demonstram fé. Mesmo que essa fé seja na possibilidade de alcançar êxito com a moradia. Envolveram-se com práticas religiosas na luta por moradia, participando, de alguma maneira, na construção simbólica da favela. Tiveram histórias de migração similares e chegaram entre o período de 1970 a 1993 na favela de Heliópolis. Poderia escolher outras pessoas; entretanto, defini essas pessoas por ver nelas, além da disponibilidade, desejo de expandir a história da favela de Heliópolis. Algo que chama atenção é o fato de que todos tiveram algum tipo de formação religiosa, por intermédio de uma linha mais progressista da igreja católica, e aqueles que não são católicos

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20 também foram orientados pela ala mais libertária por meio da pastoral da favela. Devo ressaltar que o desejo dessa pesquisa não é relatar as ações da igreja católica, mas refletir sobre a fé como influência para a transformação na favela de Heliópolis.

Durante as entrevistas, tive um grande apoio da diretoria da UNAS. Desde a presidente, Antônia Cleide Alves, até as pessoas da recepção ou do cafezinho que sempre tomava por lá. Também os moradores da favela nas proximidades da sede da UNAS sempre demonstraram total respeito e amizade para comigo.

Percebi — nos entrevistados e no primeiro momento que os encontrava — certa necessidade de demarcarem o espaço. Isso se dava nas formas de me avaliarem durante os primeiros contatos. Alguns até demonstraram não ter tempo para que eu pudesse ser atendido. É bem verdade que as atividades na UNAS são diárias e constantes, mas notei certa demarcação de território, o que é normal em uma favela que detém tamanha história e conhecimento.

Enfrentei dificuldades nas primeiras entrevistas porque as pessoas que eu desejava entrevistar sempre estavam muito atarefadas. Algumas que já haviam marcado comigo desmarcaram depois da minha chegada ao local. Com a confiança adquirida, remarcavam. Passaram a ter interesse na conversa. Isso aconteceu com o João Isaías que teve um problema urgente para resolver. Ou com Antônia Cleide Alves que começou a entrevista me informando que não teria tempo para conversar muito, pois teria uma reunião 30 minutos após a minha chegada. Ainda bem que ele estava com vontade de falar sobre a sua história, pois a entrevista durou precisamente 2h47min. Quase três horas de boa conversa, cheia de esclarecimentos.

O que notei em todos foi uma vontade imensa de contar sua história de vida por saberem que elas contribuiriam para a minha pesquisa e outras que viriam posteriormente. Mas, nem sempre as instalações para as gravações eram boas, pois as salas são abertas e não se tinha total privacidade o que dificultou um pouco as gravações e as entrevistas em si.

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21 Foi muito importante ouvir as pessoas que são partes fundamentais da história da favela de Heliópolis. Chamo favela por gostar da expressão e ter a ideia que assim estou quebrando os preconceitos que são atribuídos a uma palavra tão simpática.

Entre as entrevistas que realizei, não posso deixar de lembrar a do Dom Antonio Celso Queirós que foi realizada fora da favela de Heliópolis. O que me chamou a atenção foi vê-lo se agraciando com as lembranças do tempo em que estava na arquidiocese de São Paulo como assessor de Dom Paulo Evaristo Arns. Ao terminar a entrevista e agradecer-lhe, ele logo retrucou e disse: “Eu que agradeço. Você me fez lembrar dos tempos mais gostosos de minha vida‖.

Tive a colaboração do cinegrafista e fotógrafo da UNAS, Gildivan Félix Bento, meu querido amigo Gil que, com profissionalismo, filmou em DVD todas as entrevistas o que facilitou muito para o processo de transcrição.

Algumas dificuldades pessoais foram determinantes para que eu não conseguisse um maior número de entrevistas. Entretanto, salvo uns dois ou três que tiveram dificuldades de tempo ou eu mesmo não ter conseguido o tempo necessário, os interlocutores que, na verdade, são colaboradores desta pesquisa, serviram de bom grado para colaborar com suas histórias de superação, vontade e determinação.

Quero esclarecer que utilizo a expressão ―ocupação‖ por entender que faz parte da linguagem dos moradores da favela e também por remeter à ocupação de terra pública, e não privada. O termo invasão não se encaixa nas histórias das pessoas que recordaram suas histórias de vida e de luta.

Havia um roteiro padrão, mas serviu somente para nortear as entrevistas. Assim que comecei a conversar com os colaboradores percebi que a entrevista poderia ser mais livre, fazendo as perguntas de acordo com as falas dos entrevistados. Isso facilitou a interação com as pessoas e criou mais conexão entre pesquisador/ colaborador.

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22

Capítulo I

HISTÓRIA VISTA DE DENTRO

Este capítulo tem como objetivo relatar o processo da ocupação da favela de Heliópolis, a partir das memórias dos seus atores anônimos, mostrando as motivações que os mobilizaram nessa luta e os inúmeros obstáculos que tiveram de enfrentar.

Ao ouvirmos os indivíduos, atores diretos na formação da favela, reportamo-nos ao tempo em que as necessidades eram muitas para cada um, mas isso servia de motivação para continuar a busca pelos direitos que a eles eram negados pelo sistema político e econômico que valorizava mais os que tinham o poder de compra e que estavam, de certa maneira, vinculados à política e às estruturas de poder vigente.

A conquista desse espaço ocorreu sob forte violência, manipulações do poder público, medo e necessidades diversas. A história de Heliópolis se confunde com a história dos indivíduos que dela relembram, mas também com os indivíduos que a fizeram e foram afetados por ela. Portanto, quando falam, veem-se nas lembranças que se fazem hoje conteúdos das palavras. Não falam a esmo e sem nexo, tudo que falam tem sentido no universo específico da coletividade.

Ouvir os atores que fizeram e fazem a história da favela de Heliópolis nos dá a compreensão de que os espaços não foram adquiridos, mas criados pela resistência e iniciativas daqueles que experimentavam e resistiam às

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23 necessidades, as adaptações na cidade grande. Para tanto, houve a necessidade de se recriar o não dito e o não feito para que novos espaços surgissem dentro da estrutura estabelecida. Há várias formas e maneiras de romper o lugar do outro: refazendo a história, dizendo outras palavras, vivendo outra engrenagem e em outro ritmo, traçando novas danças com novos passos e fazendo tocar novas músicas no cotidiano de uma coletividade. Jeito diferente de jogar o jogo, como diz Certeau (2007 p. 79)

Mil maneiras de jogar/desfazer o jogo do outro, ou seja, o espaço instituído por outros, caracterizam a atividade, sutil, tenaz, resistente, de grupos que, por não ter (sic) um próprio, devem desembaraçar-se em uma rede de forças e de representações estabelecidas [...]; nesses estratagemas de combatentes existe uma arte de golpes, dos lances, um prazer em alterar as regras do espaço opressor.

1.1 ―ERA UMA GRANDE NECESSIDADE‖

A necessidade era o motivo principal da chegada e da permanência dos indivíduos que começaram o movimento por moradia na favela de Heliópolis. Muitos que vieram para a cidade de São Paulo aqui chegaram com muitas dificuldades e encontraram na favela pessoas com as mesmas carências sociais. Como informa Genésia Ferreira Silva Miranda, embora sua infância tenha sido boa, a ponto de ter boas lembranças, as necessidades faziam parte de sua vida trazendo marcas da sua infância.

A gente brincava com milho, né. Brincava com... A melancia que meu pai plantava que era a bola. Então, tudo isso fazia parte da vida da gente, né? Nessa idade ai... Pequenininho. Mas, foi um momento muito gostoso. Que eu lembro sempre foi muito bom.1

1

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24 Não tinham as coisas que geralmente as crianças têm para brincar, mas aqui mesmo notamos como essa infância foi importante para a vida que experimentaria no futuro. A infância foi palco para a criação de novos espaços que invadiram os espaços determinados pelas privações. Como salienta Michel de Certeau (1990, p. 191):

A infância que determina as práticas do espaço desenvolve a seguir os seus efeitos, prolifera, inunda os espaços privados e públicos, desfaz as suas superfícies e cria na cidade planejada uma cidade ‗metafórica‘ ou um deslocamento.

Desde a infância de Genésia, pode-se perceber a utilização de táticas re-significação das circunstâncias contrárias da vida dando a elas nova forma, novos contornos.

[...] essas táticas desviacionistas não obedecem à lei do lugar. Não se definem por este. Sob esse ponto de vista, são tão localizáveis como as estratégias tecnocráticas (e escriturísticas) que visam a criar lugares segundo modelos abstratos. O que distingue estas daquelas são os tipos de operação nesses espaços que as estratégias são capazes de produzir, mapear e impor, ao passo que as táticas só podem utilizá-los, manipular e alterar [...]; é preciso, portanto, especificar esquemas de operações [...]; também se podem distinguir ‗maneiras de fazer‘ (CERTEAU, 1990, p. 92)

Vivenciar a privacidade com toda a família, tendo irmãos menores e vendo a luta constante dos pais trouxe marcas profundas à vida de Genésia, fazendo-a ter o desejo de romper, juntado todas as forças para a sobrevivência. E isto ela aprendeu com o próprio pai, pois demonstra orgulho em lembrar-se da postura dele diante da vida.

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25 Meu pai foi um lutador pela sobrevivência dos filhos e dele, né? Respeitando os limites de todo mundo, com muita humildade, meu pai foi sempre essa pessoa, ele sempre passou essa imagem pra nós. Né? De lutar, de sair de uma cidade pra outra, sabe, em busca de melhorar a qualidade de vida dos filhos, então, a gente tivemo toda essa educação, né? 2

As necessidades nas áreas de emprego e de moradia, além da migração das pessoas de outros estados brasileiros para a cidade de São Paulo, fizeram com que muitos nordestinos e pessoas de outros municípios do entorno da cidade (ALESSI, 2009) viessem a se instalar na área que pertencia ao IAPAS — Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Industriários, após as irresponsabilidades do poder público municipal, como informa Maria Ruth do Amaral Sampaio:

O acompanhamento da ocupação irregular da gleba de Heliópolis desde o início da década de 1970, mostra que o grande responsável pela criação e desenvolvimento da favela Heliópolis/São João Clímaco foi o poder público, seja federal, o IAPAS que deixou sua propriedade abandonada, seja municipal, a Prefeitura Municipal de São Paulo, que lá instalou alojamentos provisórios que se tornaram permanentes. Assim, a omissão e a ação de órgãos do governo contribuíram para a criação de um dos maiores guetos de pobreza do município. (SAMPAIO, 1990, p. 4)

A participação do poder público, em vez de resolver ou amenizar as necessidades da população que morava em favelas na cidade de São Paulo, servia, antes, para criar mais dificuldades. Quando as pessoas já estavam instaladas, mesmo em lugares precários, alguns eram retirados desses lugares para a formação de outra favela com a promessa de que seria uma situação provisória. Essa foi a situação dos moradores da favela de Vila Prudente como afirma Antônia Cleide Alves:

2

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26 E, aí, quando foi sair da Vila Prudente desse ambiente prá cá, foi um choque também muito grande, uma ruptura muito grande. Porque era tudo novo pra nós. Juntou 120 famílias. Veio bastante daquela área. Daquele setor que a gente tava. Mas, nem tanto porque tinha outras opção. Não vinha todo mundo pra cá. Podia ir pra Guaianázes, né? Mas, a maioria veio pra cá. Mas, era um outro lugar. Eu cheguei... No lugar a gente só tinha aquelas 120 famílias.3

Notam-se muitas dificuldades na vida de Antônia Cleide. Ela que nasceu em boa situação financeira no Estado do Ceará, na cidade de Ibicuã, pois seu pai era proprietário de um açougue. O que a própria Antônia Cleide confirma como que se relembrando de um tempo muito diferente daqueles que passaria tempos depois.

Na realidade a gente veio pra cá nem pela condição financeira. Lá a gente tinha uma condição melhor do que quando a gente veio prá cá. Então, lá a gente veio por conta de uma briga de família por causa de terra. Meu pai brigou com meu tio. E, aí, foi ameaçado de morte.4

Experimenta uma reviravolta em sua vida quando, por causa de brigas familiares, tem de sair às pressas de sua cidade com toda a família e vai para o Mato Grosso do Sul. As necessidades continuam a ponto de influenciar sua vida anos depois quando se lembra do que vivenciou em trabalhos na agricultura com seus irmãos e seu pai, não desejando nem pensar muito naqueles momentos difíceis:

Ah! Acho que foi o pior lugar que me recordo. Acho que foi o pior lugar. Porque na verdade é assim... A gente foi morar...

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Entrevista com Antônia Cleide realizada em 02/02/2010.

4

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27 Era uma fazenda... Era grande. Eu lembro que era grande. E lá trabalhava com café e algodão. Mais algodão. Colheita de algodão. E, aí, meu pai que trabalhava lá. Ele tinha que colher algodão. Aí, tinha que colher... Iá eu, meu irmão lá... Todo mundo pra colheita. Eu tinha o quê? Eu tinha essa idade... Cinco anos e meio. Outro meu irmão tinha quatro. A diferença era essa. Aí, tinha um que tinha a diferença de quatro anos... Tinha dois anos. Um ano e meio e um outro bebezinho. Era assim... E outro que era... Ficava muito doente. Eu lembro que meus irmãos vivia muito doente, muito, muito, muito doente. E tinha que ir pra poder ajudar meu pai, né? Eu e outro meu irmão. Minha mãe trabalhava na casa da fazenda. Trabalhava limpando, cozinhando. Ficava na família. Não lembro nenhuma brincadeira, pelo contrário, só trabalho. Então foi um choque muito grande, né? Eu tinha uma realidade. Uma situação. Antes era de brincadeira... Que tinha tudo. Que nas férias lembro que ia prá Fortaleza. Eu ia pra Maranguape. Ficava na casa de minhas tias. E, aí, pumba! Vou cair num lugar desse, né? Tenho as piores recordações de Mato Grosso.5

Foram essas dificuldades que fizeram com que Antônia Cleide e sua família chegassem a São Paulo. Ao chegar, encontram mais necessidades, pois, não tendo onde morar, a família é forçada a compartilhar a casa com pessoas que não conhecia. Depois, passando a viver em um barraquinho na favela da Vila Prudente, Antônia Cleide continua a sofrer as adversidades de quem está em uma situação de precariedade social. Passa a dividir com uma família um barraco bem pequeno. Mas foi lá que encontrou o aconchego que existe entre os pobres. A solidariedade era a marca maior daquele lugar que, embora fincado nas lutas por sobrevivência de cada morador, esbanjava cuidados mútuos. É de lá que Antônia Cleide pode afirmar ter muitas boas recordações. E se lembra de situações que criaram a relação social que havia perdido. Pois, ali próximo ao barraco onde morava, tinha um poço e se tornava o ponto de encontro onde as relações eram solidificadas.

Nesse lugar, não tinha água encanada na favela. Então, todo mundo vinha naquele lugar pegar água. Então, quer dizer... A

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28 favela inteira, a gente conhecia. E todo mundo se conhecia porque aquele era o ponto de encontro, né? 6

Essa transição, que trouxe mais uma ruptura em sua vida, demarca as dificuldades que continuaram até chegar à favela de Heliópolis que, segundo ela, era um mundo novo que apontava para a possibilidade de uma vida melhor.

Eu falei: ―Puxa! Era tudo o que eu queria‖. Morava num barraco, num barraco ruim. Nesse período meu pai já tinha arrumado o barraco, já tinha ficado maior. Ele já era... podia ficar em pé, né? Já tava melhor Na verdade, eu gostava daquele ambiente! Eu tinha religião, eu tinha escola, os amigo, né? Aí, a gente veio pra cá e recomeçou tudo de novo, né? 7

Entretanto, pôde perceber que tudo que sonhara, ou seja, ter uma casa melhor, não se realizou quando foi com a família para Heliópolis, pois as dificuldades se tornaram ainda maiores que aquelas vividas na favela da Vila Clementino. O sentimento de ruptura e de desapego com aqueles indivíduos e com as coisas precárias que tinha fez com que sentisse a necessidade de reconstruir toda a vida. Essa sensação de reconstrução que experimentara quando criança se agigantou ao ver os vínculos quebrados. Vínculos surtidos da solidariedade. Uma solidariedade latente que amenizava suas dores e a falta de perspectivas, transformando as singularidades pessoais em pontos principais de convergência e de resistência. O outro não era o ―outro‖ adversário, competidor, articulador, mas o outro próximo que compartilha da mesma situação de exclusão. Como mostram Hugo Assmann e Jung Mo Sung (2000 p. 97). Para eles a solidariedade:

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Entrevista com Antônia Cleide realizada em 02/02/2010

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29 Tem que ver com o modo de ver o mundo e a vida. Solidariedade é uma relação inter-humana fundamentada na alteridade que pressupõe o reconhecimento do/a outro/a na diferença e singularidade, atributos da alteridade. Reconhecer o outro/a na diferença pressupõe relativizar a si mesmo, nossas certezas, enfim, todas as mesmices.

Notamos então, nas histórias de Genésia e de Antônia Cleide que a chegada à favela de Heliópolis se baseou nas necessidades de moradia que tinham e que as motivavam a continuar na busca do sonho de ter uma casa própria. Mas as dificuldades perduraram por alguns anos, ainda que não tenham influenciado negativamente a vida dessas mulheres. Por que todas as situações que vivenciaram serviram como alicerce para a luta diária e para a construção de táticas postulando espaços nos lugares instituídos pelo poder público, pelo sistema policial e pelos grileiros.

1.2 ―COMPREI UM BARRACO SEM SABER QUE EXISTIA GRILAGEM‖

Podemos perceber pela frase dita por Genésia que Heliópolis não tinha muitas coisas. Havia algumas casas e muito mato em volta dessa área imensa, mas a surpresa maior foi perceber que seu sonho de morar em uma casa sem pagar aluguel estava ameaçado pela lógica do lugar, lógica essa criada por grileiros que se diziam donos da área que era de cerca de 1.000.000 m².

Os grileiros, que também ocupavam as terras8, agiam em várias partes da área. Enquanto a prefeitura na época colocou 120 a 150 famílias em

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Nota-se que alguns ocupantes (grileiros) ocupavam algumas áreas de maior porte que variavam de cerca de 690m² a 11.580m².

SAMPAIO, Maria Ruth Amaral. Heliópolis, O percurso de uma invasão. São Paulo. FAU/USP, 1990. Tese de livre docência. p.35

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30 alojamentos que seriam provisórios, como já foi informado, coloca, em 1978, 60 famílias da favela do Vergueiro que se instalaram na parte oposta às primeiras. Segundo Genésia, imediatamente após sua chegada em Heliópolis, foi abordada por grileiros que exigiam que ela fizesse com eles um contrato, pois, caso contrário, sofreria as consequências. O que ela não aceitou com facilidade, pois isso tiraria dela e de sua família a chance de ter uma casa própria que era o seu sonho mais importante.

E no dia seguinte que vim morar eles, eles, os grileiros, pediram pra fazer algum contrato de aluguel. Aí, foi quando eu percebi, todos os moradores que tava aqui pagavam uma taxa pra eles, mensalmente. Pra morar, aí. Eu tive muita dificuldade pra reconhecer isso. Até por que o meu sonho era não pagar aluguel. Sai de um lugar que tinha até dificuldade pra se alimentar pra vim pra um lugar... Um barraco. E continuar a mesma coisa? Não. Não era isso. Na minha cabeça não era isso que eu queria. E eu questionei e eles deram prazo de 24 horas pra mim sair do barraco e ir embora.9

Essa lei da violência é lembrada por Sampaio (1991, p.4) quando informa que ―os grileiros parcelavam a terra a seu bel prazer, abrindo ruas, demarcando e vendendo lotes. Para aqueles que se instalavam, sem ter passado pelo crivo dos grileiros, a solução era se curvar ao seu poder, pagando pelo lote, ou ser expulsos sumariamente‖ (SAMPAIO, 1990, p. 35). Essa prática criminosa — de certa maneira, mais aceita pelo poder público que não demonstrava se preocupar — desenvolveu-se durante anos, e alguns nomes são até hoje lembrados pelos moradores mais antigos. Como o Geraldo, vulgo Geraldão, e o Otávio, conhecido como veterinário.

A prática ilegal era tão marcadamente e constante que os moradores, por medo, já estavam acostumados, achando aquela situação uma norma

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31 estabelecida, como nos diz Genésia quando foi saber com alguns moradores se aquilo que os grileiros haviam feito era uma prática comum.

Fui conversar com alguns moradores, eles falaram que realmente era assim. ―Eles pediram, e temo que respeitar o que eles decidiram‖. Por que se eles não respeitassem eles matava... Se resistisse eles matavam, eles expulsavam.10

A certeza da impunidade facilitava as ações dos grileiros que criaram um ambiente desfavorável para aqueles que chegavam de situações de precariedade em busca de um lugar para a construção de seus barracos. Usavam a ideia e a prática da violência para assustar os moradores que já estavam em Heliópolis, tirando deles até o dinheiro para a subsistência familiar. Como nos informa Genésia, relatando a experiência que teve ao chegar em Heliópolis e a tentativa de conversar com os moradores:

Um dia, eu fui chegando até pra conhecer a Conceição. Aí, eu fui conversar com ela pra conhecer e tinha um grupo de homens lá na porta dela pedindo o aluguel. E ele falou: ―Ah! Hoje eu não tenho só o dinheiro da comida pra comprar arroz, feijão pros meus filhos‖. Ele falou: ―Então, tudo bem, se você não tem, nós vamos trazer a máquina e passar por cima‖. A conversa era assim. Ela correu coitada foi lá dentro. E eu observando isso, né? Pegou o dinheiro, as despesas que era pra os filhos e... Entregou. Fiquei olhando assim e falei: "Ora, mas, por que você fez isso‖?. Ela falou: ―Mas tem que pagar‖. Eu falei assim: ―Tem que pagar‖? Ela falou: ―Tem. Senão pagar eles vem e passa a máquina. Eles não respeitam ninguém‖. Eu falei: ―Nossa‖.11

Essa situação se agravava a cada dia e fazia com que as famílias que chegavam à favela tivessem de se organizar de alguma maneira para resistir

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Entrevista com Genésia Ferreira da Silva realizada em 02/02/10 11

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32 diante dessas circunstâncias que já havia passado dos limites. Os moradores sofriam com o medo, a escassez e a falta de infraestrutura. Mesmo para aqueles que foram levados pelo poder público, que demonstrava descaso para com a favela que surgia, o medo e a insegurança eram constantes. Como afirma Antônia Cleide, a visão de que não eram invasores, além de dar a eles um sentimento de que eram donos da área, os absolvia e os protegia de ser alvos dos grileiros. Tinham a chancela do poder público municipal.

Como a gente veio, a prefeitura é que trouxe a gente pra ficar seis meses, né? A gente se sentia dono. Então a gente... Uma coisa que prejudicou muito o pessoal de lá, né? A minha família falava assim: ―Nós não somos invasores‖. 12

Essa postura servia de tropeços e mais trabalho para aqueles que estavam em busca do direito por moradias e que lideravam o movimento popular. Porque, além de enfrentar o poder público, a polícia e a população ao redor da favela que não os aceitava, a liderança da comissão de moradores precisava convencer os moradores que os identificava como ―invasores‖. Por isso, não participavam das reuniões que visava à conscientização quanto ao pagamento injusto cobrado pelos grileiros e por busca de infraestrutura.

Surpresa, para os grileiros, aconteceu quando Genésia, aturdida com a possibilidade de ver seu sonho se esvair, disse que não pagaria o aluguel cobrado, embora não fizesse a menor ideia da profundidade da sua fala naquele momento.

Aí, eles começaram a me perseguir. Ir atrás... ―Você vai sair quando? Nós demos um prazo. Vai sair quando? Vai passar a

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33 máquina.‖ Aquela pressão, né? E um dia eu me zanguei e falei: ―Não vou sair e não vou pagar‖.13

Genésia não tinha certeza e, tampouco, a dimensão do que estava fazendo naquele momento, mas a firmeza da palavra fez com que ela tivesse a possibilidade de ver a emancipação de indivíduos que já não suportavam a opressão produzida pelos grileiros que utilizavam de todas as pressões possíveis para intimidar os moradores. Segundo Certeau (1995, p. 40) ―la toma de la palabra tiene la forma de un rechazo; es una protesta. [...] Pero en realidad, consiste en decir: ‗No soy una cosa‘. La violencia es el gesto de quien rechaza toda identificación: ‗Existo‘14‖.

Quando Genésia ―toma a palavra‖, alcança a consciência da sua própria força e de sua influência no lugar e rechaça toda a estratégia que tenta colocar os moradores da favela Heliópolis no total esquecimento e sentimento de fraqueza. Essa coragem começa a ser blindada com a aproximação de pessoas que passam a proteger a casa e a família de Genésia que persiste na resistência e passa a conscientizar os moradores a buscar seus direitos, colocando em cheque as ações fraudulentas dos grileiros.

E teve um senhor, esse senhor mesmo que a gente conversava do parquinho. [...] Como ele estava lá em cima no parquinho falaram pra ele que nesta noite viam colocar fogo comigo e as crianças dentro do barraco. E ele escutou. Ele veio aqui avisar: ―Sra. sai do seu barraco vão tocar fogo e matar você e nas crianças‖. Eu falei: ―Não. Eu não vou sair. Eu não tenho pra onde ir‖. [...] ―Mas, tem certeza a Sra. não quer sair?‖. Não. Eu não quero sair. Tem que fazer alguma coisa, não sei... Sair daqui pra outro lugar não. ―O que eu posso fazer é sair e me esconder, lá trás sei lá‖. Era muito matagal, né? Aí, ele pensou... Pensou... ―Tá bom‖. [...] Aí, ele falou: ―Tá bom então eu vou vim aqui ficar no seu quintal‖. Eu acho que Deus preparava tudo. Aí, ele veio. E eu lembro que eu escutei o barulho de bastante gente dentro do mato. E ele sabia até o

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Entrevista com Genésia Ferreira da Silva realizada em 02/02/10

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34 tambor de gasolina a cor que era tudo. Esse senhor. E quando foram se aproximando perto do barraco. Eu também não sabia que ele tava com uma arma. Ele começou a atirar de dentro do meu quintal. Aí, correram...Aí, correram... Depois ele veio conversar com a gente falando do risco de vida que nós estávamos correndo. Aí, ele veio se unir com a gente. Ele se uniu... 15

A aproximação da luta por moradia contra os grileiros por outros moradores se deu, provavelmente, devido à firmeza de Genésia diante da possibilidade de sofrer a violência e até a morte. Essa coragem causou aos grileiros sérias dificuldades, pois jamais imaginavam ter alguém dentre os moradores, que eram todos pobres e desprotegidos, que pudesse desobedecer a suas ordens e, além disso, articular toda a comunidade para que não pagasse os aluguéis cobrados por eles mesmos diante de tantas possibilidades reais de perseguições e sofrimentos. Como coloca a Genésia com certo ar de vitória:

E a perseguição continuava sempre em cima de mim e do João pelo crime organizado e o crime organizado não tinha nada a perder, né? Tivemos vários conflitos. Não foi só um. Mas isso a gente nunca deixou de organizar a comunidade. De falar que eles eram capazes de parar de pagar aluguel. Se a gente se unir as força. A nossa arma é a união, né? 16

Embora em Heliópolis houvesse a lei estabelecida pelos grileiros, as práticas de Genésia eram contrárias a essas leis mesmo sem que tivesse a compreensão inicial dos fatos. Essas inserções do ―lugar praticado‖ (CERTEAU, 1990, p. 202) trouxeram um quiproquó para os grileiros que perderam muito do poder que tinham e que era determinado por operações

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Entrevista com Genésia Ferreira da Silva realizada em 02/02/10

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35 escusas e violentas, articuladas com o sistema excludente e silenciador da época da ditadura. Pode-se perceber isso no próprio relato de Genésia:

A gente tava começando a construir o barraco aqui. Derrubando a madeira pra fazer junto com esses moradores já. A gente já tava muito bem articulado, fortalecido. E como a gente começamos a quebrar o poder dos grileiros, né? E ocupando algumas ruas. Mas isso em reunião nas caladas da noite. Em vários lugares escondido deles, né? Com moradores de rua, com várias pessoas pra ocupar. Pra que a gente fortalecesse essa luta. E a gente fazia realmente essas reuniões escondido porque se a polícia soubesse ou eles, nós tava ferrados. Aí, eu comecei articulando assim digo: ―Bom, quanto mais gente pra se fortalecer e tomar essa terra deles melhor‖.17

Os grileiros talvez não pudessem imaginar que indivíduos como Genésia surgiriam na área onde hegemonicamente determinavam a lei do lugar com artimanhas próprias e desfazem as estratégias com operações difusas que inverteriam a lógica estabelecida. Pois até as ruas por eles construídas, que determinavam o caminho que os moradores deviam seguir, foram transformadas em moradias para a população que chegava.

1.2 ―NINGUÉM IA PRESO. SÓ NÓS‖

Eram tempos de ditadura. O governo federal ainda estava nas mãos dos militares. O AI-5 (Ato Institucional n°5) andava a passos largos. Embora já houvesse protestos contra a ditadura, esses protestos eram silenciados com torturas e repressão covarde. Podemos ter conhecimento por intermédio das reportagens nos jornais e revistas da época (MOLICA, 2005, p.23-24) que essas torturas eram feitas com todo o consenso das autoridades.

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36 O medo instalado pela ditadura proporcionou às instâncias menores de segurança, como as polícias militar e civil, agir como desejavam, sem levar em conta a possibilidade de alguma represália. Afinal, naquele tempo, a ditadura se mostrava mais forte ainda. O governo federal liderado pelo presidente-general Emílio Garrastazu Médice sustentava euforia pelo crescimento econômico do país, crescimento esse que favorecia a classe média do país, mas que deixava os mais pobres distantes dos bens de consumo.18 As repressões e a violência policial se mantinham salvaguardadas pela impunidade e proteção aos policiais que agiam diretamente contra os mais pobres.

Entre os mais pobres estão aqueles que saíram das cidades rurais em busca de vida melhor na cidade. Estes buscaram lugar para morar e sobreviver nas grandes cidades do sudeste como Rio de Janeiro e São Paulo.

A constatação de Genésia de que ninguém ia preso, só eles, deve-se às várias ações da polícia em Heliópolis, desde o início da década de 1970. Nota-se a união um tanto obscura dos policiais com os grileiros que diziam Nota-serem donos das terras.

No início a ação, era coibir as ocupações da área, inviabilizando todas as possibilidades dos moradores se organizarem. As ações dos policiais se direcionavam especificamente contra os indivíduos que tentavam ter espaço para se articular. Essa necessidade de se reunir foi crescendo a ponto de construírem um local próprio, criando assim a primeira associação da favela de Heliópolis, como nos relata João Isaías, o João Prefeito:

Houve necessidade de construir um local pra se reunir... É... Pra se reunir. Aí, nós conseguimos uma doação de madeiras e construímos na Col. Silva Castro onde hoje é a Sociedade dos Amigos de Moradores da Favela de Heliópolis. A necessidade

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37 de se construir um espaço pra se reunir. Conseguimos construir, mas a polícia veio e derrubou.19

Como continua João Isaías, a tensão era tão grande que os moradores tiveram que colocar crianças e mulheres à frente da associação construída para que os policiais não derrubassem tudo.

A gente fazia novamente... Vinha polícia... O choque... Chegou até o momento da gente dar as mãos e colocar as mulheres e as crianças na frente pra evitar a derrubada de alguns barracos. Aí, chegou uma hora que nós enfiemos uma placa ―Aqui será construída a sede da associação de moradores‖. Aí, já começou dá outro tom. Aí, a polícia passou a respeitar mais.20

O poder era desarticulado por meio de uma resistência simples que mostrava um poder popular existente na favela de Heliópolis. Como informa Bandini (2009, p.17) citando Michel Foucault:

Segundo Michel Foucault (1988), "onde há poder, há resistência‖ porque ―ambos estão presentes em toda a rede de poder". Para ele, o poder não é estático e não possui uma instância absoluta; ao contrário, o poder é um conjunto de forças que circula entre os sujeitos sociais, e cada um deles exerce distintas parcelas de poder de acordo com uma determinada estrutura social.

O poder se movimenta entre os sujeitos e pode ser evidente em uma pequena ação, se transformado, assim, em um lugar que, por um instante, foi instituído, materializado como lugar próprio. Poder capaz de desafiar a lógica da dominação das autoridades constituídas por meio das táticas. Essa maneira de resistir, ―maneiras de fazer‖, fez com que os que detinham o poder instituído e ―normatizado‖ na favela de Heliópolis viessem a respeitar o poder subjacente entre aqueles moradores. A tática que é ―a arte do fraco‖ (CERTEAU, 1990,

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Entrevista com João Isaías, o João Prefeito. Entrevista realizada em 29/01/10 20

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38 p.101) evidencia-se como último recurso diante da situação vigente. Não havia outra maneira para os moradores que eram considerados ―baderneiros‖ e que não aceitavam as ordens estabelecidas. Essa astúcia de pôr uma placa em um terreno e estabelecer um lugar próprio se mostrava como a forma de desestabilizar o poder estabelecido entrando na lógica deste poder que era visível. Como ressalta Certeau (1990, p. 101).

O poder se acha amarrado a sua visibilidade. Ao contrário, a astúcia é possível ao fraco, e muitas vezes apenas ela, como ‗ultimo recurso‘: ―Quanto mais fracas as forças submetidas à direção estratégica, tanto mais esta estará sujeita à astúcia‖. Traduzindo: Tanto mais se torna tática.

Essa astúcia se fazia presente em todos os momentos diante da situação que os moradores enfrentavam. Pois, quando eram presos e levados para a delegacia para ser interrogados, sabendo que não seriam ouvidos e seus direitos não seriam respeitados, proliferavam as táticas existentes no cotidiano. Utilizavam-se daquilo que tinham para resistir em situações controversas. As astúcias são os ―gestos hábeis do fraco na ordem estabelecida pelo ‗forte‘, arte de dar golpes no campo do outro‖ (CERTEAU, 1990, p. 104) Portanto, não tendo mais o que fazer, os habitantes da favela de Heliópolis invadem a delegacia, em uma demonstração de resistência, mesmo sem ter consciência do alcance de seu gesto, eles estavam fazendo uso daquilo que tinham para dispor, as artimanhas, as astúcias. Como relata Genésia:

Aí, eu comuniquei com os moradores. Na época eu já tinha conseguido articular um trabalho, mas com muita paciência com os moradores que já existia, né? E conversei com eles o que tava acontecendo. O João tinha sido preso por isso, por isso, e tal. E um dia tava chovendo muito. Eu me senti muito fortalecida quando esses moradores vêm junto comigo e a gente ocupa a delegacia. Aí, a gente ocupamos a delegacia.

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39 Tudo com pé de pau. Sujou tudo a delegacia. Claro a gente morava tudo no barro, Né. 21

Essa prática de violência durante as ações dos grileiros acobertados pelos policiais, segundo Genésia Miranda, era respondida também pelos moradores que se protegiam mutuamente. Pois se a lei era a do mais ―forte‖, a população, em alguns momentos, armava-se na tentativa de se guardar das ações dos grileiros e dos seus comparsas, mas a polícia só tinha atenção para os moradores considerados por eles baderneiros e causadores de confusão.

Eles chamava a polícia falando que a gente que tavam armado atirando nele. Na verdade não era isso. As armas tavam com eles. A polícia chegava via as armas na perua deles e não fazia nada. E tava atrás da gente, né? 22

Entretanto, toda estratégia estabelecida pelo poder era burlada pelas fissuras abertas por intermédio das espertezas das mulheres que lideravam a favela e orientavam com coragem o caminho que os moradores deviam seguir. Citando Jean- Pierre Vernant, Certeau (1990, p.156) diz que isso é:

uma forma de inteligência sempre ‗mergulhada em uma prática‘ onde se combinam ‗o faro, a sagacidade, a previsão, a flexibilidade de espírito, a finta, a esperteza, a atenção vigilante, o senso de oportunidade, habilidades diversas, uma experiência longamente adquirida.

A participação feminina na favela de Heliópolis mostra afinidade com as táticas do cotidiano, estabelecendo um diálogo de resistência com o poder e

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Entrevista com Genésia Ferreira da Silva realizada em 02/02/10

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40 com a estratégia que eram colocadas como naturais entre os moradores e o poder público.

Durante toda a história da favela de Heliópolis, a violência foi uma constante na realidade dos moradores. Ora com as ações dos grileiros com a participação dos policiais, quando aconteceram conflitos emblemáticos na favela, ora com os chamados ―justiceiros‖ 23

que matavam e cometiam todo tipo de absurdos a mando dos comerciantes da área. Como registra Sampaio (1990, p.135):

Nessa ocasião ocorreram muitas mortes, a maior parte delas atribuída a ―justiceiros‖ que agiam algumas vezes à luz do dia matando jovens e adultos. As vítimas eram inicialmente ameaçadas, diretamente ou por intermédio de recados enviados por terceiros — dizia que os justiceiros agiam encapuzados, razão pela qual ninguém era capaz de dizer quem eram. Somente entre os dias 14 e 15/10/87, apareceram quatro pedidos de transferência todos resultantes de insegurança — três das famílias receberam ameaça de morte, duas das quais dirigidas a filhos menores, e uma ameaça vaga dirigida a um adulto, que ficou absolutamente apavorado, e um 4º caso, de casa sujeita a roubos.

A violência fez com que muitos moradores deixassem a favela, e, durante anos, não se viu a ação dos policiais para coibir as ações dos chamados justiceiros.

Não se pode falar que acontecia o mesmo durante a permanência dos grileiros, mas o que ficou na mente de Genésia é a inoperância do poder público municipal em relação à presença da corporação policial. Mas isso não tirou dela o sonho de ter uma moradia digna além de servir de fortalecimento àqueles que moravam na favela, mas que não tinham coragem de enfrentar as

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Os justiceiros eram homens contratados por comerciantes para proteção dos seus estabelecimentos e também para agir com violência contra aqueles que cometessem algum crime nas favelas.

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41 situações de violência. Em suas lembranças há traços de medo, sobretudo, de perseverança que a levou a alcançar o objetivo de morar em sua casa própria.

Ninguém ia preso. Só nós. [...] Conseguiram um lugar para nos levar. Por conta dessa ameaça tanto da polícia quanto do crime organizado e tudo. E eu me neguei. Falei: ―Não. Não vou... Eu não vou porque olha... Por que meu sonho foi esse. Eu tenho que lutar por ele. Que diferença faz eu tá viva e morrendo aos pouco. Eu quero morrer lutando. É o mínimo. Morro lutando. Porque, aí, eu sei que alguma coisa eu tô fazendo agora, me acovardar não vou não‖. Então, isso também eu percebi que mesmo com toda essa minha inocência, com essa ambição de querer morar, essa ambição de ter um barraquinho de madeira pra morar, tudo isso. Essa grande ambição que eu tinha... Sempre tive. Eles perceberam e isso fortaleceu eles viram mais gente se fortalecer aqui a comunidade, né? 24

1.4 A ESPECULAÇÃO IMOBILIÁRIA: EXTERNA E INTERNA

Uma das coisas que se pode observar pelos relatos dos moradores e também pela história da cidade de São Paulo, nos anos em que as ocupações de favelas eram as mais contundentes, é que havia muita especulação imobiliária na área do Ipiranga, localização da favela de Heliópolis. Mas é interessante frisar que essa especulação não era somente externa, mas era evidente também na própria favela, mesmo que fosse, no início, apenas como protesto. Pois, ao ouvir Genésia falando sobre o assunto, intuímos que essa prática não era aceita pela liderança da comissão de moradores.

Eu mesmo por aqui, quando o cara tava vendendo, eu caia de pau em cima dele. Eu falava: ―Não. Você não vai vender não. Você vai dar pra ele, você vai dar, mas vender não. Eu era doidinha. Cê não comprou‖. Entendeu? Então, eu era danada. Eu ficava com raiva. ―Isso é injustiça. Explorar o outro?

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