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Estatísticas de avalanches e intervalos interavalanches em séries temporais de sistemas complexos

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Academic year: 2021

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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE CENTRO DE CIˆENCIAS EXATAS E DA TERRA - CCET

DEPARTAMENTO DE F´ISICA TE ´ORICA E EXPERIMENTAL - DFTE PROGRAMA DE P ´OS GRADUAC¸ ˜AO EM F´ISICA - PPGF

Estat´ısticas de avalanches e intervalos interavalanches

em s´

eries temporais de sistemas complexos

IVANDSON PRAEIRO DE SOUSA

NATAL-RN Outubro de 2020

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IVANDSON PRAEIRO DE SOUSA

Estat´ısticas de avalanches e intervalos interavalanches

em s´

eries temporais de sistemas complexos

Tese apresentada ao Programa de P´ os-Gradua¸c˜ao em F´ısica do Departa-mento de F´ısica Te´orica e Experimen-tal da Universidade Federal do Rio Grande do Norte como requisito par-cial para a obten¸c˜ao do grau de Doutor em F´ısica.

Orientador: Prof. Dr. Gilberto Corso

Co-orientador: Prof. Dr. Gustavo Zampier

NATAL-RN Outubro de 2020

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Sousa, Ivandson Praeiro de.

Estatísticas de avalanches e intervalos interavalanches em séries temporais de sistemas complexos / Ivandson Praeiro de Sousa. - 2020.

91f.: il.

Tese (Doutorado) - Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Departamento de Física Teórica e Experimental - Centro de ciências Exatas e da Terra, Programa de Pós-Graduação em Física, Natal, 2020.

Orientador: Dr. Gilberto Corso.

Coorientador: Dr. Gustavo Zampier dos Santos Lima.

1. Leis de potência - Tese. 2. Séries temporais - Tese. 3. Soundscapes - Tese. 4. Intermitência - Tese. 5. Ruído Barkhausen - Tese. I. Corso, Gilberto. II. Lima, Gustavo Zampier dos

Santos. III. Título.

RN/UF/BCZM CDU 53

Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN Sistema de Bibliotecas - SISBI

Catalogação de Publicação na Fonte. UFRN - Biblioteca Central Zila Mamede

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DEDICAT ´ORIA

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AGRADECIMENTOS

Agrade¸co:

Ao meu orientador, prof. Gilberto, e ao meu co-orientador, prof. Gustavo, os quais me possibi-litaram trabalhar com v´arios problemas diferentes dentro do espectro de possibilidades da f´ısica estat´ıstica;

Aos professores Felipe Bohn e M´arcio Assolin Correa, ambos do Departamento de F´ısica da UFRN;

A todos os membros do Laborat´orio de Bioac´ustica do Centro de Biociˆencias da UFRN, que forneceram os dados ac´usticos utilizados neste trabalho;

Ao professor Bruno Lob˜ao, do Centro de Biociˆencias, o qual forneceu as s´eries temporais relativas aos estados comportamentais em camundongos.

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Resumo

Neste trabalho apresentamos resultados emp´ıricos obtidos por meio da an´alise de s´eries temporais de dois diferentes sistemas complexos: sinais de ru´ıdo barkhausen em sistemas magn´eticos e sinais ac´usticos que registraram o ru´ıdo de fundo em alguns ecossistemas (soundscapes). Em particular, verificamos que as s´eries temporais desses dois sistemas possuem uma caracter´ıstica em comum: a intermitˆencia, com algum intervalo temporal distribu´ıdo segundo uma lei de potˆencias. Mais precisamente, no caso do ru´ıdo Barkhausen em filmes ferromagn´eticos, obtivemos uma distribui¸c˜ao exponencial para os waiting times, contrastando com a j´a bem conhecida lei de potˆencias para as dura¸c˜oes das avalanches. Nossos resultados mostram que o comportamento exponencial se mantˆem, a despeito das diferentes estruturas dos materiais analisados - amorfo e policristalino, e a despeito das diferentes espessuras dos filmes ferromagn´eticos considerados. Para as s´eries temporais ac´usticas, por outro lado, mostramos que ocorre uma alternˆancia entre uma distribui¸c˜ao lognormal para os intervalos de atividade ac´ustica (os sound times) e uma lei de potˆencias para os intervalos de quietude para todos os ecossistemas analisados. Foram analisadas grava¸c˜oes em ambiente urbano, nos biomas da Caatinga e Cerrado, al´em de registros efetuados em meio subaqu´atico (marinho).

Palavras-Chave: Leis de potˆencia, s´eries temporais, soundscapes, intermitˆencia, ru´ıdo Barkhausen.

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Abstract

In this work, we present empirical results obtained through the analysis of time se-ries of three different complex systems: barkhausen noise signals in magnetic systems, accelerometer signals that recorded motor activity in rodents and acoustic signals that recorded background noise in some ecosystems (soundscapes). In particular, we found that the time series of these three systems have a common feature: intermittency, all with some time interval distributed according to a power law. More precisely, in the case of Barkhausen noise, we obtained an exponential distribution for waiting times, in contrast to the already well-known power law for avalanche durations. For the accelerometer sig-nals obtained in mice, we show that there is an alternation between a distribution of the power law form for the durations of the avalanches of motor activity and an exponential distribution for the quiet intervals. In the case of acoustic time series, we show that there is an alternation between a lognormal distribution for the intervals of acoustic activity (the sound times) and a power law for the intervals of quiet for all analyzed ecosystems. Keywords: Power laws, time series, soundscapes, intermittence, Barkhausen noise.

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LISTA DE FIGURAS

2.1 Diagrama ilustrativo de uma curva normal. No diarama est˜ao mos-tradas as parcelas das ocorrˆencias da vari´avel aleat´oria que est˜ao dentro do intervalo µ + σ, µ + 2σ e µ + 3σ. Note-se que a probabilidade de ocorrˆencia de eventos “normais” cuja vari´avel aleat´oria associada ´e maior que µ + 3σ ´

e perfeitamente negligenci´avel. . . 15 2.2 Ilustra¸c˜ao do teorema do limite central. Nos pain´eis a-c temos as

distribui¸c˜oes das m´edias de 500 amostras de vari´aveis aleat´orias uniformes, com o tamanho da amostra variando de 0 a 1000. Nos pain´eis d-f, por outro lado, temos as distribui¸c˜oes das m´edias amostrais para diferentes quantidades de amostras, todas de igual tamanho, n = 1000. . . 16 2.3 Comparativo entre leis de potˆencias e exponenciais. EM (A)

fa-zemos uma compara¸c˜ao entre a fun¸c˜ao de distribui¸c˜ao acumulada da lei de potˆencia com a lei exponencial para algumas escolhas dos respectivos parˆametros. Em ambos os casos, x ≥ xmin = 1. (B) A raz˜ao entre

as distribui¸c˜oes lei de potˆencias e exponencial, ilustrando o fato de que eventos que s˜ao efetivamente “imposs´ıveis”(ou seja, que tˆem probabilidade negligenci´avel sob uma distribui¸c˜ao exponencial) tornam-se praticamente comuns sob uma distribui¸c˜ao lei de potˆencias. . . 18 2.4 Efeito do tamanho da amostra nos momentos de uma lei de

potˆencias. Em (A) mostramos como se comportam a m´edia a variˆancia para uma lei de potˆencias com α = 1.7, enquanto em (B) fazemos o mesmo para α = 2.05 e em (C), α = 3.01. Em todos os casos, consideramos um vasto alcance dos tamanhos de amostra. . . 19 2.5 Ilustra¸c˜ao da propriedade de invariˆancia por escala das leis de

potˆencias. Aqui mostramos que o comportamento de algumas distri-bui¸c˜oes de probabilidades em eixos com escala aritm´etica e logar´ıtmica. Apenas a lei de potˆencias ´e linear nessa segunda escala. . . 20 2.6 Compara¸c˜ao da equa¸c˜ao 2.22 para alguns valores de α. Note que,

para essa suposi¸c˜ao de distribui¸c˜ao, aproximadamente 80% da riqueza est´a nas m˜aos dos 20% mais ricos. . . 22 2.7 CCDF para a lei de potˆencias transladada para algumas escolhas

do parˆametro de desvio k. Note que a cauda apresenta uma forma de lei de potˆencias, mas o “corpo”ou “cabe¸ca”exibe uma significante curvatura. 23

(9)

2.8 Representa¸c˜ao de uma uma grade 20x20 na qual os s´ıtios foram ocupados com ma probabilidade de 50%. Os pixeis na cor banca re-presentam os s´ıtios desocupados, ao passo que aqueles em azul rere-presentam s´ıtios ocupados. . . 27 2.9 Representa¸c˜ao de uma uma rede 1000x1000 cuja probabilidade

de ocupa¸c˜ao ´e exatamente igual ao ponto cr´ıtico, pc ≈ 0.5927462.

Os pixeis em vermelho representam o aglomerado percolante, ao passo que aqueles em azul representam s´ıtios ocupados, mas que n˜ao percolam, e os pixeis em branco representam os s´ıtios vazios da rede. . . 28 2.10 Distribui¸c˜ao dos tamanhos dos clusters na criticalidade. Aqui

mos-tramos a distribui¸c˜ao de probabilidades acumulada para os tamanhos dos clusters de uma rede 1000x1000 cuja probabilidade de ocupa¸c˜ao ´e exa-tamente igual ao ponto cr´ıtico, pc ≈ 0.5927462. O resultado em eixos

logar´ıtmicos mostra que a distribui¸c˜ao ´e uma linha reta que se estende por cerca de quatro ordens de magnitude. . . 29 2.11 Ilustra¸c˜ao de uma pilha de areia real [58]. . . 30 3.1 Esbo¸co da metodologia empregada para a determina¸c˜ao dos

tem-pos de quietude (quiet times) e dos temtem-pos de atividade (burst ti-mes). Em (a) temos um registro de 20 minutos da sa´ıda A da grandeza a ser medida, que pode ser a resposta de um acelerˆometro, a amplitude da onda sonora em um registro ac´ustico, etc. Em (b) temos o m´odulo da grandeza mostrada em (a) para uma pequena faixa de 200 segundos. Aqui mostra-se o exemplo de uma linha de corte da forma ¯x + ns, em que n ´e um inteiro e ¯x e s s˜ao a m´edia e o desvio padr˜ao da grandeza A registrada na s´erie temporal. Neste exemplo, usamos n = 2. Em (c) mostramos as larguras dos intervalos de tempo em que |A| fica acima da linha de corte, ou seja, as dura¸c˜oes dos bursts. Entre dois retˆangulos consecutivos temos as dura¸c˜oes dos quiets. . . 37 3.2 Ilustra¸c˜ao de um algoritmo de busca de clusters. . . 38 3.3 Gr´aficos da distribui¸c˜ao acumulada complementar (FDAc) para

um milh˜ao de pontos de uma lei de potˆencia gerados artificial-mente. As distribui¸c˜oes foram plotadas pelo m´etodo de ranqueamento das frequˆencias, j´a discutido. Note que, embora n˜ao possamos associar dire-tamente a inclina¸c˜ao destas curvas com o expoente α, aos maiores valores desse parˆametro s˜ao de fato associadas maiores inclina¸c˜oes, naturalmente. . 39 3.4 Histogramas para vari´aveis aleat´orias que seguem algumas das distribui¸c˜oes

de probabilidades comumente vistas na literatura. . . 40 3.5 Forma linear da exponencial e da lei de potˆencias em eixos

semi-logar´ıtmicos e duplamente semi-logar´ıtmicos, respectivamente. Aqui ilustramos a linearidade do histograma da lei exponencial em eixos semi-logar´ıtmicos (painel a) e da lei de potˆencias em ambos os eixos logar´ıtmicos (painel b). Em cada caso, a inclina¸c˜ao da reta resultante ´e comumente uti-lizada como uma medida do parˆametro que descreve a respectiva distribui¸c˜ao. 41

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4.1 Obten¸c˜ao do sinal Barkhausen. A figura mostra uma representa¸c˜ao simplificada de um procedimento experimental t´ıpico utilizado para a ob-ten¸c˜ao do sinal Barkhausen (parte de cima), que consiste em envolver uma amostra do material magn´etico em estudo com uma bobina que, acoplada a um circuito devidamente configurado, fornece a tens˜ao induzida V me-dida em fun¸c˜ao do tempo. Um exemplo desse sinal obtido est´a mostrado na parte de baixo da figura, que consiste em uma s´erie temporal do ru´ıdo Barkhausen [88]. . . 45 4.2 Representa¸c˜ao dos “saltos”na curva de magnetiza¸c˜ao. A figura

mostra uma curva de magnetiza¸c˜ao t´ıpica de um material ferromagn´etico (esquerda). `A direita est´a mostrado um zoom de um trecho da curva, o qual revela que a forma suave exibida no ciclo de histerese ´e apenas aparente. De fato, como pode ser visto, a magnetiza¸c˜ao varia em saltos. Tamb´em est´a mostrado aqui o sinal Barkhausen associado ao processo de magnetiza¸c˜ao [88]. . . 46 4.3 Defini¸c˜ao dos intervalos waiting times no ru´ıdo magn´etico. Em

(a) temos um exemplo representativo de uma s´erie temporal de um ex-perimento de ru´ıdo Barkhausen medido em filmes ferromagn´eticos. (b) Um zoom em uma escala de tempo menor evidencia os pulsos de tens˜ao combinados com o ru´ıdo de fundo instrumental, bem como as propriedades de autossimilaridade. Ao impor um n´ıvel de limiar finito (linha tracejada vermelha, neste caso em 5 nV), definimos as avalanches, com seus tama-nhos e dura¸c˜oes, assim como os waiting times. (c) Quando a amplitude do sinal est´a abaixo do limiar, os intervalos de tempo correspondentes entre as avalanches (retˆangulos cinza) s˜ao chamados de waiting times (espa¸cos em branco). . . 49 4.4 Exemplos de ru´ıdo Barkhauen para o FeSiB. Cada painel mostra

uma s´erie temporal coletada do sinal Barkhausen. Em cada caso, temos a s´erie temporal da tens˜ao entre os terminais da bobina para o trecho da curva de histerese magn´etica em que ocorre o ru´ıdo Barkhausen, conforme explicado no texto. Os diferentes pain´eis contˆem as s´eries referentes `as diferentes amostras tratadas ao longo do experimento: (a) 50 nm, (b) 100 nm, (c) 150 nm, (d) 200 nm, (e) 500 nm, (f ) 1000 nm. As linhas tracejadas mostram o ponto em que ´e feito o corte para desconsiderar o ru´ıdo eletrˆonico do equipamento. . . 50 4.5 Exemplos de ru´ıdo Barkhauen para o NiFe. Cada painel mostra

uma s´erie temporal coletada do sinal Barkhausen. Em cada caso, temos a s´erie temporal da tens˜ao entre os terminais da bobina para o trecho da curva de histerese magn´etica em que ocorre o ru´ıdo Barkhausen, conforme explicado no texto. Os diferentes pain´eis contˆem as s´eries referentes `as diferentes amostras tratadas ao longo do experimento: (a) 50 nm, (b) 100 nm, (c) 150 nm, (d) 200 nm, (e) 500 nm, (f ) 1000 nm. As linhas tracejadas mostram o ponto em que ´e feito o corte para desconsiderar o ru´ıdo eletrˆonico do equipamento. . . 50

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4.6 Distribui¸c˜ao exponencial dos waiting times. Fun¸c˜ao distribui¸c˜ao acu-mulada P (τ ≥ t) determinada a partir das s´eries temporais dos experimen-tos com ru´ıdo Barkhausen no FeSiB amorfo e no NiFe policristalino. Foram utilizados filmes ferromagn´eticos com espessuras de 50, 100 e 1000 nm para ambos os materiais. Em particular, apresentamos em cada quadro os resul-tados para 10 distribui¸c˜oes de waiting times selecionadas dentre 200 s´eries temporais obtidas para cada amostra. Todos foram obtidos considerando uma linha de corte na altura dos 5 nV. Notavelmente, a fun¸c˜ao de distri-bui¸c˜ao acumulada dos waiting times, P (T ≥ t), segue um robusto com-portamento exponencial, o qual pode ser ajustado por P (T ≥ t) ∝ e−t/λ, fornecendo assim o parˆametro λ, que ´e o tempo caracter´ıstico do processo exponencial. . . 52 4.7 Efeito do n´ıvel da linha de corte na estat´ıstica. Aqui est´a mostrada

a dependˆencia do tempo caracter´ıstico λ, ou seja, do intervalo t´ıpico intera-valanches, com o n´ıvel da linha de corte. O parˆametro λ foi determinado a partir do ajuste exponencial para a distribui¸c˜ao dos waiting times obtidas a partir das s´eries temporais de ru´ıdo Barkhausen nos filmes ferromagn´eticos de FeSiB amorfo e NiFe policristalino. S˜ao mostradas curvas para v´arias espessuras de filmes ferromagn´eticos no intervalo entre 50 e 1000 nm. As barras de erro foram estimadas por meio do desvio padr˜ao. . . 53 4.8 Dependˆencia da estat´ıstica dos waiting times com a espessura do

filme ferromagn´etico e com a estrutura dos materiais. Mostramos aqui o comportamento do intervalo t´ıpico interavalanches, λ, com a varia¸c˜ao da espessura da amostra de material ferromagn´etico, com a estrutura do material (FeSiB amorfo e NiFe policristalino) e com os v´arios n´ıveis de limiar considerados. As barras de erro foram estimadas por meio do desvio padr˜ao. . . 54 4.9 Distribui¸c˜ao das dura¸c˜oes das avalanches do ru´ıdo Barkhausen.

`

A esquerda (figs (a), (c) e (e)) tem-se os resultados emp´ıricos obtidos para os filmes amorfos, ao passo que `a direita (figs (b), (d) e (f)) est˜ao os re-sultados para os filmes policristalinos. Em cada caso, est˜ao mostradas as distribui¸c˜oes de probabilidade acumulada para 10 diferentes s´eries tempo-rais analisadas, bem como o expoente da lei de potˆencias associada. . . 55 4.10 Distribui¸c˜ao das ´areas das avalanches do ru´ıdo Barkhausen. A`

esquerda (figs (a), (c) e (e)) tem-se os resultados emp´ıricos obtidos para os filmes amorfos, ao passo que `a direita (figs (b), (d) e (f)) est˜ao os re-sultados para os filmes policristalinos. Em cada caso, est˜ao mostradas as distribui¸c˜oes de probabilidade acumulada para 10 diferentes s´eries tempo-rais analisadas, bem como o expoente da lei de potˆencias associada. . . 55 5.1 Esbo¸co da metodologia empregada para a determina¸c˜ao dos

qui-ets e sound times. Em (a) temos um registro de 20 minutos da sa´ıda A t´ıpica de um gravador de ´audio utilizado no experimento. Em (b) temos o m´odulo da grandeza mostrada em (a) para uma pequena faixa de 200 segundos. Mostramos tamb´em a linha de corte utilizada, da forma ¯x + 2s, em que ¯x e s s˜ao a m´edia e o desvio padr˜ao da grandeza A registrada na s´erie temporal. Em (c) mostramos as larguras dos intervalos de tempo em que |A| fica acima da linha de corte, ou seja, as dura¸c˜oes dos bursts. Entre dois retˆangulos consecutivos temos as dura¸c˜oes dos quiets. . . 62

(12)

5.2 Mapa que enfatiza as regi˜oes nas quais as grava¸c˜oes foram rea-lizadas. Na parte superior, temos o mapa do Brasil, com ˆenfase para as localiza¸c˜oes das trˆes regi˜oes nas quais as grava¸c˜oes aconteceram. Na parte inferior, mostramos as imagens a´ereas dos ambientes de grava¸c˜ao ac´ustica. 63 5.3 Gravador utilizado para efetuar os registros ac´usticos no meio urbano. . . . 64 5.4 Sound times de um ambiente urbano. Distribui¸c˜ao de probabilidades

para as dura¸c˜oes das emiss˜oes ac´usticas (sound times) para o fundo sonoro de um meio urbano. Em a) o gr´afico se refere `as grava¸c˜oes feitas `as 03:00 a.m e em b), `as grava¸c˜oes realizadas `as 12:00 p.m. Os registros foram feitos no munic´ıpio de Natal/RN. . . 65 5.5 Quiet times de um meio urbano. Demosntra¸c˜ao qualitativa de que os

quiet times para os sons de um meio urbano seguem uma lei de potˆencas. Em a) temos a estat´ıstica para os quiet times para os registros feito `as 03:00 a.m e em b), para os registros realizados `as 12:00 p.m. Em ambos os casos, plotamos um gr´afico em eixos logaritmos para a distribui¸c˜ao acumulada. As retas em diferentes cores se referem a grava¸c˜oes efetuadas nos diferentes dias. Os registros foram feitos no munic´ıpio de Natal/RN. . . 66 5.6 Gravador utilizado para efetuar os registros ac´usticos em todos os

ecossis-temas, exceto no urbano. . . 67 5.7 Sound times da caatinga. Distribui¸c˜ao de probabilidades para as dura¸c˜oes

das emiss˜oes ac´usticas (sound times) para o fundo sonoro da caatinga. Os registros foram feitos no munic´ıpio de Lajes/RN. As grava¸c˜oes ac´usticas foram efetuadas pelo grupo de bioac´ustica do Centro de Biociˆencias/UFRN. 68 5.8 Quiet times da caatinga. Demosntra¸c˜ao qualitativa de que os quiet

times para os sons da caatinga seguem uma lei de potˆencas. Em a) temos a estat´ıstica para os quiet times para os registros feito `as 05:30 e em b), para os registros realizados `as 17:30. Em ambos os casos, plotamos um gr´afico em eixos logaritmos para a distribui¸c˜ao acumulada. Os registros ac´usticos foram feitos pelo grupo de bioac´ustica do Centro de Biociˆencias/UFRN. . . 69 5.9 Sound times do Cerrado. Distribui¸c˜ao de probabilidades para as dura¸c˜oes

das emiss˜oes ac´usticas (sound times) para o fundo sonoro do Cerrado. Os registros foram feitos na Serra da Canastra/MG. As grava¸c˜oes ac´usticas foram conduzidas pelo grupo de bioac´ustica do Centro de Biociˆencias/UFRN. 70 5.10 Quiet times do Cerrado. Demosntra¸c˜ao qualitativa de que os quiet

times para os sons do Cerrado seguem uma lei de potˆencas. Em a) temos a estat´ıstica dos quiet times para os registros feito `as 03:00 e em b), para os registros realizados `as 17:00. Em ambos os casos, plotamos um gr´afico em eixos logaritmos para a distribui¸c˜ao acumulada. Os registros ac´usticos foram feitos pelo grupo de bioac´ustica do Centro de Biociˆencias/UFRN. . . 71 5.11 Sound times de um ambiente subaqu´atico (Abrolhos). Distribui¸c˜ao

de probabilidades para as dura¸c˜oes das emiss˜oes ac´usticas (sound times) para o fundo sonoro detectado a uma profundidade entre 15 e 30 metros. Os registros foram feitos no Parque Nacional Marinho de Abrolhos, loca-lizado no nordeste brasileiro. As grava¸c˜oes foram efetuadas pelo grupo de bioac´ustica do Centro de Biociˆencias/UFRN. . . 73

(13)

5.12 Quiet times de um meio subaqu´atico (Abrolhos). Demosntra¸c˜ao qualitativa de que os quiet times para os sons gravados a 000 metros de profundidade seguem uma lei de potˆencas. Em a) temos a estat´ıstica para os quiet times para os registros feito `as 03:00 e em b), para os registros realizados `as 12:00. Em ambos os casos, plotamos um gr´afico em eixos logaritmos para a distribui¸c˜ao acumulada. Os registros ac´usticos foram feitos pelo grupo de bioac´ustica do Centro de Biociˆencias/UFRN. . . 74

(14)

LISTA DE TABELAS

2.1 Algumas fun¸c˜oes de probabilidade (FP) para vari´aveis discretas. . . 13 2.2 Fun¸c˜oes densidade de probabilidade (FDP) para as distribui¸c˜oes cont´ınuas

exemplificadas. . . 15 4.1 Quadro comparativo dos valores do parˆametro λ encontrados para as

dis-tribui¸c˜oes de waiting times para as v´arias epessuras consideradas no expe-rimento e para os dois materiais utilizados. A linha que define o limiar de corte foi fixada aqui em 5 nV. . . 58 5.1 Parˆametros da distribui¸c˜ao lognormal associada aos tempos de emiss˜ao

(burst times) dos sons urbanos. . . 65 5.2 Parˆametros da distribui¸c˜ao lognormal associada aos sound times para as

s´eries temporais obtidas no munic´ıpio de Lajes/RN. . . 68 5.3 Parˆametros da distribui¸c˜ao lognormal associada aos sound times para as

s´eries temporais obtidas na Serra da Canastra - Cerrado. . . 71 5.4 Parˆametros da distribui¸c˜ao lognormal associada aos sound times para as

s´eries temporais obtidas em um meio subaqu´atico - Abrolhos. . . 73 5.5 Quadro comparativo dos valores de estat´ıstica descritiva para as

distri-bui¸c˜oes de tempo de emiss˜ao nos v´arios meios analisados. Aqui, o termo NOTURNO se refere `as grava¸c˜oes realizadas `as 03:00 a.m, enquanto o termo DIURNO ´e referente `as grava¸c˜oes realizadas em hor´arios variados, de acordo com cada bioma. . . 75 5.6 Quadro comparativo dos valores dos expoentes encontrados para as

dis-tribui¸c˜oes de quiet times nos v´arios meios analisados. Aqui, o termo NO-TURNO se refere `as grava¸c˜oes realizadas `as 03:00 a.m, enquanto o termo DIURNO ´e referente `as grava¸c˜oes realizadas em hor´arios variados, de acordo com cada bioma. . . 76

(15)

SUM ´

ARIO

1 Introdu¸c˜ao 10

2 Teoria 12

2.1 Breve discuss˜ao sobre distribui¸c˜oes de probabilidade . . . 12

2.1.1 Distribui¸c˜oes de probabilidade para vari´aveis aleat´orias discretas . . 13

2.1.2 Distribui¸c˜oes de probabilidade para vari´aveis aleat´orias cont´ınuas . 14 2.2 Breve discuss˜ao sobre leis de escala . . . 17

2.3 Propriedades matem´aticas das leis de escala . . . 17

2.3.1 Momentos . . . 18

2.3.2 Invariˆancia por escala . . . 19

2.3.3 Distribui¸c˜oes com caudas muito longas e a “regra 80–20” . . . 21

2.3.4 Distribui¸c˜oes com cauda de lei de potˆencias . . . 22

2.4 N´umeros randˆomicos com distribui¸c˜ao livre de escala . . . 23

2.5 Alguns mecanismos geradores de leis de escala na natureza . . . 25

2.5.1 Amostragem de alguns processos especiais . . . 25

2.5.2 Transi¸c˜oes de fase e fenˆomenos cr´ıticos . . . 26

2.5.3 Criticalidade auto-organizada . . . 29

2.5.4 Efeitos multiplicativos . . . 31

2.5.5 Processos otimizados . . . 32

2.5.6 Redes complexas - liga¸c˜oes preferenciais . . . 33

2.6 Lei de potˆencia versus lognormal . . . 35

3 M´etodo 36 3.1 Processamento dos sinais e identifica¸c˜ao dos intervalos de tempo . . . 36

3.1.1 Descri¸c˜ao do algoritmo utilizado . . . 37

3.2 Ajuste dos dados emp´ıricos . . . 38

3.2.1 Uma maneira simples de representar graficamente uma distribui¸c˜ao lei de potˆencias . . . 38

3.2.2 Histogramas de classes e leis de potˆencia . . . 40

3.2.3 Regress˜ao linear e leis de potˆencia . . . 41

3.2.4 Determina¸c˜ao do expoente α em p(x) = Ax−α atrav´es do m´etodo de m´axima verossimilhan¸ca - MML . . . 42

4 Estat´ıstica dos intervalos interavalanches no ru´ıdo Barkhausen 44 4.1 Breve introdu¸c˜ao sobre o ru´ıdo Barkhausen . . . 44

(16)

4.2 Materiais e Metodologia . . . 48

4.2.1 Filmes ferromagn´eticos utilizados . . . 48

4.2.2 Obten¸c˜ao das s´eries temporais do ru´ıdo Barkhausen . . . 48

4.2.3 Identifica¸c˜ao dos eventos de waiting times . . . 48

4.2.4 Resultados . . . 51

4.3 Discuss˜ao . . . 56

5 Leis de escala para o fundo ac´ustico de alguns ecossistemas 60 5.1 Metodologia de identifica¸c˜ao dos intervalos de tempo . . . 61

5.2 Resultados . . . 62

5.2.1 Distribui¸c˜oes dos sons urbanos . . . 62

5.2.2 Estat´ıstica dos sons da Caatinga . . . 66

5.2.3 Estat´ıstica dos sons do Cerrado . . . 69

5.2.4 Estat´ıstica dos sons subaqu´aticos (Abrolhos) . . . 72

5.3 Discuss˜ao . . . 74

6 Conclus˜oes 78

(17)

CAP´ITULO

1

INTRODUC

¸ ˜

AO

As distribui¸c˜oes do tipo lei de potˆencia tˆem atra´ıdo o interesse de cientistas nas mais di-versas ´areas do conhecimento. Essas leis probabil´ısticas aparecem na descri¸c˜ao estat´ıstica de diversos fenˆomenos como, por exemplo, terremotos [1, 2, 3], tempos de resposta em tes-tes cognitivos [4, 5], redes complexas, erup¸c˜oes solares [6], flutua¸c˜oes no pre¸co dos ativos no mercado financeiro [7, 8, 9], extin¸c˜ao de esp´ecies [10, 11, 12] e sistemas biol´ogicos em geral [13]. Tais sistemas s˜ao caracterizados por intermitˆencia, isto ´e, a alternˆancia entre saltos ou avalanches e tempos de quietude. Semelhantemente a um sistema f´ısico que atravessa uma transi¸c˜ao de fases, tais s´eries temporais apresentam car´ater autossimilar, com flutua¸c˜oes em todas as escalas alcan¸cadas pelo fenˆomeno. Essas flutua¸c˜oes, por sua vez, s˜ao caracterizadas por distribui¸c˜oes da forma de leis de potˆencias.

Nesse sentido, tem-se analisado as distribui¸c˜oes dos tempos de quietude (quiet times ou waiting times) e dos tempos de atividade (burst times ou activity times) em s´eries temporais associadas a diversos fenˆomenos naturais. Como exemplo, podemos citar aque-las relacionadas `a atividade neural e motora em mam´ıferos [4, 14, 15, 16] e ao ru´ıdo Barkhausen em sistemas magn´eticos [17, 18, 19].

Na an´alise neural e motora, contudo, tem-se estudado as distribui¸c˜oes dos wake times e dos waiting times, ambos associados ao sono de mam´ıferos [20, 21, 22]. Por outro lado, ainda n˜ao h´a registros de trabalhos que determinem essas distribui¸c˜oes no contexto global, estando o indiv´ıduo dormindo ou acordado. Do mesmo modo, em termos de ru´ıdo Barkhausen tem sido analisado as distribui¸c˜oes das dura¸c˜oes das avalanches, mas ainda n˜ao h´a um consenso sobre a distribui¸c˜ao dos quiet times [18, 23, 24, 25].

Muitos aspectos dos grandes e m´edios centros urbanos tˆem sido analisados com o aux´ılio das ferramentas da f´ısica estat´ıstica e da ciˆencia da complexidade [26, 27, 28, 29]. Por outro lado, um sistema ainda pouco explorado em termos de distribui¸c˜oes de quiet e burst times s˜ao os chamados soundscapes, que consistem do conte´udo ac´ustico de um ecossistema. De fato, o estudo da dinˆamica ac´ustica dos diversos ecossistemas, sejam eles urbanos, rurais ou selvagens, pode contribuir para o entendimento da trajet´oria evolutiva das esp´ecies que nele vivem, ou mesmo de propriedades intr´ınsecas daquele habitat, como seu grau de conserva¸c˜ao.

Diante disso, o objetivo deste trabalho ´e apresentar os resultados emp´ıricos que ob-tivemos para as s´eries temporais de 3 diferentes sistemas complexos - sinais de ru´ıdo Barkhausen em filmes ferromagn´eticos, sinais de acelerˆometro associado `a atividade mo-tora de roedores e sinais ac´usticos associados a alguns ecossistemas.

Particularmente, usamos um m´etodo simples para identificar os intervalos de tempo de atividade e de quietude em s´eries temporais. Essa metodologia basicamente considera

(18)

um corte nos valores das magnitudes das amplitudes, de maneira a eliminar as flutua¸c˜oes aleat´orias introduzidas por ru´ıdo eletrˆonico e afins, e ent˜ao focamos no sinal resultante. De posse desse novo sinal, procuramos pelos registros de amplitude que se situam acima e abaixo do limiar de corte, constituindo assim os intervalos de tempo de atividade e de quietude, respectivamente. Por fim, procuramos pela distribui¸c˜ao de probabilidades que descreve o comportamento desses intervalos de tempo, utilizando para isso o m´etodo de m´axima verossimilhan¸ca.

Uma lei de potˆencia ´e um tipo especial de distribui¸c˜ao de probabilidades que possuem caracter´ısticas singulares quando comparadas com as demais distribui¸c˜oes de probabili-dade [30]. Por exemplo, grandezas que se distribuem segundo uma lei de potˆencias s˜ao ditas apresentarem a propriedade de invariˆancia por escala, que indica que os peque-nos eventos, que s˜ao muito comuns, s˜ao qualitativamente semelhantes `aqueles que s˜ao de grande magnitude e raros, em termos de probabilidade. Assim, eventos raros e comuns parecem ser gerados pela mesma dinˆamica.

A identifica¸c˜ao dessas distribui¸c˜oes em dados emp´ıricos pode ser um indicativo da presen¸ca de processos geradores que usualmente s˜ao conhecidos por gerarem compor-tamento complexo na natureza. Alguns exemplos incluem efeitos de redes complexas, auto-organiza¸c˜ao, processos otimizados e efeitos multiplicativos.

Diante do exposto, este trabalho foi organizado do seguinte modo: no cap´ıtulo 2, faze-mos uma revis˜ao te´orica a respeito das distribui¸c˜oes de probabilidade, em particular, das que exibem a propriedade de invariˆancia por escala, ou seja, as leis de potˆencias. Ainda neste cap´ıtulo, fazemos uma discuss˜ao sobre alguns modelos geradores dessas leis ampla-mente difundidos na literatura de f´ısica estat´ıstica e sistemas complexos. No cap´ıtulo 3, descrevemos a metodologia desenvolvida para a determina¸c˜ao dos intervalos de tempo de interesse, bem como do procedimento utilizado para a identifica¸c˜ao das distribui¸c˜oes de probabilidade e c´alculo dos respectivos parˆametros.

No cap´ıtulo 4, iniciamos a exposi¸c˜ao dos resultados, primeiramente para o ru´ıdo Barkhausen, mostrando que os intervalos de quietude para esse sinal (ou waiting times) em filmes ferromagn´eticos se distribuem segundo uma lei exponencial. Analisamos a forma dessa distribui¸c˜ao para sinais obtidos em materiais magn´eticos amorfos e policristalinos, e conclu´ımos que ambos apresentam a mesma distribui¸c˜ao para os waiting times. Investiga-mos tamb´em a varia¸c˜ao do parˆametro λ que descreve essas distribui¸c˜oes com a espessura dos filmes magn´eticos utilizados no experimento com ru´ıdo Barkhausen.

No cap´ıtulo 5, apresentamos os resultados da an´alise estat´ıstica dos intervalos de tempo de atividade e de quietude para s´eries temporais de acelerˆometro acoplado `a cabe¸ca de cinco camundongos saud´aveis. Em todos os casos, verificamos que h´a uma alternˆancia entre distribui¸c˜ao exponencial para os intervalos de tempo de quietude e uma lei de potˆencias para as dura¸c˜oes das avalanches de atividade motora.

Finalmente, no cap´ıtulo 6 apresentamos os resultados obtidos para os intervalos de tempo de quietude e de atividade ac´ustica em s´eries temporais gravadas em alguns ecos-sistemas. Como resultados, identificamos a alternˆancia entre uma distribui¸c˜ao lognormal para os tempos de atividade (sound times) e uma lei de potˆencia para os tempos de quie-tude (quiet times). Conclu´ımos que as mesmas leis se mantˆem para todos os ecossistemas analisados, com parˆametros semelhantes.

(19)

CAP´ITULO

2

TEORIA

Neste cap´ıtulo, fazemos uma revis˜ao das distribui¸c˜oes de probabilidade cont´ınuas e mostramos os exemplos mais comuns encontrados na literatura. Em seguida, introduzimos as leis de potˆencia, mostrando suas principais caracter´ısticas e explorando algumas de suas propriedades. Tratamos tamb´em dos principais modelos dispon´ıveis na literatura que s˜ao capazes de gerar essas distribui¸c˜oes de probabilidade.

2.1

Breve discuss˜

ao sobre distribui¸

oes de

probabili-dade

Em geral, costumamos estudar os processos com os quais nos deparamos na natureza por meio de dois modelos: determin´ıstico e aleat´orio. No primeiro tipo est˜ao inclu´ıdos todos os processos que evoluem segundo um conjunto espec´ıfico de regras e cujos resultados s˜ao previs´ıveis, dadas as regras que o regem. Nesse caso, dados o estado inicial e a lei que governa a evolu¸c˜ao daquele processo, seja no espa¸co ou no tempo, o resultado esperado ´e sempre o mesmo.

Os processos aleat´orios, por outro lado, possuem comportamento imprevis´ıvel. Desse modo, mesmo sob as mesmas condi¸c˜oes iniciais, v´arias realiza¸c˜oes do processo podem resultar em resultados completamente diferentes. Um exemplo simples de um processo aleat´orio ´e o resultado num´erico da face de um dado ap´os seu lan¸camento.

Dentro da categoria dos processos aleat´orios, tem-se os processos estoc´asticos, que s˜ao muito comuns na natureza. Estes s˜ao caracterizados por evoluir com o tempo, de maneira aleat´oria. Alguns exemplos desse tipo de processo s˜ao o n´umero de ve´ıculos que passam atrav´es de uma rodovia ao longo do dia, a varia¸c˜ao no pre¸co de uma commoditie ou de um ativo financeiro ao longo dos dias, as flutua¸c˜oes na taxa de cˆambio, entre outros.

Quando estamos estudando o comportamento de um sistema que evolui de maneira estoc´astica, ´e comum olharmos para a maneira como as probabilidades se distribuem ao longo do tempo, uma vez que estamos interessados n˜ao em uma ocorrˆencia espec´ıfica do evento aleat´orio associado ao processo, mas sim num conjunto grande de ocorrˆencias. Desse modo, ´e bastante comum olharmos para a distribui¸c˜ao de probabilidade associada ao fenˆomeno ou processo que estamos analisando [31, 32].

Nesse sentido, o tipo de distribui¸c˜ao de probabilidade considerado no estudo depende da natureza da vari´avel aleat´oria que associamos ao processo ou fenˆomeno de interesse. Se estamos lidando com um processo que evolui a passos discretos, temos ent˜ao uma vari´avel aleat´oria discreta, e utilizamos assim uma distribui¸c˜ao de probabilidades discreta. Se, por

(20)

outro lado, estamos lidando com um processo que evolui continuamente com o tempo, por exemplo, precisamos associ´a-lo a uma distribui¸c˜ao de probabilidades cont´ınua [32]. Nas pr´oximas se¸c˜oes, discutimos brevemente algumas das mais conhecidas distribui¸c˜oes de probabilidade discretas e cont´ınuas encontradas na literatura.

2.1.1

Distribui¸

oes de probabilidade para vari´

aveis aleat´

orias

discretas

Conforme adiantado acima, quando associamos uma vari´avel aleat´oria discreta aos eventos do espa¸co amostral de um processo aleat´orio, a distribui¸c˜ao de probabilidades a ela associada ´e dita ser uma distribui¸c˜ao de vari´avel aleat´oria discreta, ou simplesmente, distribui¸c˜ao discreta. Distribui¸c˜oes discretas est˜ao associadas a fenˆomenos aleat´orios cuja variabilidade se d´a por meio de passos discretos. Alguns exemplos t´ıpicos s˜ao os resultados poss´ıveis do lan¸camento de uma moeda, o n´umero de pe¸cas defeituosas em uma linha de produ¸c˜ao ao longo do tempo, o n´umero de carros que passam em um cruzamento ao longo de um dado intervalo de tempo, dentre outros.

Assim, uma vari´avel aleat´oria discreta X associa um n´umero inteiro a cada poss´ıvel evento no espa¸co amostral de um processo aleat´orio. Uma fun¸c˜ao de probabilidade, por sua vez, ´e uma rela¸c˜ao que associa um n´umero real entre zero e um (uma probabilidade) aos valores poss´ıveis de X. Desse modo, uma fun¸c˜ao de probabilidade ´e definida como

p(x) = P (X = x), (2.1)

que obedece ao v´ınculo

N

X

i=1

p(xi) = 1, (2.2)

que ´e a condi¸c˜ao de normaliza¸c˜ao. Assim, um processo aleat´orio ao qual se relaciona uma vari´avel aleat´oria discreta estar´a descrito se conhecermos seu espa¸co amostral e sua fun¸c˜ao de probabilidade[31, 32]. A tabela 2.1 mostra algumas das distribui¸c˜oes mais comumente encontradas na literatura para a descri¸c˜ao do comportamento de vari´aveis aleat´orias discretas.

Distribui¸c˜ao Parˆametros FP normalizada Binomial n, k P (X = k) = nkpk (1 − p)n−k Hipergeom´etrica N, r, n P (X = k) = r k  N −r n−k  N n  Poisson k, n, p P (X = k) = e −np(np)k k!

Tabela 2.1: Algumas fun¸c˜oes de probabilidade (FP) para vari´aveis discretas. Uma quantidade interessante, que resume o comportamento de uma vari´avel aleat´oria, dada sua fun¸c˜ao de probabilidade, ´e a sua m´edia (ou esperan¸ca). Ela ´e definida da seguinte forma

(21)

E(X) = N X i=1 xiP (X = xi) = N X i=1 xipi. (2.3)

A m´edia ou esperan¸ca de uma vari´avel aleat´oria geralmente indica seu valor t´ıpico ou caracter´ıstico.

2.1.2

Distribui¸

oes de probabilidade para vari´

aveis aleat´

orias

cont´ınuas

Similarmente ao que foi discutido para as vari´aveis discretas, as distribui¸c˜oes de proba-bilidade cont´ınuas s˜ao usadas para descrever o comportamento de conjuntos de vari´aveis aleat´orias que variam continuamente, ou seja, assumem quaisquer valores reais dentro de um cont´ınuo de possibilidades. Exemplos disso s˜ao a dura¸c˜ao, em anos, de uma lˆampada, o intervalo de tempo entre terremotos, as velocidades das part´ıculas de um g´as, etc.

No caso de vari´aveis aleat´orias cont´ınuas, diferentemente do caso discreto, n˜ao defini-mos a probabilidade de a vari´avel assumir um valor x espec´ıfico. De fato, tal probabilidade seria igual a zero, j´a que estar´ıamos falando de um ´unico ponto amostral (infinitesimal) dentro de um cont´ınuo de possibilidades. Dessa forma, quando estamos tratando de dis-tribui¸c˜oes cont´ınuas, em vez de falarmos em fun¸c˜ao de probabilidade, falamos em fun¸c˜ao densidade de probabilidade (FDP). Uma fun¸c˜ao densidade de probabilidade f (x) ´e defi-nida da seguinte forma:

P (x − dx ≤ x ≤ x + dx) = f (x)dx, (2.4) ou ainda, para um intervalo finito,

P (a ≤ x ≤ b) = Z b

a

f (x) dx. (2.5)

A condi¸c˜ao de normaliza¸c˜ao, que, conforme discutido no caso discreto, garante que as probabilidades assumam valor entre 0 e 1, neste caso, ´e dada por uma integral:

Z ∞

−∞

f (x) dx = 1. (2.6)

A tabela 2.2 mostra algumas fun¸c˜oes densidade de probabilidade (FDPs) muito frequen-temente encontradas na literatura para a descri¸c˜ao de vari´aveis aleat´orias cont´ınuas. A seguir discutimos brevemente cada uma delas.

(22)

Distribui¸c˜ao Parˆametros FDP normalizada Normal µ, σ p(x) = 1 σ√2πexp  −(x − µ) 2 2σ2  Exponencial λ p(x) = λe−λx Lognormal µL, σL p(x) = 1 xσ√2πexp  −(ln x − µ) 2 2σ2 

Lei de potˆencias α, xmin p(x) =

α − 1 xmin  x xmin −α

Tabela 2.2: Fun¸c˜oes densidade de probabilidade (FDP) para as distribui¸c˜oes cont´ınuas exemplificadas.

Distribui¸c˜ao Gaussiana

A distribui¸c˜ao normal (ou gaussiana) ´e provavelmente a distribui¸c˜ao de probabilidades mais comumente vista na literatura, seja ela b´asica ou avan¸cada. Ela ´e definida em termos de dois parˆametros, a m´edia e o desvio padr˜ao. Sua principal importˆancia reside no fato de podermos prever o percentual de realiza¸c˜oes da vari´avel aleat´oria que se situam dentro de determinadas distˆancias da m´edia, conforme pode ser visto na figura 2.1.

Figura 2.1: Diagrama ilustrativo de uma curva normal. No diarama est˜ao mostradas as parcelas das ocorrˆencias da vari´avel aleat´oria que est˜ao dentro do intervalo µ+σ, µ+2σ e µ + 3σ. Note-se que a probabilidade de ocorrˆencia de eventos “normais” cuja vari´avel aleat´oria associada ´e maior que µ + 3σ ´e perfeitamente negligenci´avel.

(23)

es-tat´ıstica, resulta do teorema do limite central, o qual permite fazer inferˆencias a respeito de uma popula¸c˜ao, analisando-se uma amostra que representa apenas uma pequena fra¸c˜ao do universo, al´em de tamb´em fornecer uma maneira de comparar as diferentes amostras de uma mesma popula¸c˜ao [31].

Basicamente, o teorema do limite central diz que, dado um conjunto de n vari´aveis aleat´orias independentes e identicamente distribu´ıdas, X1, X2, X3, . . . , XN, cada um com

n elementos, m´edia ¯x e variˆancia S2 > 0, quando o tamanho das amostras aumenta, isto ´e, n → ∞, a distribui¸c˜ao da m´edia dessas vari´aveis aleat´orias se aproxima de uma distribui¸c˜ao normal com m´edia µ e variˆancia σ2/n, independente da forma da distribui¸c˜ao

original. Isto est´a ilustrado na figura 2.2, em que simulamos um conjunto de vari´aveis aleat´orios identicamente distribu´ıdas e com diferentes tamanhos de amostra. Mostramos que, quando somamos os valores dessas vari´aveis em grandes conjuntos, o resultado se distribui como uma gaussiana.

230 240 250 260 270 0 0.5 1 1.5 2 Densidade 230 240 250 260 270 280 0 20 40 60 80 100 2 4 6 8 x 0 20 40 60 80 100 Densidade 40 45 50 55 60 x 0 20 40 60 80 100 230 240 250 260 270 x 0 20 40 60 80 100 230 240 250 260 270 0 5 10 15 (c) (b) 500 amostras n=100 100 amostras n=1000 (a) (d) (e) (f) 500 amostras n=10 500 amostras n=1000 10 amostras n=1000 500 amostras n=1000

Figura 2.2: Ilustra¸c˜ao do teorema do limite central. Nos pain´eis a-c temos as distribui¸c˜oes das m´edias de 500 amostras de vari´aveis aleat´orias uniformes, com o tamanho da amostra variando de 0 a 1000. Nos pain´eis d-f, por outro lado, temos as distribui¸c˜oes das m´edias amostrais para diferentes quantidades de amostras, todas de igual tamanho, n = 1000.

Distribui¸c˜ao lognormal

Uma vari´avel aleat´oria X tem distribui¸c˜ao lognormal quando a vari´avel transformada Y = ln X tem uma distribui¸c˜ao normal. A fun¸c˜ao densidade de probabilidade para vari´aveis que seguem uma lei lognormal est´a mostrada na tabela 2.2. Como podemos ver, ela ´e muito parecida com a FDP gaussiana, bastando trocar x por ln x neste ´ultima para obter a primeira [33]. Ao contr´ario da gaussiana, a lognormal ´e assim´etrica, mais precisamente, possui assimetria `a direita.

Distribui¸c˜oes lornogmal s˜ao particularmente comuns quando os valores m´edios s˜ao baixos e a vari´avel aleat´oria n˜ao pode assumir valores negativos. Esse ´e o caso, por exemplo, de abundˆancia de esp´ecies, dura¸c˜oes de per´ıodos latentes de doen¸cas infecciosas e distribui¸c˜ao de recursos minerais na crosta terrestre [34].

Apesar de n˜ao ter um uso t˜ao difundido como aquele observado para a distribui¸c˜ao normal, a lognormal tamb´em possui sua importˆancia do ponto de vista de inferˆencia estat´ıstica. Nesse sentido, conforme veremos na se¸c˜ao 2.5.4, o teorema do limite central

(24)

tamb´em vale para a distribui¸c˜ao lognormal, por´em, em sua forma multiplicativa. Assim, essa distribui¸c˜ao de probabilidades tamb´em aparece quando uma quantidade grande de efeitos aleat´orios se combinam, por´em, nesse caso, de maneira multiplicativa [35].

Distribui¸c˜ao exponencial

Distribui¸c˜oes exponenciais geralmente s˜ao encontradas como distribui¸c˜oes de tempo de vida com taxa de risco constante. Aplica¸c˜oes desse modelo probabil´ıstico s˜ao encontradas principalmente no campo das ciˆencias atuariais, engenharia e ciˆencias biol´ogicas [36]. A forma funcional da distribui¸c˜ao exponencial est´a mostrada na tabela 2.2.

Semelhantemente ao caso da lognormal, discutido brevemente acima, uma vari´avel aleat´oria que possui distribui¸c˜ao exponencial possui apenas valores positivos num cont´ınuo de possibilidades. Tamb´em a exemplo da lognormal e das leis de potˆencia, a distribui¸c˜ao exponencial ´e uma distribui¸c˜ao de cauda longa, em que os eventos de menor magnitude s˜ao mais prov´aveis, enquanto os de grande magnitude, apesar de ter menor probabilidade a eles associados, n˜ao s˜ao negligenci´aveis, como ocorre, por exemplo, na distribui¸c˜ao gaussiana.

2.2

Breve discuss˜

ao sobre leis de escala

Leis de escala (ou leis de potˆencia) s˜ao distribui¸c˜oes de probabilidades da forma

p(x) = Ax−α, (2.7)

em que x ´e uma vari´avel aleat´oria com dimens˜ao temporal, por exemplo, e α ´e o parˆametro de escala. Em geral, 1 < α < 3 [30, 37, 38].

Essas distribui¸c˜oes, conforme mencionado anteriormente, possuem caracter´ısticas sin-gulares quando comparadas com outras, como por exempo a exponencial ou gaussiana. Como veremos nas pr´oximas se¸c˜oes, esta ´e a ´unica distribui¸c˜ao de probabilidades que apresenta a caracter´ıstica de invariˆancia por escala. Tal fato lhe confere propriedades estat´ısticas interessantes e distintas. Essas propriedades, por sua vez, aparecem em siste-mas das mais diversas ´areas de conhecimento, e muitas vezes est´a relacionada ao princ´ıpio subjacente `aquele fenˆomeno.

2.3

Propriedades matem´

aticas das leis de escala

Em primeiro lugar, exploramos, nesta se¸c˜ao, uma das propriedades mais marcantes das leis de potˆencia, que ´e o comportamento dos seus primeiros momentos, que, para muitas das leis de escala encontradas na natureza, divergem. Em seguida, tratamos daquela que talvez seja sua propriedade mais importante, que ´e a invariˆancia por escala [30, 37].

A figura 2.3 abaixo mostra uma compara¸c˜ao entre a lei de potˆencias e a distribui¸c˜ao exponencial. Como podemos ver, a lei de potˆencias possui cauda muito mais longa do que a exponencial, uma vez que eventos que s˜ao improv´aveis ou mesmo imposs´ıveis do ponto de vista da exponencial, s˜ao praticamente comuns do ponto de vista da lei de potˆencias. De fato, na figura 2.3-B), vemos que o quociente entre a lei de potˆencias e a exponencial possui em valores muito grandes.

(25)

100 101 102 103 104 x 10-8 10-6 10-4 10-2 100 Pr(X x) = 1.50 = 2.50 = 3.50 = 0.10 = 0.67 = 2.50 100 101 102 103 104 x 100 1050 10100 10150 10200 10250 10300 Pr PL (x)/Pr EXP (x) = 1.50; = 0.10 = 2.50; = 0.67 = 3.50; = 2.50 (A) (B)

Figura 2.3: Comparativo entre leis de potˆencias e exponenciais. EM (A) fazemos uma compara¸c˜ao entre a fun¸c˜ao de distribui¸c˜ao acumulada da lei de potˆencia com a lei exponencial para algumas escolhas dos respectivos parˆametros. Em ambos os casos, x ≥ xmin = 1. (B) A raz˜ao entre as distribui¸c˜oes lei de potˆencias e exponencial, ilustrando

o fato de que eventos que s˜ao efetivamente “imposs´ıveis”(ou seja, que tˆem probabilidade negligenci´avel sob uma distribui¸c˜ao exponencial) tornam-se praticamente comuns sob uma distribui¸c˜ao lei de potˆencias.

2.3.1

Momentos

A imposi¸c˜ao da normaliza¸c˜ao na eq. 2.7 nos permite calcular a constante A, de forma que p(x) = α − 1 xmin  x xmin −α , (2.8)

que significa que essa distribui¸c˜ao n˜ao ´e normaliz´avel para α < 1. Aqui, o parˆametro xmin > 0 ´e o valor m´ınimo da vari´avel aleat´oria x para o qual os dados emp´ıricos seguem

essa distribui¸c˜ao. ´

E interessante olhar para os momentos dessa distribui¸c˜ao. Essas grandezas servem para caracterizar as distribui¸c˜oes de probabilidade. Os quatro primeiros momentos, por exemplo, caracterizam a tendˆencia central das distribui¸c˜oes[31, 32]. Os momentos dessa distribui¸c˜ao podem ser obtidos a partir da eq. 2.8,

xk = Z ∞ xmin xkp(x) dx = xkmin  α − 1 α − 1 − k  , α > k + 1. (2.9) Assim, apenas os primeiros α − 1 momentos s˜ao definidos. Em particular, se 1 < α < 2, a m´edia e todos os outros momentos s˜ao infinitos. Se 2 < α < 3, a m´edia ´e finita, mas a variˆancia e os demais momentos s˜ao infinitos. A despeito disso, todos os momentos da grande maioria das outras fun¸c˜oes densidade de probabilidade s˜ao finitos.

A figura 2.4 ilustra o comportamento dos dois primeiros momentos de uma distribui¸c˜ao lei de potˆencias com o tamanho da amostra de vari´aveis aleat´orias, para trˆes diferentes escolhas de seu parˆametro de escala. Em cada caso, geramos diferentes quantidades de n´umeros aleat´orios com essa distribui¸c˜ao. no item (A), vemos que tanto a m´edia como a variˆancias crescem indefinidamente com o crescimento do tamanho da amostra. Em (B), por outro lado, a m´edia amostral ´e bem comportada, apesar de a variˆancia ainda

(26)

divergir para amostras muito grandes. Por ´ultimo, o gr´afico em (C), mostra que tanto a m´edia como a variˆancia permanecem finitos quando aumentamos o tamanho da amostra, embora os demais momento sejam divergentes.

101 102 103 104 105 106 Tamanho da amostra, n 100 101 102 103 104 105 106 107 108 109 Valor =1.70 Variância amostral Média amostral 101 102 103 104 105 106 Tamanho da amostra, n 100 101 102 103 104 105 106 107 108 109 =2.05 Variância amostral Média amostral Média populacional 101 102 103 104 105 106 Tamanho da amostra, n 100 101 102 103 104 105 106 107 108 109 =3.01 Variância amostral Média amostral Variância populacional (A) (B) (C)

Figura 2.4: Efeito do tamanho da amostra nos momentos de uma lei de potˆencias. Em (A) mostramos como se comportam a m´edia a variˆancia para uma lei de potˆencias com α = 1.7, enquanto em (B) fazemos o mesmo para α = 2.05 e em (C), α = 3.01. Em todos os casos, consideramos um vasto alcance dos tamanhos de amostra.

Na pr´atica, dizer que uma vari´avel aleat´oria possui uma distribui¸c˜ao de probabilidades com m´edia infinita significa dizer que, se selecionamos v´arias amostras da grandeza re-presentada por essa vari´avel aleat´oria, a m´edia amostral cresce indefinidamente `a medida que aumentamos o tamanho da amostra, a despeito do que acontece com uma distri-bui¸c˜ao que possui m´edia finita, na qual a m´edia amostral se aproxima de um valor finito quando majoramos o tamanho da amostra. Uma fun¸c˜ao densidade de probabilidade como essa representa um fenˆomeno que n˜ao possui uma escala caracter´ıstica, seja espacial ou temporal. S˜ao os chamados fenˆomenos livre de escala (scale-free phenomena).

2.3.2

Invariˆ

ancia por escala

A outra propriedade que torna as leis de escala relevantes em v´arios cen´arios ´e a invariˆancia por escala (scale invariance), que pode ser facilmente mostrada a partir de 2.7:

p(kx) = A(kx)−α = k−αAx−α, (2.10) que podemos escrever como

p(kx) = Bx−α. (2.11)

Conforme pode ser visto na eq. 2.11, o efeito da mudan¸ca de escala ´e completa-mente absorvido pela constante de normaliza¸c˜ao. Esse resultado mostra que, ao olharmos para o fenˆomeno descrito pela fun¸c˜ao p(x) em diferentes escalas, a forma funcional de p se mant´em invari´avel, sugerindo que a dinˆamica do sistema observado ´e governada pelos mesmos mecanismos subjacentes em todas as escalas acess´ıveis ao fenˆomeno. No contexto da geometria fractal, essa caracter´ıstica das leis de potˆencia aparece como a autossimila-ridade, uma propriedade que confere aos objetos fractais a mesma aparˆencia numa ampla

(27)

gama de escalas em que ´e observado. Exemplos comuns s˜ao os alv´eolos pulmonares, uma couve-flor, etc. 0 10 20 30 0 0.05 0.1 0.15 0.2 PDF Lei de potências = 2.1 = 2.5 = 3 = 3.5 100 102 104 10-10 10-5 100 0 10 20 30 0 0.05 0.1 0.15 0.2 = 1 = 0.1 = 0.01 = 0.001 100 102 104 10-10 10-5 100 Exponencial 0 10 20 30 x 0 0.05 0.1 0.15 0.2 PDF Gaussiana = 5; = 2 = 10; = 5 = 15; = 3 = 20; = 4 10-1 102 104 x 10-10 10-5 100 0 10 20 30 x 0 0.1 0.2 0.3 Lognormal = 1; = 0.5 = 1; = 1 = 1; = 2 = 1; = 5 100 102 104 x 10-10 10-5 100

Figura 2.5: Ilustra¸c˜ao da propriedade de invariˆancia por escala das leis de potˆencias. Aqui mostramos que o comportamento de algumas distribui¸c˜oes de pro-babilidades em eixos com escala aritm´etica e logar´ıtmica. Apenas a lei de potˆencias ´e linear nessa segunda escala.

Essa propriedade de invariˆancia por escala certamente n˜ao vale para a maioria das distribui¸c˜oes de probabilidade, conforme est´a ilustrado na figura 2.5, que mostra que apenas a lei de potˆencias ´e linear em eixos duplamente logar´ıtmicos. De fato, ´e f´acil mostrar que a lei de potˆencia ´e a ´unica distribui¸c˜ao que tem essa caracter´ıstica [37, 38]. Para isso, consideremos uma distribui¸c˜ao de probabilidades p(x) para alguma medida x, e supomos que ela satisfaz essa propriedade:

p(bx) = g(b)p(x), (2.12)

em que b ´e uma constante qualquer. Como discutido acima, isso quer dizer que, se aumentarmos a escala que usamos para medir x por um fator b, a forma de p(x) n˜ao se altera, exceto por uma constante multiplicativa global. Considerando a equa¸c˜ao 2.12, vamos come¸car fazendo x = 1, de modo que

g(b) = p(b)

p(1). (2.13)

Assim, podemos escrever

p(bx) = p(b)p(x)

p(1) . (2.14)

Como essa equa¸c˜ao ´e supostamente verdadeira para todo b, podemos diferenciar ambos os lados em rela¸c˜ao a b, de forma a obter

xp0(bx) = p

0(b)p(x)

p(1) , (2.15)

em que p0 denota a derivada de p em rela¸c˜ao ao seu argumento. Fazendo b = 1, temos xdp

dx = p0(1)

(28)

Essa ´e uma equa¸c˜ao diferencial ordin´aria que pode ser facilmente resolvida por separa¸c˜ao de vari´aveis, resultando em

ln p(x) = p

0(1)

p(1) ln x + const. (2.17)

A constante de integra¸c˜ao pode ser obtida fazendo-se x = 1, de modo que podemos escrever

ln p(x) = p

0(1)

p(1) ln x + ln p(1). (2.18)

Finalmente, depois de uma manipula¸c˜ao alg´ebrica, obtemos a forma de p(x) que obedece `

a propriedade de invariˆancia por escala (eq. 2.12),

p(x) = p(1)x−α, (2.19)

em que fizemos α = −p(1)/p0(1).

Portanto, podemos concluir que a distribui¸c˜ao de probabilidades do tipo lei de potˆencias ´

e a ´unica que satisfaz a propriedade de invariˆancia por escala. Conforme veremos nos pr´oximos cap´ıtulos, esse fato n˜ao ´e apenas uma curiosidade. Alguns sistemas tornam-se invariantes por escala sob condi¸c˜oes especiais, como numa transi¸c˜ao de fase de segunda ordem, na qual a sintoniza¸c˜ao em certo ponto dos parˆametros que o governam gera tal con-figura¸c˜ao. Nesse mesmo ponto, as caranter´ısticas macrosc´opicas e as respostas do sistema a est´ımulos externos mudam radicalmente. Al´em disso, como j´a citado, a invariˆancia por escala tamb´em surge em outras circunstˆancias, conforme mostrado nas pr´oximas se¸c˜oes.

2.3.3

Distribui¸

oes com caudas muito longas e a “regra 80–20”

A extrema assimetria `a direita das distribui¸c˜oes do tipo lei de potˆencia tamb´em im-plica alguns outros comportamentos interessantes [38]. Por exemplo, suponha que a dis-tribui¸c˜ao da riqueza em uma popula¸c˜ao seja uma lei de potˆencias com algum parˆametro α (o que, como veremos adiante, n˜ao ´e uma suposi¸c˜ao ruim). Sendo assim, poder´ıamos nos perguntar: qual fra¸c˜ao W do total dessa riqueza pertence `a fra¸c˜ao mais rica P da popula¸c˜ao?

A fra¸c˜ao P da popula¸c˜ao cuja riqueza ´e pelo menos igual a x ´e dada pela distribui¸c˜ao acumulada complementar: P r(X ≥ x) = Z ∞ x p(y) dy =  x xmin −(α−1) . (2.20)

Assim, a fra¸c˜ao da riqueza total sob a posse dessas pessoas ´e dada por W (x) = R∞ x yp(y)dy R∞ xminyp(y)dy =  x xmin −α+2 , (2.21)

em que α > 2. Combinando essas duas express˜oes, podemos escrever uma equa¸c˜ao para W que n˜ao depende de x:

W = P(α−2)/(α−1). (2.22)

A figura 2.6 mostra como distribui¸c˜oes muito assim´etricas (ou de caudas muito longas, como ´e o caso da lei de potˆencias) para a riqueza podem ser bem diferentes para as diversas escolhas de α.

(29)

Essa extrema assimetria ´e algumas vezes chamada de “regra 80-20”, fazendo uma alus˜ao ao fato de que, se a riqueza de um pa´ıs tem distribui¸c˜ao do tipo lei de potˆencias (com α ≈ 2.1), 80% de toda a riqueza pertence aos 20% mais ricos. ´E interessante notar que, para valores mais altos de α, como por exemplo o valor α = 3.5 na figura 2.6, a distribui¸c˜ao ´e um pouco mais igualit´aria, ou seja, a assimetria ´e menor. Quando α se aproxima de 2, a assimetria se torna progressivamente mais extrema, com uma fra¸c˜ao cada vez menor da popula¸c˜ao detendo uma propor¸c˜ao cada vez maior da riqueza total. Quando α < 2, as integrais em nosso c´alculo feito acima divergem e a riqueza total ´e quase completamente mantida por uma ´unica pessoa, ou seja, a soma de toda a riqueza ´

e em grande parte igual ao maior valor da soma.

0 0.2 0.4 0.6 0.8 1

P (fração mais rica da população)

0 0.2 0.4 0.6 0.8 1

W (fração da riqueza total)

= 2.1 = 2.2 = 2.4 = 2.7 = 3.5

Figura 2.6: Compara¸c˜ao da equa¸c˜ao 2.22 para alguns valores de α. Note que, para essa suposi¸c˜ao de distribui¸c˜ao, aproximadamente 80% da riqueza est´a nas m˜aos dos 20% mais ricos.

A discuss˜ao que foi feita acima ilustra uma propriedade fundamental das distribui¸c˜oes livre de escala, que ´e o fato de que a maioria das observa¸c˜oes da vari´avel aleat´oria s˜ao de baixa magnitude, ou seja, os valores muito pequenos s˜ao muito mais prov´aveis que os grandes.

2.3.4

Distribui¸

oes com cauda de lei de potˆ

encias

A equa¸c˜ao 2.8 descreve uma FDP que segue uma lei de potˆencias ao longo de todo o seu espectro. Por´em, algumas distribui¸c˜oes podem exibir uma lei de escala apenas na cauda, ou seja, quando x ´e suficientemente grande. Geralmente, tais distribui¸c˜oes podem ser expressas na forma P r(x) = L(x)x−α, em que L(x) representa uma “fun¸c˜ao que varia lentamente”, isto ´e, quando x → ∞, L(x) → c, em que c ´e alguma constante, e p(x) → x−α.

Como exemplo, consideremos a lei de potˆencias transladada, que tem a forma [30] P r(x) = α − 1 k + xmin  k + x k + xmin −α x ≥ xmin, (2.23)

em que k ´e alguma constante. Quando k = 0, recuperamos exatamente a forma da equa¸c˜ao 2.8.

(30)

100 102 104 x 10-10 10-5 100 Pr(X x) k = 0 k = 5 k = 25

Figura 2.7: CCDF para a lei de potˆencias transladada para algumas escolhas do parˆametro de desvio k. Note que a cauda apresenta uma forma de lei de potˆencias, mas o “corpo”ou “cabe¸ca”exibe uma significante curvatura.

Com um pouco de ´algebra, podemos reescrever a equa¸c˜ao 2.23 da seguinte forma:

P r(x) = C(x + k)−α (2.24) = C(x + k)−α x −α x−α  (2.25) = C  1 + k x −α x−α (2.26) = L(x)x−α, (2.27) em que L(x) = C 1 + k x −α

→ C quando x → ∞, de modo que a lei de potˆencias transladada tem uma cauda de lei de potˆencia pura. O termo L(x) descreve exatamente como o desvio da forma de lei de potˆencias decai `a medida que avan¸camos para a cauda. Quando x ≤ k, o termo L(x) ´e grande comparado com o termo de cauda x−α, sendo portanto respons´avel por por produzir a curvatura no gr´afico com eixos logaritmicos. A figura 2.7 ilustra alguns exemplos desse tipo de distribui¸c˜ao.

2.4

umeros randˆ

omicos com distribui¸

ao livre de

escala

Muitas vezes ´e ´util gerar n´umeros aleat´orios com determinada distribui¸c˜ao, a fim de realizar testes estat´ısticos, por exemplo. No caso em que estamos interessados em n´umeros que se distribui segundo uma lei de potˆencia, n˜ao ´e f´acil encontrar alguma rotina pronta que fa¸ca isso nas principais linguagens de programa¸c˜ao.

Geralmente, as rotinas prontas dispon´ıveis nas linguagens de programa¸c˜ao mais co-nhecidas servem para gerar n´umeros aleat´orios com distribui¸c˜ao uniforme, gaussiana ou exponencial. Nesse sentido, podemos utilizar o m´etodo da transforma¸c˜ao [38, 39, 40], des-crito a seguir, para transformar um conjunto de vari´aveis aleat´orias com dada distribui¸c˜ao em outro conjunto com distribui¸c˜ao da forma de uma lei de potˆencias.

(31)

O m´etodo da transforma¸c˜ao funciona da seguinte forma. Consideremos uma vari´avel aleat´oria R com densidade de probabilidade p(r), e outra vari´avel aleat´oria X com densi-dade de probabilidensi-dade p(x). Se conhecemos a forma funcional que relaciona r e x, podemos determinar a distribui¸c˜ao de probabilidades de x. Esse m´etodo baseia-se no simples fato de que, ao transformar a vari´avel r em x, o n´umero de eventos num dado intervalo deve ser o mesmo, independente do nome dado `a vari´avel [32]. Ou seja,

p(r)dr = p(x)dx, (2.28) de modo que, p(x) = p(r) dr dx . (2.29)

Contudo, se desejamos ir al´em e produzir um conjunto de n´umeros aleat´orios X com distribui¸c˜ao p(x), podemos integrar essa express˜ao em ambos os lados ao longo de todo o alcance de cada vari´avel. Se R tem distribui¸c˜ao uniforme, por exemplo, temos

R ∼ u(0, 1), (2.30)

e p(r) = 1 nesse intervalo, de modo que, P (X ≥ x) = Z ∞ x p(x0)dx0 = Z 1 r dr0 = 1 − r, (2.31)

que nos permite concluir que

P (x) = 1 − r (2.32)

e

x = P−1(1 − r), (2.33)

em que P (x) denota a distribui¸c˜ao acumulada de probabilidades da vari´avel aleat´oria X e P−1 denota sua forma funcional inversa.

A fun¸c˜ao densidade de probabilidade para uma vari´avel aleat´oria que se distribui segundo uma lei de escala ´e dada pela equa¸c˜ao 2.8, de modo que a fun¸c˜ao de distribui¸c˜ao acumulada para essa vari´avel ´e dada por

P (x) =  x xmin −(α−1) . (2.34)

Para obter sua forma funcional inversa, P−1, consideremos

P (x) =  x xmin −(α−1) = w, (2.35) de forma que, P−1(w) = x = xminw−1/(α−1) (2.36) e consequentemente, x = xmin(1 − r)−1/(α−1). (2.37)

Portanto, dando um conjunto de n´umeros aleat´orios {r} gerados a partir de uma distribui¸c˜ao uniforme, para obter um novo conjunto {x} cuja distribui¸c˜ao ´e da forma de uma lei de potˆencias, basta fazer a transforma¸c˜ao expressa pela equa¸c˜ao 2.37.

(32)

2.5

Alguns mecanismos geradores de leis de escala na

natureza

Alguns fenˆomenos f´ısicos e naturais apresentam grandezas que se distribuem segundo uma lei de potˆencia. Tais fenˆomenos podem ser, por exemplo, uma transi¸c˜ao de fases, em que algumas quantidades se distribuem segundo uma lei de escala apenas nas proximidades da criticalidade, ou fenˆomenos complexos, tais como terremotos, incˆendios florestais e erup¸c˜oes solares, os quais exibem uma distribui¸c˜ao livre de escala ao longo de toda a sua extens˜ao [37].

Algumas vezes, sob determinadas circunstˆancias, ´e poss´ıvel elaborar modelos f´ısicos e/ou matem´aticos capazes de explicar o surgimento dessas distribui¸c˜oes de probabilidade a partir dos fenˆomenos mais b´asicos subjacentes ao fenˆomeno em an´alise. Nesta se¸c˜ao discutimos os principais mecanismos geradores de leis de potˆencia na natureza e alguns modelos f´ısicos utilizados para entender os processos geradores subjacentes a esse com-portamento em escala macrosc´opica.

2.5.1

Amostragem de alguns processos especiais

Uma distribui¸c˜ao de probabilidades muito mais comum que a lei de potˆencias ´e a lei exponencial. Ela aparece nas mais diversas circunstˆancias, em fenˆomenos estudados pelas mais variadas ´areas do conhecimento. Exemplos mais conhecidos da ocorrˆencia dessa distribui¸c˜ao no ˆambito de fenˆomenos f´ısicos s˜ao o tempo de vida de n´ucleos atˆomicos inst´aveis, ou mesmo a pr´opria distribui¸c˜ao de Boltzmann para as energias em mecˆanica estat´ıstica [38].

Uma das maneiras mais simples de gerar uma lei de potˆencias ´e por meio de um processo de amostragem. Contudo, n˜ao ´e qualquer procedimento amostral que ´e capaz de produzir tais leis. De fato, uma lei de escala ´e gerada sempre que realizamos um processo de amostragem de uma vari´avel x que mantˆem uma rela¸c˜ao exponencial determin´ıstica com uma segunda vari´avel y, a qual se distribui segundo uma lei exponencial [37, 38, 41, 42, 43].

Nesse sentido, seja y uma quantidade exponencialmente distribu´ıda,

P (y) ∝ e−λy, (2.38)

com λ > 0; por exemplo, y pode ser o tempo de espera para eventos gerados por um processo de Poisson. Al´em disso, supomos que estamos na verdade interessados em uma vari´avel x, a qual est´a relacionada com y por meio da rela¸c˜ao

x ∝ eδy, (2.39)

em que δ > 0. Ou seja, conforme antecipado, x ´e uma quantidade que cresce exponencial-mente com y, al´em de o pr´oprio y ser distribu´ıdo exponencialmente. Por exemplo, ainda na ideia de processos de Poisson, podemos supor que x ´e uma quantidade de dinheiro em uma conta em um banco, a qual cresce de acordo com alguma taxa de juros fixa (cres-cimento exponencial), mas que, com uma probabilidade constante p (exponencialmente distribu´ıda), todos os meses retiramos o montante da conta. Ou seja, a vari´avel x, que ´e a quantidade de dinheiro na conta no momento em que observamos (amostragem), cresce exponencialmente com o tempo, ao passo que o intervalo de tempo que o capital ir´a ficar aplicado ´e amostrado com probabilidade p, exponencialmente distribu´ıda.

Voltando para a equa¸c˜ao 2.39, queremos saber qual a distribui¸c˜ao do dinheiro retirado da conta segundo o processo amostral discutido acima. Para responder, recorremos ao

(33)

m´etodo da transforma¸c˜ao, j´a discutido na se¸c˜ao 2.4. Assim, nesse contexto, queremos saber qual a distribui¸c˜ao de x, que ´e uma fun¸c˜ao de y, sendo que sabemos como se distribui essa ´ultima. Dessa forma, podemos escrever

p(x) dx = p(y) dy, (2.40) de modo que, p(x) = p(y)dy dx ∝ x −(1+λ/δ) . (2.41)

Assim, a distribui¸c˜ao de x segue uma lei de potˆencias com um expoente de escala definido em termos da raz˜ao dos dois parˆametros exponenciais, λ e δ.

Podemos nos perguntar a seguir se esse resultado ´e esperado. Ele significa que, para uma taxa amostral λ fixa, se aumentarmos o parˆametro do crescimento exponencial, δ, a cauda da lei de potˆencias fica mais pesada, isto ´e, a distribui¸c˜ao resultante passa a ter uma cauda mais longa. Em outras palavras, vemos mais eventos de grande magnitude sob o processo de amostragem, o que faz sentido porque o crescimento exponencial ´e mais intenso, o que significa que obtemos resultados maiores mais rapidamente. Por outro lado, para uma taxa de crescimento exponencial δ fixa, se aumentarmos o parˆametro de amostragem λ, a lei de potˆencias torna-se mais leve, isto ´e, sua cauda fica mais curta. Ou seja, vemos menos eventos de grande porte. Isso tamb´em faz sentido, uma vez que um λ maior implica num menor tempo de espera, pois a distribui¸c˜ao decai mais r´apido e, portanto, h´a menos tempo para o crescimento exponencial gerar grandes eventos.

2.5.2

Transi¸

oes de fase e fenˆ

omenos cr´ıticos

Alguns sistemas f´ısicos passam por uma transi¸c˜ao de fases de segunda ordem quando os parˆametros que o governam s˜ao finamente ajustados a um determinado ponto. Esse ponto ´e o chamado ponto cr´ıtico. Quando ele ´e alcan¸cado, as propriedades do sistema mudam bruscamente, fazendo com que ele tenha caracter´ısticas macro e microsc´opicas distintas daquelas apresentadas abaixo desse ponto [44, 45].

Os fenˆomenos cr´ıticos s˜ao os acontecimentos que surgem nas proximidades do ponto cr´ıtico. Um exemplo ´e a divergˆencia de alguma escala de medida. Num ferromagneto, por exemplo, a fun¸c˜ao de correla¸c˜ao tem comportamento assint´otico exponencial quando o estado do sistema encontra-se distante do ponto cr´ıtico, e define, desse modo, uma escala de comprimento caracter´ıstica, que ´e o tamanho t´ıpico dos dom´ınios magn´eticos - o chamado comprimento de correla¸c˜ao. Nas proximidades da transi¸c˜ao de fases de segunda ordem, contudo, essa quantidade diverge, deixando o sistema sem escala caracter´ıstica. Consequentemente, neste ponto, as distribui¸c˜oes das quantidades f´ısicas seguem uma lei de potˆencias [44].

Geralmente, as circunstˆancias nas quais a divergˆencia ocorre s˜ao muito espec´ıficas. Os parˆametros do sistema devem ser precisamente ajustados para produzir o comportamento segundo uma lei de potˆencias. O ponto preciso no qual as escalas de comprimento em um sistema diverge ´e o chamado ponto cr´ıtico, e dizemos que ocorre uma transi¸c˜ao de fases cont´ınua (ou de segunda ordem). Os acontecimentos nas proximidades deste ponto s˜ao chamados de fenˆomenos cr´ıticos. Como os parˆametros que governam a dinˆamica microsc´opica de um sistema precisam ser finamente ajustados para se produzir esse com-portamento, a divergˆencia nas escalas de comprimento que ocorre durante uma transi¸c˜ao de fases cont´ınua ´e uma explica¸c˜ao improv´avel para diversas distribui¸c˜oes do tipo lei de escala que ocorrem em sistemas da natureza ou nas ciˆencias sociais [38, 44, 45].

(34)

Um exemplo de fenˆomeno cr´ıtico ´e a transi¸c˜ao de percola¸c˜ao. Esse ´e um tipo de transi¸c˜ao que ocorre quando temos alguma substˆancia (um fluido, por exemplo) ou outro ente f´ısico que precisa transpor um meio aleat´orio, isto ´e, um meio em que o caminho condutor est´a randomicamente disposto em meio a obst´aculos intranspon´ıveis. Algumas aplica¸c˜oes do fenˆomeno da percola¸c˜ao incluem a propaga¸c˜ao de doen¸cas em uma po-pula¸c˜ao, o comportamento de im˜as dilu´ıdos por impurezas n˜ao magn´eticas, o fluxo do petr´oleo atrav´es dos poros das rochas, etc [46]. Como exemplo, podemos citar o expe-rimento de Watson e Leath [47], em que eles mediram a condutividade el´etrica de uma malha met´alica uniforme quando os n´os conectando fios met´alicos foram progressivamente removidos. As coordenadas dos n´os removidos foram determinadas usando um gerador de n´umeros aleat´orios. A condutividade el´etrica nesse caso ´e uma fun¸c˜ao rapidamente decrescente da fra¸c˜ao de n´os p que ainda est˜ao presentes e se anula abaixo de um limimar cr´ıtico.

Para entender a ideia b´asica de uma transi¸c˜ao de fases, vamos usar o modelo de percola¸c˜ao por s´ıtio. Consideremos, para isso, uma rede quadrada com N s´ıtios, os quais podem estar vazios (quando n˜ao existe um n´o ou um poro, por exemplo) ou preenchidos [48]. Se definirmos que os s´ıtios estar˜ao ocupados ao acaso com probabilidade p, ent˜ao temos dois regimes diferentes - um para pequenos valores de p e outro para p perto de seu valor m´aximo, igual a 1, indicando alta concentra¸c˜ao de ocupa¸c˜ao.

Em uma rede com um n´umero grande de s´ıtios, se p ´e pequeno (distante de 1), os s´ıtios se agrupar˜ao em pequenos grupos de 1, 2 ou alguns poucos elementos. Aqui, o tamanho m´edio dos agloremados de s´ıtios ocupados ´e pequeno. Por outro lado, se p se aproxima de 1, formar-se-˜ao clusters grandes, compar´aveis ao tamanho da rede em si. Nesse est´agio, existe algum aglomerado (o aglomerado percolante) que se estende de uma borda `a outra da rede. O tamanho m´edio dos aglomerados torna-se cada vez maior `

a medida que aumentamos o tamanho da rede. Desse modo, deve haver um valor de probabilidade de concentra¸c˜ao para o qual o sistema muda de um comportamento para o outro. Esse valor ´e o ponto cr´ıtico ou limiar de percola¸c˜ao [49, 50]. A figura 2.8 ilustra um modelo de percola¸c˜ao por s´ıtio em uma rede quadrada. Os s´ıtios foram ocupados ao acaso, com p = 0.5.

Figura 2.8: Representa¸c˜ao de uma uma grade 20x20 na qual os s´ıtios foram ocupados com ma probabilidade de 50%. Os pixeis na cor banca representam os s´ıtios desocupados, ao passo que aqueles em azul representam s´ıtios ocupados.

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