elisabete frança
Favelas em São Paulo (
1980-2008
)
Das propostas de desfavelamento aos projetos de urbanização
A experiência do Programa Guarapiranga
Tese apresentada à Universidade Presbiteriana Mackenzie, como requisito parcial para a obtenção do título de doutor em Arquitetura e Urbanismo
Orientador: Prof. Dr. Rafael Antonio Cunha Perrone
agradecimentos
AoprofessorRafaelPerronepelaorientaçãozelosaeoapoioemtodososmomentos, principalmentequandoasdificuldadeserammaiores.
AosprofessoresdaprimeiraturmadodoutoradoemArquiteturaeUrbanismoda UniversidadeMackenzie,etambém,aosmeuscolegasdeclasse-peloconvívioagra-dáveleasmuitastrocasdeexperiências.
Aosfuncionáriosdasecretariadopós-graduaçãosemprezelososdosnossosprazose compromissos.
Àenormeequipedeapoioquemeapoiouduranteajornadadetrabalho:Helena, TâniaeCarlos,estagiáriosdedicados;CristinaeLuciacompetentescomatradução earevisão.ÀsAnaElenaeSirlenepelocarinhocomqueleremerelaremotextoe suasconsistentescríticaserevisões.
AoGustavopelapaciênciacomasconstantesrevisõesepeloprojetográfico.
Aoscolegasdahabi ,equipequeestáconstruindoeimplantandoapolíticahabita-cionaldacidadedeSãoPaulo,emerecerespeitopeladedicaçãoaotrabalho.E,em especial,àTerezaHerlingpelacoordenaçãodoplanodehabitação.
EmespecialaoRicardoAraújo,dedicadodefensordoProgramaGuarapirangaeà Violêtaquetevegranderesponsabilidadenaconstruçãodasnovaslegislaçõesestaduais
deproteçãoaosmananciais.
Àminhaequipedeapoio,emespecialàAlessandra,aoEliseu,aLanaeaoPaulo.
Aosjovensarquitetosdahabiquefazemadiferençacomseutrabalhodedicadoaos projetosdeurbanizaçãodefavelaseafins:Alonso,Eliene,MariaTeresa,Vanessa, Marina,Pedro.Eaos“jovens”arquitetosquevemmelhorandoosespaçosdessacidade: Marcão,Stetson,Suzel,SuzukieSunAlex.
Aosmeusestimadosamigos,EltonpeloapoioeconfiançaeMarceloporterme convidadoparavoltarparaaprefeitura.
AosJucáeKatiapelosnossostemposdeprojetosinternacionaisdeslumupgradinge aosRodrigoeJosefinaparceirosdasviagensinternacionais.
AosnovoscolegasdeslumupgradingAlfredo+Hubert,ChristianWerthmaneRainer Helh.AoGeorgeBrugmansquemereceumagradecimentoespecialporqueabienalque estáconstruindotraznovasluzesparaodebatesobreainformalidadenascidades.
ÀsminhasamigaspaulistanasdetantotempoMônica,Marta,Elza,CriseLianeede temposmaisrecentesMarisaBarda.
ÀlembrançaalegredoPauloAmaralsemprecuriosodosprojetosdeurbanização defavelas.
Ànovageraçãoqueestáchegandoenosdáalentoparaseguiremfrente,especialmente àrecémchegadaNatalia.
AomeuamigoJuscelinoGadelhaquepropôsqueeumetransformasseemcidadã paulistana.Agorapossodizercommuitoorgulhoquetenhoduplacidadania– curitibanadenascimentoepaulistanaporadoção.
AosmeusamigoscuritibanosdemaisdetrêsdécadasMarisaeAlceu,CrieCacá. E,aosamigospaulistanosGildoeSimone.Nofinalsomostodospaulistanosde diferentesorigens.
resumo
Nestetrabalho,aurbanizaçãodefavelasnacidadedeSãoPauloéestudadaapartir deduasvertentes:oscaminhospercorridospelaspolíticaspúblicasparaasfavelasea experiênciadoProgramadeSaneamentoAmbientaldaBaciadoGuarapirangaesua contribuiçãoparaaconstruçãodeumametodologiaparaosprojetosdeurbanização, abrangendooperíodode1980atéosdiasatuais.
Aprimeirapartedotrabalhobuscacompreenderofenômenodasfavelasna cidadedeSãoPaulo,suasorigens,transformaçõesesuaconsolidaçãocomoelemento integrantedamorfologiaurbana.Asnotíciaspublicadasnosprincipaisjornaisda cidadeservemdereferênciaparaoentendimentodaaceitaçãodasociedadeparaas políticaspúblicasimplantadaspelaPrefeitura.Integraestavertenteoestudosobre acontribuiçãodosprincipaisorganismosinternacionais,comtradiçãodefinancia-mentosparaprogramasdeurbanização,naconstruçãodeumpensamentosobrea urbanizaçãodefavelasesuainfluêncianosprogramaslocais.E,finalmente,érealizado umestudosobreosprogramasimplantadosnacidadedeSãoPauloeastransformações quevêemsofrendoaolongodosanosedediferentesgestõesàfrentedaPrefeitura.
abstract
Inthisstudy,theurbanizationoffavelasinthecityofSãoPauloisexaminedfrom twoperspectives:thepathstakenbypublicpoliciesforfavelasandtheexperience withtheGuarapirangaBasinEnvironmentalSanitationProgramanditscontribution tothebuildingofamethodologyforurbanizationprojects,coveringtheperiodfrom 1980tothepresentday.
Thefirstpartofthestudyseekstounderstandthefavelaphenomenoninthe cityofSãoPaulo,itsorigins,transformationsanditsconsolidationasanintegral elementofurbanmorphology.Articlespublishedinthecity’sprincipalnewspapers serveasreferenceforunderstandingsociety’slevelofacceptanceofthepublicpo-liciesimplantedbycityhall.Thispartalsoincludesthestudyofthecontribution ofthemaininternationalbodies,withatraditionoffinancingfavelaurbanization programs,tothebuildingofabodyofthoughtabouttheurbanizationoffavelasand theirinfluenceonlocalprograms.Finally,astudyismadeoftheprogramsimplanted inthecityofSãoPauloandthetransformationstheyhavebeenundergoingoverthe yearsandunderdifferentadministrationsattheheadofcityhall.
Introdução
8
1
Favelas em São Paulo 1980-2008Das propostas de remoção aos projetos de urbanização
16
2
Urbanização de favelasUma agenda para as organizações internacionais
64
3
Urbanização de favelasOs Programas Oficiais na Cidade de São Paulo
104
4
Programa Guarapiranga – mananciais:O conflito entre a proteção ambiental e a
recuperação urbana nos assentamentos precários
148
5
Os Projetos de Urbanização de Favelas192
Considerações Finais237
Referências
247
Ourbanismocontemporâneosevaleudacontribuiçãoimportantedeestudosepu-blicaçõesdivulgadasapartirdadécadade1960,quesepropunhamareveradoutrina urbanísticamoderna.KevinLynch(1960),emseulivromaisimportante,AImagem daCidade,tratadecompreenderacidadeapartirdasexperiênciasindividuaiseda atribuiçãopessoaldevaloraosdadosvisuais.Lynchpropôsaeliminaçãodeabstrações deconveniênciaquelevavamaconsideraracidadecomoumamáquinaquedeve realizarsuafunçãonaturalmenteprodutiva,nãoolugarondesemora.Paraele,ouso dasabstraçõescontribuiriaparaoabandonodoconceitohistóricodacidade,posto queafastaoindivíduodasuaexperiênciapessoalcomacidadee,portanto,dasua consciênciadacidade.
Eledecompôsaformadacidadeemidentidade,estruturaesignificado,eincor-porou,nasuaanálise,oselementosconstitutivostradicionaiscomoobairro,aspraças, asruas,asesquinas.Paraoautor,osindivíduosnasuarelaçãocomacidadetrabalham comamemóriaecomaimaginação,assimoitineráriodiáriodoindivíduopermite queeleconstruaoseumapadacidade,aomesmotempoemqueeletemasensação deestarnacidadeeaelapertencer.
OconjuntodessesmapasindividuaisdacidadeseráchamadoporRossi(1966), nolivroAArquiteturaeaCidade,de“memóriacoletiva”,entendidacomoarelação queseestabeleceentreumlugardeterminado,osindivíduosquenelevivemea históriaconhecidadolugar.Amemóriacoletivapressupõeaexistênciadeuma baseespacialparaserealizar,ondesãodesenhadososmapasindividuais,ereforça aimportânciadaconstruçãodeespaçosdeusopúbliconascidades,apropriadosem todososmapasindividuais.
introdução | 10
comoasomadefragmentosparticularesqueintegramoseucotidiano.Oconjunto dosváriosfragmentosindividuaisexpressaráadiversidadelocaldecadaregiãoou decadagrupo.
Outrodebateimportante,jánadécadade1970,foiestimuladopelapublicação deVenturi,BrowneIzenour(1977),AprendendocomLasVegas,quandoosautores propõemqueosarquitetosaprendam“comoexistenteparaquestionaromododever ascoisas”,abrindocaminhoparaoreconhecimentodadiversidadeedapluralidade reconhecíveisnascidadescontemporâneas.
Argan(1984),aodiscorrersobreacrisedaarteedacidadeemseulivroHistória daartecomohistóriadacidade,defineourbanismocomoadisciplinaquebusca“a mudançadeumasituaçãodefatoreconhecidacomoinsatisfatória”,cujo“objetoé sempreaexistênciahumanacomoexistênciasocial”e,portanto,oprojetoresultante daatividadeurbanística,refleteoentendimentoque“aexistênciasocialserá,deverá oudeveriaserdiferenteemelhoremrelaçãoaoqueé”(argan,1984).Paraele,o campodeoperaçãodourbanismoéaesferasocialqueserealizaemumespaçourbano, sendoeste,necessariamente,produtodeumprojeto(argan,1984).
Oprojetodoespaçourbanocontemporâneopressupõeoentendimentodasocie-dadeatualcomvistasasuperarbarreirasideológicasqueinfluenciaramourbanismo racionalistaouo“urbanismodoimperativocategórico”(argan,1984),construídoa partirdosanos1920.Nessaconcepção,oprojetovisavaatenderafunçãohegemônica dasociedadequeeraaproduçãoindustrial,porque“ohomemtemodeverdessa produção,neladeveempenhartodaasuaexistência,porquetaléofimdasociedade” […]“eporquedá-sepordemonstradoque,“atravésdessafunção,asociedaderealiza
seuprogresso[…]”(argan,1984).
ParaArgan,busca-sedotarourestituiraoindivíduo“acapacidadedeinterpretare utilizaroambienteurbanodemaneiradiferentedasprescriçõesimplícitasnoprojeto dequemodeterminou”[…],“dar-lheapossibilidadedenãoseassimilar,masdereagir ativamenteaoambiente”(argan,1984).Atualmente,ourbanismoeaarquitetura sedesenvolvememumasituaçãoemqueacidade“nãoéadimensãodeumafunção, éadimensãodaexistência”(argan,1984).
AnalisandosuaexperiênciadelongosanosnacoordenaçãodoprogramaFavela-Bairro,eleconcluique“ostrabalhosurbanísticosrealizadosnoâmbitodesseprograma paraasfavelascariocastêmumembasamentoteóricoqueincorporaosestudosdos críticosdourbanismomodernoeformuladoresdourbanismocontemporâneo.”Tais estudosinfluenciaramnaincorporaçãodenovoselementosadotadosnosprojetos, como“abuscadeconexõesentre[…]afavelaeobairrovizinho”,“apreservação daestruturaformaldoassentamento”,“avalorizaçãodosespaçosapropriadospela comunidade”,“ainserçãodenovasestruturasambientaisrespeitandoescalas,imagens eusosprecedentes”,e“adefiniçãourbanísticacomoentendimentoentrearquitetos emoradores”(magalhães,2007).
Esseconjuntodeidéiasapoiadonaobservaçãoempíricadeumnúmeroconsiderável derealidadesdiversificadasexistentesnasfavelas-observaçãopossibilitadapelos maisdevinteanosdeexperiênciaprofissionaldaautora,vinculadaaouniversodas favelas-reforçaaideiadaconstruçãoda“memóriacoletiva”,incorporadaaosprojetos deurbanizaçãodefavelasimplantadosnaprimeirafasedoProgramaGuarapiranga (1994-2000),quandoespecialatençãofoidadaaosnovoselementosurbanísticos, conformeapontadopormagalhães(2007).Naqueletempo,perseguia-seuma utopiapossíveldeseralcançada,mesmonocasodeumagrandecidadecomoSão Pauloemesmoemregiõescaracterizadaspelascondiçõesdeprecariedade:ada transformaçãodefavelasembairrospertencentesàcidade,enãomaisterritórios apartadosdacidade.
Deumaparte,asobservaçõesempíricaslevaramaoentendimentodarealidade dasfavelas,quevaialémdoque,emgeral,seescrevesobreotema.Deocupações que,inicialmente,ocorremàmargemdalegalidadeconstituída,comopassardos anos,seconsolidamcomaincorporaçãodenovoselementosconstrutivos:aalvenaria substituiomaterialprecárioutilizadonaconstruçãoinicial,ascasascrescemem altura,aospoucossãoreformadas,ganhamacabamentosexternos,comooreboco, pinturacolorida,portãoeletrônicoeelementosdecorativosnasfachadas,tudoisso comoobjetivodesediferenciardacasadovizinhoesedestacarnapaisagemdas vielasestreitasdobairro.Essemovimentovincula-seàconstruçãodosmapasindi-viduaisdecadamorador,acasaéoprimeiroelementodomapae,portanto,eladeve sediferenciarnapaisagem.
Nasequência,pequenoscomércioslocaissãoimplantadosparaatenderàsne-cessidadesmaisimediatasdaclientelavizinha,elogosetransformamemlocaisde encontrosedesocializaçãodeinformaçõessobreobairro,oqueresultaemampliações daconstrução,diversificaçãodocomércio,enfimna“modernização”doatendimento (cartõesdecrédito,parcelamentodascompras).
introdução | 12
individuais,integradossobainfluênciadeumcotidianocomumaoconjuntode indivíduosquevivemnaquelebairro1.
Comoconsequênciadessaconstruçãodeumelementourbano“único”,épossível afirmarqueasfavelasnãosãolocaissemidentidade,nosquaisseriaimpossível realizaracapacidadegregáriapossibilitadapelacidade.Aocontrário,sãobairrosque, mesmofrenteàprecariedadedascondiçõesambientaisesociaisemquevivemseus moradores,apresentamumconvíviosocialcaracterizadopelaexistênciadefortes relaçõesdesolidariedade.
Comoáreasqueseconsolidaramnacidade,asfavelasrequeremaçõespúblicas paratransformaraprecariedadeurbanaemqueseencontrame,consequentemente, atarefaqueseimpõeàatuaçãodadisciplinaurbanísticaé,apartirdeplanose projetos,propor,alémdaimplantaçãodainfraestruturabásica,aqualificaçãodos espaçospúblicos,urbanizando-osedefinindocentralidadesquesejamvalorizadas pelacoletividade.
Aênfasedadaàimplantaçãodosespaçospúblicosnasurbanizaçõesdefavelas estárelacionadaàespecificidadedafavela,nãoapenascomoocupaçãofísico-territorial diferenciada,masprincipalmente,pelascondiçõesdevulnerabilidadesocialque,em geral,caracterizamessesbairros.Osmoradoresdasfavelasnãodispõemdeespaços públicosondeserealizea“sociabilidade”comoformade“civilidade”,conformeres-saltadonoestudodePauloCesardaCostaGomes(2002)sobreacondiçãourbana2.
Portanto,implantarespaçospúblicosparaarealizaçãodavidapúblicanasáreas debaixarendatrazdesafiosparaapolíticadeurbanizaçãodefavelas:aadoçãode conceitosdecidadaniadesenvolvidosporoutroscamposdeestudossociaisearuptura deparadigmasconsagradosderivadosdeatitudesantiurbanas(alex,2008,p.23).
Aocontráriodoideáriodominante,reforçadoedivulgadoemartigos,publicações, jornais,noticiários,paraoqualafavelaseresumea“focodeproblemas”e“vizinhança indesejada”,omoradordeumafavelanãosevêcomosujeitodesseideário.Paraele, aurbanizaçãodafavelaéumasoluçãoquepermitirásuafixaçãonolocal,bemcomo apossibilidadedefuturosinvestimentosnasuamoradia.
Ahipótesesobreaqualestetrabalhofoiestruturadoéadequeaintervenção dosetorpúblicoemfavelas,atravésdeprogramasdeurbanização,podealcançar
1 AsfavelasdacidadedeSãoPaulo,emespecialasconsolidadashámaisdeumadécada,sãolocais ondevivemfamíliasqueconvivememgeral,desdeomomentodaprimeiraocupação.Quando muitoantigas,ogruposocialoriginaléampliadoconformeosfilhosconstituemnovasfamílias. Oresultadoéaformaçãodeumaredesocialfortalecidaporlaçosdeparentesco,porumhistórico delutasparapermanecernolocaloudereivindicaçõespormelhoriasnosserviçospúblicos,por amizadeouafinidadesculturaisrelacionadasaoslocaisdeorigemdasfamílias.
resultadosmaisefetivos,quandotemcomoobjetivocentralacriaçãodeumsistema deespaçospúblicosnosquaisosmoradorespossamcompartilharavidaemsocie-dade,alémdaimplantaçãodosserviçosdeinfraestruturabásicosquegarantama acessibilidade,asalubridadeeauniversalizaçãodoacessoàáguaecoletadeesgotos domésticos.Nessesentido,osprogramasdeurbanizaçãopressupõemaimplantaçãode projetoselaboradosapartirdevisõesintegradassobreasfavelas,adotandosoluções criativasparaimplantarouadequarosespaçosquesetransformememreferências paraapopulaçãoquevivenolocal.
Naelaboraçãodoplanodeurbanizaçãoedosprojetos,serãoobservadasas particularidadesdecadaumadelas.ConformeexpressãoutilizadaporSolá-Morales (1986)-aodefenderqueosprojetosparaasregiõesperiféricascaracterizadaspor todasortedeprecariedadesdevemapostaremumadefiniçãobaseadaemnovasre-laçõesdeespaço,tempoedistânciapróprios,queentendamasrupturaseaordem dasdiversasocupações-oprojetoparaumaáreaprecárianãodevesero“espelhoda cidadeconvencional”.
Oobjetivoprincipaldotrabalhoéapresentaroavançodosprogramasdeurba-nizaçãodefavelas,nodecorrerdecercadetrêsdécadas-asquaisvirampassaroito prefeitosàfrentedagestãodacidadedeSãoPaulo-,comespecialdestaqueparaas experiênciasquebuscaramconsolidaranovaformademorfologiaurbana,repre-sentadapelasfavelas.Busca-setransformaroqueeraantesprecárioemumbairro habitávelatravésdeinvestimentoseminfraestruturabásicadesaneamento,abertura deacessosquepossibilitemadiluiçãodebarreirasmateriaiscomobairrovizinhoea criaçãodeespaçospúblicosquesirvamdereferênciaparaosmoradoresecontribuam paraadiluiçãodafronteirasimbólicaentreafavelaeacidade.Aofinal,pretende-se aconsolidaçãodacidadecomooespaçoprivilegiadoparaacoexistênciademocrática, aomesmotempoemqueéreforçadooespaçodadiversidade.
Comvistasademonstrarahipóteseanunciada,estetrabalhoestádivididoem cincocapítulos.Oprimeiro,FavelasemSãoPaulo.1980-2008.Daspropostasderemoção aosprojetosdeurbanização,tratadeentenderopensamentovigentesobreasfavelas esuatransformaçãonosúltimos28anos,agrupadosemoitoperíodosdegoverno3.
Asgestõesanalisadasatuaramnasfavelasconformandopolíticaspúblicas,expressas emprogramasdeintervençãocomvistasàurbanização,cadaumadelascomcarac-terísticaspróprias,refletindocompromissospartidáriosouideológicose,àsvezes,o perfilparticulardoprefeito.
Emconformidadecomseutempo,algumaspolíticaspúblicasrepresentaram avançosparaaconsolidaçãodasfavelas,outrasresultaramemretrocessos,ouainda, continuidadesdepolíticasexistentessobaformade“novosprogramas”.Aofinal,o conjuntodepolíticaseprogramasanalisadosconstituiuumacervoimportantesobre
introdução | 14
opensamentopredominanteàépocadecadagestão,oqualsetransformaemum importanteinstrumentodeanálisequandosetratadetransformararealidadede situaçõescomplexas,comonocasodasfavelas.
AspesquisasquesubsidiamaconstruçãodesseCapítulo1foramrealizadasem acervosoficiais,nosquaisseencontramarquivadosdocumentosquerelatamexpe-riênciasocorridasatéofinaldadécadade1970.Nosanosseguintes,obedecendoao recortetemporaldefinidonotrabalho(1980-2008),foiagregadaapesquisarealizada nosacervosdostrêsprincipaisjornaiscomcirculaçãodiárianacidadedeSãoPaulo4,a
qualresultounaconstituiçãodeumarquivoconsiderávelcomcercademilpublicações sobreotemafavela,incluindoreportagens,artigoseeditoriais.
Esseconjuntodeinformaçõescontribuiuparaacompreensãodopensamento vigentenomomentodaelaboraçãoouproposiçãodeprogramasdestinadosaresolver oproblemadasfavelasnacidadedeSãoPaulo.Asdiferentesopiniõessobreummesmo tema,possíveisdeseremconhecidasatravésdomaterialjornalístico,explicam,em parte,adiversidadedesoluçõesencontradasemcadagestão.Damesmaforma,ele permitecaracterizaroavançodessaspolíticaseprogramas,queoscilamdepropostas deremoçãodefavelasàsdeurbanização.
Osegundocapítulo,UrbanizaçãodeFavelas.UmaAgendaparaasOrganizações Internacionais,tratadeinvestigaroscaminhospercorridospororganismosinternacio-naisnabuscadeconstruirumpensamentosobreaformadeatuaremassentamentos precários.Aspesquisasficaramlimitadasàsinstituiçõesquedetêmexperiênciacon-sagrada,tantonaadoçãodoconceito“urbanizaçãodefavelas”,comonadestinação derecursostécnicosefinanceirosparapaísespobresouemdesenvolvimento,com vistasaapoiaraestruturaçãoeimplantaçãodeprogramas.
Foramrealizadasbuscaseletrônicasnosarquivosdaun -Habitat,doBancoMun-dial(bird),doBancoInteramericanodeDesenvolvimento(bid)edaAliançadas Cidades.Naprimeira,porserosetordaOrganizaçãodasNaçõesUnidas,quetem comoatribuiçãoacompanharosprocessosdohabitat,suaevolução,osinvestimentos quevêmsendofeitose,principalmente,acompanharosresultadosdaimplantação dasMetasdoMilênio,nospaísessignatários.NoBancoMundialenobid,porterem incentivadoaelaboraçãoeimplantaçãodeprogramasdeurbanizaçãodefavelas, tendodestinado,aolongodasduasúltimasdécadas,umaquantiasignificativade recursostécnicosefinanceirosparasuaimplementaçãoe,naAliançadasCidades, emfunçãodoseupapelcomoarticuladoradefinanciamentosparaprogramasde urbanizaçãodefavelas.
Noterceirocapítulo,Urbanizaçãodefavelas–osprogramasoficiaisnacidadede SãoPaulo,foramanalisadososprogramasdeurbanizaçãodefavelasimplantados nacidadeaolongodosúltimos28anos.Apesquisateveinícionadécadade1980,
quandointerviremfavelaseraumaatividadelimitadaàimplantaçãoderedesde águaeiluminaçãopública,porémderesultadospositivosjuntoàpopulação.Eelase estendeatéoano2008,quandoasintervençõesvisamàtransformaçãodasfavelas embairrosdacidadee,paraalcançaroobjetivo,demandamrecursosmaiselevados.
Nessecapítulo,apesquisaverificouosavançosdaspolíticasdeurbanizaçãode favelasaolongodosanosesuarecenteconsolidaçãocomoparteintegrantedapolítica urbanadacidade,emboraaindaconvivacomaresistênciadesetoresdasociedade quedefendemaconstruçãodenovasmoradiascomosoluçãoúnicaparaosproblemas enfrentadospelasfamíliasmoradorasnasfavelas.
Oquartocapítulo,ProgramaGuarapiranga.Oconflitoentreaproteçãoambientalea recuperaçãourbananosassentamentosprecários,tratadeapresentaraoleitorocaminho percorridoparaaconstruçãoeimplantaçãodoprogramadesde1992até2000,o qual,partindodoobjetivoprincipal(quetratavaderecuperaraqualidadedaágua desseimportantemanancial,duranteodecorrerdasuaimplantação),encontrou,na urbanizaçãodefavelas,umapolíticapúblicaavantlalettre.
Asintervençõesnasfavelas,limitadasinicialmenteàimplantaçãodainfraestru-turadesaneamentobásico,ganharamnovasdimensões:aoincorporaroconceitode “qualificaçãourbana”aosprojetosdeurbanizaçãodefavelas,passaramaapresentar resultadosqueintegraramessaaçãoàpolíticahabitacionaldacidadedeSãoPaulo, representandoumaevoluçãonasformasdeinterviremassentamentosprecáriosaté entãoutilizadaspelopoderpúblico.
Oquintocapítulo,Osprojetosdeurbanizaçãodefavelas,apresentaaestruturação dametodologiaparaaelaboraçãodeprojetoseosresultadosalcançados,apartir daapresentaçãodeseisfavelasurbanizadasnoâmbitodoProgramaGuarapiranga. Aexperiênciaadquiridacomaurbanizaçãodefavelas,entreosanos1994(iníciodas
obras)e2000(términodaprimeirafasedoprograma),resultouemumconjuntode liçõesaprendidas,constituindoumricoacervoparafuturasintervençõesemprogra-massimilares.
1
Favelas em São Paulo
1980-2008
Afavelaéumfenômenourbanoqueseconfiguranoterritório,sendo,portanto,parte integrantedacidade,umdoselementosdamorfologiaurbanaqueconformamseu desenho.Deexistênciarelativamenterecentenopaís,desdeasprimeirasdécadasdo séculoxx,temsidoobjetodeanálisedevárioscamposdaciênciacomoaSociologia, aAntropologia,aEconomia,aArquiteturaeoUrbanismo.
Aconfiguraçãourbanaresultantedeumaocupaçãoclassificadacomofavelanão obedeceaosparâmetrosdadisciplinaurbanística:otraçadoviárionãofoidefinido anteriormenteàconstruçãodascasas,asredesdeinfraestruturabásicasãoimplan-tadasapósasuaocupaçãoeasconstruçõessãodefinidasemfunçãodosespaços disponíveis.Ademais,elanãosegueasdiretrizesenormasestabelecidaspelasleisde usoeocupaçãodosolo.
Considerandoessascaracterísticasdasfavelas,aprincípio,taispadrõesdeirregu-laridadeurbanísticanãodeveriamsersuficientesparaenquadrá-lascomoocupaçõesà margemdacidadeconstituídaoficialmente,tendoemvistaqueasnormasepadrões urbanísticosestabelecidospeloscódigosurbanosoficiaissãosempreadaptáveisao sabordasnecessidadesdomercadoimobiliário.1
Outroaspectodeterminanteparaclassificarumaocupaçãocomofavelaestá relacionadaàformadaapropriaçãodoterreno,que,emgeralépúblico,esedásem oconsentimentodoproprietário.A“apropriaçãonãoconsentida”comoformade classificarafavelatambémpodeserconsideradaumconceitodiscutível,postoque,
favelas em são paulo 1980-2008 | 18
nacidade,podemserencontradasoutrasocupaçõescomasmesmascaracterísticas, asquaisnãosãodefinidascomofavelas2.
Oficialmente,oInstitutoBrasileirodeGeografiaeEstatística(ibge)3adotaum
termogenéricoparasuadefinição“aglomeradosubnormal”oqualé:
[…]constituídode,nomínimo51unidadeshabitacionais(barracos,casas)ocupandoou tendoocupadoatérecentemente,terrenodepropriedadealheia(públicoouparticular), dispostas,emgeral,deformadesordenadaedensa,bemcomo,carentes,emsuamaioria, deserviçospúblicosessenciais.4
Ofatoéqueafavela,emfunçãodasuacomplexidadeediversidadecomofenôme-nourbano,temsidoconceituadaapartirdepressupostoscentradosemparâmetros negativos,osquaissesustentamemtornodas“ideiasdeausência,carênciaehomo-geneidade,etomamcomosignificanteaquiloqueafavelanãoéemcomparaçãocom ummodeloidealizadodecidade”(observatóriodefavelas,2009b).
Noentanto,considerandoospadrõesquecaracterizaramoprocessodaurba-nizaçãonopaís,noqual,àexceçãodascidadesplanejadas,asocupaçõesurbanas precederamosmarcosoficializadoscomolegais,doordenamentoterritorial,nãoé justificávelqueasfavelas,apenaspelassuascaracterísticasmorfológicas,tenhamsido relegadasaolugardailegalidadeedadesconformidadecomasnormatizações.
Portanto,émaisprudenteconsiderarque,alémdenãoseguiremospadrões hegemônicosqueoEstadoeomercadodefiniramcomosendoomodelodeusoe ocupaçãodosolonacidade,asfavelasdesfazemascertezasconstruídasnoimaginário idealdosmodelosurbanísticos.Elaéarepresentaçãodadesigualdadesocial,da crescentepobrezaurbanaedasegregaçãosocioespacialexistenteemnossascidades; éumadesigualdadequeresultadabrutalconcentraçãoderendaexistentenopaís. Devidoàsituaçãodasfavelasnacidade,assoluçõespropostaspararesolvero problemanecessariamentedevempartirdaaceitaçãodacidadereal,ondevivem
2 NacidadedeSãoPaulo,épossívelencontrarimóveisparticularesocupandoterrenospúblicos deformairregular,comoéocasodasáreasremanescentesdarestituiçãodoleitodosriosTietêe Pinheiros,ondepodemserencontradassedesdeclubessociais,estacionamentosdeshoppings,clubes defutebole,também,favelas.Atéhoje,oMinistérioPúblicomoveumaaçãocontraaPrefeitura deSãoPaulo,sobaacusaçãodaconstruçãoindevidadosconjuntoshabitacionaisdoCingapura,os quaisnãopodemserregularizadosecomercializados,passadosmaisdedezanosdesuaocupação, comoconsequênciadessasituaçãoirregular.
3 Oibgeéumainstituiçãodaadministraçãopúblicafederal,subordinadoaoMinistériodePlanejamento, OrçamentoeGestão,criadoem1934,comoInstitutoNacionaldeEstatística–ine.Suamissãoéaprodução deestatísticasoficiais,sendooórgãoresponsávelpelaelaboraçãodoscensosdemográficosdecenais. 4
parcelaconsideráveldepobres,espacialmentesegregados.Alémdisso,assoluções devemincorporaroreconhecimentodequeafavelapodecontribuirparaareinvenção dacidade,entendidacomolugardetrocaentrediferentes.
ConformeCristóvãoDuarte(2009,p.7),emartigonoqualdiscuteapertinência domitodacidadeideal,afavela“foiconstruídacomorespostaaosprocessosde exclusãosocialesegregaçãoespacial”,aomesmotempoemqueelarepresenta,para seusmoradores,“umaformaalternativaeclarividentedeautoproteçãocomrelação aosrumosquetomavaagrandecidadeasuavolta”,equeresultaramliçõesaserem consideradas,pois,“[…]Aumtempo,reflexoeespelhodeumasociedadedesigual,a sociodiversidadepresentenasfavelasfigurahojecomopartefundamentaldasolução paraosproblemasenfrentadospelacidadecomoumtodo.”
Consideramosimportante,nestetrabalho,estabelecerosnovosmodosdeapre-ensãodofenômenodafavelização,quesuperemasanálisesestatísticas,que,emgeral, tratamapenasdecomprovarocrescimentodasfavelasedapopulaçãofavelada,bem comoamudançadepadrãodevidadosfaveladosedopadrãoconstrutivodasmoradias. Damesmaforma,háinteresse,nestetrabalho,debuscarcaminhosdiferenciados daquelesquecriticamosprogramasdeurbanizaçãodefavelas,defendendosoluções centradasnaconstruçãomassivadeconjuntoshabitacionaisparaondeapopulação serátransferida,ouentão,nasubstituiçãodasconstruçõesexistentesporconjuntos habitacionaisnomesmolocal.
Osnovosmodosdeapreensãodarealidadedafavelasãoosquepodemorientar aspolíticaspúblicase,portanto,nãodevemsefundamentaremmodelosequivocados ouemestereótiposconstruídosapartirdeexemplosisolados(todofaveladoéladrão, desempregado,criminosooutraficante).Definirafavelacomooespaçodascarências, ausênciasehomogeneidadesnãocontribuiparaaconstruçãodesoluçõesadequadas. Assim,énecessárioquesejaobservadaereconhecidasuaespecificidadesocioterritorial, bemcomosuamorfologiaquedeveserentendidacomoreferênciaparaosmoradores, localondesedesenvolvemvivênciascoletivaseseconstroemidentidades.
Objetivamente,háqueseconsiderartambémimportanteparaestetrabalhoaca-racterizaçãoconstruídapeloObservatóriodeFavelas(2009a,p.3),5paraoqualafavela
éumterritórioconstituintedacidade,caracterizadaporalgumasreferênciascomuns:
• ainsuficiênciahistóricadeinvestimentosdoEstadoedomercadoformal,principal-menteoimobiliário,financeiroedeserviços;
•forteestigmatizaçãosocioespacial,especialmenteinferidapormoradoresdeoutras áreasdacidade;
favelas em são paulo 1980-2008 | 20
•níveiselevadosdesubempregoeinformalidadenasrelaçõesdetrabalho;
• edificaçõespredominantementecaracterizadaspelaautoconstrução,quenãoseorien-tampelosparâmetrosdefinidospeloEstado;
•apropriaçãosocialdoterritório,comusopredominanteparafinsdemoradia;
•indicadoreseducacionais,econômicoseambientaisabaixodamédiadoconjuntoda cidade;
•ocupaçãodesítiosurbanosmarcadosporumaltograudevulnerabilidadeambiental;
•altadensidadedehabitaçõesnoterritório;
•taxadedensidadedemográficaacimadamédiadoconjuntodacidade;
•relaçõesdevizinhançamarcadasporintensasociabilidade,comfortevalorizaçãodos espaçoscomunscomolugardeencontro;
•altaconcentraçãodenegros(pardosepretos)edescendentesdeindígenas,deacordo comaregiãobrasileira;
•graudevitimizaçãodaspessoas,sobretudoaletal,acimadamédiadacidade.
Esseconjuntodereferências,acimaalinhadas,permitequesejaestabelecidauma plataformadenecessidadesquedevemcomporaspolíticaspúblicasquetenhamcomo objetivoimplantarprogramasdeurbanizaçãodefavelas.Osprincípiosemquese fundamentamsãobaseadosemumacidadediversa,quereconheceaespecificidade decadaterritórioedeseusmoradores,considerando-oscomocidadãosquedevem terseusdireitossociaisgarantidosnaformadepolíticaspúblicasafeiçoadasaseus territórios.
Estecapítulotem,comoprimeiropropósito,apresentarafavelacomoéapreendida contemporaneamente,momentoemqueassuashistóricascarênciasdeinfraestrutura nãosãomaisoselementoscentraisparaodesenvolvimentodosprogramasdeurba-nizaçãodefavelas.Aimplantaçãodeinfraestruturaeserviçosbásicoséumconsenso entretodosaquelesenvolvidoscomotema.Trata-seagoradeelaborarprojetosde urbanizaçãoquebusquemaconstruçãodacidadeunaeplural,emcontraposiçãoao conceitode“cidadepartida”.
umprogramadeconsolidaçãodasfavelas,elenãoofarácontrariandograndeparcela dos“formadoresdeopinião”6,principalmente,osrepresentantesdasassociaçõesde
“defesadacidade”,dasentidadesquerepresentammoradoresvizinhosdasfavelas, desetoresrepresentantesdosetorprodutivodaconstruçãocivil,dasentidadesdos profissionais,entreoutros.
Acompreensãosobreocaminhotrilhadopelosgovernosesociedadenabusca deconsensoséimportante,postoquedaíserãoretiradososaprendizadosparao aprimoramentodosprogramasdeurbanização.Quandoosprojetosdeurbanização defavelaspassamaserdivulgadosnoscadernosdeculturadosjornais,comoveremos adiante,umnovopatamardeentendimentodoproblemafoialcançado.
Foramadotados,comoperíododeestudo,osanosde1980a2008 ,querepresen-tamapassagemdeoitodiferentesprefeitosnaconduçãodacidade,filiadosaosmais diversospartidospolíticos.Oiníciodapesquisa-1980-nãocoincidecomoinício deumadasoitogestõesmunicipais,porémrepresentaaviradadadécada,quando asociedadebrasileiracomeçouavislumbrarofimdeumperíododecerceamento dasliberdadesdemocráticase,nocasodasfavelas,ofimdeumperíododepolíticas radicaisderemoção.
Vinteeoitoanosdepois(2008),apolíticadeurbanizaçãodefavelasnacidade deSãoPauloconsolida-secomooprincipalcomponentedapolíticahabitacionaldo governomunicipal,oquesedácomoapoiodossetoresdasociedadecivil,oschamados “formadoresdaopiniãopública”e,comoaportederecursosfinanceirosdogoverno
estadualefederal.
Antesdisso,éapresentadoumbrevehistóricodoperíodoqueprecedeosanos 1980-2008,comoformadeilustraromododeagirdasautoridadesmunicipais,frente aoproblemaquerepresentavamasprimeirasfavelassurgidasnacidadedeSãoPau-lo.Frenteaoineditismodasituação,ostécnicosdaadministraçãomunicipal,quase sempreassistentessociais,tratavamdeestabelecerpolíticaspúblicasminimizadoras dosproblemasenfrentadospelapopulaçãoqueocupavaasprimeirasfavelasquese implantaramnacidade.
Comessepropósito,foiadotadacomometodologiadepesquisa,abuscadeinfor-maçõesnostrêsjornaismaisimportantesdacidade,comcirculaçãodiária,OEstadode SãoPaulo,FolhadeSãoPauloeJornaldaTarde,desde1980até2008,sendo,apartir dapesquisa,destacadosfatosrelevantesrelacionadosàsfavelasquecontribuírampara acompreensãosobreaformacomoasociedadevemassimilandoaexistênciadafavela e,aspolíticaspúblicasquevisamàsuaintegraçãoàcidadeconsolidada.
favelas em são paulo 1980-2008 | 22
Aseleçãodeinformaçõesparaanálisepriorizouosfatosdemaiorrelevância paraotrabalho,quasesempreacompanhadosdapublicaçãodeeditoriaisouartigos assinados;tambémfoidadaatençãoàsreportagenssobreocotidianodosmoradores eosproblemasqueafetamsuasvidas.Assim,foramdestacadasreportagenssobrea favelaquandoelaéobjetodeintervençãooudeaçãodereintegraçãodeposse;quando foilançadoumnovoprogramadeurbanizaçãoouquandosereconheceaimportância deumprojetoimplantadocomvistasàtransformaçãourbanadafavela.
Complementarmente,forampesquisadososarquivosdaPrefeituradeSãoPaulo, querelatamasprimeirasexperiênciasmunicipaisrelacionadasaotratamentodo problema,publicaçõessobredebatestécnicos,osprimeiros“censos”defavelas.
1.1 o percurso de uma mudança: da remoção à urbanização (1942-1979)
AsprimeirasfavelasnacidadedeSãoPaulosurgiramnadécadade1940 ,prova-velmenteentre1942e1945,conformeinformaapublicaçãodaDivisãodeServiço SocialdaPrefeitura(dss)(sãopaulo(Cidade),1962).Àépoca,ogovernomunicipal consideravaqueasoluçãoparaoproblemaestavanocampodasaçõessociais,tendo, comopropósito,aeliminaçãodessesprimeirosassentamentos.ParaBonduki(1998, p.270),sobreomesmotema,aprimeirafaveladeSãoPaulo,provavelmente,foi aocupaçãodoterrenodoInstitutodeAposentadoriaePensõesdosIndustriários (iapi),localizadojuntoàAvenidadoEstado,querecebeuonomedeVárzeado Penteado(1942).Aocupaçãofoipromovidaporfamíliasdespejadasquenãotinham paraondeir.
Osurgimentodasprimeirasfavelascausavaindignaçãonasociedadepaulistana e,em1947,oentãoprefeitoAbraãoRibeirodeterminouademoliçãodosbarracosea transferênciadasfamíliasparaalojamentosprovisóriosenquantoaguardavamalgum atendimento.Surgiu,daí,afaveladoGlicério,quepersistiunolocalaté1957,quando osmoradoresforamdespejados,paraqueaprefeiturapudessedevolveroterrenopara seuproprietário,oiapi7.Comoconsequência,outrasfavelasseformaramemterrenos
públicos,entreelas,adoCanindé,BarraFunda,PiquerieIbicaba.8
7 Essesprocessosdereintegraçãodeimóveisdeautarquiasfederais,comoocasodoiapi,nãodiferem dasocorrênciasrecentes,comooexemplodareintegraçãodoprédiodoInstitutoNacionaldo SeguroSocial(inss),localizadonaAv.NovedeJulho,emjulhode2009,desocupadohámaisde 20anos.FamíliasintegrantesdaFrentedeLutaporMoradia(flm)ocuparamoimóvel,em2004,
reivindicandosuatransformaçãoemprédiodestinadoahabitaçõesdeinteressesocial.Oinss desconheceuareivindicação,dandoinícioàreintegraçãodapropriedadeeasfamíliassealojaram sobosbaixosdoviadutoNovedeJulho,sendotransferidaparaaprefeituraaresponsabilidadede atendimento,atravésdoprogramaParceriaSocial(aluguelsocialdurante30meses).
Apesardainiciativadoprefeitoedasreferênciasnonoticiáriodaépoca,asfavelas nãoforammencionadasnapesquisarealizadaem1947,peloPadreLebret,sobrea habitaçãoemSãoPaulo9.
Em1953,oprefeitoJânioQuadrosiniciouasprimeirasaçõesdedesfavelamento, atribuindo,àComissãodeAssistênciaSocialMunicipal(casmu),afunçãodeelaborar umplanodeextinçãodequatrofavelassituadasemterrenosmunicipais(BarraFunda, Piqueri,IbicabaeCanindé).Osfaveladospodiamoptarporrecursosfinanceirosparaa construçãodacasaprópriaouparaoalugueldosprimeirosmeses.Em1954,primeiro anodeexecuçãodoprograma,ocasmuconseguiuremover57,5%dosbarracos.Com amudançadegoverno,oconvêniofoiabandonado,ostrabalhosinterrompidoseas favelasvoltaramacrescer.10
Noestudoposterior,EstruturaUrbanadaAglomeraçãoPaulistana,elaborado pelasagmacs11em1957,coordenadopelomesmoPadreLebret,quesepropôsa
realizar“omaiscompletolevantamentosobreacidadedeSãoPaulo”(sagmacs, 1958),continuaoentendimentodequeafavelaéumfenômenopassageiro,dado ofatodacidadedeSãoPaulosermaisricadoqueoutrascapitaisnasquaisaocor-rênciademocambosefavelaseragrande,comoocasodeRecifeedoRiodeJaneiro (sagmacs,1958).
Essadefiniçãocontinuouaseradotada,aomesmotempoemqueaDivisãode ServiçoSocialdaPrefeitura(sãopaulo(Cidade),1962)divulgavaapesquisaurbana realizadapelasagmacs,aqualregistrou,em1957,aexistênciade141favelasemSão Paulo,com8.488barracosecercade50milmoradores.Essesnúmerosapontavam paraumfenômenourbanoqueestavalongedeserpassageiro,aocontrário,seu crescimentoeraconsiderávelesuaexpansãoextrapolavaoslimitesdaáreacentral. Asáreaspreferidasparaocupaçõeseramemgeralterrenosparticularesepúblicos, remanescentesdeintervençõesdosetorpúblico–obrasviáriaseretificaçãodosrios TietêeTamanduateí.
Nessaépoca,seevidenciavamduasformasdeintervençãoquecaracterizarama atuaçãomunicipalfaceànecessidadederesolveroproblemaocasionadopelaexis-tênciadessesassentamentosprecários.Aprimeiraeraoentendimentodofenômeno favelacomopassageiro,comoseacidadedeSãoPaulofosseidentificadaapenas porsuapujançaeconômica,eserecusasseaaceitaraexistênciadehabitaçõesfora dospadrõesestabelecidos.Asegundaformadeatuaçãodopoderpúblicoestava relacionadaaoplanejamentodasgrandesobrasviárias,queabandonavaterrenos
9 PadreLouis-JosephLebretfoifundadordoMovimentoÉconomieetHumanisme,eformadordetoda umageraçãodeplanejadoresurbanospaulistasapartirdasatividadesdaSociedadedeAnálise GráficaeMecanográficaAplicadaaosComplexosSociais(sagmacs),escritóriodeplanejamento criadoprimeiroemSãoPaulo(1947)e,depois,emoutrascidadesbrasileiras.
10 SãoPaulo(Cidade),1962.
favelas em são paulo 1980-2008 | 24
remanescentesàsuaprópriasorte,resultandonasuamaiorparteemlocaisocupados porfavelas.Pormuitotempo,nãohouveumapreocupaçãocomatransformaçãodas áreasremanescentesemespaçospúblicosqualificadosdemodoaevitarocupações informais.
Reforçava-seaideiadequeafavelaéumfenômenosociale,portanto,asinterven-çõesnessesassentamentosprecáriospassamaserderesponsabilidadedosetorsocial daPrefeituradeSãoPaulo.Primeiro,agestãodasfavelasficouacargodaDivisãode ServiçoSocial(dss ),encarregadadasatividadesrelacionadasàsaçõesdedesfavela-mento.Em1961,adsspublicouumtrabalhosobreoDesfavelamentodoCanindé(são paulo(Cidade),1962,p.13),noqualestáexplicitado,apartirdeumaexperiênciade remoção,qualeraoentendimentodopoderpúblicosobreessefenômeno.
Nodocumento,adss tratavaafavelacomoumproblemadedesajustetempo-rário,queseestabeleceucomoconsequênciadosfluxosmigratóriosquesedirigiam paraacidadecomaesperançadeencontrarmelhorescondiçõesdetrabalho.Dessa forma,aprimeiraopçãodemoradiadessesimigranteseraafavela,porém,coma perspectivadepassagem,atéqueascondiçõeseconômicaspermitissemaaquisição deumacasaprópria.
Odocumentosistematizavaametodologiaquedeveriaseradotadaquandoda intervençãoparaaremoçãodafavela,dandodiretrizesparaotrabalhosocialecriando averbadeatendimento,destinadaàsfamíliasremovidasnasaçõesdedesfavelamento. Dentreasdiretrizesdoplanodedesfavelamentoelaboradonaépoca,destacavam-se:
•adoçãodesoluçõesdiversificadaseindividualizadas,evitando-seatransferênciados moradoresparaconjuntohabitacional,efacilitandoaaçãoeducativadoconvíviocom outrosgrupos,embairrosoperários;
•organizaçãodeequipedetrabalhomultidisciplinar,contandocomassistentessociais, advogados,engenheiroseapoioadministrativo,alémdemotoristas,ajudantese operários;
•elaboraçãodelevantamentotopográficoecadastramentodasfamílias;
• apresentaçãodoplanoaoconjuntodasfamíliasedesenvolvimentodeprogramasedu-cativos,dirigidosagruposdemoradores;
•estabelecimentodeumaVerbadeAtendimentoparaajudafinanceiraàsfamílias,aser manejadacomalgumaflexibilidade,demodoaoferecerumlequedesoluções;
•definiçãodeum“teto”paraaajudafinanceiradestinadaacadafamília;
• avaliaçãodaintervençãoatravésdevisitadaassistentesocialàsfamíliasquesemu-daramparacasaprópria,realizadaseismesesapósaremoção.(sãopaulo(Cidade),
1962,p.13).
Asistematizaçãodosprocedimentos,aplicadosnaremoçãodafaveladoCanindé, compreendiaasseguintesmodalidadesde“soluçõesparamudançadosfavelados” (sãopaulo(Cidade),1962,p.55):
•viagemparaacidadeouestadodeorigem;
•mudançaparaquartooucasaalugada;
•mudançaparacasaadquirida;
•mudançaparaconstruçãodemadeiraconstruídapelaprefeitura(emterrenodopróprio faveladoouemterrenomunicipal);
•mudançaparaconstruçãodemadeiraoualvenaria,efetuadapeloprópriofavelado;
•compradematerialparaconstruçãoemterrenodepropriedadedofavelado.
Em1961,foicriadooMovimentoUniversitáriodeDesfavelamento(mdu ),con-gregandoestudantesdasuniversidadesdacidadedeSãoPaulo,cujoobjetivoeraa “promoçãodosfavelados”.ADivisãodeServiçoSocialdaPrefeituraproporcionava aosestudantesaparticipaçãoemprogramasdedesfavelamento,demodoaque conhecessemexperiênciasconcretasrelacionadasàrealidade(cadernoslap, 1995).
Omduatuouemalgumasfavelasqueseriamremovidas–Moóca,Tatuapée Vergueiro-,prestandoassistênciaaseusmoradores,atravésdeprogramaseducativos,
orientaçãojurídica,implantaçãodesaneamentobásico.Daparticipaçãodosestudantes nasaçõesemapoioaosfavelados,resultavamtrabalhospublicados,ondesedivulga-vamasideiassobreanaturezadosproblemassociais,osproblemashabitacionaisea preparaçãodosestudantesparaafuturavidaprofissional.
Umadasexperiênciasmaissignificativasparaosintegrantesdomdu foiapar-ticipaçãonaremoçãodafavelaVergueiro(1962),oportunidadequepermitiuaos estudantesapreparaçãodeumametodologiadetrabalhoqueabrangiadesdeos levantamentossocioeconômicos,olevantamentocadastraletopográfico,atéaela-boraçãodoPlanodeDesfavelamento.
favelas em são paulo 1980-2008 | 26 1.1 Elevações do
conjun-to de Jandira, observa-se uma preocupacão com a insolação das unidades. Acervo
lap-fauusp. Arq. Paulo Bruna, ago. 1962.
1.2 Planta do conjunto de Jandira com 7 unida-des habitacionais e uma área comum. Acervo
lap-fauusp. Arq. Paulo Bruna, ago. 1962.
1.3 Perspectiva do con-junto de Jandira. Acervo
Em1967,acohab-sp12divulgounovoestudosobreasfavelasdomunicípio,
coordenadopeladss.Odocumentoinformavaqueexistiam22favelasconhecidas emSãoPaulo,nasquaisviviam4,6 milfamílias.Realizadadezanosdepoisdapesqui-sacoordenadapelasagmacs(1957),seusresultadosapontavamparaumaredução significativadonúmerodefavelas(119)eodefamílias(50%),umadiferençaqueé, provavelmente,decorrentedadiferençademetodologiautilizadanasduaspesquisas, enãodaprováveldiminuiçãodasfavelas.
NoiníciodogovernodoprefeitoFigueiredoFerraz,em1971,aSecretariadoBem EstarSocial(sebes)13elaborouumProjetodeDesfavelamento,queemsetembrodo
mesmoanopassouachamar-seProjetodeRemoçãodeFavelas(sãopaulo(Cidade), 1971b).Otrabalhopropunhaaremoçãode37favelasconsideradasprioritáriaspor estarememsituaçãoderiscoouemfrentedefuturasobraspúblicas,comatransferên-ciadasfamíliasparaalojamentosqueforamdenominadosdeCentrosdeTriagemou VilasdeHabitaçãoProvisória(vhp).Essesalojamentosseriamconstruídosemáreas municipaissemfinalidadedefinida,ouainda,emoutrasfavelasquesesituassemem terrenosmunicipais,osquaistinhamcomofinalidadeservirdeestágiointermediário paraapopulaçãoatéaconstruçãodasoluçãohabitacionaldefinitiva,oquenãochegou aacontecer,eosalojamentosserviramdeabrigopormaistempo14.
Apesardacontinuidadedapolíticadedesfavelização,em1973,asebeselaborou umcadastrodasfavelas,queresultounoprimeirodiagnósticoconsistentesobreo tema.OsresultadosforamconsolidadosnapublicaçãoEstudosobreofenômenofavela noMunicípiodeSãoPaulo,elaboradasobaresponsabilidadedaCoordenaçãodo ProgramadeEstudoseDocumentaçãodeHabitaçãoeTrabalho,vinculadaasebes (véras,1974).
Essetrabalhoadotoucomodefiniçãoparao“problemafavela”:
[…]Situa-segeralmenteemterrenosocupadospelainvasãooucessãoverbaldoproprie-tário;osterrenossituam-sequernochamadocinturãoperiférico,querpróximoaviasde
12 Em1965,foicriada,peloprefeitoFariaLima,aCompanhiaMetropolitanadeHabitaçãodeSão Paulo(Cohab-sp),atravésdaLeino6738de19/11/65,órgãoresponsávelpelapromoçãoegestão
dapolíticahabitacionaldoMunicípio,deacordocomasnormasestabelecidaspeloBancoNacional daHabitação-bnh.
13 Em1967,foicriadaaSecretariadoBemEstarSocial–sebes,emsubstituiçãoàdss.
favelas em são paulo 1980-2008 | 28
trânsito,ouzonasàmargemdecórregosourodovias.Sãoasfavelascaracterizadaspela suaunidadehabitacional:obarraco,construídocommaterialprecário,oquedecerta formaevidenciaobaixopadrãodevidadapopulação(véras,1974,p.17).
Nototal,foramcadastrados525aglomerados,sendo327núcleos(aglomeradoscom até10barracos)e198favelas(aglomeradoscommaisde10barracos),totalizando 14.304barracoscomaproximadamente71.840habitantes.
Outrodadosignificativoapresentadonapesquisafoiotempomédiodeexistência dasfavelas:nafaixadezeroacincoanos,revelava-seamaiorconcentração,44,4%;de cincoadezanos,32,5%,sendoqueotempomédiodetectadoerade6,7anos.Ouseja, tendoemvistaqueosdadosforamcoletadosem1973,operíododemaiorconcentração desurgimentodosaglomeradosfoiode1968a1973.
Nocapítulointrodutório,oEstudoapresentaumasíntesedasdiversaslinhas deinterpretaçãoteóricasobreofenômenodasfavelasesuascausas,superandoa abordagemreducionistaquevinhacaracterizandoospoucosdocumentosproduzidos pelopoderpúblicomunicipalsobreaquestão.Asabordagensapresentadassão:a)a favelacomoumasubcultura,grupomarginalsegregado;b)afavelacomoaglomerado físico,umadescontinuidadenapaisagemurbana;c)afavelacomofasedetransição dosmigrantesaoingressaremnametrópole;d)afavelacomoresultadodoprocesso econômicoquegeraumsubproletariado(exércitoindustrialdereserva).
Osautoresdotrabalhoreconhecemque
[…]opresentetrabalhoéumacontribuiçãoparaumdiagnósticodasituação,comafina-lidadedesubsidiarumapolíticahabitacionalequeaformadeintervirsobreofenômeno favelavariaconformeavisãoquesetemdoproblema.Unssugeremocontroledamigração, outrosaintervençãosobreofeitiodaurbanizaçãoeocupaçãodosolo;outros,ainda, procuramaremoçãodapopulaçãonosentidoderessocializá-laatravésdeumprocesso cujoprimeiropassoseriaamelhoriadascondiçõeshabitacionais(véras,1974,p.18).
Nofinaldadécadade1970,acidadedeSãoPaulotinhaumnúmerosignificativode favelas,evidenciandoquenãosetratavadeumfenômenotransitório.Eramocupações queseconsolidavam,enãomaisoabrigoprovisóriodorecémchegadoàmetrópole. Pesquisassobreoperfildosmoradoresrevelavamque:53%doschefesdefamília residiamnaCapitalhámaisdecincoanos;37%viviamnacidadehámaisdedezanos; e41%tinhamchegadoàfavelaporalgumprocessodepauperização,apósoutrotipo deexperiênciahabitacional(kowarick,1983).
1.4 Estudo sobre o fenô-meno favela no município favela no município de
São Paulo. habi – coped,
favelas em são paulo 1980-2008 | 30
paraomunicípioemrelaçãoàsregrasdefinanciamentodosistemavigentesfh/bnh15,
foicriadooFundodeAtendimentoàPopulaçãoMoradoradeHabitaçãoSubnormal (funaps),queapoiariaasintervençõesnasáreasocupadasporfavelas.Paralelamente,
aindaem1979,foicriadooProgramapromorar16juntoaobnh,dirigidoaosgrupos
demenorrendaepermitiaofinanciamentodaconstruçãodeembriõeshabitacionais emterrenosocupadosporfavelas.
Nofinaldadécadade1970,aspolíticasderemoçãoedesfavelização,baseadas naideiadatemporalidadedafavela,tinhamseesgotado.Apartirdaí,aspolíticas públicasparaasfavelaspassaramaconsiderá-lascomofenômenourbano,integrante dapaisagemdacidade.Talpercepçãocoincidiacomasprimeirasmobilizaçõesdos movimentosderepresentantesdosfavelados,osquaisreivindicavamoacessoàs benfeitoriasmínimas,emoposiçãoàsideiasdodesfavelamento.
1.2 a consolidação das favelas e a política de implantação de melhorias
NoperíododegovernodoengenheiroReynaldodeBarros(1979-1982)17,opaísse
encontravanafasedatransiçãodemocrática,quesefortaleciadesdeaaprovaçãoda anistiaparaosexiladospolíticos(1981).Asforçasgovernamentaispreparavam-separa enfrentaradisputaeleitoralnoanoseguinte(1982),quandoocorreriamaseleições diretasparagovernadoresdeestado,eaoposiçãoaoregimevigenteseapresentava comoalternativadegoverno.Preocupadoscomesseavançodaoposição,tantoogover-nomunicipal,representadopeloprefeitoReynaldodeBarros,quantonaáreafederal, representadapeloministroMarioAndreazza,buscavamdivulgarparaopúblicoum conjuntodemedidasdirigidoparaapopulaçãodebaixarenda.
15 ALeiFederaln.4.380de21deagostode1964instituiuoSistemaFinanceirodaHabitaçãoe oBancoNacionaldaHabitação,definindo,emseuartigo1.acentralizaçãototaldosrecursos financeirosdestinadosaprogramashabitacionaisparabaixarenda,“OGovernoFederal,atravésdo MinistrodePlanejamento,formularáapolíticanacionaldehabitaçãoedeplanejamentoterritorial, coordenandoaaçãodosórgãospúblicoseorientandoainiciativaprivadanosentidodeestimular aconstruçãodehabitaçõesdeinteressesocialeofinanciamentodaaquisiçãodacasaprópria, especialmentepelasclassesdapopulaçãodemenorrenda.”
16 OProgramapromorarfoicriadoem1979,atuandocomrecursosdobnh,dirigidosaofinan-ciamentodeunidadeshabitacionaisdotipoembrião,destinadasaoatendimentodefamílias removidasnoâmbitodeprogramasdeerradicaçãodesub-habitações.EmSãoPaulo,opromorar foicoordenadopelacohab,tendoobtido,comoresultadodesuaatuação,aconstruçãodecinco milunidades.