A VERDADE HISTÓRICA BUSCADA ATRAVÉS DE BEETHOVEN E FOURIER
Maria Lúcia Netto Grillo Luiz Roberto Perez Lisbôa Baptista
I) Introdução
Este trabalho tem como motivação a nossa constatação, através de pesquisas desenvolvidas em projetos interdisciplinares, sobre a importância e mesmo necessidade do diálogo entre as chamadas Ciências Humanas e as Ciências Exatas. Destacamos aqui particularmente o diálogo entre a História, a Música, a Matemática e a Física, no período da passagem do século XVIII para o XIX, onde muitos fatos relevantes aconteceram, com fortes influências para os nossos dias. Destacamos dois eminentes personagens: Ludwig van Beethoven na Música e Jean-Baptiste Joseph Fourier na Matemática e na Física. Aparentemente de áreas diferentes (numa visão da época ou numa visão superficial de hoje), porém hoje seus trabalhos são relacionados e possuem colaborações mútuas.
Conforme Braga e outros (2011): “Os homens de ciência, ao construírem teorias e modelos explicativos para os fenômenos da natureza, dialogam com outros homens que exercem atividades aparentemente distantes da científica, como teólogos, artistas plásticos, músicos ou poetas”. (BRAGA, GUERRA e REIS, 2011:10) Então a visão ampla de uma época nos leva a entender melhor o que temos hoje e nos ajuda na consciência de como devemos desenvolver nossos trabalhos de pesquisa.
O período do Renascimento, considerado num contexto geral nos séculos XIV a XVI, não conheceu fronteiras entre as áreas. Um personagem famoso da época foi Leonardo da Vinci, que destacou-se em diversas áreas, como a música, a engenharia e a pintura. Hoje nos referimos a esses personagens como gênios, porque atuavam em muitas áreas, porém essa prática era comum naquela época.
Segundo Dias (2012), com o movimento, que ficou conhecido como Revolução Industrial, ocorrido exatamente na transição dos séculos XVIII para XIX, teve início a prática da especialização da ciência e a fragmentação do conhecimento em diversas áreas do estudo e pesquisa. Essa divisão do conhecimento trouxe consequências para a educação, com a descontextualização do conhecimento (conhecimento sem relação com o cotidiano).
Na década de 60 do século passado teve início no Brasil a discussão sobre a interdisciplinaridade. Segundo Fazenda (1994), a primeira publicação relevante sobre o tema foi “Interdisciplinaridade e patologia do Saber”, de Hilton Japiassu, em 1976.
Apesar de já ser hoje uma prática comum em países desenvolvidos, o Brasil ainda enfrenta muitos obstáculos nessa prática. A formação nas escolas e universidades continuou sendo na linha disciplinar, o que perdura até nossos dias em nosso país, com consequências nada positivas para o ensino, bem como para a pesquisa. A falta de interesse dos estudantes dos níveis básico e superior muitas vezes é apontada como consequência dessa justaposição de áreas. Segundo Jantschi e Bianchetti (1995): “As diversas atividades e contribuições das disciplinas e do trabalho dos professores acontecem apenas se acumulando por justaposição: não se somam por integração, por convergência”.
As Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Médio – DCNEM (Brasil, 1998) apontam a contextualização do ensino e a interdisciplinaridade como princípios organizadores do currículo do Ensino Médio:
“Interdisciplinaridade e contextualização formam o eixo organizador da doutrina curricular expressa na Lei de Diretrizes e Base da Educação Nacional (1996). Elas
abrigam uma visão do conhecimento e das formas de trata-los para ensinar e para
aprender que permite dar significado integrador a duas outras dimensões do
currículo de forma a evitar transformá-las em novas dualidades ou reforçar as já
existentes: base nacional comum/parte diversificada e formação geral/preparação básica para o trabalho”. (BRASIL, 1998, p. 50)
Segundo Videira e Machado (2013), a autossuficiência disciplinar é um mal a ser sempre evitado. Mas a fragmentação chegou a tal ponto que na década de 1990 falava-se, em não poucos lugares, da necessidade de estreitarem os laços entre as diferentes disciplinas das chamadas Ciências Humanas, para produção de uma imagem mais adequada, fiel ou mesmo verdadeira da ciência. “Na virada do século XX para o XXI, contudo, esses discursos se enfraqueceram a ponto de serem, nos dias que correm, minoritários, praticamente inaudíveis”. (VIDEIRA e MACHADO, 2013, p. 148)
Apesar desse retrocesso apontado acima, o tema continua em voga, com base também nos escritos de Thomas Kuhn e Paul Feyerabend, que criticam o positivismo lógico e o racionalismo crítico, que separam os domínios científico e não científico, ou seja, o que é estudado e pesquisado e o cotidiano das pessoas.
estende ainda hoje em todos os níveis de ensino, inclusive no nível universitário de graduação e pós-graduação.
Considerando essa análise sobre a importância da contextualização e da interdisciplinaridade, apresentamos esse trabalho, que busca resgatar a verdade histórica, em um período de grandes transformações, que é a passagem do século XVIII para o XIX, levando em conta esses dois eminentes personagens já citados, que são Beethoven e Fourier.
II) Contexto e importância da época
Segundo Reali e Antiseri (1991): “Talvez nunca tenha acontecido de o fim de um século e o início de outro serem marcados por mudanças tão radicais e tão claras como as mudanças que caracterizam os últimos anos do século XVIII e os primeiros anos do século XIX”. (REALI e ANTISERI, 1991:13)
A sociedade europeia do início do século XVIII vivia dominada pelo que ficou conhecido como Antigo Regime, sistema social e político aristocrático estabelecido na França, entre os séculos XVI e XVIII. Era um regime absolutista, com poder centralizado nas mãos do rei. Esse regime teve fim com a Revolução Francesa, ocorrida entre 1789 e 1799. Além dessa grande perturbação na sociedade, essa passagem de século presenciou também fatos importantes, que trouxeram mudanças em todas as áreas: a Revolução Industrial e a independência dos Estados Unidos, de seus colonizadores ingleses. Era a passagem da Idade Moderna para a Idade Contemporânea.
II.1) A Revolução Industrial
A Revolução Industrial foi a mudança do método de produção artesanal para a produção por máquinas, com o uso da energia a vapor e o desenvolvimento de máquinas. Teve início na Inglaterra, em torno de 1760 e em pouco tempo se ampliou para a Europa Ocidental e os Estados Unidos. Segundo Lucas (2002): “Pela primeira vez na história os padrões de vida das massas de pessoas comuns começaram a se submeter a um crescimento sustentado”.
para impulsionar um pistão dentro de um cilindro, o princípio básico fundamental de uma máquina a vapor”. Ele teve a ideia, que foi patenteada em 1698 pelo engenheiro militar inglês Thomas Savery (1650-1715) e era usada para retirar água das minas de carvão. Essa máquina foi aperfeiçoada alguns anos depois, por Thomas Newcomen (1663-1729), outro inglês, e entrou em operação em 1712. (GRECO, 2005:17)
Em 1763 o jovem escocês, inventor e fabricante de instrumentos, James Watt (1736-1819), recebeu uma das máquinas de Newcomen para consertar. Watt consertou e aperfeiçoou a máquina, aumentando muito a sua eficiência. Segundo Greco (2005), a partir desse momento a máquina a vapor começou a se integrar a várias indústrias, impulsionando a Revolução Industrial já em curso. Em 1790 Watt chegou ao desenho definitivo de sua máquina.
Watt não quis usar vapor em alta pressão, por achar muito perigoso. Em 1769, um engenheiro militar francês, Nicolas-Joseph Cugnot (1725-1804) usou a alta pressão em outro tipo de máquina, um automóvel em forma de triciclo, mas foram fabricados apenas dois. Em 1802 o engenheiro mecânico inglês Richard Trevithick (1771-1833) construiu a primeira carruagem a vapor e em 1803 a primeira locomotiva a vapor (esta foi abandonada por problemas nos trilhos). Poucos anos depois a locomotiva foi aperfeiçoada por outro inglês.
No final do século XIX foram fabricados muitos carros a vapor, a gasolina e também elétricos. Em 1873, o alemão da cidade de Mannheim, Karl Benz (1844-1929) criou sua primeira fábrica de motores e em 1885 desenhou e construiu aquele que é considerado o primeiro carro, de 3 rodas. A esposa de Benz dirigiu de Mannheim a Pforzheim (cerca de 60 km) em 1888, sem avisar ao marido. Essa viagem é considerada importante pois venceu os temores da população e do próprio Benz (GRECO, 2005:24).
O desenvolvimento tecnológico foi muito importante para o progresso econômico e social, e impulsionou também o desenvolvimento da matemática e da física aplicadas. Inicialmente os chamados engenheiros eram na verdade técnicos voltados para problemas práticos. Nesse sentido a Royal Society de Londres, que reunia os filósofos naturais (os físicos da época) teve papel importante, através dos cursos que oferecia, juntando a teoria e os experimentos (BRAGA, GUERRA e REIS, 2005:8).
A pilha elétrica, criada pelo cientista Alessandro Volta (1745-1827), transformou-se na mais importante fonte de geração de eletricidade contínua do mundo moderno. O trabalho teórico de Michael Faraday (1791-1867) em 1831, com sua lei da indução, deu origem aos primeiros dínamos em 1832. Graças aos desenvolvimentos das máquinas térmicas e dos motores elétricos, a face do mundo se transformou (BRAGA, GUERRA e REIS, 2005:9).
II.2) A Revolução Francesa
“Entre 1770 e 1780, a intempérie cultural registrava na Alemanha as primeiras modificações de vulto que, a prazo médio, na passagem do século, levariam à superação total do iluminismo” (REALE e ANTISERI, 1991:14). Esse movimento ficou conhecido como “Sturm und Drang”, que significa “Tempestade e Impulso” ou “Tempestade e Ímpeto”, com um sentido de “ímpeto tempestuoso” ou “tempestade de sentimentos”. Esse termo teve origem em um drama escrito por Friedrich Maximilian Klinger, em 1776. A influência internacional desse movimento se deve aos poetas Goethe e Schiller, e aos filósofos Jacobi e Herder.
Tinha início então a passagem do Classicismo para o Romantismo. O classicismo representa a composta e serena maturidade da alma alemã e o Sturm und Drang era a juventude desordenada. Essa transformação pode ser acompanhada através das diversas fases musicais do alemão Beethoven, que é considerado o iniciador do Romantismo na música.
Na França, em apenas três anos a monarquia absolutista foi derrubada. A iniciativa é devida a grupos políticos radicais de esquerda, que colocaram o povo nas ruas das cidades e envolveram inclusive camponeses na região rural do país. Surgira então os princípios de liberdade, igualdade e fraternidade. Um dos fatos desencadeadores da revolução foi a queda da Bastilha, em julho de 1789, que era uma prisão desde o início do século XVI.
A Primeira República Francesa foi proclamada em setembro de 1792. Tinham início então as guerras revolucionárias, com muitas vitórias e conquistas. O período entre 1793 e 1794 ficou conhecido como o Terror, quando morreram entre 16.000 e 40.000 pessoas, inclusive Maximilien Robespierre, advogado e político, que foi uma das personalidades mais importantes da Revolução Francesa. Em 1799 o Consulado assumiu o poder, sob o comando de Napoleão Bonaparte. Tinham início então as guerras napoleônicas. (HORNE, 2013:24)
brigada, ainda com 24 anos, e nomeado comandante de artilharia do Exército da Itália. (HORNE, 2013:11)
Ao mesmo tempo que pensava em artes e ciências, pensava em matar. Napoleão revelou-se implacável e cruel. Aos 29 anos, tendo recentemente (1798) inspirado a criação, no Cairo ocupado, de um Instituto de Ciências e Artes, esse homem tão contraditório quanto Hitler e Stallin, ordenava agora que a insurgência fosse reprimida com a destruição da Grande Mesquita e a decapitação de todos os prisioneiros apanhados com armas. (HORNE, 2013:17)
As conquistas de Napoleão deram origem, em 1804, ao Código Civil (Código Napoleônico). Seguiram-se a esse os Códigos de Processo Civil, Direito Comercial, Processo Penal e Código Penal. Surgiram os alicerces do Direito Civil no mundo moderno. Em 1804 Napoleão atingiu o máximo de seu poder, e desejou então receber a coroa de rei, o que fez ele próprio, intitulando-se Napoleão I. O movimento que tivera início com os ideais igualitários da Revolução Francesa, viria ao encontro de uma nova aristocracia de um novo despotismo. O que parecia então um libertação do regime de nobreza, transformou-se em nova forma de absolutismo, com invasões e guerras nos países próximos. (HORNE, 2013:22)
III) O grande músico e o grande físico-matemático
Em meio a tantos desenvolvimentos e transformações, a sociedade precisou enfrentar muitas dificuldades devidas a guerras e a mudanças de regimes de governo. Napoleão foi uma figura de destaque inicialmente na França, vencendo o absolutismo do rei, porém vindo a se autodenominar mais tarde também como rei. Era também a época de desenvolvimentos técnicos e científicos. Nessa sociedade de transformações encontramos dois personagens que se destacaram em suas áreas de trabalho, com contribuições importantes até nossos dias: Fourier e Beethoven. Não há registros na história de que tivessem se conhecido nem de contatos em seus trabalhos. Na época, buscando melhores condições para a sociedade, ambos acreditaram que a figura de Napoleão seria importante para o progresso. Fourier chegou a ser militar no exército francês e Beethoven compôs uma sinfonia dedicada ao importante político, que desejava conhecer pessoalmente. Ambos se decepcionaram e mudaram seus rumos, buscando outros caminhos, longe do novo ditador. Veremos a seguir o que hoje conhecemos como a relação entre seus trabalhos, inicialmente sem relação.
III.1) O músico
museu Beethoven Haus. Era 16 de dezembro de 1770 e no dia seguinte foi batizado numa igreja próxima, de São Remigius. Era filho de Maria Magdalena van Beethoven e de Johann van Beethoven, e neto do músico mais eminente da cidade e mestre de capela, o também Ludwig. Seu avô trabalhava para a corte e morreu quando Beethoven tinha apenas 3 anos, porém foi capaz de marcar a vida do neto: “meu excelente avô, com quem eu pareço”. Johann também trabalhava como músico tenor e professor de violino e teclado, na corte do príncipe e padre Maximilian Friedrich, que pertencia às duas classes dominantes do Antigo Regime (ROLAND, 1959:17)
Seu pai, que era alcoólatra, não tinha muitos talentos musicais, não chegando a ser mestre de capela, apesar de suas tentativas. Tentou então se realizar profissionalmente através de seu filho mais velho, que já manifestava boas tendências musicais aos 4 anos. Foi então um professor violento, que fazia o filho chorar diante do piano. Chegava a ser chicoteado, trancado no porão ou acordado à meia noite para mais horas de prática. “Era tão pequeno que tinha de subir em um banquinho para alcançar as teclas. Se hesitasse, seu pai batia nele. Quando tinha folga, era para pegar um violino, que era atirado em suas mãos, ou para estudar teoria musical martelada em sua cabeça” (MORRIS, 2007:27)
Desde menino já gostava de improvisar no piano e no violino, saindo das notas impressas nas suas lições, o que muito aborrecia o pai. Aos 8 anos fez seu primeiro recital em Colônia (foi anunciado como tendo 6 anos, para ficar igual a Mozart em seu primeiro recital).
Aos 10 anos Beethoven já gostava tanto de piano quanto do violino. Passou então a ter aulas extras de órgão, viola e trompa na capela eleitoral e no mosteiro franciscano, onde fora batizado. Não apresentava interesse pela escola, sendo aluno de conhecimentos apenas básicos. Tinha mais facilidade em latim e francês. Com 11 anos e meio, então aluno de Christian Neefe, já substituía seu professor como organista na capela. Aos 12 anos teve sua primeira composição impressa em Mannheim. Até então não conseguira nenhum sucesso. Aos poucos foi sendo reconhecido como bom intérprete e aos 13 anos e meio ganhou seu primeiro emprego como músico da corte. Gostava de tocar principalmente o Cravo bem Temperado de Bach no piano e 3 sonatas para violino de Mozart. Segundo Morris (2007), “quando não estava cumprindo sua obrigação no cravo, ocupava um assento regular na seção de cordas da orquestra, tocando de preferência viola”. (MORRIS, 2007:41)
Beethoven, já com 19 anos, não tinha interesse especial pela política. Nessa época a Revolução Francesa já estava em curso, com aristocratas franceses sendo destituídos, que se refugiaram na Alemanha. Os príncipes alemãs já começavam a temer por suas ainda estáveis situações.
Rapidamente começou a se destacar não apenas como músico instrumentista, mas como compositor. Em Viena o músico mais famosos era Haydn, principalmente após a morte de Mozart em 1792. Nessa época Robespierre derrubou a monarquia francesa, o que levou a Áustria e a Prussia a unirem-se em resposta, e foram derrotados em 20 de setembro. “As forças francesas invadiram em grande número o Norte e o Sul do eleitorado de Colônia”. (MORRIS, 2007:63)
Aos 22 anos foi estudar em Viena com Haydn, um músico tipicamente clássico que tentou moldar o talento de Beethoven a seu gosto, sem sucesso. A criatividade do jovem era incontrolável, e em pouco tempo mudou de professor.
Em 1796 começou a ouvir conversas sobre o jovem general Napoleão, que estava humilhando o exército austríaco na Itália. Depois de algumas batalhas, já em 1800, Napoleão, o primeiro consul da França,
“agora assombrava tanto a imaginação alemã que chegava a tomar proporções divinas – inspiradoras para alguns, ameaçadoras para outros. Beethoven estava
inclinado a maravilhar-se com as habilidades aparentemente sobre-humanas do
homem. Havia um certo grau de autoidentificação nessa admiração. Napoleão era
só um ano mais velho do que ele, também fora uma criança pobre das províncias e
um imigrante em um centro de poder. Ambos entusiasmavam-se com a ideia de uma
nova ordem – Napoleão na sociedade, Beethoven na harmonia”. (MORRIS,
2007:106)
Os trabalhos de Beethoven podem ser divididos em 3 períodos: o clássico, o heroico e o sublime. Muitas de suas composições não se enquadram em nenhum desses períodos. Em 1803, em seu período heroico, teve algumas ideias musicais que aos poucos revelavam o perfil de uma sinfonia de alcance épico, para a qual deu o nome de Bonaparte. Em junho de 1804, quando Beethoven fez o primeiro ensaio da sua 3ª Sinfonia, Napoleão havia se auto proclamado rei. Ao tomar conhecimento, Beethoven arrancou seu nome da Sinfonia, para a qual deu o novo nome de Heroica, num acesso de raiva. Ele exclamou: “Napoleão não passa de um mortal como outro qualquer... haverá de pisotear os direitos humanos e tornar-se um tirano”. (HORNE, 2013:57)
Fourier nasceu em Auxerre, na França, em 21 de março de 1768. Seu pai, Joseph Fourier, era alfaiate e ficou viúvo, com 3 filhos. Casou-se novamente e teve mais 9 filhos. Fourier foi o último filho. Quando o menino tinha 9 anos sua mãe faleceu e no ano seguinte foi o pai. Foi então internado na escola militar de Auxerre, um colégio beneditino.
Segundo Ferreira (2009), nesse início dos novos estudos ele mostrou mais talento para a literatura, porém aos 13 anos a matemática tornou-se seu maior interesse. Aos 15 anos recebeu o primeiro prêmio pelo seu estudo de Mecânica Geral.
Influenciado pelos padres beneditinos de seu colégio, decidiu aos 19 anos tornar-se padre e foi estudar na abadia de St. Benoit-sur-Loire, onde permaneceu por 2 anos, quando decidiu se dedicar profissionalmente à matemática. Nessa época estava preparando um artigo sobre a solução de equações numéricas, que apresentou na Academia Real de Ciências, em Paris.
Segundo Ferreira (2009), em 1793, um ano depois da proclamação da Primeira República Francesa, passou a se envolver em política, fazendo parte do comitê revolucionário: “a sublime esperança de estabelecer um governo livre, sem reis e padres, e livrar deste duplo fardo o longamente usurpado solo da Europa. Eu rapidamente me enamorei por esta causa”. Fourier não aceitava o poder eclesiástico interferindo na vida política da nação, algo que foi assimilado pela própria Igreja só bem mais tarde. Apesar disso não consta que ele tenha abandonado sua fé. (FERREIRA, 2009:84)
Pouco depois teve início o período do Terror. Fourier começou a não concordar com as práticas políticas francesas, com várias correntes que se debatiam violentamente. Tentou abandonar atividades políticas, mas não conseguiu. Em 1794, depois de ter defendido uma dessas correntes políticas, acabou preso, mas foi solto em pouco tempo, após novas mudanças depois da morte de Robespierre.
Ainda em 1794 foi escolhido para cursar a École Normale de Paris, onde teve como professores os já eminentes Lagrange, Laplace e Monge. Fourier começou a ensinar no Collège de France e obteve uma posição numa instituição que passaria logo a se denominar École Polytechnique, que logo se tornaria uma das instituições de mais prestígio no mundo acadêmico. Em 1797 sucedeu Lagrange na cátedra de Análise e Mecânica. No ano seguinte acompanhou Napoleão como assessor científico, na invasão ao Egito, no Cairo, onde ajudou a criar estabelecimentos de educação e se dedicou a trabalhos arqueológicos. (FERREIRA, 2009:85)
nas máquinas térmicas de Savery, Newcomen e Watt, este último com seu trabalho de 1763. Mas foi designado prefeito do Departamento de Isère, com sede em Grenoble, e acabou aceitando. Em Grenoble fez seu trabalho importante sobre a teoria do calor.
Sem fazer suposições acerca da natureza íntima do calor, Fourier descobriu a lei da sua propagação, deduzindo a partir dela as equações cuja solução iria fornecer a chave do problema. Fourier criou as séries matemáticas, que ficariam conhecidas como séries de Fourier. (GUAYDIER, 1983:60)
Em 1807 Fourier apresentou seu trabalho na Academia Francesa. Laplace, Legendre e Lagrange não aprovaram, o que acharam ser uma abordagem polêmica devido à falta de rigor, com séries trigonométricas. Em 1810 a mesma academia ofereceu um prêmio a quem resolvesse o problema da condução de calor, que foi dado a Fourier, basicamente pelo mesmo trabalho. “As séries de Fourier mostrar-se-iam mais tarde eficazes noutros domínios, nomeadamente em acústica”. (GUAYDIER, 1983:61)
Mesmo depois da queda do imperador, Fourier conseguiu se manter no cargo de prefeito de Grenoble. Napoleão foi preso na ilha de Elba, na Toscana, Itália, e Fourier teve que fugir de Grenoble. Depois que Napoleão escapou de Elba, Fourier, que mantinha seu especial gosto pelo poder, recebeu outro cargo administrativo, com uma pensão vitalícia. Porém, em 1815, na Batalha de Waterloo, que ocorreu perto de Waterloo, na atual Bélgica, que era na época parte do Reino Unido, Napoleão foi derrotado e então terminava a carreira política de Fourier, que continuou seus trabalhos em matemática e física. Tornou-se secretário da Academia Francesa em 1822 e em 1824 publicou seu trabalho nas Memórias da Academia de Ciências do Instituto da França. (CHERMAN, 2004:119)
IV) Conclusões e agradecimentos
Os trabalhos de Fourier são hoje aplicados em muitas áreas, também na música. As percepções e análises dos timbres dos instrumentos musicais, que eram feitas por Beethoven, com seu ouvido muito apurado (até cerca de 25 anos de idade), hoje podem ser feitas facilmente através da espectroscopia sonora, utilizando as séries de Fourier. A série harmônica e a escala natural são também estudadas com a mesma ferramenta matemática.
Agradecemos ao CNPq e à FAPERJ pelos auxílios em nosso projeto.
V) Referências
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n. 4, p. 7-9, 2005.
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Nacionais para o Ensino Médio. Brasília: MEC/CNE, 1998.
CHERMAN, A. Sobre os ombros de gigantes. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004. 199 p.
DIAS, A. M. M. e NOVIKOFF, C. Ensino e aprendizagem de física: uma experiência pedagógica com laboratórios de aprendizagem. Revista Babilônia, ano 4, n. 4, p. 109-123,
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FAZENDA, I. C. A. Interdisciplinaridade: história, teoria e pesquisa. Campinas: Papirus,
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FERREIRA, P. M. G. A fé em Deus de grandes cientistas, Rio de Janeiro: PUC-RIO, 2009.
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JANTSCH, A. P.; BIANCHETTI, B. Interdisciplinaridade – Para além da filosofia do
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ROLLAND, R. Vida de Beethoven, São Paulo: Atena. 1959. 131 p.