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A FUNÇÃO POLÍTICA DA EDUCAÇÃO NO CONTEXTO MODERNO

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Academic year: 2020

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A FUNÇÃO POLÍTICA DA EDUCAÇÃO NO CONTEXTO

MODERNO

Rosana Maria de Souza Alves 1

RESUMO

O presente artigo visa promover uma análise acerca da função política que a educação e, mais especificamente a escola, assume no período moderno. Para tanto, realiza uma reflexão, em linhas gerais, sobre os principais pressupostos filosóficos da Modernidade, a partir da compreensão de seu caráter subjetivista, bem como apresenta as principais teorias políticas modernas, buscando apontar as conseqüências desse paradigma no campo da educação, ao abordar as funções que a escola irá exercer na realização de finalidades político-sociais. Ao final, são colocadas as contribuições de Karl Marx para o desenvolvimento teórico-prático do pensamento moderno, ressaltando-se a continuidade e a ruptura de suas idéias com relação ao mesmo. O objetivo central deste trabalho é contribuir com a formação contínua do educador, auxiliando-o a melhor compreender sua ação, ao intervir conscientemente na realidade, objetivando uma educação para a liberdade política e para a emancipação humana da mera opinião e da ignorância, através da abordagem filosófica da função política da educação.

Termos para indexação: Educação, escola, política, Modernidade.

1 Cursando Especialização em Metodologia do Ensino Superior na UFMA. Graduada em Pedagogia pela

UEMA e acadêmica do Curso de Filosofia na UFMA. Pedagoga do IFMA, Campus Codó. rosanamaria@ifma. edu.br

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THE POLITICAL ROLE OF EDUCATION IN THE MODERN

CONTEXT

ABSTRACT

This article aims at promoting an analysis about the political role that education and more specifically the school takes on in the modern period. The study presents a reflection, in general, on the main philosophical assumptions of modernity, from the subjective understanding of its character, also it presents the major modern political theories, pointing out the consequences of this paradigm in the educational field in addressing the functions that the school will pursue for the achievement of political and social goals. In the end, Karl Marx’s contributions onto the theoretical and practical development of the modern thought are placed, emphasizing the continuity and rupture of his ideas regarding it. The central aim of this paper is to contribute to the continuous training of the educators, helping them better understand their action, intervening consciously in reality, aiming at an education for political freedom and human emancipation from mere opinion and ignorance through the philosophical approach to the political function of education.

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INTRODUÇÃO

Tomando como referência as demandas atuais para a formação contínua do educador, conseqüência das inovações tecnológicas e das inúmeras mudanças sociais, típicas da Modernidade, compreende-se a educação como um processo sistemático, formal, metódico, tendo a escola como o seu espaço privilegiado. Esta disposição demarca a diferença entre a educação escolar e as formas tradicionais de educação.

Desenvolvendo-se o raciocínio a partir de premissas, o presente artigo parte da constatação de que a educação, em sua radicalidade, é o processo através do qual o homem mantém e desenvolve toda a sua intervenção sobre a natureza, ou seja, a sua cultura. Atente-se para o fato de que a cultura é a ação consciente e teleológica sobre a natureza, transcendendo as condições puramente biológicas, como também a capacidade humana de aperfeiçoamento e crescimento constantes.

Sabe-se que a cultura é uma “abstração”, pois o homem, individualmente, encontra-se situado em culturas particulares, em sociedades distintas. Ora, o ser humano particular quando nasce, na condição de recém-chegado ao mundo, é um ser sem identidade. É através de amplo processo de endoculturação, tendo a educação papel significativo, que o homem integra-se em uma determinada sociedade, introjetando toda a sua riqueza cultural, em termos de linguagem, de valores, de costumes, de estrutura de pensamento etc (Brandão, 1995, p. 23).

A educação, portanto, mantém o ganho cultural do homem sobre a natureza em contextos sociais precisos. Toda sociedade, contudo, somente é possível a partir das relações de poder que possibilitam as ações entre os indivíduos e, principalmente, entre os grupos na busca da construção de um fim social, que quase sempre não se identifica com um Bem Comum. Assim, se as relações de poder influenciam a cultura e esta é socializada através do processo educacional, pode-se afirmar que a educação é um espaço também político. Logo, a função, a importância e o fim da educação serão definidos a partir destas relações. Em consequência disso, pode-se afirmar que a escola, tomada como locus privilegiado do ato educativo na Modernidade, também sofre este condicionamento.

É justamente sobre a relação da educação com a política que incide a temática abordada neste artigo, ou seja, a dimensão política da educação no contexto moderno. Este fato não pode ser negligenciado, devido à importância do educador enquanto agente social e político, quer seja para reproduzir ou para transformar a sociedade em que vive, quer seja para gerar conformismo e fidelidade à tradição ou para contestar a ordem estabelecida.

Em sua formação acadêmica, o educador enfrenta este debate. Entretanto, nem sempre o mesmo alcança o nível de criticidade, em que se poderia confrontar o

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conhecimento pronto e adquirido sobre o assunto com a realidade, explicitando-se as lacunas e os equívocos desse conhecimento, objetivando a sua superação. Este enfrentamento, com a consequente reelaboração do conhecimento, tem o seu propósito, pois somente com a assunção da criticidade, o educador terá condições de agir concretamente de forma coordenada, consciente e lúcida.

Para contribuir nesse sentido, serão promovidas a seguir algumas reflexões que auxiliarão a compreender uma melhor ação do educador, ao intervir conscientemente na realidade, objetivando uma educação para a liberdade política e para a emancipação humana da mera opinião e da ignorância, através da abordagem filosófica da função política da educação.

No percurso a ser realizado, apontaremos em linhas gerais os principais pressupostos filosóficos do mundo moderno, a partir da compreensão de seu caráter subjetivista, abordando as implicações desta subjetividade no campo da educação. Para tanto, serão analisadas as concepções dos filósofos René Descartes e Jean Jacques Rousseau, grandes representantes do pensamento pedagógico moderno, apontando suas principais contribuições no que concerne à vigência de correntes pedagógicas amplamente difundidas até os dias atuais.

Em seguida, serão explicitadas as implicações deste ideário no âmbito da política e da educação, apontando as funções que a escola irá exercer na realização de finalidades político-sociais a partir deste paradigma.

Por fim, serão colocadas as contribuições de Karl Marx para o desenvolvimento teórico-prático do pensamento moderno, abordando-se a continuidade e a ruptura de suas idéias com relação ao mesmo.

FUNDAMENTOS DA MODERNIDADE

A Modernidade nasce com o advento da Revolução Científica dos séculos XVI-XVII, apresentando-se como um novo paradigma, que irá fundamentar, a partir de então, o pensamento e a atividade dos homens em geral. Essa visão de mundo nascente impõe-se a partir da contestação do modelo de explicação do real anteriormente adotado, qual seja, a metafísica, encarada agora como obstáculo ao avanço do conhecimento. Isto porque a metafísica pretendia conhecer as coisas em si mesmas, com o intuito de atingir a essência do que seria o homem, o mundo e Deus. Contudo, a partir de então, esta passará a ser considerada um corpo de conhecimentos derivados das elucubrações da razão, que acaba ultrapassando os limites do empírico, única forma de conhecimento tida como legítima.

Assim, surge a chamada “nova ciência”, ilustrada pelo advento do heliocentrismo, que demonstrou a insuficiência do modelo geocêntrico anteriormente

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adotado, devido à perda de seu poder explicativo. O surgimento desta nova ciência

equivale a uma crise não apenas científica [...], mas sobretudo uma crise metodológica, que afeta uma concepção tradicional de método científico, bem como uma crise de visão de mundo, de concepção de natureza e do lugar do homem, enquanto microssomo, nesta natureza, o macrossomo (Marcondes In BRANDÃO, 1999, p.18).

Sendo este o início da Modernidade, cumpre destacar quais as principais bases deste novo modelo explicativo do real, que passa a impor-se como verdadeiro.

Pode-se afirmar que a principal característica do Paradigma Moderno é o papel que o sujeito, composto de uma natureza sensível e racional, irá exercer na produção do conhecimento. Neste momento, o indivíduo se constituirá no ponto de partida seguro para o estabelecimento de verdades, haja vista ser ele mesmo fator determinante da relação sujeito-objeto.

A partir daí, a atividade intelectual enquanto organizadora da vida passa a exercer preponderância, em detrimento da atividade contemplativa, característica do pensamento anterior. Isto se deve ao fato de que a metafísica até então se limitava a especulações a respeito dos princípios absolutos que governariam a realidade, contentando-se em torná-los inteligíveis. De outro modo, o paradigma nascente passa a valorizar o saber positivo, que proporciona ao homem a garantia da construção de conhecimentos verdadeiros, ao mesmo tempo em que o capacita a transformar e dominar a natureza à sua volta.

O Movimento Iluminista do século XVIII pode ser considerado o triunfo deste paradigma, denominado de subjetivista, porque pautado no sujeito, onde a razão humana passa a estabelecer-se como fundamento de todas as verdades da física, das ciências jurídicas, políticas etc, enfim, passa a dar conta do real em todos os seus aspectos.

O pensamento iluminista é dominado pelo entusiasmo em relação ao progresso da razão e do conhecimento humano, devido à sua crença de que “nenhum limite

intransponível é imposto à razão em seu incessante progresso, que os fins a que ela pretende chegar só podem e só devem constituir para ela um novo começo” (Cassirer,

1997, p.21).

Nesta perspectiva, nota-se que a grande pretensão da Modernidade é a unificação, sobre o alicerce da razão, de toda a diversidade dos fenômenos naturais e sociais, descobrindo-lhes a “lógica” interna. Assim, tanto o homem, como o Estado ou a sociedade, estariam todos organizados por princípios racionais, visando a um aperfeiçoamento constante.

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Filosofia, à Ciência e à Educação, posto que, segundo o ideário vigente, elas promoveriam o desenvolvimento da racionalidade dos indivíduos que, como já foi dito anteriormente, é considerada a pedra de toque do período moderno.

A FUNÇÃO SOCIAL DA EDUCAÇÃO MODERNA

Tendo como pano de fundo tal paradigma subjetivista exposto no item anterior, a educação moderna organizar-se-á em torno da noção de sujeito, partindo do pressuposto de que o homem é um ser naturalmente livre e responsável por suas idéias e por seus atos, fato que concede à educação papel de assegurar que a criança possa se tornar um adulto consciente e autônomo, artífice de seu destino.

Dessa forma, a Modernidade inaugura um novo modo de pensar e de compreender a criança, supondo a necessidade de organizar a sua educação sobre bases racionais. Dois são os principais expoentes desta visão: René Descartes, representante da Pedagogia Tradicional, e Jean Jacques Rousseau, em defesa da Pedagogia Nova.

Descartes é o típico representante do pensamento moderno e sua pedagogia está cimentada na concepção de homem enquanto sujeito do conhecimento. Assim, sua teoria educacional gira em torno da aquisição de saberes, tendo como meta proporcionar à criança o alcance da maioridade intelectual, pois para ele na infância ocorre a ausência de autonomia racional, já que nessa fase da vida o ser humano é dependente física e culturalmente, o que faz com que o mesmo não utilize sua racionalidade pura nesse momento.

Por esse motivo, o grande objetivo da Pedagogia Tradicional é vencer a ignorância dos homens, tornando-os esclarecidos, ilustrados, para transformá-los de súditos em cidadãos. Daí a grande bandeira desta tendência, que é a educação enquanto direito de todos e dever do Estado, cabendo à escola o papel de proporcionar ao indivíduo a chegada ao podium, ao substituir a criança pelo homem esclarecido, onde a razão finalmente poderá governar sozinha, sendo capaz de julgar o que é verdadeiro e o que é falso.

Em contrapartida, Jean Jacques Rousseau, considerado um crítico de seu tempo, já não confia na racionalidade humana em seu sentido progressivo, defendendo a corruptibilidade da vida social e a sensibilidade moral enquanto critério de verdade para o conhecimento. Isto porque para ele a infância é o período de maior proximidade do ser humano com sua natureza, tomada como o estágio original da vida humana, oposto às convenções da vida social adulta.

Sua pedagogia está alicerçada na individualidade dos homens, na crença de que os mesmos apresentam diferenças cognitivas entre si, o que exige a obtenção de um tratamento diferenciado na escola. Assim, tal tendência caracteriza-se por uma crítica

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à Pedagogia Tradicional, tornando-se a base de fundamentação do Escolanovismo, no século XIX.

Essa diferenciação entre ambas as tendências assenta-se na compreensão divergente do papel da subjetividade frente ao conhecimento, conforme explicitado a seguir:

enquanto o critério de verdade em Descartes exige uma subjetividade passível de ser compartilhada entre os indivíduos, em contrapartida Rousseau pressupõe uma subjetividade sinonimizada da intimidade, uma subjetividade que é um mundo interior. Em Rousseau a verdade é, no limite, avalizada pelo coração, e se no coração não há perversidade original – como ele de fato afirma com a frase “o homem nasce bom mas a sociedade o corrompe” – então a subjetividade íntima melhor se apresenta na infância (Ghiraldelli Jr, 2002, p. 17-18).

Apesar das diferenças marcantes entre os dois teóricos, embora trilhem caminhos diferenciados (o primeiro defendendo uma educação mais disciplinar; e o segundo, mais prazerosa, sensível e íntima), ambas as visões estão pautadas na concepção de educação enquanto capaz de promover uma equalização social, haja vista o pressuposto da neutralidade da escola em relação aos conflitos existentes no âmbito da sociedade como um todo. Isto ocorre devido à hipervalorização da individualidade dos homens, considerados de forma isolada, que caracteriza ambas as concepções.

MODERNIDADE POLÍTICA E EDUCAÇÃO

Conforme fora dito anteriormente, o homem é um ser que vive em sociedade, interagindo com os demais homens e com a natureza, produzindo o que se chama de cultura. Esta vida social humana, contudo, só é possível a partir das relações de poder que possibilitam as ações entre os indivíduos e, principalmente, entre os grupos na busca da consecução de um fim social, que nem sempre se identifica com um Bem Comum.

Muitos pensadores se debruçaram sobre o problema da natureza social do poder político, gerando diversas concepções que ora o identificavam com a realização de fins coletivos, ora o definiam como um mero instrumento para a realização de interesses de classe. Contudo, “[...] a idéia de um poder constitutivo da cidade [...] é a marca de

nascença da nossa modernidade política” (Lebrun, 1996, p.27), ou seja, para os modernos,

seriam as relações de poder, fundadas geralmente no direito, que garantiriam a unidade política de uma determinada sociedade, onde se estabeleceria uma espécie de “contrato” para que, em troca do cumprimento de obrigações legais, pudessem ver garantidas a paz e a segurança nas relações entre os indivíduos. Assim, tanto em uma como em outra concepção, a política implica uma grande influência no comportamento dos agentes sociais, que criam uma relação “artificial”, privando os instintos “naturais”, em nome do

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mínimo de paz e segurança em uma dada coletividade.

Conforme dito acima, existem duas grandes concepções a respeito da relação moderna entre o social e o político. A primeira delas é a que considera a política como uma atividade estabelecida pelo consenso dos indivíduos com vistas à realização de fins coletivos. Para tanto, delega-se uma certa autoridade a uma instância – o Estado – encarregada de coordenar e unificar os indivíduos rumo à formação de um “corpo político”. Essa é a chamada teoria da Soberania, cujo nascimento é um grande marco da modernidade política.

Segundo essa teoria, ao Estado é dada a incumbência de zelar pelo Bem Comum, com o intuito de proporcionar a defesa e a proteção dos homens, o que não ocorre no estado de natureza, onde a vontade de cada um é encarada como lei. Já o Estado Soberano, que pode ser um homem, uma assembléia ou o povo, emana da vontade geral e a ele foi concedido o direito de governar os indivíduos. Dessa forma, o motivo da cumplicidade entre súdito e Soberano é o estabelecimento da ordem contra o caos, onde os homens tornam-se cidadãos em nome da paz entre os mesmos.

Nota-se que, para a teoria da Soberania o poder político encontra-se na origem da cidade, sendo que, somente devido à vigência do mesmo, é constituída a possibilidade da existência das sociedades, compreendidas como um corpo artificial encarregado de proporcionar um convívio social harmonioso.

Contrapondo-se a tal perspectiva, temos o Liberalismo, que considera o poder como um fiel instrumento nas mãos das classes dominantes, apresentando-se não mais como a expressão do social, mas como uma superestrutura que tem o intuito de garantir o respeito a liberdades fundamentais (individual, religiosa, de opinião, de propriedade). Assim, o poder não é mais tido como o núcleo político do social, mas torna-se uma instância que exerce uma função social determinada: proteger os interesses de classe.

Neste contexto, o poder é exercido por meio do Estado Constitucional burguês, servindo apenas como um instrumento que permite a dominação dos homens, sendo encarado somente em sua forma negativa: o poder enquanto mando, ou seja, é concebido em termos de ordem/obediência.

Apesar das diferenças entre as duas teorias políticas, ambas apresentam dois aspectos fundamentais que caracterizam a concepção de poder na Modernidade como um todo: o poder considerado de forma negativa e tendo seu exercício localizado no Estado. No que concerne à relação entre a concepção de política vigente na Modernidade e a função social que a educação e, mais especificamente a escola, assumirá nesse contexto, é importante destacar a conjuntura política vigente nesse período, onde a

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burguesia se consolida enquanto classe economicamente hegemônica, o que vai provocar a reformulação do todo político-social, exigindo, para isso, a formação de um homem “novo”, onde a noção de cidadania passa a constituir referência para a sustentação da sociedade (Boto, 1996).

Neste sentido, o caráter político que a educação assume passa pela sua atuação com vistas a promover reformas sociais, haja vista a bandeira de luta burguesa, que apregoa a transformação da sociedade rumo à sua democratização. Tal conjuntura política reforçou o ideário moderno de emancipação através da educação, o que fez com que a escola fosse ganhando cada vez mais um papel de destaque nesta nova sociedade, que deveria proporcionar igualdade de oportunidades para o desenvolvimento de talentos individuais.

O resultado de toda esta empreitada foi a utilização da escola, desde então, como principal aparelho difusor da concepção política dominante, conferindo à educação a tarefa de harmonizar a sociedade, ao mesmo tempo em que se consolidava a ideologia burguesa. Assim, a partir daí, foi amplamente aceita a idéia de que a educação é um direito de todos sendo, portanto, democrática e precursora da igualdade social.

A REFORMULAÇÃO DO PENSAMENTO MODERNO

Partindo de análises sobre as bases de fundamentação do Paradigma Moderno, Marx aponta as dificuldades deste modelo, ao questionar a concepção de subjetividade vigente, onde o sujeito é tido como fator determinante na produção do conhecimento, apresentando-se como critério de verdade para o mesmo, fato que transforma o objeto numa simples construção daquele. Nesta perspectiva, o sujeito pensante encontra-se completamente fechado sobre si mesmo, sendo que os conhecimentos obtidos dessa relação são considerados verdadeiros, porque alicerçados na essência racional do indivíduo.

Marx questiona profundamente tal concepção de homem enquanto sujeito do conhecimento, inserindo entre a consciência e o mundo noções como alienação e

ideologia. Para ele, as representações produzidas pelo sujeito seriam socialmente

determinadas, equivalentes à visão de mundo da classe dominante num dado momento histórico. É o que ele irá afirmar em outras palavras: “as idéias da classe dominante são,

em cada época, as idéias dominantes; isto é, a classe que é a força material dominante da sociedade é, ao mesmo tempo, sua força espiritual dominante” (Marx, K. & Engels,

F., 1979 apud MARCONDES, Danilo In BRANDÃO, Zaia, 1999, p.26).

Dessa forma, para Marx o processo de construção do conhecimento deve ser considerado em seu aspecto interativo, ou seja, o sujeito em contato com o mundo e com outros sujeitos. Além disso, Marx considera essencial pensar a existência material dos indivíduos, principalmente pelo fato de que nas sociedades de classe, ela gera a

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necessidade de manter as desigualdades (os benefícios de uma classe em detrimento das demais), ao mesmo tempo em que impõe à sociedade como um todo, a visão de mundo da classe hegemônica, ocasionando distorções na compreensão da realidade por parte dos agentes sociais. Tal denúncia expressa a oposição de Marx à existência, na sociedade capitalista, de um sujeito livre, senhor de suas idéias e de seus atos, tal qual considerava o pensamento iluminista.

Com isso, o filósofo alemão questiona exatamente a autonomia do indivíduo, postulada pelo Iluminismo, apregoando a necessidade de uma transformação estrutural da sociedade capitalista, se deseja formar homens verdadeiramente livres.

Dessa nova compreensão do fenômeno social tem-se em Marx o advento de uma concepção diferenciada acerca do fenômeno político, devido à visão que o mesmo tem sobre o que é o poder.

De acordo com o marxismo “o poder é a capacidade de uma classe para

realizar seus interesses objetivos” (Tamarit, 1999, p.30), sendo o Estado o seu grande

centro de construção e exercício. Tal concepção identifica o poder com a violência, pelo fato de considerar o Estado enquanto instrumento de opressão nas mãos das classes dominantes, que o utilizam como peça de dominação, com o intuito de garantir a sua hegemonia, através da manutenção do consenso da classe subalterna.

Nesta perspectiva, a corrente de pensamento marxista concebe a sociedade enquanto marcada pela desigualdade, onde existe um grande conflito de classes, fato que mostra uma certa reformulação do pensamento moderno. Apesar disso, o marxismo ainda enfatiza o poder em seu sentido negativo, ao considerar que a posse do mesmo implica a exclusão dos demais. Ou seja: segundo esta visão, a classe que detém o poder busca impedir que a classe antagônica possa realizar seus próprios interesses. Assim, a coerção passa a ser o aspecto fundamental para o exercício de poder, haja vista o fato de que a hegemonia somente se realiza por meio da opressão.

Outro traço marcante da teoria política marxista é o determinismo econômico que está em sua base, devido à crença de que, no mundo moderno, o poder político coincide com a dominação econômica da burguesia. Tal dominação político-econômica é centralizada no Estado que, pelo fato de ser a “marionete” da burguesia, exerce a função de servir aos interesses privados de uma minoria. Daí a defesa marxista da necessidade de colocar o aparelho político a serviço da grande maioria, o proletariado, onde a dominação será eliminada, pelo fato de que a sociedade passará a se auto-regular, atendendo aos interesses da coletividade.

Assim, nota-se que Marx não compartilha da concepção que vê a escola enquanto capaz de promover, de forma isolada, uma equalização social, por considerar que esta instituição é, na sociedade burguesa, essencialmente determinada pela lógica

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capitalista, caracterizada pela desigualdade social, pressuposto da própria existência deste tipo de sociedade. Com isso, o referido autor supera o famoso mito da neutralidade escolar. Apesar desse condicionamento, para o filósofo alemão, à educação de maneira geral caberia o papel de conscientização dos conflitos sociais, com o intuito de proporcionar ao proletariado o saber necessário à efetivação do ideal da revolução.

Contudo, pode-se perceber ainda em Marx a predominância do ideário moderno, afinal, é marcante em seu pensamento a crença na razão em seu sentido progressivo, devendo esta última ser o subsídio de toda atividade humana, principalmente quando ele aponta a necessidade da evolução da sociedade rumo ao Socialismo/Comunismo, mostrando sua adesão ao pensamento moderno de transformação da sociedade via conhecimento, já que para ele o acesso ao mesmo é essencial para a superação da alienação, desmascaramento da ideologia e conseqüente conscientização do proletariado da sua condição de classe explorada pela burguesia.

Apesar desta continuidade, vale destacar a importância de algumas rupturas por ele introduzidas, algumas delas citadas acima, ainda que o mesmo tenha mantido o principal alicerce do paradigma moderno, que é a crença no sentido progressivo da

racionalidade humana e na sua utilização como garantia para um aperfeiçoamento

social.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A partir das premissas abordadas neste trabalho, ao analisarmos as características fundamentais do paradigma moderno, pôde-se concluir que o mesmo apresenta uma mescla de influências, tanto do Iluminismo do século XVIII, quanto da posterior reformulação deste pensamento, a partir das idéias marxistas. Tal afirmativa decorre da crença de que a Modernidade não é um todo homogêneo, pois apresenta diversas correntes profundamente diferentes entre si. Contudo, sabe-se que, apesar das diferenças, tal paradigma apresenta traços fundamentais que o unificam, no caso, o subjetivismo e a crença cega no poder da racionalidade humana enquanto organizadora da vida.

Com relação à educação e, mais especificamente à escola, percebe-se que, de maneira geral, as teorias pedagógicas modernas estão balizadas neste ideário, que crê na possibilidade de transformação da sociedade através do acesso à escola, com a consequente socialização por meio desta instituição formal, do conhecimento científico acumulado historicamente.

Para as teorias pedagógicas modernas, principalmente aquelas de cunho marxista, a função política da educação na sociedade deve se exercer através da garantia da posse destes saberes as classes subalternas, com o intuito de promover reformas sociais, considerando que o acesso ao conhecimento é fator de libertação política.

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Para os autores contemporâneos, a herança deixada pelo ideário moderno liga-se ao questionamento acerca da possibilidade ou não de construção de conhecimentos verdadeiros a partir da relação sujeito-objeto com predominância do primeiro e da ingerência de questões de cunho moral e ético, bem como se assenta no questionamento se as relações de poder tem efetivamente um sentido negativo e se a sua localização ocorre privilegiadamente no Estado.

Apesar dos questionamentos ao paradigma moderno elaborados mais recentemente, não se pode subestimar a influência que as teorias pensadas a partir dele exercem nas práticas sociais dos indivíduos até os dias atuais. Destaca-se aqui a relevância da teoria política marxista, devido à implicação que a mesma acarreta no plano educacional, tendo em vista o objeto de estudo deste artigo, qual seja, a reflexão sobre a função política da educação na Modernidade.

É válido destacar também como contribuição do filósofo alemão a importância da difusão no meio educacional da noção de que o conhecimento é socialmente determinado, em detrimento à concepção que apregoa a existência de um saber universalmente válido, subestimando a influência que as relações de poder estabelecem face à produção desse conhecimento. Isto porque na formação e na atuação do educador, é necessário que o mesmo compreenda que toda a produção do conhecimento é dotada de caráter seletivo, fato que implica também dentro da escola sejam feitas escolhas daqueles conhecimentos que devem ser perpassados, em detrimento de outros, que devem ser excluídos. Tal seleção/exclusão é determinada pelas relações de poder, aspecto tão frisado neste breve artigo.

Por fim, como resultado final das reflexões aqui promovidas, demarca-se a crença de que a função política da educação gira em torno da manutenção ou superação da ordem vigente, definida pelas relações políticas que a determinam, sendo que tal função política, dentro de uma teoria que se pretende verdadeiramente crítica, precisa apresentar com clareza e precisão na escola os objetivos a que se propõe, traduzidos em práticas técnico-pedagógicas que sejam condizentes com a efetivação do ideal da formação de indivíduos críticos e criativos, capazes de participar ativamente da construção de uma sociedade que realize seus interesses político-sociais.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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