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HISTÓRIA CULTURAL E PRÁTICAS DE CURA

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Academic year: 2021

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HISTÓRIA CULTURAL E PRÁTICAS DE CURA

Ana Paula Mariano Dos Santos (LERC – UEM) Dra. Vanda Fortuna Serafim (Orientadora-UEM)

Resumo: A comunicação objetiva apresentar nosso projeto de Iniciação Científica, intitulado “Crenças e práticas de cura no Vale do Ivaí: a medicina natural em Jardim Alegre- PR (Século XXI)”, o qual visa pensar as crenças e as práticas de cura no munício de Jardim Alegre – PR, no século XXI. O trabalho é feito por meio de observações de campo e aplicação de questionários. Os aportes teóricos e metodológicos utilizados consistem na História Cultural e na História das Religiões e das Religiosidades. A problemática da pesquisa consiste em compreender como as práticas de cura, associadas a formas de crenças contemporâneas, estão estabelecidas no Vale do Ivaí. Nesse sentido, até o presente momento constatou-se a presença de crenças associadas às práticas de cura, em especial a Medicina Natural. Conjecturou-se, também, hipóteses acerca de como contribuem para a formação do universo simbólico cultural do município. Para compreender tais questões buscamos estudar os aspectos simbólicos dos mitos de cura a fim de localizar historicamente as práticas realizadas; compreender as formas de organização das práticas que cura no município de Jardim Alegre; analisar as relações da medicina natural com a Igreja Católica em Jardim Alegre; e levantar as motivações levam as pessoas a buscar por estas práticas alternativas de cura na atualidade.

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A Medicina Natural em Jardim Alegre: apresentando o objeto.

O presente artigo está vinculado ao projeto de pesquisa científica, intitulado “Crenças e práticas de cura no Vale do Ivaí: a medicina natural em Jardim Alegre-PR (Século XXI)”, que tem por objeto a medicina natural no município de Jardim Alegre-PR. O trabalho é feito por meio de observações de campo e aplicação de questionários. Os aportes teóricos e metodológicos utilizados consistem na História Cultural e na História das Religiões e das Religiosidades. A problemática da pesquisa consiste em compreender como as práticas de cura, associadas a formas de crenças contemporâneas, estão estabelecidas no Vale do Ivaí. Nesse sentido, até o presente momento constatou-se a presença de crenças associadas às práticas de cura, em especial a Medicina Natural. Conjecturou-se, também, hipóteses acerca de como contribuem para a formação do universo simbólico cultural do município. Para compreender tais questões buscamos estudar os aspectos simbólicos dos mitos de cura a fim de localizar historicamente as práticas realizadas; compreender as formas de organização das práticas que cura no município de Jardim Alegre; analisar as relações da medicina natural com a Igreja Católica em Jardim Alegre; e levantar as motivações levam as pessoas a buscar por estas práticas alternativas de cura na atualidade.

O município de Jardim Alegre surge como um desmembramento de Ivaiporã, sendo instalado a 14/12/1964 e criado em 19/12/1964. Pertencente a Comarca administrativa de Ivaiporã, sua área territorial está em torno de 410 Km2. Em 2012, sua população estimada era de 12.121 habitantes, sendo que as principais atividades econômicas desenvolvidas no munícipio, segundo o censo de 2012, referem-se à agricultura, pecuária, produção florestal, pesca e aquicultura. Em 2010, a renda média domiciliar per capita estava em torno de 502,50 reais; já IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) era de 0,689, sendo considerado médio e a esperança de vida ao nascer era de 74,63 anos1. A importância desta pesquisa

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Informações disponíveis no Caderno Estatístico do Munícipio de Jardim Alegre, organizado pelo IPARDES. Disponível em: http://www.ipardes.gov.br/cadernos/Montapdf.php?Municipio=86860. Acesso: 21/08/2013.

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1858 reside, também, na contribuição ao estudo da história regional, uma vez que não há historiografia sobre este município.

Apresentada a problemática e o objeto de estudo, para finalidade deste artigo, gostaríamos de central na discussão teórica que norteia pesquisa. Optamos por trabalhar historiograficamente com o aporte teórico a Nova História, mais especificamente a História Cultural, a qual permite articular a questão das crenças como um objeto e uma problemática histórica, por meio de novas fontes como a oralidade e de novos objetos como as crenças religiosas, justamente por se constituir enquanto uma nova abordagem. Buscaremos, para a finalidade deste artigo, elaborar uma discussão bibliográfica sobre a História Cultural, a partir dos seguintes autores e obras: A história cultural entre práticas e representações de Roger Chartier (1988), História e Memória de Jacques LeGoff, (2003), Apologia da história ou o ofício do historiador de Marc Bloch (2001), Hibridismo Cultural de Peter Burke (2003), Costumes em comum de Edward Thompson (1998) e A interpretação das culturas de Clifford Geertz (2008).

A História Cultural enquanto aporte teórico.

Roger Chartier (1988) ao refletir sobre a História na década de 60, destaca que nesse período ela tem de lidar com um novo desafio, lançado pelas novas abordagens que surgiram na época, como a Antropologia e a Linguística e que puseram em pauta os objetos tradicionais da história, que desviaram a atenção das hierarquias para as relações, das posições para as representações, que passaram a ter novas exigências teóricas. Frente ao desafio os historiadores emergiram novos objetos de pesquisa:

...as atitudes perante a vida e morte, as crenças e os comportamentos religiosos, os sistemas de parentescos e as relações familiares, os rituais, as formas de sociabilidade, as mobilidades de funcionamento escolar etc. (CHARTIER, p. 14).

Foi a partir da interdisciplinaridade que os historiadores buscaram apoio de outras disciplinas para solucionarem os novos problemas trazidos pelas novas

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1859 problemáticas postas à História. Apesar de assumir um caráter mais forte na década de 1960 e 1970 com a Nova História, a proposta interdisciplinar já estava presente na primeira geração dos Annales.

Ora, a obra de uma sociedade que remodela, segundo suas necessidades, o solo em que vive é, todos intuem isso, um fato eminentemente „histórico‟. Assim como as vicissitudes de um poderoso núcleo de trocas. Através de um exemplo bem característico da topografia do saber, eis portanto, de um lado, um ponto de sobreposição onde a aliança de duas disciplinas revela-se indispensável a qualquer tentativa de explicação; de outro, um ponto de passagem onde, depois de constatar um fenômeno e pôr seus efeitos na balança, este é, de certa maneira, definitivamente cedido por uma disciplina à outra. O que se produziu que parecera apelar imperiosamente à intervenção da história? Foi que o humano apareceu. Há muito tempo, com efeito, nossos grandes precursores, Michelet, Fustel de Coulanges, nos ensinaram a reconhecer: o objeto da história é, por natureza, o homem. (...) Já o bom historiador se parece com o ogro da lenda. Onde fareja carne humana, sabe que ali está a sua caça. (BLOCH, 2001, p. 53-54, grifo nosso.)

É neste novo campo de desafios que a história enfrentou que estabelecemos o nosso objeto de pesquisa, a crença nas práticas de cura. Esta visão é compartilhada pela maior parte dos habitantes de Jardim Alegre cidade onde vive, fazendo parte do universo cultural e simbólico de Jardim Alegre. Em torno dele se estabelecem diversas “representações”, associadas as crenças que as pessoas têm figuras locais as quais é associado o poder realizar curas. Isso é importante, pois permite conceber que o objetivo da História Cultural pode ser identificado em lugares e momentos diferentes, auxiliando a compreensão de como uma realidade social é construída e dada a ler (CHARTIER, 1988).

O conceito de “representação”, desenvolvido no campo das ciências sociais para articular as posições de diferentes grupos sociais que apresentam representações diferentes da realidade. A busca pela cura de doenças e enfermidades, seja nos meios médicos ou religiosos, perpassa a história humana em diferentes aspectos, desde o Xamã arcaico até o especialista médico. Nesse sentido, observar a presença da Medicina Natural em Jardim Alegre, permite evidenciar a historicidade desta prática. As representações sobre a figura dele são ações coletivas, as quais segundo Chartier (1988) comandam os atos.

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1860 No primeiro sentido, a representação é instrumento de conhecimento mediato que faz ver um objeto ausente através de sua substituição por uma “imagem” capaz de reconstruir em memória e de o figurar tal como ele é. (CHARTIER, 1988, p. 20).

O objeto de estudo da história sempre foi o homem, ou como nos é colocado por Bloch, as ações dos homens no tempo, o que nos indica diversidade, mudanças, rupturas nas maneiras de pensar, agir e viver; e é justamente isto que organiza e evidencia um processo histórico. (BLOCH, 2001). Segundo Bloch (2001), os fatos humanos são delicados e o mundo físico e o espírito humano entram em contraste. A história cultural, neste sentido, procura pensar justamente o que Bloch (2001) chamou de ações coletivas. As ações que ocorrem entre as pessoas de Jardim Alegre e demais pessoas que procuram benzedeiras e curandeiros estariam, portanto, ligadas a história dos homens, pois a ideia de que ele pode realizar curas é compartilhada por muitos que o procuram.

Desta forma, pode-se pensar a história cultural do social que tome por objeto a compreensão das formas e dos motivos – ou, por outras palavras, das representações do mundo social – que, à revelia dos actores sociais, traduzem as suas posições e interesses objetivamente confrontados e que, paralelamente, descrevem a sociedade tal como pensam que ela é, ou como gostariam que fosse. (CHARTIER, 1988, p.19).

Considerando que o nosso objeto não pode ser pensado a revelia das religiões e das religiosidades, é relevante a observação de Bloch (2001) acerca de a história religiosa tinha por objetivo estudar as origens, o valor religião cristã, a fé é entendida como pregação dos profetas, que pregavam a fé em Deus. O cristianismo baseia-se nos acontecimentos, e a legitimidade era incontestável. (BLOCH, 2001). A representação religiosa sobre “Seu Jésu”, por exemplo, um médico natural que atua em Jardim Alegre, está presente em todas as pessoas que o procuram esperando alcançar a cura através de um milagre, que acreditam que ele pode realizar.

Percebemos nesse quadro apresentado, a possibilidade de dialogarmos com as discussões de Edward Thompson (1998) em sua obra Costumes em comum, na qual o autor optar pela categoria de “costumes”, por entender que a cultura não

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1861 única ou homogênea, mas apresenta rachaduras, com pontos de divergência entre grupos de uma sociedade.

A crença nas práticas de cura em Jardim Alegre, por meio da figura de “Seu Jésu” não tem legitimidade institucional, por parte da Instituição Católica, é ao contrário, questionada e existem pregadores do grupo carismático que possuem obras publicadas com uma posição contra as práticas dele. Nesse sentido observamos o discurso instituído se posicionando contra o que foge a sua normatização. Uma das formas encontradas para deslegitimar o saber popular é associá-los aos termos “crendices”, “superstição” e “”curandeirismo”. Nesse sentido, se por um lado o costume seria algo que todos compartilham, a cultura é um espaço onde se tem conflitos de costumes de grupos diferentes, e também onde ocorre uma troca de costumes entre esses grupos (THOMPSON, 1998).

Paralelo a discussão apresentada, é fundamental a discussão de Jacques LeGoff (2003) sobre os materiais da memória coletiva que formam a história. Considerando a proposta do autor em analisar os documentos como monumentos, cabe destacar que o documento é tudo aquilo produzido pelo homem. O homem deixa sua marca na história através dos documentos, cabe ao historiador a crítica do documento enquanto monumento, ou seja, e assim como indicou Bloch (2001), perceber a continuidade, as rupturas e transformações nas interpretações sobre um certo objeto, fato ou prática. É a percepção deste movimento que assegura a historicidade.

O novo documento, alargado para além dos textos tradicionais, transformando – sempre que a história quantitativa é possível e pertinente – em dado, deve ser tratado como um documento/monumento. De onde a urgência de elaborar uma nova erudição capaz de transferir documento/monumento do campo da memória para a ciência histórica. (LeGoff, 2003, p.10).

A figura de “Seu Jésu” e as representações estabelecidas em torno dele se constituem enquanto este novo objeto. Pensar as formas como as pessoas comuns criam sua própria interpretação da realidade para além dos discursos institucionais, da religião e da medicina, diz respeito a nova abordagem, proposta esta

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1862 insustentável sem a proposta interdisciplinar e o uso de novas fontes, como a oralidade e o diálogo com a Antropologia e a Etnografia.

Podemos entender que a cultura de um povo está muito relacionada com as questões da época e período em que estão vivendo, porém já mais se desvinculam do passado em que já existiam. Peter Burke (2003), em concordância com Bloch (2001) e LeGoff (2003) indica a existência de uma continuidade cultural na História. O encontro entre culturas é algo inevitável e, segundo Burke (2003), esse fato é o que caracteriza o “hibridismo cultural” (BURKE, 2003, p. 14) e os teóricos deste fenômeno o tem pensado em diálogo com outras áreas, como por exemplo, a geografia, a literatura, antropologia e também estudos sobre religião (BURKE, 2003).

É nesse sentido que se constitui como relevante a contribuição do antropólogo Clifford Geertz, que evidencia a necessidade do uso da Antropologia para uma melhor compreensão de determinados objetos históricos. Em concordância a afirmação de Bloch (2001) de que o homem é o objeto da História, Geertz (2008) informa, ainda, ser o homem quem gera a história. Segundo Geertz:

... o homem é um animal amarrado a teias que de significados que ele mesmo teceu, assumo a cultura como sendo essa teias a sua análise; portanto espiritual em busca de leis, como uma ciência interpretativa, à procura do significado. (GEERTZ, 2008, p.4).

Essa leitura nos permite entender símbolos, signos e sinais que compõe o universo cultural de determinados grupos sociais. Assim como Chartier (1988), Burke (2003) afirma que as práticas de representações fazem parte da definição do tema cultura, o qual se constitui de forma bastante ampla. Para Burke a interação entre as culturas é vista como algo positivo, pois as inovações seriam um processo de adaptabilidade que acabam encorajando a criatividade. (BURKE, 2003). O diálogo com outras áreas do conhecimento é fundamental a História Cultural e a compreensão de seus objetos, uma vez que, com a hibridização das culturas os elementos culturais trocados entre elas aparecem inseridos dentro culturas diferentes, e podem se apresentar de uma forma diferente e podendo ser representado de maneiras diferentes.

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Referências bibliográficas

BLOCH, Marc. Apologia da história ou o ofício do historiador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2001.

BURKE, Peter. Hibridismo cultural. São Leopoldo: Unisinos. 2003.

CHARTIER, Roger. A história cultural entre práticas e representações. DIFEL. 2ª Edição. 1988.

GEERTZ, Cliford. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: LTC, 2008.

LE GOFF, Jacques. História e Memória. Trad. Bernardo Leitão...[et al.]. 5ª ed. Campinas, SP: Unicamp, 2003.

Pesquisa de Campo na Casa do “Seu Jésu” (Ana Paula Mariano Dos Santos e Cezar

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