Período:
16 a 19 de dezembro de 2014 e 2 a 9 de fevereiro de 2015
Informativo TST n. 10
Comentado – Execução
Por Raphael Miziara (Prof. e Advogado) e Roberto W. Braga (Prof. e Juiz do Trabalho do TRT 22ª Região)
ÍNDICE
DIREITO PROCESSUAL DO TRABALHO1 FRAUDES DO DEVEDOR 1.1 Fraude à execução.
Ação rescisória. Desconstituição da penhora efetivada sobre bem imóvel. Aquisição ocorrida em momento anterior ao redirecionamento da execução ao sócio da reclamada. Adquirente de boa-fé. Fraude à execução não configurada. Violação dos arts. 472 e 615-A do CPC.
2 PENHORA
2.1 Impenhorabilidade de pensão.
Penhora. Percentual de pensão recebida pelo impetrante na condição de anistiado político. Ilegalidade. Art. 649, IV, do CPC. Orientação Jurisprudencial nº 153 da SBDI-II.
DIREITO PROCESSUAL DO TRABALHO
Fraude à execução: conceito, requisitos e caracterização. Adquirente de boa-fé.
COMENTÁRIOS
FRAUDES DO DEVEDOR
Princípio da responsabilidade patrimonial: No processo de execução vigora, em regra, o princípio da responsabilidade patrimonial, segundo o qual o débito será quitado com o patrimônio do devedor. Tal princípio encontra-se previsto no artigo 591 do CPC, verbis:
Art. 591. O devedor responde, para o cumprimento de suas obrigações, com todos os seus bens presentes e futuros, salvo as restrições estabelecidas em lei.
Conceito: Cândido Rangel Dinamarco (2009, pág. 422) leciona que as fraudes do devedor são as condutas com as quais alguém, na pendência de uma obrigação insatisfeita, procura livrar um bem da responsabilidade patrimonial que pesa sobre ele. Assim, fraudes do devedor são alienações fraudulentas feitas para fugir da responsabilidade patrimonial.
Classificação/divisão: Existem três espécies de fraude do devedor (alienações fraudulentas). O mesmo autor afirma que a expressão fraudes do devedor não é empregada pela lei, mas serve para designar uma categoria ampla de condutas desse teor, na qual se incluem: a) fraude de execução, b) fraude contra credores e c) disposição de bem já constrito judicialmente. Essa divisão também é adotada por Fredie Didier (2012, pág. 321).
Validade x eficácia: todas essas três figuras consistem em atos de disposição que, mesmo sendo intrinsecamente perfeitos (válidos), não produziram o resultado visado pelo obrigado/devedor, ou seja, não terão a Para a caracterização da fraude à execução, quando inexistente penhora inscrita no registro imobiliário, não basta a constatação de que o negócio jurídico se operou no curso de processo distribuído em desfavor do devedor (requisito objetivo), mas também a demonstração de má-fé do terceiro adquirente (requisito subjetivo), sob pena de desrespeito ao princípio da segurança jurídica. No caso, a autora adquiriu o imóvel em 23.12.2005, antes do direcionamento da execução em desfavor do sócio da executada, em 24.4.2006, o que revela sua condição de adquirente de boa-fé.
eficácia de impedir que o bem venha a ser utilizado em via executiva para a satisfação do credor (DINAMARCO, 2009, pág. 422).
Esquematizando, temos:
a) Fraude contra credores: caracteriza-se pela criação ou agravamento de um
estado de insolvência antes da propositura de qualquer demanda em juízo para a satisfação do crédito. É vício social do negócio jurídico, também conhecida como fraude pauliana.
b) Fraude de execução: caracteriza-se quando a alienação ou oneração de bens
é feita já na pendência de um processo (conhecimento, executivo, monitório ou mesmo cautelar) cujo desfecho possa levar à imposição de medidas sobre o bem alienado ou gravado (art. 593, CPC). É muito mais grave que a fraude pauliana, pois é ato atentatório à dignidade e à administração da justiça e não só ao direito de crédito da parte ex adversa.
c) Alienação de bem já constrito: é forma grave de fraude de execução, que se
caracteriza independentemente de o devedor estar ou não insolvente. Além de visar lesar o credor, também constitui ato de rebeldia contra o ato judicial de constrição, de modo que a alienação é ineficaz relativamente à execução. Ater-se-á à análise apenas do instituto da fraude de execução, objeto da presente decisão.
Fraude à execução – conceito, pressupostos, consequências.
Conceito: é a alienação ou oneração de bens é feita já na pendência de um processo (conhecimento, executivo, monitório ou mesmo cautelar) cujo desfecho possa levar à imposição de medidas sobre o bem alienado ou gravado. É muito mais grave que a fraude pauliana, pois é ato atentatório à dignidade e à administração da justiça e não só ao direito de crédito da parte ex adversa. A fraude de execução encontra-se no art. 593 do CPC:
Art. 593. Considera-se em fraude de execução a alienação ou oneração de bens:
I - quando sobre eles pender ação fundada em direito real;
Fraudes do devedor
Fraude contra
credores
Fraude à execução
Alienação de bem
constrito
II - quando, ao tempo da alienação ou oneração, corria contra o devedor demanda capaz de reduzi-lo à insolvência;
III - nos demais casos expressos em lei.
Como ficará regulado o instituto da fraude à execução no Novo Código de Processo Civil?
Art. 792. A alienação ou a oneração de bem é considerada fraude à execução:
I – quando sobre o bem pender ação fundada em direito real ou com pretensão reipersecutória, desde que a pendência do processo tenha sido averbada no respectivo registro público, se houver;
II – quando tiver sido averbada, no registro do bem, a pendência do processo de execução, na forma do art. 828;
III – quando tiver sido averbado, no registro do bem, hipoteca judiciária ou outro ato de constrição judicial originário do processo onde foi arguida a fraude;
IV – quando, ao tempo da alienação ou da oneração, tramitava contra o devedor ação capaz de reduzi-lo à insolvência;
V – nos demais casos expressos em lei.
§ 1º A alienação em fraude à execução é ineficaz em relação ao exequente.
§ 2º No caso de aquisição de bem não sujeito a registro, o terceiro adquirente tem o ônus de provar que adotou as cautelas necessárias para a aquisição, mediante a exibição das certidões pertinentes, obtidas no domicílio do vendedor e no local onde se encontra o bem.
§ 3º Nos casos de desconsideração da personalidade jurídica, a fraude à execução verifica-se a partir da citação da parte cuja personalidade se pretende desconsiderar.
§ 4º Antes de declarar a fraude à execução, o juiz deverá intimar o terceiro adquirente, que, se quiser, poderá opor embargos de terceiro, no prazo de 15 (quinze) dias.
Pressupostos que devem ser provados pelo credor para o reconhecimento da fraude
De início atentar para o fato de que NÃO SE EXIGE CONSILIUM FRAUDIS, ou seja, há dispensa do requisito subjetivo, consistente no concerto entre os sujeitos que praticam o ato. Requisito para que se considere o ato como tendo sido praticado em fraude de execução é que ele se dê quando pendente um processo capaz de reduzir o devedor à insolvência. O requisito, pois, é a existência de processo pendente, ou seja, a litispendência, que possa causar a insolvência
(CÂMARA, 2013, pág. 226), no caso do art. 593, II, do CPC. Ou, pendência de ação real sobre a coisa alienada, no caso do art. 593, I, do CPC.
Acerca dos pressupostos para configuração da fraude de execução o STJ editou a Súmula 375 de sua jurisprudência, assim redigida:
Súmula 375. O reconhecimento da fraude de execução depende do registro da penhora do bem alienado ou da prova de má-fé do terceiro adquirente.
Pela redação sumular a configuração da fraude à execução pressupõe a scientia
fraudis pelo terceiro adquirente do bem alienado. O conhecimento da fraude é
presumido, quando se tratar de alienação de bem já com a penhora averbada (penhora deve ser averbada, a súmula erroneamente fala em registro1). Não tendo sido feita a averbação da penhora caberá ao exequente demonstrar a má-fé do terceiro adquirente, que se caracterizará pela prova de ciência pelo terceiro da pendência do processo que possa conduzir o executado a insolvência, da pendencia de processo em que se discuta a coisa alienada ou da penhora.
Exige-se a citação do devedor para caracterização da fraude?
1ª corrente: como dito, o requisito é a existência de processo pendente (estado de litispendência). Há que se lembrar, aqui, que litispendência é efeito do ajuizamento da demanda, mas só se pode opô-lo ao demandado depois que este for validamente citado. Assim, para essa linha de entendimento, só se pode considerar em fraude de execução a alienação realizada depois da citação do demandado (Câmara, Dinamarco, Humberto Theodoro).
2ª corrente: considera suficiente o ajuizamento da demanda (Cahali). É posição minoritária.
ATENÇÃO: no Direito Processual do Trabalho, a expressão “demanda pendente” deve ser interpretada como a propositura da ação, uma vez que não há o despacho de recebimento da inicial, sendo a notificação inicial ato do Diretor de Secretaria (art. 841 da CLT). Dessa forma, para que reste configurada a fraude de execução na seara instrumental trabalhista prescindível se mostra a necessidade de citação da parte contrária. Nesse sentido é a posição de Mauro Schiavi (2011, pág. 101) Como é reconhecida a fraude à execução?
Não é necessário o ajuizamento de ação própria (ao contrário do que ocorre na fraude contra credores, na qual é preciso o ajuizamento de ação própria – “ação pauliana”). Na fraude de execução o ato é, originariamente, ineficaz (não é nulo,
1
Essa é a posição de CAMARA (2014, pág. 225). A LRP determina que o ato a ser praticado seja ato de registro, ao passo que o CPC menciona nos artigos 615-A, caput, e 659, § 4º, que tal ato seria de averbação. A matéria é controvertida doutrinariamente. Mas, pela rápida pesquisa que fiz, a corrente majoritária é no sentido de que os dispositivos da LRP continuariam em vigor, tendo havido apenas imprecisão terminológica por parte do legislador do CPC ao usar a expressão “averbação”.
nem anulável, muito menos inexistente) e o pedido pode ser feito por simples petição.
Quadro comparativo2: fraude à execução x fraude contra credores x alienação de bem penhorado
FRAUDES DO DEVEDOR
Contra credores À execução Alienação de bem penhorado
Elemento Objetivo
Insolvência Pendência de ação real sobre a coisa alienada (art. 593, I) e insolvência e litispendência (art. 593, II) Litispendência e ato de constrição Elemento Subjetivo
Ciência pelo terceiro prejudicado do dano, a ser provado pelo credor – salvo negócio gratuito.
Ciência pelo terceiro prejudicado da litispendência, presumida com registro da ação.
Ciência pelo terceiro prejudicado da penhora, presumida com seu registro.
Consequência
Anulabilidade. Para alguns, ineficácia (polêmica).
Ineficácia relativa Ineficácia relativa.
O caso concreto
Em resumo, a situação era a seguinte: determinada pessoa jurídica figurava
como executada em determinação execução trabalhista. O sócio dessa pessoa jurídica se desfez de um determinado imóvel de sua propriedade particular. Posteriormente, é decretada a desconsideração da personalidade jurídica da empresa, razão pela qual o sócio passa a compor o polo passivo (executado) da demanda e a execução é direcionada contra seu patrimônio. Indaga-se: há fraude à execução?
Restou evidenciado que o imóvel foi vendido em 23.12.2005, antes do direcionamento da execução contra o sócio da empresa reclamada, em 24.4.2006. Assim, o adquirente do imóvel agiu de boa-fé.
Com efeito, nos termos do inciso II do art. 593 do CPC, considera-se fraudulenta a alienação ou oneração de bens quando, ao seu tempo, “corria contra o devedor demanda capaz de reduzi-lo à insolvência”.
Todavia, para a caracterização de fraude à execução, quando inexistente penhora inscrita no registro imobiliário, não basta a constatação de que o negócio jurídico se operou no curso de processo distribuído em desfavor do devedor (requisito objetivo), mas também a demonstração de má-fé do terceiro adquirente (requisito subjetivo), o que consiste na verificação de que, à época da alienação, o adquirente tinha ciência desse processo e do estado de insolvência do alienante (devedor).
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Tabela retirada de: DIDIER JÚNIOR, Fredie; CUNHA, Leonardo Carneiro; BRAGA, Paula Sarno; OLIVEIRA, Rafael.
Sem a presença de ambos os requisitos (objetivo e subjetivo), não se cogita de fraude à execução, sob pena de desrespeito ao princípio da segurança jurídica.
A situação se enquadra no § 3º do artigo 792 do futuro Código de Processo Civil:
§ 3º Nos casos de desconsideração da personalidade jurídica, a fraude à execução verifica-se a partir da citação da parte cuja personalidade se pretende desconsiderar.
EMENTA DA DECISÃO
RECURSO ORDINÁRIO EM AÇÃO RESCISÓRIA. 1. INÉPCIA DA PETIÇÃO INICIAL. NÃO CARACTERIZAÇÃO. AUSÊNCIA DE CUMULAÇÃO DOS PEDIDOS DE RESCISÃO E DE NOVO JULGAMENTO DA CAUSA. Esta Corte, a despeito das disposições do art. 488, I, do CPC, firmou posicionamento no sentido da prescindibilidade de cumulação, na petição inicial da ação rescisória, dos pedidos de desconstituição da decisão rescindenda e de novo julgamento. 2. ART. 485, V, DO CPC. SENTENÇA RESCINDENDA PROFERIDA EM EMBARGOS DE TERCEIRO OBJETIVANDO A DESCONSTITUIÇÃO DE PENHORA EFETIVADA SOBRE BEM IMÓVEL ADQUIRIDO PELA TERCEIRA EMBARGANTE, AUTORA DA AÇÃO RESCISÓRIA. VIOLAÇÃO DOS ARTIGOS 472 E 615-A, § 3º, DO CPC. CONFIGURAÇÃO. ADQUIRENTE DE BOA-FÉ. 2.1. Acórdão recorrido mediante o qual o Regional julgou procedente a ação rescisória, por violação dos arts. 472 e 615-A, § 3º, do CPC, por entender caracterizada a condição da autora de adquirente de boa-fé do bem imóvel constrito em execução trabalhista redirecionada ao sócio da empresa reclamada. 2.2. A Súmula 410/TST não constitui óbice à pesquisa das ofensas manejadas nesta ação rescisória, uma vez que os elementos suficientes à verificação da violação dos arts. 472 e 615-A, § 3º, do CPC estão revelados no acórdão em agravo de petição proferido pelo Tribunal Regional nos autos da reclamação trabalhista em que efetuada e penhora sobre o bem imóvel, julgamento esse expressamente mencionado na sentença rescindenda como fundamento que norteou a improcedência dos embargos de terceiro. 2.3. -O pronunciamento explícito exigido em ação rescisória diz respeito à matéria e ao enfoque específico da tese debatida na ação, e não, necessariamente, ao dispositivo legal tido por violado. Basta que o conteúdo da norma reputada violada haja sido abordado na decisão rescindenda para que se considere preenchido o pressuposto.- Incidência da compreensão depositada no item II da Súmula 298/TST. 2.4. A evidência de que a autora adquiriu o imóvel em 23.12.2005, antes do direcionamento da execução contra o sócio da empresa reclamada, em 24.4.2006, revela sua condição de adquirente de boa-fé. Recurso ordinário conhecido e desprovido.
SÚMULAS
Súmula nº 375 do STJ – O reconhecimento da fraude de execução depende do registro da penhora do bem alienado ou da prova de má-fé do terceiro adquirente.
ORIENTAÇÕES JURISPRUDENCIAIS
Não há OJs relacionadas diretamente ao caso julgado.
REFERÊNCIAS LEGISLATIVAS
Art. 591 do CPC. O devedor responde, para o cumprimento de suas obrigações, com
todos os seus bens presentes e futuros, salvo as restrições estabelecidas em lei.
Art. 593 do CPC. Considera-se em fraude de execução a alienação ou oneração de
bens:
I - quando sobre eles pender ação fundada em direito real;
II - quando, ao tempo da alienação ou oneração, corria contra o devedor demanda
capaz de reduzi-lo à insolvência;
III - nos demais casos expressos em lei.
Art. 615-A do CPC. O exequente poderá, no ato da distribuição, obter certidão
comprobatória do ajuizamento da execução, com identificação das partes e valor da causa, para fins de averbação no registro de imóveis, registro de veículos ou registro de outros bens sujeitos à penhora ou arresto.
§ 1º O exequente deverá comunicar ao juízo as averbações efetivadas, no
prazo de 10 (dez) dias de sua concretização.
§ 2º Formalizada penhora sobre bens suficientes para cobrir o valor da dívida,
será determinado o cancelamento das averbações de que trata este artigo relativas àqueles que não tenham sido penhorados.
§ 3º Presume-se em fraude à execução a alienação ou oneração de bens
efetuada após a averbação (art. 593).
BIBLIOGRAFIA RELACIONADA
CAMARA, Alexandre Freitas. Lições de Direito Processual Civil. Volume 2. 22. ed. São Paulo: Atlas, 2014.
DIDIER JÚNIOR, Fredie; CUNHA, Leonardo Carneiro; BRAGA, Paula Sarno; OLIVEIRA, Rafael. Curso de Direito Processual Civil. Volume 5. 4. ed. Salvador: JusPodivm, 2012.
DINAMARCO, Cândido Rangel. Instituições de Direito Processual Civil. Vol. IV. 3. ed. São Paulo: Malheiros, 2009.
SCHIAVI, Mauro. Execução no Processo do Trabalho. 3. ed. São Paulo: LTr, 2011.
PROCESSO
TST-RO-5875-32.2011.5.04.0000, Relator Ministro: Alberto Luiz Bresciani de Fontan Pereira, Data de Julgamento: 16/12/2014, Subseção II Especializada em Dissídios Individuais, Data de Publicação: DEJT 19/12/2014.
DIREITO PROCESSUAL DO TRABALHO
É impenhorável percentual de pensão recebida pelo devedor na condição de anistiado político.
COMENTÁRIOS
Limites ao princípio da responsabilidade patrimonial – o mínimo existencial.
O art. 591 do CPC consagra o princípio da responsabilidade patrimonial e dispõe que o devedor responde com todos os seus bens, presentes e futuros, para satisfação de suas dívidas, salvo as restrições estabelecidas em lei.
De fato, referido princípio encontra temperamentos, já que a própria lei excepciona determinados bens, dito impenhoráveis, como forma de garantir um mínimo existencial ao devedor, em atenção ao princípio da dignidade da pessoa humana.
Assim, o art. 649 do CPC traz um rol de bens que são absolutamente impenhoráveis, dentre os quais se encontram os vencimentos, subsídios, soldos, salários, remunerações, proventos de aposentadoria, pensões, pecúlios e montepios; as quantias recebidas por liberalidade de terceiro e destinadas ao sustento do devedor e sua família, os ganhos de trabalhador autônomo e os honorários de profissional liberal.
Ocorre que o próprio Código de Processo Civil, no § 2º, do art. 649, afirma que o disposto no inciso IV do caput do artigo não se aplica no caso de penhora para pagamento de prestação alimentícia.
Art. 649, IV, do CPC e penhora para pagamento de verbas trabalhistas Diante desse quadro normativo, indaga-se: é possível a penhora dos bens
previstos no inciso IV do art. 649, ainda que limitada a determinado percentual, para pagamento de verbas trabalhistas?
1ª corrente: o TST tem posicionamento firme pela impossibilidade de constrição. A mais alta Corte trabalhista entende que ofende direito líquido e certo decisão que determina o bloqueio de numerário existente em conta É ilegal, independente do percentual arbitrado, o bloqueio de pensão mensal vitalícia recebida pelo impetrante em decorrência do reconhecimento da condição de anistiado político, pois o crédito penhorado, previsto no art. 8º, § 3º do ADCT e na Lei nº 10.559/2002, possui natureza alimentícia, inserindo-se no mesmo âmbito de proteção assegurada pelo art. 649, IV, do CPC e pela Orientação Jurisprudencial nº 153 da SBDI-II.
salário, para satisfação de crédito trabalhista, ainda que seja limitado a determinado percentual dos valores recebidos ou a valor revertido para fundo de aplicação ou poupança, visto que o art. 649, IV, do CPC contém norma imperativa que não admite interpretação ampliativa, sendo a exceção prevista no art. 649, § 2º, do CPC espécie e não gênero de crédito de natureza alimentícia, não englobando o crédito trabalhista.
2ª corrente: boa parte da doutrina e alguns ministros do TST posicionam-se pela possibilidade de penhora. Para essa corrente de pensamento devem ser compatibilizados os direitos do executado e os do exequente e, após uma análise baseada no critério da proporcionalidade, “se o valor recebido a título de salário ou outra verba alimentar ultrapassar o razoável para subsistência do executado e de seus familiares, é possível a penhora de porcentagem de seus rendimentos” (MIESSA, 2015, p. 1485). Em abono a essa segunda corrente, foi editado o Enunciado nº 70, aprovado na 1ª Jornada de Direito Material e Processual do Trabalho no TST:
70. EXECUÇÃO. PENHORA DE RENDIMENTOS DO DEVEDOR. CRÉDITOS TRABALHISTAS DE NATUREZA ALIMENTAR E PENSÕES POR MORTE OU INVALIDEZ DECORRENTES DE ACIDENTE DO TRABALHO. PONDERAÇÃO DE PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS. POSSIBILIDADE. Tendo em vista a natureza alimentar dos créditos trabalhistas e da pensão por morte ou invalidez decorrente de acidente do trabalho (CF, art. 100, § 1º-A), o disposto no art. 649, inciso IV, do CPC deve ser aplicado de forma relativizada, observados o princípio da proporcionalidade e as peculiaridades do caso concreto. Admite-se, assim, a penhora dos rendimentos do executado em percentual que não inviabilize o seu sustento.
Também o Enunciado nº 29 da Jornada de execução da ANAMATRA:
29. PENHORA DE SALÁRIO, PENSÃO E APOSENTADORIA. POSSIBILIDADE EM EXECUÇÃO TRABALHISTA. APLICAÇÃO ANALÓGICA DO ART. 1o, § 1o, DA LEI No 10.820/2003; ART. 3o, INCISO I, DO DECRETO No 4.840/2003; ART. 115, INCISO VI, DA LEI 8.213/91; E ART. 154, INCISO VI, DO DECRETO No 3.048/99. SUPREMACIA DO CRÉDITO TRABALHISTA. ART. 100, § 1o-A, DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL E ART. 186 DO CÓDIGO TRIBUTÁRIO NACIONAL (CTN). É lícita, excepcionalmente, a penhora de até 30% dos rendimentos decorrentes do trabalho, pensão e aposentadoria, discriminados no inciso IV do art. 649 do Código de Processo Civil (CPC), por expressa previsão no § 2o do art. 649 do CPC, desde que comprovado o esgotamento de todos os meios disponíveis de localização dos bens do devedor.
EMENTA DA DECISÃO
RECURSO ORDINÁRIO EM MANDADO DE SEGURANÇA. PENHORA INCIDENTE SOBRE PERCENTUAL DE PENSÃO RECEBIDA PELO IMPETRANTE NA CONDIÇÃO DE ANISTIADO POLÍTICO. ILEGALIDADE. ART. 649, IV, DO CPC. OJ 153 DA SBDI-2/TST. Hipótese em que o Tribunal de origem denegou a segurança, considerando legal a ordem de bloqueio parcial (50%) sobre pensão mensal recebida pelo Impetrante, em razão do reconhecimento de sua condição de anistiado político. Embora se trate de situação diferenciada, a reparação econômica assegurada ao
anistiado político, no artigo 8º, § 3º, do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias e regulamentada no inciso I do artigo 1º da Lei nº 10.559/2002, sob a forma de prestação mensal, permanente e continuada insere-se no âmbito teleológico de proteção assegurado pela norma inscrita no art. 649, IV, do CPC, que se vincula à ideia universal de proteção legal às necessidades de sustento do ser humano. Na linha da jurisprudência assente no âmbito desta Corte, a constrição judicial incidente sobre pensão mensal, pouco importando o percentual arbitrado, reveste-se de manifesta ilegalidade, em face da expressa dicção do inciso IV do art. 649 do CPC (OJ 153 da SBDI-2 do TST). Ressalva parcial de entendimento do Relator. Recurso ordinário conhecido e provido.
SÚMULAS
Não há súmulas aplicáveis diretamente ao caso concreto.
ORIENTAÇÕES JURISPRUDENCIAIS
OJ-SDI2-153 – MANDADO DE SEGURANÇA. EXECUÇÃO. ORDEM DE PENHORA SOBRE VALORES EXISTENTES EM CONTA SALÁRIO. ART. 649, IV, DO CPC. ILEGALIDADE.
Ofende direito líquido e certo decisão que determina o bloqueio de numerário existente em conta salário, para satisfação de crédito trabalhista, ainda que seja limitado a determinado percentual dos valores recebidos ou a valor revertido para fundo de aplicação ou poupança, visto que o art. 649, IV, do CPC contém norma imperativa que não admite interpretação ampliativa, sendo a exceção prevista no art. 649, § 2º, do CPC espécie e não gênero de crédito de natureza alimentícia, não englobando o crédito trabalhista.
REFERÊNCIAS LEGISLATIVAS
Art. 649, IV, do CPC – São absolutamente impenhoráveis: [...]
IV - os vencimentos, subsídios, soldos, salários, remunerações, proventos de
aposentadoria, pensões, pecúlios e montepios; as quantias recebidas por liberalidade de terceiro e destinadas ao sustento do devedor e sua família, os ganhos de trabalhador autônomo e os honorários de profissional liberal, observado o disposto no § 3º deste artigo.
§ 2º O disposto no inciso IV do caput deste artigo não se aplica no caso de penhora
para pagamento de prestação alimentícia.
Art. 8º, § 3º do ADCT – É concedida anistia aos que, no período de 18 de setembro
de 1946 até a data da promulgação da Constituição, foram atingidos, em decorrência de motivação exclusivamente política, por atos de exceção, institucionais ou complementares, aos que foram abrangidos pelo Decreto Legislativo nº 18, de 15 de dezembro de 1961, e aos atingidos pelo Decreto-Lei nº 864, de 12 de setembro de 1969, asseguradas as promoções, na inatividade, ao cargo, emprego, posto ou graduação a que teriam direito se estivessem em serviço ativo, obedecidos os prazos de permanência em atividade previstos nas leis e regulamentos vigentes, respeitadas as características e peculiaridades das carreiras dos servidores públicos civis e militares e observados os respectivos regimes jurídicos.
§ 3º - Aos cidadãos que foram impedidos de exercer, na vida civil, atividade
profissional específica, em decorrência das Portarias Reservadas do Ministério da Aeronáutica nº S-50-GM5, de 19 de junho de 1964, e nº S-285-GM5 será concedida
reparação de natureza econômica, na forma que dispuser lei de iniciativa do
Congresso Nacional e a entrar em vigor no prazo de doze meses a contar da promulgação da Constituição.
BIBLIOGRAFIA RELACIONADA
MIESSA, Élisson; CORREIA, Henrique. Súmulas e Orientações Jurisprudenciais do
TST: comentadas e organizadas por assunto. 4. ed. Salvador: JusPodivm, 2015. PROCESSO
TST-RO-10729-82.2013.5.01.0000, Relator Ministro: Douglas Alencar Rodrigues, Data de Julgamento: 03/02/2015, Subseção II Especializada em Dissídios Individuais,