Relevância do uso de mapas mentais para o planejamento de lazer e turismo municipal
Temática: Interesses culturais do lazer: Turísticos - Comunicação oral
COSTA DA SILVA, Fernanda.1 EMATER/RS – Associação Riograndense de Empreendimentos de Assistância
Técnica e Extensão Rural, Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil, [email protected] Resumo
Este trabalho trata da percepção dos usuários em relação a espaços de lazer e turismo, portanto inserido na área de estudos Ambiente-Comportamento. Como objetivo geral, busca-se apontar os mapas mentais enquanto ferramentas importantes para o planejamento municipal, na perspectiva dos sistemas de lazer e turismo. Como objetivos específicos, pretende-se: elucidar a relevância dos mapas mentais para se depreender a imageabilidade de espaços municipais, especialmente em relação aos atrativos e equipamentos de lazer e turismo; e evidenciar como os mapas mentais contribuem para revelar a organização hierárquica de espaços tidos como turísticos em um contexto municipal. Para tanto, utilizou-se mapas mentais, aplicados em um grupo de jovens estudantes do município de Machadinho, RS. Evidenciou-se haver imageabilidade mais forte de elementos urbanos em comparação aos elementos rurais. Em adição, os resultados sinalizam a possível utilização de espaços urbanos, considerados relevantes para orientação dos usuários, então também como espaços de lazer local.
Palavras-chave: percepção, lazer, turismo, planejamento municipal. Abstract
This paper deals with the perception of users in relation to leisure and tourism. The approach is supported by environment-behavior study area. As a general goal, we seek to point the mental maps as important tools for city planning, from the perspective of leisure and tourism systems. The specific objectives, aims to: clarify the significance of mind maps to infer the imageability municipal spaces, especially in relation to the attractions and recreational and tourism facilities; and show how mental maps help to reveal the hierarchical organization of spaces taken as tourist in a municipal context. It was used mind maps, applied on a group of young students in the city of Machadinho, Brazil. As results, was showed stronger imageability elements of urban compared to rural elements. In addition, the results indicate the possible use of urban spaces, considered relevant for the orientation of users, then also can be used as local leisure spaces.
Keywords: perception, leisure, tourism, municipal planning.
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Bacharel em Turismo. Mestre em Planejamento Urbano e Regional. Extensionista Rural de Nível Superior – atuação em Turismo Rural. Professora de Faculdade – IPA Metodista.
Relevância do uso de mapas mentais para o planejamento de lazer e turismo municipal
Introdução
Os territórios contemporâneos se configuram também como uma identidade e das trocas materiais e simbólicas da vida, sobre as quais o planejamento então influi (LYNCH, 1962; SANTOS, 2007). Também por esses motivos, o planejamento de um lugar, como afirma Lynch (1962), é a arte de se conseguir arranjar o ambiente físico externo para se dar suporte ao comportamento humano. Portanto, importa, “[...] indiscutivelmente, o modo como os espaços públicos são geridos” (SHAFTOE, 2008, p. 132).
Nessa perspectiva, a percepção dos usuários também pode ser depreendida através de mapas mentais (GOLLEDGE; STIMSON, 1997). O presente trabalho aborda a relevância desse tipo de ferramenta aplicada ao planejamento de espaços de lazer e turismo, no âmbito municipal. Assim, a área de estudos cuja abordagem é amparada é a de Ambiente-Comportamento.
A abordagem justifica-se, na medida em que não há razão em se alicerçar um planejamento que não considere as impressões dos usuários e suas formas de apropriação dos espaços ofertados a eles no âmbito do domínio público. É a partir do entendimento dos processos de percepção desses usuários em relação ao meio ambiente que se poderão fornecer espaços bem planejados (SHAFTOE, 2008). Objetivos do estudo
Como objetivo geral, este trabalho busca apontar os mapas mentais enquanto ferramentas importantes para o planejamento municipal, na perspectiva dos sistemas de lazer e turismo. Como objetivos específicos, pretende-se: elucidar a relevância dos mapas mentais para se depreender a imageabilidade de espaços municipais, especialmente em relação aos atrativos e equipamentos de lazer e turismo; e evidenciar como os mapas mentais contribuem para revelar a organização hierárquica de espaços tidos como turísticos em um contexto municipal.
Revisão da literatura
Todo ambiente construído provoca uma experiência sensorial nos indivíduos, a qual desencadeia um processo de percepção ambiental (LYNCH, 1960). A interpretação da percepção acerca das informações espaciais é fundamental, sobretudo porque é de acordo com ela que o espaço é criado e adquire significado.
Segundo Lynch (1960), o processo de percepção sobre as informações espaciais gera imagens mentais. Estas relacionam-se à imageabilidade espacial, sendo que o grau de imageabilidade advém da frequência com a qual o espaço seja identificado e lembrado pelas pessoas. Ele se consiste na característica de um objeto físico, o qual seja capaz de conferir alta probabilidade de evocar uma imagem forte em um observador, facilitando, assim, a criação e o estabelecimento de imagens mentais em relação a um espaço. Essas identificações e lembranças formam, em cada indivíduo, mapas mentais de espaços com os quais tenha contato e dos quais faça uso.
Conforme indicam Kaplan e Kaplan (1983; 1989), cada indivíduo desenvolve variados e distintos mapas mentais. Ao mesmo tempo, esses mapas relacionam-se de alguma forma entre si, o que sugere haver uma hierarquia na
representação dos elementos dos mapas de cada pessoa, sendo importante abalizar que essa hierarquia refere-se ao arranjo de múltiplos níveis.
No contexto municipal, por exemplo, a imagem de um espaço partilhado não é única para todos os seus usuários, visto ser ela o produto de um processo bilateral entre observador e ambiente, no qual o observador confere significados ao que percebe. Na medida em que essa imagem torna-se consensual para um grupo significativo de pessoas, além da função de organização e orientação espacial, ela propicia o sentimento de pertencimento e identificação com a paisagem à qual faça referência, agregando a ela o sentido de lugar (AUGÉ, 2000; LYNCH, 1960).
No âmbito do planejamento, o que interessa quanto à imagem dos espaços de uso comum é a produção de imagem consensual (ou de imagens consensuais) para um número significativo de observadores. Esse resultado da percepção espacial dos usuários apresenta-se como importante ferramenta para planejadores, cuja preocupação esteja centrada na criação de um ambiente que venha a ser usado por muitas pessoas (LYNCH, 1960). Nessa perspectiva, faz-se pertinente determinar a composição da imagem ambiental.
No contexto do planejamento de lazer e turismo tal teoria também é aplicável. Isso porque nesses espaços igualmente ocorrem trocas simbólicas e apropriação espacial, em um processo de compartilhamento efetuado pelos indivíduos. Ou seja, distintos sujeitos partilham “importantes referências comuns: uma mesma história, uma mesma tradição” (BARRETTO FILHO, 2000, p. 46).
Na perspectiva contemporânea, tornou-se evidente haver a necessidade do envolvimento da comunidade receptora dos fluxos turísticos nos processos de planejamento e gestão do turismo, de tal forma que se pode afirmar ser essa uma “ideologia” do planejamento turístico atual (RUHANEN-HUNTER, 2006). Nesse contexto de planejamento colaborativo, os mapas mentais podem emergir como ferramentas importantes. Eles são o produto final do processo de mapeamento (denominado também de mapa cognitivo), que também provê informações acerca de referências que adquirem importância devido a suas características históricas, econômicas e políticas ((GOLLEDGE; STIMSON, 1997; LANG et al., 1987). Assim, uma vez que “a maioria das pessoas costuma saber mais sobre seus espaços cotidianos do que é capaz de reconhecer e processar conscientemente” (SANTOS, 1988, p. 226), os mapas mentais são importantes ferramentas no estudo do planejamento territorial como um todo, envolvendo o processo de cognição, partindo da codificação de relações de proximidade e distância, de ordem e de sequência, de maneira que a informação espacial é intrínseca a eles (KAPLAN; KAPLAN, 1983). Materiais e métodos
Para verificação da relevância dos mapas mentais enquanto ferramentas importantes para o planejamento municipal, na perspectiva dos sistemas de lazer e turismo, em 2014 foi realizada aplicação de mapas mentais em uma turma de jovens moradores do município de Machadinho, RS. Este município possui 5.510 habitantes e ocupa uma área de 335,031Km2 e dista 277Km da capital do RS (IBGE, 2010).
Ao todo, foram construídos cinco mapas mentais, em grupos de até seis pessoas, reunidas em uma sala de aula. Os sujeitos da pesquisa são educandos da rede pública de ensino, de nível Médio. A aplicação do trabalho foi coordenada pela Associação Riograndense de Empreendimentos de Assistência Técnica e Extensão Rural (EMATER-RS), sediada em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, mas com Escritório Municipal também em Machadinho.
Este município foi escolhido, uma vez que as questões do turismo vem sendo trabalhadas em diferentes épocas, ao longo das trocas de gestão municipal, com enfoques diversos, cujos reflexos são percebidos, também, na maneira como os usuários se apropriam dos espaços para seu lazer local, nos meios urbano e rural: em um primeiro momento, o turismo municipal recebeu grande incremento do Poder Público (sinalização, divulgação e infraestrutura), o qual também direcionou recursos para empreendimentos privados, especialmente os localizados no meio rural; em período posterior, observou-se queda de investimentos no setor; em um período mais atual, predominou o desenvolvimento do Turismo da Melhor Idade, impulsionado pelo estabelecimento de um empreendimento hoteleiro no meio urbano, cuja estrutura volta-se à recreação termal.
O desenvolvimento dos mapas mentais foi norteado por um roteiro de atividades. O Quadro 1 ilustra as atividades sistematizadas.
Quadro 1 - Roteiro norteador de aplicação de mapa mental
Ordem Atividade solicitada
1. Desenhar o município de Machadinho, com o maior número de detalhes possível.
2. Apontar lugar preferido representado no desenho, com um sinal de “+”.
3. Apontar lugar menos preferido representado no desenho, com um sinal de “-”.
4. Apontar o lugar mais importante no município, representado no desenho, com a letra “I”.
5. Indicar no mapa o lugar que seja mais relevante/ importante/ indicado para se levar turistas no município, com a letra “T”.
Fonte: Dados de pesquisa da autora, 2013.
Os educandos foram divididos em grupos e, após o término da confecção dos mapas mentais e da marcação, os mapas foram comparados entre si e foi realizada contagem das marcações. A partir de então, foi possível realizar análise quanto à imageabilidade e à organização hierárquica dos elementos contidos nos mapas, representativos da realidade municipal, mediante a percepção dos usuários. Resultados
No que se refere ao primeiro objetivo específico, qual seja, elucidar a relevância dos mapas mentais para se depreender a imageabilidade de espaços municipais, especialmente em relação aos atrativos e equipamentos de lazer e turismo, verificou-se que alguns elementos do perímetro urbano apresentam forte imageabilidade para os educandos que participaram da atividade. Entre eles, destaca-se a presença do hotel mais recente da cidade (maior construção do meio urbano que serve para hospedagem). Em todos os mapas esta construção foi apontada de alguma forma – ou como espaço preferido, ou como mais importante ou, ainda, como turístico (Figura 1, Figura 2) e, mesmo quando outro elemento foi indicado como sendo mais importante ou preferido, o hotel figurou graficamente com mais destaque (cores e proporções). Ressalva-se que o lugar apenas não foi indicado como sendo o menos preferido para os usuários.
As praças contidas nas rótulas do município figuraram em todos os mapas mentais produzidos (Figura 3), mesmo que em apenas um deles esse tipo de espaço tenha sido marcado por ocasião de algum dos itens apontados no roteiro norteador. Ou seja, mesmo que não tenham sido lembradas por algum dos critérios de marcação solicitados (preferência ou importância, por exemplo), elas são relevantes enquanto referências espaciais (orientação) para os usuários.
Figura 1 – Indicação do hotel em mapa mental como espaço turístico.
Fonte: Autora, 2014.
Figura 2 – Indicação do hotel em mapa mental como espaço turístico e como
sendo o mais importante. Fonte: Autora, 2014.
Figura 3 – Praças em rótulas no perímetro urbano: exemplo de dois mapas mentais. Fonte: Autora, 2014.
Sobre a imageabilidade dos pontos turísticos no meio rural, tem-se que: os espaços turísticos identificados, pelo Poder Público, como atrativos da cidade, figuraram em três dos cinco mapas produzidos pelos usuários; em um dos mapas em que há pontos turísticos rurais, estes estão representados em menores proporções (embora na realidade sejam maiores) do que o hotel novo da cidade; em outro mapa, os pontos aparecem apenas desenhados, ao passo que demais pontos urbanos aparecem, também, identificados com legendas/nomes; apenas em um dos três mapas os pontos turísticos rurais figuram com proporcionalidade e mesmo tipo de identificação em relação aos pontos ilustrados no meio urbano; e somente em um dos mapas produzidos um atrativos do meio rural foi identificado como “turístico”, para se indicar a um visitante/turista (Cascata do Tigre), tal como ilustra a Figura 4.
Por fim, tem-se que o mapa produzido que apresentou maior detalhamento e número de elementos não indicou representação (gráfica ou escrita) alusiva aos atrativos turísticos do meio rural. A Figura 5 ilustra o mapa correspondente.
Figura 4 – Cascata do Tigre, no meio rural, indicada como principal ponto turístico de
Machadinho. Fonte: Autora, 2014.
Figura 5 – Cascata do Tigre, no meio rural, indicada como principal ponto turístico de
Machadinho. Fonte: Autora, 2014.
Quanto ao segundo objetivo específico, que visava evidenciar como os mapas mentais contribuem para revelar a organização hierárquica de espaços tidos como turísticos em um contexto municipal, averiguou-se que a Prefeitura Municipal e a igreja foram os apontados como mais importantes no contexto de Machadinho, de acordo com os educandos participantes da pesquisa (duas citações cada, sobre o total de cinco). Para um dos grupos, o hotel novo da cidade é o ponto mais importante desta.
Acerca dos lugares preferidos, hotel e restaurante “Pinheirão” tiveram mesmo número de citações (duas cada). Sobre os menos preferidos, o hospital da cidade teve duas citações, seguido pelo cemitério, pela delegacia e pela cooperativa (com uma incidência cada).
No que se refere à organização hierárquica para analisar os lugares tidos como turísticos, os educandos indicaram ser estes o novo hotel da cidade (três indicações), a praça da Brigada Militar (uma indicação) e a propriedade denominada Cascata do Tigre (uma indicação), localizada no meio rural.
Discussão
Em virtude dos resultados verificados, para o grupo de usuários participantes, evidenciou-se haver imageabilidade mais forte de elementos urbanos em comparação aos elementos rurais. Isso foi verificado mesmo quando a questão tratada voltou-se ao turismo, atividade nas quais propriedades rurais de Machadinho estão inseridas de maneira significativa. Isso sugere que se trabalhe melhor, com a comunidade local – em especial aquela formada por jovens –, na perspectiva do conhecimento, da vivência e do uso dos espaços rurais, voltados ao lazer e ao turismo, de forma que esse público passe a ter o meio em questão como uma referência e, em consequência, valorize-o e auxilie no estímulo da visitação por parte dos turistas.
Levando-se em conta que as praças contidas nas rótulas do município figuraram em todos os mapas mentais produzidos, ou seja, obteve-se uma imagem mental consensual em relação a esses espaços (LYNCH, 1960), especialmente sob o ponto de vista da orientação espacial, sugere-se utilizá-los como pontos de vivências, de atividades dirigidas e afins. Assim, ambientes já tidos como relevantes para orientação espacial também o serão do ponto de vista do uso – fator indispensável para a vitalidade dos espaços em um município (LYNCH, 1960).
Conclusão
Como tradução da memória e do imaginário coletivo (BARRETTO FILHO, 2000), é possível depreender-se a relevância de algumas construções no município de Machadinho, utilizado como estudo de caso deste trabalho. A Prefeitura Municipal, igreja e o hotel são, portanto, construções urbanas referenciais para a coletividade. Nessa conjuntura, os usuários entendem tanto estruturas públicas como privadas enquanto importantes para o município, atrelando a ele os fatores de ordem política, religiosa e turística, respectivamente, como relevantes.
Nesse contexto de memória e imaginário coletivo, ratificou-se a teoria de que os mapas mentais são importantes tradutores da identificação dos usuários com os lugares (LYNCH, 1960), constituindo-se como ferramentas para o planejamento também de espaços de lazer e turismo (LYNCH, 1960; RUHANEN-HUNTER, 2006). De uma maneira geral, apesar de o Poder Público já ter investido pregressamente em turismo no meio rural, verificou-se que o meio urbano figurou, no conjunto de mapas mentais, também quanto à organização hierárquica, como o espaço mais relevante do município. Assim sendo, sugere-se um trabalho focado, de valorização do meio rural, por parte dos residentes dos municípios para, somente então, ser possível haver valorização também por parte dos visitantes e dos turistas.
Referências
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Research: investigating activities and experiences in spaces and environments. New York: Guilford Press, 2008.
AUGÉ, M. Los “no lugares”, espacios del anonimato: una antropologia de la sobremodernidad. Barcelona: Gedisa Editorial, 2000.
BARRETTO FILHO, A.; CASTROGIOVANNI, A. C. (Org.). Turismo urbano. São Paulo: Contexto, 2000.
GOLLEDGE, R. G.; STIMSON, R. J. Spatial Behaviour: a geographic perspective. New York: The Guilford Press, 1997.
IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Censo Demográfico 2010. Rio de Janeiro: IBGE, 2012.
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RUHANEN-HUNTER, L. Sustainable tourism planning: an analysis of Queensland local tourism destinations. Tese (Doutorado em Filosofia) – UQ School of Tourism. The University of Queensland, 2006.
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