A MÚSICA COMO RECURSO DIDÁTICO E O PROCESSO DE APRENDIZAGEM EM HISTÓRIA
Jaqueline Ribas da Silva (UFMS/CPTL)1 Bolsista de Iniciação Cientifica – PIBIC/UFMS
A maioria dos estudos que tratam de História e música refere-se à forma como essa pode ser utilizada pelo ensino, oferecendo alternativas de uso ao professor que o fará, e deixa, por vezes, de analisar o ensino de História a partir do ponto de vista do aluno, focalizando como ele aprende ou como ocorre o processo de construção do conhecimento histórico quando a música é utilizada como recurso didático.
Nesta comunicação apresento minha intenção em estudar o que acontece com o aluno quando usamos a música como mediadora da aprendizagem do conhecimento histórico escolar.
Analisarei a música considerando o seu potencial para o ensino de História, e a partir dai investigarei aspectos do desenvolvimento do pensamento histórico do aluno em contextos nos quais se pode utilizá-la como recurso didático na perspectiva de objeto cultural. No decorrer do estudo, pesquisarei também como ocorre o processo de transformação dos conceitos espontâneos em conceitos científicos quando se utiliza a música em sala de aula, pensando no que é o ensino de história e em como a visão de música do aluno poderá mudar ao ser analisada com base nas características subjetivas que ela possui. A intenção é ir além da mera utilização da música como algo que facilita o ensino ou ilustra uma aula.
A música como objeto cultural carrega marcas e características de seu tempo, características que o seu autor deixou consciente ou inconscientemente, tornando-se assim um documento, como lembra Guerra (2007, p.134):
Alberto Paranhos nos chama atenção para a diferença que pode existir entre a intenção do autor e a obra finalizada. Nem sempre o significado que o autor (no caso, o compositor) quis passar é aprendido quando outro sujeito se apropria do produto final.
Assim como qualquer outro vestígio histórico, a música não pode ser utilizada como “prova” de uma verdade absoluta. Como linguagem, ela tem sido considerada uma fonte para o conhecimento acadêmico, tal qual historiadores como Contier (1985) e Tinhorão (1998)
apontam. Essa linguagem transforma-se em recurso didático na medida em que é chamada para responder perguntas adequadas aos objetivos da História ensinada; um deles mais centralmente que é o de promover o desenvolvimento da consciência histórica a partir do processo de transformação de conceitos espontâneos em conceitos científicos.
Uma série de artigos acadêmicos tem apontado que a utilização de linguagens alternativas ao ensino de História é um importante recurso didático para a aprendizagem de História. É o caso de Bittencourt (2004, p. 379), quando afirma que a música tem sido muito utilizada nas aulas de História como um material didático e ainda considera que “o uso da música é importante por situar os jovens diante de um meio de comunicação próximo de sua vivência, mediante o qual o professor pode identificar o gosto, a estética da nova geração”. Outro é Soares (2008, p. 209) que diz que a “utilização da música como recurso didático foi uma constante (...) considerávamos inovadora a análise de letras de música, e satisfatória a utilização do método ‘ouvir e interpretar’”.
Tais considerações me permite acreditar que a música pode facilitar a compreensão do aluno, pois estabelece empatia entre autor/compositor e o mesmo. A empatia é um conceito que ocorre quando todos os sujeitos – compositores e alunos – se identificam com o contexto histórico, passando a pensar historicamente, ou seja, se colocando no lugar do outro. Segundo Felgueiras (1994, p. 57):
A empatia está associada à simpatia, à projeção de sentimentos ou, mesmo, à identificação com outros personagens (...). Se empatia for entendida como uma
disposição para ter em conta os pontos de vista de grupos que, de um modo diferente
de nós, acreditaram, valorizaram e sentiram determinados processos ou eventos, então, podê-la-emos também enquadrar, como alguns pretendem, nas atividades cognitivas.
Assim é possível levantar a hipótese de que o aluno, nas situações em que a música é utilizada como recurso didático, se identifica com o assunto, podendo transformar seus conceitos espontâneos em conceitos científicos.
Outro conceito que podemos destacar nos contextos didáticos nos quais a música é utilizada é o de evidência, como aponta Abud (2005, p.312):
A produção cultural, que se expressa por meio de diferentes linguagens, transforma-se em evidência quando, de material original, isto é, de produção não-intencional para finalidades pedagógicas, passa a ser um instrumento para o desenvolvimento de conceitos na aula de História.
Os conceitos espontâneos são formulados por meio da vida cotidiana e dos contatos pessoais. E segundo Vygotsky “é o grupo cultural, onde o indivíduo se desenvolve que lhe fornece formas de perceber e organizar o real, as quais vão construir instrumentos psicológicos que fazem a mediação entre o indivíduo e o mundo”. (OLIVEIRA, 1993, p. 36). Esses instrumentos são elementos externos ao indivíduo, que servem para provocar mudanças nas ações concretas do mesmo. A música seria um instrumento potencial para contribuir o desenvolvimento do pensamento histórico do aluno pelos sentimentos que provoca. Ela se destaca por ser tão abrangente e por carregar consigo características que causam, de diferentes formas, reações nas pessoas. Possuidora de caráter expressivo que é obtido através de seus materiais musicais, causa alegria, tristeza, temor, dor, enfim, sentimentos que variam de acordo com o timbre, ritmo, melodia e dinâmica que possui. Emoções essas que aproximam os alunos da experiência peculiar do passado. E são esses processos cognitivos que pretendo estudar, mapeando suas características em situações de naconstrução do conhecimento histórico escolar.
Ainda pensando na música como uma manifestação cultural, percebo nos dizeres de Cunha (1996, p. 56) que:
(...) tudo aquilo que o homem elabora a nível de representação humana contém uma grande carga de expressão cultural. Assim, podemos afirmar que as construções realizadas sob a influência da sociedade em que se vive se constituem em símbolos que expressam a cultura e a consciência dessa mesma sociedade.
E é assim que pretendo utilizar a música como um documento histórico possuidor de significações e de testemunhos conscientes ou inconscientes que podem e devem ser usados no ensino de História.
Em outra perspectiva, quando penso em que medida a História auxiliaria no aprender música, também acredito que a empatia causada pode facilitar e tornar o aluno mais próximo dessa linguagem. Ele pode passar a conhecer mais as características da época se interessando, respeitando o contexto histórico e diferenciando os períodos em que a música em questão foi produzida. Nesse ponto a História auxiliaria e se colocaria como um instrumento mediador entre o aluno e a música que deverá ser apreciada e refletida.
Os alunos já possuem os conceitos espontâneos adquiridos em seus contatos sociais, que carecem de explicitação a serem construídos no processo de aprendizagem formal (ABUD, 2005), e partindo desses conceitos espontâneos pode-se buscar alcançar os conceitos científicos, e, a meu ver, é nesse ponto que a música entra como um instrumento de mediação
entre os conceitos espontâneos e os conceitos científicos, utilizando assim os dois conceitos importantes já citados, a empatia e a evidência.
Com a proposta de utilizar a música como linguagem cultural no ensino de História, devemos lembrar que a mesma não deve ser utilizada apenas como ilustração. Fonseca (apud CUNHA, 1996, p.59) evidencia essa preocupação com relação às novas linguagens:
(...) em alguns casos estas são utilizadas apenas como ilustração do conteúdo tradicional, não havendo trabalho de reflexão sobre a natureza das linguagens, suas especificidades, seus limites, e sobre os elementos históricos que as constituem.
Vários autores apontam que a música deve ser analisada e refletida na sala de aula, pois ela é um documento histórico. E estes documentos não são mais classificados como já foram um dia, como prova fiel da realidade ou amostra, modelo do conhecimento que se apresenta.
A utilização das novas linguagens em sala de aula tem ocorrido no contexto da renovação das práticas de ensino em sala de aula e tendem a alcançar um novo ensino calcado na reflexão e no debate. Segundo Abud, “as chamadas linguagens alternativas para o ensino de história mobilizam conceitos e processam símbolos culturais e sociais, mediante os quais apresentam certa imagem do mundo” (2005, p. 310). E nesse ponto recorro a Vygotsky novamente para falar da linguagem enquanto mediação simbólica. De acordo com esse autor, o grupo cultural onde o indivíduo se desenvolve, fornece formas para construir instrumentos de mediação. Assim Oliveira (1993, p. 37) aponta que:
É a partir de sua experiência com o mundo objetivo e do contato com as formas culturalmente determinadas de organização do real (e com os signos fornecidos pela cultura) que os indivíduos vão construir seu sistema de signos, o qual consistirá numa espécie de ‘código’ para decifração do mundo.
A linguagem é um sistema simbólico, sendo assim a música como linguagem também é. E ela contribui para que o aluno construa conceitos, tornando-se, dessa forma, um instrumento do pensamento. Assim entendo que “a linguagem fornece os conceitos e as formas de organização do real que constituem a mediação entre o sujeito e o objeto de conhecimento” (OLIVEIRA, 1993, p. 43).
Percebendo que a música age como instrumento mediador na relação aluno e pensamento histórico e que a partir do uso dessa nova linguagem no Ensino de História, é possível perceber que o conhecimento histórico
“é a principal ferramenta na construção dessa consciência histórica, que articula o passado com as orientações do presente e com as determinações do sentido com as quais o agir humano organiza suas intenções e expectativas no fluxo do tempo” (ABUD, 2005, p.28).
Muito embora já se possa encontrar bibliografia que aponte aspectos da aprendizagem em contextos didáticos nos quais se utiliza a música como recurso, ainda são poucos os estudos que examinam esse aspecto do ponto de vista da aprendizagem. Percebo, sim, que há diversas pesquisas que ressaltam o potencial da música do ponto de vista do ensino. Ferreira (2001) trabalha justamente como usar a música em sala de aula, mas analisando sempre pelo lado do ensino e segundo Guerra & Diniz (2007, p.128-129).
As considerações e os questionamentos que levaram à ampliação de temáticas e fontes que constituem o conhecimento histórico- e que se desdobram em diversas linguagens – foram fundamentais para melhoria da qualidade do ensino, pois contribuíram para que o professor pudesse ‘sair da rotina’, tornando o processo de ensino e aprendizagem mais dinâmico.
Tendo em vista a escassez de estudos que investigam os efeitos da música como um documento histórico do ponto de vista da aprendizagem e considerando a relevância em utilizá-la como recurso didático, a minha intenção é fazer um primeiro mapeamento dos processos cognitivos que ocorrem na interação do aluno com a música a partir da análise de textos escritos produzidos por crianças e adolescentes da escolaridade de 6º ao 9º ano do Ensino Fundamental.
Para efetuar o mapeamento dos processos cognitivos dos alunos, num primeiro momento eles terão que fazer uma produção textual de uma situação do cotidiano; em seguida, de forma oral uma exposição de uma situação do passado, para que eles terminem a primeira versão da produção. Depois desse primeiro momento os alunos deverão reescrever as produções para que avaliando a si próprios realizem alterações no texto escrito.
A atividade de reescrita é importante porque o estudante é levado a reler sua produção com o objetivo de avaliar o que deve manter, o que muda, o que acrescenta, em função de novos critérios assumidos. Embora a constituição do processo interlocutivo como pressuposto inerente à escrita já esteja presente desde o primeiro texto, na atividade de reescrita a natureza dialógica da produção textual exacerba-se, pois o ato de escrever pode ser visto como uma atividade interativa entre dois enunciadores que operam dialogicamente o texto num processo” (SAUTCHUK, 2003, p. 04). Pode-se, assim, apontar que o autor é necessariamente o leitor de seu próprio texto, o qual é “um produto da atuação ininterrupta e alternada de um ser que escreve e lê, lê e escreve” (SAUTCHUK, 2003, p. 04). Esse movimento de alternância
dos papéis de enunciador/co-enunciador, ao meu entender, está intrinsecamente ligado àquele do ajustamento da compreensão dos conteúdos, sejam eles lingüísticos, ou relacionados a fatos, dados ou conceitos.
Depois da reescrita apresentarei uma música para os alunos e pedirei para que reescrevam novamente suas produções. Tenho a hipótese de que os conceitos espontâneos que o aluno tem podem mudar na medida em que ele entra em contato com alguém que viveu o passado estudado, efetuando esse contato pela música, desenvolvendo-se a empatia, e a compreensão da música como uma evidência.
Assim sendo, com base nas três produções procurarei elencar as principais características desses textos, focando o que os alunos já sabem e o que foi modificado ao entrar em contato com o conhecimento sistematizado.
Dados esses exemplos de estratégias de ensino de História com o auxilio da música a intenção foi de demonstrar que o processo de aprendizagem do aluno deve ser uma preocupação constante na prática docente.
Devido a escassez de estudos feitos em torno da aprendizagem em História pensando na música como mediadora, coloco essa dificuldade como motivadora para o desenvolvimento dessa pesquisa que ora apresento.
1
Orientadora profª Drª Maria Aparecida Lima dos Santos – UFMS/CPTL.
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